quinta-feira, 1 de julho de 2010

GOSSIP BOYS

by Ray

Capítulo 1 - Conte Seu Babado!

Lanza fala:

- Me dá um J!
- J!
- Me dá um O!
- O!
- Me dá um H!
- H!
- Me dá um N!
- N!
- E agora, por favor, me diga o que formou!
- Vai John! Vai John! Vai John!
As saias brancas e verdes rodavam pela quadra de basquete do Colégio Norbert. As animadoras de torcida pulavam e gritavam ferozmente o nome do ídolo dos alunos, John McBee. E eu tinha vontade de vomitar a cada vez que ouvia a voz irritante das descerebradas cheerleaders.
- Por que estamos aqui mesmo? - perguntei para Koba, que trocava mensagens com alguém no celular.
- Porque se quisermos tocar no festival de bandas da escola, temos que mostrar que conseguimos ficar em público sem queimar alguma coisa...
- Ou sem ficar pelado. - completou Pe Lu. - Go Tigers!
Tudo pela banda.
Embora aquela vez que Thomas tinha ficado pelado tivesse sido incrivelmente hilária.
- Até que Maria Eduarda tem pernas boas. - Pe Lu continuou, enfiando a mão cheia de salgadinhos na boca.
- Pernas boas, cérebro fraco, dude. - Thomas argumentou. - Mas eu pegava mesmo assim.
- Dude, você não pega nem gripe! - brinquei, recebendo um tapa na cabeça. - Quem dirá as Deusas do Colégio Norbert?
- As Deus dos Colégio Norbert! - Koba disse, levantando o copo de cerveja para brindarmos. Olhei para as 4 meninas centrais, que gritavam coisas sem sentido.
As Deus do Colégio Norbert.

Victória fala:

- Olhem aquilo, meninas! - Júlia exclamou, dando um pulinho do banco de reservas em que estávamos sentadas esperando o jogo recomeçar. - Os McLosers vieram assistir ao jogo!
- Meu Deus, pára tudo e chama a NASA! - Isadora disse, sacando uma câmera rosa chiclete da bolsa. - Eu PRECISO tirar uma foto disso! Ela vai direto para o "Conte Seu Babado", sem direito a escalas!
- Como você é má, Isa! - Maria Eduarda brincou, enquanto Isadora acabava de tirar a fotos dos meninos e devolvia a câmera para a bolsa.
- A única coisa que eu me arrependo é de não ter tido a idéia desse blog antes... - me lamentei, dando um gole do meu Gatorade de morango. Minha blusa agarradinha de cheerleaders da escola estava grudenta e suada, e eu me sentia nojenta. - Quem será o dono?
- Provavelmente as meninas da oitava série... - Maria Eduarda respondeu, entediada. - É típico delas...
- Mas bem que você queria esse blog pra você! - eu disse, e Maria Eduarda mostrou a língua para mim.
- O blog é nosso praticamente. - Isadora comentou, arrumando a saia branca e verde. - A maioria das fotos são nossas!
A sirena do término do jogo soou. Ganhamos. Graças ao gostoso do John, o único que jogava alguma coisa naquele time de merda.
Nos levantamos, prontas para fazer nosso trabalho.
Para dizer a verdade, eu odiava ser cheerleader, mas quando se era a melhor dançarina da escola e uma das - se não a mais - garotas mais populares de lá, o seu único propósito de vida é ser cheerleader. E eu meio que seguia o fluxo. Às vezes até me divertia com as meninas.
Fizemos a seqüência de passos que tínhamos treinado mais cedo - sendo praticamente comidas pela ala masculina da arquibancada - e encerramos o jogo. Os espectadores saíam do ginásio e nós íamos para o banheiro, doidas por uma bela ducha.
- Estavam lindas, babys! - John disse, colocando a mão no meu ombro suado.
Eca!
- Nós sempre estamos lindas, John! - choramingou Isadora e John gargalhou, jogando seus belos cachos dourados para trás e apertando os olhos azuis esmeralda.
Ok, ele era gostoso demais!
- Até mais! - ele disse, dando um beijo na testa de todas as meninas - Eca! - e caminhou em direção aos seus amigos bombados do time de basquete. Provavelmente iriam comemorar mais tarde, com muita mulher e bebida.
Tão previsível!
Entrei no vestiário e joguei longe a minha blusa suada. Me joguei embaixo do chuveiro e nunca senti tanto prazer em uma ducha.
- Eu queria ver a cara dos McLosers quando derem uma olhada no blog hoje à noite! - Júlia gritou do próprio chuveiro.
- E como a vidente sabe que eles olham o blog? - Maria Eduarda perguntou. - Diz aí pra gente!
- Se liga, Duda, sua anta! - ela respondeu, numa voz tipo "que pergunta mais óbvia, dã!". - Todo loser lê aquele blog!
Mas não eram só os losers que liam o blog.
A escola inteira lia o blog.

Lanza fala:

- Dude, as pessoas mandam fotos delas mesmas como se isso fosse interessar a alguém! - Pe Lu reclamou, lendo os muitos e-mails que as pessoas mandavam para o e-mail conteseubabado@blog.com. Ele arrastou alguns arquivos para a lixeira e continuou lendo os outros.
Sim. Nós, supostos machos, éramos donos de um blog de fofocas.
Bem humilhante, eu sei, mas antes que você saia por aí dizendo que nós somos gays, preciso dizer que a culpa foi toda do Koba!
Tudo começou quando ele chegou um dia na nossa casa - nós morávamos juntos - e criou um blog com a intenção de promover a nossa banda, o McFLY. Só que o babaca criou o blog e deixou ele em branco, alegando "preguiça demais para postar".
Então, um belo dia, uma menina que Thomas estava ficando - Katy Springs, eterna peituda - mandou uma foto para uma amiga de John beijando duas meninas. Mas ela errou o endereço - ou não - e mandou para Harry, que achou tão engraçada que postou a foto no blog.
Se você está pensando "ah, então vocês praticamente se entregaram!", não foi bem assim, porque essa menina tinha passado a foto para mais 200 endereços, então 200 pessoas - todas do colégio - poderiam ter feito o blog.
Um dia depois que Thomas postou a foto, tínhamos 327 comentários pedindo mais babados fortes daquele. Então colocamos um endereço de e-mail, - àquela altura estávamos nos divertindo com a história - o conteseubabado@blog.com e passamos a receber diariamente fotos comprometedoras que as pessoas mandavam - de seus amigos e inimigos - e nós simplesmente as postávamos.
Se você ainda acha que somos veados, deveria ver a quantidade de fotos que recebemos de garotas nuas e semi-nuas. Era impressionante!
- Procura pela foto das Maníacas! - eu sugeri, me sentando ao lado dele. - Elas sempre mandam as melhores fotos!
Nós chamávamos Victória e suas amigas de As Maníacas. Elas sempre mandavam as melhores fotos e comentavam no blog. Eram 4 maníacas por fofoca.
É foda ser influente...
- Ok. - Pe Lu disse, clicando na foto que as meninas acabavam de mandar. - Porra! - ele exclamou, e eu olhei para a foto que brilhava na tela. Era uma foto nossa no jogo de mais cedo, e embaixo da foto elas escreveram: "Os McLosers tentando socializar!".
- Porra! - exclamei também.
- O quê? - Koba e Thomas saíram do videogame e vieram ver a fotos. Os dois disseram ao mesmo tempo: - Porra!
- Ótimos, o que nós vamos fazer agora? - Pe Lu perguntou, olhando diretamente para mim, porque eu sempre tinha uma solução para tudo.
- É, e aí, vamos dar umas porradas nelas? - Koba perguntou.
- Fácil, é só não publicar! - eu respondi, ignorando o comentário de Koba.
- Se a gente não publicar, elas vão desconfiar! - Pe Lu argumentou, e era verdade. Todas as fotos que elas tinham mandado até aquele dia foram publicadas. - E nós não temos nenhuma outra decente. Ah não ser que vocês queiram colocar o clube de ciência ganhando as olimpíadas de física.
- Não, dude... - Thomas disse, entortando a boca.
- Foda-se que não temos foto! - Koba exclamou, arrastando a nossa foto para a lixeira. - Não vamos publicar essa merda!

Victória fala:

- Não foi publicada! - Isadora exclamou, me pegando pelos braços, assim que eu pisei meu All Star de couro branco na escola. - A foto que eu mandei ontem não foi publicada!
- Hã? - perguntei, sonolenta. Se o mundo dependesse de mim ao acordar, bye bye humanidade. - Que foto?
- A dos McLosers!
Lembrei-me do dia anterior e fiz um "aaah!". Então olhei para Isadora e perguntei, na maior inocência:
- E?
Andávamos pelo corredor atraindo o olhar de todos os seres masculinos.
Foda-se, nós éramos bonitas mesmo!
- Vic! - ela choramingou, entortando a boca. - Sua cabrita lerda, você não entendeu?
- Entendi o quê, mulher de Deus? - perguntei, pousando meu fichário lilás e rosa na mesa em que sempre sentava, na frente de Isa, do lado de Maria Eduarda e na diagonal de Júlia. - Aliás, quem se importa? É só um blog idiota!
- Vic... - ela suspirou. - Todas as fotos que nós mandamos até hoje foram publicadas. Tem alguma coisa aí, e eu vou descobrir!
- Vai lá então, Sherlock! - eu brinquei, me jogando na carteira e abaixando a cabeça, para tentar dormir pelo menos 10 minutos antes que o professor chegasse. Aí ele faria a chamada, eu responderia, e dormiria o resto da aula.
Aluna aplicada, eim?
- E aí, meninas! - Maria Eduarda exclamou. Eu levantei a cabeça e me deparei com ela pulando para dentro da sala como uma coelhinha no cio. Júlia vinha atrás com a maior cara de eu-quero-morrer-porque-tive-que-acordar-cedo-e-vir-para-a-escola.
Júlia era das minhas.
- A foto não foi publicada! - Isadora começou de novo.
- Qual? Dos McLosers? - Júlia perguntou, apontando para a sala de cima. Eles eram do terceiro e estavam na sala exatamente do segundo, no caso, a nossa. Às vezes podíamos ouvir suas gargalhadas ou as batidas de porta quando eram excluídos.
- É! - Isadora respondeu, esperançosa. Mas Maria Eduarda cortou suas asinhas, falando, curta e grossa:
- E daí?
- Meninas! - ela disse, num gritinho agudo que sempre dava quando ficava brava. - Vocês não perceberam ainda?
- O quê? - Júlia perguntou, entediada. Aliás, ela sempre estava entediada. - Explica aí entendedora!
- As donas, ou donos, provavelmente donos, que postam no blog, SEMPRE publicaram nossas fotos. - ela começou, sussurrando e obrigando a gente a se aproximar dela, como se estivéssemos vendendo maconha ou algo do tipo. - E agora nós mandamos uma foto, uma foto não, um big babado! Por favor, os McLosers comandam essa escola com suas brincadeirinhas sem graça, e eles NUNCA vão a essas coisas escolares! Nós os vimos no jogo de BASQUETE, tiramos uma foto super legal, mandamos e ela não é publicada?
Nós ainda olhávamos sem entender.
- Isso quer dizer queee...? - ela disse, tentando fazer com que nossos cérebros funcionassem às 7h da manhã.
Doce ilusão, baby...
- Queee...? - Maria Eduarda repetiu.
- Que os McLosers são os donos do site! - ela exclamou, virando os olhos com a nossa santa ignorância. Silêncio.
Nos entreolhamos.
- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! - gargalhamos sem parar.
- Claro, claro, e o Munhoz é traveco de noite! - Maria Eduarda zoou.
- É, e o Lanza Reis tem fantasias sexuais com palhaços! - eu entrei na brincadeira.
- E o D'avilla é amante do Kobayashi! - Júlia completou, rindo mais ainda.
- Ok, suas vacas traidoras! - Isadora berrou por cima das risadas. - Eu vou provar pra vocês!

Lanza fala:

- Dude, pára com isso, é nojento! - Thomas exclamou, jogando uma almofada na cabeça de Pe Lu que roía a unha do dedão do pé. Não sei como ele conseguia aquilo, porque só de olhar meu júnior doía.
Mas era o Pe Lu. Vai saber...
- Não enche! - ele respondeu, mas estava com o pé na boca, então saiu uma coisa do tipo "An anxe!".
- Hey, agora que já tocamos, posso finalmente entrar na bodega da internet? - Koba perguntou.
- Pode, seu viciado de merda! - eu disse, terminando de guardar a guitarra.
Koba mexe no mouse e o protetor de tela do Blink piscou. Ele entrou no msn e abriu uma página para entrar no e-mail do blog. Tinham 3 e-mails, mas só um não parecia ser vírus. Ele jogou os outros dois na lixeira.
- Hey, venham ver isso.
Nos aproximamos na mesma hora que ele abria um e-mail que se intitulava "McLosers".
Ele dizia:

Hey, losers!

Vocês podem não me conhecer, mas eu conheço vocês. Conheço vocês e a reputação de vocês. Os palhaços pegadores da escola, certo? Há, mas se vocês não seguirem exatamente as minhas condições, podem não ter mais essa fama toda. E eu falo sério.
Mas vamos direto ao ponto.
Eu quero todos vocês - todos, sem exceção, ok? - me encontrando amanhã no Barney's, depois da escola. Se isso não acontecer, eu vou contar o pequeno segredinho de vocês para a escola inteira. E vocês não querem que isso aconteça. Querem?

See ya, baby's!

- Putaqueopariu! - Thomas exclamou, emendando as palavras.
- E agora? E agora? Fomos descobertos! Fomos descobertos! Eu nunca mais vou pegar mulher, ai, eu tô fodido! - Pe Lu ficava dizendo sem parar, até que Koba deu um tapa na sua cabeça e olhou - junto com todos - para o Lanza-resolve-tudo.
Ou seja, para mim.
- Simples. - falei, tentando parecer calmo, embora não passasse nem ar nas minhas regiões baixas - Nós vamos lá!

Capítulo 2 - Escravos... Sexuais?

Victória fala:

- Não acredito que estou perdendo minhas preciosas horas de sono de beleza para estar... - Maria Eduarda olhou em volta, com os olhos pintados de preto, da sorveteria colorida e cheirosa em que estávamos esperando os losers que Isadora JUROU que iriam aparecer por lá. - Nesse antro de perdição!
- Come um, Duda! - eu sugeri. - Deixa essa dieta idiota para lá... Você nem precisa mesmo!
- Maria Eduarda? Fora de alguma dieta? - Júlia perguntou. - Mais fácil ver o Marcus beijando uma de nós!
Marcus, se você quer mesmo saber, é nosso amigo gay.
- Só por isso eu vou pegar uma banana split e enfiar no seu... - ela ia dizendo, mas nós ouvimos o barulhinho do sino da porta e olhamos automaticamente para os 4 losers que passavam por ela cumprimentando a todos.
Olhei boquiaberta para Isadora, que se arrumou toda na cadeira e estampou um sorriso vitorioso no rosto.
Falando sério, desde quando Isadora começara com aquele papo idiota dos McLosers serem os donos do Conte Seu Babado, eu nunca REALMENTE pensei que fosse verdade. Sabe como é, mesmo sendo losers – pelo menos para nós – eles eram homens.
Que tipo de homem mantém um blog de fofoca?
Maria Eduarda olhou de relance para a porta com ar de superior e voltou a devorar o cardápio com os olhos, ignorando completamente a presença dos garotos na sorveteria. Júlia riu nervosa e eu não fiz nada. Só fiquei ali, olhando como boba para os meninos que se aproximavam.
O clima ficou tenso quando eles nos perceberam ali.
- Hey, losers! - Isadora gritou, chamando-os com a mão para a mesa. - Aqui!
Koba e Pe Lu – sim, eu sabia o nome deles – se olharam e arregalaram os olhos. Os olhos de Thomas pousaram em Júlia e ele abriu a boca.
Somente Lanza parecia estar calmo.
Eles se aproximaram lentamente, todos com sorrisos fracos nos lábios. Koba foi o primeiro a se pronunciar:
- Foram vocês que... Hum... Mandaram um e-mail pra gente ontem...?
Assentimos com a cabeça.
- E, hum... Quem foi?
Eu, Maria Eduarda e Júlia apontamos para Isadora, que concordou com a cabeça novamente.
Koba olhou para os amigos e, no instante seguinte, eles estavam sentados à mesa. Ele estava inclinado sobre os cardápios, olhando com ódio para Isadora e sussurrando:
- Certo, suas...
- Manipuladoras? - sugeriu Harry, que ainda encarava Júlia.
- Megeras sem coração? - disse Pe Lu, que tinha se curvado pela mesa com Koba na melhor pose estou-curvado-e-sussurrando-porque-estou-vendendo-drogas.
- Vendedoras de empadinhas? - Lanza sugeriu, lendo o cardápio e rindo da própria piada. Quando viu que ninguém riu com ele, fechou a cara e voltou a ler o cardápio.
- Suas pilantras! - Koba finalmente se decidiu. - O quê vocês querem de pobres oprimidos como nós?
- Nós – começou Isadora. Fiquei com vontade de dizer “Hey Isa, meu amor, me inclua fora dessa!”, mas resolvi deixar o bonde andar. Isso que dá ser mais curiosa que aquele gato de merda. - queremos que vocês façam TUDO que nós mandarmos!
- Queremos? - Júlia perguntou. Nós não tínhamos combinado nada do tipo, porque sinceramente achamos que Isadora estava ficando louca. Mas acho que ela já tinha se encarregado do trabalho.
- Queremos. - ela repetiu, com os olhinhos brilhando.
- Certo... - Thomas começou, vagarosamente. - Tudo quer dizer... Tudo?
- É, porque com isso eu não tenho problemas... - Lanza anunciou, abaixando o cardápio e finalmente prestando atenção na conversa.
- Não, seu imbecis! - ela resmungou, e eles tiraram o sorriso idiota do rosto. - Mesmo porque, não precisamos de vocês pra isso! Seus... losers!
- Bom, então eu não sei o que as Barbies querem! - Pe Lu resmungou, saindo de cima da mesa e colocando as mãos atrás da cabeça, na típica pose macho dominador.
- Eu realmente queria que alguém carregasse minha mala de manhã... - Júlia disse, sacando o objetivo de Isadora. Há muito tempo os losers vinham zoando com a nossa cara, agora era a nossa vingança.
- É, e eu não suporto as filas da cantina... - Maria Eduarda suspirou.
- Sabe, não seria ruim se vocês nos dessem carona naquele lindo conversível do Thomas! - eu arrisquei, olhando para as meninas e vendo que todas estavam se segurando para não gargalhar, incluindo eu.
Olhei para Lanza e ele AINDA parecia calmo.
Qual é? Os outros estavam soltando fogo pelas orelhas e eles estava ali, todo tranqüilo?
Provavelmente ele fazia ioga ou qualquer porra do tipo.
- Ok, então nós seremos seus escravos? - Thomas finalmente ligou os pontos.
- Olha só! Aplausos para o Harry! - zombou Júlia.
- Por quanto tempo? - Lanza perguntou, chamando o garçom com as mãos.
- Tempo indeterminado. - respondi. Eu adorava um desafio, e irritar Lanza seria um dos bons.
- Não sei... - Pe Lu começou, coçando a cabeça, mas foi interrompido por Isadora:
- Acho que você ainda não entendeu, lindão! - ela disse. - Vocês não têm escolha! A não ser que queiram o pequeno segredo de vocês espalhado pela escola inteira...
Eles se entreolharam e iam dizer algo, mas então um garçom baixinho e espinhento – o que Lanza tinha chamado – apareceu com uma taça gigante de sorvete de cookie com creme.
O meu favorito.
- O de sempre, Lanza! - ele disse, e depositou a taça na mesa.
- Opa, valeu, James! - ele respondeu, depois esfregou as mãos e comeu o sorvete como se não visse comida há muito tempo.
- Ok, está fechado. - Koba concluiu, depois de abrir a boca e levantar a sobrancelha para Lanza, que nem percebeu. - Mas se essa história de blog vazar nós vamos postar TODAS as fotos que já recebemos de vocês. E olha que não são poucas!
- E porque vocês nunca postaram? - desafiei ele, que me olhou com uma cara de quer-mesmo-saber? E respondeu: - Porque não daria ibope.
IMBECIL!
Claro que daria ibope. Qualquer coisa relacionada a nós daria ibope.
- Hey, Lanza Reis? - chamei-o, ignorando o comentário idiota de Koba. Ele se virou para mim, com a boca suja de sorvete e mexeu a cabeça. Eu peguei a colher de sua mão e respondi, enquanto devorava seu sorvete: - Primeira tarefa, ceder o sorvete de cookie.
Lanza abriu a boca – por um instante pensei que tinha ficado bravo – mas depois a fechou e empurrou a taça para mim.
Droga!

Lanza fala:

- Eu não vou deixar aquelas parasitas entrarem no meu precioso! - Thomas disse, dando tapinhas amorosos no seu conversível vermelho.
- Bem que você gostaria de pegar a parasita da Júlia. - eu brinquei, pulando para o banco de trás. – Só faltou pular em cima dela hoje!
- Quem não gostaria? Com aquelas pernas!
Saímos da sorveteria e nos deparamos com um sol forte e um céu lindo, sem nenhuma nuvem. E isso só significava uma coisa: futebol!
Thomas deu partida no carro e estávamos quase virando pela rua quando ouvimos vozes agudas e chatas gritarem nossos nomes. Quem poderia ser?
Tcharáááám!
- Hey, D'avilla, volta aqui! - Júlia gritou, e uma brisa bateu na sua saia, que levantou um pouco. Thomas nem pensou duas vezes. Deu ré.
Nós estávamos fodidos nas mãos delas. Porque, bem, elas eram lindas... Demais!
Elas caminharam com seus All Stares brilhantes e seus cabelos longos e lisos até o carro. Se não fossem tão chatas, até que estariam bonitas, sabe como é, andando como nos filmes, onde a câmera fica lenta e os cabelos voam.
Mas elas eram chatas. Aí, dude, não tinha jeito...
- Precisamos de carona! - elas falaram, em uníssono.
- Para o jogo... - Victória, a chata mor, completou.
Ótimo, agora elas iriam ao nosso jogo!
- Pulem aí... - Thomas disse, sem tirar os olhos das pernas de Júlia. - Mas não estraguem nada!
- Ah, vai se foder, D'avilla! - ela disse, abaixando sua saia ao entrar no carro.

Victória fala:

Júlia entrou no carro e sentou-se entre Lanza e Koba no banco de trás. Como Thomas dirigia e Pe Lu estava no bando da frente, eu, Maria Eduarda e Isadora tivemos que sentar no apoio do banco, como naqueles filmes gayzinhos dos anos 60. Só estava faltando os óculos de sol e os vestido de bolinhas.
Sentei atrás de Lanza, e toda hora minha perna roçava no seu ombro. Reparei como ele era forte, sabe como é, seus braços eram bem musculosos... “Não viaja, Victória!”, eu pensei, dando um tapinha na testa. Ele virou o rosto para meu lado e ficou olhando para minhas coxas, que estavam amostra graças ao meu míni shorts.
Além de imbecil era pervertido?
No som os Beatles cantavam Help, e eu realmente amava aquela música. Não pude me conter. Sempre quis ficar em pé num carro conversível e cantar músicas sem sentido.
Acorda, quem nunca quis?
E até que os McLosers eram bonitinhos. Bom, pelo menos todas as garotas da escola achavam.
Levantei-me e comecei a gritar. “When I was younger, so much younger than today!” berrava a plenos pulmões. Olhei para as meninas e vi que as pernas delas estavam formigando para fazer a mesma coisa, então eu gritei:
- Canta junto!
Elas se levantaram junto e começaram a berrar comigo. No refrão, eu e Maria Eduarda gritávamos HELP e as outras duas cantavam o resto.
Os meninos estavam se deliciando ali em baixo de nós, por que, bem, nós estávamos de saias e shorts.
- Qual é, desce daí! - Thomas disse, dando um tapa na minha perna. - Eu ainda quero pegar mulher, não sei se você sabe!
- Canta junto, D'avilla! - eu gritei, ignorando a sua grosseria.
Porque eu não queria me aborrecer. Não naquele momento idiota e divertido.
A música acabou e I Wanna Hold Your Hand começou. Minha favorita.
Que bela ironia!
- Oh, yeah, I! - comecei a gritar novamente, junto com as meninas. Então os McLosers se empolgaram também, e se levantaram. Menos Thomas, claro, porque pelo menos alguém não queria morrer. Mas ele começou a buzinar para as pessoas olharem.
De fora devia ser uma cena imbecil. Sabe como é, 4 meninas e 3 meninos de pé, cantando Beatles e tocando instrumentos imaginários enquanto o imbecil mestre buzinava sem parar.
- I WANNA HOLD YOUR HAAAAAND! - gritávamos.
Infelizmente, depois daquela pequena demonstração de idiotice em pleno dia, a música trocou e Yesterday começou a tocar no rádio.
- Ah! - Maria Eduarda resmungou, se jogando de qualquer jeito no banco. - Droga!
Júlia, Isadora, Koba e Pe Lu fizeram o mesmo, mas eu e o brisado do Lanza resolvemos ficar em pé, sentindo o vento chicotear nossos cabelos.
Eu olhava para as nuvens quando Thomas parou o carro bruscamente e eu me desequilibrei. Pensei seriamente que ia cair no meio da rua, mas num movimento ninja, Lanza me pegou pela cintura para evitar que eu caísse. Me arrepiei quando as suas mãos quentes seguraram minha barriga gelada.
Virei-me bruscamente e bati com meu nariz no dele.
Cacete, nem reparei que estávamos tão próximos assim!
- Só não vai Hackmann. - ele disse, me soltando, como se eu fosse uma tocha de fogo ou algo do tipo. Depois sentou-se e eu fui junto.
Agradeci por todos estarem cantando Beatles e não repararem na pequena cena que rolou ali. Não ia querer que me zoasse com coisas do tipo “Hum, o que foi aqueles narizes se batendo no carro, eim? Ah, danada!” e coisas do tipo.
O ombro de Lanza roçou novamente minha perna.
Mas dessa vez, porque eu ofegava?

Lanza fala:

- Valeu, losers! - Isadora disse, pulando do carro e dando um peteleco no nariz de Koba. Ele fechou as mãos como se fosse dar um soco nela – ele odiava que dessem petelecos nele – mas se conteve.
Não ia ficar muito bonito para ele se batesse em uma menina.
Ainda mais uma menina patricinha, influente e popular como Isadora.
Então elas rebolaram até o campo e subiram na arquibancada, para ficar com os amigos mauricinhos e as amigas tapadas.
Nós andamos até o campo e fomos cumprimentar nosso time.
- E aí, dudes! - Credric, nosso amigos mais chapado, disse, quando chegamos. Ele apagou o cigarro que estava fumando e continuou. - Escuta, Lanza, precisamos que você jogue no ataque.
- Por quê? - perguntei, estranhando. Eu era o lateral, sempre fora o lateral e imaginei que sempre seria o lateral.
- David não veio, e eu não confio muito no Koba no ataque. - ele respondeu, e nós rimos.
Thomas era goleiro, Pe Lu volante e Koba zagueiro.
O juiz apitou – um moleque do segundo ano cheio de acne – e a bola começou a rolar.
A arquibancada em que Victória e suas seguidoras estavam torcia para nosso adversário, porque John era do time. A outra, torcia para o meu time.
Nós não éramos realmente losers como elas falavam. O negócio é que a nossa escola era dividida em dois grupos. Os mauricinhos e os legais.
Nem preciso dizer em qual nós estávamos.
Victória e suas amigas faziam parte do primeiro grupo, e eram as abelhas rainhas. Já nós, éramos os leões do nosso grupo.
E agora eu vou parar de usar metáforas com animais.
O negócio é que todas as meninas do nosso lado da escola ficariam – ou já ficaram – com a gente FÁCIL. E por nós não querermos as outras, do lado rosa da escola, elas nos chamavam de losers.
Acho que essa a única explicação. Inveja.
Pe Lu passou a bola para mim que avancei com rapidez e entrei na pequena área. Os gritos da nossa arquibancada explodiram e eu me sentia o rei da cocada preta.
O goleiro do outro time – Josh Mathews, depois de John, o garoto mais desprezível que já existiu – se jogou em cima da bola, mas eu fui mais rápido e o deixei comendo terra.
Era eu e o gol, o gol e eu.
Dei um toque de calcanhar e a bola fez seu trabalho.
Alguns segundos depois, meu time pulou em cima de mim gritando “Goooool!”. Nós fizemos a famosa dança de comemoração – rebolar feito cawboy – e eu voltei para o meio do campo, bem de frente para a arquibancada de Victória. Olhei bem para ela, que sorriu e me mostrou o dedo do meio. Fiz um coração com as mãos e um gesto obsceno para ela, – bem obsceno, envolvendo minhas partes baixas – que mandou eu ir me foder.
Não sei porquê, mas tinha um pressentimento de que irritar Victória seria divertido.

Victória fala:

- Jesus apaga a luz, acho que eu nunca ri tanto na minha vida! - Isadora disse, ainda rindo. Eu também me contorcia de rir e as meninas não ficavam atrás.
- Eles estão parecendo umas mocinhas! - Maria Eduarda disse, gargalhando.
- Umas belezuras. O D'avilla pode chamar Apafuncia, o Kobayashi Creusa, o Munhoz pode ser a Marinalva e o Lanza Reis é a Jusalina!
- HAHAHAHAHAHA! - eu meio que berrei pelo corredor, mas não consegui me conter. - E juntas são as meninas nada poderosas!
- Que foram criadas para não derrotar o mal e enfeiar o planeta! - Isadora continuou.
- Enfeiar? Essa palavra existe? - perguntei, me curvando um pouco porque meu estômago já estava doendo de tanto rir.
Os meninos andavam atrás de nós, levando nossas malas, as suas malas, nossos fichários e os próprios fichários. E estavam uma gracinha com nossos fichários rosas.
- Pronto. - Lanza murmurou atrás de mim, colocando a mala de qualquer jeito nas minhas costas e jogando o fichário nas minhas mãos. Ele estava rosinha e ofegante. Mas eu também ficaria se subisse 3 lances de escada com duas malas e dois fichários. - Falou!
- Seu grosso! - eu exclamei, quando ele bateu com tudo no meu ombro ao passar por mim. Mas ele simplesmente mostrou o dedo do meio de costas e berrou: Vai se foder!
Olhei para as meninas, e virei os olhos. Elas sorriram para mim e entramos na sala, mais leves do que nunca!

Lanza fala:

- Vai tomar no cu! - eu xinguei, assim que me joguei na carteira da sala. Victória finalmente tinha me irritado. - Eu emagreci uns 5kg só agora!
- Relaxa, dude! - Pe Lu disse, sentando-se ao meu lado, também exausto. - Pelo menos nós tivemos uma visão panorâmica daquelas bundas maravilhosas.
- E põe maravilhosas nisso... - Koba suspirou.
- Por que vocês simplesmente não comem elas? - perguntei, virando os olhos.
- Eu comia. - Thomas respondeu, dando de ombros.
- Fácil. - Pe Lu disse.
- Certeza. - Koba completou.
- Vai dizer que você não? - Thomas perguntou.
- Não, dude, eu não suporto elas! - eu disse, abrindo meu fichário.
- Quando você se apaixonar por uma delas eu vou rir muito da sua cara. - Thomas disse, jogando uma bolinha de papel em mim.
Até parece!

Capítulo 3 - Garotas são de Marte e garotos repetiram em marciano.

Victória fala:

- Direto e reto para o Barney's! - Júlia exclamou. Ela estava sentada atrás de Harry com as mãos nos seus ombros, fazendo uma pseudo massagem nele. Deu um tapinha na sua cabeça, como se ele fosse um cavalinho, e ele deu partida.
Já haviam se passado duas semana desde o acordo com os McGuys – nós os chamávamos assim agora – e nós estávamos criando laços de amizade.
Principalmente porque eles pagavam nossos sorvetes.
- Acho que nós temos que parar com isso! - Pe Lu disse, apertando a barriga de Maria Eduarda, que fez “Squick!” de brincadeira. - Vocês já estão ficando gordinhas!
- Vai dizer que você não pegava a gordinha aí? - falei para Pe Lu, que não respondeu nada.
- Vão ao jogo hoje? - Isadora perguntou, mudando de assunto.
- Não, baby Isa, hoje vamos criar juízo e ensaiar um pouco. - Koba respondeu, colocando o bom e velho Beatles para tocar.
- Qualquer dia desses queria ver o ensaio de vocês... - eu disse, distraída. - Sabe como é, para ver se vocês são muito ruins ou só ruins.
Koba olhou para Lanza, que olhou para Pe Lu, que olhou para Thomas, que não olhou para ninguém se não bateria o carro. Mas eu tinha a ligeira impressão de que olharia de volta para Koba se pudesse.
- Hum... - murmurou Pe Lu, depois da sessão telepatia entre eles. - Por que vocês, tipo, não vão lá em casa hoje ouvir?
Mordi o lábio inferior.
Ok, eles nos davam carona todos os santos dias, e às vezes iam tomar sorvete com a gente. Mas era só aquilo. Ainda nos ignorávamos na escola e vire e mexe rolavam brigas entre a gente. Principalmente entre eu e o Lanza Reis, que não queria carregar minha mala.
Mas, por outro lado, fazia frio e eu não estava a fim de ver o jogo.
- Por mim... - respondi, deixando a frase morrer mas dando a entender que sim.
- É, por que não? - Isadora perguntou, olhando para as unhas.
- Pode ser... - Júlia respondeu, ainda passando as mãos pelos cabelos de Thomas.
Os meninos se olharam nervosos e eu achei graça da repentina falta do ar superior que eles sempre tinham.
- Fechou então! - Maria Eduarda exclamou, com sua voz passarinho alegre de sempre. - Barney's e depois RESTART!

Mais tarde.

- Bom, essa é uma das novas criações do nosso Lanza aqui. - Pe Lu disse, segurando o vocalista da banda pelos ombros. - Espero que gostem. Ela se chama Star Girl.
“Uuuuuuu!”, meu Deus, aquilo grudava na cabeça feito chiclete.
Mas era boa. Era ótima.
Era FODONA, truta!
Eles acabaram de tocar a música e Lanza jogou-se ao meu lado no chão, onde estávamos sentadas assistindo ao ensaio.
- Vou tomar água. - Isadora disse para mim e saiu em direção à cozinha.
- E aí, Hackmann, somos ruins ou muito ruins? - Lanza perguntou.
Pisquei meus longos cílios para ele algumas vezes e respondi, indiferente:
- É, vocês são ok.
Mas eles não eram ok. Eles eram bons. Eles eram ótimos.
Eles eram FODÕES, truta!
- Admite que você gostou da minha música, Vic! - ele disse, passando a mão pelas pontas do meu cabelo. Eu me virei para o outro lado – para ele não ver meu rosto corado? - e respondi:
- Também não é pra tanto, sr. Eu-faço-músicas-por-isso-sou-fodão.
- Você é a pessoa mais pessimista que eu conheço. - ele disse, soltando as pontas do meu cabelo. Enfim, pude respirar.
- Não sou pessimista. - respondi, olhando para ele de novo. Ele olhava para meus olhos e não para os meus peitos, o que era algum tipo de milagre da natureza. - Sou realista.
- Bom, fica aí se realizando que eu vou para o meu quarto. - ele respondeu, levantando-se e correndo até a escada, quase derrubando a bateria de Harry, que xingou baixinho.
No mesmo instante, Koba se sentou ao meu lado e perguntou, como quem não quer nada:
- E aí, Vic, você viu a Isa?
Isa? Quanta intimidade!
- Foi na cozinha beber água, por q... - eu ia perguntar, mas ele já estava indo para a cozinha.
Epa! Alguma coisa estava pegando.
E como eu já disse, eu era mais curiosa que a porra do gato, então pulei para a porta e passei pela ponta do pé pela sala onde Maria Eduarda, Júlia e Pe Lu comiam salgadinhos e conversavam, e fui até a cozinha.
Parei na porta e coloquei alguns centímetros da minha cabeça para dentro. Mas foi o suficiente para ver Koba com as mãos na cintura de Isadora, que ria.
Esfreguei meus olhos para ver se estava vendo bem. Mas eu não estava precisando de óculos. Isadora realmente estava ali, quase beijando o loser do Koba.
Não que ele não fosse uma gracinha.
Fiquei observando os dois darem risada e chegarem cada vez mais perto – como se isso fosse possível - até que o filho da puta do Lanza Reis chegou por trás de mim e sussurrou no meu ouvido:
- É feio observar os outros, sabia?
- Putaqu... - eu ia gritar de susto, mas ele colocou a mão rapidamente na minha boca, e com a outra pediu silêncio. Depois apontou para Isadora e Koba e eles pareciam tão... Felizes!
Olhei para Lanza e concordei com a cabeça. Mas ele não soltou minha boca e ficou me olhando de um jeito esquisito. Então eu olhei para ele com a sobrancelha erguida, como quem diz “e aí, tá difícil?” e ele tirou a mão. Depois balançou a cabeça, como se estivesse saindo de algum tipo de transe.
- Olha, vamos deixar os dois aqui, certo? - ele sussurrou.
- Ok.
Fomos até a sala e ele segurava uma capinha de DVD nas mãos. Longe da cozinha, perguntei:
- Que DVD é esse?
- O que nós vamos assistir agora. - ele disse, mostrando a capinha para mim. O título “Piratas do Caribe” brilhava em cima. - Gosta?
- Se eu gosto? - perguntei, com os olhinhos brilhando. - Não sei se da onde você veio os homens assistem filmes porque atrizes bonitas estão nele, mas de onde eu venho, sim. E não sei se você sabe, Orlando Bloom e Johnny Depp estão nesse filme. JOHNNY DEPP, DUDE!
- Tá bom, calma aí, progesterona girl! - ele disse, dando com a capa do DVD na minha cabeça. - Também não precisa gritar!
Às vezes eu não entedia os homens.
Eram hiper fofos – como Lanza foi ao deixar o casal sozinho na cozinha – e depois ficavam hiper escrotos. Vai entender...

Lanza fala:

- Você não pegou ela? - eu perguntei, pela centésima vez.
- Não, dude, eu não peguei ela! - Koba respondeu, com os olhos vidrados na Tv de plasma onde nós jogávamos Paper Mario.
- Koba, já te disse que você é uma bicha? - perguntei.
- Umas 50 vezes só hoje.
- MAS POR QUE VOCÊ NÃO PEGOU ELA? - eu berrei. Ele riu e passou as mãos nervosamente pelos cabelos. Demorou um pouco antes de responder, e enfim disse:
- Porque ela não quis.

Victória fala:

- Como assim você não quis? - perguntei, exaltada, para Isadora. – O imbecil do Lanza Reis quase quebrou meus dentes para não estragarmos o momento e você não quis? POR QUÊ?
- Porque...

Lanza fala:

- Ela tá gostando de mim. - ele respondeu, dando de ombros.
- E isso é ruim por quê?
- Porque...

Victória fala:

- Porque eu não posso me apaixonar pelo Koba! - ela disse, passando as mãos pelos cabelos lisos que caiam nos ombros. - Não pelo Koba...
- Por que não, Isa de Deus? O que ele tem de errado? Gonorréia? Acne? - perguntei, fazendo-a rir.

Lanza fala:

- Dude, não importa... - Koba disse, deixando os ombros despencarem. Ele estava mal. - Não ia dar certo mesmo!
- Por que não? - eu perguntei, ficando repentinamente bravo com Isadora e suas amigas comedoras de corações. - Você é mil vezes melhor do que ela!

Victória fala:

- Não! - ela exclamou, deixando os ombros caírem. Uma brisa gostosa soprou pela janela do meu quarto e ela sorriu, triste. - Porque não iria dar certo... Nós somos de mundos diferentes!
- Que mundos diferentes? Ele não nasceu no planeta Terra? Porque, pelo o que eu sei, você nasceu!

Lanza fala:

- Dude, com 327 milhões de mauricinhos em cima dela, porque ela ficaria comigo? - ele perguntou.

Victória fala:

- Vic, com 298 milhões de vadias em cima dele, porque ele ficaria comigo? - ela perguntou.

Lanza fala:

- PORQUE VOCÊS SE GOSTAM! - eu gritei, com vontade de jogar o violão na sua cabeça.

Victória fala:

Aquilo não estava nem um pouco certo. E esse definitivamente era um trabalho para Victória Hackmann.

Lanza fala:

Koba saiu de casa um pouco depois para comprar refrigerante, e me deixou pensando em como as pessoas são.
Sabe como é, toda essa merda hipócrita de “somos de outros mundos!” e essas coisas.
Dude, fodam-se os outros mundos!
Subi para tentar compor alguma coisa e comecei a escrever uma música sobre uma menina loira muito gata que eu e os dudes vimos outro dia, quando o meu celular tocou. Olhei para o identificador de chamadas. Privado.
Quem era o chato privado que estava me ligando?
- Fala. - grunhi ao telefone, bravo por ser interrompido no momento criatividade. Então ouvi a voz de Victória piar do outro lado. E nem sei porquê, prendi a respiração.
- Lanza? - ela chamou, provavelmente com a voz mais amigável que conseguiu ensaiar.
- Vic? - perguntei, desconfiado. - Desde quando você me chama de Lanza?
- Desde quando você ma chama de Vic. - ela respondeu. - Mas e aí, tá ocupado?
- Mais ou menos... - eu respondi, olhando para o projeto de música em cima da minha cama. - Mas pode falar...
- Eu meio que queria falar sobre o Koba e a Isa... - ela disse, com a voz fraquinha.
- O que tem eles?
- Eles não, sabe como é, estão juntos e eu pensei que... - ela começou, mas eu, confesso que de um jeito bem grosseiro, a interrompi. Mas juro que foi só para irritá-la.
- Não vejo o que nós temos a ver com isso.
Ela ficou em silêncio e eu a ouvi estalar os lábios, como sempre fazia quando estava nervosa.
- Escuta, Lanza Reis – e essa sim era a boa, velha e cínica Victória – a minha amiga está mal e creio que o seu amigo também. E NEM pense em dizer que não! - ela disse, logo que eu abri a boca para dizer como meu amigo não ficaria mal por uma menina como Isadora. Mas aparentemente ela lia mentes. E que porra ela não sabia fazer? - Então eu só achei que dessa vez você iria esquecer um pouco de toda essa sua arrogância e ajudar seu amigo, mas acho que me enganei...
Batuquei os dedos no violão que estava pousado no meu colo enquanto a ouvia respirar profundamente. Quase pude sentir seu perfume doce que implorava para não sentir todos os dias, mas de repente ele não me parecia tão detestável, assim como ela.
- Tudo bem, Hackmann... - me deixei levar. - O que tem em mente?
- Lavagem cerebral!

Capítulo 4 – Feliz por você, triste por mim.

Victória fala:

- Isso não vai dar certo, Hackmann, isso não vai dar certo! - Lanza repetia no meu ouvido sem parar. Eu já estava ficando nervosa com ele repetindo a mesma coisa, mas eu meio que precisava da sua ajuda, então fechei meus olhos e respirei fundo.
- Cala a boca, Lanza Reis, isso não tem como dar mais certo!
- Se ele descobrir que foi coisa minha vai me matar, me ressuscitar, e depois me matar de novo! - Lanza continuou resmungando, enquanto colocava vinho em uma taça de cristal do jeito mais gay possível. Mas, depois da história do blog, eu não duvidava mais de nada.
Ah, e por falar nisso!
- E o blog? - perguntei, colocando dois pratos em cima da toalha de seda creme da mesa. - Postando muito?
- Eu não tenho nada a ver com essa história. - Lanza respondeu, piscando seus longos cílios como um cãozinho triste para mim. - Koba ou Pe Lu que postam, eu e o Harry não somos gays o suficiente.
Olhei de cima a baixo para ele – que estava com uma das mãos na cintura como uma dona-de-casa e outra estava servindo o vinho, no melhor jeito olhem-para-mim-eu-sou-um-garçom-gay – e arqueei a sobrancelha.
Quem te viu, quem te vê, eim Lanza?
- Ai menina, o quê, você realmente pensou que eu era homem? - ele brincou ao ver minha expressão. Eu sorri envergonhada para ele e continuei a arrumar a mesa.
Eu tinha chegado na casa dos meninos uns 15 minutos atrasada – o que eu podia fazer? Meu cabelo estava um lixo! - para arrumar um mini-jantar romântico para Koba e Isadora. Mas, desde o momento que mergulhei meus olhos em Lanza – cabelo desgrenhado, peito nu, calça jeans detonada –, não conseguia mais agir com naturalidade perto dele.
O que estava acontecendo comigo?
- Certo, tudo pronto, cheiroso e indecente. - Lanza comentou, se levantando e olhando tudo de cima. Repare como ele era alto e... Másculo!
Ai, Deus!
- É... - eu concordei, me levantando com ele. - Será que hoje eles se pegam?
- Se eles não se pegarem eu jogo essa garrafa de vinho no Koba.
- É, e tem que ser pegada forte! - brinquei, mas logo depois senti meu rosto arder. Merda! Eu só abria boca pra falar coisas pervertidas?
- Isso aí, pegada forte. - ele concordou. Então olhou as horas no relógio do Star Wars na parede e perguntou: - Que horas você combinou com ela?
- 20h. - respondi. - E você?
- 20h.
Um silêncio meio constrangedor desceu sobre nós. Olhei para ele, que olhava para um ponto fixo no chão. “Olha pra mim, seu imbecil!” fiquei com vontade de gritar.
Um imbecil incrivelmente fofo.
- Hey! - ouvi Isadora gritar, depois de girar a maçaneta da porta de entrada. - Alguém em casa?
- Porra! - sussurrei, pegando Lanza pelo braço e levando até a dispensa. Fechei a porta com cuidado e colei o ouvido na mesma. Lanza imitou meu gesto, mas para não se desequilibrar, colocou a mão na minha cintura, e eu senti o local formigar.
- Alguém? - Isadora gritou novamente, mas a voz saiu mais forte, porque ela já estava dentro da cozinha. - Hey! - ela exclamou com ela mesma. - Que lindo!
Lanza me cutucou e eu dei um beliscão de leve no seu braço.
Ouvimos mais um barulho na porta principal e alguns passos. Koba entrou na cozinha e, ao ver Isadora lá, perguntou, como se encontrasse uma garota linda na sua casa toda hora:
- E aí?
- Você que fez isso, Koba? - Isadora perguntou, com a voz embargada. Ela, sem dúvida, era a pessoa mais emotiva que eu conhecia.
- Hum, não... - ele respondeu, e eu ouvi Isadora suspirar. Lanza prendeu a respiração e eu colei meu ouvido mais ainda a porta. Como alguém podia ser imbecil o suficiente de negar um jantar romântico daqueles? - Mas, você quer, sei lá, jantar? Já que alguém fez tudo por isso, não devíamos... Comer?
Ai, que fofo!
Agora sim a diversão ia começar!
- É, pode ser... - ela disse, e eu ouvi uma cadeira se arrastar.
A adrenalina era intensa – de verdade, saber que a felicidade de uma de suas melhores amigas estava na mão de um garoto insensível e bobão era meio emocionante. E estar dentro de uma dispensa minúscula com um cara lindo também – então eu meio que abracei o Lanza pela cintura, com medo de cair ali mesmo.
Ele passou o braço pelo meu ombro sem tirar a orelha da porta.
Ok, aquilo estava ficando estranho demais, até para mim.
- Então, você também recebeu uma mensagem no celular? - Koba perguntou, casualmente.
- É, pensei que vocês iam ensaiar e essas coisas... - ela respondeu.
Mais silêncio.
- Isadora... - Koba começou, mas parou no meio.
Bixa!
- Koba...? - Isadora perguntou, esperando por alguma coisa.
- Olha, eu nem sei como dizer isso, então vou falar tudo de uma vez só. Não me interrompe, ok? – ele começou de um jeito atrapalhado, e parou para respirar antes de continuar. - Eu sei que você falou todo aquele negócio de mundos diferentes e essas coisas, e eu concordei com você. Mas desde que eu botei meus olhos nos SEUS lindos olhos, eu não consigo mais tirá-la da cabeça! Sabe, eu nunca me senti assim e... Eu não sei se eu consigo ficar longe de você! Sério, Isa, esquece esse negócio todo da escola, esquece todo mundo, e só fica comigo...
Então veio o silêncio. O maldito silêncio.
Lanza apertou o braço na minha cintura e eu senti sua respiração no topo do meu cabelo.
Mas a curiosidade – como sempre – falou mais alto do que o momento no-armário-apertado-com-um-gato. Eu abri a porta devagarzinho, e vi Isadora e Koba no beijo mais apaixonado que eu já vira na vida.
Sabe aquele beijos de filme que você suspira e deseja estar dando um igual com o carinha que gosta?
Esquece. Aquele era melhor. Muito melhor.
Isadora estava ajoelhada na frente de Koba, com as mãos nas suas pernas, que se mexiam compulsoriamente, e ele segurava seus cabelos carinhosamente.
- E agora? - sussurrei para Lanza, que olhava abobalhado para a cena. - Eles vão ficar aí se pegando até quando?
- Não sei. - ele disse, desviando o olhar do casal e olhando para mim, com um olhar pervertido. - Mas eu não me importo de ficar na dispensa mais um pouco.

Lanza fala:

- É claro que não se importa. - ela disse, virando os olhos brilhantes de emoção para mim. Mas eu não podia censurá-la. Eu também estava feliz por Koba. - É sério, Lanza Reis, o que a gente faz?
Olhei para o casal que se beijava apaixonadamente na cozinha. Talvez se passássemos correndo por eles, nem iriam perceber.
- No três? - sussurrei. Ela assentiu com a cabeça. - Um.
- Dois. - ela sussurrou e seu hálito de halls de melancia soprou no meu rosto.
- Três!
Nós dois saímos correndo o mais silencioso possível. Mas acho que os dois estavam tão entretidos no beijo que nem se um elefante peidasse no rosto deles, iriam ligar.
Mas é claro que iriam sentir.
Saímos correndo pela porta mas a adrenalina ainda era muita, então só fomos parar de correr lá pelo final da rua, onde nos jogamos no chão ofegantes e rindo como idiotas.
- Você PRECISAVA ver sua cara! - ela guinchou, rindo mais ainda.
- A minha? - exclamei, me jogando no meio da rua deserta. - Você quase teve um infarto. - então, sério, continuei: - quase ter perdemos...
Então rimos mais um pouco.
Fazia muito frio lá fora, mas dentro de casa eu estava com calor – seria a míni-saia de Victória? - então estava só de calça jeans. Só que, depois do choque de adrenalina, lá fora, sem camiseta, meu traseiro estava congelando.
- Putaqueopariu, tô morrendo de frio! - eu resmunguei, me levantando.
- Claro, você tá parecendo um go go boy! - Victória brincou, apontando para meu peito nu.
- Fica na sua, menina da míni-saia! - eu respondi, ajudando-a se levantar.
- Ok, e agora? Eu realmente estou congelando! - ela disse, envolvendo os braços num auto abraço, cobrindo a blusa de regata que mostrava parte da barriga definida.
Droga!
- Não sei... - respondi. - Mas em casa não podemos voltar. Provavelmente eles estão se comendo agora, e eu não quero interromper.
- É... - ela murmurou, mas pra ela do que pra mim. Então piscou umas três vezes e me olhou. - Vamos lá em casa! Minha mãe foi visitar uma amiga em outra cidade e só deve voltar depois de amanhã.
O quê? Victória estava me convidando para passar a noite na sua casa?
Olhei para ela, que piscava seus longos cílios para mim.
Mesmo com todo aquele negócio de odiá-la, eu podia muito bem beijá-la naquele exato momento.
- Nós chamamos os outros! - ela continuou, falando rápido, dando a impressão de que se não falasse aquilo eu não iria para sua casa.
“Mas claro, era bom demais pra ser verdade” pensei.
O que estava acontecendo comigo? Eu realmente queria ficar sozinho com Victória ou era o frio que estava confundindo as minhas idéias?
- É, pode ser. - eu disse, pegando meu celular para ligar para Koba e Pe Lu, que estavam jantando não sei aonde com não sei quem. Victória fez o mesmo, ligando para as amigas.
Expliquei para eles o que estava acontecendo e primeiro eles ficaram tipo: “O quê? Ele tá gostando da Ribeiro?”, mas logo depois concordaram e disseram que chegariam na casa de Victória lá pelas 22h. Victória desligou o celular um pouco depois e disse que as meninas já estavam indo.
- Bom, vamos? - ela disse, começando a andar.
- Como assim vamos? - perguntei, correndo atrás dela para alcançá-la. - Vamos pedir um táxi! Sua casa é tipo, umas 15 quadras daqui! Eu vou chegar lá sem as duas pernas e com hipotermia!
- Larga mão de ser preguiçoso, Lanza Reis! - ela disse, me empurrando como se fôssemos bons e velhos amigos. - São 11 quadras daqui e eu conheço um atalho.
- Atalho? Por onde?
- Pelo bosque. - ela respondeu, dando pulinhos pela rua como uma criança feliz. Estava me segurando para não agarrá-la ali mesmo. Ela estava tão linda, toda semi-nua e feliz! Mas quando ouvi a palavra bosque tudo isso sumiu da minha cabeça e eu parei subitamente.
- Bosque? - perguntei, incrédulo. - Ok, você tem duas escolhas andando pelo bosque às – olhei para o relógio. - 8:23h. Ou você vai ser estuprada ou morta por traficantes. Quer escolher ou vai na sorte? Rodandooo!
Ela riu do meu comentário e logo depois perguntou:
- O que foi, Lanza Reis, você tá com medo do bicho papão?
- Não exatamente do bicho papão, Hackmann. - eu respondi, arqueando a sobrancelha. - Acho que estou mais com medo dos traficantes...
- Ok. Então vamos apostar, quem chegar primeiro até o final da rua escolhe por onde iremos, já! - ela disse, e disparou pela rua.
- Hey! Não vale! - gritei, correndo atrás dela. - Você tá roubando!
Ela – ó, mas que surpresa! - chegou primeiro ao final da rua, e quando eu cheguei, ela ficou falando no meu ouvido baixinho: “Eu ganhei, eu ganhei!”.
- Ok, vamos pelo bosque. - falei, virando os olhos. - Mas se eu morrer eu volto pra puxar seu pé!
- Pode voltar, eu não sou medrosa que nem você!

Victória fala:

Certo. A idéia do bosque foi meio que... Suicida.
Era tudo escuro e sombrio, e a atmosfera parecia de um filme de terror macabro. Nem a lua brilhava mais.
- Lanza Reis? - eu sussurrei. Estávamos de mãos dadas para não cair e eu tremia mais de medo do que de frio.
- Oi? - ele sussurrou de volta, apertando minha mão. Estava andando na minha frente e eu tinha uma visão panorâmica dele.
Ui.
- Eu tô com medo. - sussurrei de volta, ficando mais perto dele.
Em volta, o vento soprava nas árvores e fazia aquele barulho como se fosse um fantasma chorando. Nós pisávamos em galhos secos e sempre que um estalava eu dava um gritinho.
Íamos totalmente morrer ali.
- E quem é o medroso agora? - ele brincou.
A única pessoa no mundo que poderia brincar num lugar daqueles.
- Eu sou. - respondi, com a respiração falhada. - Sério, já admiti, vamos voltar agora?
- Nós já andamos tudo isso e agora você quer voltar? - ele perguntou, se virando para trás e parando.
- Pelo menos até agora nós não morremos, para trás é seguro! - eu choraminguei.
- Não se preocupe com isso, se alguém nos viu aqui, provavelmente mandou cercar o bosque e nós vamos morrer tanto no final quanto no começo. - ele respondeu, indiferente.
- Pára com isso, Lanza Reis! - eu disse, dando um soco no seu ombro. Ele sorriu pra mim – um sorriso que se eu não estivesse com tanto medo faria meu coração derreter – e disse, paternalmente:
- Relaxa, Vic, eu não vou deixar nada acontecer com você.
- Promete? - eu perguntei, me juntando mais a ele.
- Prometo. - ele respondeu, quase que no meu ouvido.
Nós estávamos muito – muito mesmo – próximos, e ele se inclinou. Colocou suas mãos quentes na minha cintura e me puxou para perto dele. Eu espalmei as minhas mãos no seu peito nu e quando nossas bocas estavam a poucos centímetros de distância ouvimos uma voz grave exclamar:
- Quem está aí?
Eu dei um gritinho agudo e abracei ele pela cintura, afundando minha cabeça no seu peito e fechando os olhos. Ele passou as mãos pelo meu cabelo, encostou a cabeça na minha e nós ficamos imóveis, respirando fundo.
- Quem está ai? - repetiu a voz, e pelos olhos fechados pude ver um feixe de luz. Abri os olhos rapidamente e respirei aliviada ao ver que era o guarda do bairro, segurando uma lanterna em uma mão e um Pastor Alemão na outra.
- Estamos a salvo! - gritei, soltando Lanza e jogando a cabeça para trás. Ele riu e disse para o guarda:
- Desculpe, estávamos pegando um atalho para casa dela.
- Atalho pelo bosque à noite? - ele perguntou, irônico. - Sei.
- É sério! - eu exclamei, mas parece que ele continuou não acreditando, porque, bem, estávamos semi-nus e abraçados até pouco tempo.
- Eu dou carona para vocês. - ele disse, girando as chaves do carro na mão.
Seguimos-o até o carro e ele nos entregou sãos e salvos na minha casa, dando a última recomendação:
- Não façam nada que seus pais não fariam!
E foi embora.

Lanza fala:

A casa dela era, sem exageros, gigante.
Só o banheiro do hall devia ser do tamanho do meu quarto.
Era toda branca e espelhada, e o piso era quente. Juro por Deus que o piso de mármore era quente. Eu tirei minhas meias para ver se não estava delirando.
- O chão tem um sistema térmico. - ela respondeu, acabando com todas minhas perguntas.
Subimos pela escada e fomos até a sala de Tv. Sala de Tv? Isso era chamado de sala na minha casa. E nós só tínhamos uma, diferente dela, que tinha umas 5.
Ela se jogou no tapete creme peludo do chão e abriu os braços. Achei estranho, mas mesmo assim eu queria beijá-la inteira.
- Quase tive um infarto agora! - ela exclamou, se contorcendo toda para trás e pegando um telefone estranho no criado-mudo ao lado do sofá de couro branco. - Rosa, trás alguma coisa gostosa pra eu comer com meu amigo? Valeu!
Abri a boca. Ela tinha até um telefone particular com a empregada?
Joguei-me ao seu lado e me apoiei com os cotovelos, admirando seu lindo corpo.
- O quê? - ela perguntou, percebendo que eu a olhava de um jeito estranho. Balancei a cabeça e respondi, deixando meus cotovelos moles e caindo sobre eles: - Nada não.
- Ah, não vai dizer, Lanza Reis? - ela perguntou, e logo depois eu senti uma almofada na minha cara. Peguei-a e joguei de volta nela, que pegou outra e jogou em mim. Eu peguei essa mesma e num movimento ninja peguei a que tinha jogado e joguei as duas, só que uma acertou seu rosto e bateu no olho.
- Ai! - ela exclamou, colocando a mão no olho direito. Arrastei-me até ela e passei a mão no seu cabelo fino e gostoso como seda.
- Desculpa, Vic! - eu disse, colocando uma mecha do seu cabelo atrás da orelha. Ela mantinha a mão no olhos e eu perguntei: - Deixa eu ver?
Ela tirou a mão do olho e estava meio vermelho embaixo. Nada que um gelo não resolvesse.
- Espera aí, eu vou pegar gelo.
- Não! - ela exclamou, me puxando pelo braço. Eu voltei a me ajoelhar ao seu lado e ela corou. Colocou a mão de volta no olho e me olhou, piscando o olho esquerdo. Mas logo retomou a indiferença de sempre e disse: - A casa é grande, você pode se perder.
Até parece.
- Ok. - eu disse, saindo de perto dela e me sentando no sofá de couro. A empregada Rosa entrou na sala e colocou dois hambúrgueres com tudo que tem direito em cima de uma mesinha dobrável que ela trouxe.
- Já subo com a Coca. - ela disse, e desapareceu pela porta.
Victória se ajoelhou perto da mesa e me chamou com a mão para fazer o mesmo. Ajoelhei-me ao lado dela e comecei a devorar meu hambúrguer.
- As meninas só vão chegar às 22h. - ela começou, dando uma mordida de passarinho no hambúrguer.
- Então provavelmente elas estão com os meninos, porque eles também só vão chegar as 22h. - eu respondi.
Traíras.
- Por que será que não nos chamaram? - ela perguntou, lendo meus pensamentos.
- Acho que é porque nós vivemos brigando. - eu respondi, dando de ombros e mordendo novamente meu lanche, que já estava no fim. - Eles não iriam querer duas pessoas se xingando e decapitanto enquanto comem sushi com as amadas.
- Eles estão gostando delas? - ela perguntou. Rosa entrou com duas latas de Coca, despejou nas nossas canecas I Love NY, e saiu, como se fosse um fantasma. Tomei um gole da Coca e respondi:
- Sei lá.
- Como eu conheço minhas amigas, tenho certeza que será mais complicado juntá-los do que foi juntar Koba e Isa. - ela disse, tomando um gole de Coca.
- Isso não é problema para os melhores cupidos da cidade! - eu disse, levantando minha caneca de Coca. Ela levantou a dela e eu continuei. - A nossa futura agência de encontros se o McFLY não der certo.
- A nossa futura agência se eu não me tornar promotora! - ela repetiu, e bateu a caneca na minha.
Se eu não podia tê-la, pelo menos podia fazer meus amigos felizes.
Mas por que isso me deixava tão... triste?



Capítulo 5 – E as coisas começam a esquentar em Wonderland!

Victória fala:

- E aí! - Pe Lu exclamou, entrando pela porta de madeira da sala de Tv. Harry, Maria Eduarda e Júlia vinham atrás. - O que nós perdemos?
Olhei em volta. Eu e Lanza estávamos quase sem roupa, deitados no tapete da sala, cobertos por um cobertor azul celeste e assistindo Penélope.
Hum. Nada?
- Nada demais... - Lanza disse, se apoiando nos cotovelos. Fiz o mesmo e meu ombro roçou no dele. Meu coração deu um pulo. - Estávamos assistindo esse filme idiota.
- Não é idiota! - exclamei, olhando para ele, meio indignada. - Você acabou de dizer que a Penélope é bonita!
- Mesmo assim não deixa de ser idiota. - ele disse, dando de ombros.
- Idiota é você... - eu suspirei, me jogando no chão novamente.
- Meu Deus, vocês não conseguem ficar mais de dois segundos sem brigar? - Júlia perguntou, se jogando no chão ao meu lado. Os outros fizeram o mesmo, e, depois de cinco segundos, estávamos assistindo Penélope um em cima do outro, contando o caso Koba e Isadora.
- Aí nós fizemos um jantar legal pra eles... Nada melhor do que comer antes de se comer. - eu disse, e todos riram.
- Ah, que legal. Eu acho que os dois combinam! - Maria Eduarda disse, passando o braço pelo ombro de Pe Lu.
- Também acho. - ele disse, fazendo o mesmo com ela e passando os dedos pelo seu cabelo.
Os 4 estavam no maior clima romance e eu queria estar do mesmo jeito com Lanza.
Se ele não fosse tão idiota.
- Bom, acho que vamos ter que dormir aqui hoje. - Thomas disse, como se fosse a pior coisa do mundo. - Sabe como é, não quero chegar no meio da pegação e falar: Opa, continuem aí e finjam que eu não estou no quarto ao lado!
- Cala boca, D'avilla! - Júlia exclamou, dando um tapa no ombro dele. - A Isadora não vai fazer nada com o Koba.
- É, ela não é nem um pouco como as meninas que vocês andam. - Maria Eduarda completou.
- Que meninas que nós andamos? - Pe Lu perguntou, mas logo depois bateu com a mão na testa e continuou. - Ah, vocês querem dizer as meninas que nós já pegamos? Ah! Sim, elas são bem vadias mesmo...
- Deve ser por isso que Koba gostou da Isa. - eu disse, jogando o cabelo para trás, que pousou uma parte nas minhas costas e a outra nos ombros de Lanza, que não se mexeu. - Ela não é... Vaca.
- Provavelmente. - Pe Lu disse.
Continuamos a assistir o filme até o sono bater. Dormimos ali mesmo, um em cima do outro. Maria Eduarda deitou na barriga de Pe Lu, Thomas encostou a cabeça nos ombros de Júlia e Lanza despencou no meu colo.
Eu era a única acordada e fiquei olhando para ele, no meu colo, respirando vagarosamente. Seus cabelos estavam caídos no rosto e a boca estava semi-aberta. O peito nu subia e descia no ritmo do coração, e eu me arrepiava toda vez que ele se mexia.
Eu realmente não conseguia explicar o que estava começando a sentir por ele.

Lanza fala:

Acordei com uma avalanche de cabelos lisos no rosto. Pisquei os olhos algumas vezes para ver se era verdade que Victória estava desmaiada no meu peito.
Putaqueopariu, Victória estava mesmo desmaiada no meu peito!
Mexi-me em silêncio, tentando ao máximo não acordá-la. Olhei em volta e vi os outros 4 desmaiados. Victória suspirou e se virou para meu rosto, a boca rosada e os cabelos bagunçados.
Eu ainda estava pensando no que fazer quando ela abriu os olhos e piscou algumas vezes, olhando sonolenta para mim. Depois se apoiou nos cotovelos e perguntou, com a voz embolada:
- Nossa, a gente dormiu aqui?
- Parece que sim. - respondi, sorrindo para ela, que sorriu de volta.
Às vezes eu pensava que ela também poderia sentir algo por mim.
- Acordamos? - ela perguntou, apontando para os outros que roncavam. Mexi a cabeça negativamente e ela se levantou, envolvendo os braços no corpo.
- Vou pegar uma roupa mas quente. Quer uma?
- Como assim? - perguntei, imaginando um armário insano, cheio de roupas femininas e masculinas. Doideira!
- Você é exatamente do tamanho do meu irmão. - ela respondeu, esclarecendo minhas dúvidas.
- Ah... Ok, é, pode ser.
Saímos pela porta de madeira e andamos pelo extenso corredor, que também tinha o piso quente. Ela abriu outra porta, e entramos no que parecia ser o quarto do seu irmão.
- E onde está seu irmão? - eu perguntei casualmente, porque eu não sabia que ela tinha irmãos. Aliás, duvidava que alguém soubesse. Victória raramente falava da família. Eu sabia disso porque já tinha ouvido suas amigas comentarem.
- Longe. - ela respondeu, abrindo a gaveta do armário bruscamente.
- Como assim? - perguntei, sentindo uma fisgada no coração ao ver o olhar triste dela.
- Ele foi morar com meu pai na Holanda. - ela respondeu, mexendo furiosamente na gaveta do irmão. Ajoelhei-me atrás dela e coloquei as duas mãos no seu ombro. Ela permaneceu rígida, mas se acalmou, puxando uma camiseta verde clara de manga comprida da gaveta e me estendendo.
- Não precisa se preocupar. - ela disse, levantando-se, caminhando até a porta e se apoiando na batente. - Eu não vou chorar no seu ombro ou qualquer coisa do tipo. A saudades que eu tinha dele já passou...
- Eu não estava preocupado com isso. - eu disse, vestindo a camiseta e observando o olhar triste dela. Então percebi o porquê dela ser tão fechada e implicante. Sempre pensei que fosse pelo fato dela ser popular e todas essas merdas, mas não era nada disso. Provavelmente ela só estava triste demais com os problemas na família para levar a vida normalmente. E isso só fez meu coração bater mais rápido e minha respiração falhar novamente.
Era oficial. Eu estava completamente apaixonado por ela.
- Que bom. Porque eu não costumo chorar muito.
Levantei-me e fiquei de frente para ela na batente da porta. Peguei nas pontas do seu cabelo e ela fechou os olhos, inclinando a cabeça para trás. Então eu me ouvi dizendo, já no seu ouvido:
- Mas deveria. Você não pode guardar tudo para você.

Victória fala:

Levantei meu rosto e sorri para Lanza, que parecia mais adulto com a camiseta.
Aquela costumava ser a camiseta preferida do meu irmão, e naquele momento, olhando para ele, eu me lembrei muito de Ryan e de como ele costumava ser brincalhão e implicante como Lanza.
Eu era muito próxima ao meu irmão, mas depois que ele se mudou nós meio que... paramos de nos falar.
Mas talvez Lanza fosse um lembrete do meu irmão para não levar a vida tão a sério. E de me lembrar também que ele sempre estaria, de um jeito ou de outro, olhando por mim.
E foi por isso mesmo que eu dei um soquinho no ombro de Lanza e exclamei, disparando pelo corredor:
- Quem chegar por último na cozinha faz os lanches!
- Hey! - ele exclamou, correndo atrás de mim. - Roubando de novo?
Mas dessa vez ele foi mais rápido e me alcançou, me pegando no colo e descendo pela escada correndo, enquanto eu gritava que nem louca:
- Me põe no chão! Nós vamos cair!
E não deu outra. Chegando no último degrau, Lanza escorregou no tapete persa e caiu sentando no chão, e eu cai por cima dele. Nossas pernas se encaixaram e eu deixei minha cabeça despencar no seu peito. Ríamos sem parar e ele ficava falando:
- Sai de cima de mim! Você vai me matar!
Quando finalmente conseguimos parar de arfar e rir, joguei meus cabelos para trás e olhei para seus olhos, que pareciam sorrir. Ele tocou a ponta do meu nariz com o dedo e desceu para meus lábios, que sorriram involuntariamente. Sem pensar muito, me inclinei para frente e nossos lábios se tocaram pela primeira vez. Mas por pouco tempo, porque logo em seguida ouvi Júlia gritar do andar de cima:
- SAI DE CIMA DE MIM, D'AVILLA!
Afastei meus lábios de Lanza e olhei para a escada. Ele beijou meu pescoço e por pouco eu não ignorei as meninas lá em cima e voltei a beijá-lo.
Veja bem, por pouco eu não fiz isso.
- VOCÊ QUE TÁ EM CIMA DE MIM, MALUCA! - Thomas gritou de volta e eu pulei de cima de Lanza, já subindo a escada com passos firmes.
Cheguei na sala de Tv, com Lanza atrás de mim, a tempo de ver o inferno na terra.
Thomas estava bagunçando os cabelos de Júlia enquanto ela gritava: “Pára com isso!” e dava tapas em qualquer lugar que alcançasse. Maria Eduarda pulava em cima de Pe Lu que ria sem parar e na Tv o Geraldão Caminho [N/A: By Marcella.] do My Chemical Romance gritava uma de suas músicas dramáticas.
- HEY! - eu gritei, me jogando no meio de Pe Lu e Maria Eduarda. Harry parou de encher o saco de Júlia e olhou para mim, e ela fez o mesmo. - Vamos parar com a putaria, galerinha no mal? Nós temos um Koba e uma Isa para zoar!
- Eu dirijo! - Pe Lu exclamou, mergulhando em cima de Harry e roubando as chaves do conversível vermelho.
- Dirige o seu cu! - Thomas replicou, pegando a chave de volta, deixando Pe Lu com cara de bebê babão. Então olhou para o resto de nós e disse, girando as chaves no dedo. - Vamos?
Dois minutos depois estávamos descalços, descabelados, idiotas e exagerados, gritando no conversível de Thomas enquanto ele nos levava até a casa dos meninos.
“Now dance, fucker, dance! Man, he never had a chance! And no one even knew? It was really only you?” todos gritavam – dessa vez sentados – e riam quando Júlia errava a letra da música.
Mas quem não erra as letras do Offspring?
- Chegamos. - Thomas disse, freando bruscamente o carro. Virei meu rosto para o lado e meu olhar cruzou com o de Lanza. Senti meu rosto queimar. Será que eu teria coragem de falar com ele depois daquele pseudo beijo? - Vamos entrar devagar e pegar eles no flagra!
- Ok, ok! - eu disse, toda animadinha. Olhei novamente para Lanza, que fazia uma careta engraçada para Pe Lu, que estava roendo as unhas. Ele lembrava muito meu irmão.
- Hey. - ouvi ele sussurrar no meu ouvido, assim que Pe Lu tinha parado de gritar com ele sobre como ele tinha direito sobre suas unhas e como ele gostava de roê-las. - Você tá bem?
- Tô. - respondi, respirando fundo.
- Ok. - ele disse, envolvendo o braço na minha cintura no exato momento em que Maria Eduarda olhou para nós. Ela arqueou a sobrancelha e exclamou:
- Olha, será que vamos ter outro casal?
Olhei para Lanza, que tirou a mão rapidamente e colocou no bolso, se explicando:
- Eu só fui pegar um negócio que caiu ali no banco, só isso...
- Ahám. - ela respondeu, mas logo sua atenção se voltou para Pe Lu, que assoviava aquela música do Happy Three Friends e pulava na calçada que nem um gnomo.
Olhei para Lanza em um sorriso aliviado e ele sorriu para mim.
Mas até quando poderíamos esconder aquilo?
E, aliás, o que era aquilo?

Lanza fala:

Entramos em casa e encontramos os tênis de Koba e os chinelos de Isadora jogados no chão do hall, junto com suas blusas. Nos entreolhamos, tentando segurar as risadinhas do tipo “opa”, e continuamos, subindo as escadas.
Chegando ao quarto de Koba, encontramos a porta entreaberta e de dentro a luz solar invadia o cômodo e parte do corredor. Estávamos nos segurando para não começar a rachar o bico e acordar os pombinhos.
- Ok, quem vai primeiro? - eu sussurrei.
- Eu não quero ver o Koba boy pelado, dude... - Pe Lu respondeu, fazendo careta.
Victória deu um beliscão nele e Maria Eduarda resmungou:
- Cala boca, Munhoz, Isa nunca faria isso!
- Ok bibas, se ninguém vai, eu vou! - eu disse, já sumindo pela porta.
A cama de casal estava desarrumada e dois corpos abraçados respiravam em sintonia embaixo das cobertas. E, para meu alívio, os dois estavam vestidos.
Coloquei a mão para fora do quarto e chamei os outros para entrar. Paramos em silêncio em frente a cama e nos posicionamos para fazer o que tínhamos combinado de fazer no dia anterior.
- Um, dois, um, dois, três, quatro, vai! - Thomas sussurrou, batendo os dedos no criado-mudo como se fossem baquetas.
- Tonight, I'm gonna have myself, a real good time, I feel alive! - eu comecei a gritar.
- And the world, is turning inside out, yeah! And floating around, in ecstasy! - Victória cantou, mais alto que eu.
- So don't stop me now! - Maria Eduarda, Pe Lu, Harry e Júlia cantaram, e Isadora começou a se mexer.
- Don't stop me now! - eu gritei, e ela acordou definitivamente. Levantou a cabeça e os cabelos varreram a cara de Koba, que continuava imóvel. Ele resmungou algo do tipo “bacon com ovos” e virou para o outro lado.
Isadora o cutucou com cara de assustada e continuou nos ouvindo cantar, piscando os longos cílios para nós, até que Koba finalmente levantou a cabeça, meio atordoado pelo sono. Coçou a cabeça e olhou para nós, desfocado.
- E aí, dudes! - ele disse, sorrindo para mim. Isadora olhou para Koba, depois para mim, depois para Koba de novo. Então começou a rir.
Sem parar.
Sério. Tipo, ela começou a gargalhar.
E como todos lá eram meio retardados, começamos a rir junto. Menos Koba, que ainda estava nos olhando meio desfocado. E quando finalmente paramos de rir, ele olhou para mim e perguntou, de um jeito meio bobalhão e inocente:
- O quê?
E aí nós rimos mais um pouco.

Mais tarde.

- Não acredito que elas vão nos forçar a ir em uma festa do colégio. - eu resmunguei, colocando a espada falsa de volta na bainha. - E ainda por cima à fantasia!
- Você só está reclamando porque a sua fantasia é meio boiola, dude. - Pe Lu brincou, colocando a máscara de Zorro. - Se você fosse o Zorro e não o príncipe encantado, iria gostar, pode acreditar!
- Melhor do que o Zorro, só o Coringa! - Koba exclamou, entrando no quarto com seu terno roxo, terminando de passar batom vermelho na bochecha. Quando ele terminou, passou a língua pela boca exatamente igual ao Coringa em O Cavaleiro das Trevas, e todos nós rimos, menos Harry, que estava sentado na cama, emburrado.
- Pelo menos você não é o Barney! - ele murmurou, enfiando o rosto nas mãos. Ele estava sentando há um bom tempo na cama com um terno rosa escrito Barney na lapela, porque nós simplesmente não conseguíamos vê-lo em pé, com o rabo rosa saindo da calça, sem mijar de rir.
- É, verdade... - todos nós concordamos, segurando o riso.
- Tá, as menininhas já acabaram? Eu quero ir logo ver minha garota. - Koba nos apressou e foi atingido por vários tapinhas e cutucões.
- Vamos, meninas, a biba quer ver o pitelzinho! - eu disse, batendo no ombro de Koba. E alguns minutos depois estávamos no carro de Thomas com os cabelos voando no rosto, quase chegando na escola.
Fomos direto para lá. Confesso que fiquei meio deprimido quando as meninas disseram que não iriam precisar dos nossos serviços pois iam com a mãe de Victória para a escola.
Mas tudo bem, era mesmo bom ficar só com os dudes, sem nenhuma menina chata e gostosa por perto.
Claro...
Quando chegamos na escola, nos deparamos com o ginásio de basquete completamente mudado. Do teto saíam redes de lycra verdes limão e por todo o lado víamos arranjos e balões verdes-limão. Eu nem sabia qual o motivo da festa, mas alguma coisa com verde tinha.
Ah, se tinha!
As luzes da pista de dança eram fortes e a música eletrônica fazia o chão tremer. Exatamente o que eu mais odiava no mundo.
Só não odiava mais que todas as pessoas fofocando logo que entramos no salão, falando por cima de suas vodcas com gelo como se nós não pudéssemos ouvir.
- Ouvi dizer que o produtor deles deixaram eles na mão e agora eles estão se prostituindo para as meninas. Pra ganhar algum dinheiro. - Isabella Matriz falou a uma amiga gorducha ao seu lado, que assentiu ferozmente com a cabeça.
- É, e os pais deles os expulsaram de casa, por isso que eles moram juntos. Ah, e também porque Koba e Thomas são gays. - James Oliver disse, e seus amigos começaram a rir.
E depois o nosso blog que era fofoqueiro?
- Ok, acho que eu definitivamente preciso de uma vodka. - Thomas declarou, assim que ouviu uma menina da oitava série dizer que tinha tara por dinossauros. Ele se virou nos calcanhares e foi rebolando seu rabo até o bar, e nós fomos atrás, rachando o bico.
Eu pedi cachaça com Fanta, – o que é muito bom e vocês deveriam experimentar algum dia desses – Thomas e Koba pediram vodca com Coca e Pe Lu pediu uma cerveja mesmo.
Quando já estávamos com nossas bebidas na mão e falávamos sobre um novo produtor que nos ligou há alguns dias, ouvimos os murmúrios começarem novamente, só que dessa vez mais intensos e mais... picantes.
- Eu ouvi dizer que elas estão pagando os meninos da Restart para que finjam ser seus namorados, assim elas não tem que andar por aí solteiras, porque, convenhamos, é o maior mico! - Kelly Putzer disse, soltando uma risadinha abafada. Como se todos não soubessem que ela era a maior corna de todas.
É, comandar um blog de fofocas te deixava por dentro de tudo.
- É, e elas combinaram de ficarem grávidas juntas esse ano, e querem engravidar deles. Se elas não beberem hoje, provavelmente já estão grávidas! - Rachel Robinson guinchou, tomando um gole de Coca pura.
Hã... Quem estava grávida mesmo?
- Mas que porra toda é essa que estão fal... - eu comecei a dizer, mas minha boca despencou quando meus olhos pousaram nas portas de entrada.
Putaqueopariu!
Victória e suas amigas entravam e estavam simplesmente... Lindas!
E hots.
Júlia estava de colegial – ou qualquer merda do tipo – com uma saia curtíssima cinza de pregas, uma camisa de manga comprida, branca e decotada, sapatos boneca pretos de salto e uma meia branca que ia até um pouco acima do joelho. Os seus cabelos compridos e ondulados estavam presos em um rabo-de-cavalo alto e ela quase não usava maquiagem.Thomas arqueou a sobrancelha e olhou para o outro lado, temendo, pelo que parecia, alguma reação precipitada.
Maria Eduarda estava de dançarina de tango, ou sei lá o nome das mulheres com rosas no cabelo e vestidos vermelhos, mas pra mim é o que ela era. Seus cabelos estavam soltos pelos ombros e uma rosa pendia em uma mecha presa. O vestido, como eu já disse, era vermelho, curto e apertado no corpo, com uma só alça do lado direito. Ela também usava uma meia fina desfiada que acabava no par de escarpins vermelhos. Pe Lu tomou um gole da sua cerveja e limpou a boca com as costas das mãos.
Isadora estava de Batgirl, com um vestido de couro preto colado ao corpo e uma bota de combate combinando, que ia até o meio das coxas. Ela colocou um chicote preto no cinto e enfiou uma mecha dos cabelos frisados no cabeleireiro atrás da orelha, mostrando as luvas pretas de cetim que iam até os cotovelos. Koba estremeceu ao meu lado.
Mas, na minha humilde opinião, a mais bonita era Victória, sem sombra de dúvidas.
Ela estava de fada, com um vestido lilás curto, decotado e com duas fendas na saia. Duas asinhas transparentes saiam de suas costas e os cabelos caíam pelos ombros e chegavam a sua cintura modelada. Duas mechas da frente do cabelo estavam presas para trás com uma piranha de borboleta e ela usava uma sandália de salto lilás, com as belas e torneadas pernas amostra.
Eu podia sentir que nunca mais iria fechar a boca novamente.
- Dude... - foi a única coisa que eu consegui falar, antes de abrir a boca de novo.
As meninas começaram a andar em câmera lenta pelo salão e minha mão começou a formigar. Com os outros não era diferente.
Olhe, não me leve e mal. Muitas meninas no salão estavam lindas, mas nós já havíamos ficado com a maioria e... Acho que todos nós já começávamos a sentir algo a mais pelas patricinhas mais chatas do colégio.
- Fecha a boca, Lanza. - Thomas balbuciou, me dando um tapa no ombro, agora sem tirar os olhos dos peitos de Júlia.
- Fica na sua, Barney. - eu respondi.
Elas finalmente – para mim foram duas horas esperando – chegaram a nossa roda e sorriram, depois de analisarem nossas fantasias escolhidas, bem... por elas mesmas.
- Serviu direitinho! - Maria Eduarda exclamou, animada, olhando Pe Lu de cima a baixo.
- Ficou uma graça! - Júlia brincou, fazendo Thomas dar uma voltinha. Ele deu sem pestanejar, porque ainda estava meio grogue pelo decote da menina.
Consegui, finalmente, desviar o olhar de Victória, e pude ver a hora exata que Koba pegou o chicote de Isadora e a puxou para perto dele, que, por sua vez, sorriu envergonhada quando ele sussurrou alguma coisa no seu ouvido.
Nesse instante, os murmúrios ecoaram mais forte pelo salão, e se Koba não estivesse realmente apaixonado por Isadora, eu daria um tapa em sua cabeça e diria que ele estava acabando com a nossa reputação.
E enquanto pensava em tudo isso, Maria Eduarda, Pe Lu, Thomas e Júlia sumiram para dançar – sim, Pe Lu e Thomas dançando. Você não entendeu errado – me deixando sozinho com a menina que eu mais amava odiar e que mais odiava amar.
Ótimo.
Olhei com o canto dos olhos para seu rosto maravilhoso, e vi que ela não tirava os olhos de mim. Resolvi virar todo meu corpo para ela, mas foi em vão, porque ela continuou me olhando de um jeito esquisito.
- O quê? - perguntei, arqueando a sobrancelha. Ela sorriu docilmente e, por pouco, eu não caí em contradição e a agarrei ali mesmo.
- Você ficou... - ela começou a dizer, ainda com o sorriso adorável no rosto, mas aí mordeu os lábios como se lembrasse com quem estava falando, e continuou, um pouco áspera. - Engraçado.
- Pode falar que eu fiquei sexy, Hackmann. - eu disse, dando de ombros. - Isso não vai te matar, sabia?
- Ok... - ela concordou, balançando os cabelos e piscando os olhos expressivos. Depois mordeu o lábio novamente, mas de um jeito mais provocante, e chegou bem perto de mim, sussurrando no meu ouvido: - Você ficou realmente sexy.
Olhei em volta pelos ombros dela, com os cabelos caídos no rosto, e vi que o salão inteiro ainda nos encarava.
Bom... Foda-se.
- Só não entendi uma coisa. - eu sussurrei, puxando-a pela cintura, até que seu colo encostou no meu. Ela deu um gritinho, mas logo se encostou em mim e perguntou:
- O quê? - encostou os lábios no meu ouvido e um arrepio passou pela minha coluna vertebral. Eu mordi o lábio inferior, fechei os olhos e respirei fundo.
Ela me deixava louco.
- Todos estão combinando. Barney e colegial, Zorro e dançarina da tango, Coringa e Batgirl, mas... - puxei ela pra mais perto, como se quisesse fundi-la ao meu corpo. Com uma mão ela segurou firme em minha nuca e a outra deixou cair mole ao lado do corpo. - Príncipe e fada?
- E quem foi que disse que eu quero combinar com você? - ela sussurrou, dando uma risadinha e descolando seu corpo do meu. Depois se virou e começou a andar na direção oposta a que estávamos.
Ah, aquilo não ia ficar daquele jeito!

Victória fala:

Ok, eu não consegui agüentar. Eu precisei provocar!
Talvez fosse a roupa de vadia que eu estava usando.
Vai saber...
Só sei que saí andando, com um sorriso triunfante no rosto. Sabe como é, ter o pegador do Lanza Reis babado por mim era até que legal.
Legal? Era ótimo!
Mas o ar de dominação que eu demonstrava sumiu um pouco depois, quando ele me pegou pelo braço e me virou para ele, colando seu corpo ao meu e roçando seu nariz na minha bochecha.
- Você não me engana. - ele disse, com os dentes cerrados, e pela primeira vez na noite, eu encarei seus olhos. - Você pode esconder o que quiser debaixo dessa máscara de indiferença, mas não me engana. Nunca me enganou.
- O que você quer dizer com nunca me enganou? - eu provoquei, passando a língua pelos lábios.
- Eu quero dizer que eu sempre te observei de longe e sempre soube o que você pensava entre os sorrisos falsos e o falso interesse na conversa dos seus amigos. - ele disse, aproximando sua boca da minha. - E, como eu tenho esse poder de ler pensamentos, eu sei, por exemplo, que agora você me quer o tanto que eu te quero.
Fechei meus olhos e me deixei levar, pela segunda vez no dia. Seu perfume me envolvia e senti a mesma vontade de beijá-lo que sentira mais cedo.
Mas como nem tudo são rosas, e quando se trata de Victória e Lanza Reis, tudo dá errado, senti uma mão me cutucar no ombro, no instante em que pensei que ele me beijaria ali na frente de todo mundo e acabaria de uma vez por todas com aquelas fofocas sem noção.
Virei-me para trás imediatamente, ignorando minha vontade de agarrar Lanza pelos cabelos.
Tudo pela boa aparência.
- Oi! - exclamei, tentando disfarçar minha respiração ofegante. Quando levantei meus olhos dei de cara com John, que sorria falsamente e passava a mão nos cabelos dourados que caíam no rosto.
- Putaqueopariu, agora eu preciso de um banho gelado. - ouvi Lanza reclamar, mas ignorei e me voltei a John.
- Fala. - disse, meio ríspida.
Mas porra! Ele tinha acabado com todo o clima!
John me olhou de cima a baixo e seus olhos brilharam pervertidos. Lanza se mexeu impaciente atrás de mim.
E esse era o problema de ir feito uma vadia nas festas da escola.
- Então, sei lá, você quer dançar? - ele perguntou, passando as mãos novamente nos cabelos. Olhei para ele de cima a baixo também, e não posso mentir. Ele estava bem gato de Elvis moderno.
Mas ele tinha me atrapalhado para falar aquilo? Podia ser uma coisa mais emocionante, não podia?
- Hum, não, desculpe John. - eu disse, entortando a boca. - O meu amigo aqui quer ajuda com uma menina e eu preciso bancar a cupida! - continuei, batendo com a mão nos ombros fortes de Lanza. Ele olhou para mim curioso e eu só pisquei para ele. - Então, vamos lá, Lanza Reis?
- Hum... Vamos? - ele respondeu, meio inseguro.
- A gente se vê por aí, John! - eu exclamei, empurrando Lanza pelas portas principais do salão.

Lanza fala:

- Agora você pode me explicar por que estamos congelando nossas bundas nesse frio se lá dentro temos aquecimento, comida e o que é mais importante, bebida? - eu perguntei, quando finalmente Victória parou de dar voltas pelo ginásio e se sentou em um banco de madeira no gramado verde oliva do colégio. Os cabelos de Victória à luz do luar brilhavam, e ela parecia um anjinho reluzente.
- Porque eu não suporto mais aquelas pessoas. - ela disse, dando de ombros. Depois olhou para cima e suspirou. Sentei-me ao lado dela e olhei para cima também.
- Que foi, seu afetado, resolveu me imitar? - ela brincou, me dando um tapinha no ombro. Eu dei outro e ela me deu um mais forte. Então eu olhei para ela com aquele olhar agora-você-se-ferrou e esfreguei minhas mãos. Ela percebeu o que eu ia fazer e começou a ir para o lado, mas eu já estava com as mãos na sua cintura, fazendo cócegas.
- Pára, pára! - ela começou a gritar, mas as risadas já abafavam sua voz, e eu ficava perguntando, todo inocente:
- O quê? Não tô te ouvindo!
- Pára, por favor, pára! - ela guinchou, e eu tirei minhas mãos dela, que respirou aliviada. - Sério, eu tenho asma, você não pode fazer isso!
- Asma? Você tem asma? - perguntei, achando graça da revelação. - Como uma cheerleader pode ter asma?
- Como um babaca pode ter uma banda? - ela respondeu, me olhando nos olhos e mostrando a língua para mim.
- Como eu não me aproximei de você antes? - eu perguntei, amaciando um pouco a voz. Passei a mão pelo seu rosto, não conseguindo resistir. Ela sorriu.
- Como eu não sabia que você era tão divertido? - ela disse, roçando o nariz no meu.
- Como nós nunca fizemos isso antes? - eu respondi, e antes mesmo que ela pudesse perguntar alguma coisa, mergulhei meus lábios nos dela e a beijei com vontade.
Ela enfiou suas mãos pequenas por entre minhas mechas embaraçadas e ficou brincando com o meu cabelo, enquanto eu envolvi sua cintura esculpida com minhas mãos. Quando nos cansamos de um lado, ela virou o rosto e apoiou, junto com os seus cabelos, no meu ombro. Nós nos beijamos por muito – muito mesmo – tempo. E eu posso jurar que se não tivéssemos ouvido vozes saindo pelas portas principais, continuaríamos ali para sempre.
Ai, que coisa mais gay!

Capítulo 6 – Alguns são mais orgulhosos que outros.

Victória fala:

- Você o quê? – eu exclamei, chacoalhando Isadora pelos ombros, que estava quieta desde o começo da conversa.
- Isso mesmo que você ouviu. – Maria Eduarda disse, deixando os ombros caírem.
- Mas não foi culpa dela! – Júlia veio em sua defesa. – Ela estava bêbada!
- Mas como foi que isso aconteceu? – perguntei, soltando os seus ombros, porque pensei que se ficasse mais tempo os segurando poderia quebrá-los.
Isadora olhou para mim com os olhos tristes e por um momento eu não tive mais raiva dela. Mas só por um momento. Porque depois eu me lembrei do que ela tinha feito e a raiva voltou com tudo.
- Eu estava com o Koba. Nós estávamos ficando. – ela começou, falando lentamente. – E eu estava bebendo um pouco demais. Então ele disse que precisava ir ao banheiro, e eu fiquei esperando na mesa... Daí, do nada, apareceu a porra do John e começou a me encher o saco para dançar e ficou beijando meu pescoço, e eu não tinha forças para empurrá-lo, e o Koba não chegava, e...
- Tá. – eu a cortei. – E o que isso tem a ver com o que você disse pra ele?
- Posso terminar? – ela perguntou, parecendo irritada. Assenti com a cabeça e ela continuou a falar. – Então. Aí eu pedi para ele parar e ele parou. Mas então ficou me enchendo o saco, perguntando porque nós estávamos andando com os losers. No começo eu não respondi nada, mas aí ele voltou a beijar meu pescoço, e o Koba não chegava, e eu comecei a ficar nervosa e...
- E...? – perguntei.
- E as palavras jorraram da minha boca! – ela sussurrou, desanimada.
- Que palavras, exatamente? – eu perguntei, sentindo meu pulso se fechar.
- “Nós estamos andando com os losers porque eu descobri que eles são os donos do Conte Seu Babado e agora eles tem que fazer tudo que a gente mandar.” – ela repetiu exatamente o que tinha dito para ele.
Lanza fala:

O dia começou relativamente bem.
Mas preste atenção. Relativamente.
Acordei no meu quarto com a cabeça enfiada no travesseiro, e um fio de baba descia pela minha boca. Usava só boxers e o cheiro de Victória ainda estava em minha pele.
Nossa. A cada dia mais gay.
Levantei-me e fui ao quarto de Thomas, porque ouvi de lá uma música alta. A porra do Thomas sempre acordava duas horas antes de todo mundo.
- Tá feliz, dude? – perguntei, entrando no quarto dele de qualquer jeito e me jogando na cama. – A noite foi boa, é?
- Foi, dude. – Thomas disse, saindo de frente do laptop e se jogando na cama ao meu lado. – Eu quase peguei a Júlia.
- Por que quase? – perguntei, estranhando. THomas sempre fora o mais pegador de todos e sempre o mais rápido. Enrolar mais de uma semana para pegar Júlia estava sendo estranho.
- Porque... Ah, dude, sei lá. Eu meio que não quero pegar ela de qualquer jeito em qualquer lugar como eu sempre fiz com as outras... – Thomas desabafou. Eu olhei para ele com a sobrancelha arqueada mas depois olhei para frente.
O amor fazia essas coisas com as pessoas.
Eu ia falar alguma coisa, mas fui interrompido por Pe Lu e Koba que entraram no quarto e se jogaram na cama com nós dois.
- Nossa, todo mundo madrugou hoje? – Harry perguntou, rindo da situação engraçada e gay em que estávamos.
- É o amor, Thomas. – Koba disse, jogando a cabeça no travesseiro e encarando o teto. Pe Lu olhou torto para mim, e eu olhei para Harry e Koba que brisavam no teto.
O amor fazia essas coisas com as pessoas.
- E aí, o que nós vamos fazer hoje? – Pe Lu perguntou, cutucando Koba e Thomas, que saíram do transe da parede.
- Sei lá, eu tava pensando em ir no lasershoot. – eu sugeri, pensando em como seria bom pegar Victória no escuro do labirinto.
- Boa! – Koba exclamou, já sacando o celular do bolso. – Posso chamar as meninas?
- Pode. – eu disse, tentando parecer indiferente. Nenhum deles sabia que eu estava a fim de Victória.
A fim dela?
Apaixonado por ela!
- Alô?... Oi, linda!... Tudo, e com você?... Que bom. Linda, nós vamos no lasershoot e os meninos querem que as meninas vão, e eu quero pegar você no escuro e... Hahahaha, ok, a gente se pega no escurinho! Hahahaha... Vocês vão?... Quem tá aí?... Oi, Victória, Maria Eduarda e Júlia!... VAMOS NO LASERSHOOT? Hahahaha... Ok, combinado então!... Vai se foder você, Hackmann!... Eu não tenho culpa se a Isadora se apaixonou por mim!... Quem disse que ela tá apaixonada? Ah, nem precisa, só de ver os olhinhos dela eu já sei... Hahahaha. Ok, combinado! Às 13h em frente ao lasershoot. Beijo, Vic! Deixa eu falar com minha lindinha e... Ah, oi, Isa!... Não, era só pra te falar tchau mesmo. Tchau... Hahahaha. Ok. Beijo na boca. Tchau, linda! Até 13h!.. Também já tô com saudades! Tchau!
Koba desligou o celular e olhou para nós, que estávamos com a boca aberta e segurando animalmente a risada. Ele só mostrou o dedo do meio e saiu pela porta.
- Vai, saiam do meu quarto, é muita testosterona junta! – Thomas reclamou, nos empurrando pela porta. – E eu quero tomar banho.
Fui até meu quarto e tomei um banho demorado, tentando me livrar do cheiro da Victória. Não que eu realmente quisesse me livrar do cheiro dela. Mas se ela me encontrasse novamente com o mesmo cheiro ia pensar que eu era um maluco que não tomava banho.
Não que eu não fosse maluco.
Quando já era 12:20h, nós estávamos prontos e cheirosos no carro de Harry, nos dirigindo ao shopping.
Lasershoot, aí vamos nós!
Chegamos lá e nos sentamos em um banco de madeira, esperando as meninas chegarem. Ficamos conversando e dando em cima das meninas que passavam.
Estávamos apaixonados, mas não mortos.
- Oi, meninos! – Maria Eduarda deu o seu famoso piado animado, chegando perto do banco em que estávamos. Algumas meninas da oitava série estavam conversando com a gente, mas quando viram as garotas mais lindas/desejadas/malvadas da escola chegando, foram embora de mansinho.
- O que vocês estavam fazendo com essas meninas? – Victória perguntou, com certa raiva na voz. Sorri por dentro.
- E o que você tem a ver com isso? – eu perguntei, lançando um olhar pervertido para ela. Ela retribuiu meu olhar, como se entendesse.
- Cala boca, Lanza Reis. – ela respondeu, dando um semi sorriso para mim.
- Ok, as bibas vão parar de brigar e entrar no lasershoot ou nem? – Pe Lu perguntou, se levantando e indo em direção à salinha preta do lasershoot. Maria Eduarda se levantou com um pulinho e foi atrás dele, conversando animadamente sobre alguma coisa da festa do dia anterior. Isadora e Koba já estavam brincando de desentupidor de pias no banco e Thomasconversava baixinho com Júlia.
- Hã... Vamos? – perguntei para Victória, que sorriu pervertida.
- Claro, Lanza Reis. – ela falou em voz alta, mas aí abaixou a voz e disse, no meu ouvido: - Como se você não estivesse louco para me beijar no escuro.
Olhei para ela e sorri com a boca fechada.
- Eu não vou pagar nada pra ninguém! – eu falei em voz alta, mas aí abaixei a voz e sussurrei de volta: - Como se você não estivesse louca para retribuir meus beijos no escuro.
- Hey, Lanza Reis, espera! – THomas exclamou, vindo atrás de mim e de Victória, com Júlia ao lado. Koba e Isadora vinham atrás, abraçados.
Estávamos muito bem juntos, e eu não me sentia feliz daquele jeito há muito tempo.
É, pena que durou pouco.

Victória fala:

Até de noite, o dia foi calmo e... divertido.
Isadora manteve a boca fechada – pelo menos uma vez – durante todo o dia, e ficou pegando Koba durante todo o lasershoot.
Júlia e Thomas ficaram se matando com as arminhas e davam risada de tudo. Maria Eduarda e Pe Lu ficavam correndo pelo labirinto, ela de cavalinho nele, e tomavam bronca toda hora da mulher mal-humorada que mantinha “ordem” lá.
Tentei evitar Lanza e seus lindos olhos e cabelos. Mas foi por pouco tempo.
Estava correndo por um corredor comprido e estreito, e parei, vendo que já tinha despistado Thomas, que queria porque queria me acertar.
Encostei-me na parede e respirei aliviada. Eu realmente tinha asma.
Fiquei ali, só respirando e ouvindo os outros gritarem, quando os lindos cabelos de Lanza surgiram do outro lado do corredor, e começaram a vir em minha direção.
É, até ali era o máximo que eu podia agüentar.
- Hey, o que você tem? – ele perguntou, ficando de frente para mim e me prensando na parede. Eu respirei fundo.
Aliás, eu sempre tinha que respirar fundo quando estava perto dele.
- Nada, Lanza Reis, por quê? - eu perguntei, virando meu rosto. Ele sorriu.
- Hum, então quer dizer que você me usou e hoje já jogou fora? - ele perguntou, se encostando mais em mim. Minhas pernas se encaixaram nas dele e eu joguei minha cabeça para trás. Ele beijou meu pescoço e eu cerrei meus dentes.
- Não, Lanza Reis, você é lixo reciclável. - eu me ouvi dizendo, então levantei a cabeça dele com as duas mãos e beijei sua boca.
Ele pegou minha cintura com força – não como um animal, mas com... força – e eu meio que levantei do chão e fiquei encaixada nele. Se eu não estivesse de calça jeans provavelmente quem passasse por ali iria achar que nós estávamos fazendo alguma coisa feia.
Eu passava as mãos pelo seu rosto e cabelo ferozmente e ele me beijava com vontade, deixando escapar alguns suspiros. De vez em quando parávamos para respirar e beijar o pescoço um do outro.
- Não, Pe Lu! SAI DAQUI! - ouvi Maria Eduarda gritar e me separei imediatamente de Lanza, mas nossas blusas se enroscaram, então ainda estávamos relativamente próximos.
Relativamente? Minha boca estava a centímetros da dele.
Tentei puxar e ele também, mas na confusão de zíperes, respirações ofegantes e gritos, acabamos nos aproximando mais ainda. E os gritos de Maria Eduarda se aproximavam.
- Ai porra! - eu exclamei, quase rasgando minha blusa novinha. - Lanza Reis, e agora?
- Não seria mais fácil... - ele disse, espantosamente calmo. Levantei meus olhos nos deles, tentando entender o motivo da calma. Ele sorriu torto para mim. - Contar para eles?
- Contar o quê para eles? - perguntei, chacoalhando a cabeça freneticamente. Pela altura dos gritos de Maria Eduarda, ela estava quase virando o corredor. - Contar o que, Lanza Reis? Porra, diz logo que ainda precisamos nos desenroscar e...
Tudo meio que aconteceu ao mesmo tempo. Na mesma hora que eu disse aquilo, Maria Eduarda virou no corredor, eu puxei a blusa com força. Pe Lu veio pelo outro lado, e eu me afastei com um pulo de Lanza, que murmurou:
- Que nós estamos juntos.

Lanza fala:

É. Eu sei. Não devia ter falado aquilo. Eu sei, eu sei.
Mas o que eu poderia fazer? Estávamos grudados um no outro, Maria Eduarda estava virando o corredor e Victória estava mais linda do que nunca de calça jeans, Nike e uma blusa com touca toda puída.
Depois que eu disse aquilo, Victória abriu a boca num semi-sorri, semi-espanto, e eu fechei os olhos, aliviado por Maria Eduarda ter trombado em nós dois e caído no chão, porque Pe Lu viu a cena e se jogou no chão, rindo sem parar.
Eu não estava com ânimo nenhum de rir, mas era melhor do que ficar analisando o rosto sem expressões de Victória, tentando descobrir o que ela tinha achado do que eu tinha dito, então simplesmente comecei a rir sem parar de Pe Lu e Maria Eduarda e eles começaram a atirar em mim e eu neles.
Olhei para o lado e ela ainda estava inexpressiva, olhando para o fim do corredor, onde Thomas e Júlia vinham pulando feito cabritas.
Então veio o arrependimento.
Sabe como é. Eu tinha acabado de revelar para a menina que eu gostava que eu achava que nós estávamos juntos e ela não tinha dito nada para confirmar.
O arrependimento viria mais cedo ou mais tarde.
Quando Pe Lu finalmente levantou Maria Eduarda, eu tentei desesperadamente me livrar da situação. Não foi preciso.
- Gente, eu já cansei de lasershoot! - Isadora piou, vindo pelo corredor de mãos dadas com Koba. - Vamos para algum lugar mais claro?
- Por quê? Cansou de se amassar com Koba no escurinho? - Júlia brincou, e Isadora deu um tapa no seu ombro.
- É, vamos sair daqui. Eu não agüento mais ficar no mesmo lugar que Vic. - eu disse, tentando parecer normal e implicante como sempre. Olhei para o lado, mas ela mantinha a cabeça baixa, fitando os pés.
Realmente eu não devia ter dito aquilo.

Victória fala:

É claro que ele estava brincando. Quando Lanza iria parar de brincar comigo e falar sério?
Nunca.
Nós fomos o caminho inteiro até a casa de Thomas em silêncio, sentados ao lado um do outro. Sentia ele perto de mim mas longe ao mesmo tempo. Um frio percorreu minha espinha.
Eu tinha tentando de tudo para entendê-lo. Ou mesmo para ficar longe dele. Mas nada que eu tinha feito estava dando certo.
Talvez eu devesse simplesmente ignorá-lo, como fiz todos aqueles anos. Mesmo que por dentro eu estivesse sofrendo, como sofri todos os anos em vê-lo na escola e fingir odiá-lo.
Porque, veja bem, eu já tinha desistido de ignorar que eu sempre amei Lanza. Era a mais pura verdade.
- Onde você está indo, Judd? - Júlia perguntou do banco da frente. Desviei os olhos dos meus tênis sujos e olhei em volta. Thomas tinha passado da casa de Júlia e ia em direção a dele.
- Eu vou levar o pessoal em casa primeiro. - então disse mais baixo, com a intenção de só Júlia ouvir, falhando, porque eu ouvi tudo. - Quero te levar para um lugar.
Sorri por dentro e por fora.
Nem tudo estava perdido.
Ou estava. Quando Isadora contasse o que tinha feito. O que ela faria mais tarde aquela noite.
Estremeci.
Se o clima já estava estranho entre eu e Lanza, imagina depois que ela contasse.
Merda.
Thomasparou o carro na frente de sua casa e Pe Lu pulou do carro, com Maria Eduarda ao seu lado. Isadora desceu de mãos dadas com Koba e Lanza desceu, me fitando.
- Hã, Thomas? - chamei ele, sem mover um músculo do bando de couro branco. - Se importa de me levar para casa?
Eu não estava com o mínimo humor de ficar comendo pizza, falando merda e vendo Lanza maravilhosamente perfeito na minha frente.
Não naquela noite.
- Tudo bem. - ele disse, já dando partida no carro. Mantive a cabeça baixa, mas antes de virar a esquina, olhei novamente para a casa dos meninos.
Lanza estava parado no quintal, com as mãos no bolso da jeans dois números maiores que o que ele deveria usar, olhando para o céu.

Lanza fala:

Entrei em casa desanimado, sentindo o cheiro do perfume da Victória nos meus ombros e cabelos. Minha roupa pesava no corpo e minha cabeça doía.
Mas não era só a cabeça que doía.
- Acho que eu vou dormir. - eu avisei o pessoal, subindo pela escada. As meninas me olharam com curiosidade e os meninos só deram de ombros. Koba estava louco para ficar sozinho com Isadora e Pe Lu estava louco para finalmente ficar com Maria Eduarda, o que seria meio difícil, devido a falta de atenção que Maria Eduarda parecia ter. - Não quero estar parecendo um zumbi amanhã na escola.
- Ok, dude. - Pe Lu disse.
- Boa noite, Lanza! - as meninas falaram em couro.
- Boa noite. - repliquei e subi o resto das escadas. Entrei no meu quarto e fechei a porta. Tirei toda a roupa e liguei o aquecedor. Eu estava morrendo de frio, mas queria dormir de boxers para tentar esquecer Victória. Não ia tomar banho, estava cansado demais para isso.
Joguei-me na cama e adormeci imediatamente.
Não ouvi o que estava acontecendo lá embaixo, mas quando fiquei sabendo no outro dia, descobri porque meu coração estava tão apertado e batia freneticamente no quarto.
E não era só o meu.

Victória fala:

Passei a noite inteira me revirando na cama. Não conseguia dormir sabendo que Isadora estava na casa dos meninos e, possivelmente, contando a burrada que tinha feito a Koba.
Mas, acima de tudo, não conseguia dormir porque a visão de Lanza falando o que tinha dito mais cedo não me saía da cabeça.
Quando finalmente o cansaço venceu os meus pensamentos contínuos, relaxei os músculos na cama, mas tive que os contrair alguns minutos depois, quando ouvi o despertador tocar.
Levantei-me imediatamente, cansada de tentar pensar em outra coisa. Precisava ir para a escola para saber o que tinha acontecido.
Quando coloquei meus Adidas brancos no pátio da escola, fui recebida por Júlia, que voava em minha direção, com o fichário rosa colado ao corpo.
- Cadê os meninos? Você viu o Thomas? Ah, não importa... Quer saber o que aconteceu ontem? - ela me abordou, os olhos brilhando e a respiração ofegante.
Eu não estava com humor de ouvi-la contar da melhor noite que tivera na vida. Toda aquela coisa de amor e pegação só ia me deixar mais deprimida.
Mas eu não podia deixá-la na mão. Porque, mesmo com todos os meus problemas, ela era minha amiga.
Então, ao invés de mandá-la tomar no cu e sair andando, respirei fundo, coloquei meu melhor sorriso no rosto e exclamei:
- Conta tudo!
- Então! - ela guinchou, me puxando pelo braço e sentando-se em um banco de madeira. - Thomas deixou você em casa e depois me levou para o mirante. Ele não queria me dizer para onde iria me levar, mas eu nem liguei. A noite estava gostosa e o céu estava lindo, cheio de estrelas.
- E aí? - perguntei, como toda boa amiga faria.
Olhei em volta, varrendo o pátio com os olhos. Não achei quem procurava, então voltei minha atenção à história detalhada de Júlia.
- Chegando lá, ele abaixou o capô do carro e me chamou para dançar. Eu não queria, porque eu meio que sou um desastre pra dançar lento, mas ele colocou All You Need Is Love e eu não agüentei! E ele dança tão bem que nem se importou com meus pisões e...
- O Thomas dança bem? - perguntei, realmente curiosa. Aquela era nova.
- Pior que dança! - Júlia gargalhou, tão surpresa como eu. Depois recomeçou. - E enquanto nós dançávamos, ele dizia coisas lindas no meu ouvido, e eu me arrepiava toda vez que ele chegava perto de mim.
- Tipo? - perguntei, agora interessada na conversa. Se não poderia ser feliz com o cara que eu gostava, pelo menos poderia ficar feliz pelas minhas amigas.
- Ah... - ela corou. - Tipo “Eu nunca fiquei tão feliz perto de alguém” e “Eu poderia ficar assim para sempre”.
- Ah! - exclamei, dando um cutucão nela para provocá-la. - Que lindo! E aí?
- Aí, quando a música acabou, nós voltamos para o carro e ficamos olhando as estrelas. Ele escolheu uma e deu meu nome, e eu escolhi outra, ao lado da minha, e coloquei o nome dele. - ela dizia, e seus olhos brilhavam. - Então, ele se aproximou e...
- E...? - perguntei, já sabendo o que ela iria dizer.
- Ele me beijou! - ela piou, e depois abriu o maior sorriso que eu já tinha visto ela dar.
- Ahhh! - agora eu a empurrava e bagunçava seus cabelos bem penteados, enquanto ela gargalhava.
- Nunca imaginei minhas amigas todas apaixonadinhas pelos losers! - eu disse, rindo.
- Quem disse que eu tô apaixonada? - ela perguntou, levantando a sobrancelha de um jeito engraçado.
- Seu sorriso diz tudo, baby. - eu respondi, piscando para ela.
- Olha lá, as meninas! - ela exclamou, saltando do banco e caminhando firmemente para as escadas do colégio.
Meu coração deu um salto no peito e minhas mãos começaram a suar. Levantei-me e dei de cara com Isadora, e meu coração deu outro salto ao ver que seu rosto estava vermelho e inchado.
- Isa, o que foi que aconte... - eu ia dizendo, mas foi interrompida por ela, que me abraçou e começou a soluçar no meu ombro. Eu passei as mãos pelos seus cabelos que mais pareciam um ninho enquanto Maria Eduarda explicava o que tinha acontecido para Júlia, que ouvia tudo com os olhos apertados, preocupada.
- E-ele... Terminou comigo! - Isadora desabou a chorar, se apertando no meu abraço.
- Não fica assim, Isa! - eu disse, afagando suas costas. - Tudo vai dar certo, ele vai te perdoar!
- Não, não vai! - ela exclamou. - Eu nunca mais vou ser feliz de novo! E eu estraguei a felicidade de vocês! Vocês também perderam seus losers!
- Nós não nos importamos com isso, Isadora. - eu murmurei, com a voz firme. Não me preocupei em ocultar o fato de que tinha me incluído na história.
- Hum, meninas. - Maria Eduarda nos chamou. - Desculpe interromper, mas os Mc... Losers estão subindo as escadas.
Isadora se separou imediatamente de mim e passou as mangas do suéter de cashmere nos olhos, secando as lágrimas.
Koba vinha na frente, com a cabeça baixa e um sorriso triste no rosto. Era a cara de Koba. Mesmo triste estava sorrindo. Pe Lu estava ao seu lado, olhando com o canto dos olhos para Koba, provavelmente preocupado com a reação do menino ao ver Isadora. Mas acho que Koba estava mais centrado do que... Bem, do que a própria Isadora, que lutava para segurar as lágrimas.
Atrás dos dois, vinha Thomas, que tentava esconder o sorriso bobo ao olhar para Júlia. Ela corou e desviou os olhos, com uma expressão vamos-fingir-que-nada-aconteceu-para-não-magoar-nossos-amigos-e-eu-te-pego-na-saída. E ao lado de Thomas, Lanza andava com as mãos no bolso, exatamente como eu o tinha visto no outro dia, olhando para cima.
Nós nos juntamos mais e tentamos olhar para outro lado, mas de um jeito ou de outro, nossos olhos se voltavam para os quatro meninos que subiam as escadas. Exatamente como todas as outras meninas do colégio.
Thomas, Lanza, Pe Lu e Koba passaram por nós.
Do mesmo jeito que passavam por todas as outras meninas.

Lanza diz:

Eu não achei que ignorá-las iria ser tão difícil. Mas, dude, foi pior do que eu pensei. Ver Victória ali, parada, ao lado de Isadora – que realmente parecia arrasada, mas não mais que Koba – e não poder me explicar, dizer que era verdade o que eu quis dizer no outro dia, abraçá-la e mostrar para todo mundo que ela era minha e só minha, foi muito foda.
- É só passar reto, dude. - Pe Lu incentivou Koba, que estava com um péssimo humor, meio pálido. - Ela não te levou a sério e merece isso.
- Eu sabia, desde o começo... - ele murmurava, chutando o chão, parecendo uma criança mimada. - Ai, meu Deus, por que ela tem que ser tão hot? - ele perguntou, finalmente passando pelas meninas, que estavam unidas perto de um banco.
- Todas elas são. - Thomas disse, sem tirar os olhos das pernas de Júlia, que estavam a mostra em uma saia xadrez.
- Ânimo, Koba, hoje é um novo dia! - eu disse exageradamente, fazendo ele dar um semi sorriso.
A situação estava pior do que eu pensava.
As três primeiras aulas se arrastaram, até que finalmente o sinal tocou e eu dei um pulo da cadeira, me lembrando de onde estava. Thomas já estava parado ao meu lado e conversava com uma de suas fiéis fãs. Olhei para ele malicioso e saí da sala sozinho. Koba e Pe Lu estavam na diretoria por quebrar o lixo da sala.
Tão previsível.
Andei pelos corredores, parando para cumprimentar alguns amigos e amigas. Encontrei uma das meninas que era apaixonada por mim e meu humor melhorou um pouco.
Saindo do emaranhado de pessoas no corredor, fui até a biblioteca, sem antes esbarrar em John.
- E aí, veado! - ele exclamou, me dando um empurrão. - Algum babado hoje?
- Vai se foder, John. - eu disse, peitando ele. Nós éramos da mesma altura, mas ele definitivamente era mais forte.
- Eu vou me foder e foder sua garota. - ele disse, apontando para Victória, que passava com Isadora atrás de nós. Fechei meus olhos e respirei fundo. - O que foi, ficou bravo? Então ela é mesmo sua garota? Não sei como alguém pode ficar com um loser como você... Mas Victória sempre fora meio burra, não é?
Então, com um lampejo de força e raiva, eu virei um soco no seu nariz perfeito. Ele caiu para trás, se apoiando nas mãos.
À essa altura, todos em volta estavam parados em um círculo e cochichavam. Victória estava lá, mas ao invés de fofocar, me olhava com preocupação.
- Vocês viram isso?! - John exclamou, se levantando e sorrindo por cima do sangue que jorrava do seu nariz. - O nosso Lanza aqui ficou bravo porque eu falei da sua amada Victória!
Os cochichos foram mais intensos e eu senti a mesma raiva que sentira alguns segundos antes me dominar. Respirei fundo mais uma vez.
- Cala boca, John. - sibilei, tentando não gritar aquilo.
- Cala boca, John! - ele repetiu, fazendo uma voz afeminada. - Queria saber qual seria sua reação se eu contasse a todos seus amigos que você...
- John! - Victória exclamou, cortando o que John ia falar. Todos viraram seus rostos para ela, que entrava no meio da roda com os cabelos longos jogados de qualquer jeito na cintura e uma beleza estonteante. Olhei para ela aliviado, mas ela me ignorou, e andou em direção a ele, com passos firmes. Finalmente me olhou, mas não como eu queria. Ela só me mediu de cima a baixo e disse para John, com sarcasmo na voz: - Sério, porque você ainda perde seu tempo com... - me olhou novamente, com nojo. - Ele?
John sorriu, o sangue parando de escorrer pela boca. Ela parou ao seu lado e foi envolvida por seus braços, sorrindo com desdém, mas seus olhos ainda mantinham o nojo. E desconfiei que não era por mim.
- Isso não vai ficar assim, Lanza Reis. - ele disse, me olhando com ódio, os braços apertando Victória. Segurei-me para não avançar nele novamente. Alguma coisa me dizia que se fizesse isso, o esforço de Victória seria em vão.
John se virou levando Victória pelo corredor. Eu os segui com os olhos e me virei, entrando na biblioteca como se nada tivesse acontecido.
Entrei no computador, digitei minha senha e certifiquei-me que não havia ninguém por perto. Entrei no nosso blog, onde a foto que Koba havia postado há uns dois atrás, de umas meninas do terceiro ano vomitando na rua ainda estava lá. Fechei a página com ódio, como se aquilo fosse ajudar em alguma coisa.
Aquele blog imbecil foi o que tinha me juntado a Victória, mas estava sendo o pivô da separação.
De repente, algo me atingiu a cabeça.
“Foda-se o blog!” eu pensei, caminhando rapidamente até o pátio. “Foda-se minha reputação. Se eu tiver Victória, nada disso importa!”.
Saí e coloquei as mãos no rosto num reflexo involuntário. O Sol brilhava alto e eu varri o pátio, em busca de Victória. Vi-a sentada sozinha, perto de uma árvore afastada das pessoas.
Era agora ou nunca.

Victória fala:

Quando finalmente consegui despistar John, não tinha mais ânimo para nada. Estava me sentindo mal por saber que Lanza havia brigado com ele por mim, e mesmo assim eu não tinha coragem de dizer tudo o que sentia por ele.
Sentei-me na minha árvore preferida, onde eu sempre ia quando as coisas ficavam ruins.
Isadora provavelmente estava no banheiro chorando, Júlia estava com Harry escondidos em algum lugar pela escola para tentar esconder o impossível. Ou talvez para não magoar Koba e Isadora. Maria Eduarda estava conversando com algumas meninas do terceiro ano e Pe Lu jogava futebol com os meninos do primeiro. Os dois fingiam se ignorar, mas as rápidas olhadas de um para o outro entregavam tudo.
Todos estavam, de algum jeito, escondendo o sentimento.
É, nossas vidas haviam mudado tanto em tão pouco tempo.
Antes de alguns meses, nós provavelmente estaríamos sentadas juntas, rindo dos meninos que corriam atrás de nós e xingando os McLosers e todos os outros do colégio.
E veja só onde estávamos agora.
Todos se escondendo de algum jeito. E eu sentada na árvore da tristeza pensando no ser mais desprezível e irresistível do mundo.
- Hey. - ouvi alguém dizer atrás de mim. Virei-me e me senti meio tonta ao dar de cara com Lanza, que já se sentava ao meu lado. Olhei em volta, procurando John, mas provavelmente ele estava com alguma menina, longe do nosso alcance. - Não se preocupe, se John aparecer vai receber outra surra. - ele disse, adivinhando meus pensamentos.
- Ótimo, se eu não tiver que abraçá-lo novamente. - eu disse, puxando as magas do meu cardigan preto e escondendo minhas unhas ruídas. Unhas nunca foram meu forte.
- Pode deixar, isso não vai acontecer. - ele sorriu, se apoiando nos cotovelos e olhando para o Sol. Repeti seu gesto e encostei meu ombro no seu. - Escuta, Victória, sobre hoje...
- Não precisa se explicar. - eu disse, jogando meus cabelos para trás, que caíram em uma cascata nas minha costas. O Sol bateu nas minhas clavículas e eu me senti bem novamente. Não só pelo Sol, mas por ter Lanza ao meu lado.
- Mas eu quero. - ele resmungou, ficando sério. Olhei para ele e assenti com a cabeça, para ele continuar. - Sobre ontem. Sobre hoje.
- O que tem ontem?
- Quando eu disse que estávamos juntos eu... - ele parou, envergonhado. - Eu realmente pensava que estávamos juntos.
- Então porque fez daquilo uma piada logo depois? - perguntei, olhando para ele com o canto dos olhos. - Porque eu não quero me enganar em relação a você!
- Porque eu pensei que não fosse o que você queria. - ele disse, olhando para os tênis.
- É o que eu mais quero. - me ouvi dizendo. Ele sorriu, os cabelos caindo nos olhos. - E você?
- Eu nunca quis tanto algo na vida. - ele respondeu. E depois de demorar o olhar nos meus olhos, me deixando tonta, ele continuou: - E sobre hoje.
- Sobre hoje. - eu repeti. - Sobre o que quer falar? A burrada de Isa ou a briga?
- Victória, aquele blog não muda em nada. Não me importo se a escola inteira ficar sabendo. A única coisa que eu quero é te fazer feliz e ser feliz ao seu lado! Mas Koba... - ele disse, abaixando a voz. - Koba está realmente magoado.
- Isadora está realmente arrependida. - eu disse, triste por minha amiga.
- Koba e Pe Lu são os mais cabeças duras. Vai ser difícil de perdoar. - ele disse, se perdendo nas pessoas que andavam pelo pátio, com o olhar vago. - Sempre pensei que eu fosse o mais orgulhoso. Mas acho que nenhum orgulho do mundo vai me manter longe de você.
- Lanza? - eu sussurrei. Ele se virou e me encarou. Eu perguntei: - Você realmente brigou com John por mim?
Ele demorou um pouco a responder, me analisando. Mas enfim, respondeu:
- Sim.
Sorri e voltei a puxar as magas do meu cardigan, envergonhada.
- Victória, será que você ainda não entendeu? - ele perguntou, depois de um longo silêncio. - Eu te amo! Eu... - seu rosto corou e ele olhou novamente para o céu. - Eu sempre te amei.
Sentei-me ereta e olhei em seus olhos, que novamente me encaravam, embora o rosto ainda estivesse muito vermelho. Seus olhos estavam tristes, porém decididos.
Eu poderia ter feito milhões de coisas. Poderia ter dito para ele ir embora. Ou talvez dizer que ele estava enganado. Quem sabe ficar em silêncio até que ele fosse embora e me deixasse sozinha?
Mas a única coisa que eu consegui fazer – porque foi o que me pareceu correto – foi sorrir e dizer, quase sussurrando:
- Eu também te amo.
Ele sorriu e aproximou seu rosto do meu. Eu fechei meus olhos e respirei seu hálito doce por alguns momentos. Então senti seus lábios sobre os meus. Durou alguns segundos, e ele os retirou. Abri meus olhos, curiosa.
- Não quero fazer isso na frente de todo mundo. - ele disse, apontando com a cabeça para o pátio. Ninguém nos olhava, preocupados com a própria vida, mas tenho certeza que se ficássemos ali nos beijando por muito tempo alguém iria perceber e seria tarde demais. - E não quero deixar Koba pior do que ele já está.
- Eu não quero magoar Isadora. - eu murmurei. - E não quero que todos se metam na nossa vida.
- Eu não quero ficar longe de você. - ele disse, roçando seu nariz no meu, mas logo se separando. - Eu quero você pra sempre.
- Eu vou ser sua pra sempre. - eu respondi, sentindo seu cheiro.
Às vezes a vida podia ser boa.

Capítulo 7 – Tequilaaa baby!

Lanza fala:

- Pe Lu? Pe Lu? Pe Lu!? - eu gritava e batia na porta do quarto de Pe Lu. De repente, ele apareceu na porta só de boxers e uma cara nada boa.
- O que foi, porra? - ele exclamou, coçando os olhos.
- Me empresta as chaves do seu carro? - pedi, fazendo minha melhor cara de gatinho do Shrek.
- Pra quê? - ele perguntou. - Ahá! Vai sair com alguma menina eim, eim, eim? - ele me deu vários cutucões, enquanto eu gargalhava.
- Nada disso. - eu disse, ficando sério de repente. - Eu preciso ir ao super-mercado.
- Super-mercado das curvas! - ele brincou, me dando um tapa na cabeça. - Quem vai ao super-mercado às... - olhou no relógio. Eram 6:22h, e faltavam 8 minutos para o despertador geral da casa tocar Why Don't You Get a Job do Offspring. - Porra, Lanza, sua puta, você me acordou 8 minutos antes do despertador!
- Pe Lu, minha gata, pára de frescura e me empresta o carro? - eu pedi novamente, já perdendo a paciência e os preciosos minutos.
- Ok. Mas lembre-se de que você ainda tem 17 anos. Nada de bebidas, mulheres ou drogas. - ele disse, imitando meu pai incrivelmente bem. Eu ri. Ele jogou as chaves da sua Eco Sport preta que ele raramente usava – de acordo com ele, o conversível de Thomas impressionava mais as meninas – e voltou para o quarto, se misturando com a bagunça e as sombras.
Comemorei com uma dancinha idiota e disparei pela escada, pegando uma banana na fruteira pelo caminho. Me joguei de qualquer jeito no carro de Pe Lu e alguns minutos depois já estava na frente da casa da Victória, sorrindo radiante para ela, que esperava por mim na porta.
Ela estava linda, com uma saia jeans azul marinha acima dos joelhos bronzeados. Os cabelos caiam sobre a cintura e ela usava um suéter de cashmere branco, com as mangas puídas e a barra desfiada.
Linda como sempre.
Ela veio correndo em direção ao carro e jogou sua mala rosa bebê no banco de trás, junto com o fichário, e me beijou com vontade. Eu a beijava e sorria por dentro. Ficamos nos beijando até eu perder o fôlego e exclamar:
- Boa dia para você também!
- Bom dia! - ela exclamou, me dando um selinho. - Agora aonde você vai me levar por quase meia hora antes do colégio?
- Aí você já tá querendo demais, srta. Hackmann. - eu disse, bagunçando seus cabelos muito bem penteados. Ela não ligou e continuou sorrindo para mim. Por um instante não consegui desviar meus olhos de tamanha beleza. Mas aí me lembrei do que tinha preparado para ela e acelerei o carro.
- É nessa hora no filme que você me mata? - ela perguntou, colocando a mão na minha perna. Eu me arrepiei todo, por um simples toque, e respondi, malicioso:
- Só se for de amor.
- Nossa, Lanza Reis, que coisa mais gay! - ela exclamou e nós dois gargalhamos.
Fomos cantando durante o caminho, e nos beijando durante os faróis. Em um, nos empolgamos tanto que um motoqueiro passou ao nosso lado e gritou: “Arrumem um quarto!”.
O dia estava ensolarado e logo Victória tirou o suéter, ficando só com uma blusa de alcinha vermelha. Passei a língua pelos lábios sem ela ver, tentando me controlar.
Como se isso fosse possível.
- Porra, Victória, você veio assim só pra me provocar, não é? - eu exclamei, virando os olhos. Ela sorriu para mim e respondeu:
- Quem sabe?
Passamos por dentro de um bosque meio fechado, quicando no banco do carro. Victória ria de todas minhas piadas e eu ria de suas maluquices.
Quando estávamos perto, parei o carro e amarrei uma venda nos seus olhos. No começo ela protestou, mas depois deixou.
- Estamos chegando. - eu disse, parando o carro novamente, só que dessa vez tínhamos chegado mesmo. Ela deu um gritinho empolgado e eu desci do carro. Ajudei-a a descer do outro lado e a levei de cavalinho até uma clareira cercada por árvores enormes. Mais à frente, um lago corria e o barulho era relaxante. - Pronto. Um, dois, três. - tirei sua venda e ela piscou algumas vezes, antes de sorrir e envolver seus braços no meu pescoço.
Ela me beijou longamente e parava às vezes, para dar alguns selinhos. Eu a peguei pela cintura e a puxei o mais próximo possível. Ela segurava meu rosto com as duas mãos quentes e um frio subia e descia pela minha coluna vertebral.
- É lindo! - ela exclamou, finalmente me soltando e correndo até o lago. Fui atrás dela e me agachei ao seu lado, examinando seus olhos, sua boca, seu nariz. Tudo nela era perfeito. - Como você descobriu isso?
- Eu vinha muito aqui com meu pai. - eu respondi, jogando um pouco de água nas suas pernas nuas. - Ele é um grande fã da natureza.
- Seu pai é dos meus. - ela sorriu, jogando água de volta em mim. - Não se sente invadido por me mostrar um lugar tão íntimo?
- Não. - respondi, com sinceridade. - Na verdade, eu quero dividir tudo com você a partir de hoje.
- Eu também. - ela respondeu, se levantando. - Vem, vamos dançar!
- Dançar? - eu perguntou, incrédulo. - Sem música?
- Você não sabe cantar? - ela perguntou, me provocando. - Porque pelo o que eu soube, e pelo o que eu ouvi, sua voz é linda.
Peguei-a pela cintura, mordendo os lábios. Ela gargalhou e envolveu suas mãos novamente nos meus ombros, mas dessa vez ela apoiou a cabeça na minha clavícula e eu apoiei a minha nos seus cabelos com cheiro de morango.
- “If you want my future, forget my past! If you wanna get with me, better make it fast!” - eu cantei, com a voz afetada. Victória gargalhou no meu peito e eu continuei cantando, enquanto nos balançávamos lentamente. - “Now don't go wasting, my precious time! Get your act together, we could be just fine...”
- “I'll tell you what I want, what I really really want! So tell me what you want, what you really really want!” - ela cantou junto comigo, se separando do meu abraço e dançando com os quadris. Fiquei meio paralisado, só observando ela dançar, mas continuei cantando e rindo, enquanto ela balançava os braços e jogava os cabelos longos para todos os lados. - “I wanna, I wanna, I wanna, I wanna, I wanna really, really really, wanna zigazig ha!”
Começamos a rir e ela se jogou nos meus braços novamente. Quando conseguiu parar, me olhou nos olhos, com uma expressão séria, e pediu:
- Agora é sério, Lanza, vamos dançar.
- O que você quer que eu cante? - perguntei, afagando seus cabelos.
- Me surpreenda.

Victória fala:

E ele me surpreendeu.
Não só por sua linda voz, ou pelas suas mãos gentis e firmes na minha cintura. Não. Foi mais que isso. Foi a paixão com que ele cantou.
- “Too alarming now, to talk about... (Muito apressado agora para falar sobre isso...). - ele começou, balançando meu corpo para um lado e depois para o outro, junto com ele. [N/A: Desculpem meninas, eu sei que My Hero não é muito romântica, mas é linda mesmo assim! Ah, e eu fiz essa parte ouvindo My Hero versão Paramore, então se quiser criar um clima... xD] - Take your pictures down, and shake it out... Truth or consequence? Say it aloud! (Pegue suas fotos e as segure bem... Verdade ou conseqüência? Fale em voz alta!). - a voz dele era mansa, quase um sussurro, mas mesmo assim era maravilhosamente afinada. Apertei-me mais no seu abraço e continuei balançando com ele. - Use that evidence, race it around! There goes my hero! Watch him as he goes... (Use aquela evidência, saia correndo! Lá se vai meu herói! Observe-o enquanto ele se vai...). - ele cantou baixinho no meu ouvido, e eu me arrepiei inteira. - There goes my hero! He's ordinary!” (Lá se vai meu herói! Ele é uma pessoa comum!).
Eu poderia ficar ali para sempre, só ouvindo sua voz e sua respiração. O vento soprava gelado nos meus cabelos e nos dele, e eu me afundava cada vez mais no seu peito, me desmanchando. Ele parou um pouco de cantar e só me balançou mais um pouco. Fechei meus olhos e suspirei.
A vida estava cada vez mais perfeita.
- Don't the best of them, bleed it out? While the rest of them, peter out... (O melhor deles, não sangra? Enquanto o resto, desaparece...). - ele continuou, ainda em um sussurro. Sua voz ficou mais rouca e ele me segurava com mais firmeza. - Truth or consequence? Say it aloud! Use that evidence, race it around! (Verdade ou conseqüência? Fale em voz alta! Use aquela evidência, saia correndo!). - o vento bateu novamente, e eu me arrepiei de novo, fazendo ele rir baixinho. Uma risada meio rouca, mas muito sexy. - There goes my hero! Watch him as he goes... There goes my hero! He's ordinary! Kudos my hero, leaving all the best! You know my hero, the one that's on! (Lá se vai meu herói! Observe-o enquanto ele se vai... Lá se vai meu herói! Ele é como eu e você! Glória para o meu herói, abandonando todos os melhores! Você conhece meu herói, aquele que está por cima!).
Ele escorregou as mãos para a base da minha bunda – sei que é feio falar assim, mas é melhor que nádegas, certo? - e eu escorreguei as minhas para seu peito forte, que descia e subia calmamente.
- There goes my hero! Watch him as he goes... There goes my hero! He's ordinary! (Lá se vai meu herói! Observe-o enquanto ele se vai... Lá vai meu herói! Ele é como eu e você!). - ele terminou. E como se ele fosse algum tipo de ímã, inclinei minha cabeça e beijei seus lábios entreabertos.
O beijo foi se intensificando à medida que o frio na minha espinha aumentava. Se as mãos de Lanza estavam perto, agora já estavam estrategicamente apertando minha bunda. Eu o fazia se arrepiar a cada puxada mais forte que dava nos seus cabelos.
Ele não se cansava nunca de me beijar, e sempre ofegava mais. Depois de algum tempo, ele pousou a mão direita no meu pescoço, me fazendo ofegar junto com ele, enquanto descia vagarosamente, quase chegando no meu peito.
Mas veja bem.
Quase.
Ele estava chegando bem perto – e meu corpo endureceu – quando meu celular começou a cantar os versos de “Kiss Me” versão New Found Glory.
Suspirei aliviada.
Claro, não era como se eu não quisesse me amassar com Lanza. É só que... Eu não me sentia bem fazendo aquilo em um lugar tão... verde!
Ok, é agora que vocês me chamam de fresca.
- Não atende... - ele pediu, ainda com a boca colada na minha.
Olhei no visor do meu iPhone – presente do papai. Era Maria Eduarda, provavelmente querendo me contar algum capítulo emocionante de alguma série que ela estivesse assistindo ou simplesmente para perguntar se eu queria que ela comprasse um lanche natural para mim antes de entrar na sala e eu pagava depois – coisa que ela fazia todos os dias e mesmo assim me ligava para perguntar.
- Pode ser importante! - menti, me desvencelhando do seu abraço gostoso. Coloquei o aparelho na orelha e falei: - Alô?
- Vic!? - Maria Eduarda gritou por cima de algumas risadas altas. Provavelmente já estava na escola.
- Não, Duda, é a vovó Mafalda! - brinquei, virando os olhos.
- Cadê você, vovó Mafalda? - ela perguntou, e as risadas em volta aumentaram o volume. Pude reconhecer a risada escandalosa de Harry e os miados de Júlia.
- Eu estou... - olhei para Lanza alarmada, mas ele gesticulou algo do tipo “indo para a escola” e eu repeti: - Indo para a escola.
- Sozinha?
- Não, com o Jim Sturgess! - respondi, estranhando a pergunta. - Claro que sozinha. Eu vou sozinha para a escola todo dia, porque hoje seria diferente?
- HAHAHAHA! - ela riu sozinha. - Não é isso, Vic, é que nem você nem o Lanza Reis chegaram, então eu e as meninas apostamos que você estava em um lugar e ele em outro, e os meninos apostaram que vocês estavam juntos se pegando no bosque!
A essa altura, Lanza ouvia tudo, pois eu tinha colocado no viva-voz, e ele estava ficando vermelho de segurar a risada.
- Hey, espera aí! - eu exclamei, colocando a mão na boca de Lanza para ele não rir. Ele passou os braços pela minha cintura e eu continuei: - Então quer dizer que vocês e os meninos estão de boa?
- Mais ou menos. - ela respondeu, abaixando um pouco a voz. - Koba nem olha na cara de Isadora, mas fora isso... Eu achava que eles não iam falar mais com a gente pelo resto da vida! Mas acho que só Koba ficou realmente bravo, porque você sabe, Isadora realmente traiu sua confiança... Só espero que um dia ele a perdoe e ela tire esse olhar triste do rosto... Bom! - ela exclamou, como se lembrasse de algo. - Eu preciso ir, Pe Lu quer contar uma piada. Ah, e vem logo pra escola!
E desligou.
Lanza fala:

- Corre, Vic! Vamos! - exclamei, puxando-a pelo braço.
- Ai, seu maluco! - ela gritou, se soltando dos meus braços. - O que você tem?
- Vic! - eu resmunguei, arregalando os olhos. - Você não ouviu? Estamos perdendo a piada de Pe Lu!
Victória garalhou e eu sorri vitorioso. Fazê-la rir era melhor do que tudo no mundo.
Quer dizer, só não era melhor do que aquele corpo maravilhoso e aquele rosto perfeito.
Peguei sua mão e pisquei para ela, maliciosamente, me conformando que não passaríamos do beijo aquele dia. Mas tudo bem, com ela – só com ela – eu podia esperar.
Não podia?
- Vamos então, pudim de beterraba. - ela disse, me dando um beijo no rosto sem dificuldades. Victória era muito alta, quase do meu tamanho.
Guiei-a pelo caminho de volta para o carro.
Voltamos para a escola rindo o caminho inteiro de uma história que ela contava sobre seu pai e alguns travestis. Eu não conseguia parar de rir, principalmente quando ela disse que o pai dela olhou para os três homens depois de algum tempo conversando com eles e perguntou: “Vocês são homens?”.
- Hey, Lanza. - ela sussurrou, em um dos nossos raros momentos de silêncio. Estávamos chegando perto da escola e eu estava me sentindo mais deprimido do que nunca. - Você pode me deixar duas quadras antes da escola? Eu não quero levantar suspeitas e...
- Tudo bem. - a cortei. Já tinha entendido, desde o começo, que para ficar com ela eu teria que modificar muita coisa em mim e na minha rotina. Por um lado, isso me deixava bravo, pensando se ela não poderia assumir e foda-se os outros, mas por outro, eu entendia o lado dela.
Ou pelo menos fingia que entendia.
E outra. Eu também tinha que manter minha reputação de pegador.
Deixei-a a duas quadras da escola, dando um selinho nos seus lábios vermelhos e arrancando pela rua. Cheguei na escola e estacionei a Eco de Pe Lu perto do carro do diretor. Faltavam uns 15 minutos para o sinal bater e a escola já estava lotada.
- Hey, dude! - Koba acenou de uma mesa onde estava com Thomas, Pe Lu, Júlia, Maria Eduarda e Isadora. Fui até eles e me sentei na mesa. - Até que enfim!
- Sentiu minha falta, é, coisa fofa? - perguntei, mandando um beijo para ele, fazendo os outros rirem. Isadora estava ao meu lado, particularmente feliz, comparado aos outros dias, que ela andava com a cabeça baixa e os olhos vermelhos. Olhei para Koba e ele estava ignorando a presença da garota, mas estava meio nervoso, mexendo os pés sem parar.
- Quase morri, meu amor! - ele respondeu, piscando para mim.
- Ok, vamos parar de viadice e decidir de uma vez por todas o que vamos fazer no fim de semana? - Júlia exclamou. Thomas estava com os braços na sua cintura e todos que passavam olhavam para nós e cochichavam. Senti uma pontada de inveja, querendo estar assim com Victória.
- Eu já disse que quero assistir O Massacre da Serra Elétrica x Jason! - Pe Lu disse, emburrado.
- Pe Lu, o dia que eu assistir esse filme, você pode me colocar no hospício, porque eu provavelmente vou estar LOUCA! - Maria Eduarda exclamou, e os cantos da boca de Pe Lu se curvaram para cima. Ela deu um soco no seu ombro e ele fez uma careta que fez ela sorrir.
Júlia e Thomas se entreolharam.
Love is in the air?
- Vamos... - eu comecei, mas fui interrompido por Victória, que chegava e atraía todos os olhares masculinos do pátio. Uma vontade gigante de me levantar e gritar “TIREM OS OLHOS QUE ELA JÁ TEM DONO!” invadiu meu cérebro, e eu tive que me segurar na mesa para não realmente fazer.
- Vamos? - Isadora me tirou do transe quero-que-todos-morram e eu sacudi a cabeça para ela. Koba, Thomas e Pe Lu olharam discretamente para onde eu estava olhando e pousaram os rostos sérios-mas-morrendo-de-vontade-de-me-zoar em mim. Eu só apertei os olhos para eles e logo depois eles já estavam fazendo o que faziam antes.
Ou seja, nada.
- Para a praia? - me lembrei que meu tio tinha uma casa vazia pé na areia em uma das praias mais lindas do estado e, bem, por que não? Tínhamos 18 anos, – bem, menos eu e as meninas, mas isso não vem ao caso – dinheiro, - não éramos milionários, mas, sim, tínhamos dinheiro – carro e beleza. O que nos impedia?
Ah, seria por que dois de nós nem se olhavam, dois de nós estavam constantemente se agarrando depois de ter experimentado a primeira vez, dois de nós fingiam ser amigos quando realmente morriam um pelo outro e dois de nós, bem, se amavam e não podiam assumir por motivos supérfluos e mesquinhos?
Ah... É, era por isso...
- Quem vai pra praia? - Victória perguntou, se jogando ao lado de Thomas e Koba. - Eim?
- Nós. - eu disse, dando de ombros, tentando não olhar por muito tempo para seu rosto perfeitamente assimétrico. - Quer dizer, se vocês quiserem.
- Aonde nós ficaríamos? - Júlia perguntou, desgrudando a boca de Thomas, como se estivesse ouvindo toda a conversa.
- Casa do meu tio. Duas suítes, piscina, churrasqueira, sala com dvd e cozinha americana. - respondi, vendo os olhos das meninas brilharem ao ouvirem a palavra suíte.
- Eu fecho. - Pe Lu disse. Koba concordou com ele, olhando rapidamente para Isadora, que analisava as unhas. Thomas fez um jóia com a mão, beijando o pescoço de Júlia.
Meu Deus, procurem um quarto!
Depois que eles tinham percebido que se agarrar na frente de Isadora e Koba não os incomodava em nada, eles não PARARAM MAIS!
- Claro, preciso mesmo pegar uma cor. - Maria Eduarda disse, se olhando. Pe Lu olhou também e abriu um pouco a boca quando ela desgrudou a regata da barriga para analisar o seu estado de “branquisse”.
- Eu também! - Júlia parou de beijar Thomas e exclamou, mostrando o braço para Maria Eduarda. Isadora concordou e Victória disse que ela também.
Aliás, do que meninas não reclamavam?
- Ok, lumbriguinhas, nós vamos então? - Koba perguntou.
- Eu vou! - Maria Eduarda disse novamente.
- A Jú também. - Thomas disse por Júlia, que sorriu e apertou as bochechas dele.
Blergh.
Não que eu não estivesse morrendo de vontade de fazer o mesmo com Victória.
- Pode ser. - Isadora disse, corando ao trocar olhares com Koba, que felizmente tirou a cara séria do rosto e sorriu um pouco.
- É, eu vou. É só não me deixar muito tempo perto do Lanza Reis! - Victória disse e piscou para mim. Eu mostrei a língua para ela e todos riram.
Realmente, era só não ficar muito perto dela.
Mas não pelos motivos que todos achavam.

Victória fala:

- Esse definitivamente me deixa uma vaca gorda! - Isadora reclamou, tirando o biquíni rosa claro que ficava maravilhoso nas curvas dela e jogando no cesto de biquínis péssimos. Separamos três cestas, a dos biquínis ótimos/lindos/não-fico-uma-vaca-gorda-com-esse, a dos biquínis se-todos-sujarem-eu-uso e a dos biquínis péssimos/desconfortáveis/bregas/fico-uma-vaca-gorda-com-esse.
- Eu gosto desse. - Júlia disse, se analisando, com um biquíni azul-turquesa com a parte de baixo estilo cuequinha e a parte de cima cortininha, no espelho de parede do meu quarto. Era quarta-feita e estávamos no meu quarto porque era o único que tinha espelho por todas os lados, então podíamos nos botar defeito à vontade. - Eu fiquei mais alta!
Júlia era a menor de nós três. Mas quando eu digo menor, era menor mesmo! Ela tinha 1.58m.
- Claro, e Papai Noel passou aqui em casa ontem. - eu brinquei, e ela jogou uma almofada em mim. Eu já tinha separado todos meus biquínis e fiquei observando as meninas provarem os seus.
Não ficávamos constrangidas nem nada do tipo. Nos trocávamos juntas desde bebês, era meio que um hábito nosso.
- Victória, me ajuda aqui? - Maria Eduarda pediu, se enroscando em um biquíni estranho e pequeno verde-limão de Isadora. Definitivamente ele iria para os péssimos. Cheguei perto de Maria Eduarda e tentei desatar o nó, mas não consegui, então ela tentou me ajudar.
- HEY, num rela ni mim! [N/A: Viu só Lucas Feldélcio, promessa é dívida! HAHAHAHA] - eu exclamei de brincadeira, e ela deu um pulo para trás, fazendo as outras rirem.
- Meninas... - Isadora suspirou, e eu senti a tristeza na sua voz. Eu e Maria Eduarda fomos até onde ela estava e Júlia também. Ela se sentou no chão e foi acompanhado por nós.
- O que foi, Isa? - perguntei, passando as mãos quentes por seus ombros gelados.
- Não sei, é só que... - ela começou, suspirando. - E se Koba nunca me perdoar?
- É claro que ele vai ter perdoar! - Maria Eduarda a encorajou. - Mas você tem que entender que ele também está sofrendo. Você... - ela nos lançou um olhar de dúvida e antes que nós pudéssemos fazer alguma coisa, continuou: - Você magoou ele de verdade.
- Eu sei. - ela disse, e uma lágrima escorreu por seu rosto pálido. Se a situação não fosse tão ruim, eu estaria rindo de nós quatro sentadas no chão de pernas de índio, duas de biquínis, uma quase pelada com o biquíni todo enroscado no corpo e eu de roupa.
- Mas não chora! - Júlia piou, lançando um olhar bravo para Maria Eduarda, que deu de ombros. - Nós vamos nos divertir pra caramba, e outra, eles estão levando um estoque de Tequila e Vodka!
- Sério? - perguntei, curiosa. Nem eu sabia disso.
- Ahám, o Thomas me disse! - ela respondeu, sorrindo ao pronunciar o nome dele.
Nós íamos no dia seguinte, quinta-feira, pois sexta não teria aula na escola devido ao conselho. E, mesmo que não tivesse o conselho, nós iríamos, porque alguns alunos do segundo ano ouviram nossos comentário e a única coisa que falavam na escola era sobre os dois lados da força estarem indo para a praia juntos.
E, por falar nisso, no quesito fofoca, aparentemente, eu e Lanza éramos noivos e eu estava grávida dele, por isso escondíamos o romance. Isadora e Koba brigaram porque Koba estaria com Júlia. Thomas era o corno manso, e Pe Lu só não ficava com Maria Eduarda pois tinha medo de que os boatos de que ela tinha AIDS fossem verdadeiros.
Sem mais nada a declarar.
- Então é isso! - Isadora exclamou, se levantando em um pulo e jogando o biquíni lilás na cesta dos ótimos e finalmente sorrindo. - Se ele me ignorar eu vou afogar todas minhas mágoas na tequilaaa!
- Tequilaaa baby! - nós exclamamos juntas. Nós quatro éramos VICIADAS em Tequila. E eu não estou brincando.
- Mas se a Vic sair gritando pela rua que é uma xícara DE NOVO, eu nunca mais tomo tequila com ela! - Maria Eduarda disse, mostrando a língua para mim.
- Foi só uma vez! - eu reivindiquei.
- Uma vez que você se lembra. - Júlia disse, e recebeu um tapa na cabeça.
- Bom, eu acabei. - Maria Eduarda disse, jogando o biquíni verde-limão no ventilador e pegando sua cesta de biquínis mais ou menos e jogando junto com os biquínis legais. Depois pegou essa cesta e despejou na mala abarrotada de roupa e a fechou – depois de alguns minutos de batalha.
Júlia e Isadora acabaram algum tempo depois e nós deixamos nossas malas no meu quarto e fomos assistir Penélope pela décima quinta vez no mês.
Precisaríamos nos acalmar antes de entrar no carro daqueles maníacos no dia seguinte.

Lanza fala:

O dia amanheceu ensolarado e quente. Muito quente. Ok, quente pra porra.
Pulei da cama antes mesmo do despertador tocar. Ouvi a música tocar no quarto de Harry e me dirigi até lá, arrastando meus pés. Entrei e me joguei de qualquer jeito na sua cama coberta por revistas, camisetas, livros e papéis, como eu sempre fazia, todos os dias.
Thomas já estava acostumado, então só continuou jogando qualquer coisa que encontrava no armário dentro de uma mala gigante da Nike. Entre as camisetas e shorts, jogou luvas e eu jurei ter visto um cachecol. Ri sozinho e ele nem percebeu. Ele sempre acordava cedo, mas nem sempre acordava de verdade.
- Alguém viu minha escova de dentes? - Koba perguntou, entrando no quarto com uma calça de moletom furada nos joelhos.
- A última vez que eu vi estava na cozinha, dentro do armário de chocolate. - Thomas respondeu, como se fosse a coisa mais normal do mundo uma escova de dentes na cozinha.
Bem, na nossa casa era.
- Alguém viu meu boné azul? - Pe Lu perguntou, passando por Koba que saía do quarto.
- A última vez que eu vi estava no banheiro lá de baixo. - eu respondi, dando de ombros.
Se alguém gravasse nossas conversas e colocasse no YouTube, garanto que fariam muito sucesso.
Thomas terminou de socar as coisas na mala e foi colocar a roupa que tinha separado. E, ao contrário de mulheres, eu saí do quarto sem pensar duas vezes.
Sabe como é, eu não curtia muito ver homens pelados e essas coisas...
Nem um pouco.
Entrei novamente no meu quarto e acendi a luz. Ele estava todo bagunçado, com cuecas e meias jogadas no chão, meu laptop aberto na escrivaninha, meu abajur do Bob Esponja metade aceso metade desligado, o carpete todo furado de cigarro – eu costumava fumar – e manchado de Coca e Vodka, a cama toda bagunçada e as paredes rabiscadas por todos que já entraram ali, com frases como “vai se foder, Lanza Reis” e “Lanza Reis para presidente”.
Era o meu lugar favorito no mundo.
Ai, que gay!
Peguei minha mala verde escura da Adidas e coloquei nos ombros, saindo pelo quarto e batendo a porta de qualquer jeito. O pôster do Green Day voou e voltou ao lugar, como sempre fazia.
Chegando na sala, todos já estavam lá, segurando suas malas e colocando seus óculos de sol.
- Vamos? - Thomas perguntou, girando as chaves do conversível nos dedos, como sempre fazia.
- Vamos. - eu disse, colocando meus óculos de sol e boné. Tínhamos combinado de viajar com o capô abaixado para bagunçar o cabelo das meninas e as deixar irritadas, então tínhamos que ir de boné para que os nossos próprios cabelos não voassem. Peguei o violão no chão e rumamos ao carro de Harry.
Eu estava sentindo que aquele seria um fim de semana memorável.

Victória fala:

A minha casa parecia um inferno. Logo às 8h da manhã.
Os meninos tinham combinado de passar em casa às 10, então nos acordamos às 7h.
Nem fodendo – desculpe o palavrão – nós íamos nos encontrar feias com eles.
Certo?
- ALGUÉM VIU A PORRA DO AMARRADOR DE CABELO ROSA QUE ESTAVA EM CIMA DO BANHEIRO? - Júlia gritou, entrando no quarto com as mãos no topo da cabeça, segurando um rabo-de-cavalo que descia como uma cascata nas suas costas.
Ela estava com um shorts jeans e uma blusa de alças branca. O Nike Shox rosa com branco completava o look linda/esportiva.
Minha mãe sorriu para ela, que corou. Não sabia que ela estava lá.
- Desculpa, tia Jô. - ela disse, lançando um olhar mau-humorado para mim. Eu mostrei a língua para ela, enquanto minha mãe prendia meu cabelo numa trança comprida.
- Tudo bem, Jú, você não é a única que fala palavrão aqui. - minha mãe, Joana, tia Jô pras mais íntimas, respondeu, ainda calma.
Essa era minha mãe. Sempre calma.
Agora espera até as visitas irem embora.
- Pronto! - Isadora disse, sorrindo com todos os dentes para nós. Seus cabelos estavam presos em duas trancinhas ao lado do rosto e ela parecia uma boneca de porcelana.
Nós havíamos combinado de prender o cabelo porque tínhamos certeza que os meninos iriam querer viajar com o capô do carro levantado, só para irritar.
- Linda! - Maria Eduarda elogiou, observando Isadora de cima a baixo. Ela usava uma saia de malha que ia até um pouco acima do joelho, branca com vermelho. Seus ombros estavam amostra com a blusa de alça vermelha. Ela usava uma sandália rasteira de bambu – ok, eu sei lá a porra do material daquela sandália – com pedrinhas vermelhas.
Estava linda.
Maria Eduarda se levantou para se espreguiçar e para mostrar que também estava pronta e não ficou atrás de nenhuma das meninas. Estava com uma jardineira jeans – de mini-saia – e uma baby-look roxa por baixo. Usava aquelas Havaianas personalizadas rosa e roxa e os cabelos estavam em um rabo-de-cavalo alto com alguns fios desfiados na frente.
- Você também, eim Duda! Quer matar o Munhoz do coração? - eu disse, e ela corou e mostrou o dedo do meio pra mim, fazendo todas rirem, inclusive minha mãe.
- Você também está linda, filha. - minha mãe disse, me admirando depois de ter acabado a trança.
Eu também estava de jardineira, só que de shorts. Ela era jeans bem clarinha e por baixo eu usava uma regata verde. Nos pés, uma rasteira de couro branco com strass.
Olhei no relógio. Só nesse papo, eram 9:23h. Todas estavam prontas e fomos tomar café.
Eu não estava muito a fim de comer nada, então tomei um copo de suco de maracujá pra ver se eu me acalmava e se o pensamento saía de Lanza e pousava no mundo real.
Mas eu só queria saber como ele estaria!
Porra, era demais?
Ficamos enrolando na cozinha, minha mãe contando histórias malucas da adolescência – tomando cuidado para não envolver meu pai, já que ela não falava com ele nem dele há muito tempo. Nem com ele nem com meu irmão – e nós mijávamos de rir toda vez que ela contava de um namorado que tivera que fazia xixi na cama.
Quando eram 10:08h, ouvimos barulhos de buzinas na frente de casa. Nos entreolhamos e saímos correndo para olhar a sala de estar e grudamos nossas caras na janela. Eram eles.
Thomas e Pe Lu estavam apoiados no carro, no estilo garoto-mal-que-espera-a-namorada. Koba estava em pé dentro do carro, olhando para as nuvens. Lanza estava parado com as mãos nos bolsos, ao lado de Pe Lu, mais lindo do que nunca.
Thomas usava uma bermuda jeans e uma camiseta pólo listrada de azul com branco. Nos pés, um Puma branco com azul. Pe Lu estava de bermuda camuflada e camiseta azul-marinha, combinando com as Havaianas azul marinhas. Koba usava uma camiseta verde mamãe-não-me-perca-na-neblina e uma bermuda preta com detalhes em verde, junto com tênis estilo pão-que-cresceu-demais.
Lanza era, de longe, o mais lindo.
É, eu sei que eu sou suspeita para falar.
Foda-se.
Ele usava uma bermuda jeans, como Thomas, mas a dele era mais escura e desfiada na barra. A blusa vermelha com uma caveira em preto ficou meio agarrada no peito, que descia e subia com a respiração. Nos pés, All Star preto, surrado e sujo.
Lindo.
- Ai meu Deus, o Koba está tão lindo! - Isadora suspirou, saindo de perto da janela e correndo até onde nossas malas estavam. – Vamos logo antes que eu mude de idéia!
- Vamos! - eu sorri, pegando minha mala vermelha da Kipling no chão e colocando a mochila da Nike vermelha com preto nas costas. As meninas pegaram suas malas Kipling – todas eram do mesmo modelo, porém de cores diferentes – e demos um beijo estalado no rosto da minha mãe.
- Se comporte. - ela disse no meu ouvido.
Ah, desculpe mãe, mas era a última coisa que eu iria fazer.

Capítulo 8 – Promessas.

Lanza fala:

Se elas queriam quase nos matar do coração, bem, conseguiram.
Sério. Vai tomar no cu. Elas estavam MUITO hots.
Muito, muito, muito, muito hots.
Hots demais.
Já mencionei que elas estavam... hots?
Quando saíram da casa de Victória segurando as malas nas mãos e descendo as escadas de pedra da entrada, meu coração meio que deu um pulo no peito.
Mas não foi só o coração que pulou, se é que você me entende.
Pe Lu e Thomas saíram correndo para pegar a mala com as meninas, quase tropeçando nas pernas. Koba me olhou suplicante e eu virei os olhos.
- Eu te ajudo, Isa do meu coração. - eu disse, pegando a mala verde-limão que combinava com a camiseta de Koba. Ela sorriu para mim e caminhou até o carro. Olhei para o lado e Victória descia as escadas com as escandalosamente lindas pernas de fora com uma jardineira jeans. Ela me lançou um olhar de cão sem dono e eu me aproximei dela, tentando ser o mais hostil que conseguia.
- Deixa que eu levo a sua, Hackmann.
- Só para se achar o fodão, não é, Lanza Reis? - ela perguntou, quase jogando a mala em cima de mim. Pisquei para ela quando ninguém mais olhava nossa pequena discussão e ela piscou de volta,
Joguei as malas no porta-malas que já estava abarrotado de malas e pulei para o banco de trás, ficando estrategicamente ao lado das pernas nuas de Victória e ao lado de Koba, para não cair em tentação nas pernas igualmente lindas das outras meninas.
Na frente, Thomas dirigia e Júlia ia ao lado, roubando o posto de co-piloto de sempre de Pe Lu, que não se importou, pois estava meio prensado entre Maria Eduarda e Isadora.
Isadora estava no apoio do banco, na ponta. Ao lado Pe Lu estava sentando no banco e Maria Eduarda vinha em seguida. Koba também estava sentando no apoio do banco e eu estava ao seu lado, sentado como uma pessoa normal. Victória estava ao meu lado, também no apoio do banco.
Nós sabíamos que quando entrássemos na expressa teríamos que nos espremer no banco de trás, mas enquanto isso não acontecia íamos nos divertindo com o espaço.
Thomas – logo depois de dar um longo beijo de oi em Júlia – deu partida no carro e ela colocou Offspring no som, estourando as preciosas caixas de som do conversível.
Nós cantamos o caminho todo até a expressa. Eu tentava não encostar em Victória, mas estava meio difícil com as suas longas pernas bem do meu lado, me chamando. Mas eu me segurei.
Palmas para mim.
- Gente, sentando aí, chegamos na expressa. - Thomas disse, olhando pelo retrovisor, o vento bagunçando todo seu cabelo. Júlia tentava arrumar, mas não estava dando muito certo.
- Alguém troca comigo? Eu não gosto de ficar espremida na ponta! - Isadora choramingou. Maria Eduarda lançou um olhar significativo para Victória e disse:
- Eu troco.
Elas trocaram rapidamente e então Isadora percebeu que teria que ficar ao lado de Koba. Revirou os olhos e olhou para Victória, que estava rindo com a mão na boca. Quando percebeu o olhar da amiga, parou de rir na hora, olhando para frente.
Victória desceu do apoio e caiu ao meu lado, com metade do corpo colado no meu e a outro metade na porta do carro. Koba, ao meu lado, tentava ao máximo ficar longe de mim, então estava praticamente em cima de Isadora, que olhava para todos os lados, menos para ele. Pe Lu e Maria Eduarda conversavam animadamente sobre a Segunda Guerra Mundial – sim, você não ouviu errado. Pe Lu falando sobre a Segunda Guerra. Impagável – e nem perceberam o aperto em que estavam.
- Se você soubesse o quanto eu quero te agarrar agora não ficava tão perto de mim. - sussurrei no ouvido de Victória, vendo que todos estavam tão entretidos em ouvir música, – Thomas e Júlia – se ignorar – Koba e Isadora – e conversar – Pe Lu e Maria Eduarda.
Victória fechou os olhos e encostou sua cabeça na minha por dois segundos. Depois levantou e não disse nada.
- Eu te amo, sabia? - eu disse, novamente no seu ouvido.
- Eu também te amo. - ela disse no meu, e voltou a observar as paisagens das montanhas.
A viagem durava duas horas, e eu já estava quase morrendo na primeira meia hora.
Ótimo.
- Lanza! - Harry gritou lá da frente. - Onde você colocou as bebidas?
- Na mala marrom. - eu respondi. - Ela está lá atrás, embaixo da mala do Koba.
- Que que tem minha mala? - Koba perguntou, saindo de algum tipo de transe.
- Ela voou pelo porta-malas e nós não podemos voltar para pegar. - Thomas disse, dando de ombros.
- AI MEU DEUS! - Koba exclamou, e todos nós começamos a rir. - A MINHA CUECA DA SORTE ESTÁ NAQUELA MALA! HARRY, VOLTA, PELO AMOR DE DEUS!
Nós gargalhávamos enquanto ele balançava Harry pelos ombros, pedindo para ele voltar.
Quando finalmente Thomas parou de rir e explicou para ele a verdade, Koba ficou mais emburrado do que antes e encostou sua cabeça no banco. Isadora ficou o analisando, e ele abria os olhos de vez em quando para ver se ela continuava, fechando-os novamente quando via que sim.
- Lanza, você trouxe o baralho? - Pe Lu perguntou.
- Tá na sua mala, no bolso da frente. - eu respondi, como se fosse a mãe dele. Mas na verdade eu era a mãe de todos eles, mesmo sendo o mais novo.
O mais responsável.
E o mais veado, se você está realmente lendo essas coisas que eu falo.
- Ah, que graça, o Lanza lembra de tudo! - Júlia disse, se virando para mim. Senti meu rosto queimar. - Ah, que graça, e ainda por cima fica vermelho! Se o Judd não tivesse a pegada tão boa eu largava dele pra ficar com você!
- Largava nada. - Harry disse. - Essa aí só larga de mim quando morrer!
Nós rimos quando Júlia mostrou a língua para Thomas. Olhei para Victória e ela estava meio vermelha, não sei se pelo sol ou por... ciúmes?
Harry – depois de desgastantes horas tentando me controlar ao lado de Victória - finalmente entrou na cidade litorânea que iríamos ficar e andou devagar pela cidade, que tinha muitos restaurantes e clubes perto da praia. Era uma cidade muito visitada por universitários nas férias, por isso tinha shopping e todas essas coisas de cidade grande.
- Agora vira a direita. - eu expliquei, apontando para a rua que Harry teria que virar com uma mão. Com a outra abraçava a cintura de Victória discretamente.
- Estamos chegando? - ela perguntou, em voz alta. - Eu preciso desesperadamente usar o pipi house!
- Eu também! - Maria Eduarda exclamou, saindo da conversa com Pe Lu e entrando na nossa. - E é sério!
- Estamos, é só virar a esquerda que é a casa do meu tio. - respondi.
Thomas virou a esquerda e chegamos na majestosa casa do meu tio. Nunca tinha reparado em como ela era grande – pra uma casa na praia – e parece que o pessoal achou a mesma coisa.
- Meu Deus, é gigante! - Koba disse, abrindo os olhos e se endireitando no banco.
- Ótimo, agora me dá a chave que eu preciso mesmo ir ao banheiro! - Victória exclamou, estendendo a mão para mim, com as unhas vermelhas e compridas. Peguei a chave no meu bolso e depositei com cuidado em sua mão. Ela sorriu com desdém – todos olhavam para nós dois – e pulou do carro.
Victória desapareceu pelas sombras da casa do meu tio com Maria Eduarda quicando atrás. Isadora pegou sua mala e foi junto arrastando os pés, com o olhar triste. Júlia finalmente se soltou dos braços de Thomas e foi deslizando pela entrada, como se fosse um Dementador feliz, e logo estávamos sozinhos.
- Certo, eu não aguento mais! - Koba exclamou, jogando a mala de bebidas nos ombros e segurou a sua própria mala nas mãos. - Hoje vamos deixar elas bêbadas de não lembrar de nada amanhã e eu vou pegar a Isadora!
- E eu vou pegar minha garota de jeito! - Thomas sorriu maliciosamente, colocando a mala de Júlia em uma mão e a sua na outra.
- Hoje eu pego a Duda! - Pe Lu disse, revelando pela primeira vez seu interesse em Maria Eduarda.
- Ah, muleque! - eu disse, cutucando as costelas de Pe Lu, que se contorceu de dor.
- E se a biba do Lanza não parar de brigar com a Vic e ficar logo com ela, vai segurar vela legal! - Koba disse, e os outros concordaram.
- Nunca! - eu exclamei, como aqueles super-heróis afetados. Eles riram.
- Ok, vai perder uma hot daquelas porque é medroso. - Thomas falou, fechando o porta-malas e entrando pelo portão da casa.
Ah, se eles soubessem...

Victória fala:

- Meu Deus, eu nunca quis tanto mijar na minha vida como eu quis hoje! - Maria Eduarda suspirou, fazendo uma cara de aliviada ao sentar na privada, logo depois de mim.
- Nós não podemos falar essas coisas perto dos meninos! Eles vão achar que nós somos umas primitivas! - Júlia disse, soltando os cabelos que caíram livres nos ombros.
- Verdade. - concordei, fechando a torneira e secando as mãos.
- Só a Vic pode, ela não quer impressionar ninguém. - Isadora brincou, desmanchando minha trança.
- Nem eu! - Maria Eduarda reivindicou.
- Cala boca, Maria Eduarda! - exclamamos ao mesmo tempo.
- Droga. - ela murmurou, dando descarga.
- Porque você não fica com o Lanza Reis de uma vez? - Isadora sugeriu, passando pó no nariz.
- Olha bem para a minha cara e vê a minha vontade louca de ficar com o Lanza Reis. - elas nem imaginavam como aquilo era verdade.
- Ele deve ter A pegada. - Júlia disse, pensativa. Aquele ciúmes repentino de toda vez que eu ouvia o nome dele por outra garota surgiu, e eu senti um nó na garganta. - Afinal, ele toca baixo e tem os dedos rápidos.
Até eu ri dessa.
- Você pretende fazer, hum, alguma coisa a mais, com o D'avilla, Jú? - Maria Eduarda perguntou, abafando a risada. Eu e Isadora sorríamos maliciosas.
- Ah. - ela corou. - Sei lá, umas mãos bobas podem até rolar, mas nada além disso, porque nós não somos namorados, nem nada do tipo...
- E se ele pedir? - perguntei, levantando a sobrancelha sugestivamente. Isadora e Maria Eduarda seguraram o riso.
- Acho que não. - seu rosto agora estava vermelho rubi. - Ah meninas, eu estou gostando dele, mas vocês sabem que eu não sou assim...
- Aaaaaah! - nós exclamamos e abraçamos-a, que ria sem parar.
- Vamos para a praia? - sugeria, já destrancando a porta.
- Vamos!

Lanza fala:

- E aí, Duda, aposta uma corrida? - Pe Lu sugeriu para Maria Eduarda, que tirou os chinelos e os jogou na areia. A praia estava meio deserta, com só alguns privilegiados como nós, que tinham a casa na beira do mar. O sol brilhava alto e queimava nossas peles protegidas pelo fator 30.
- No já? - ela perguntou, já se preparando, afundando seus pés na areia. Pe Lu se posicionou ao lado dela e respondeu:
- Até aquelas pedras, já! - e saiu correndo na frente, mas ela foi atrás e o ultrapassou com facilidade.
Eu e os outros nos jogamos no chão e ficamos observando os dois correrem como bobos. O mar azul se fundia com o céu do mesmo tom, fazendo com que nossos olhos doessem ao observar o horizonte. E todos nós vimos a exata hora em que Pe Lu se aproximou de Maria Eduarda e a jogou na areia, caindo sobre ela. Suas pernas se encaixaram e ele se curvou e a beijou com força. Maria Eduarda envolveu seus braços nos cabelos desgrenhados do menino, e eles ficaram ali se beijando, sem se importar com os velhinhos que tomavam sol e olhavam horrorizados para a cena de amasso em plena luz do dia.
Ah, danados!
E isso seria realmente muito romântico.
Se não fosse por nós.
- Pe Lu pegador! - Koba gritou, lançando um olhar charmoso para Isadora, que riu do menino.
- ALELUIA! ALELUIA! - eu e Thomas gritamos, e as meninas continuaram a rir.
Eles não pararam mesmo assim.
- Vocês não vão para o mar? - Thomas perguntou, puxando Júlia pela cintura para mais perto dele, que sentou de costas, encostando em sua barriga, no meio de suas pernas dobradas.
- Não. - respondi, quando Victória se levantou. Segui seus movimentos com o olhar e quase caí de costas quando ela tirou o shorts branco lentamente e logo depois a camiseta larga, revelando seu corpo malhado e bronzeado por - creio eu - cremes bronzeadores - estratégicamente aplicado no banheiro da casa - envolvido em um biquíni azul claro. Abaixei o olhar, rezando para que Thomas e Koba não tivessem reparado na minha cara de tarado.
- Eu vou! - ela exclamou, lançando um olhar significativo para mim. Depois correu para o mar, balançando os longos cabelos pelo corpo. Olhei para o lado e Thomas já estava comendo Júlia. Olhei para o outro e Isadora lia um livro e lançava olhares tortos para Koba, que, por sua vez, fingia dormir com os óculos de sol enfiados na cara, mas na verdade observava Isadora no seu biquíni branco com vermelho.
- Humhum. - pigarreei, mas ninguém pareceu prestar atenção. Então simplesmente corri até o mar.

Victória fala:

Eu estava no mar, sentindo as ondas quebrarem na minha cintura. O sol queimava na minha pele e eu me sentia... Feliz!
Virei-me e minha felicidade só aumentou, meu coração se apertou e o cheiro doce e másculo invadiu meu nariz. Lanza andava - praticamente corria - em minha direção. O peito nu, cabelos caindo no rosto e um sorriso doce.
Sorri.
Porra! Quem não iria sorrir?
- Essa viagem está me matando! - ele gritou por cima do barulho do mar, se aproximando, mas mantendo uma divisória imaginária entre nossos corpos. Ele colocou as mãos atrás das costas. - Está me matando lenta e dolorosamente.
- Como sangrar até a morte? - perguntei, sorrindo maliciosamente.
- Como sangrar até a morte. - ele sorriu, assentindo graciosamente com a cabeça.
- E para quê sofrer desse jeito? - perguntei novamente, colocando uma mecha dos seus cabelos atrás de sua orelha, não sem antes me certificar de que todos estavam distraídos.
- Não sei. - ele respondeu, fechando o sorriso. Senti meu próprio rosto se contrair, mas logo ele sorriu torto e continou, fazendo com que eu sorrisse de novo: - Mas algo me diz que vale muito a pena.
- Pelo menos... - disse, não conseguindo não me aproximar dele. Seus dedos, de baixo da água, roçaram minha barriga nua.
Senti um calor subir pelo meu corpo e antes que fizesse alguma besteira, me afastei, ouvindo Júlia gritar, não dando nem tempo para se arrepender.
- PÁRA, THOMAS! AQUI NÃO! - Thomas estava beijando-a no pescoço e suas mãos, que estavam sobre sua bunda, a traziam para perto cada vez mais. Quando procurei por Isadora e Koba, os dois haviam sumido. Ele estava na barraquinha pegando mais uma cerveja, ela, por sua vez, conversava com um surfista gostosão. Pe Lu e Maria Eduarda continuavam a se beijar sem se importar com o mundo - e os coitados dos velhinhos - e com o tempo, como se estivessem em um universo paralelo.
Ah, que lindo!
Lanza me puxou e falou ao pé do meu ouvido:
- Vamos aproveitar que eles estão ocupados demais um com o outro! - e me deu um beijo. Mas não foi qualquer beijo, foi selvagem, como se esperasse há muito tempo por aquilo. Por um momento senti que ficaria sem ar.
Mas para quê respirar quando se está tendo o melhor beijo de sua vida?
Respirar é para losers.
Ele me puxou pelos cabelos e passeou com as mãos pelo meu corpo. Suas pernas se juntaram as minhas e sua língua explorava toda a minha boca.
Segurei em seu pescoço com firmeza, com medo de cair e ser levada pela correnteza, pois sentia minhas pernas moles e meu coração prestes a explodir.
Me entreguei.
Não conseguia mais me conter.
Ele puxou o laço da parte de baixo do meu biquíni e eu puxei seu shorts para baixo. E quando pensei que tudo estava perdido, uma onda veio forte e quebrou em cima de nós dois, fazendo com que caíssemos na areia molhada.
Segurei meu biquíni e fiz novamente o laço. Quando emergi na água, Lanza já estava lá, olhando assustado para mim.
- Você está bem? - ele perguntou. E como se fosse a coisa mais natural do mundo - depois de um amasso daqueles - eu comecei a rir. No começo ele só me olhou, como se eu fosse louca. Depois, se juntou a mim, e riu.
- Lanza!? - Koba gritou na beira do mar, surgindo do nada. Isadora estava parada a alguns metros dele, e a sua cara não era a das melhores. - ESTAMOS VOLTANDO!
Lanza e eu nos entreolhamos.
Teríamos que deixar aquilo para mais tarde.

Lanza fala:

Voltamos para a casa do meu tio pois o sol resolveu se esconder, dando espaço para nuvens pesadas e chuvosas. A atmosfera ficou negra e só tínhamos vontade de uma coisa: Tequila!
Todos tomaram banho e desceram a escada incrivelmente ao mesmo tempo.
Harry usava uma calça jeans escura e estava sem camiseta e sem sapatos, fazendo Júlia sorrir maliciosamente ao pousar os olhos nele. Mas ela não ficava atrás no quesito pouca roupa. Usava um shorts xadrez e uma blusa de alcinha branca, e também descia descalça.
Maria Eduarda, que usava um vestido branco e chinelos da mesma cor, descia abraçada pela cintura com Pe Lu, que usava uma bermuda preta e chinelos pretos, e como Thomas, sem camiseta.
Koba usava uma bermuda xadrez e chinelos brancos. Ele descia sem camiseta, imitando os outros dois, e Isadora vinha logo atrás, camiseta preta, saia jeans e sandálias pretas, como se estivesse de luto ou triste.
Vai saber...
Eu vinha por último, também sem camiseta, porque senti que não conseguiria olhar para Victória sem suar. Usava calça jeans e chinelos azuis.
Victória vinha ao meu lado, mantendo uma distância preocupante de dois dedos de mim. Usava uma camiseta vermelha e larga de Koba, escrita “Fuck You!” em letras garrafais – pois alegava não ter mais roupa, depois de, não sei, algumas horas? – e um míni-shorts jeans. A camiseta era comprida demais, cobrindo o shorts e dando a impressão de que ela não usava nada por baixo.
Perdição. Provocação. Tesão.
Fomos jantar, gargalhando sempre que podíamos, fazendo uma zona na mesa branca e quadrada da cozinha. Entretanto, ninguém tocou na comida que Pe Lu fizera em dois minutos, – uma mistura de macarrão com arroz – nojenta demais para qualquer contato direto.
- Ok, está uma puta chuva lá fora e nós estamos presos aqui dentro. – reclamou Isadora, alegando o óbvio, já que os trovôes não paravam de explodir do lado de fora. Ela colocou o prato de lado, apoiou os dois cotovelos na mão e continuou, como uma professora chata: – O que nós vamos fazer?
- Sexo! – Thomas exclamou, apertando Júlia pela cintura. Ela deu um tapinha no seu ombro, corando no estilo eu-quero-fazer-sexo-com-você-mas-não-quero-que-você-espalhe-para-todo-mundo-na-mesa.
- Além da pornografia, mas alguma sugestão? – Maria Eduarda interveio, olhando para Pe Lu com um sorriso idiota nos lábios.
- Truco com Tequila! – Isadora sugeriu, e todos concordaram na hora. Cinco minutos depois estávamos com a Tequila e o baralho na mesa.
Fomos jogando, jogando e jogando. Só percebemos que estávamos bêbados quando ninguém mais entendia o que o outro falava e tínhamos que gritar para falar.
- Cansei de jogar truco! – eu berrei, abafando as vozes enroladas dos outros. Victória brincava de dar tapas em Koba, Isadora e Maria Eduarda riam sem parar, Pe Lu embaralhava o baralho e Harry fora trocar o Cd dos Beatles que já tinha tocado umas 10 vezes seguidas. – Vamos jogar Sueca!
Todos assentiram com a cabeça, quase caindo da cadeira ao fazer isso.
- Começa aí, Lanza! – Pe Lu exclamou, colocando o baralho para baixo na mesa de vidro da sala de estar. Peguei a primeira carta – 7. Faça sua regra.
Eu não sei se foi porque estava muito bêbado para pensar em outra coisa que não fosse sacanagem, ou se eu não conseguia mais ficar longe dos beijos de Victória. Só sei que minha primeira regra foi:
- Antes de beber, os casais tem que se beijar.
- Que casais? – Koba perguntou, olhando fora de foco para mim. Isadora piou ao seu lado.
- Thomas e Júlia, Pe Lu e Maria Eduarda, claro... – eu disse, rodando a cabeça. Não conseguia nem organizar meus pensamentos direito. Minha coordenação motora era zero e a música eletrônica que tocava alto fazia um barulho esquisito na minha mente. Koba olhou para Isadora apreensivo, mordendo os lábios, bêbado o suficiente para não perceber a força que usava, e eu completei: - E nem pense que vocês vão escapar dessa! Vocês eram um casal até aquela merda acontecer...
- E você, Lanza, faz casal com quem? – Maria Eduarda perguntou, lançando um sorriso afetado para Victória.
- Eu? Eu... – comecei, procurando Victória com os olhos. Mas nem precisei, porque ela mesma se pronunciou, enrolando todas as palavras e rindo entre elas:
- Pode deixa que o Lanza vai comigo. Eu faço esse sacrifício! Agora eu pego a carta!
Ela pegou a próxima carta. Rei.
Todos bebem.
E era por isso que eu amava aquele jogo.
Thomas e Júlia já estavam se comendo antes mesmo que eu pudesse lembrar o significado da carta. Maria Eduarda e Pe Lu riram afetados e começaram a se beijar como um casal apaixonado.
Olhei para Koba, que sorriu afetado para mim. Depois pousou os olhos na boca de Isadora e no próximo segundo eles estavam se beijando.
Virei meu rosto para o lado, ficando meio tonto com o movimento brusco, e dei de cara com Victória, que se inclinou em cima de mim e sussurrou:
- Amei essa regra!
E me beijou.

Victória fala:

É, eu fiquei muito bêbada.
Mas não só eu. Os outros também. E finalmente o amor e o desejo falaram mais alto que o orgulho.
Depois do primeiro beijo, todos os casais foram para algum lugar da casa, para ter mais privacidade. E para as coisas esquentarem, claro...
Thomas e Júlia foram os primeiros e desistir. Subiram se agarrando para o quarto dos meninos e trancaram a porta, fazendo uns barulhos engraçados lá em cima, como se estivessem derrubando o quarto inteiro. Mais tarde eu descobri que na verdade eles estava correndo pelo quarto, brincando de pega-pega, logo depois de Júlia dar um chega pra lá em Thomas.
Eu e Lanza fomos os segundos, subindo para o quarto das meninas. Mas eu falo disso mais tarde.
Koba e Isadora foram os terceiros, saindo para a piscina aquecida, quando a chuva parou. E aquilo explicava o porquê de Isadora ter acordado no nosso quarto gripada e encharcada.
Ou será que não explica?
Pe Lu e Maria Eduarda ficaram pela sala mesmo, conversando e se pegando às vezes, porque, pelo o que Maria Eduarda nos explicou, a única coisa que Pe Lu gosta de fazer bêbado é... conversar.
- Lanza, eu estou bêbada! – eu reclamei, logo depois rindo ao ser jogada na cama de casal que Isadora dividia com Maria Eduarda. Ele se jogou em cima de mim, beijando meu pescoço e me fazendo ficar com vontade de fazer coisas que eu não faria sóbria, se é que você me entende. – Não faz nada comigo!
- Ok. – ele murmurou, como se não tivesse nem ouvido o que eu tinha falado, mordendo minha orelha. Inclinei-me para seu ouvido, aproveitando o bom senso que me restava, e choraminguei:
- Promete?
De repente, ele parou de me provocar e me fitou, ficando sério como se estivesse sóbrio.
- Você acha mesmo que eu faria alguma coisa sem seu consentimento?
- Então promete!
- Prometo. – ele respondeu, olhando no fundo dos meus olhos. Voltei a beijá-lo.
Esquecendo da promessa – ou não – Lanza me encaixou em suas pernas e enfiou a mão dentro da minha camiseta, como se quisesse tirá-la. Indo no embalo, desabotoei sua calça e comecei a dar leves beijos no seu pescoço, indo para baixo cada vez mais. A bebida e a vontade me dominaram por completo. Eu estava pouco me fodendo para tudo. Eu queria ele.
Quando cheguei até o meio da barriga e Lanza viu que eu ia continuar descendo, me empurrou gentilmente e se levantou com um pulo. Estranhei seu movimento e me levantei também, fitando-o curiosa. Sabia que a bebida deixava minhas expressões bizarras, e agradeci por ele não estar rindo.
Ele andou de costas até a porta, como se não quisesse ir embora. O olhar desconfiado e decepcionado pousou nos meus olhos ainda curiosos, e ele murmurou:
- Desculpe, Victória, mas eu prometi.
E saiu.

Lanza fala:

Acordei no meu quarto, jogado no chão ao lado de Thomas. Pe Lu estava babando no travesseiro da cama de casal e Koba pingava água na cama de solteiro, enrolado em uns três cobertores que provavelmente Pe Lu jogara nele durante a noite.
Rolei para o lado, tonto pelo cheiro de perfume feminino, masculino e álcool que empregnava o quarto, e dei de cara com Thomas, que olhava para o teto, pensativo.
- Madrugou? – perguntei, falando baixo para não acordar os outros.
- Talvez. Nem sei que horas vim parar nesse quarto. Mas a tontura passou agora há pouco... – ele respondeu, fazendo círculos imaginários com os braços.
- E a noite com a Júlia, foi boa? – perguntei, segurando o riso.
- Foi foda, dude! – ele exclamou, arrumando a postura de repente. Um sorriso se expandiu de orelha e orelha, e se ele não fosse meu amigo eu estaria o chamando de gay até o outro dia.
- E aí, rolou um fanfer’s? [N/A: Fanfer’s = sexo. Créditos by Bruno.] – brinquei, fazendo ele gargalhar e olhar maliciosamente para o teto.
- Quase, dude, quase...
- Quase por que, D'avilla? Não vai me dizer que não subiu!? – o zoei. Não podia perder a oportunidade de sacanear Thomas-garanhão-D'avilla
- Vai se foder, Lanza! – ele exclamou, me dando um soco no ombro. – Não foi nada disso. Ela... Não quis...
- Ela não quis? – Pe Lu perguntou, pulando em nós dois. Quase tive um infarto, pois pensei que ele estivesse dormindo.
- Caralho, Pe Lu! – eu guinchei, fazendo-o rir. – Vai se foder, quase morri agora!
- O quê foi, Lanza? Nasceu de 6 meses? – ele perguntou, gargalhando.
- Vai, D'avilla, continua. – eu disse, ignorando a pergunta de Pe Lu. – Agora eu quero saber.
- Então... Quando cansamos de jogar sueca...
- Dois segundos depois da brincadeira começar... – Pe Lu ironizou, virando os olhos e recebendo um tapa de nós dois.
- DEPOIS DA BRINCADEIRA COMEÇAR... – ele gritou, por cima da risada de Pe Lu, que parou para prestar atenção. Koba enfiou o travesseiro na cabeça, irritado. Já havia acordado, mas era sempre o último a dar sinais de vida. – Eu trouxe ela para cá. Só que ela estava tão bêbada que toda aquela postura só-me-toque-depois-do-casamento foi por água abaixo. Dude, ela começou a tirar minha roupa e a própria roupa ao mesmo tempo, e eu nem sei como isso é possível! – ele relatou, e nós rimos. – Então me puxou para a cama de casal e eu comecei a suar frio, e ANTES que vocês comecem as brincadeirinhas, eu estava nervoso sim. Sei lá... Com ela tudo é diferente...
- Ah, nosso baterista gostosão está apaixonado! – eu brinquei, e ele sorriu, indiferente ao comentário. Reparei em como as coisas mudaram. Se eu tivesse dito aquilo algum tempo antes, ele me socaria tanto que eu sairia roxo.
Ah! As cheerleaders do colégio Norbert...
- Eu sabia que seria aquela hora. Sabia disso, e mesmo sabendo que sóbria ela não faria aquelas coisas, me joguei em cima dela. Fui realmente egoísta, mas foram os hormônios...
- Hormônios, sei... – Pe Lu zoou, e Koba soltou uma risadinha da bola de cobertores.
- Aí eu comecei a beijar aquele corpo lindo dela, e a cada segundo que se passava o nervosismo aumentava. E se ela não quisesse? Mas então as coisas foram fluindo e ela tirou minhas boxers. E quando eu estava prestes de ir para o céu... – ele narrou, e nós arregalamos os olhos, arrumando nossas posturas. Thomas sabia como contar uma história. – Ela me empurrou e sussurrou: “Melhor não, Thomas...”.
Soltamos o ar presos em nossos pulmões e gargalhamos.
Por pouco Thomas não era nosso ídolo.
Mas as patricinhas ganharam de novo.
- Aí nós fomos brincar de pega-pega e dar uns amassos de vez em quando. – ele completou, rindo das nossas caras de decepcionados.
- Pega-pega pelados? Deve ser legal... – Koba comentou, saindo do seu casulo e entrando na conversa.
- Seria, mas nós colocamos nossas roupas. – ele disse, dando de ombros.
Sonhos de uma noite de verão.
Ou sonhos de uma noite de tempestade, se você preferir assim.
Agora, desde quando o tarado do Judd resolve não fazer nada e prometer “esperar o tempo que for preciso” para ficar brincando de pega-pega em um quarto escuro, aconchegante e sem roupa?
E, melhor ainda, desde quando uma menina rejeitava o tarado do D'avilla?
E é aí que você percebe como as coisas mudam...
- Porra, eu não conto mais as coisas pra vocês, porque a cada vez mais soa mais gay... Mas eu gosto mesmo dela, e vou esperar e todas essas merdas que caras apaixonados fazem... – Thomas suspirou, com cara de apaixonado. – Nem que para isso eu tenha que torturar o coitado do Thominhas Jr.
- Como isso ficou gay, dude... – Koba concordou, e nós quatro gargalhamos.
- E você e a Duda, eim Pe Lu? – Thomas perguntou, tirando o foco da conversa da sua tentativa frustrada de conseguir alguma coisa com Júlia. – Rolou alguma coisa?
- Não, dude, você sabe como eu fico bêbado. – ele respondeu, dando de ombros.
- Assexuado. – eu concordei.
- É, isso mesmo. Então nós basicamente nos amassamos, conversamos e bebemos o resto da garrafa de Tequila. O único problema é que a Duda fica TARADA bêbada e eu tive que afastar ela, porque não tinha a mínima vontade de fazer outra coisa a não ser rir...
- E é por isso que as meninas na escola odeiam te amar... – Koba disse.
- Mas acho que ela não se importou muito... Ah! – ele exclamou, lembrando de algo. – Nós fizemos um bolo de Nescau que provavelmente está todo sujo e nojento na geladeira.
- Vocês fizeram um bolo... bêbados? – Thomas perguntou, incrédulo.
- É.
- Não vou chegar nem perto disso. – Thomas brincou e Pe Lu mostrou o dedo do meio para ele. – E aí, Koba, como foi sua reconciliação com Isadora?
- Sei lá se foi uma reconciliação... – ele respondeu, dando de ombros, e uma sombra passou por seus olhos, deixando a atmosfera pesada. Mas logo ele voltou ao normal de Koba e continuou: - Ela vai ter que ralar muito para ter meu perdão.
- Koba, o exterminador de corações. – eu brinquei, imitando um robô.
- Mas mesmo assim a pegada foi forte. – ele disse, maliciosamente.
- Essas meninas ficam perversas bêbadas! – Pe Lu resmungou, parecendo uma criança mimada só porque não conseguia fazer nada bêbado.
Coitado.
Bixona!
- Nós entramos na piscina! – Koba continuou, os olhos brilhando. – Foi animal, nunca tinha pego ninguém em nenhuma piscina, principalmente uma aquecida!
- E foi bom pra você? – perguntei, irônico.
- Nós entramos de roupa mesmo. Estava tão quente que saía fumaça! – ele contava, como uma criancinha. – A neblina estava tão espessa que eu quase não via o lado de fora da piscina, dando um clima irado de filme de terror.
- É uma criança... – Pe Lu comentou.
- Então, primeiro, nós conversamos por um bom tempo. – ele continuou, ignorando Pe Lu e seus famosos comentários irônicos. – Ela me pediu desculpas e eu disse que iria pensar... Então ela simplesmente me ATACOU!
- HAHAHAHAHA! – todos nós rolamos de rir com os gestos exagerados de Koba.
- Conte como foi o ataque, dude! – Thomas pediu, se empolgando com a história.
Koba também sabia como contar uma história.
- Ela tirou a camiseta, ficando só de saia jeans e sutiã, e logo em seguida começou a me beijar tanto que eu nem conseguia respirar direito! Ela beijava meus ombros e eu beijava seu pescoço. Então, no calor do momento, minha mão desceu pela água quente e parou no meio das suas pernas, que ficaram rígidas mas logo depois amoleceram. Eu meio que fiz aquilo de propósito, e não porque estava bêbado, porque há muito tempo eu queria aquilo... Aquela menina sabe como deixar alguém louco!
- Esse alguém lê-se Koba. – Thomas concluiu.
- Aí vocês já sabem o que aconteceu... – Koba terminou, ficando contrangido.
- Ela deixou na boa? – eu perguntei, tentando deixar Koba mais constrangido ainda. Eu sabia que aquelas coisas eram íntimas, mas entre nós não havia segredos, – PUTAQUEOPARIU, QUE COISA MAIS GAY! – e eu não ligava se Isadora tinha feito ou não alguma coisa, pra mim ela sempre seria a santinha de Koba.
Mas mesmo assim era divertido irritá-lo.
- Dude, nós estávamos bêbados! – ele respondeu, defendendo Isadora dos pensamentos nefastos.
Nefastos, da onde eu tirei essa palavra?
- E... Eu a amo, e ela me ama, vocês sabem disso, não tem nada demais e...
- Tudo bem, garoto sensível! – Thomas o desarmou. – Nós não falamos nada!
- E depois disso? – Pe Lu perguntou, meio que com inveja do amigo.
- Depois eu peguei uns cobertores e...
- Eu sabia que tinha visto um Koba passando pela sala molhado! – Pe Lu gritou. – Não era sonho, não era mito! [N/A: Desculpem pelas gírias estranhas, a maiorida é piada interna. xD]
- HAHAHAHA! – Koba gargalhou. – É, era eu mesmo... Então nós ficamos deitados na churrasqueira vendo as estrelas.
- E você veio parar aqui que horas? – perguntei.
- Nem sei. Nós bebemos mais, e eu perdi a consciência de novo. Só sei que acordei aqui do nada com o Lanza falando todo enrolado. Lanza, você estava mais bêbado que tudo!
- Sério? – perguntei. Eu não me lembrava daquilo. – O que eu fiz?
- Você caiu com tudo no chão e ficou nele, falando um monte de coisas que eu não entendi. – ele respondeu, e os outros riram.
- Agora... – Pe Lu disse, e os outros dois olharam para mim. Engoli em seco. Chegara minha vez. E eu tinha uma resposta na ponta da língua para dar.
Mas não era a resposta que eu realmente queria dar.
- Agora? – perguntei, me fazendo de desentendido.
- Como foi sua noite com Vic? – Koba perguntou, segurando o riso.
Respirei fundo.
- Pra falar a verdade, eu não lembro de nada.

Victória fala:

- Não adianta! – reclamei, jogando um travesseiro em Maria Eduarda. – A última coisa que eu me lembro foi de ir ao banheiro logo antes da última partida de truco, depois só me lembro de algumas coisas alheias...
Lies, lies, lies!
- Ah não, Vic! – Júlia reclamou. – Só porque finalmente vocês ficaram?
Finalmente é?
- Credo, nem me lembre disso... – resmunguei, relembrando de todos os momentos do dia anterior. Esbocei um sorriso.
- Ah, mas já estava subentendido que eles iriam ficar, ou vocês acharam mesmo que eles iriam ficar segurando vela? – Isadora gritou do banheiro, onde tomava banho. O vapor saía por debaixo da porta deixando o quarto quentinho, o que era bom. O dia estava uma merda. Frio e nublado.
- Nada a ver! – resmunguei, me jogando na cama e passando as mãos no meu cabelo úmido do banho. – Eu não ficaria com ele sóbria...
Ou será que ficaria?
- Ok, mas você não lembra nem de um beijinho do vocalista gostosão? – Júlia perguntou.
Sorri como boba, e elas viram.
- Aaaaaaaah! Olha a cara dela! – Maria Eduarda brincou, me cutucando. – Vai, conta!
- Ok, ok! – gritei, afastando as mãos delas que me cutucavam inteira. – Lembro de um só!
- Pode contando! – Isadora pediu, saindo do banheiro enrolada em uma toalha e se jogando entre nós três na cama.
- Eu me lembro que o Lanza veio comigo para o quarto mas logo depois saiu, mas não me lembro do motivo. – comecei, omitindo a parte toda da promessa. – Depois de alguns minutos, ele voltou, rindo sozinho.
- E aí? – Maria Eduarda exclamou.
- Detalhes, Vic, detalhes! – Júlia e Isadora imploraram.
- Ok... – suspirei. – Eu estava deitada de barriga para baixo na cama, esperando a tontura passar. De repente ouvi um clic na porta. – nem sei porquê estava contando tudo aquilo para as meninas, mas as palavras jorravam da minha boca e eu não fiz nada para impedir. – Levantei minha cabeça e olhei, ainda meio zonza, para ele, que entrava cambaleando pela porta. Ele se jogou ao meu lado e eu encostei minha cabeça nos seus ombros.
As três ouviam o relato hipnotizadas.
Eu até podia ouvir o que elas pensavam. “Quem diria, Lanza e Vic!”.
- Ele passou os dedos pelos meus cabelos e ficamos olhando para o vazio negro do quarto.
- E o que ele disse? – Isadora perguntou, quebrando o silêncio.
- “Vic, eu sempre quis você.” – respondi, antes mesmo de tentar inventar alguma coisa.
“Merda!” pensei. Agora que elas não me deixariam em paz.
- Aaaaaaah! Que lindo! – Maria Eduarda gritou! – Eu sabia, eu sabia!
- Não se empolgue tanto, Duda, eu estava bêbada e ele também. E outra, eu não vou ficar com ele novamente. – disse, virando os olhos. As expressões nos rostos das meninas murcharam.
- Mas vocês ficam tão fofos juntos! – ela protestou.
- Acho que nem, eim? – perguntei, rindo das suas caras incrédulas.
- Vai, Vic, continua! – Júlia pediu.
- Acho que depois disso nós dormimos por algum tempo e acordamos ao mesmo tempo. Senti ele se mexendo ao meu lado e me virei, nossos rostos ficando paralelos.
- E o que ele disse? – Isadora perguntou, empolgada.
- “Oi.”
- Conta a conversa toda! – Júlia reclamou.
- “Oi.” eu respondi. “Você está quente!” ele exclamou. – imitei a voz dele e as meninas riram. – “Acho que é porque nós estamos cobertos por uns vinte cobertores...” eu respondi, fazendo ele rir e dizer: “Ah, é...”.
- E...? – Júlia já estava ficando impaciente.
- “O que você quer fazer agora que não estamos tão tontos?” eu perguntei. Então ele se inclinou em minha direção e sussurrou, com seus lábios perto dos meus: “Isso.” e me beijou.
Foi realmente muito romântico.
E eu me derretia toda vez que pensava em nós dois abraçados, se beijando, e em como ele tinha mantido a promessa, respeitando minhas vontades.
Lanza era tão perfeito!
E eu estava tão apaixonada; e ferrada.
- Que lindo... – Maria Eduarda suspirou.
- É, lindo, maravilhoso, agora vamos descer que eu tô com fome. – reclamei, colocando um par de meias limpas. Fazia um frio da porra.
Colocamos moletons velhos e sem graças, mas para aquele tipo de frio era o único tipo de roupa que se encaixava. Descemos com os cabelos úmidos, uma ressaca do caramba e morta de fome.
Quanta feminilidade.
- Meu Deus, o espelho do quarto de vocês quebrou? – Pe Lu exclamou, fitando Maria Eduarda de cima a baixo, enquanto os outros riam.
- Vai se foder, Munhoz. – resmunguei, pegando o muffin de blueberry que ele estava prestes a enfiar na boca.
Passei por Koba, que olhava carrancudo para Isadora conversando com Thomas e fui até a pia, onde Lanza lavava louça distraidamente.
Ele estava cheirando sabonete e loção pós-barba e eu queria me envolver em seus braços e nunca mais sair. Ele lavava habilmente os pratos e os colocava no escorredor, olhando vagamente para as mãos. Nem me percebeu parada ao seu lado, e meio que tomou um susto quando eu peguei um pano de prato e comecei a secar as coisas do escorredor.
Continuou entretido na lavagem, mas inclinou a cabeça para mim e perguntou, quase sussurrando:
- Domiu bem?
- Sim. – abaixei consideravelmente a voz. – Pensando em você.
- Eu também. – ele disse, sorrindo para mim e mostrando seus dentes perfeitos, meio tortinhos em baixo, que eu tanto amava.
- E aí, te enxeram muito? – perguntei, apontando com a cabeça para o grupo de 6 pessoas que riam como crianças e jogavam comida umas nas outras.
- Um pouco. – ele deu de ombros. – E você?
- Bastante.
- Vic... – ele abaixou mais ainda a voz, sem tirar os olhos das mãos ensaboadas. Ele estava tenso e suas pernas apoiaram na bancada da pia, como se ele pudesse cair a qualquer momento. – Nós precisamos mesmo continuar mentindo?
- Sim. – respondi, exasperada. Nem eu sabia mais o motivo de esconder aquilo, já que todos estavam numa boa. Mas eu realmente não queria contar para ninguém.
Sem contar já tínhamos problemas, imagina contando?
Quantas intrigas as pessoas do colégio fariam para nos separar?
Só de pensar nisso, estremeci.
Lanza continuou olhando para as mãos como antes, mas sua respiração ficou agitada.
- Lanza, eu não quero que ninguém se meta com o que nós temos e...
- É isso ou eu sou algum tipo de jogo pra você? – ele sussurrou com raiva, e se eu não estivesse inclinada para ele não teria ouvido.
Senti um aperto no coração.
Será que ele achava aquilo mesmo?
- Como você pode chegar a pensar em uma coisa dessas? – perguntei, parando de secar os pratos e olhando para seus cabelos que caíam pelo rosto. Ele fez um movimento rápido com a cabeça e logo me encarava, com raiva nos olhos. – Eu amo você.
Suas feições se suavizaram na hora, e eu senti um alívio instantâneo.
- Eu também te amo, Vic. – ele suspirou e o sorriso torto que eu tanto adorava se apossou do seu rosto. Atrás de nós as gargalhadas não paravam. Estávamos seguros. – Desculpe por isso, é que às vezes eu não sei o que você está pensando e isso me deixa... inseguro.
- Tudo bem. – eu repliquei, baixando meus olhos, meio envergonhada por deixar o cara que eu gostava em dúvida sobre o que eu sentia. – Eu quero contar, você sabe que sim, mas eu quero que seja na hora certa, no momento certo e não sei quando isso vai...
- Hey, ok, deixa isso pra lá. – ele me cortou, pegando discretamente na ponta dos meus cabelos úmidos. Olhei para trás com o canto dos olhos, mas todos estavam muito ocupados em rir de Pe Lu, que colocava todas as bolachas da mesa na boca. – Você só não pode me privar dos seus beijos.
- Como se eu quisesse... – virei meus olhos e ele riu.
- Promete? – ele pediu, sorrindo maliciosamente.
- Prometo.

Capítulo 9 – Verdade ou desafio?

Lanza fala:

- Porra, não pára de chover! – Koba resmungou, mexendo as pernas, ansioso.
- É, e não tem nada pra fazer... – Isadora concordou, afundando no sofá ao lado de Koba, que colocou a mão discretamente ao lado da dela.
- Ainda tem duas garrafas de Tequila e quatro de Vodca. – Pe Lu nos lembrou.
Nos entreolhamos, com olhares marotos no rosto.
- Fui! – Thomas exclamou, sumindo pela porta da cozinha.
- Desse jeito eu vou entrar em coma alcoólico! – Júlia exclamou, batendo com as mãos na barriga. – Ou fazer alguma besteira...
Victória deu uma risadinha.
- Tudo bem, o Thomas não se importa. – eu brinquei, mas logo completei, quando todos me olhavam curiosos: - Com o negócio de fazer besteira, claro.
- Certo! – Thomas gritou, chegando na sala novamente, com o resto mínimo de Tequila do dia anterior, uma garrafa cheia e outra cheia de Vodca. – Vamos fazer o quê?
- Sueca! – Maria Eduarda exclamou, olhando para Pe Lu, que fez uma careta engraçada.
- De novo não... – todos resmungaram.
- Ok, que tal porco? – Victória sugeriu, sentando ao meu lado. Nossos ombros se tocaram e eu senti uma eletricidade maluca passar por mim.
- Não, eu tenho uma melhor. – eu respondi, de repente me lembrando das festas de quinta série, onde o sonho de consumo de todos os meninos era beijar Maria Eduarda, Isadora, Júlia e Victória no verdade ou desafio. – Verdade ou desafio!
- Boa! – eles gostaram.
- Um shot antes de cada rodada? – sugeriu Koba.
Todos assentiram, se arrumando em uma roda.
Fiquei ao lado de Júlia e Victória, que por sua vez estava ao lado de Koba. Isadora se sentou ao lado dele e Pe Lu sentou-se ao lado da menina. Maria Eduarda ficou entre Pe Lu e Thomas, que puxou Júlia para mais perto. Fechamos o círculo.
- Mas vale tudo? – Pe Lu perguntou, olhando apreensivo para Maria Eduarda. – Tipo, ninguém é de ninguém.
Nos entreolhamos. Já sabíamos que queríamos. Mas o primeiro a se pronunciar foi Thomas:
- Se alguém ficar de gracinha pra cima da minha Jú morre.
Rimos.
Maria Eduarda começou rodando a garrafa vazia – depois de Koba a matar – de Tequila. Koba pergunta para Thomas.
- Desafio! – Harry disse, antes mesmo de ouvir a pergunta.
- Desafio você a ficar com a Vic. – Koba disse, dando uma risada discreta.
Ao escutar aquilo, meu coração se apertou e eu senti que poderia vomitar todas as minhas tripas ali mesmo.
O Thomas. Com a MINHA Vic?
- Ok, vamos lá! – Thomas disse, entusiasmado.
E quem não ficaria?
Olhei para Júlia e pude ver em seus olhos que ela estava sentindo a mesma coisa que eu. Os olhos perfuravam Thomas com ódio mas ao mesmo tempo amor, e sua mão encontrava-se no estômago, como se ela fosse vomitar.
Sabia que aquilo seria uma péssima idéia.
Ninguém é de ninguém, certo?
Errado.
Thomas se sentou ao lado de Victória e eles ficaram se encarando, tentando parar de rir durante um bom tempo, até que Pe Lu interrompeu, irritado:
- Vamos logo com isso, eu quero continuar a brincadeira!
Thomas passou as mãos por debaixo dos cabelos de Victória. Ela colocou a mão pequena na sua nuca – como ela costumava fazer comigo – e aproximou as duas bocas. Enfim, Thomas a beijou.
Júlia ficou estática e eu me remexi desconfortável.
Tudo bem, era só uma brincadeira.
Uma brincadeira IMBECIL, que EU tinha sugerido. Mas ainda assim, era uma brincadeira...
Não era?
- Já deu né? – eu exclamei ao mesmo tempo que Júlia. Koba passou a mão pelo beijo e os dois se separaram, rindo. Pe Lu olhou para mim desconfiado e eu completei: - Eu quero jogar também.
Acho que ele engoliu aquela.
Thomas – com um sorriso odioso no rosto – encheu os copos de shots e nós tomamos de novo.
Victória pegou a garrafa vazia e rodou. Isadora perguntava para Júlia.
- Verdade ou desafio?
- Desafio.
- Então... – ela começou, percebendo meu olhar vingativo e o olhar malicioso de Júlia. – Eu quero que você beije o vocalista das mãos hábeis.
Todos nós gargalhamos.
Victória olhou torto para mim e a satisfação tomou conta do meu ser.
Ah, a doce vingança.
Eu troquei de lugar com Thomas – que me olhou com raiva – e me sentei ao lado de Júlia, que não conseguia esconder o sorriso diabólico. E ela estava mesmo a a fim de provocar, porque antes de me beijar subiu no meu colo e enfiou as duas mãos nos meus cabelos, os colocando para trás. E depois encaixou seus lábios doces nos meus.
O beijo dela era bom. Muito bom. Mas ela não era Victória.
Ninguém era.
Envolvi minhas mãos seguramente em seus cabelos, longe de sua cintura. Aquilo seria demais para Thomas.
- Time’s over! – Maria Eduarda exclamou, batendo nos ombros de Júlia, que desceu do meu colo rindo, exatamente como Victória fizera.
- Vira! – Koba exclamou, e viramos novamente.
Maria Eduarda já estava alegre e Isadora fechava os olhos de vez em quando.
E era por isso que eu adorava a Tequila.
Maria Eduarda rodou a garrafa. Júlia perguntava para Isadora.
- Verdade. – ela deu de ombros.
- É verdade que você sempre achou o Kobayashi gato, mesmo antes de vocês ficarem? – Júlia perguntou, lançando um olhar sugestido para Koba.
Isadora corou.
Admitir aquilo iria matá-la. E iria fazer com que ela quisesse matar a Júlia, mas isso já é outra história...
- Hum... Eu... – ela murmurou, desviando o olhar de Koba, sem muito sucesso. Então acho que ela se enxeu de todo aquele teatrinho me-poupe-dessa-gentalha – assim como eu já estava de saco cheio faz tempo – e exclamou, largando os braços pelo corpo: - Ah, é verdade mesmo, satisfeitos?
Koba sorriu maliciosamente ao seu lado e mordeu os lábios sugestivamente.
- ÓTIMO! – ela berrou, virando os olhos de um jeito engraçado. – Agora a bosta do Kobayashi vai ficar se achando pra sempre!
Koba se inclinou para ela e passou os braços por seus ombros rígidos. Mordeu sua orelha de brincadeira e disse:
- Eu sempre me achei gata!
Todos nós rimos, não sei se por achar graça no comentário ou porque a bebida estava subindo direto e reto. E ficamos rindo por um bom tempo, até recomeçar a brincadeira.
Ela continuou pela tarde inteira. Nós nem vimos a manhã ir embora, emendando com a tarde. Só sei que quando eu percebi, o céu estava de um azul marinho e as nuvens se carregavam cada vez mais.
Durante o dia aconteceram coisas bizarras pelo efeito da bebedeira.
Só pra você ter uma noção, Júlia lambeu o pescoço de Pe Lu até chegar na sua barriga, com chocolate na língua; beijou as coxas de Koba, que não conseguia parar de rir e beijou Thomas de ponta cabeça.
Isadora comeu metade de uma melancia com Thomas – sem as mãos, só com a cabeça enfiada na melancia – e depois teve que beijá-lo com cara toda nojenta; mordeu todo o rosto de Koba e teve que me dar 30 selinhos seguidos enquanto pulava.
Maria Eduarda dançou até o chão comigo; beijou Koba de olhos abertos; lambeu as orelhas de Thomas – que saiu meio tonto depois dessa – e teve que beijar Pe Lu girando – nem me pergunte como.
Victória teve que beijar Pe Lu sem a língua; morder a boca de Koba até ele gritar “PÁRA!” – o que ele demorou considerávelmente para fazer – e teve que me beijar sem encostar nenhuma parte do corpo em mim além da boca.
As brincadeiras foram se esgotando e o dia foi acabando. De noite já estávamos totalmente sóbrios e com a tempestade que caía lá fora, um pouco românticos.
- Verdade. – Victória pediu para Maria Eduarda.
- É verdade que... – ela começou, olhando em volta para achar alguma coisa bem constrangedora para jogar em cima de Victória. De repente, seus olhos caíram sobre mim e ela sorriu, com más intenções. – Que você gostou de ficar com o Lanza Reis ontem?

Victória fala:

Maria Eduarda sabia mesmo como ferrar os outros. Porque pela primeira vez em muito tempo, eu não sabia o que fazer, o que falar. Pelo menos eu não sabia o que fazer o que falar para enganar meus amigos do que eu realmente estava sentindo.
Esfreguei minhas mãos depois de sua pergunta, como se aquilo pudesse me ajudar de alguma maneira. Sentia todos os olhares focalizados em mim, e minha respiração falhou.
O que fazer numa hora dessas?
Seguir o coração e dizer que sim, o Lanza Reis era O cara e que eu estava apaixonada por ele, ou simplesmente enganar a todos e me enganar por tabela?
Olhei em volta, eles ainda esperando uma resposta. Eram meus amigos, meus melhores amigos. Elas antigas, eles novos. Mas eu amava todos do mesmo jeito.
O que fazer?
E foi então que meu olhar se encontrou com o dele.
Com o motivo das minhas noites mal dormidas. Com o menino pelo qual eu suspirava sem parar. Com ele que tinha a voz mais linda do mundo e o sorriso mais encantandor.
Lanza.
E ele sorriu para mim, mas dentro dos seus olhos ele me fitava triste, e talvez cansando de esconder o que nós tínhamos.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu soube o que dizer para todos. A coisa certa a se dizer. Pois eu não estaria me enganando nem enganando ninguém.
E foi por isso que eu respondi, ainda olhando para seu sorriso hipnotizador:
- Muito.
Olhei em volta, envergonhada. As meninas somente abafaram risinhos e os meninos levantaram a sobrancelha. Mas naquele momento meus amigos não me importavam muito.
Virei meu rosto vagarosamente e fitei Lanza. E meu coração deu um pulo no peito quando percebi que ele estava feliz verdadeiramente.
- Bom, sintam-se à vontade se quiserem, sabe como é, repetir a dose. – Thomas nos provocou, piscando para Lanza, que corou.
- Também não exagera, não é, Judd!? – eu brinquei, e Lanza soltou o ar.
Pelo menos tínhamos nos safado daquela.
- Vai, girando a garrafa! – mandei, sentindo minhas orelhas queimarem.
Lanza se inclinou do meu lado, roçando seu braço no meu e seu perfume invadiu meu nariz, subindo diretamente para meu cérebro. Fechei os olhos por um instante, tentando guardar aquilo na lembrança.
A garrafa caiu em Júlia.
- Desafio. – ela me olhou suplicante.
Olhei para Thomas, que a abraçava com carinha e afagava seus braços nus e acho que nem cheguei a pensar em outra coisa.
- Desafio que você e o Thomas sumam daqui porque o casal já está me deixando enjoada!
Harry sorriu surpreso para mim, mostrando os caninos. Júlia suspirou aliviada.
Finalmente a sós.
Ele se levantou e a ajudou a se levantar, e os dois sumiram escada acima, dando risada e zoando um com o outro. Chegando no quarto das meninas, trancaram a porta e nós não ouvimos mais nada por um bom tempo.
E olha que nós ficamos em silêncio para tentar ouvir.
- Ah! O amor é lindo! – Maria Eduarda suspirou, também sendo abraçada por Pe Lu.
Ele sussurrou alguma coisa no ouvido dela enquanto eu, Isadora, Lanza e Koba discutíamos algo de quem iria fazer o almoço no outro dia – nem ferrando comeríamos a comida de Pe Lu novamente – e ela riu baixinho.
- Ok, vocês podem subir também. – eu disse, vendo os olhos sussurrando, excluídos da conversa. – Odeio casais! Ah! – gritei, jogando uma almofada neles, que riram e sumiram pelas escadas, assim como Thomas e Júlia. Chegando lá em cima, entraram no quarto dos meninos e trancaram a porta, e nós não ouvimos mais nada.
O andar de cima estava em silêncio total.
Nos entreolhamos.
- Eles ficam fofos juntos... – Isadora comentou.
- É, e eu dou dois dias para a escola inteira estar falando que Júlia e Maria Eduarda estão grávidas. – eu completei, e nós quatro caímos na risada. - Por falar nisso, como vai o blog?
Lanza virou os olhos e Koba se aprumou no chão, arrumando a postura. Isadora sorriu para o garoto todo se achando.
- Vai bem. Pelo menos até agora o veado do John não contou nada para niguém. Espero que continue assim.
- E qual foi a última coisa que vocês postaram? – perguntei.
- Postei antes de vir. – Lanza virou os olhos de novo e suspirou. – Umas fotos dos meninos do primeiro ano pichando o carro do diretor. Genial!
- Legal. – Isadora disse, meio desconfotável com o assunto. E devia ser mesmo meio estranho conversar com o cara que gostava sobre o assunto pelo o qual terminaram.
Bem estranho.
Abaixei minha cabeça, pressentindo o que vinha a seguir. Lanza fez o mesmo, e nossos cabelos cubriram nossos rostos espiões. Lanza sorriu mostrando todos os dentes para mim, feito um leão, e eu ri baixinho.
- Hum. – Koba pigarreou. – Porque os dois autistas abaixaram a cabeça?
- Cala boca, Kobayashi. – eu disse, chacoalhando os cabelos. – Eu fiz isso porque deu vontade, e como o Lanza Reis não pode viver sem encher meu saco, fez igual.
- Claro, meu sonho era abaixar a cabeça junto com a Hackmann. – ele ironizou, e Koba gargalhou. Isadora permaneceu séria, e me lançou um olhar de súplica, que eu rebati para Lanza, que parou de rir na hora.
Ficamos um bom tempo em silêncio. Até que Koba finalmente resolveu agir.
- Você quer, sei lá, ir lá fora? – ele perguntou para Isadora. Eu não conseguia ver nada com todo meu cabelo jogado na nuca, mas podia ouvir muito bem, e eu sabia que pela voz de Isadora, ela estava ansiosa por aquele momento, mas não sairia dali sem fazer um doce.
- Nessa chuva? – ela sussurrou de volta. Eu e Lanza estávamos tão quietos que acho que os dois esqueceram da nossa presença.
- A gente fica na sala de ginástica. – ele respondeu. A sala de ginástica ficava do lado da piscina, mas nunca fora usada realmente para ginástica. Na verdade, era um quarto com cama e Tv. E ar-condicionado.
- Ok. – ela concordou, e eu nem pude contar até 5 que eu e Lanza estávamos sozinhos na sala.
- E aí, o que você quer fazer na pior tempestade do ano? – ele perguntou, esfregando seu nariz no meu e colocando uma mecha do meu cabelo atrás de minha orelha. Respirei fundo, depois de sentir seu toque suave em mim, como se fosse a primeira vez que realmente respirava no dia.
- Primeiro, sair desse chão frio. – respondi, me levantando de qualquer jeito. Ele se levantou em seguida e ficou ao meu lado, como se esperasse por uma ordem minha. – E agora me enrolar nos cobertores.
A próxima coisa que eu senti foi seu peito embaixo de mim, respirando profundamente. Minhas mãos estavam aninhadas no seu pescoço e ele me segurava pela cintura, encostando sua bochecha no topo da minha cabeça. O cobertor vinha até meu pescoço e nós tomávamos leite com Nescau na taça de chapagne.
- Como esse cara não percebeu que a garota dele estava cuspindo sangue até morrer? – ele perguntou, incrédulo. Assistíamos Moulin Rouge na Tv e ele comentava alguma coisa do filme de 5 em 5 segundos, como aqueles amigos chatos que nunca te deixam assistir o filme. Mas como ele era fofo, porque ele realmente não estava entendendo o filme e fazia umas caras de perdido muito fofas.
- Você acha mesmo que ele iria perceber que ela estava morrendo com todos os outros problemas que ele tinha que resolver? – perguntei, fazendo ele concordar com a cabeça.
- Eu perceberia se você estivesse com gripe, que dirá com tuberculose! – falou sério, passando os dedos por meu rosto.
- Atchim! – brinquei, e nós dois rimos.
Ah, piadinhas internas...
Assistimos mais um pouco, mas Lanza estava ficando ansioso demais para assistir um musical tão gay quanto Moulin Rouge. Então me deixei levar por seu toque quente em meu rosto, e inclinei minha boca para a dele, que se encostou com leveza e ao mesmo tempo vontade na minha, e com os lábios nos meus, sussurrou:
- Se alguma coisa acontecesse com você eu nem sei o que eu faria.
- Não vai acontecer nada comigo. Não enquanto eu estiver com você. – respondi, separando nossas bocas e dando um beijo na ponta do seu nariz.
- Eu não vou deixar. – ele murmurou, logo depois beijando minha boca.
Seus lábios guiavam os meus devagar e seu gosto impregnava minha boca. Suas mãos deslizavam docilmente em minha cintura e nossos corpos se ligavam como um só. Envolvi minhas mãos nos seus cabelos desgrenhados e o senti estremecer. Ele apertou minha cintura com força e ouvimos um estalo.
Abri meus olhos.
A casa todo estava no maior breu. A Tv estava apagada e a luz da cozinha – antes acesa – apagou também.
- O que aconteceu? – ele perguntou, tateando meu rosto com as mãos. Gemi. Eu morria de medo do escuro.
É. Gay demais. Eu sei.
- Vic, linda, você está bem? – ele perguntou novamente, mas dessa vez a ansiedade dominou sua voz.
- N-não! – gaguejei, me apertando mais nele. – Eu morro de medo do escuro!
Lanza abafou uma risada e eu fechei meus olhos, afundando minha cabeça no seu peito.
- É sério!
- Eu sei que é sério. – ele sussurrou. – Só achei graça que uma mulher desse tamanho tenha medo do escuro!
- Vai se ferrar, Lanza! – eu resmunguei, batendo nele de leve, pois não tinha forças para bater mais forte. E acho que ele percebeu que eu estava realmente apavorada, porque segurou meu braço e foi beijando todo ele, até chegar no meu pescoço, me fazendo esquecer um pouco do negócio do escurto.
Mas só um pouco.
- Vic, eu estou aqui.
- Ah, ótimo... – falei, nervosa. Ele riu e me abraçou apertado, me protegendo.
Ficamos um tempo em silêncio. Mas eu não aguentei ficar ouvindo o som das ilusões da minha cabeça, e logo murmurei:
- Lanza?
- Vic?
- Canta pra mim? – pedi baixinho, ainda afundada em seu peito que subia e descia vagarosamente.
Lanza se arrumou no sofá e me apertou no seu peito. Pigarreou.
- Hey, I'm looking up for my star girl! I guess I'm stuck in this mad world, the things that I wanna say... (Hey, eu estou procurando minha garota estrela! Eu acho que estou preso nesse mundo maluco, com coisas que eu quero dizer...) – ele cantou no meu ouvido, e eu senti meu corpo amolecer aos poucos. Minhas mãos afrouxaram um pouco na sua nuca e escorregaram para seus ombros. Eles já haviam tocado aquela música no ensaio, mas como só a voz de Lanza parecia outra música. – But you're a million miles away! And I was afraid when you kissed me, on your intergalactical frisbee! I wonder why, I wonder why, you never asked me to stay! (Mas você está a milhões de quilômetros de distância! E eu estava com medo quando você me beijou, no nosso Frisbee intergaláctico! Eu me pergunto porquê, eu me pergunto porquê, você nunca me pediu para ficar!)
- Espera! – exclamei, e ele parou bem na hora do “uuu!” e ficou em silêncio. Expliquei: - Essa eu já ouvi. Canta outra?
- Claro, como se eu escrevesse uma música a cada segundo.
- Por favor. – choraminguei.
Ele suspirou, fingindo estar com raiva.
- Ok, mas ela é nova, então não ria!
- Não vou.
- It's all about you, it's all about you baby! It's all about you, it's all about you... (É tudo sobre você, é tudo sobre você, baby! É tudo sobre você, é tudo sobre você!) – ele começou, e eu deixei minha cabeça pesar no seu peito, de tão tonta que a voz dele me deixava. - Yesterday you asked me something I thought you knew! So I told you, with a smile, it's all about you! Then you whispered in my ear and you told me too! Said you make my life worthwhile, it's all about you! (Ontem você me perguntou Algo que pensei que você sabia! Então te disse, com um sorriso, "É tudo sobre você"! Então você sussurrou em meu ouvido, e me disse também. Disse: "Você faz minha vida valer à pena, é tudo sobre você!")
Sorri sozinha. Percebi porque ele não queria cantar a música.
Ele a escreveu pensando em nós.
- And I would answer all your wishes, if you asked me too! But if you deny me one of your kisses, don't know what I'd do... (E eu realizaria todos os seus desejos, se você me pedisse! Mas se você me negasse um dos seus beijos, não sei o que eu faria!) – ele afagava meus cabelos e cantava baixinho, tentando me acalmar. E estava dando certo. – So hold me close and say three words like you used to do... Dancing on the kitchen tiles, it's all about you! (Então me abrace forte e diga três palavras como você costumava fazer! Dançando nos azulejos da cozinha, é tudo sobre você!).
Lanza repetiu a música, ainda no meu ouvido, e quando acabou eu nunca estivera tão calma em toda minha vida.
Ele se inclinou e beijou meus lábios. A chuva ainda caía espessa lá fora e a luz ainda não havia voltado. Retribuí seu beijo com leveza e ele se separou de mim. E, mesmo não vendo nada, senti que ele olhava no fundo dos meus olhos. Então, sussurrou:
- It’s all about you, Vic.
Passei minhas mãos em seu rosto quente e respondi:
- It’s all about us, Lanza.
E antes que eu pudesse impedir, adormeci.

Lanza fala:

Eu tinha prometido para mim mesmo que não adormeceria. Eu não podia dormir. Tinha que aproveitar aquilo até o último suspiro.
Lutei com o sono e com a posição agrádavel, com a garota dos meus sonhos nos braços, até o último momento, mas não fui forte o suficiente. Eu dormi com ela, quente, grudada em mim, e nem sonhei, pois meu sonho estava dormindo comigo.
Acordei com o Sol batendo no meu rosto. Abri os olhos com cuidado, evitando olhar diretamente para os raios solares, e senti o perfume dela invadir todos os meus sentidos. Olhei para baixo e ela estava adormecida do mesmo jeito que no dia anterior, apenas com os cabelos mais desgrenhados. Ela respirava profundamente e mantinha um leve sorriso no rosto, como se estivesse sonhando.
Mordi meus lábios com força, para ter certeza que não estava sonhando.
E doeu pra porra.
É, não era um sonho.
Levantei-me do sofá devagar, segurando sua cabeça para não tombar. Depois a apoiei no encosto do sofá e saltei em silêncio para a cozinha.
Fiquei uns 15 minutos lá dentro, batalhando com a minha falta de coordenação em qualquer coisa que envolva comida, mas quando sai com uma bandeja com MilkShake de chocolate, panquecas com calda de caramelo de salada de frutos com leite condensado, senti orgulho de mim mesmo.
Cheguei na sala e Victória continuava desmaiada, como um anjo. Olhei para a bandeja e ela ainda não estava boa o suficiente. Então furtei uma rosa vermelha de um vaso prata do meu tio e coloquei entre o prato e o copo.
Perfeito.
Victória se mexeu um pouco e colocou a pequena mão embaixo da bochecha. Os raios de sol batiam em seus cabelos, que brilhavam mais que o normal.
Eu a amava.
Eu não conseguiria mais viver sem ela.
Sentei-me ao seu lado e apoiei sua cabeça no meu colo.
- Bom dia, gata! – sussurrei no seu ouvido e ela abriu os olhos lentamente. Piscou os cílios algumas vezes e, ao ver a baneja de café da manhã ao meu lado, sorriu para mim.
- Bom dia, Lanza! Tudo isso pra mim?
- Tudo, mas se você não quiser eu posso comer. – brinquei, e ela levantou levemente a sobrancelha.
- Claro que eu quero! Mas se eu morrer volto pra puxar seu pé!
- Há há, hilária!
Ela deu um gole no MilkShake e sorriu.
- Bom!
- E aí, dormiu bem? – perguntei, enquanto ela cortava as panquecas.
- Sim, sim. A cama não era muito boa, mas... – ela brincou, enfiando um pedaço de panqueca na boca. Eu dei um peteleco no seu nariz e respondi:
- Pra sua informação, muitas matariam por essa cama.
- Que mal gosto... – ela continuou, e eu ri.
Victória acabou de comer – entre uma risada e outra – e eu coloquei a bandeja em cima da mesa de centro, segurando um bombom que tinha deixado por último nas mãos. Ela veio para pegar e eu levantei o braço. Ela tentou de todos os jeitos pegar e não conseguiu, até que subiu em cima de mim e conseguiu pegar. Quando abriu o bombom, eu o roubei de sua mão e coloquei na boca.
- Ah seu safado! – ela exclamou, me beijando para ver se conseguia tirar o bombom da minha vida. Entrelaçou sua perna na minha cintura e segurou meus braços atrás da minha cabeça. Finalmente, pegou o bombom de volta e o mastigou feliz.
- Não me provoca assim não! – brinquei, apontando com a cabeça para a nossa posição. Ela olhou junto e gargalhou, passando a mãos pelos meus cabelos e os jogando para trás. De repente, ficou séria, me analisando.
Resolvi fazer o mesmo e analisei aqueles olhos expressivos, boca provocativa e nariz perfeito. Nós dois ficamos sérios e parecia que podíamos ler o pensamento um do outro.
- O que vai acontecer com a gente quando descobrirem? – ela cortou o silêncio, afastando um pouco o rosto do meu. Respirei fundo para não me esquecer daquele momento, e respondi, fechando os olhos:
- Estou tão perdido quanto você.
Mative meus olhos fechados e a respiração aguçada, para sempre lembrar daquele momento.
De algum jeito, eu sabia que o fim estava próximo.
Victória se aproximou mais uma vez, dessa vez sem cautela nenhuma, me fazendo perder o ar. Beijou-me com força e soltou meus cabelos, pousando sua mão no meu peito.
Percebi que com o passar do tempo o clima ia esquentando. Ela passou as mãos pelos meus cabelos novamente e puxou, fazendo eu me arrepiar com seu toque. Desci um pouco minha mão e parei na barra da sua blusa, passando os dedos de leve em sua barriga, fazendo-a suspirar, e quando estava prestes a tirá-la, ouvi suas risadas abafadas.
Abri meus olhos rapidamente e me deparei com Pe Lu e Maria Eduarda na base da escada, nos olhando incrédulos.
Victória continuava a me beijar com vontade, e eu tive que apertar sua cintura para que ela percebesse que algo estava errado. Passou a mão pelos cabelos, tirando-os da minha cara, e Pe Lu viu que eu já os percebera ali.
E ele simplesmente sorriu para mim.
- O que foi? – ela murmurou no meu ouvido, e se aquela situação não fosse tão constrangedora, eu a agarraria ali mesmo.
- Hum... – tentei achar um jeito mais delicado de dizer o que estava acontecendo, mas não tive muito progresso, então somente respondi: - Pe Lu e Maria Eduarda parados na escada.
- Ai merda. – ela exclamou, arregalando os olhos. Tirou as pernas de volta da minha cintura rapidamente e caiu com um baque oco no sofá. Sem levantar os olhos, ela murmurou:
- Oi, Duda. Oi, Pe Lu.
- Oi, Vic! – Pe Lu exclamou, como se nada estivesse acontecendo. Maria Eduarda olhou para mim e depois os cabelos de Vic, e foi mais sensível.
- Vamos para a cozinha pegar o que íamos pegar, Pe Lu.
Os dois desapareceram pela cozinha e Victória levantou o rosto pela primeira vez, completamente vermelha.
- Vic, desculpa, eu... – comecei a dizer, mas fui interrompido.
- Tudo bem, Lanza. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde eles iriam descobrir.
- Você não está cheteada? – perguntei, fitando seus olhos, agora sem expressão nenhuma.
- Não. Eu só estou com... – e uma tristeza inexplicável se apossou dos seus olhos e eu senti vontade de abraçá-la e dizer que tudo iria ficar bem. Mas não pude. Eu fui covarde demais. Quem sabe se eu a abraçasse naquele exato momento, prometido para ela que nada poderia nos separar, nós teríamos evitado tudo que teríamos que passar... – Medo.
- Vic, são nossos amigos! Eles não vão fazer nada! – exclamei, ficando meio impaciente com todo aquele esconde-esconde.
- Eu sei, Lanza, mas isso vai se espalhar de um jeito ou de outro.
- Linda, eu não vou deixar que nada nos separe! Nós já demoramos muito para ficarmos juntos, eu não posso te perder por motivos insignificantes!
- Lanza... – ela suspirou, um pouco mais alegre. – Eu vou te amar pra sempre, não importa o que aconteça!
Embora eu tenha achado o que ela disse um pouco forte demais, como uma despedida, respondi com o meu coração:
- Claro!
E beijei sua testa.
Se eu soubesse que depois daquilo tudo ficaria péssimo, não teria beijado sua testa, e sim sua boca. E não teria dito “claro”, teria dito “pra sempre!”.

Capítulo 10 – Heartbreaker.

Victória fala:

Eu e o pessoal ficamos mais um dia na praia – agora todos sabiam sobre eu e Lanza, então podíamos ficar mais à vontade. Na verdade, foi até divertido ouvir todos dizendo que já sabiam e essas coisas – e voltamos para a cidade, e, infelizmente, para a escola.
Segunda-feira foi um dia como todos os outros. Pelo menos o começo do dia.
Eu e Lanza andamos de mãos dadas pela escola e os murmúrios iam e vinham. Mas nós nem ligamos. Acho que eu estava tão feliz em finalmente mostrar para todos que nós estávamos apaixonados que nem dei atenção para as fofocas que surgiam.
- E aí, o que já inventaram sobre vocês? – Júlia perguntou, sentando-se na mesa do pátio com Thomas.
- Grávida. – admiti. Maria Eduarda e Isadora – que tinha voltado com Koba naquele dia da praia – levantaram as mãos e disseram ao mesmo tempo: - Grávida.
- Grávido. – Lanza brincou e me deu um beijo na testa. Todos nós rimos.
E o dia seguiu. O sinal da última aula bateu. Lanza me deu um beijo na bochecha e sussurrou no meu ouvido:
- Vamos ensaiar, passa lá em casa mais tarde.
- Claro. – respondi, beijando a ponta do seu nariz e depois sua boca. Ele me segurou pela cintura e nos beijamos na frente de todos, que sussurravam e apontavam, até que a inspetora que eu nunca lembro o nome veio nos separar.
- Onde já se viu, fazer uma coisa dessas na frente de todo mundo? – ela exclamou, olhando feio para Lanza, como se ele fosse o culpado.
Normalmente, ele xingaria a inspetora e tomaria uns 3 dias de suspensão, mas acho que o bom humor havia o invadido, porque ele somente sorriu e pediu desculpas, envergonhado. A tiazinha-sem-nome olhou assustada para ele e nos deixou ir embora, ainda surpresa com sua reação.
- Até mais tarde, Vic! – ele gritou, saindo pelos portões da escola. Acenei com a mão e me sentei no muro de tijolos, esperando minha mãe chegar, pois iríamos ao shopping depois da escola.
E foi quando tudo começou.
- E aí, Victória. – ouvi uma voz me chamar. Virei-me e dei de cara com John, seus cachos dourados caindo no rosto e os olhos azuis celestiais me fitando. Se ele não fosse tão escroto eu cairia de costas ali mesmo.
- Oi, John. – respondi, me virando novamente, rezando para minha mãe chegar logo. Ele se sentou ao meu lado e colocou o braço nos meus ombros. Virei os olhos. – O que você quer?
- Sempre direta ao ponto... – ele riu e me apertou nos braços. As pessoas passavam e comentavam. – Bom, se você quer assim...
- Diz logo, John. – murmurei entre os dentes, me segurando para não dar um soco nele. Tirei seu braço dos meus ombros com nojo e fitei seus olhos, agora raivosos.
- Eu quero te propor uma troca.
- Do que você está falando?
- Eu troco seus beijos pela reputação do Lanza Reis. – ele respondeu, agora sorrindo maliciosamente.
- Como assim? – perguntei, ficando meio assustada.
- Se você não terminar até hoje à noite com o Lanza Reis, eu conto pra escola inteira o segredinho dele e dos seus amiguinhos. – ele explicou, como se estivéssemos tendo uma conversa de elevador. – Eu fui muito bonzinho até agora, mas ele merece perder tudo que tem.
- Você não tem como provar nada. – eu disse, tentando me controlar um pouco, mas o meu cérebro já trabalhava a mil e eu tentava de qualquer jeito fugir daquela situação.
- Tenho sim. – ele replicou, levantando a sobrancelha de um jeito sombrio. - A última foto que eles postaram eu que mandei, e posso provar que só eu tenho aquela foto e só mandei pra eles.
- Você mandou para o conteseubabado, isso não prova nada. – declarei, ficando um pouco aliviada.
- Acontece, linda, que seu amigo, Koba, é tão idiota, que postou uma foto que eu mandei para o e-mail próprio. – ele disse, passando a mão pelos cachos. Arregalei os olhos. Ele gargalhou. – Você tem até à noite. Me encontre no Barney’s, senão, adeus McLosers.
Depois disso ele pulou do muro e saiu pelo portão da escola, com todas as meninas se virando para observar ele passar. Minha boca se abriu.
Acho que eu nunca vira John falar mais sério em toda vida.
E eu tinha que tomar uma decisão. E nem cheguei a pensar direito. Na verdade, eu já sabia, de algum jeito, que aquilo iria acontecer, e eu meio que tinha uma decisão tomada na cabeça. Nem que para isso eu tivesse que sofrer.
Minha mãe chegou bem na hora. Eu pulei do muro e entrei no carro.

Lanza fala:

Quando ela saiu pela porta, fiquei tão zonzo que caí com tudo na cama. Apoiei os dedos nas têmporas e respirei fundo, tentando processar o que havia acontecido.
Não havia nenhuma explicação plausível, nada que eu tenha feito. Mas então, porque ela tinha feito aquilo?
Fechei os olhos e tudo ficou preto. Meu coração batendo lentamente no peito. As mãos suando e a tontura que não passava. Tentei me recordar do que havia acabado de acontecer.
Victória entrara em casa, no final da tarde. Pe Lu a deixou entrar e ela subiu para meu quarto. Bateu na porta e entrou, com passos lentos e firmes. Levantei minha cabeça da baixo e a vi parada na batente, séria. Sorri para ela, que continuou com a mesma expressão.
- Oi, linda, entra aí! – eu disse, colocando a baixo de lado. Levantei-me, só de boxers e meias, e a puxei para perto. Ela vacilou, caindo em meus braços e me dando o melhor beijo que eu já recebera em toda vida. Suas mãos acariciavam meus cabelos e eu passeava com as minhas mãos pela sua cintura, quadril, ombros e nuca, sempre com intensidade. Ela ofegava e dava leves beijos na minha boca. Nem sei porquê, mas senti que aquele beijo era... Triste.
Como um final previsto.
Até que ele foi ficando mais lento. Suas mãos pararam nos meus cabelos e as minhas na sua cintura. Ela encostou sua testa na minha, separando nossas bocas.
- Lanza? – chamou, baixinho. Estremeci.
- Oi?
- Eu quero terminar.
Abri os olhos, sentindo meu chão sumir.
O quê?
- Você ouviu o que eu disse? – ela perguntou, depois do longo silêncio que eu fiz. Inclinei minha cabeça, me separando dela totalmente. Meus braços caíram pesados ao lado do meu corpo e minha visão ficou escura.
O quê?
- Como assim, o que, eu... – tentei organizar meus pensamentos, mas não tive muito sucesso. Sua voz ecoava em minha mente. “Eu quero terminar. Eu quero terminar”. Só conseguia ouvir isso. Quase nem ouvi quando ela disse, já saindo pela porta:
- Não se preocupe, você vai ficar legal. – sua voz era séria e um pouco nervosa. – Acho que eu nunca precisei de você, assim como você não precisa de mim. Desculpe, Lanza, nós fomos um erro e eu quero consertar isso.
- Vic, espera, o que você está dizendo? – as palavras conseguiram finalmente escapar da minha garganta.
- Acredite, Lanza Reis, você vai melhorar.
E saiu.
E lá estava eu, me lembrando de tudo aquilo, os dedos nas têmporas, a pele formigando e uma dor inexplicável dentro de mim.
Uma dor que eu nunca sentira antes.
- Dude, por que a Vic saiu correndo daqui, vocês brigaram ou algo do tipo? – Pe Lu perguntou, invadindo meu quarto sem nenhum tipo de constragimento. Quando me viu deitado de barriga para cima, os braços no rosto, chamou: - Dude?
Eu não conseguia dizer nada. Ou talvez não soubesse o que dizer. As palavras não saíam da minha boca e a dor no peito não passava.
- Dude, o que foi que aconteceu? – ele perguntou novamente, dessa vez se sentando na beirada da minha cama. Tirei os braços do rosto e me levantei, apoiando meus cotovelos nos joelhos e o rosto nas mãos novamente. Respirei fundo, tentando orgnizar aquilo para soar o menos estranho possível. Mas se nem eu estava entendendo, como faria para explicar para Pe Lu? Então as palavras meio que jorraram da minha boca, antes mesmo que eu pudesse ter um pingo de amor próprio e orgulho masculino: - Ela terminou comigo.
- HAHAHAHA, essa é boa! – Pe Lu gargalhou, me dando um tapa forte na perna. Levantei meu rosto dos braços e lhe lancei meu melhor olhar pára-de-rir-retardado-que-eu-estou-falando-sério e ele fechou a cara. – Nossa, é verdade?
- É verdade, porra. – eu disse, ficando reto. – Dá pra você sair do meu quarto agora?
O que estava acontecendo!? Eu nunca fora idiota daquele jeito com os meus amigos, principalmente por uma... garota.
- Foi mal, Lanza. – ele parecia arrependido. – Se precisar de alguma coisa, é só chamar. – e saiu do meu quarto, o olhar vazio.
Joguei-me na cama novamente e fitei o teto.
Mas que merda tinha acontecido?
A dor assolou meu coração e eu fechei os olhos, para tentar me convencer de que aquilo era uma brincadeira e que Victória iria voltar.
Mas ela não voltou.
E aquilo não era brincadeira.

Victória fala:

Caminhei sozinha pela rua, a garoa caindo sobre minha pele. Meus olhos se apertavam contra o frio e minha cabeça latejava de dor. Enfiei as mãos nos bolsos do meu moletom e me obriguei a continuar. Porque pelo menos a dor física – frio – me afastava da pior dor de todas. A dor de perder a pessoa que eu mais amava no mundo.
Não sei quanto tempo caminhei, mas sei que cheguei ao Barney’s muito mais cedo do que eu previa. E como eu também previa, John esperava por mim, sentado no banco mais visível do lugar, com os braços no assento.
- Olha só quem resolveu aparecer! – ele disse, a ironia estampada na voz. – Minha princesa.
- Ok, John, você venceu. Pode parar com a brincadeira. – respondi, virando meus olhos. Sentei-me na sua frente e ele se inclinou bruscamente. Todos que estavam ali – maioria alunos do Colégio Norbert – viraram seus rostos para nós dois.
- Agora o grande final. – ele sorriu, mostrando a fileira de dentes reluzentes. Inclinou-se mais um pouco e seus lábios gelados tocaram os meus. Uma ânsia muito forte percorreu meu corpo, mas não me afastei, com medo de sua reação.
Sua boca pairou sobre a minha por um bom tempo. Ele tentou algo a mais, mas minha repulsa era tão grande que nem se eu quisesse, conseguiria. Finalmente, ele se separou de mim.
Não tive coragem de olhar em volta, mas pelo que pude perceber, todos estavam adorando aquilo. A maior fofoca do ano.
- Vic, Vic... – ele suspirou. – Tão doce, mas com tanto ódio dentro desse coração.
- Vai. Se. Foder. – eu disse, com grandes pausas entre as palavras. Ele gargalhou.
- Adoro seu gênio!
Fiquei em silêncio e um amigo dele chegou. John começou a tagarelar sobre nós dois – mentiras e mais mentiras – e eu me forçava a sorrir de vez em quando para o garoto, que parecia sinceramente interessado e impressionado.
- Falou aí, boa sorte pra vocês dois! – ele exclamou, e me lançou um aceno de cabeça. Sorri de boca fechada e o observei ir embora. John agora me olhava.
- Posso ir? – perguntei, cruzando os braços no peito.
- Pode. – ele respondeu, jogando os cachos dourados para trás. – Mas paga a conta antes.
Respireu fundo. Naquele momento eu queria MUITO voar no seu pescoço. Mas agarrei a mesa e contei até dez. Mais calma, continuei:
- Eu não vou pagar nada. Você pode muito bem pagar com o cartão do seu papai.
- Como se você também não fosse fazer isso. – ele virou os olhos azuis.
- Não, John, e quer saber porquê? – perguntei, me levantando da mesa.
- Por que, gata?
- Porque eu não sou escrota como você. – respondi, e meio que corri para sair logo dali. Lá fora a chuva caía pesada e fria. Mas eu não me importei. Caminhei pelas ruas já escuras com o final da tarde, tentando imaginar como seria bom estar na chuva com Lanza e como eu nunca mais teria aquele sorriso perfeito só para mim.
Cheguei em casa ensopada e triste.
Triste como nunca fora antes.
- Mãe, cheguei. – gritei, e ao ouvir alguma resposta de volta, subi correndo para meu quarto e me enfiei no chuveiro. A água quente acalmou um pouco a dor que eu sentia, mas nem de longe fez eu me sentir bem. Quando saí do chuveiro, coloquei meu pijama e me enfiei debaixo das cobertas.
Lanza…
Eu nunca me perdoaria por tê-lo machucado tanto.

4 meses depois.

Lanza fala:

Segundos se passaram. Minutos. Horas. Dias. Semanas. Meses.
No começo eu ligava para ela todos os dias. Ela nunca estava. E quando caía na secretária, eu deixava inúmeras mensagens, uma mais humilhante que a outra.
Ela nunca chegou a me responder.
A minha vida seguia. Não totalmente uma vida. Uma semi-vida.
Forçava-me a conversar, a opinar, a rir, a zoar, a comer, a dormir, a viver. Mas tudo parecia incompleto e... vazio.
Toda vez que meus olhos se encontravam com os de Victória no colégio, no Barney’s, nos ensaios, minha visão ficava escura e a dor no peito latejava. Eu não podia e não queria mais viver sem ela. Então me afastei das meninas, e muitas vezes deixei os dudes de lado. Ficava a maior parte do tempo sozinho, e quando não estava sozinho, era para ensaiar, pois o Festival de Bandas estava próximo. Escrevi uma música para ela, somente uma música, pois todas as outras que escrevi não eram boas. Toda minha inspiração foi embora, assim como todo o meu motivo para ser feliz. Se antes dela minha vida era normal, depois dela, minha vida não chegou nem perto de voltar a ser como era.
- Dude, nem acredito que é amanhã! – Koba exclamou, descendo as escadas correndo, secando os cabelos com uma toalha amarela. – Vai ser a primeira vez que todos aqueles babacas do colégio irão ver o nosso potencial!
- Só se for o seu potencial. Porque eu tenho quase certeza que vou vomitar na cabeça de alguém. – Pe Lu replicou, zapeando pelos canais da Tv. Thomas garalhou. Eu continuava no piano, batendo qualquer tecla que me vinha à cabeça. Dó, dó, ré, sol, sol. Dó, dó, ré, sol, sol.
- Hey, dude, faz isso de novo! – Harry pediu, quando eu deixei minha cabeça cair na teclas. Bati minha cabeça de novo, e o mesmo barulho ensurdecedor aconteceu. – Não isso, seu animal, as notas antes disso.
Dó, dó, ré, sol, sol.
- Isso? – perguntei, fechando o piano.
- É. Ficou legal. – ele respondeu, apertando os lábios. Koba concordou.
- Ficou uma merda. – eu disse, subindo as escadas lentamente. Thomas suspirou e Pe Lu desligou a Tv. Koba continuou secado os cabelos.
- Lanza, volta aqui. – Thomas chamou, mas eu já entrava no meu quarto. Deixei-me cair na cama e fechei os olhos, não conseguindo dormir direito, como havia acontecendo há alguns meses. 4 meses, 2 semanas e 3 dias para ser mais exato. Esse era o tempo certo que eu não falava com ela. Não a beijava. Não sentia sua pele quente na minha.
E esse era o tempo exato em que ela estava com o escroto do John, sempre a humilhando e fazendo-a de boba.
Victória, agora, era a maior corna do colégio. E o que mais me matava era que ela não parecia se importar muito com aquilo. Sua expressão era sempre séria e há muito tempo eu não a via sorrir. Suas amigas tentavam, em vão, fazer com que ela terminasse com John. Mas ela não terminava, e também não demonstrava qualquer tipo de afeição por ele, salvo as vezes em que ele a beijava à força na frente de todos, sendo repelido com nojo.
Era isso que eu não entendia.
Se ela não gostava dele, por que não voltava para mim?
E é aí que o orgulho masculino – aquele filho da puta, que sempre existiu em mim – entrava. Depois dela ignorar todas minhas mensagens, eu simplesmente não fui atrás dela para tentar descobrir o porquê de tudo aquilo.
Na verdade, mantive a maior distância possível por todo esse tempo, sempre evitando qualquer palpite emocinal que meu coração insistia em dar.
Eu sabia que ela ainda me amava. Ela TINHA que amar. Mas me forcei a acreditar que não. E por isso sofri em silêncio por 4 meses, segurando as lágrimas e mentindo para meus amigos que estava bem.
- Não é egoísmo, só não quero que ele se humilhe amanhã na frente de todo mundo! – Pe Lu exclamou lá de baixo. Levantei-me na mesma hora e encostei a orelha na porta quando percebi que falavam de mim.
- Eu também não, mas o que podemos fazer? Ele é nosso vocalista, não podemos tocar sem ele! – Thomas respondeu, irritado.
- Sei lá, liga pra Júlia, pede pra ela pedir pra Vic não ir. – Pe Lu sugeriu e Koba replicou:
- Não, dude, ele tem que perceber que ela já era! Que ela não vai voltar!
Encostei-me na porta e deslizei até o chão. Meus cabelos caíram por cima da testa e eu apertei os olhos, segurando novamente as lágrimas que eu nunca deixara cair em todo aquele tempo. E, não sei como, adormeci ali mesmo, com a cabeça encostada nos joelhos.

Victória fala:

- Eu não quero ir! – berrei, me encostando no armário de Isadora. Ela virou os olhos. – Que parte do eu não quero ir você não entendeu? O eu, o não, o quero ou o ir?
- Você não tem escolha. – ele respondeu, me atirando uma calça jeans skinny escura e uma blusa decotada em V preta. Os saltos scarpins pretos já estavam no chão e os acessórios na sua escrivaninha. – Vai por bem ou por mal.
- Isa! – choraminguei, mas ela ignorou. Levantou-se e tentou tirar minha blusa rosa do pijama. Dei um tapa em sua mão e exclamei: - Ok, isso eu ainda consigo fazer sozinha!
- Ótimo. – ela respondeu, sentando-se novamente. – Anda, você só tem 15 minutos.
- Ótimo. – repeti, atirando longe meu pijama. Eu tinha tomado banho e colocado-o, crente de que iria passar mais um sábado assistindo filmes na Tv e sendo corna, mas minhas amigas tinham outros planos para mim.
Em 10 minutos estava pronta.
- Vamos. – ela disse, me arrastando pela porta. – Koba já está me esperando lá embaixo.
- Espera, Koba está com...? – nem terminei, e Isadora respondeu, seca:
- Não.
Elas – minhas amigas - não sabiam porque eu havia terminado com Lanza – ninguém sabia –, mas sabiam que eu não queria qualquer contato com ele, até um simples olhar, atitude que discordavam ferozmente.
- Oi, Vic! – Koba exclamou, me olhando com uma mistura de eu-ainda-te-amo e vai-se-foder-você-fez-meu-amigo-ficar-mal.
- Oi, Koba. – disse, afundando no banco de trás. Ele deu partida no seu novo New Beatle preto – presente de seu pai que ele odiou por ser gay demais e amou por ser um ótimo carro – e voamos até a escola, em silêncio por todo o caminho.
Chegando lá, as luzes saíam pela porta e meu coração acelerou. Tentei ficar calma, mas só de saber que todos os olhares se focariam em mim quando entrasse foi o suficiente para me desesperar.
- Ok, péssima idéia, posso ir pra casa? – pedi, e Koba me lançou um olhar de compaixão. Mas Isadora foi menos compreensiva.
- Nada disso. Vamos lá, você é uma mulher ou um saco de pipocas?
Saco de pipocas, saco de pipocas.
- Mulher. – murmurei, como uma criancinha. Isadora sorriu e me ajudou a descer do carro. Fiquei mais alta que ela, pois eu já era bem alta, e o salto não ajudou muito. Aliás, devo ter ficado maior que Koba, mas isso não vem ao caso...
Entramos no salão que estava todo escuro e tinha um palco perto da arquibancada norte. Na frente do palco, algumas pessoas se aglomeravam. Algumas até usavam camisetas com o nome das bandas que iriam tocar ali. Virei os olhos. Eu não queria estar ali. Eu não queria ter que ouvir a voz de Lanza linda e maravilhosa nas caixas de som. E, acima de tudo, eu não queria encostar em John.
Opa. Tarde demais.
- Oi, linda! – ele exclamou, chegando perto de mim com outras duas garotas muito suspeitas. Lançou-me um olhar de finja-que-gosta-de-mim-na-frente-dos-outros e eu respondi, quase inaudível:
- Oi, John.
O “Oi, linda!” percorreu meu cérebro diversas vezes, e eu me lembrei de como era quando Lanza dizia aquilo. A perfeição do seu timbre de voz, o modo como falava as palavras lentamente, o jeito que sua boca se mexia...
John podia ser lindo e gostoso, mas nem de longe era Lanza.
Aquela altura do campeonato, eu não queria mais degolar John. Na verdade, eu já me acostumara com ele, e a única coisa que eu me forçava a fazer era suportá-lo.
Minha vida estava tão vazia e triste que eu nem me importava mais de ser a maior corna do colégio. Na verdade, eu agradecia por John estar galinhando por aí, ao invés de me encher o saco. Porque eu só queria ficar sozinha. Todo o tempo. Isolada, sozinha e triste.
Assim como Lanza.
Lanza... Sentia tanto sua falta...
- Olá, alunos do Colégio Norbert! – um famoso Vj da Mtv gritou no microfone. A gritaria subiu a mil e eu tapei meus ouvidos, com medo de que eles estourassem. Nossa escola havia ganho a promoção “use e abuse de Daniel Madolack” e era o que estávamos fazendo, colocando o coitado para apresentar aquele Festival idiota. – Tudo ok?
“Tudooo!”
- Bom, eu sou Daniel Madolack, e estou aqui para apresenter as melhores bandas do Colégio! – mais gritos histéricos. Reparei direito. Ele era bem gato. E não parava de me olhar. – Sem mais demora, com vocês, Asas de Porco!
Espera aí.
Asas de Porco?
Eca!
A banda entrou. 5 meninos vestidos de preto com a maior cara de mal. Reconheci-os do clube de xadrez. Ou será que era do clube de ciência?
Ah, vai saber...
- E aí, galera! – o vocalista gritou, e foi recebido por poucos gritos. – Nós somos o Asas de Porco e essa é a nossa música!
Os acordes pesados das guitarras começaram e eu me senti tonta. Olhei para o lado e Isadora era abraçada por Koba e ria da banda.
- Cadê os outros? – perguntei.
- Atrás do palco. Nós somos os próximos! – Koba respondeu.
- E por que você não está lá?
- Opa, é mesmo. – ele exclamou, e Isadora riu. Ele a pegou pela mão e sumiu atrás do palco, me deixando, bem... sozinha.
Olhei em volta novamente, e todos os olhares estavam focalizados em mim. Minhas mãos começaram a suar e eu senti que poderia desmaiar. O chão pulsava e minha cabeça doía. Aliás, os pensamentos da minha cabeça que a faziam doer. Há 4 meses que a única coisa que eu sabia pensar, direta e indiretamente, era em Lanza.
Senti minha visão escurecer e sabia que iria cair ali, no meio de todos.
- Hey, você está bem? – uma voz conhecida perguntou. Minha visão ficou clara novamente e eu vi o Vj gato parado na minha frente, me segurando pelo braço. Os acordes agora soavam dentro do meu cérebro e eu respondi, sincera:
- Não muito.
- O que aconteceu? – ele perguntou, ainda me segurando pelo braço. Forcei um sorriso e respondi:
- Eu não queria estar aqui.
- E por que não? – ele perguntou, verdadeiramente curioso. Olhei em volta e os olhares não saíam de mim. Apontei com a cabeça e ele sorriu. – Ah, claro, fofocas escolares.
- Se fosse só isso, tudo bem. – eu respondi, e respirei fundo. Nem sei porquê, mas logo em seguida me ouvi contando todos meus problemas para um cara maravilhoso, que, provavelmente, era só uns 2 anos mais velho do que eu. – Na verdade, eu tive que terminar com o cara que eu amo porque um outro cara me forçou, dizendo que se eu não terminasse e ficasse com ele, ele contaria para todos o segredo desse garoto que eu amo. E eu não quero que esse garoto que eu amo fique com a reputação queimada, porque, bem, eu o amo certo? E agora eu estou há 4 meses sem falar com ele, sem ouvir sua voz, sem senti-lo, sem nada! – parei e respirei. Daniel me olhava meio assustado, mas ao mesmo tempo com cara de que queria ouvir mais. – E agora, depois dessa banda, ele vai subir ali e cantar, com a mesma voz que ele já cantou pra mim muitas vezes, e eu não sei como eu vou reagir e...
- Hey, hey, espera um pouco! – Daniel me chacoalhou pelos ombros e eu parei subitamente de falar. Ele agora estava sério. – Você chegou a conversar com esse garoto sobre tudo isso?
Pensei um pouco.
É, na verdade, não.
- Não.
- E como você sabe que ele prefere a reputação ao invés de você?
- Porque, bem, antes de mim, ele era o maior pegador e... – comecei, mas ele me interrompeu de novo.
- Desculpe, qual seu nome?
- Victória, mas pode me chamar de Vic.
- Vic. – ele repetiu. – Bem, eu sei que eu não sou assim tão mais velho e experiente que você, mas eu sou um garoto. E pelo o que você me diz, esse cara que você gosta...
- Lanza.
- Esse Lanza, ele também gosta de você! Também, quem não gostaria? – ele perguntou, me olhando de cima a baixo. Corei. – Acho que quando duas pessoas se amam de verdade, todas as outras coisas não são nada. Se ele gosta de você, ele não se importa com reputação ou qualquer coisa do tipo! Sabe, aconteceu uma coisa parecida entre mim e minha noiva.
Olhei para baixo e vi um anel de noivado reluzente na sua mão esquerda. Assenti com a cabeça, para ele continuar.
- Ela é da minha produção. Eu gostei dela desde que a vi pela primeira vez. E ela também. Mas ela sempre me rejeitava, dizendo que não estava a fim, mas depois eu descobri que na verdade ela não queria manchar minha reputação de famoso ficando com uma reles garota da produção. E se não fosse pela minha insistência, talvez eu teria perdido a garota que eu amo.
Meus olhos se encheram de lágrimas, pela primeira vez em muito, muito e muito tempo. Acho que eu nem me lembrava mais há quanto tempo as lágrimas conseguiam escapar da minha garganta. Pisquei os olhos rapidamente e elas voltaram para dentro.
Mas que porra estava acontecendo comigo?
Nem quando meu pai foi embora com o meu irmão tive vontade de chorar como eu estava naquele momento!
- Olha, agora eu preciso subir para anunciar a banda do seu garoto. Mas, sei lá, pensa no que eu disse. Não vale a pena sofrer calado por amor se você não sabe o que o outro quer.
Ele piscou para mim e saiu correndo, porque o Asas de Porco já havia se retirado – com algumas vaias – do palco.
- Ok, a próxima banda que vai pisar aqui no palco é o... – ele olhou no papel que segurava. – McFLY! E, antes de eles entrarem, eu queria deixar um, ah, sei lá, nem sei o que é isso que eu vou dizer... Mas, eu queria que antes que vocês façam alguma besteira e quebrem o coração de alguém, parem, pensem e conversem com essa pessoa. Porque, por mais que isso pareça piegas, um coração partido dói mais do que o orgulho de pedir perdão.
Daniel piscou para mim e saiu do palco, sob milhões de aplausos. Estremeci, e engoli mais lágrimas. O ginásio ficou escuro e as pessoas começaram a murmurar. Fui mais para frente, costurando entre as pessoas, e cheguei bem perto do palco. Ao meu lado estavam algumas meninas da oitava série que me lançaram olhares de compaixão. Sorri para elas.
Percebi vultos se mexendo no palco e prendi a respiração. Pe Lu foi o primeiro a aparecer, e foi até o microfone, com o ginásio todo escuro. Apesar de estar morrendo de medo, fiquei firme ali na frente.
- E aí, Colégio Norbert! – ele gritou, e o ginásio inteiro gritou de volta, até meus antigos amigos que, bem, odiavam os McLosers. – Como vocês estão essa noite?
“Bem!”
- Ok, agora um comunicado para vocês. Não sei se irão gostar ou odiar, mas o McFLY vai tocar duas músicas. Uma, foi feita por todos nós. A outra, foi feita somente por um de nossos integrantes. – mais gritos. – Vamos lá?
As luzes do palco se acenderam.Thomas contou 3 vezes com a baqueta e as guitarras tocaram os primeiros acordes. Koba apareceu do outro lado sob os gritos das meninas e, bem na minha frente, Lanza surgiu.
Seus cabelos caíam no rosto como sempre. Suas calças eram – incrivelmente – do tamanho certo, azuis escuras e apertadas na batata da perna. Ele usava uma camiseta verde escura com as mangas compridas pretas. Seu alargador preto fora trocado por um verde e no dedo da mão esquerda um anel tribal. Os pés batiam no ritmo da música com um All Star preto e sujo.
- Went out with the guys, and before my eyes, there was this girl and she looked so fine! And she blew my mind! And I wish that she was mine... And I said: "Hey wait up 'coz I'm off to speak to her!” (Saí com meus amigos, e diante dos meus olhos, estava esta garota e ela era tão linda! E ela me deixou louco! E eu desejei que ela fosse minha... E eu disse "Ei, esperem porque eu vou falar com ela!") – Lanza cantou. Sei que ele percebeu que eu estava ali, mas não me olhou nenhuma vez. – And my friends said: (You'll never get her, you'll never gonna get that girl!) But I didn't care, 'cuz I loved her long blond hair! And love was in the air! And she looked at me, and the rest was history... “Dude you're being silly cuz you're never gonna get that girl! And you're never gonna get that girl!” (E meus amigos disseram: (Você nunca vai pegar ela! Você nunca vai pegar aquela garota!) Mas eu não liguei, porque eu adorei seus cabelos loiros! E o amor estava no ar! E ela olhou para mim, e o resto é história... “Cara, você está sendo idiota porque você nunca vai pegar aquela garota! E você nunca vai pegar aquela garota!”).
Ao meu lado, as pessoas pulavam e algumas já pegaram a música e cantavam o refrão.
Eles eram realmente muito bons.
- We spoke for hours! (She) Took off my trousers! (Spent) Spent the day laughing in the sun! And we had fun! And my friends they all looked stunned... "Dude she's amazing and I can't believe you got that girl!" (Nós conversamos por horas! Ela tirou minhas calças! Passamos o dia rindo no sol! Nós nos divertimos! E meus amigos pareciam surpresos... "Cara, ela é demais e eu não acredito que você pegou aquela garota!") - Harry cantava da sua bateria, fazendo caras engraçadas nas viradas. Koba mandava beijos para Isadora sempre que podia e Pe Lu ficou o tempo todo no centro do palco, bem em frente de Maria Eduarda. – And my friends said: (She's amazing, I can't believe you got that girl!) It gave me more street cred... I dug the book she read! How can I forget? That she rocks my world! More than any other girl... "Dude she's amazing and I can't believe you got that girl! And I can't believe you got that girl!" (Meus amigos disseram: (Ela é maravilhosa, eu não acredito que você pegou aquela garota!) Ela me deu mais popularidade... Eu peguei os livros que ela lia! Como eu poderia esquecer? Ela agita meu mundo! Mais que qualquer outra garota... "Cara, ela é maravilhosa e eu não acredito que você pegou aquela garota! Não acredito que você pegou aquela garota!").
Todos ao meu lado estava curtindo a música, até meus ex-amigos. Achei estranho, mas gostei mesmo assim.
- She looked incredible, just turned seventeen! I guess my friends were right, she's outta my league... So what am I to do? She's too good to be true! (Ela parecia incrível, acabou de completar 17 anos! Eu acho que meus amigos estavam certos, ela é demais para mim... Então, o que devo fazer? Ela é muito boa para ser verdade!) - Quando foi a vez do solo de Lanza, ele foi para o outro lado e quase fez umas meninas da sétima série desmaiarem quando sentou no palco e tocou para elas. Sorri. Ele estava fazendo aquilo de birra. - But three days later, went round to see her, but she was with another guy! And I said fine! But I'll never ask her why... And since then loneliness has been a friend of mine! And my friends say: (Such a pity, I'm sorry that you lost that girl...) I let her slip away, they tell me everyday! That it will be okay! 'Coz she rocked my world, more than any other girl... "Dude it's such a pity and I'm sorry that you lost that girl! And I'm sorry that you lost that girl..." (Mas 3 dias depois, saí para vê-la, mas ela estava com outro cara! E eu disse tudo bem! Mas nunca perguntei a ela porquê... E desde então a solidão tem sido minha amiga! Meus amigos disseram: (Que pena, sinto muito que você tenha perdido aquela garota!) Eu deixei ela escapar, eles me disseram todo dia! Que ficará tudo bem! Ela agita meu mundo, mais que qualquer outra garota... "Cara, que pena, sinto muito que você tenha perdido aquela garota! Sinto muito que você tenha perdida aquela garota...").
O último acorde de guitarra acabou e eles tiraram os intrumentos dos ombros, apoiando-os perto nas caixas de som. Pegaram uns banquinhos no fundo do palco e Harry trocou os baquetas por outras. Lanza sentou-se na minha frente com o banco, e os outros sentaram-se nos seus lugares. Pe Lu e Koba não seguravam nenhum instrumento, e somente Lanza segurava um violão. O ginásio ficou escuro novamente e eu estremeci. Olhei para cima e Lanza olhava diretamente para meus olhos, e seu braço estava estendido para mim, como se ele quisesse de algum modo me acalmar. Respirei fundo. De repende as luzes pousaram em cima de cada um deles. Lanza tinha um brilho estranho no olhar e sorria, triste.
- Bom. – ele começou, tirando os olhos de cima de mim e olhando para todos os alunos que agora estavam aglomerados perto do palco, com um brilho diferente no olhar. – Essa música eu fiz quando... Quando a garota dos meus sonhos partiu meu coração.
As meninas ao meu lado soltaram um “aaaah!” e eu olhei para seus olhos, novamente voltados para mim. As lágrimas se acumularam embaixo dos meus olhos, e embaixo dos seus olhos também. Mas ele estava sorrindo, diferente de mim.
- Eu ainda não sei porquê tudo aconteceu, e, para falar a verdade, ainda não superei. Mas eu tenho certeza de que se ela está aqui hoje, - ele ainda olhava para mim. – vai saber que essa música é pra ela, e, bem, isso para mim já vale a pena.
As lágrimas escorreram no seu rosto e no meu também. Sorri para ele, um sorriso fraco e forçado, mas verdadeiro. Ele fez o mesmo, brilhando sob os refletores.
As meninas ao meu lado comentavam que ele estava chorando e que ele não parava de olhar para mim, e uma até tirou uma foto. Mas eu não me importei. Naquele momento, éramos só nós dois naquele salão. Nossos olhares não se desgrudavam por um segundo.
Lanza começou a tocar o violão e Thomas tocou um ritmo bonitinho na bateria.
- She walked in and said she didn't wanna know, anymore... Before I could ask why, she was gone, out the door... I didn't know what I did wrong! But now I just can't move on... (Ela entrou e disse que não queria mais saber... Antes que eu pudesse perguntar o porque, ela já tinha saído pela porta... Eu não sabia, o que eu tinha feito de errado! Mas agora eu não consigo seguir em frente!) – ele começou, e agora as lágrimas caíam sem vergonha do seu rosto, e do meu também. Mas apesar de estarmos chorando, sorríamos um para o outro, numa compreensão mútua. – Since she left me, she told me, don't worry! You'll be ok! You don't need me, believe me, you'll be fine! Than I knew what she meant, and it's not what she said... Now I, can't believe, that she's gone... (Desde que ela me deixou, ela me disse, não se preocupe! Você vai ficar bem! Você não precisa de mim, acredite, você vai melhorar! Então eu soube o que ela queria dizer, e não era o que ela disse... Mas agora, eu não consigo acreditar, que ela se foi...).
Enquanto ele cantava o refrão, me lembrei perfeitamente do dia em que terminamos. O gosto do nosso último beijo. O seu olhar incrédulo quando eu disse que queria terminar. A dor que se instalou no meu peito e que nunca mais saíra.
Lanza era tudo que eu sempre sonhei, e eu tinha desperdiçado tudo o que nós tínhamos.
- I tried calling her up on her phone, no one's there... I've left messages after the tone! (Eu tentei ligar em seu telefone, não havia ninguém... Deixei mensagens depois do bip!) – agora era Pe Lu que cantava, com Koba ao fundo, e Lanza enxugava as lágrimas com a manga da camiseta. Enxuguei as minhas também, com as mãos, e continuei hipnotizados por ele, brilhando sob os refletores. Quando Pe Lu cantou que deixara mensagens na secretária, Lanza falou ao microfone: Sério? E Pe Lu respondeu: É, cara, um monte. – I didn't know, what I did wrong! But now, I just, can't move on! (Eu não sabia, o que eu tinha feito de errado! Mas agora, eu não consigo, seguir em frente!).
Eles tocaram o refrão novamente e terminaram a música. O ginásio ficou claro novamente e Lanza colocou o violão de lado. Agora eu percebia as pessoas em minha volta.
Lanza se levantou da cadeira e deu dois passos para sair do palco. Mas voltou em seguida, e parou na frente do microfone. Olhou para mim e disse, num impulso que eu sabia que estava o matando por dentro:
- Eu ainda te amo. E eu sei que você também me ama.
E saiu do palco, sob fortes aplausos.

Lanza fala:

É, eu sei. Eu me humilhei e rebaixei diante de toda a escola. Mas... Foda-se! Era o que eu queria fazer e foi o que eu fiz.
Saí do palco meio zonzo, com todas aquelas luzes estourando na minha cara. Joguei-me nas cadeiras que nos esperavam no backstage e passei a mão pelos cabelos, meio nervoso e meio feliz.
- Caralho, Lanza! – Pe Lu exclamou, rindo. – Nós não havíamos combinado isso!
- Você sabe que vão falar disso pelo resto do ano, não sabe? – Thomas perguntou.
- É, eu sei...
- Lanza! – Júlia gritou, chegando com Isadora e Maria Eduarda, me sufocando em seu abraço apertado. – Eu quase chorei!
- Hum. – resmunguei, com a cara enfiada no seu ombro. – Jú, eu não consigo respirar!
Ela me soltou, mas não pude respirar por muito tempo, pois Isadora e Maria Eduarda resolveram fazer a mesma coisa, me sufocando em seus abraços carinhosos/sufocantes. Elas exclamavam de como eu era fofo e como aquilo fora a coisa mais linda que já viram, a atrás de mim os caras riam até perder o fôlego. Depois de todos os apertões e gritinhos, elas foram dar os parabéns para seus respectivos pares, e eu saí de lá, antes que vomitasse em mim mesmo.
Passei despercebido por todos, pois estavam muito concentrados na banda que se apresentava, – ou será que era no Vj da Mtv que apresentava as bandas? - e saí noite afora. Lembrei-me da festa à fantasia e demorei meu olhar no banco que ficara com Victória.
A noite estava quente e abafada, e as estrelas brilhavam mais do que o normal. E foi por isso que eu decidi descer até o campo de futebol, longe do ginásio e provavelmente escuro e vazio, pois ele deveria estar inundado de luzes estelares.
Eu sempre fora louco por estrelas.
Caminhei chutando as pedras no chão e sentindo a brisa pinicar meu rosto. As mãos no bolso me desequilibravam, e eu quase caí diversas vezes.
E foi quando eu estava descendo as escadas que meu olhos perceberam um vulto no meio do campo. Parei de andar e pisquei algumas vezes, tentando me acostumar com o escuro e esperando que o vulto sumisse, mas não foi exatamente o que aconteceu. Ao contrário. O vulto se mexeu, e eu pude perceber que se tratava de um corpo.
E que corpo!
Pisei na grama sintética e caminhei em silêncio até a garota deitada no chão. Alguma coisa nela me atraía como um imã, e meus pés se movimentaram sozinhos. Só percebi que estava parado em cima dela feito um idiota quando ela se levantou nos cotovelos e me olhou curiosa.
E para minha enorme surpresa, a linda garota que me atraíra era ninguém menos que Victória Hackmann.
Claro. A única garota que eu achara gostosa desde Victória tinha que ser a própria Victória. Do jeito que eu era cagado, não poderia mesmo esperar outra coisa.
Nem sei como ela chegara tão rápido assim ali, mas não quis fazer nenhum tipo de comentário idiota para não estragar o momento.
- Oi. – foi a única coisa que eu achei certo dizer.
Ela voltou a jogar os longos cabelos na grama e a observar as estrelas. Sem esperar convites, deitei-me ao seu lado e fiz o mesmo.
Ficamos um bom tempo sem dizer nada, curtindo a respiração um do outro, e quando meu coração parou de bater como um louco, eu disse:
- Quer conversar?
Ela não respondeu prontamente. Mexeu-se ao meu lado e, como se nada tivesse acontecido entre a gente, segurou minha mão entre seus dedos frios.
Fechei os olhos e respirei fundo, enquando ela falava:
- Lanza, eu nunca deixei de te amar. Nem por um segundo sequer. Eu só... Só queria o melhor para você...
- E como o melhor para mim envolve te perder?
- Eu só quis preservar sua vida antes de mim, antes de eu aparecer e ferrar com tudo.
- Victória... – suspirei, apertando sua mão na minha. – Você precisa entender que, felizmente ou infelizmente, depois que você surgiu, nada vai ser como antes. Você... Mudou o mundo como eu conhecia.
- Eu... – ela tentou responder, mas eu não aguentava mais ficar longe dela, e fui mais rápido, pelo menos uma vez na vida. Antes que ela pudesse evitar, meus lábios estavam nos dela.
No começo, o beijo foi intenso, mas de um jeito diferente. Foi um intenso mais no estilo senti-saudades-disso. Nossas mãos continuavam estrelaçadas e minhas língua explorava sua boca, relembrando os bons tempos.
Mas, depois de algum tempo, meus sentidos começaram a ficar mais aguçados, e minha coordenação motora começou a falhar. Nossas respirações ficaram falhadas e o meu instinto masculino – adorando ter Victória nos braços - falou mais alto.
Minhas mãos soltaram suas mãos e se enfiaram em seus cabelos. Ela parou de beijar minha boca e desceu para o pescoço, roçando seus lábios quentes na minha pele gelada, em um contraste delicioso.
Não agüentando mais aquela situação, passei minha perna por cima do seu quadril, me apoiando na grama molhada com os cotovelos, para não machucá-la.
Em cima de nós, as estrelas reluziam, e cada vez mais eu a queria toda para mim.
Victória segurou a barra da minha camiseta e passou os dedos pela linha da minha boxer. Voltei a encontrar nossas bocas e mordi seus lábios. Ela estremeceu e tirou a minha camiseta delicadamente. Enfiei minha mão na sua blusa com força e com a outra mão a virei, e logo ela estava em cima de mim, beijando meu pescoço e acariciando meu tórax. Tirei sua blusa e nós dois ficamos só de calça, ofegando.
Victória escorregou para o lado e novamente eu estava em cima dela, explorando suas curvas com as mãos. Suas unhas deslizavam em minhas costas e eu me arrepiava toda vez que ela gemia. Finalmente, tomei coragem e coloquei as mãos sobre o botão da sua calça, mas ela estava tão entretida mordendo minha orelha – e me deixando louco – que nem reparou. Abri o botão com delicadeza e em seguida puxei o zíper. Victória descolou o quadril da grama e eu puxei a calça, que estava no chão segundos depois. Ela, por sua vez, demorou para tirar as minhas calças, me provocando ao passar a unha pela minha barriga.
- Provoca mesmo! – eu disse, fazendo-a rir. – Mas depois não reclama!
- Reclamar do que, Lanza Reis? – ela perguntou, passando a língua pelos lábios ao me observar de cima a baixo. – Não tenho nada do que reclamar.
E minha calça se juntou a dela.
Na verdade, era meio estranho pensar que estávamos no maior amasso no meio do campo de futebol só com as roupas íntimas. E acho que alguém lá em cima teve o mesmo pensamento, pois quando eu estava quase abrindo o feixe do seu sutiã, as gotas começaram.
- Porra! SEMPRE TEM ALGUMA COISA PRA ATRAPALHAR? – eu gritei para o nada, indignado. Victória gargalhou embaixo de mim. – E você? Tá rindo por quê? Eu tenho cara de palhaço? Tenho? – gritei de brincadeira para ela, que agora estava no meio de uma crise de risos. Comecei a cutucá-la e ela fez o mesmo, os dois rolando pelo campo e rindo.
Há quanto tempo eu não era feliz daquele jeito?
Ah! Lembrei! 4 meses, 2 semanas e 4 dias.

Victória fala:

- Lanza, nós vamos pegar uma pneumonia! – eu gritei, dando vários beijos na sua bochecha. Ele sorriu e afagou meus cabelos encharcados.
- Ótimo. Assim vamos perder a semana de provas.
Admito que em condições normais aquilo não me convenceria. Mas eu estava agarrada em Lanza, no meio da maior chuva, só de calcinha e sutiã.
Quem se importa?
- Ok, o que você quer fazer agora? – perguntei.
- Você quer mesmo saber? – ele respondeu, levantando a sobrencelha sugestivamente.
- Ótimo, já que você só consegue pensar em coisas pornográficas, eu sugiro que brinquemos de Pergunta e Resposta.
Lanza sorriu do jeito que só ele sabia. Envolveu as pernas no meu quadril e subiu em cima de mim.
- Uma música?
- Basket Case. – respondi, e repeti seu movimento, ficando em cima dele. As gotas caíam com tudo nas minhas costas, mas, não sei como, eu ainda estava quente. – Um filme?
- De volta para o futuro. [N/A: Clichêzinho básico pra não perder o costume.] – ele novamente subiu em cima de mim. – Um lugar?
- Qualquer um com você. – respondi, e ele sorriu mostrando todos os dentes. Beijei levemente seus lábios e continuei a brincadeira. – Um sonho?
- Tenho 2. – ele respondeu, e eu assenti com a cabeça para ele continuar. – O primeiro é ver a Restart dar certo e fazer sucesso. O segundo...
- O segundo? – perguntei, quando ele parou de falar e ficou me observando. Seus cabelos molhados caíam nos olhos e ele tremia de frio, o que o deixava incrivelmente lindo e sexy. – O segundo eu não posso te contar... Ainda! – completou, quando viu minha cara de cão sem dono. – Algum dia eu te conto.
- Eu vou me lembrar disso. – respondi, e ele se curvou e mordeu carinhosamente meus lábios.
E de repente eu nem me lembrava mais de todos os problemas. Na verdade, eu só queria ficar ali com Lanza e colar meu coração de volta, pedaço por pedaço.
Mas quem foi que disse que a vida é cor-de-rosa?




Capítulo 11 – Quem roubou a porra da senha?

Lanza fala:

- Koba!? – eu gritei a pleno pulmões, como se eles estivessem em condições depois da chuva que eu e Victória pegamos na noita passada. Mas isso não vem ao caso. – Desce aqui!
Koba desceu as escadas no minuto seguinte, com a escova de dentes na boca e a cara cheia de pasta. Sua cara não era a das melhores.
- Fala. – ele disse, parando atrás de mim, que mais parecia um boneco de neve, enrolado em 327 cobertores. A famosa gripe-depois-da-chuva.
- Você postou isso? – perguntei, apontando para a tela do computador. Ele enfiou a cabeça no meu ombro felpudo e arregalou os olhos, em uma surpresa genuína.
Eu não podia culpá-lo. A foto era mesmo... Escandalosa.
A foto?
Nada mais nada menos do que uma foto minha com Victória no dia anterior. Ela de calcinha – uma muito sexy do Bob Esponja – e sutiã e eu de, bem, boxers vermelhas de seda no maior estilo cafetão.
- Dude, eu juro que não tenho nada a ver com isso! – ele exclamou, puxando um banquinho de madeira e sentando-se ao meu lado. – Aliás, acho que ninguém teve. – e dito isso, ele tentou fazer o login do blog.
E qual não foi minha surpresa?
A senha não foi aceita.
Pe Lu descia as escadas com Thomas conversando animadamente sobre um cara que havia ligado atrás da Restart após o show do colégio, quando pararam atrás de nós dois e arregalaram os olhos assim como Koba fizera.
- Mas que porra é essa? – Thomas perguntou, enfiando a cara do outro lado do meu ombro. Pe Lu se apoiou na minha cabeça e não disse nada.
- Isso quer dizer que não foi nenhum de vocês que tirou essa merda dessa foto e postou no blog, e logo em seguida mudou a senha? – perguntei, observando Koba tentar desesperadamente entrar no mesmo.
- Hum. Não. – Pe Lu respondeu.
- Merda. – murmurei. Só que como eu estava gripado, saiu uma coisa mais no tipo “berda”.
- Bom, pelo o que eu conheço das meninas, elas vão nos ligar em 5,4,3,2,1... – Thomas contou e quando disse o já, meu celular começou a vibrar no bolso, o celular de Koba e de Thomas tocaram qualquer toque alheio e o celular de Pe Lu mugiu.
Sério. Ele mugiu.
- Merda! – agora eu meio que gritei.
Pe Lu foi atender o telefone na cozinha, mas antes de entrar eu pude ouvir ele dizer: Calma, amor, eu posso explicar.
Thomas atendeu o celular e só ouviu os gritos de Júlia com uma cara de assustado. Koba atendeu e colocou o celular longe da orelha, ouvindo gritos piores do que os de Júlia.
Eu olhei para o meu celular. Privado.
Merda!
Subi as escadas correndo e me tranquei no meu quarto. Atendi o celular com medo dos gritos e palavrões, mas ao contrário do que eu esparava, do outro lado Victória chamou, baixinho:
- Lanza?
Suspirei aliviado, pensando que estava salvo.
- Oi, Vic. Que bom que você não começou a gritar, eu...
- Lanza. – ela disse de novo, e eu me calei. Ela continuou: - Você é um filho da puta mesmo. Eu pensei que você não tinha ficado com ressentimentos do que eu fiz, porque eu fiz por você, mas acho que me enganei. Como você pôde fazer uma coisas dessas? Você tem idéia do inferno que eu vou passar hoje? Pelo resto do mês? VOCÊ SABE?
Só a última parte foi gritada. Todo o resto ela falou baixinho e com a voz mansa, e mesmo assim meu coração só faltou se desintegrar no peito.
- Victória, linda, por favor, me escuta, eu não fiz nada, eu...
Tu tu tu tu...
Merda!

Victória fala:

É. Eu estava PUTA.
Mais do que puta. Eu poderia arrancar a cabeça de alguém com as unhas.
Eu poderia arrancar a cabeça de ALGUM McLoser com as unhas.
Eu queria MATAR Lanza.
Você também não iria querer se uma foto sua com uma calcinha do BOB ESPONJA fosse parar no blog mais acessado do colégio? E que nessa foto você estivesse em cima do cara que não era seu namorado – mesmo que seu suposto namorado te botasse chifres como botava suas roupas de marca para lavar? Ah, e que nessa foto você estivesse toda molhada e nojenta, e que o cara que estivesse em baixo de você estivesse incrivelmente gostoso e lindo naquelas boxers vermelhas de seda? E ainda que a pessoa que postou a foto fosse EXATAMENTE esse cara gostoso que você era apaixonada?
Acho que sim.
- O que foi isso? Algum tipo de vingança humilhante? – perguntei revoltada, mas minha voz saiu meio fanha, pois eu estava com a maior gripe. Estava botando o armário do meu irmão abaixo. Finalmente achei a toca preta que procurava e a enfiei na cabeça de qualquer jeito.
- Victória! O Thomas jurou que não foram eles! – Júlia reclamou do outro lado do celular, que estava no viva-voz, enquanto eu colocava os meus Ray-ban dourados e enfiava um blusão da GAP pelo pescoço.
- É mentira, Jú! Tudo mentira! – eu falei, pegando a calça mais estourada e larga que eu achei e a segurei na cintura com um cinto de couro verde todo desfiado. Terminei com um All Star preto que eu costumava usar quando tinha, sei lá, 12 anos.
É. Meu pé não cresceu.
- Estou indo para a escola. Não espere me reconhecer. – disse para ela.
- Como assim, Vic? – ela perguntou, e eu ri, mesmo estando com raiva.
- Você vai ver. Ou melhor, não vai ver. – respondi, e desliguei o celular.
Pra falar a verdade, quando acordei naquela manhã e vi aquela foto PAVOROSA na tela do computador e os 214 comentários embaixo – a maioria zoando John por ele ser corno, dizendo que Lanza era bonito demais para uma vaca como eu ou dizendo que eu era muito gostosa para Lanza – jurei para mim mesma que nunca mais iria para a escola.
Mas depois pensei bem e percebi que minha mãe não iria aceitar muito bem essa história de nunca mais ir para escola. Então decidi que iria para a escola disfarçada a partir daquele dia.
E era por isso que eu estava vestida de homem.
Desci as escadas e passei por minha mãe correndo, que fumava na cozinha:
- Mãe, vou a pé hoje! – gritei para ela, e ouvi um murmúrio com sono de volta. Saí pela rua e agradeci por estar vestida como homem, porque o frio cortante chicoteou no meu blusão e eu fiquei quente o trajeto inteiro até o ponto de ônibus. Pelo menos a gripe não poderia ficar pior.
No ônibus, indo para a escola, pensei em tudo. Tudo, desde o começo até aquele dia, e resolvi que era melhor para mim mesma ignorar Lanza, deixar ele seguir a vida dele e tentar seguir a minha.
Lanza iria me pagar. Mas eu também pagaria por ter me apaixonado por ele.
Muito.

Lanza fala:

- Cadê ela? – perguntei, varrendo o pátio com os olhos à procura de Victória. Espirrei e voltei a perguntar: – Cadê ela, porra?
- Ela eu não sei, mas o John está bem atrás de você. – Thomas respondeu.
Nem deu tempo de virar para trás. A última coisa que eu senti foi algo sólido acertar meu rosto com muita força, e a última coisa que eu ouvi antes de acertar o chão foi Pe Lu berrando e indo para cima de John:
- Seu filho da puta!
Mais tarde.

Acordei sentindo minhas costas queimarem no colchão duro e fino em que eu estava deitado. A luz piscava, dando as paredes brancas a aperência quase fantasmagórica. Mexi-me um pouco, e, ao olhar em volta, percebi finalmente onde estava.
Na enfermaria.
Virei-me de lado – sentindo minha sobrancelha latejar – e percebi outro corpo na cama ao lado. Ele estava todo sujo de barro e com marcas brancas de tênis por toda a camiseta preta e por toda a bermuda azul escura. Sua mão estava enfaixada e ele tinha alguns esparadrapos pelo rosto.
Esfreguei os olhos para ver quem era, e quando minha visão voltou ao foco, vi que quem estava todo ferrado ao meu lado era John, aí eu me lembrei de tudo.
Automaticamente, pousei a mão em cima da sobrancelha esquerda e vi que um esparadrapo meio humido – de sangue? – estava preso pela minha cabeça.
Olhei para o relógio na parede e vi que eram 7:52, e faltavam 3 minutos para o sinal da primeira aula bater.
Sem pensar duas vezes, pulei da cama e bati a porta ao sair da enfermaria. Ouvi John resmungar alguma coisa, e se não fosse pela minha necessidade de falar com Victória, esperaria ele acordar e o forçaria a contar a verdade. Sabe como é, que ele tinha roubado a senha do blog e forçado toda aquela cena de bater-no-cara-que-pegou-minha-mina só para disfarçar.
Corri pelos corredores desertos da escola até chegar ao corredor dos segundos anos. E, para minha grande sorte, Victória estava andando pelo corredor com Marcus.
Marcus. O veado.
- Eu não agüento mais! – ela exclamou, triste. – Mesmo vestida de homem para ninguém me reconhecer, você sabe quantas comentários maldosos eu já ouvi até agora?
- Quantos, querida? – ele perguntou, envolvendo os braços nos seus ombros, e se ele não fosse mais gay que tudo, eu partiria para cima dele ali mesmo.
- 21! Eu contei! – ela exclamou, e ele passou os dedos pelos seus cabelos.
- Tudo bem, Vic, isso vai passar... – ele disse, e ela encostou a cabeça nos seus ombros largos. Para um gay, ele era bem forte. – Mas agora me explica, o que você tem com o Lanza e o que John tem a ver com essa história toda?
- Pra falar a verdade, nem eu sei direito. – ela respondeu. Eles estavam chegando perto de onde eu estava, então eu me escondi atrás de um vão dos armários. – John só acha que estamos juntos, mas não tem nada a ver, ele é desprezível! E o Lanza... – ela suspirou, abaixando a cabeça. – O Lanza é um babaca.
Um nó se formou na minha garganta.
- O babaca que você ama. – completou Marcus.
Victória sorriu com o comentário, ainda olhando para os pés.
- O babaca que eu amo. – repetiu e Marcus sorriu.
O nó se desfez e eu senti uma corrente elétrica boa percorrer meu corpo.
- Eu sabia. Você e esses risinhos nunca me enganaram. - “Nem a mim”, pensei. – Assim como você não engana que está acontecendo alguma coisa a mais com esse Lanza além de sentimento.
- Na verdade... – ela começou, e eu prendi a respiração. Será que ela iria contar para Marcus sobre o blog? Respirei fundo. “Ela nunca faria isso”, pensei novamente, tentando me convencer. E me senti um idiota que não confia nem na garota que amava quando ela terminou: - Nós não temos nada, eu só fico com ele de vez em quando...
Os dois passaram por mim mudando a conversa para o novo namorado de Marcus.
Eu não conseguia mais agÜentar. Precisava esclarecer as coisas com Victória.
Saí do meu esconderijo e gritei pelo corredor:
- Victória!?
Victória parou de andar na hora, paralizando. Marcus se virou. Andei até eles, apertando os punhos com raiva por me humilhar daquele jeito por uma garota, ignorando a presença dele. Ela continuou olhando para frente.
- Victória, eu preciso falar com você.
- Eu não quero falar com você – ela murmurou.
- Por favor. – pedi, num sussurro quase inaudível. Marcus, que nos observava em silêncio, resolveu interferir.
- Hum, Vic, você pode ir, eu levo isso para a diretora. – dito isso, ele sumiu pela corredor. De costas, ninguém diria que ele era veado.
- Vai me ouvir agora?
Silêncio.
- Vic, pára de criancice e olha pra mim? – pedi novamente, virando-a com força pelo braço. Ela deu um tapa na minha mão e continuou a encarar o chão. – Qual é, você acredita mesmo que eu fiz aquilo? Por que eu faria uma coisa dessas? Para apanhar de John? – apontei para a atadura na minha testa. Ela olhou rapidamente e voltou a fitar o chão, mas sua expressão havia suavizado. – Acho que não.
- Você apanhou porque não soube se defender. – ela disse por fim, com a cara de menina-birrenta-que-não-ganhou-a-barbie-que-queria, e se não fosse pela situação, eu estaria morrendo de rir.
- Victória, olha nos meus olhos e diz que não acredita em mim que eu te deixo em paz! – pedi, chegando mais perto dela e passando os dedos pelos seus braços cruzados.
Para mim a briga já estava ganha e, depois de um minuto, estaríamos nos comendo no armário de limpeza.
Mas acho que não era tão simples assim.

Victória fala:

- Eu não acredito em você. – respondi, olhando no fundo dos seus olhos. E aquilo me matou.
De verdade.
Olhar em seus olhos e ver sua expressão se modificar de vitória para tristeza me matou por dentro. Meu coração já quase colado se quebrou novamente em milhares de pedaços e eu me senti tonta.
Mas eu tinha que fazer aquilo. Eu tinha que esquecê-lo e ele tinha que me esquecer. Se ficássemos juntos, iríamos nos magoar muito. E eu não queria aquilo. Eu não queria ver Lanza triste ao meu lado.
- Ok. - ele disse, saindo de perto de mim e balançando a cabeça negativamente, como se quisesse afastar os pensamentos da mente. – Não vou mais te encher, Hackmann. – ouvir ele dizer Hackmann como dizia quando nos odiávamos doeu. Muito. - Desculpe por estragar sua vida. E muito obrigado por me fazer acreditar que você também me amava. Muito legal de sua parte.
Lanza saiu andando pelo corredor com as mãos nos bolsos e a cabeça baixa. Minha cabeça parecia que ia explodir a cada passo que ele dava. E meu coração... Esse não tinha mais jeito.
- Lanza!? – o chamei, mas ele ignorou e virou o corredor, me deixando sozinha. O sinal bateu e todas as pessoas trocaram de salas, passando por mim e quase me derrubando.
- Olha aí se não é a vadia que quase deu pro Lanza Reis ontem no campo de futebol. – Beatriz Scarduelli disse para Mary Pazetto, que riu e comentou:
- Ouvi dizer que ela, John e Lanza já fizeram um a três!
Não me importei pelos comentários maldosos ou pelo empurrões. Minha mente estava muito longe. Estava em Lanza, e na burrada que eu havia feito por não acreditar nele.
Sério. Eu tinha me ferrado legal.

Lanza fala:

- Eu gosto dessa. Koba iria gostar. Não sei, é a cara do Koba. É... imbecil como ele. – eu comentei, apontando para um anel prata com a borda dourada. Thomas virou os olhos e respondeu:
- Por que eu daria uma aliança imbecil para Jú? Ainda por cima uma alinça que Koba gostaria?
- Nossa, eu totalmente comeria aquela gata dos perfumes. – comentei novamente, apontando para uma morena muito hot que mostrava alguns perfumes para uma senhora.
- Lanza, pára de fazer comentários sem noção, mesmo que você esteja mal pela Vic, e me ajuda a escolher a porra da aliança? – Thomas meio que ordenou, e eu me virei para ele, tirando os olhos da garota dos perfumes.
- Mas a porra da aliança é sua! Que tipo de ajuda você quer de mim?
- Sei lá, dude, eu nunca comprei uma alinça antes! – Thomas disse, sorrindo amarelo para a garota das alianças, que sorria com compaixão para ele.
Não sei se foi bem com compaixão, mas...
- Posso ajudá-lo? – ela perguntou. Era muito hot também. Acho que antes de trabalhar naquela loja as atendentes tinham que dormir com o dono.
- Não sei, eu estou procurando alguma coisa que... Porra, eu não sei o que eu tô procurando... – Thomas admitiu para ela, que riu da suposta pose de sou-um-menino-indefeso de Thomas.
Putão!
Mas eu não podia falar nada, porque logo que Thomas foi salvo pela mocinha das alianças, eu decidi ir falar com a mocinha dos perfumes.
Só que, ao contrário de Thomas, eu não iria comprar um perfume para minha namorada. Eu nem tinha namorada.
Não que eu não quisesse muito namorar Victória.
Mas depois que ela me mandou pastar pela segunda vez, eu voltei à tona para minha antiga profissão: galinhar.
Mesmo que ela só tivesse me mandado pastar há algumas horas.
Eu era rápido, dude.
- Oi. – eu disse, me aproximando dela. Ela estava sozinha atrás do balcão, pois a senhora já havia ido embora.
- Oi. – ela respondeu, sorrindo automaticamente. – Posso ajudá-lo?
- Pode. Você poderia me dizer qual o melhor perfume masculino para se conquistar uma mulher? – perguntei, e ela sorriu novamente, agora me olhando de cima a baixo.
- Acho que cada mulher tem seu cheiro preferido.
- E qual é o seu? – perguntei, e ela gargalhou, mostrando a fileira de dentes perfeitos.
Há! Ponto pra mim!
- O meu? Não sei, provavelmente o Hugo Boss Intense. – ela respondeu, apontando para um frasco vermelho na última pratileira.
- Então é esse mesmo que eu vou levar para me encontrar com você hoje à noite. – respondi, e ela sorriu surpresa.
Eu ainda estava em forma.
- E quem deu essa certeza toda de que eu vou sair com você essa noite? – ela perguntou, e eu me aproximei do balcão, pegando nas pontas dos seus cabelos, assim como fizera tantas vezes com Victória.
Victória...
Mesmo com outras garotas, só conseguia pensar nela.
- Primeiro, eu estou solteiro e eu não vi nenhum anel de compromisso na sua mão. Segundo, eu te achei linda, e você também me achou, se não teria cortado o papo logo no começo. Terceiro, nós somos jovens, por que não aproveitar?
Ela entortou a cabeça, como se pensasse na minha proposta. Olhei bem para ela. Provavelmente era mais velha que eu, uns 18 ou 19 anos. Usava o uniforme todo preto da loja e os cabelos também negros se fundiam no seus ombros estreitos. Tinha uma bela comissão de frente e uns olhos verdes lindos. Os dentes eram pefeitos, brancos e retos, e o corpo sarado competia com o rosto angelical.
Só não era mais linda que a minha Victória.
Merda.
- Ok. – ela respondeu, sorrindo novamente. – Eu saio com você.
- Ótimo. E, qual seu nome? – perguntei.
- Isabella Wells, mas pode me chamar de Bella. O seu?
- Sou Pedro Gabriel. Mas pode me chamar de Lanza. – disse, sorrindo para ela. Apontei para o Hugo Boss e completei: - Pode pegar um desses para mim?
- Claro. – ela respondeu, pegou o Hugo Boss e o passou pelo código de barras. Nem lembro quanto foi, e nem me importei.
Meu pai pagando, tudo bem.
Peguei o perfume, anotei o telefone de Bella e dei um beijo em seu rosto macio.
Voltei para onde Harry estava. Ele já havia comprado a aliança e se despedia da mocinha.
- Tchau, Suzannah! Boa sorte com o Dave!
- Meu Deus, você já sabe a vida inteira da menina? – perguntei, e ele gargalhou.
- Eu causo esse efeito nas mulheres.

Victória fala:

- Ele O QUÊ? – perguntei, animada, para Júlia, que falava um monte de coisas sem sentindo do outro lado da linha, envolvendo Thomas, namoro e aliança. – Fala mais devagar, cacete!
- Caralho, porra, cu! Presta atenção! – ela piou e eu gargalhei. – Eu acabei de voltar de um restaurante japonês que eu fui com o Thomas! Aí, no final do jantar, ele disse que ia pedir chapanhe porque nós estávamos fazendo 5 meses de... De nada, pra falar a verdade. Eu concordei, claro, não era eu que estava pagando mesmo... Aí o garçom trouxe a champanhe na taça e eu achei meio estranho, mas nem reparei em nada. Então nós brindamos e bebemos. Aí eu senti um negócio engraçado na boca, meio duro. Então eu tirei e era uma aliança, linda! Prata e com um fio dourado no meio. Aí quando eu olhei com cara de assustada para a aliança, ele se levantou e ajoelhou ao meu lado! Ajoelhou, Vic! E é claro que o restaurante inteiro tava vendo aquilo! Achei tão fofo! Então ele perguntou: Júlia, quer namorar comigo?
- Ai, meu Deus, que lindo! – eu exclamei. – E aí?
- E aí eu recusei e disse que era lésbica... Claro que eu disse que sim! – ela brincou, e nós duas gargalhamos. – Então o restaurante inteiro começou a aplaudir e o Thomas ficou todo vermelinho. Muito fofo!
- E o que tá gravado na aliança? – quis saber.
- Thomas e Jú – I've Got You. Não é lindo? – ela perguntou, e eu concordei.
Era realmente lindo.
Ótimo. Agora só faltava Lanza me ligar e dizer que estava namorando com o Marcus para o meu dia ficar mais deprê.
- Agora só falta o Pe Lu pedir a Duda, o Koba pedir a Isa e você se acertar com o Lanza...
- O que eu acho bem difícil. – completei e ela suspirou do outro lado.
- O que é difícil? Admitir para todos que está com um loser?
- Claro que não! Eu não tenho problemas com isso, eu só... – tentei dizer, mas ela me cortou.
- Pois é o que parece, Vic. Cai na real, vocês se gostam! Se você realmente quisesse, estaria feliz com ele. Você tem é medo de admitir que gosta mesmo de um cara que não é aceito por um lado do colégio. O seu lado do colégio. Agora, eu cansei de tentar falar disso com você. Eu vou ligar para a Isa e para a Duda e contar a novidade. Mas pensa no que eu te disse, senão você vai perder o único cara que eu já vi você gostar na vida.
Então ela desligou.
Fiquei olhando para o celular por um bom tempo, pensando. Por mais que parecesse patético o que ela disse, me dei por mim e percebi que era a mais pura verdade. Eu só encontrava outros pretextos para terminar com ele, mas no fundo eu tinha medo do que todos falariam.
Eu era realmente um saco de pipocas.

Lanza fala:

- E aí, o que você vai querer? – perguntei para Bella, que passava os olhos pelo cardápio. Eu a levei para comer em um restaurante italiano e ela parecia mais bonita ainda com um vestido tomara-que-caia verde escuro e os cabelos presos com aqueles pauzinhos japoneses que eu não sei o nome. Seus olhos estava mais verdes porque ela passara lápis neles e a boca estava mais carnuda.
Resumindo: hot.
- Acho que eu só vou comer uma salada. Não estou com fome. – ela respondeu, colocando o cardápio em cima de mesa.
Um ponto a menos. Não come como gente.
- Muito bem, o que vão pedir? – o garçom perguntou, com o Palm Pilot em punho. Coloquei meu cardápio ao lado do de Bella e respondi: - Pra mim uma macarronada e duas Cocas, pra ela uma salada de cenoura com pepino e uma...?
- Água mineral sem gás. – ela completou, sorrindo.
Dois pontos a menos. Não bebe como gente.
- Mas diz aí, gostou do meu cheiro? – perguntei para ela, logo que o garçom saiu de vista. Ela se inclinou na mesa e eu pude ver o contorno dos seus seios e sorri satisfeito comigo mesmo.
- Gostei, mas deixa eu sentir novamente para ver se está bom mesmo. – ela disse, colocando o nariz no meu pescoço e respirando profundamente. Mordi o lábio inferior. Ela voltou para o seu lugar e respondeu: - É, está ótimo.
- Muito obrigado.
O garçom chegou depois de alguns minutos. Enquanto a comida não vinha, Bella me contou sobre todos os seus ex-namorados, e eu fingi interesse, mas na verdade a única coisa que eu conseguia ver eram seus peitos no decote.
Três pontos a menos. Falar sobre ex-namorados no primeiro encontro.
- Aqui está, senhor. – o garçom disse, colocando meu prato na mesa e o prato multi-colorido de Bella junto. Ela começou a comer como um passarinho, enquanto eu devorava meu macarrão. De vez em quando ela olhava meio torto para mim, mas dude, foda-se, eu estava morrendo de fome.
Passado algum tempo, meu celular vibrou.
Em condições normais, eu não atenderia. Mas Bella era tão chata que eu decidi atender.
- Alô?
- Lanza? – uma voz chiada me chamou. Achei estranho, nunca tinha ouvido aquela voz antes.
- Ahám. Quem fala?
- Não te interessa quem está falando. Eu só estou ligando para dizer que fui eu quem roubou a senha do blog, então nem tente recuperá-la, pois você não vai conseguir. Se algum dia você descobrir quem eu sou, meus parabéns.
Tu tu tu tu.
Olhei com o canto dos olhos para Bella. Ela observava curiosa minha conversa.
Quatro pontos a menos. Curiosa demais.
- Era engano. – eu disse, guardando meu celular no bolso. Teria que contar aquilo para os dudes mais tarde.
Ela sorriu e continuou entretida na própria conversa.
- Então, vamos? – perguntei, quando nós dois havíamos acabado. Aliás, eu havia acabado minha sobremesa, ela ficou só olhando.
- Pra onde você quer ir? – ela perguntou, me lançando um olhar sugestivo.
Mas que pergunta, eim?
- Para onde você quiser me levar. – respondi.
- Eu moro com uma amiga, mas ela está viajando. Quer dar uma passada lá em casa? – ela perguntou, e eu levantei a sobrancelha.
- Claro.
Bella me levou para seu apartamento, uma luxuosa cobertura em um prédio bem no centro. Fiquei me perguntando como uma vendedora de lojas poderia pagar o aluguel de um apartamento daqueles, mas resolvi não comentar nada.
- E aí, quer tomar alguma coisa? – ela perguntou, jogando sua bolsa de verniz na mesa e indo em direção à cozinha, toda equipada com coisas em inox. Fui atrás dela e enquanto ela pegava alguma coisa na pia, a abracei por trás e sussurrei no seu ouvido:
- Acho que podemos fazer alguma coisa mais interessante.
É, dude. Eu posso ter 17 anos, mas sou um tremendo conquistador.
Bella virou-se de frente para mim e entrelaçou os braços no meu pescoço. Chegou bem perto da minha boca e respondeu:
- Como o quê?
Aí, dude, não teve jeito. Peguei-a pela cintura e dei um beijo com vontade nela.
O beijo dela era meio frio, sem emoção nenhuma. Suas mãos ficaram sem vida na minha nuca e se não fosse pelo seu belo decote, eu não teria a pegado no colo e a levado para o quarto.
Chegando lá, ela foi mais rápida do que eu previ. Tirou o vestido e desamarrou os cabelos, enquanto eu tirava minha roupa. Eu fui para a cama de casal e ela deitou-se ao meu lado. Voltamos a nos beijar e eu explorei cada curva dela.
Mas... Ao mesmo tempo que a idéia de estar quase nos finalmentes com ela me agradava, a idéia de saber que ela não era quem eu gostaria de realmente estar meio que me desanimou.
- O que foi, Lanza? – ela perguntou. Acho que percebeu que eu estava meio frio. Eu balancei a cabeça negativamente e respondi, já me levantando:
- Não sei. Acho que eu não estou no clima. – respondi, e ela foi um pouco para o lado. Depois daquele comentário, o clima tinha ido realmente para o espaço.
- Mas foi você quem começou! – ela exclamou, enrolando o lençol nos ombros. Sorri vagamente, e respondi:
- É, eu sei, mas vejo que foi um erro.
E depois disso ela meio que me expulsou do apartamento dela. E eu voltei para casa mais cedo do que o previsto.
- O que foi, dude, voltou cedo! – Thomas exclamou.
- Pois é... – respondi, me jogando ao seu lado no sofá. Reparei na aliança prata no seu dedo e resolvi mudar de assunto antes que Harry ficasse me enchendo o saco por eu não ter ido até o final com uma menina como Bella. – E aí, ela gostou?
- Acho que sim. – ele respondeu, zapeando pela Tv. – Espero que sim.
- Thomas, meu lindo, ela sorriu e os olhinhos dela brilharam? – perguntei, abraçando ele pelos ombros.
- Sim.
- Então ela gostou. – terminei, e ele riu. Ficamos um pouco em silêncio, assistindo Padrinhos Mágicos. Mas aí eu me lembrei do telefonema anônimo de mais cedo e exclamei: - AAAH!!!
- Aí porra! – Thomas deu um pulo do meu lado e eu comecei a gargalhar. – O que foi?
- Esqueci de contar. Algum lunático, ou lunática, me ligou no meio do jantar com a Bella e disse que roubou a senha e que se eu descobrisse quem foi eu seria o fodão.
- Sério!?
- Ahám...
- Você pegou o número? – Thomas perguntou, esperançoso.
- Privado. – seu rosto se contorceu numa careta engraçada.
- Homem ou mulher? – perguntou de novo, com a mesma esperança na voz
- Sei lá, a ligação tava toda chiada, não ouvi nada direito.
- Merda...
Olhei para a tela do computador de relance e desviei o olhar. Mas percebi que alguém falava com Thomas, então olhei de novo e vi que não estava ficando louco. Na tela, uma janela do msn piscava.
- Você tá falando com alguém Thomas? – perguntei, apontando para o computador. Ele balançou a cabeça negativamente e deu um pulo do sofá, indo até lá. Fiquei por lá, vendo Tv, pois não estava muito curioso em saber quem queria falar com Thomas. Provavelmente seria Júlia querendo saber porquê Harry ainda não havia ligado.
Passados alguns segundos, Thomas me chamou.
- Dude, vem ver isso aqui!
Cheguei perto de Thomas e comecei a ler a conversa.

New Gossip says:
O Lanza já chegou aí?
Thomas s2 Jú says:
Quem é?
New Gossip says:
Não interessa quem é. Responde minha pergunta.

- Caralho... – sussurrei, me apossando da cadeira em frente ao pc. – Tem alguém me espionando!
- E por que essa porra que roubou a senha só persegue você? – Harry perguntou, puxando um banquinho e sentando-se ao meu lado.
- Eu já até sei quem é, Thomas. E acho que é porque essa pessoa gosta da Vic...
- Você não tá achando que é o John, não é? – Thomas perguntou, lendo meus pensamentos. – Por que ele faria isso? Pra escola inteira chamar ele de corno?
- Bom, só tem um jeito de saber.

Thomas s2 Jú says:
É o Lanza. Quem é você? É você, John?
New Gossip says:
Já falei que não interessa quem é. Lanza, tenho um assunto mais importante do que quem eu sou para tratar com você.
Thomas s2 Jú says:
Que tipo de assunto?
New Gossip says:
É sobre o blog.

- Tá vendo, Thomas! – exclamei, afundando a cabeça entre minhas mãos. – Sabia que essa merda desse blog só ia me trazer problemas...
- Relaxa, Lanza. – Thomas respondeu, me dando tapinhas amigáveis nas costas. – Continua conversando com ele. Ou ela. Sei lá...
Thomas s2 Jú says:
Eu não tô a fim de falar disso...
New Gossip says:
Você é quem sabe... Mas acho que a escola inteira vai ter que saber sobre o seu segredinho e dos seus amiguinhos...
Thomas s2 Jú says:
Ok, mas seja rápido. O que você quer?
New Gossip says:
Eu quero te fazer uma proposta. Se você descobrir quem eu sou até o final do ano, eu te devolvo o blog e nós ficamos bem. Ninguém vai saber de vocês. Agora, se você não descobrir...
Thomas s2 Jú says:
Se eu não descobrir o quê?
New Gossip says:
Se você não descobrir, eu mato seus 3 amigos e a Victória e suas amigas.
Thomas s2 Jú says:
O QUÊ???
New Gossip says:
HAHAHAHAHAHAHAHA! Brincadeira, Lanza, foi só pra descontrair...
Thomas s2 Jú says:
Diz logo o que você quer, porra!
New Gossip says:
Também não precisa ficar agressivo! Bom... Se você não descobrir, além de perder a banda, vai perder a garota.
Thomas s2 Jú says:
Perder em que sentido?
New Gossip says:
Relaxa, não vou matá-los nem nada do tipo. Eu só vou fazer seus amigos se virarem contra você, assim como suas amigas e Victória. Eles vão sentir tanto ódio de você que não vão querer nem olhar para sua cara.
Thomas s2 Jú says:
E como você pretende fazer isso?
New Gossip says:
Eu tenho meus jeitos. Afinal, eu roubei seu querido blog...
Thomas s2 Jú says:
Mas por que você quer ferrar só comigo?
New Gossip says:
Algum dia eu te conto...
Thomas s2 Jú says:
E como eu vou descobrir quem é você?
New Gossip says:
Eu vou te dar algumas dicas. Mas fica esperto, Lanza! Abre o olho!

Então ele/ela ficou off-line.
- Olha que legal. O blog é do Koba e eu que me ferro! – falei, virando os olhos.
- De qualquer jeito, nós nunca iríamos nos virar contra você. Nós vamos te ajudar. – Thomas disse, indo em direção à cozinha. – Assim como fizemos hoje mais cedo com o John...
- Ah! – exclamei, me lembrando que queria perguntar isso fazia tempo. – Foram vocês que arrebentaram com o John hoje de manhã então? – perguntei, rindo.
- O que você acha? – Thomas perguntou, entrando na cozinha.
Fiquei rindo sozinho, imaginando John sendo arrebentado pelos meus amigos. Mas, logo depois, o foco do pensamento mudou.
Adivinha para quem?

Victória fala:

- Alô? – falei, ofegante por correr pelo quarto para chegar ao telefone. Tinha acabado de tomar banho e meu cabelo pingava água nas costas.
- Vic? – Isadora piou do outro lado da linha. – E aí!
- Oi, Isa! Diga!
- Sei lá. Só queria ouvir sua voz... [N/A: Aí que gay!] HAHAHAHAHA! Zoeira, só queria saber como foi sua conversa com Lanza, porque eu vi vocês no corredor e essas coisas...
- Ah, pra variar um pouco nós brigamos... – respondi, enrolando uma toalha nos cabelos. – Sei lá, acho que nós dois nunca vamos dar certo...
- Aff, Vic, não viaja, ele te ama! – ela meio que berrou do outro lado.
- É, mas acho que ele não quer me ver nem pintada de ouro. – respondi, olhando triste para uma foto que nós 8 tiramos na praia que estava no meu plano de fundo do computador.
- Por quê?
- Porque eu disse que não acreditava nele...
- Você quer apanhar agora ou mais tarde? – Isadora perguntou, rindo. – Olha o que você fala pro menino!
- Eu sei, mas é melhor assim...
- Melhor assim por quê? Vocês dois estão tristes, e...
- Aí! Tá bom! Chega! Não quero mais receber lição de moral das minhas amigas! Já não basta a Jú...
- Tudo bem, tudo bem... – Isadora me acalmou um pouco, com aquela voz que só ela tem para me acalmar. – Mas que tal você ligar pra ele?
- Ah, sei não, . – Isa, a Duda tá me ligando.
- Ah, ok, eu ia mesmo ligar para o Koba... – Isadora respondeu, com a voz fraquinha. Ah, o amor! – Beijos, Vic! Boa noite! Amanhã a gente se fala...
- Beijos, Isa! Até amanhã! Boa noite! Alô? – disse, atendendo a outra linha.
- Oi, Vic! – Maria Eduarda exclamou do seu jeito animadinho. – De boa na lagoa?
- Opa, tranquilo no asilo. E aí? – perguntei, rindo.
- Sussa na montanha-russa... – ela respondeu, e nós duas rimos.
- Nossa, olha como a gente brisa! – brinquei, e Maria Eduarda riu. – Mas e aí, ligou para ouvir minha voz como a Isa ou nem?
- Nem, liguei para gastar meus créditos mesmo... – ela respondeu, e rimos novamente. - Não, zoeira. Na verdade liguei pra te contar um negócio legal que o Pe Lu disse pra mim hoje!
- O quê?
- Ele quer que eu vá jantar na casa dele amanhã pra me apresentar pra sua mãe! – ela piou animadinha do outro lado. Eu dei um gritinho e ela continuou: - Sabe, aproveitar que os meninos vão no Barney's...
- Que legal, Duda! Já vai conhecer a sogrona! Só não vai falar nenhuma merda perto dela, eim! – eu disse, e Maria Eduarda suspirou.
- Espero que nada idiota saia da minha boca... Mas e aí, como foi a conversa com o Lanza hoje? – ela perguntou.
- Meu Deus, tá todo mundo sabendo disso?
- Na verdade, a Jú que contou para mim...
- Ah, a gente brigou... – respondi, me jogando na cama de qualquer jeito. Coloquei a mão sobre a barriga e com a outra fiquei escrevendo Lanza no ar. – De novo.
- Que péssimo, Vic... – ela suspirou, genuinamente triste por mim. – Mas, também, você não ajuda, né? Quem mandou dizer pro menino que não acreditava nele?
- Quem te disse isso? – perguntei, já sabendo a resposta.
- A Isa.
- Como? Eu ACABEI de contar isso pra ela!
- Mensagem de texto. – Maria Eduarda riu. – Mas relaxa, Vic, nós só fizemos isso porque somos suas amigas! E nossos machos são amigos do Lanza. E pra falar a verdade, nós somos amigas do Lanza também. E nós não queremos ver vocês dois tristes... Vocês já fizeram tanto por nós! Até aquele jantar pro Koba e pra Isa...
- Eu sei, Duda, eu sei... Dá pra gente não falar nisso? – eu já estava ficando de saco cheio das minhas amigas. Eu sabia que elas só queriam me ajudar, mas mesmo assim, falar de Lanza machucava um pouco.
Um pouco?
Machucava MUITO.
- Tudo bem... Bom, eu vou terminar a lição de física e ligar para o Pe Lu. Dorme bem, Vic! – ela disse.
- Você também. Até amanhã, Duda.
- Até!
Desliguei.
O que seria de mim sem minhas amigas?

Capítulo 12 – E o blogueiro ataca novamente.

Lanza fala:

- Pe Lu, tem certeza que essa coisa aí não vai matar a Duda? – Koba perguntou. Ele, assim como eu, estava pronto para ir ao Barney's, e nós esperávamos por Thomas enquanto ajudávamos Pe Lu no jantar que ele fazia para Maria Eduarda. – Porque eu gosto dela, sabe como é...
- Espero que não. Mas se ela estiver tão linda quando estava na escola hoje, quem vai morrer sou eu mesmo... – Pe Lu respondeu, jogando alguma coisa vermelha na panela que borbulhava. Thomas desceu as escadas fazendo muito barulho.
- Vamos?
- Thomas, preciso da sua ajuda. - Pe Lu pediu, ainda virado para as panelas, passando a mão pelos cabelos nervosamente.
- Não, Pe Lu, eu não vou te ensinar a beijar! - Thomas brincou.
- Ai querido, não é isso! - Pe Lu continou a brincadeira. – Na verdade, eu queria saber como eu faço para dar a aliança pra a Duda...
- Ai meu Deus, mais um no chicote? - eu suspirei, negando com a cabeça.
- Onde esse mundo vai parar? - Koba concordou.
- Cala boca, Koba! - nós três gritamos. Koba deu um sorrisinho meio torto e voltou a prestar a atenção total à janela.
- Eu sei como fazer, por que você não perguntou para mim? – perguntei, parecendo ofendido.
- Sabe é? Então, como eu entrego a aliança? – Pe Lu perguntou, desconfiado.
- Simples. Abre a caixinha e dá! – respondi, piscando para ele.
- Não. Que tal colocar na sobremesa? - Thomas sugeriu, ignorando a brincadeira. Pe Lu abriu um sorriso de orelha a orelha e Thomas sorriu satisfeito.
- Brilhante! - Pe Lu exclamou. - Agora vazem que ela deve estar chegando.
- E sua mãe? - perguntou Koba preocupado.
- Também já deve estar chegando.
- Ok, então já estamos indo.- Thomas disse, disparando pela porta comigo e com Koba logo atrás.
A mãe de Pe Lu realmente nos assustava.
Fomos na Eco de Pe Lu, pois Thomas não queria usar o carro dele. Eu dirigi em silêncio até lá, enquanto Koba contava sobre um produtor que se interessou pelo nosso som.
- É, e ele disse para nós irmos amanhã ao estúdio gravar uma demo.- Thomas comentou, quando eu desliguei o carro. - Eu disse que tudo bem.
- Ok. – falei pela primeira vez, entrando pela portinha barulhenta do Barney's. James estava parado na porta e sorriu ao me ver.
Claro, eu também sorriria se o seu cliente que mais gasta em sorvete e cerveja entrasse pela porta.
- E aí, Lanza! – ele exclamou, vindo até mim com sua cara espinhenta retorcida em uma expressão feliz. – Mesa de sempre?
- Claro. E me trás um x-burguer? – pedi, e ele assentiu com a cabeça, anotando no seu bloco. – Valeu.
- 2. – Koba pediu, passando por nós dois em direção à mesa no fundo do Barney's.
- 3. E 3 Cocas. – Thomas pediu, fazendo o mesmo que Koba. James anotou tudo no bloco e depois desapareceu pelo balcão colorido. Segui o rastro dos caras e quando cheguei à nossa mesa estilo lanchonete americana, arregalei os olhos.
Júlia estava lá, ao lado de Thomas. Isadora e Koba já brincavam de desentupidor de pias, e ao lado deles, Victória observava as unhas.
- Ah... Oi. – murmurei, me sentando cautelosamente no único lugar vago da mesa, ao lado dela. Ela se remexeu desconfortavelmente e meu cérebro foi a mil, tentando ter raiva dela, enquanto o resto do corpo queria beijá-la. Ela sorriu tímida para mim, e por mais que me matasse, eu a ignorei. – Não sabia que vocês viriam.
- Nem a gente. Mas chegamos e elas estavam aí. – Thomas respondeu, dando um beijo no rosto de Júlia, que sorriu com o gesto. Koba e Isadora nem se deram ao trabalho de parar o beijo.
Quanta tensão sexual!
Victória estava como eu a via todos os dias. Ou seja, maravilhosa. Seus cabelos estavam presos em um alto rabo-de-cavalo que caía nos ombros. Usava um brinco de argola grande e prateado e um colar com pingente de estrela que ia mais ou menos até a linha da clavícula. Sua blusa de um ombro só azul clara deixava um pouco da sua barriga amostra e ela usava uma calça jeans skinny azul escura com All Star de couro preto. Seu perfume doce e simples invadiu meu nariz e eu respirei fundo.
- Aqui está. – James surgiu com 3 x-burguers, 3 Cocas e 3 bananas split que as meninas pediram. – Mais alguma coisa?
- Não, James, valeu! – Victória falou, enfiando a colher no sorvete de chocolate. Fiquei observando ela levar a colher à boca com a minha própria aberta e acho que dei muito na cara, pois Thomas me chutou por baixo do banco.
- Ai caralho!
- Hum, e aí, falta um mês pras férias de julho. O que nós vamos fazer? – Koba comentou, tentando quebrar o silêncio.
- Vamos esquiar! – eu e Victória exclamamos ao mesmo tempo. Olhei para ela com o canto dos olhos e, com a intenção de irritá-la, comentei: - Além de maluca não tem criatividade para ter as próprias idéias...
Ela me olhou com uma mistura de raiva com surpresa.
- Mesmo se isso fosse verdade, – começou, levantando a sobrencelha do jeito mais bravo e fofo possível – eu não roubaria as SUAS idéias, Lanza Reis.
O Lanza Reis doeu. Sério.
- Mas parece que foi isso que aconteceu, Hackmann. – respondi, agora com os olhos fixados nos dela. Ela aproximou seu rosto do meu e respondeu, sílaba por sílaba:
- Vá se foder, Pedro Gabriel Lanza Reis Hackmann.
- Vem fazer. – ela me desafiou. Levantei um pouco da cadeira e fui em sua direção – só de brincadeira, não que eu fosse bater nela nem nada do tipo. Afinal, eu a amava. E não era do tipo que gosta de bater. Nem um pouco – e todos da mesa que observavam a cena embasbacados se enfiaram no meio de nós dois.
- Hey, hey, hey! – Koba exclamou, me jogando de volta no banco. Thomas segurava os ombros de Victória – que parecia estar sem reação – e falava alguma coisa baixinho pra ela. As meninas sentaram-se ao meu lado e Thomas saiu da mesa junto com Victória.
Do ódio ao amor, do amor ao ódio.

Victória fala:

- Agora você vai ter que ignorar esses comentários idiotas. Ele ficou muito magoado com você, e quando o Pedro Gabriel fica magoado, é bem difícil conseguir seu perdão... – Thomas me explicou, enquanto conversávamos em um canto isolado do Barney's. – Se você quer que ele te desculpe, tem que ter paciência, e não mandar ele ir se foder!
- Eu sei, eu sei... – murmurei, abaixando a cabeça. – Eu fui muito idiota...
- Foi. – Thomas concordou, e eu sorri com tristeza. Ele me abraçou pela cintura e eu envolvi meus braços no seu pescoço, afundando a cabeça nos seus ombros. – Tudo bem, Vic, todos nós erramos quando se trata do sexo oposto. Principalmente quando se ama o sexo oposto.
- Você não errou com a Jú. – comentei, e ele afagou meu rabo-de-cavalo como um irmão mais velho.
- Porque eu sou foda. – respondeu, me fazendo rir.
Ele me soltou e nós voltamos para a mesa. Lanza conversava normalmente com Isadora, Júlia e Koba. Quando cheguei, ele respirou fundo e afundou no banco. E antes que eu pudesse falar algo, ouvi uma explosão de risadas vir da mesa ao lado.
Olhei bruscamente e quase dei de cara com John.
John. Há quanto tempo eu estava tão envolvida com outros problemas que esquecera do insuportável do John?
- E aí, Vic! – exclamou, como se fôssemos velhos amigos. – Saudades?
Olhei assustada para ele, e as gargalhadas explodiram novamente na mesa ao lado.
- Estou aqui com o que costumavam ser seus amigos... Ainda se lembra deles? – disse, apontando para a mesa onde Lindsay, Mary, Rick e Luka, meus velhos amigos hipócritas, estavam sentandos, rindo.
- Lembro. – respondi, seca. John pegou meus punhos com força e continuou falando:
- Não te vi na escola hoje! Aonde você se enfiou? Aliás, com quem você estava se agarrando dessa vez? – perguntou, colocando uma mecha dos meus cabelos atrás da minha orelha. Suas mãos estavam apertadas nos meus punhos, me machucando.
- O que você quer, John? – perguntei, tentando me devenciliar de suas mãos.
- O que eu quero? – ela meio que berrou e agora todos no Barney's prestavam atenção na nossa conversa. – Nada, linda. Só quero dizer que está tudo acabado entre nós. Sabe como é, eu não fico com vadias.
Ok. Ele tinha pego pesado. Por isso não tive nenhum motivo para não fazer o que eu fiz. Que foi dar um tapa bem dado no seu rosto. Mas bem dado mesmo! Daqueles que fazem barulho e tudo.
John colocou a mão sob o rosto e sorriu. Todos em volta agora olhavam curiosos.
- Não precisa ficar brava por eu estar falando isso na frente de todos. Eles já sabem que é só te dar uma balinha e um por favor que já estão pegando. – disse, tirando a mão do rosto, pronto para receber outro tapa, como se adorasse todo aquele teatro.
“Uuuuu!” as pessoas da mesa de John assoviaram. Isadora e Júlia tentaram se levantar, mas Koba e Thomas as impediram, porque naquele exato momento outra pessoa havia levantado.
A pessoa que eu estava esperando se levantar desde o começo da briga. Porque mesmo brigados, eu sabia que Lanza não deixaria John falar aquelas coisas para mim e sair impune. Sabe como é, ele realmente odiava John com todas as entranhas. E, pelo o que eu soube, eles já haviam brigado mais cedo.
Nada melhor que uma briga pra acalmar os nervos.

Lanza fala:

Porra! Quem aquele filho da puta pensou que era pra ofender a MINHA garota?
Certo, naquele momento ela não era exatamente MINHA garota.
Mas um dia ela fora.
Por isso que não pensei duas vezes – mesmo estando brigados – antes de levantar da mesa e me enfiar no meio dos dois, fazendo John soltar os punhos dela.
- Não cansou de apanhar, John? – perguntei, chegando perto dele.
- Não cansou de defender essa puta, Lanza? – ele perguntou como resposta e meu punho voou em seu queixo. Mas não foi bem como eu previ. Na verdade, John foi mais rápido que de costume – talvez ele andara treinando. Segurou meu braço no ar e virou um soco no meu nariz, que começou a sangrar imediatamente. Victória soltou um gritinho atrás de mim e eu parti para cima de John. Mas não contei que os amigos dele fossem partir para cima de mim.
- Hey! – ouvi Koba gritar atrás de mim, e alguns segundos depois ele e Harry estavam na briga.
- Parem com isso! – as meninas das duas mesas gritaram em uníssono. Mas não adiantou. Sabe como é, muita testosterona junta dá nisso...
Um amigo loiro e alto de John – acho que esse era Rick – me derrubou e logo depois eu senti os chutes nas costelas e uma dor aguda.
- Pára com isso, John! Porra! – Victória gritou por cima dos outros gritos e os chutes cessaram um pouco. Mas logo depois voltaram com toda a força.
- Parem com isso, moleques infernais! – uma voz grave berrou, e toda a gritaria cessou. Os chutes pararam e eu me virei de lado, cuspindo o sangue que escorria do meu nariz. – Não permito agressões no meu estabelecimento.
Minha visão estava escura e a dor era insuportável. Não conseguia me levantar e senti alguma coisa quente afagar meus cabelos com carinho. Joguei todo meu peso nos braços que estavam envoltos a mim e entrei em um estado de semi-consciência. Ainda podia ouvir tudo, embora não conseguisse me expressar devido a dor.
- Saiam já daqui e só voltem quando forem pessoas civilizadas! – a voz grave exclamou novamente.
- Lanza, você consegue andar? – ouvi a voz de Victória vir da pessoa que me segurava no chão. Ela passou os dedos por meus cabelos novamente e beijou minha testa.
- Caralho, acho que ele quebrou as costelas! – Thomas exclamou, e mais dois pares de mãos me seguraram, me ajudando a levantar.
- Não quebrou, se tivesse quebrado ele estaria gritando de dor. – Koba comentou, e com uma força incrível os três pares de mãos me levantaram.
Caminhei mancando com as mãos em volta de mim, e, de relance, vi John sair com os amigos, com um sorriso no rosto.
Aquilo não ficaria assim.
À medida que caminhava pela garoa até o carro, a dor nas costelas diminuía. Quando me ajudaram a sentar no carro, já respirava normalmente e enxergava tudo direito, sem nenhuma mancha. E pude ver que Victória se sentou ao meu lado.
Sentindo uma dor diferente das dores nas cotelas, meu peito se apertou e minha cabeça despencou nos ombros dela, como se não conseguisse fazer outra coisa senão aquilo.

Victória fala:

- O plano era esperar Pe Lu ligar lá no Barney's. – Koba comentou, avançando vagarosamente pelas ruas. – O que vamos fazer agora?
- A gente tem que levar o Lanza para algum lugar! – Thomas exclamou. – Não podemos ficar por aí com o cara todo manchado de sangue!
- Tudo bem, Thomas, eu já estou melhor. – ele disse, apoiado no meu ombro. Entrelacei as mãos, para não cair em contradição.
O negócio é que, por mais que doesse vê-lo todo arrebentado por minha causa, eu ainda estava puta por muitas coisas, como todo o rolo da foto e a briga de mais cedo. Também estava brava comigo mesma, por criar todos esses problemas achando que ficávamos melhores separados, quando tudo que eu queria era ficar com ele.
- Cala a boca, Lanza! Você apanhou feio! – Isadora exclamou e ele tirou a cabeça do meu ombro e apoiou na janela.
Pude, enfim, respirar.
- Se vocês quiserem, podem ir para minha casa. – sugeri. – Minha mãe viajou.
- É uma boa. – Júlia disse, se virando para trás. – Lanza, tem certeza que não quebrou nada?
- Tenho. Eu estou bem.
Seguimos até minha casa só fazendo pequenos comentários, e quando chegamos, agradeci aos céus por poder ficar longe de Lanza.
Pelo menos foi o que eu achei que aconteceria.
- Por que eu? – perguntei, indignada. – Por que não o Thomas? Ou o Koba?
- Primeiro, ele está assim porque foi te defender. Segundo, Koba e Thomas são homens e não podem manchar a imagem cuidando de outro homem. Terceiro, - Isadora ia listando os motivos nos dedos da mão. – eu sei que você quer.
Mostrei o dedo do meio para ela e peguei o estojo de primeiros socorros e uma toalha úmida em cima de mesa. Saí da cozinha pisando duro e subi as escadas do mesmo jeito. Parei na maçaneta da porta do meu quarto.
Abri-a lentamente e encontrei Lanza sentado na minha escrivaninha, com a cabeça baixa.
- O que você está fazendo? – perguntei, e ele deu um pulo na cadeira. Olhou para mim todo ensaguentado e puxou um caderninho rosa e lilás que eu não via há uns 3 anos e o colocou perto dos seus olhos. Leu:
- “Querido diário. Hoje eu fiz 11 anos e uma coisa péssima aconteceu. O imbecil do Koba e o imbecil do Pe Lu, na hora da saída, roubaram a minha mala e escreveram ‘Parabéns Quatro-Olhos‘ em branquinho nela. Mas o pior de tudo não foi que Thomas viu e não conseguia parar de rir, nem foi Pe Lu mostrando para todos. Na verdade, o pior de tudo foi que Lanza viu o que os meninos estavam fazendo a parecia ter ficado bravo. Pegou minha mala dos meninos e veio até mim. E quando pensei que ele iria me devolver a mala, ele sorriu daquele jeito que fez metade das garotas da escola se apaixonarem – inclusive eu – e exclamou: “Feliz aniversário Quatro-Olhos!”. Depois disso, jogou todo meu material no chão, a mala nos meus pés e saiu andando, para rir com os amigos idiotas. Eu queria sair correndo dali e chorar, mas...”
- CHEGA! – berrei, pegando meu antigo diário das suas mãos. Ele gargalhou, mostrando todos os dentes de um jeito lindo, e jogou os cabelos para trás. – Quem te deu o direito de mexer nas minhas coisas?
- Sabe que você ficava uma graça de óculos? O que fez com eles, afinal? – perguntou, ignorando minha pergunta. Joguei o pano molhado nele, que soltou outra de suas risadas irresistíveis e a passou no rosto, enquanto contiuava a falar: - A sua expressão naquele dia foi impagável. Sério. O brilho nos seus olhos quando eu cheguei perto de você e...
- Pára com isso, Lanza. – pedi, me virando bruscamente. Já era muito ruim pensar no meu passado, quem dirá falar sobre ele com o cara que transformou minha pré-adolescência num inferno. – Eu sei que você não quer me magoar. Só está fazendo isso porque está bravo e, como sempre, seu orgulho comanda suas atitudes.
- Parece que temos isso em comum então. – ele respondeu, se levantando e jogando pano molhado com raiva em cima da minha cama.
- Não, porque ao contrário de você, toda atitude que eu tomo é pensando nos outros. E parece que sempre acabo me ferrando por isso. – respondi, apoiando-me na parede. Lanza olhou para mim com raiva.
- Claro, Victória! E o que eu fiz hoje foi por mim mesmo. Sabe como é, eu apanhei porque eu gosto! – ele disse, me prensando na parede com as pernas sem perceber. Sua voz saia tremida por ele estar se segurando para não gritar. – Eu desenvolvi algum tipo de masoquismo depois que fiquei com você!
- Pois é, e parece que eu tive algum tipo de retardo mental quando aceitei ficar com você! – piei, também me segurando para não gritar, minha voz saíndo umas 2 oitavas acima. Segurei sua camiseta com força e fiquei nas pontas dos pés, a raiva me dominando.
- Mas que coisa, não! – replicou, tirando minhas mãos da sua camiseta e as prensando na parece atrás de mim. Ele se encostou em mim e eu escorreguei pela parede, voltando a pousar os pés no chão. – Parece que muita coisa mudou depois que essa palhaçada começou!
- Palhaçada! – disse, esganiçada. Ele aproximou seu rosto do meu e segurou mais forte as minhas mãos. – Se tem algum palhaço aqui é você!
- Vai dizer que você não ama o palhaço? – perguntou, o maxilar se destacando de raiva.
- Como você é prepotente! – o acusei.
- Diz a verdade, Victória. – ele exclamou, mas algo na sua voz soou como um pedido. - Admite que você é louca por mim desde que me conheceu, na quadra de basquete! Que você não ficou toda envergonhada quando caiu na minha frente aquele dia, e que você mudou todo o seu jeito e seu estilo só para poder ficar comigo!
- Eu mudei meu jeito e meu estilo só para poder ter o gosto de ter caras como você me desejando e eu não querer nenhum deles! – respondi, cuspindo cada palavra com ódio por lembrar de tudo aquilo.
- É, mas você não foi muito bem sucedida! – ele exclamou, me prensando mais ainda na parede. – Porque você se apaixonou novamente por mim! E sabe disso!
- Não, Lanza. Pra falar a verdade, eu te od... – ia dizer, mas fui interrompida por seus lábios quentes que se grudaram aos meus bruscamente.

Lanza fala:

Realmente, pra conseguir me segurar até aquele ponto, eu TENHO que ser foda.
Se eu não sou foda, quem me ajudou a agüentar, até aquele exato momento, é.
Victória, no começo, tentou se livrar das minhas mãos apertadas em seus pulsos, mas depois de algum tempo desistiu. Assim como no começo relutou em me beijar de volta, mas desistiu disso também.
O beijo foi ofegante e todo descompasado, mas pela abstinência que eu estava, nem me importei muito.
Mas ele foi curto também, porque alguns segundos depois, Thomas e Júlia abriram a porta.
- Opa! Foi mal! – Thomas disse, ao me ver segurando Victória na parede, minha boca grudada na dela. Victória me empurrou na mesma hora, limpando a boca com as costas da mão. Eu dei alguns passos para trás, meio tonto, e me apoiei na sua escrivaninha, ainda olhando com raiva para ela. – Não precisava parar, nós só viemos ver se vocês estavam bem, mas parece que sim...
- Você me deve uma barra de chocolate, D'avilla. – Júlia comentou, apontando para nós dois e fazendo Thomas rir de algum tipo de piada interna.
Não que eu não soubesse que eles tinham batido uma aposta.
Ela soltou uma risadinha abafada e Thomas a abraçou pelos ombros, prontos para saírem do quarto, se não fosse por Koba e Isadora, que subiam as escadas correndo e gritando, e quase derrubando Thomas e Júlia ao entrarem no quarto.
- Ganhei! – Isadora exclamou, ofegante.
- Ganhou nada, sua trapasseira, você correu antes! – Koba respondeu, puxando ela para junto de si e caindo com tudo na minha cama. – E aí, Lanza, tá melhor? – perguntou, enquanto Isadora se contorcia no seu colo por ele estar fazendo cócegas nela.
- Bem melhor! – Thomas respondeu por mim, irônico. Ele e Júlia entraram no quarto e se sentaram na cama – como pessoas normais, diferente de Isadora e Koba – e nos olharam com desconfiança, como se fôssemos nos pegar ali na frente deles a qualquer momento.
Não que eu não quisesse...
- Tô. Tô melhor sim...
- Bom, já que não temos absolutamente nada pra fazer, vamos voltar a decidir nossas férias. – Isadora sugeriu, e logo depois emendou, lançando um olhar assassino para mim e para Victória: - De um jeito civilizado. Pode ser?
- Bom, eu já disse que quero esquiar! – Victória respondeu.
- É. Eu também. – concordei, olhando para os meus tênis.
- Ok, mas onde? – Júlia perguntou, deitando no colo de Thomas.
- Suíça! – Koba gritou, assustando Isadora. Começou a pular na cama e falar repetidamente: – Suíça, Suíça, Suíça!
- Tá bom, macaquinho! – Isadora exclamou, puxando Koba pelo braço para ele parar de pular na cama. – Nós vamos para a Suíça!
- Eu vou voltar de lá obesa! – Júlia reclamou.
- Opa, então acho melhor irmos para outro lugar, e... – Thomas disse, tomando um tapa nos ombros de Júlia. – Brincadeira, amor, você sabe que eu te amo independente dos seus quilos a mais!
- Ahhhhhh! – suspiramos todos juntos, de brincadeira, e Júlia ficou de um estranho tom de rubi, sorrindo envergonhada.
- Mas eu vou te trair e tals... Sabe como é, né? – Thomas continuou, e Júlia logo se recuperou da repentina timidez e deu mais um tapa estalado nos ombros de dele.
- Trai pra você ver se não toma um pé bem dado na bunda! – disse, fazendo uma careta.
- Não tem problema não, Jú! – Koba se enfiou no meio da conversa, cutucando a bunda de Thomas com os pés. – O Thomas aqui adora um pé na bunda!
- Vai se foder, macaquinho! – Thomas xingou, chutando o pé de Koba.
Continuamos a decidir nossa viagem – na verdade, só ficamos nos zoando e não decidimos porra nenhuma – e eu continuei a ignorar Victória, que fazia pequenos comentários e ria das piadinhas de Koba. Até que o celular dele tocou.
- Alô?... Tá, nós já estamos indo. O Lanza apanhou! HAHAHAHA!... É, de novo! HAHAHAHA!... Ok, dude, falou!
- Imbecil. – murmurei, dando um soco no ombro de Koba e caminhando até a porta, feliz por finalmente estar saindo do quarto de Victória. Mas quando cheguei à porta, fui atropelado por Thomas, Júlia, Koba e Isadora que voaram na minha frente e em um movimento ninja, saíram do quarto e me trancaram lá dentro...
... Com Victória.

Victória fala:

- Ah não! Pára de brincadeira, seus putos! – eu gritei, correndo até a porta. No caminho, quase derrubei Lanza.
- Vocês dois só saem daí quando entrarem num acordo. Ou voltarem. Sei lá... – a voz abafada de Isadora veio em resposta.
- Ah, vocês só podem estar me zoando! – gritei, antes de dar um chute na porta. Do outro lado, eles riam sem parar.
Abaixei a cabeça e respirei fundo. Mais calma, me virei para Lanza – que estava apoiado novamente na minha escrivaninha – e cruzei meu olhar com o dele, que sorriu.
- Por que você está com essa cara de idiota? – perguntei, cruzando meus braços na frente do corpo.
- Porque você fica uma gracinha birrenta! – ele respondeu, e eu senti meu rosto queimar. Sentei-me na cama emburrada e ouvi Lanza fazer “ts!" com a boca. Logo depois, vi um par de tênis se aproximarem da minha cama e ele se afundou ao meu lado.
- Olha, eu sempre ignoro meu orgulho para correr atrás de você, assim como eu estou fazendo agora. – disse, enfiando as duas mãos no meio das pernas e se curvando para frente, os cabelos caindo nos olhos de um jeito que dava vontade de apertar. – Mas acho que dessa vez é por um bem maior.
- Como assim? – perguntei, olhando para seus olhos confusos. Ele deu um sorriso torto – aquele que eu adorava – e me explicou:
- Eu proponho uma trégua.
- Que tipo de trégua?
- Proponho que sejamos amigos, ou pelo menos nos suportemos sem brigar. – ele respondeu, entortando a sobrancelha. – Sabe como é, se nossos amigos resolveram formar 3 casais, nós temos que lidar com isso.
- É... – murmurei, triste pelo o que ele propôs e feliz por finalmente estar falando com ele normalmente, sem nenhum tipo de briga idiota. – Acho que é melhor assim.
- Então... – ele exclamou, levantando a mão. – Fechado, brother!
Olhei para o seu braço estendido e bati com minha mão na sua, exatamente como bons e velhos amigos.
- Fechado, brother!

Lanza fala:

Acordei com a merda do despertador berrando no meu ouvido, e se não fosse pelo Offspring, eu jogaria ele longe.
- Caralho de despertador do capeta! – exclamei, dando um tapa para desligá-lo.
Pulei da cama e dei de cara com Billie Joe, em um pôster na parede do meu quarto. Lembrei-me que encontraríamos o produtor mais procurado do Estado mais tarde e fiquei um pouco mais animado.
Entrei no chuveiro rindo sozinho, lembrando de Pe Lu contando que Maria Eduarda quase engolira a aliança e que sua mãe – incrivelmente – havia gostado da menina.
Quando saí do banheiro, me sentia bem melhor.
Vesti minha calça jeans preta e um moletom da Hurley azul-marinho. Enfiei uma touca de qualquer jeito na cabeça, passei perfume e saí do quarto. Desci as escadas rapidamente e pulei os 3 últimos degraus. Quando aterrisei no chão, vi Pe Lu e Harry parados na frente do pc.
- Dudes, vocês estão virando umas bichas fofoqueiras, eim? – exclamei, ignorando o que eles viam na tela e caminhando até a cozinha. Lá, peguei qualquer coisa para comer e voltei para a sala. Os dois continuavam na frente do pc como estátuas.
Ok. Agora a curiosidade tinha tomado conta de mim.
- O que vocês estão vendo? – perguntei, me enfiando no meio dos dois.
Na foto, Thomas abraçava Victória pela cintura e ela retribuia, com os braços em volta do seu pescoço. Só mostrava o rosto de Thomas, e ele estava com os olhos fechados. O rosto de Victória estava afundado nos seus ombros.
Embaixo da foto, uma coisa inédita.
Um texto.
“Thomas e Victória em um momento, hum... Casal? Mas, espera aí, Thomas não namora Júlia de aliança e tudo? E Victória não está em um triângulo amoroso com o John e Lanza?
Hum... Estranho...
Fontes confiáveis alegam que os dois conversavam aos sussurros no canto do Barney's enquanto, pasmem, Júlia, John e Lanza estavam sentandos ali ao lado!
Sempre achei que Victória fosse do tipo apaixonada fervorosa, mas pegar o namorado da amiga já é feio, não é?
Por falar nisso, alguém ficou sabendo da briga de ontem, no Barney's? Me contaram que a coisa foi feia, e que Lanza saiu sangrando. Pelo o que eu soube, Victória e John estavam brigando quando ele a ofendeu; então, fera Lanza Reis saiu em sua desefa. Só que ele não sabia que os amiguinhos ogros de John iriam partir pra cima, então começou apanhando feio. Mas então, Thomas e Koba, para salvar a pátria, entraram no meio e salvaram o dia.
Ai, que Gay!
Bem, eu sei que todos querem saber onde estavam Pe Lu e Maria Eduarda enquanto tudo isso acontecia, mas não posso confirmar nada. Só acho que hoje na escola vamos ter outro casal aliançado.
Será?
Bom, esse foi só um post inicial, para mostrar a todos que o Conte Seu Babado está sob nova direção. Quem tiver algum palpite de quem eram os antigos donos – sim, antigos, pois eram homens – comentem. Talvez eu conte, talvez eu não conte, depende só deles – ou dele. Mas uma coisa eu posso afirmar – é o maior babado do ANO!
Prometo que deixarei vocês todos atualizados sobre as 8 almas – Thomas, Pe Lu, Koba, Lanza, Júlia, Maria Eduarda, Isadora e Victória – que vocês mais amam odiar! E alguns coadjuvantes, claro...
Beijomeliga Colégio Norbert.”
- Será que a Júlia já leu isso? – perguntei. Thomas balançou a cabeça meio atordoado e Koba desceu as escadas berrando:
- Entrem no blog! É sobre a gente e... Ah... – ele parou de correr como um hipopótamo na escada. – Vocês já leram...
- Pior que eu só estava consolando a Vic por ter brigado com você! Eu não estava fazendo nada de mais! – Thomas argumentou, olhando para mim.
- Eu sei, dude, relaxa. – o tranqüilizei.
- Será que a Jú vai acreditar nessas idiotices? – Pe Lu perguntou, rodando a aliança novinha em folha no dedo. Mas que homem que usa aliança não tem essa mania? – Quer dizer, quem acredita nessas coisas?
- Só a escola inteira. – Koba respondeu.
- Valeu, Koba. Valeu mesmo. Animou meu dia! – Thomas ironizou, suspirando e se afundando no sofá. – O que eu faço agora?
- Liga pra ela! – sugeri.
- É, antes que ela... – Pe Lu tentou dizer, mas o celular de Harry começou a vibrar em cima da mesa. – Ligue.
- Opa. – Koba disse, entortando a boca.
Thomas caminhou até o celular como quem caminha para a cadeira elétrica e fez uma careta ao ver o nome no visor. Levou o aparelho vagarosamente à orelha e disse, baixinho:
- Alô?
Eu, Pe Lu e Koba nos entreolhamos.
- Ah, é você, Vic... – ele suspirou aliviado. Mas logo ficou tenso novamente. – Chorando? Por que ela está chorando?... Deixa eu falar com ela?... Vic, você explicou para ela o que aconteceu?... Se não é por isso, porque ela está chorando!?... Ai meu Deus! Passa o celular pra ela?... Jú!? Linda, por que você tá chorando?... Ah Jú, pára com isso! O que importa o que os outros vão pensar? O que importa é o que nós sabemos, e o que nós sabemos é que não aconteceu nada de mais, que a Vic é minha amiga e nada além disso. Mesmo porque, todo mundo sabe, embora eles tentem esconder, que Lanza é louco por ela e ela é louca por ele. – lancei um olhar vingador do futuro para ele, que ignorou e continuou falando: - Gata, por favor, não chora!... Tá bom, a gente se fala quando eu chegar na escola. Te amo, Jú, não esquece disso!... Beijo, tchau.
- Deixa eu ver se entendi. – disse, logo que ele desligou com a maior cara de cão sem dono. – Ela tá triste porque não quer que os outros falem de vocês pelas costas?
- É. – ele respondeu.
- E ela tá chorando por isso? – Koba perguntou.
- É.
- E ela pediu para a Vic ligar porque estava chorando tanto que não conseguia falar? – Pe Lu concluiu.
- Hum... É.
Silêncio.
- HAHAHAHAHAHAHAHA! – começamos a rir sem parar. Pe Lu até perdeu o fôlego.
- Velho, esse blog ainda vai nos render muitas risadas! – Koba comentou, limpando as lágrimas.
- Ou não. – respondi, ficando sério repentinamente, me lembrando de Victória.
- Vai, vamos logo pra escola que eu preciso consolar a patroa. – Thomas disse, se levantando.
- É, vamos logo que eu preciso encontrar a minha béstie! – disse do jeito mais gay possível, virando os olhos e fazendo os outros rirem.

Victória fala:

- Tá linda! – respondi a pergunta de Júlia, pelo o que parecia a vigésima segunda vez só pela manhã.
Ela havia dormido em casa e visto a foto e o post logo de manhã. E enquanto ela chorava, eu me remoía de arrependimento, por não ter acreditado em Lanza. Porque, bem, depois daquela foto eu meio que passei a acreditar nele.
Sabe como é. Ele não colocaria uma foto do amigo no blog.
- Coitado do meu gatinho! – ela reclamou, se remexendo no banco ao meu lado. – Ele não fez nada e é obrigado a me ouvir chorando por idiotices!
- Tudo bem, Jú, ele já devia saber que para namorar uma cheerleader tem que agüentar seus acessos de choro.
- Já sei! – ela exclamou, toda animada, muito diferente da Júlia histérica de mais cedo. – Pára no shopping que eu vou comprar alguma coisa pra dar de presente para ele!
- Não viaja, cabeção, faltam só 5 minutos para o sinal bater! – exclamei, tirando as mãos do volante e dando um tapa na testa cheia de pó dela.
- Ah, é mesmo... – ela suspirou.
Voei até a escola com a Pajero da minha mãe e respirei fundo ao entrar nela, vendo Lanza com homas, Pe Lu, Maria Eduarda, Isadora e Koba. Andamos até eles e eu quase vomitei quando Thomas deu um beijo desentupidor de pias em Júlia ali no meio do pátio.
- Eca! – alguém disse ao meu lado.
Alguém que eu sabia muito bem quem.
- Vai dizer que você não gosta? – perguntei para Lanza, que sorriu.
Estava tentando agir como uma amiga. O que foi meio difícil, levando em consideração que Lanza estava mais gostoso que nunca com aquele moletom da Hurley e a calça mais justa.
- Com o Thomas? Acho que não...
- É, realmente, não ia pegar muito bem... – respondi, puxando as mangas do meu moletom da GAP e chutando o chão, como uma criancinha tímida.
Lanza sorriu com o canto dos lábios e eu iria dizer algo quando seu celular começou a berrar She do Green Day.
- Opa, agüenta aí, Vic. – ele pediu, como um bom e velho amigo. Colocou o celular na orelha: - Alô?
Tentei ignorar a conversa dele ao celular, me enfiando no meio da conversa de Maria Eduarda, Pe Lu, Isadora e Koba, mas não pude evitar ouvir algumas coisas.
Ok. Eu ouvi tudo.
- Bella, nossa, oi! – ouvi ele exclamar. – Pensei que você não fosse mais me ligar.. É, eu fui um idiota, me desculpe... Não, é uma longa história, você não iria querer saber... Sei lá, você quer sair hoje? Nós podiamos terminar o que começamos!... Ok, eu te pego as 20h!... Beijo, Bella, até mais tarde.
Quando ele desligou, meu sangue estava todo na cabeça e eu queria chorar.
Muito.
- E aí, o que eu perdi?
“Vai perder os dentes daqui a pouco!” pensei. Trinquei os dentes para não dizer tudo que estava com vontade.
Sabe como é, não é muito legal dizer o que se passa na sua cabeça quando você ouve o cara que você gosta chavecar outra no telefone.
- Nada de mais. Então, gente, nós... – Maria Eduarda tentou dizer, mas eu a cortei, sendo mau-sucedida no quesito fechar a boca.
- Quem era no telefone?
- Hum... – ele murmurou, surpreso com a pergunta. – Uma amiga.
- E o que ela queria? – perguntei, não me segurando. Os outros se entreolharam e Koba assoviou baixinho.
- Ela queria sair comigo. – Lanza disse, arqueando a sobrancelha. – Por quê?
- Não, nada! – respondi, trincando os dentes novamente. – Só para saber. Eu me preocupo com os meus amigos! – dei um tapa meio – meio? – forte no seu ombro e ele sorriu torto. Como resposta, me deu um empurrão amigável – amigável? – e respondeu:
- Claro, amigona!
O sinal bateu e eu me virei, dando com os cabelos na cara dele. Maria Eduarda veio atrás de mim, com Júlia e Isadora conversando logo atrás. - Mas eu me mordo de ciúúúúmes! – ela brincou, e eu dei um empurrão de leve nos seus ombros.
- Vai se ferrar. E deixa eu ver esse anel brilhante no seu dedo! – exclamei, pegando a mão direita dela, onde a aliança prateada reluzia. Puxei o anel de seu dedo e li o que estava gravado dentro. All About You – Duda e Pe Lu. – Que lindo, Duda! Vocês usaram a música do... – parei de falar, porque meu coração se apertou demais para continuar.
- O Lanza disse que tudo bem. – Maria Eduarda disse, simplificando as coisas. – Pe Lu não conseguiu falar com você e...
- Tudo bem, Duda. – disse, respirando fundo. – Firmeza na Teresa!
- Vic e suas gírias. – Isadora disse, me envolvendo com os braços.
- Qualquer dia desses você vai se arrepender de tratar o Lanza Reis do jeito que você trata e, sinto te dizer, Vic, vai ser tarde demais. – Júlia aconselhou.
Continuamos andando pelos corredores da escola. Quando passamos por um grupo de meninas do primeiro ano, ouvi uma conversa pela metade, mas ouvi o suficiente para saber de quem falavam.
- ... Acho que essa nova pessoa é a própria Victória querendo se promover... – uma menina baixinha e gorducha disse para outra mais alta e desinteressada na conversa, observando Josh que conversava com algumas meninas de longe. Quando olhou para a amiga, viu que eu estava parada atrás das duas e deu um beliscão na menina, que automaticamente olhou para trás e arregalou os olhos ao me ver.
Vaca!
- Claro, porque eu consigo abraçar o Thomas ao mesmo tempo que tiro uma foto e posto no dia seguinte, enquanto minha amiga e namorada dele dorme em casa. Realmente... – disse. Maria Eduarda, Isadora e Júlia riam baixinho e escondiam o rosto para não dar muito na cara que rachavam o bico. A gorduchinha fechou a cara. – Se eu fizesse um livro com todas as merdas que pirralhas como você inventam de mim, acho que estaria bem rica...
Saí deslizando pelo corredor, sentindo que poderia estrangular qualquer idiota que visse pela frente.
E o que eu vejo pela frente? O idiota do John. Com o gostoso do Josh.
- Olha se não é a sumida! – Josh disse, dando um peteleco no meu nariz. Ele sempre fora meio no mundo da lua, então acho que não tinha percebido que eu não andava mais com eles há muito tempo.
- Oi, Josh. – respondi, animada. Adorava Josh, e seus olhos verde-esmelradas. John virou os olhos e foi conversar com umas meninas da oitava série, nos deixando sozinhas com Josh.
- Oi, meninas! – ele disse, olhando espantado para as alianças das meninas. – Estão namorado? Com quem?
- Hum. Você não conhece. – Maria Eduarda disse, desviando do assunto. – Mas e aí, como anda a vida?
- Bem, bem... – ele respondeu, passando a mão pelos cabelos cortados estilo militar, como sempre fazia quando costumava ter cabelo. – Cortei o cabelo e, acho que é isso...
- Ficou muito bem. – piei, dando uma piscadinha para ele, que sorriu.
- Valeu, Vic.
Ficamos – nós 5 – conversando até o sinal bater, o que não demorou muito. Isadora saiu correndo para levar uma carta que tinha escrito para Koba e Maria Eduarda e Júlia entraram na sala, com sono demais para tentar outra coisa, deixando eu e Josh sozinhos.
- Mas me diz, Vic, eu sei que o John vai ficar puto por eu estar perguntando isso, - ele realmente não sabia de nada que estava rolando na escola. E isso era, no mínimo, fofo. – mas quando você vai, finalmente, sair comigo?
Claro que eu ia recusar. Do jeito que eu estava enrolada, aceitar sair com um galinha, melhor amigo de John e, hum, que odiava Lanza – e o ódio era mútuo – só me traria problemas.
“Mas... E Bella?” pensei.
Por que Lanza poderia sair com quem quisesse e eu não? Por que ele saía com qualquer uma e eu tinha que ficar em casa me lamentando?
Então olhei muito bem para Josh. Alto, ombros largos, musculoso, cabelos no estilo militar, olhos verdes e sinceros.
Por que não?
- Quando você me chamar. – disse por fim. E me arrependi logo depois. Mas, hum, acho que não tinha mais volta. Ou tinha?
- Hoje? Cinema? – ele perguntou.
- Claro. – disse, me afundando de vez. – Me pega às 20h?
- Ok. Às 20h será.
Saí pelo corredor e entrei na sala, escorregando na cadeira e enfiando a cara no fichário.
“Péssima idéia, Victória” pensei.
Mas já era tarde demais.

Capítulo 13 – Declarações.

Lanza fala:

- Vai, Koba! Já são 14:30, nós temos meia hora! – gritei, esmurrando a porta. Koba gritou algo inaudível de dentro do banheiro e saiu com uma toalha enrolada nas pernas, pingando água. - Ótimo. Você tem 2 minutos.
2 minutos depois estávamos na sala, colocando os intrumentos nos ombros.
- Ok, então nós vamos tocar Five Colours In Her Hair, That Girl, She Left Me e Obviously? – perguntei, anotando mentalmente o que acabara de dizer.
- Ainda não sei porquê não tocamos Star Girl e All About You... – Pe Lu disse, parecendo aborrecido.
- Porque nós decidimos que algumas teriam que ficar de fora, e as escolhidas são essas, se lembra? – perguntei, olhando fixamente para ele.
Eu estava bravo. E mandão. Assumo.
Mas aquele era eu. Incrivelmente chato em momentos como aqueles.
- Ok. Então vamos logo. – Harry disse, tentando acalmar um pouco os nossos ânimos. Saímos pela porta e fomos até o carro dele. Colocamos os instrumentos no porta-malas – não era necessária a bateria, como a secretária do renomado produtor Bob Williams havia nos avisado mais cedo – e entramos no carro.
Thomas tremia tanto que quase não conseguiu ligá-lo.
- Relaxa, Lanza, vai dar tudo certo. – Koba tentou me tranqüilizar, mas eu estava nervoso demais para pensar em tentar me acalmar.
O caminho até o estúdio foi lento e rápido ao mesmo tempo. Eu passei o trajeto inteiro tentando não vomitar.
- Finalmente! – suspirei, respirando fundo ao sair do carro, mesmo ele sendo conversível.
- Não vai vomitar no cara, eim Lanza! – Thomas brincou, me dando um tapinha nos ombros.
- Nem brinca, dude! – Pe Lu pediu, com o rosto meio... Verde.
- McJump! – um gordinho que estava parado na porta com um charuto nas mãos exclamou. Ele desceu as escadas com passinhos curtos e suava no buço, [N/A: Como meu ídolo, Marcelo Adnet! ;D] fazendo com que seu bigode estilo cafajeste ficasse meio molhado. Estava enfiado em um terno cinza escuro apertado na barriga, fazendo com que os botões quase saltassem.
Ele se aproximou de nós e estendeu a mão gordinha para mim.
- Você deve ser Pe Lu!
- Não, na verdade eu sou Lanza e... – respondi, e ele pareceu confuso. Então somente chacoalhou a cabeça e continuou a falar.
- Bom, vocês já devem saber quem eu sou, mas eu vou falar mesmo assim. Sou Bob Williams, - ele se apresentou, e continuou: - e vamos logo porque meu tempo é precioso e eu tenho muitos sucessos para lançar.
Ele se virou e andou até a porta do prédio. Nós ficamos paralisados, nos entreolhando.
Na verdade, eu, Koba e Thomas nos entreolhávamos. Pe Lu fazia de tudo para não rir.
- Podem me seguir, garotos! – ele exclamou.
- Já estamos indo, Sr. Williams! Só vamos pegar os instrumentos! – eu disse, acenando para ele.
- Tudo bem então. Estou esperando no saguão.
Esperamos ele entrar no prédio para começar a rir.
Cara, qual é, McJump!?
- Vai, chega de rir, vamos logo porque se eu não for agora juro que vou vomitar em cima de você, Koba. – disse para ele, que era o mais próximo de mim.
- Ok, vamos logo. Eu não quero encontrar minha gata cheirando vômito. – Koba concordou.
O prédio por dentro era tão majestoso quanto por fora. O chão era todo de mármore e as paredes todas espelhadas. Atrás de um balcão de madeira clara, uma mulher de no máximo 20 anos, loira platinada e extremamente gostosa, - pelo menos Bob Williams tinha bom gosto em escolher as secretárias – falava rapidamente ao telefone. Quando nos aproximamos, ela nos olhou de cima a baixo e, com a voz enojada, perguntou:
- Pois não?
- Então, nós viemos tocar para o Sr. Williams. Ele estava aqui até agora, mas não estamos o vendo em nenhum lugar. – Pe Lu respondeu, olhando em volta.
- Para falar com o Sr. Williams vocês tem que ter um horário. – ela disse, entediada, como se falasse aquilo a todo momento.
- Mas nós temos hora marcada! Ele acabou de descer aqui para chamar a gente! – eu disse, eufórico.
- Desculpe, mas não posso fazer nada.
- Mary, pare de irritar meus novos astros! – Bob Williams exclamou, saindo do banheiro do saguão. – Eles estão comigo. Thomas, vamos? – ele chamou Koba com as mãos.
Andamos atrás deles e Koba disse, baixinho:
- Olha só a minha cara de Thomas. – depois levantou a sobrancelha e nos olhou de um jeito engraçado.
- Sabe onde eu vou enfiar essa baqueta? – Thomas perguntou, girando as baquetas nos dedos. Eu e Pe Lu rimos baixinhos e Koba voltou a caminhar atrás de Bob, que falava ao celular aos berros.
Chegamos ao último andar do prédio abestalhados pelo tamanho do estúdio. Tanto que quase fomos empurrados para dentro dele pelo ajudante de Bob, um tal de Josy.
Que tipo de nome era aquele? Josy não era nome de mulher?
- Vamos lá, podem começar. – ele ordenou ao microfone, do outro lado do espelho.
- Hum. – murmurei ao microfone. – Essa se chama, hum, Five Colours In Her Hair.
Começamos a tocar empolgados. Porque, bem, aquela era a única coisa que realmente sabíamos fazer. Quando acabamos o primeiro refrão, a voz entediada de Josy ecoou no estúdio:
- Ok. Podem tocar a próxima.
Olhei para Thomas, que já girava as baquetas nervosamente.
- Ok. Bem, essa se chama That Girl. – disse, e começamos a tocar novamente. Foi exatamente como na primeira, depois do primeiro refrão, Josy pediu a próxima.
Assim tocamos She Left Me e Obviously. E, ao acabar, ficamos em silêncio, nos olhando. Até que a voz exclamou, nos assustando:
- O que estão esperando? Saiam daí, Bob quer falar com vocês.
Saímos do estúdio com as mãos nos bolsos. Eu sabia o que os guys estavam pensando. Porque eles pensavam a mesma coisa que eu. “Merda, não conseguimos.”
Bob falava ao telefone tão rápido que não podíamos entender uma palavra do que falava. Quando terminou, nos olhou sério e perguntou:
- Vocês têm algum empresário?
- Hum... Não. – Koba respondeu.
- Problema resolvido. Patrick Fedelso [N/A: Homenagem ao Luluzinho! Te amo!]. Ele irá entrar em contato com vocês amanhã de noite, pois está voltando de uma viagem a Austrália.
Ficamos em silêncio, não entendo o que estava acontecendo.
- Bem, vou colocar essa menina colorida para tocar nas rádios assim que vocês as gravarem. O que vocês farão, hum... – ele enrolou o bigode nos dedos. – Agora.
Nós ficamos mudos, sem saber o que falar. Bob alisou o bigode mais uma vez e ficou nos olhando sério.
- Isso é, tipo, sério? – perguntei enfim.
- Não! É brincadeira! – ele exclamou, me dando um empurrão. Começou a gargalhar e nós rimos juntos, para tentar sermos agradáveis. Mas logo ele parou de rir e exclamou, sério: - Claro que é verdade, suas antas!
Depois disso, ele se virou e foi embora, sem dizer mais nada.
Olhamos para Josy. Ele nos olhou, mal-humorado. Ficamos nos encarando por um bom tempo até que ele berrou, fazendo nós 4 pularmos:
- Qual é, perderam o cu na minha cara? Vamos gravar!

Victória fala:

- Afinal, Vic, você está nervosa pelo encontro ou pelos meninos? – Maria Eduarda perguntou, tirando minha concentração do celular de Júlia.
- Pelo encontro, claro né, praga! – respondi, voltando a passar lápis nos olhos.
- Então porque não encara o próprio celular? – Isadora me provocou.
- Ah, não enche, Isa! – exclamei, jogando uma piranha de cabelos nela.
As 3 estavam em casa me “ajudando” para o encontro com Josh. Mas, na verdade, elas estavam lá porque não tinham nada para fazer enquanto os amados estavam na produtora. Só que eu simplesmente adorava ficar falando besteira com elas, então estava mais do que perfeito.
Isso meio que tirava meus pensamentos de Lanza.
- Meu Deus, quanta agressividade! – ela disse, jogando a piranha de volta em mim. Depois virou-se para Maria Eduarda e Júlia, que olhavam sonhadoras para as alianças. – Dá pra vocês duas pararem de babar nesses anéis idiotas?
- Ah, tá bravinha porque quer um igual! – Maria Eduarda brincou.
- Relaxa, Isa, você vai ganhar uma do Koba e nós seremos namoradas de Rock Stars! – Júlia completou.
- Nós vírgula. – discordei, terminando de passar lápis nos olhos e me sentando entre Maria Eduarda e Júlia na cama. – Vocês.
- Vai me dizer que se o Lanza ficar famoso você não casa com ele? – Isadora perguntou, piscando para mim.
- Quem vê pensa que ela já não casa com ele sendo pobre, feio e sem dente. – Júlia disse, rindo.
- Bom, acho que feio e sem dente dá pra aturar, mas pobre não. – brinquei, mordendo a língua. – Credo, gente, se alguém me ouve dizer isso...
Mas o celular interrompeu meu raciocínio, vibrando na mesa. E todas nós pulamos para atender.
- É o Josh! – Júlia gritou.
- Cala boca, Júlia, é o Lanza! – Isadora gritou ao mesmo tempo.
- Nada a ver, é o Pe Lu! – Maria Eduarda gritou com as duas.
- Calem a boca! É só minha mãe! – exclamei, rindo e lendo o visor do meu iPhone. Todas voltaram para a cama decepcionadas. – Por que o Pe Lu ligaria no meu celular? – perguntei para Maria Eduarda.
- Porque eu esqueci o meu em casa. – Maria Eduarda respondeu, dando de ombros.
- Alô?... Oi, mãe! Não, tá tudo de boa na lagoa... E como está aí no... Onde você tá mesmo?... Isso, aí na Escócia!?... Que bom. Mas fale, por que ligou?... Uau! Dois meses!?... Não, tudo bem... Aham... Aham... Mãe, tô indo pra escolas todos os dias, que chatice! Você sabe como Rosa é, mesmo se eu quisesse, não conseguiria ficar o dia inteiro ouvindo suas cantorias em sei lá que língua!... HAHAHAHA, tá bom mãe. Não me esquece, eim!... Beijão, até de noite!... Também te amo!... Tchau!
- O que aconteceu? – Júlia foi a primeira a perguntar.
- Nada demais. Ela ligou para avisar que vai ter que ficar mais dois meses na Escócia. – respondi.
- Cara, você tem tanta sorte! – Maria Eduarda reclamou. – Dois meses sem o nhé nhé nhé da mãe?
- Sorte. – Isadora completou.
- Sorte nada! Rosa é mais chata que todas as nossas mães juntas! – argumentei. – Mas mesmo assim, eu não a trocaria por nada nesse mundo!
- Ah, que coisa mais gay! – Isadora suspirou.
- Ok, eu já estou pronta há séculos! – reclamei, me levantando. – Cadê ele?
- Deve estar chegando. – Maria Eduarda respondeu. – Vic, abaixa esse vestido menina, que indecência!
Olhei para baixo e vi que meu vestido estava preso na calcinha. Ri e puxei-o para baixo, e meu celular novamente tocou. Todas correram para atender, gritando novamente ao mesmo tempo.
- É sua mãe!
- É o Pe Lu!
- É o Lanza!
- NÃO! – gritei por cima delas, rindo. – Na verdade, agora é Josh. Alô?... Ok, tô descendo.
Desliguei o celular, enfiando-o de qualquer jeito na bolsa.
- Vamos descer com você. Acho que vamos dar um pulo na casa da Maria Eduarda para mofar um pouquinho. – Júlia reclamou.
- Quem mandou terem namorados ocupados? – perguntei, piscando para elas. – Bom, vamos indo?
Descemos as escadas rindo e falando besteiras. E quando abri a porta, quase fui atingida por um buquê imenso de rosas.
- Graças a Deus é você! – Josh exclamou do outro lado das rosas. As meninas atrás de mim suspiraram e fizeram “ahhh!”. – Fiquei com medo de, sei lá, eu desse com o buquê na cara do seu pai ou algo do tipo.
Peguei as rosas e ignorei o comentário, como sempre fazia quando comentavam do meu pai. Josh não tinha a obrigação de saber que éramos brigados. Ninguém tinha. Embora alguém soubesse. E esse alguém não saía da minha cabeça até naquele momento.
“Merda, Victória, pára de pensar no imbecil do Lanza Reis!” pensei.
- São lindas, Josh! Obrigada! – disse, chacoalhando a cabeça para pensar em outra coisa.
- Bom, nós estamos indo. Tchauzinho para os que ficam! – Isadora disse, dando um peteleco no nariz de Josh ao passar por ele. Maria Eduarda e Júlia fizeram o mesmo e alguns segundos depois, estavam disparando pela rua no carro de Maria Eduarda.
- E é assim que você conquista suas vítimas? – perguntei, cheirando o buquê.
- Não, são só para você. – ele respondeu, sorrindo de um jeito meigo.
- Bom, agüenta aí que eu vou lá dentro colocá-las em um vaso.
- Claro.
Entrei e voei para a cozinha. Rosa ficou toda empolgada e as colocou em um vaso para mim. Depois beijou minha testa e me pediu juízo. Disse para ela que tentaria e saí da cozinha ouvindo os pais nossos dela.
Adorava deixá-la preocupada.
- Demorei? – perguntei, e ele se desencostou da parede.
Ele usava uma camiseta polo branca e calça jeans escuras. Nos pés, um tênis Puma de camurça preto.
- Não, sem problemas, gata. Vamos?
- Vamos.
Caminhamos em silêncio até o Porshe prata dele, e ele abriu a porta do passageiro para mim. Deslizei para dentro do carro e ele fez o mesmo do outro lado. Entrou e ligou o rádio no último volume, quase estourando minha cabeça com a música no estilo yo-shizzel my-wizzel nigga mother-fucker.
- Aperte os sintos. – ele me advertiu. Ri e coloquei os sintos. Mas nunca pensei que ele estivesse falando sério.
Josh dirigia como um louco. Costurava tudo e todos, tirava as mãos do volante para mudar de rádio e quase sempre se distraía da pista para conversar comigo. Quando chegamos ao shopping, tive vontade de beijar o chão.
Mas não beijei. Sabe como é, ia pegar meio mal. Tipo: “Olha, mamãe, tem uma menina beijando o chão e eu consigo ver sua calcinha!”
Muito estranho.
- E aí, quer assistir o quê? – ele perguntou.
- Estou louca para assistir Jogo de Amor em Las Vegas. Pode ser? – sugeri, e ele assentiu com a cabeça. Depois me abraçou pelos ombros, se dirigindo a bilheteria. Comprou nossas entradas e nós ficamos ali, porque o filme começaria em 10 minutos.
Josh começou a narrar um jogo de futebol que assistira mais cedo e eu tentava ao máximo ouvir, mas a única coisa que conseguia pensar era: chato. Chato. CHATO!
- Então ele fez o cruzamento e... – ele contava quando ouvimos um barulhão. Olhamos instantaneamente para a origem do barulho e quem vimos lá?
Isso mesmo que você deve estar pensando.
Lanza e sua mais nova garota.

Lanza fala:

- O que quer assistir? – perguntei para Bella, que arrumava a barra do shorts de cetim prata. Ela parou de mexer nele e fixou os olhos verdes nos meus.
- Você quem sabe. – respondeu.
- O que acha de Jogo de Amor em Las Vegas? – sugeri.
- Ótimo.
Aquele era o tipo de filme que Victória encheria o saco de todos para assistir.
Merda. Ela não saía da minha cabeça.
Virei meus olhos para ver os horários das sessões e quase derrubei uma velhinha com os netos ao ver ninguém menos que Victória parada perto da bilheteria. Com Josh.
Espera aí. Desde quando ela e o aspirante a Snoppy Dog branco estavam saindo?
- Putaqueopariu. – sussurrei, pegando Bella pelo braço e a puxando para trás de um pôster gigante do High School Musical.
- Ai, Lanza! O que foi que te deu? – ela perguntou, se soltando das minhas mãos.
- Hum... – tentei pensar em alguma maneira de sair dali, mas quanto mais Victória se aproximava, mais Bella tentava sair de trás do pôster, então a única coisa que consegui improvisar foi: - Não consigo esperar até o filme!
E a beijei.
Até aí, meu plano estava correndo bem. Depois que Victória saísse dali, iria com Bella para seu apartamento, alegando não estar com vontade de assistir ao filme, e não teria que ver o casal de pombinhos e nem pensar nos dois juntos. Sabe como é, era meio difícil agir como amigo com Victória enquanto ela estava abraçadinha com um cover de Eminem. E, bem, depois que Bob Williams dissera que colocaria uma música nossa nas rádios, eu realmente pensei que a sorte estaria ao meu lado.
Mas vi que não.
Não quando se tratava de Victória Hackmann.
E percebi isso depois que Bella meio que se impolgou com o beijo e derrubou o pôster gigante do High School Musical bem em cima de nós dois.
- Merda! – ela exclamou, embaixo do plástico.
- Meu Deus, vocês estão bem? – um segurança perguntou, tirando o pôster de nós dois. Olhei para o lado e Victória observava a cena curiosa. Mas ela ainda não tinha me visto, então eu pulei para trás do segurança e ele exclamou: - Menino, o que você está fazendo?
- Nada, finja que eu não estou aqui! – pedi, segurando na sua cintura e indo de um lado para o outro com ele como escudo para que Victória não me visse.
- Lanza, você pirou ou o quê? – Bella perguntou, aflita. Me puxou pelos braços e o segurança me olhou com raiva. Olhei novamente para o lado e fechei os olhos com raiva ao perceber que Victória já me vira. Bati com a mão na testa e bufei. – Desculpe, senhor, ele está meio estranho hoje, não sei o que é.
- Tudo bem. Só não derrubem outros pôsters. – ele respondeu, indo para longe com o restos mortais de Zac Affron nos braços.
Victória se dirigia à fila de sessão abraçada com Josh, mas não pude deixar de notar que ela olhou por entre os ombros para mim, corando e virando o rosto quando seus olhos se cruzaram com os meus.
- Vamos comprar os ingressos, Lanza, antes que você bote fogo em alguma coisa! – Bella exclamou, e alguns minutos depois estávamos acomodados na última fileira do cinema. E dela eu podia ver Victória e Josh abraçados, exatamente na minha frente. “Olhe para trás, béstie.” mandei uma mensagem no seu celular. Ela recebeu alguns segundos depois e riu baixinho, para Josh não perceber. Depois olhou para trás pelo braço dele que a envolvia e piscou para mim, ao ver que Bella procurava alguma coisa na bolsa. Depois, senti meu celular vibrar.
“Acho que nem querendo conseguimos ficar separados, eim, bff?”
Sorri.
“Era de se esperar que você fosse assistir Sorte de Amor em Las Vegas. É a sua cara.” respondi. Ela esperou um pouco para ler, porque Josh falava com ela, mas então o filme começou e ele começou a prestar atenção. Ela abaixou os olhos para o celular e me respondeu.
“A sua também.”
“Bom, parece que finalmente temos algo em comum.”
Victória recebeu a mensagem e começou a responder. Depois apagou. E escreveu de novo. Apagou novamente, revirou o celular nos dedos e olhou um pouco para o filme. Josh, ao seu lado, morria de rir, e nem percebia que Victória trocava mensagens com alguém. Bella fora ao banheiro e ainda não retornara, então não tinha com o quê me preocupar.
Victória pegou novamente o celular. Digitou algo nele e ficou observando o que tinha escrito. E com um impulso, enviou.
Segurei o ar nos pulmões. Segundos pareciam eternidades. Mas finalmente a mensagem chegou.
“Sinto sua falta. Desculpe por não ter acreditado em você.”

Victória fala:

Pode-se descobrir muitas coisas no cinema. Idéias novas, culturas novas, línguas novas e até mesmo pessoas novas. Mas acho que aquela foi a primeira vez que eu descobri algo sobre mim.
Na verdade, naquele dia no cinema, eu descobri três coisas.
Primeira: o quanto eu era fraca. Sabe como é, com todo aquele negócio de jurar se afastar de Lanza e na prática não cumprir isso. Ou pelo menos foi o que eu pensei que estava fazendo mandando uma mensagem daquelas para ele, depois de praticamente ter mandando ele ir passear por algo que, desde o início, eu soube que ele não fez.
Segunda: eu simplesmente não conseguia ficar longe dele. Claro, fisicamente, era fácil ficar longe. Mas em pensamentos, em palavras, em ações?
Aí já era outra história.
Terceira: não era tão fácil assim ter o perdão de Lanza.
Pelo menos foi o que eu percebi quando li sua resposta.
“Também sinto sua falta. Demais. Chega a doer, Vic, doer de tal maneira que eu nem sei mais o que é real. Mas desculpas não são boas o suficiente. Eu não posso simplesmente te perdoar. Porque você me magoou muito.”
“Lanza, eu sei, você tem todo o direito de estar magoado. Nós terminamos porque eu não te tratei direito e eu sei muito bem disso. A culpa foi minha, toda minha. Mas, por favor, não mude comigo. Eu não sei se consigo ficar longe de você, do seu jeito, das suas palavras, por muito tempo.” respondi, olhando de tempos em tempos para ver se Josh estava me olhando. Mas ele estava tão interessado no filme que nem percebeu algo de estranho.
“Acho que você já percebeu que nem tentando conseguimos mudar um com o outro. Eu sou louco por você, Victória Hackmann!” ele respondeu, e meu coração acelerou ao ler isso.
“Eu também sou louca por você, Pedro Gabriel Lanza Reis!”
Nós poderíamos ter trocado mensagens até o final do filme. Se a bateria do meu celular não tivesse acabado. Olhei para o filme e pensei seriamente em olhar para trás. Mas não consegui. Não depois de ter me mostrado a mulher mais fraca da face da Terra.
“Assisti” o filme com o pensamento na pessoa localizada atrás de mim. Josh finalmente me beijou – não que eu não estivesse rezando para que ele não tentasse, mas ajoelhou tem que rezar – e mesmo assim meus pensamentos não saíram do cara na poltrona acima de mim.
O filme acabou e a única coisa que eu me lembrava dele eram imagens borradas de Lanza e de tudo que vivemos juntos.
E claro, a luta com pães.
Ela foi hilária.
Saímos do cinema e eu ainda não pude olhar para trás. Somente quando entramos no restaurante italiano que Josh havia me levado para comer, foi que consegui olhar para outro lado que não fosse para frente. E Lanza não estava lá.

Lanza fala:

Uma semana havia se passado desde o cinema. Victória estava com Josh e eu estava com Bella – que ia me buscar todos os dias na escola para ir ao seu apartamento, como se eu fosse uma criancinha.
Mas eu não ligava muito.
Era no apartamento que a mágica acontecia.
Eu e Victória nunca conversamos sobre as mensagens, mas eu sabia, de algum jeito, que elas estavam gravadas no seu coração, assim com estavam no meu. E mesmo com pessoas diferentes, nós sabíamos que o destino iria nos juntar novamente. Então só deixamos o tempo correr, sem qualquer tipo de pressão.
E o fato de eu estar muito ocupado com Bella e ela com Josh ajudava um pouco as coisas.
Com a banda estava tudo ótimo. E tudo começou na sexta-feira.
Eu tinha me esquecido que na sexta-feira seria a primeira vez que nossa música tocaria na rádio. Sabe como é, Bella era boa em me fazer esquecer as coisas.
Ah como era!
Então quando Harry chegou na escola com um rádio e um amplificador, perguntei, curioso:
- Hum, Harry, a Jú anda dando alguma coisa pra você tomar de diferente? Sabe como é, alguma coisa verde ou, hum, amarela.
- Por quê? – ele perguntou, surpreso.
- Porque você está, hum, entrando na escola com um rádio embaixo do braço.
- Como assim, Lanza, você não se lembra que é hoje que nossa música toca na rádio? Cara, a Bella é boa no que faz! – ele disse, e eu não contive o riso.
- Dude, tinha esquecido completamente! – expliquei.
- Tinha que ser o Lanza. – Pe Lu me zoou, dando um tapa na minha cabeça.
- Pô, galera, dá um desconto, a cabeça dele anda muito “ocupada” com outras coisas. – Koba brincou, fazendo aspas com as mãos.
- Respeito aí, é minha garota! – pedi, fingindo ficar bravo.
- É sua garota mas é hot demais! – Koba riu, recebendo um empurrão de Harry.
- Fica na sua aí, Koba, que você já tem dona. – argumentei.
- Ah, e por falar nisso, eu comprei uma aliança pra Isa e... Olá, meninas! – ele exclamou, fazendo uma reverência exagerada para Isadora, Maria Eduarda, Júlia e Victória, que chegavam rindo de algo que Victória falara.
- Oi, amor! – Maria Eduarda exclamou, beijando Pe Lu.
- Koba, você esqueceu sua mala na minha casa! Como você vem pra escola sem a sua mala? – Isadora chegou acusando Koba, que somente sorriu e pegou a quase namorada nos braços, beijando-a e babando em todo seu rosto de brincadeira.
- Thomas! – Júlia disse, abraçando o namorado.
Atrás deles vinha Victória, sorrindo pela felicidade das amigas. Usava os cabelos soltos e sandálias, mais natural do que nunca.
- Oi, Lanza! – ela disse, sorrindo. – Acho que sobramos como sempre.
- É. Parece que nascemos para ficar de vela. – brinquei.
- Bom, acho que... – ela ia dizendo, mas foi interrompida pelo locutor que gritava nos amplificadores:
- Agora, uma novidade! Eu já ouvi o som e garanto que é muito bom. Com vocês, Five Colours In Her Hair, Restart!
Nós 8 ouvimos a música inteira paralizados, nos entreolhando. Os outros alunos pararam para ouvir e logo a roda em volta do rádio era gigante.
Tipo, gigante mesmo.
Quando a música acabou, olhei para Pe Lu, que olhou para Thomas, que olhou para Koba que olhou para mim.
- AAAAAAAAAAAH! – gritamos ao mesmo tempo, nos abraçando e pulando em roda.
Gay. Eu sei. As emoções, sabe como é...
Em nossa volta, todos riam e nos davam parabéns. Algumas meninas da oitava pediram autógrafos de brincadeira – ou não.
- Cara, me beslica pra eu ver se estou sonhando? – pedi para Pe Lu, mas o retardado achou que era verdade e me deu um puta beliscão no braço. – Porra, dude, eu estava brincando!
- Mau aí, Lanza, eu estou tão em órbita que pensei que fosse verdade. – ele se desculpou.
- Tudo bem. Agora vem aqui e me dá um abraço! – exclamei, abraçando-o.
Gay². Eu sei. As emoções, sabe como é...
Mas quando toda a gritaria e a veadisse acabaram, os guys foram procurar as respectivas namoradas.
E eu?
Fui procurar Victória.
Porque era com ela que eu queria falar. Mesmo com todo aquele negócio do Josh. E Bella. Porque, como eu mesmo disse, o destino ia nos juntar novamente.
A vi parada perto das amigas, sorrindo. Quando cheguei perto, sem pensar duas vezes, a abracei pela cintura e a rodei no ar. Nós dois ríamos muito a tudo era muito lindo, muito maravilhoso.
Tudo muito VEADO.
Aliás, eu desmonhequei total aquele dia.
- Lanza! Parabéns! Estou tão feliz por vocês! – ela exclamou, bagunçando meus cabelos quando a coloquei no chão.
Beijei sua testa por cima dos cabelos – descabelados por ter pulado e abraçado todo mundo – e senti vontade de chorar.
Sério.
Mas eu não fiz isso. Quero dizer, chorar. Porque, bem, não ia pegar muito bem.
- Brigado, Vic! Sério! É um sonho, é um... Ah, eu nem sei o que é isso! – exclamei, sorrindo e olhando para os lados, porque todos me chamavam ao mesmo tempo. - Agora só falta eu me tornar promotora e nós não precisaremos criar nossa agência de encontros! – ela disse, rindo.
- Que pena, porque era uma ótima idéia... – suspirei, desapontado de brincadeira.
- Mas me diz, agora você pode me contar qual é o segundo sonho? – perguntou, me olhando nos olhos. Coloquei uma mecha dos seus cabelos atrás de sua orelha e observei seu rosto contorcido de felicidade com admiração.
Ainda olhando para ela, observei as pessoas em volta. Koba corria com Isadora de cavalinho pelo pátio. Harry quase chorava e Júlia o cutucava e exclamava: “Gay, gay, gay!”. Pe Lu gritava com Maria Eduarda e os dois pulavam como bobos.
Voltei a atenção para Victória.
Não podia contar. Não ainda.
- Ainda não.
Ela sorriu cúmplice a mim. Até ser atingida por Júlia, Isadora e Maria Eduarda, que gritavam histéricas coisas sem sentido. Fui até os dudes e começamos a gritar como idiotas. E então, no meio de toda aquela gritaria sem sentido, Koba resolveu dar uma de homem.
Pelo menos uma vez na vida.
- Isa!? – gritou com autoridade, marchando até ela. Ficamos olhando para ele com curiosidade. Isadora se separou das amigas e foi até ele. Mas parou de andar ao ver que Koba se ajoelhava. Olhou incrédula para ele e as meninas começaram a se cutucar. Koba continuou, atrapalhado como sempre quando se tratava de Isadora e outras pessoas olhando. E foi bem corajoso em gritar: - Por favor, galera, vocês podem ficar em silêncio um pouco?
Todos que comemoravam – e até os que não – pararam subitamente.
- Obrigado. Olha, gente, pedi para vocês prestarem um pouco de atenção porque, bem, eu... – agora ele parecia realmente envergonhado. Isadora somente olhava para ele, sem saber o que fazer. – Eu queria que todos vocês soubessem que, bem, essa estressadinha que está parada na minha frente é simplesmente a mulher da minha vida. É a pessoa mais maravilhosa que eu conheci em todos esses anos e, sem ela, eu não seria nada e não teria força nem determinação para conquistar o que conquistei hoje. Sei que não estamos há muito tempo juntos, mas para mim foi muito mais que o suficiente. Nós demoramos para finalmente dar o braço a torcer e ficar juntos mas, por ela, passava por todos os problemas novamente. Porque agora eu sei que não consigo mais viver sem você, Isa. Eu sei, pode parecer piegar, mas é a mais pura verdade. Eu te amo, Isadora Ribeiro. Eu te amo, eu te amo, EU TE AMO! E... – Koba colocou uma das mãos no bolso e as lágrimas corriam no rosto de Isadora. – Isa? – perguntou, abrindo uma caixinha vinho com duas alianças de prata dentro. – Quer namorar comigo e fazer de mim o imbecil apaixonado mais feliz do mundo?
Isadora se aproximou trêmula dele, que ainda estava ajoelhado. Ele estendeu a caixinha para ela, que respondeu:
- Não.
Todos prenderam a respiração. Koba arregalou os olhos e antes que todos começassem a jogar pedras em Isadora – que eu suspeitei seriamente que fariam – ela continuou:
- Porque, na verdade, é você que me faz a imbecil apaixonada mais feliz do mundo. E eu sei que vai continuar fazendo, assim que colocar essa aliança no meu dedo.
Koba sorriu radiante e todos começaram a aplaudir, tipo aquelas cenas bizarras de filme. Mas, bem, foi legal. Queria eu ter a coragem de Koba.
Ele se levantou e colocou a aliança no dedo de Isadora, que repetiu o gesto, colocando a aliança no dedo dele. Depois ele passou as costas das mãos no rosto dela, para limpar as lágrimas e a puxou para perto dele.
E eles se beijaram.
Eu, Thomas e Pe Lu nos entreolhamos, enquanto o resto da escola batia palmas.
- No 3? – perguntei.
- 1... – Pe Lu contou.
- 2. – contei.
- 3! – Thomas exclamou e nós três pulamos em cima de Koba e as meninas em cima de Isadora.
- Que lindoooo! – Júlia gritou, apertando a bochecha de Isadora, que estava rubi de vergonha.
- Ai gente, pára com isso! – disse, com um sorrisinho tímido.
É. As cheerleaders tinham realmente mexido com as nossas cabeças.
Quero dizer, com a dos dudes.
Ok, com a minha também.
Mas ninguém além da linda menina na minha frente, que bagunçava os cabelos de Isadora, precisava saber disso.

Victória fala:

- Vic, quantas garrafas de tequila os meninos trazem? – Maria Eduarda perguntou, enquanto olhava para todas as roupas que tinha trazido para minha casa em cima da cama e falava ao celular com Pe Lu. – Tipo, o Pe Lu tá dizendo que 4 dão, mas sei lá, vem a escola inteira e...
- Você quer dizer o Ensino Médio inteiro e algumas pessoas da oitava série. – Júlia a corrigiu, passando a chapinha nos cabelos na frente do espelho.
Era sábado, o dia seguinte da estréia de Five Colours In Her Hair. Nós iamos dar uma festa na minha casa para comemorar que a música dos meninos estava bombando nas rádios. Aproveitando, é claro, que Rosa tivera que voltar à cidade natal pois sua nora estava para ter bebê.
- Tanto faz. Para mim a escola seria só o segundo e terceiro ano. – ela respondeu, dando de ombros e quase deixando o celular cair. – Oi, amor, estou aqui ainda, esperando a Vic responder.
- Sei lá, Duda! – gritei de dentro do banheiro. – Acho que 4 dá. O pessoal costuma beber mais vodka mesmo...
- 4 mesmo, Pe Lu... Ok, até de noite!... Te amo também!... Tchau! Isa, acho que vou com essa roupa mesmo! – Maria Eduarda suspirou, impaciente, colocando as peças na frente do corpo.
- Já disse quinhentas vezes que você ficou linda com ela! – Isadora reclamou, virando os olhos. Como ela era a única pronta, ficava sofrendo na mão das amigas indecisas.
- Ok, então estou pronta. – Maria Eduarda disse, dando uma voltinha. Usava uma saia jeans azul clara que ia um pouco acima dos joelhos, meia-calça cor de pele e um scarpin preto. Sua blusa era naquele estilo morcego preta, que caia de um de seus ombros. Seus cabelos caíam nos ombros e seus brincos de prata compridos com estrelas na ponta iam até mais ou menos as bochechas. Nos olhos, lápis e sombra prata. Sua boca era marcada por um gloss rosa bebê e ela estava radiante. – Como estou?
- Putaqueopariu, eim Maria Eduarda! – exclamei, rindo com ela e as outras meninas. – Você quer MESMO matar meu amigo do coração!
- Por falar nisso, fiquei sabendo que eles combinaram de vir com alguma coisa igual hoje. – Júlia disse, desligando a chapinha e se levantando. – Quero só ver o que vai ser... Bom, como estou?
Júlia usava uma saia xadrez verde e preta, uma blusinha básia verde escura e meia arrastão preta. Nos pés, botas de cano baixo pretas de couro e bico fino. Seus cabelos também estavam soltos e ela usava brincos pequenos de cristal. Um colar comprido com pingente de um coração flechado prata ia até o final do seu busto e sua maquiagem era forte nos olhos e suave no resto do rosto.
- Vai tomar no cu! – exclamei, saíndo do banheiro já pronta. – Onde eu fui arranjar tanta amiga bonita?
- Poxa, ninguém falou de mim... – Isadora choramingou de brincadeira. Olhamos para ela e mostramos o dedo do meio.
Ela usava um vestido vermelho tomara-que-caia-quase-caindo com sandálias douradas, assim como os brincos e o colar. Seus cabelos estavam presos por um bico-de-pato em um coque demorei-duas-horas-para-deixar-ele-com-ar-de-desarrumado. Isadora puxou os olhos com delineador e parecia um gatinho, com a sombra dourada cintilando nos olhos e a boca vermelha.
- Eu nem vou comentar de você. – respondi, recolhendo meu dedo. – Você está linda demais para uma festa da escola!
- Tenho meus motivos. – ela disse, se jogando na cama.
- Ok, e eu, estou bem? – perguntei, rodando várias vezes até ficar tonta e cair na cama. As meninas riram.
Eu usava um daqueles vestidos de um ombro só, que ficam bem justinhos nas coxas e largos no resto do corpo, preto. Nos pés, sandálias de couro pretas, bordadas em svarovisky. Meus cabelos estavam soltos e enrolados nas pontas, e batiam na minha cintura. Usava brincos de argola e pulseiras também de svarovisky. Meus olhos estavam todos contornados de preto e minha boca estava com brilho transparente.
- Na verdada, nem sei porque me arrumei tanto. Josh nem vem... – disse magoada, mas no fundo não sentindo mágoa nenhuma.
- É, mas o Lanza vem. – Maria Eduarda provocou.
- Admite, Vic, você está toda lindona pro gostoso do Lanza Reis! – Isadora continuou.
- Você não nos engana, gatinha. – Júlia concordou.
- Nada a ver, meninas. Mesmo porque, Bella vem com ele e... – tentei dizer, mas fui cortada por Maria Eduarda, que falou:
- Ela não vem. Viajou com as amiguinhas piranhudas.
- A é? – perguntei, sentindo meus ânimos melhorarem e minha barriga dar um loopim completo. – Hum... Legal...
- Legal, né? – Júlia disse, irônica.
- Ai gente, vamos mudar de assunto? – pedi.
- Ok, vamos mesmo. Porque preciso contar algo para vocês. – Isadora concordou.
- Conte-nos, praguinha. – Maria Eduarda pediu, se jogando na cama.
- Bom, vocês querem mesmo saber porque eu estou toda gatuxinha hoje? [N/A: Gatuxinha? Da onde eu tirei isso?].
- Queremos. Por quê? – Júlia perguntou.
- Bom, na verdade, antes, eu preciso de uma opinião. – ela pediu.
- Tudo que quiser. Menos dicas de filmes pornôs. Isso é com seu namorado... – Maria Eduarda brincou.
- Ótimo, bom saber que meu namorado anda assistindo coisas obscenas com o Munhoz. – ela brincou. Depois continuou, séria. – Vocês sabem que eu sou virgem, não sabem?
- Até onde eu sei, sim. – brinquei, e ela me lançou um olhar não-estou-mais-brincando-porra. – Sim, você é virgem. E aí? O que isso tem a ver com a conversa?
- É que... Ah, eu tenho vergonha! – ela piou, enfiando a cabeça entre as mãos.
- Pára com isso, Isa, você sabe que pode contar tudo para nós! Nós somos suas amigas! – Júlia a encorajou.
- É que eu estava conversando com o Koba e... Bem, acho que eu estou pronta para fazer. Isso. Vocês sabem o quê. Porque, tipo, nós nos amamos. De verdade. E mesmo que não fiquemos para sempre, é dele que eu quero lembrar pro resto da vida. Mas... Queria saber a opinião de vocês antes.
Olhei para Maria Eduarda, que já trocava olhares com Júlia, e realmente não soube o que fazer.
Muito menos o que dizer.
- Nossa, Isa. Agora você me pegou. – disse, jogando meus cabelos para trás. – Eu realmente não sei o que dizer. Eu... Eu não tenho experiência nenhuma nisso.
- É, eu também não. – Maria Eduarda admitiu. - Eu também não. Mas, Isa, acho que, se você se sente preparada para isso, deve fazer o que seu coração manda. – Júlia aconselhou.
- É. – concordei. – Se você acha que ele é especial e que é dele que você quer se lembrar para o resto da vida...
- Sempre achei que isso tinha que ser com alguém que se ama, e esse é realmente o caso de vocês dois, então, se você se cuidar e não fizer nenhuma besteira, não vou impedir. – Maria Eduarda disse, racionalmente.
- Não, claro que sim! – Isadora exclamou. Logo depois suspirou. – Que bom que vocês não quiseram me matar...
- Claro que não, Isa! O que você achar que é bom pra você, é bom para a gente também! – Júlia respondeu.
- Só não vai fazer merda porque eu não estou a fim de ser titia antes do tempo. – Maria Eduarda brincou.
- Ai Duda, credo! Vira essa boca pra lá! – Isadora pediu, jogando uma almofada na amiga. – É claro que eu vou usar tudo que estiver ao meu alcance para isso não acontecer. Já fui ao ginecologista e ele me aconselhou e tudo o mais. Realmente acho que todas as meninas deveriam fazer isso antes que sair por aí fazendo besteira... [N/A: Momento palestra de educação sexual que uns tios chatos dão na escola como se fôssemos retardados. Mas, bem, eu concordo com o que escrevi. Mesmo que eu só vá pensar nisso depois dos 18. Hehehehe.]
- Bom mesmo! – Júlia disse, se levantando. – Bom, vamos parar de se meter na vida alheia porque temos que começar uma festa!

Lanza fala:

- Oi, Duda! – exclamei, abraçando Maria Eduarda até sufocá-la.
- Nossa, Lanza! Tá animadinho hoje, é? – ela perguntou, olhando torto para mim. Mas não era de se estranhar. Eu – assim como os outros meninos – usava uma roupa meio social meio casual e Ray-ban espelhado.
- Sim! Você não tem noção, Duda! Hoje de manhã eu estava comprando as bebidas e uma menina veio me perguntar se eu era o Lanza da Restart e, pasme, me pediu autógrafo e tirou uma foto comigo! Não é animal!? – perguntei, animado.
- Lanza! – ela quase gritou, rindo. – Sua primeira fã! Lembra o nome dela?
- Alguma coisa com b... – respondi, não me lembrando mesmo do nome da minha primeira fã.
- Olha só como você é um péssimo rock star... – ela balançou a cabeça em reprovação. – Só espero que as groupies não comecem a dar em cima do meu homem. Aliás, cadê meu ursinho?
- O ursinho tá pegando as bebidas no carro. – respondi, rindo do apelido.
Nem terminei de falar e Maria Eduarda já saía correndo para encontrar Pe Lu. Entrei na casa de Victória sem esperar convites, encontrando algumas meninas da oitava série já meio bêbadas que ficaram me dizendo que sempre souberam que eu e os meninos iríamos fazer sucesso. Deixei elas com alguns meninos com cara de idiotas do segundo ano e continuei andando pela casa, ouvindo as risadas de Pe Lu, Maria Eduarda, Harry, Júlia, Koba e Isadora no saguão.
Passando pela cozinha, dei uma espiada para dentro e sorri ao ver Victória sozinha, colocando as bebidas em um isopor.
- Oi, Vic. – disse, batendo na madeira da batente da porta.
- Oi, Lanza! – ela disse, assustada. Deixou o isopor em cima da mesa e veio me cumprimentar, me dando um abraço e um beijo estalado na bochecha.
- Nossa, tá toda animadinha assim por quê? – perguntei, dando um peteleco no seu nariz.
- Ah, nenhum motivo específio... Apenas acordei animada! – ela disse, e logo em seguida foi cumprimentar Harry e Pe Lu que entravam na cozinha. Eu, por outro lado, fui cumprimentar Júlia e Maria Eduarda.
- Bom, acho que o melhor que temos a fazer é beber! – Pe Lu sugeriu, segurando uma garrafa de tequila na frente do corpo, como se fosse um bebê.
Começamos a beber na sala, junto com todos os outros convidados. Na verdade, não bebemos muito, e só ficamos ali, conversando. E nem notamos a falta de Isadora e Koba. Até que os dois entraram correndo na sala, esbaforidos e dando risada.
- Galerinha do mal, vamos subir pro quarto da Vic? Aqui está muito barulho! – Koba sugeriu, abraçando Isadora pela cintura.
- A gente vai fazer o que lá só nós 8? – Thomas perguntou.
- Nem te conto, Judd. – Isadora respondeu, e nós rimos. – Ah, sei lá, a gente pode ouvir alguma música que não seja yo-shizzel my-wizzel nigga mother-fucker e, sei lá, brincar de alguma coisa idiota. – ela completou, fazendo carinha de cachorro-que-caiu-da-mudança para nos convencer.
- Ok, vocês venceram. – Victória concordou. – Vamos lá.
Subimos para o quarto e Pe Lu foi procurar algum Cd.
- Vic, onde ficam seus Cd's?
- Poutz, nem sei os Cd's que estão no meu quarto, mas olha lá na prateleira que fica em cima do meu computador. – ela respondeu, apontando da cama para onde o computador ficava. Pe Lu foi até lá e pegou 4 Cd's.
- Vamos lá, na ordem. Green Day, Offspring, Blink e Beatles.
Colocamos os Cd's no meu som e decidimos o que iríamos fazer.
No final, ficou decidido que iríamos brincar de Verdade ou Verdade.

Victória fala:

Terminamos de nos arrumar e descemos. As primeiras pessoas já chegavam – umas meninas da oitava série – e nós ficamos ocupadas, arrumando todas as coisas e colocando o som. Uns 15 minutos depois, avisaram que os meninos haviam chegado. Fui até a janela enquanto Maria Eduarda ia até a porta recebê-los.
O primeiro que eu vi foi Lanza – grande ironia. Ele usava uma calça jeans preta, uma camiseta pólo pink e sapatos sociais pretos nos pés. Seus cabelos estavam caídos nos olhos, que eram cobertos por um óculos Ray-ban espelhados.
Atrás dele veio Pe Lu, com um saco de bebidas em uma mão e com a outra de mãos dadas com Maria Eduarda. Ele usava uma calça jeans azul escura, camiseta pólo listrada branca e preta e nos pés All Star preto. Os cabelos estavam todos bagunçados e ele também usava um Ray-ban espelhado que combinava perfeitamente com sua aliança.
Dois segundos depois, Júlia entrou de cavalinho em Thomas, que usava uma camisa social azul clara por cima de uma regata branca amostra. Calça jeans claras e nos pés All Star azul. Seu cabelo estava levantado em um moicano demorei-dez-horas-pra-fazer, e, assim como os outros, usava um Ray-ban espelhado, só que sua armação era dourada, e não prata como os óculos de Pe Lu e Lanza.
Saí correndo para a cozinha ao vê-los entrar na casa. E, ao chegar lá, fui abordada por todos eles alguns instantes depois. Fomos beber na sala de estar e estávamos conversando de boa. Lanza estava sendo muito simpático comigo, assim como eu com ele. Nada de muito anormal.
Até Koba e Isadora entrarem correndo como idiotas na sala.
Koba usava uma camisa social branca com os três primeiros botões abertos, deixando amostra um pedaço de seu peito. Calça social preta e tênis Relf verde e branco. Seus cabelos estavam nos olhos, assim como os de Lanza, e seu Ray-ban era dourado como o de Thomas e espelhado como todos os outros.
Todos eles estavam maravilhosos. Mas na minha humilde opinião, Lanza era o melhor.
Isadora e Koba queriam porque queriam que nós subíssemos para o quarto, e depois de perceber que não tinha interesse em nenhuma pessoal em especial lá em baixo, concordei com eles.
Subimos. E decidimos – porque sempre tínhamos essas idéias idiotas? – brincar de Verdade ou Verdade.
Júlia pegou uma garrafa de tequila vazia lá embaixo e nós começamos.
Na primeira rodada, Thomas perguntava para Maria Eduarda.
- Ok, Duda. Deixa eu pensar... – ele disse, coçando a cabeça com cuidado para não estragar o moicano. – É verdade que Pe Lu tem o melhor beijo que você já provou?
- Provou? Que estranho dizer isso! – Maria Eduarda brincou. – Mas sim, é verdade.
- VIU, THOMAS! – Pe Lu berrou. – Não foi perda de tempo você ter me ensinado.
- Credo! Agora eu estou imaginando a cena! – Maria Eduarda reclamou!
- Ok, eu definitivamente poderia dormir sem essa... – Lanza suspirou, fazendo cara de nojo. - Brincadeira, minha linda. – Pe Lu disse, dando um beijão em Maria Eduarda, que retribuiu.
- Tá bom, galera fogosa, já deu, né? – Koba interrompeu o beijo impaciente. Depois rodou a garrafa.
Isadora perguntava para Júlia.
- Jú, é verdade que seu sonho na sétima série era perder o Bv com Thomas D'avilla? – ela perguntou, com um olhar diabólico.
Júlia mostrou o dedo do meio para ela e respondeu:
- Sua vaca. Você sabe muito bem que se eu admitir ele vai se achar mais do que nunca!
- Amor, você é toda lindinha e tals, mas é meio lerdinha também. Porque não sei se você sabe, mas acabou de admitir. – Thomas zoou com a cara da namorada, dando um beijo na sua testa. Ela sorriu e beijou sua bochecha.
Pe Lu girou a garrafa.
Lanza perguntava, bem... Para mim.
Na hora ele ficou sem reação, olhando para a garrafa imóvel. Pisquei os olhos e me virei para Maria Eduarda, que deu de ombros, também não entendendo o que ele estava fazendo.
Voltei meu rosto para a garrafa e Lanza não olhava mais para ela. Na verdade, agora, ele olhava para mim. Abriu a boca e deixou os lábios entreabertos, – me deixando hipnotizada por eles – aparantemente pensando no que iria perguntar.
Mas quando ele perguntou, deu a impressão de estar ensaiando aquilo há meses.
Mas aquele era Lanza. Se fingindo de amigo e fazendo uma pergunta daquelas. Que me fez peder o fôlego.
E a cabeça, ao ver seu rosto sério me encarando e as palavras saírem lentamente de sua boca:
- É verdade que você ainda me ama?

Capítulo 14 – “Deixa eu dizer que te amo...”

Lanza fala:

- Ah! Aqui estão vocês! Vic, quebraram um vaso lá embaixo e vomitaram no... – Jéssica, uma garota alta e certinha da minha sala entrou no quarto dizendo. Mas logo parou, ao ver o clima estranho no quarto. – Ah, desculpe, estou atrapalhando alguma coisa?
Não, não... SÓ MEU ÚNICO MOMENTO DE CORAGEM NOS ÚLTIMOS 5 MESES!
- Não. Nós só estávamos... – Victória gaguejou, me olhando com angústia, mas ao mesmo tempo querendo dizer algo.
- Conversando. – terminei, olhando para ela.
- Bom, acho melhor vocês descerem logo, porque estão destruindo a casa. – Jéssica voltou ao seu estado normal de menina preocupada com tudo. – E tem umas meninas da oitava querendo falar com você Lanza.
- Umas meninas da oitava? Por quê? – perguntei.
- Nem te conto. – ela respondeu, piscando para mim e saindo pela porta.
Nós ficamos em silêncio. Maria Eduarda, Isadora e Júlia olhavam apreensivas para Victória, que estava de cabeça baixa. Pe Lu, Koba e Thomas olhavam boquiabertos para mim.
- Acho melhor eu, hum, descer. – ela disse, saindo rapidamente pela porta.
Enfiei a testa entre as mãos, nervoso. Tudo rodava pela minha cabeça. Todas as palavras, as brigas, as risadas, os beijos... Então, me vi levantar, sob as perguntas de “você está bem, Lanza?” de meus amigos, e sair correndo pela porta, com apenas um pensamento.
Eu tinha que pegar minha garota de volta. Nem se fosse por uma noite.
- Vic! – gritei no corredor. Ela já descia as escadas e continuou, me ignorando. Ao chegar na sala, continuei atrás dela, que corria por entre as pessoas, esbarrando em todos. – Vic!
Victória entrou na cozinha e eu fui atrás. Ela saiu pela porta da lavanderia e eu continuei a seguindo. Quando saímos no seu jardim da frente, a chamei de novo, dessa vez mais autoritário.
- Vic! – gritei, agora já andando pela rua deserta atrás dela. – Victória, pára de andar!
- Pra quê? – ela gritou de costas para mim, sem me obedecer. – Pra você vir aqui, dizer que só quer ser meu amigo e me provocar como acabou de fazer? Para bagunçar toda minha cabeça?
- EU baguncei SUA cabeça!? – gritei de volta, incrédulo. – Que eu saiba, foi você quem ficou comigo escondida, e, quando resolveu assumir, terminou tudo no mesmo dia! E, como se não fosse o bastante, 4 meses depois você ficou comigo novamente e eu realmente pensei que dessa vez tudo estava bem. Mas não! Nunca é bom o suficiente para você não é, Victória? Porque você me tratou como lixo no dia seguinte, ainda por cima por algo que eu não tinha feito! Qual é, Vic, acha mesmo que você é a única aqui com a cabeça bagunçada?
- Lanza! TUDO que eu fiz foi por você! Aliás, você quer mesmo saber a verdade? – perguntou, parando de andar e se virando para mim. O céu estava carregado e alguns pingos caíam, fazendo a atmosfera ficar sombria. Sem esperar minha resposta, continuou: - Eu terminei com você porque John disse que se eu não o fizesse, ele teria como provar que o blog era seu! E, desde o começo, você soube que eu não faria nada para te prejudicar! E da segunda vez, admito, eu errei. Mas foi só para te afastar de mim, porque, por mais que tudo fosse maravilhoso ao seu lado, eu sabia que você iria acabar saindo disso todo ferrado. Principalmente por meus antigos amigos, como, por exemplo, John.
A chuva começou a cair forte e ela chacoalhou os cabelos molhados para longe dos olhos e ofegou. Me aproximei dela.
- Victória... Quantas vezes terei que dizer que EU NÃO ME IMPORTO!? Eu não me importo com esse blog idiota, eu não me importo com o que os outros vão falar, eu não me importo de apanhar todos os dias de John e Josh, se no final...
Aproxeimei-me mais dela, a ponto de nossos rostos estarem a alguns centímetros de distância. Afastei seus cabelos molhados do rosto e ela fechou os olhos, encostando a bochecha gelada na minha mão.
- Se no final? – perguntou, de olhos fechados.
- Se no final eu tiver você.

Victória fala:

- Lanza... – sussurrei, me afastando. Mas não fui rápida o suficiente, pois ele tirou uma das mãos do meu rosto e me puxou de volta pela cintura. Com a outra, entrelaçou meus cabelos molhados e aproximou nossas bocas.
- Por favor, - ele sussurrou, seu hálito quente roçando minha bochecha. – deixa eu me lembrar do seu cheiro, do seu gosto...
E é claro que, depois disso, eu meio que o agarrei.
Vai dizer que você também não agarraria?
A chuva caía pesada e fria em nós dois, parados no meio da rua. Lanza me apertou contra seu corpo e colocou as mãos nas minhas costas, me arrepiando. O beijo era feroz e ele me beijava como se nunca mais fosse me beijar novamente.
- Lanza! – exclamei, ofegante. – O que deu em você hoje?
- O que me deu hoje? – ele perguntou, me pegando no colo e rindo pelos meus gritos de protesto. – É que hoje eu acordei com vontade de te ter de volta.
- Você nunca me perdeu. – respondi, dando um beijo de leve nos seus lábios entreabertos.
- Você não sabe como é bom ouvir isso.
Fechei os olhos e passei os lábios por sua boca. Ele estremeceu e me colocou lentamente no chão. Quanto bati meus pés na rua, ele me empurrou até a calçada e meu prensou contra um poste, continuando a me beijar com vontade.
- O que nós vamos fazer agora? – perguntei, quando finalmente consegui me livrar – não que eu quisesse – do seu beijo.
Lanza me olhou fixamente, pensando.
- Você quer dizer agora, agora? – ele perguntou, sorrindo maliciosamente.
- Não, Lanza! – exclamei, cutucando sua barriga e o abraçando novamente, querendo sentir o tecido molhado de sua camiseta em meus braços. – Quero dizer sobre eu e você.
Olhei para baixo, envergonhada pelo o que tinha dito. Sabe como é, eu tinha acabado de falar que queria ficar com ele. E se ele me desse um fora depois de tudo que eu já tinha feito?
- O que você quer fazer agora? – perguntou, esfregando o nariz no meu.
- Não sei. – respondi, sinceramente.
- O que você acha de voltarmos a estaca zero? – ele sugeriu, no meu ouvido.
- Como assim?
- Nós continuamos com nossas vidas, - ele disse, e eu me afastei um pouco de seu corpo, olhando incrédula para seus olhos que pareciam estar se divertindo com a minha cara. “Como assim? Ele está me rejeitando?” pensei. – e ficamos escondidos. Até, hum, nós descobrirmos quem roubou o blog?
“Ahhh, assim sim.”
- Quando descobrirmos, contamos a todos. – ele continuou. – Porque ficando escondidos, ninguém vai poder falar nada e muito menos seus amiguinhos vão ficar nervosinhos comigo. E depois que descobrirmos quem roubou o blog, o dono vai perdê-lo, sem poder postar mais nenhuma merda sobre nós e nossos amigos. E ninguém vai poder falar nada do mesmo jeito, porque nós assumiremos. E, por fim, John não vai poder me ferrar pelo blog porque nós vamos provar quem era o dono, que definitivamente, pelo menos agora, não é nenhum de nós 4.
Olhei para o lado e mordi o lábio inferior. Quando voltei a encarar seu rosto beirando a perfeição, sorri.
- É uma ótima idéia!
- Mas... – ele disse, sério. – Ninguém pode saber sobre nós dois.
- Claro, eu...
- Não, Vic, quando eu digo ninguém, é, tipo, ninguém.
- Eu entendi, Lanza. – respondi, arqueando a sobrancelha.
- Nem nossos amigos. – ele murmurou.
- Hã? – exclamei, levantando a sobrancelha. – Mas não era você mesmo quem dizia que nossos amigos nunca nos fariam mal?
- Eu sei, linda, e é verdade. – ele confirmou. – Mas, pensa bem, você acha mesmo que eles não iriam tentar nos convencer de que assumir seria a melhor coisa?
Pensei bem. E percebi que era verdade. Pelo menos minhas amigas sim.
- É...
Olhei para baixo, pensando na proposta de Lanza.
Será que conseguiríamos esconder? Depois da experiência má sucedida?
- Hey, fofa. – Lanza me chamou, e eu levantei o rosto, olhando hipnotizada para seus olhos. – Sabe o que dizem?
- Não, o quê?
- Escondido é bem melhor, perigoso é divertido.
Ri e beijei o pescoço dele, que estremeceu.
- Lanza?
- Oi, Vic.
- Eu te amo.
Lanza me deu um beijo de leve nos lábios.
- Vic?
- Oi, Lanza.
- Eu te amo.

Lanza fala:

- Ficou com 37 em uma noite? – Victória perguntou, acariciando minha mão com o polegar.
- Mito. – respondi. – Deixou um menino estéreo com um chute?
- Lenda. – ela respondeu, deitando a cabeça no meu peito. [N/A: Parte meio inspirada em 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você. xD]. Ainda estávamos na rua deserta, úmidos, sentados no chão e conversando sobre as mentiras que inventavam sobre nós dois. Ela estava entre minhas pernas e seu cheiro invadia meu cérebro e fazia eu me sentir bem.
Ou talvez fosse só a endorfina.
- Chorou quando Digimon acabou? – ela perguntou, e eu ri, encostando meu queixo em seu cabelo molhado.
- Caiu um cisco no meu olho. É diferente! – respondi, rindo com ela.
- Ok, vou fingir que acredito.
- É sério! – exclamei, e ela olhou para cima. Inclinei-me e beijei sua boca, que praticamente me chamava.
Aquilo era bom demais.
Estávamos há algum tempo conversando e olhando as estrelas. A chuva havia parado e nossos corpos estavam quentes, pois nos aquecíamos juntos.
De repente, um raio cortou o céu, e Victória gritou:
- Meu Deus, a festa!
- O que tem a festa? – perguntei, rindo da sua cara de assustada.
- Eu deixei aqueles delinqüentes juvenis destruindo a minha casa! – ela respondeu, já se levantando. – Vem comigo?
- Claro. Mas não esquece do que combinamos. – eu a lembrei, puxando seu corpo junto ao meu. – Agora deixa eu aproveitar antes que tenha que ficar longe de você no meio daquelas pessoas malvadas! – brinquei, a puxando para mais perto e mordendo seu lábio inferior.
- Ah, não precisa ter medo! Eu vou te proteger das pessoas malvadas! – ela respondeu, grudando seus lábios aos meus.
Demos um beijo em meio aos risos – nem sei porque estávamos rindo, só sei que era engraçado – e voltamos pela rua abraçados. Quando chegamos perto da casa, nos soltamos e começamos o teatro logo na entrada, onde algumas pessoas estavam.
- Vai se foder, Lanza Reis, eu não preciso ouvir suas merdas! – ela exclamou, chamando a atenção das pessoas.
- Vai pro inferno, sua prepotente do caralho! Você acha mesmo que o mundo gira em torno do seu umbigo? – exclamei de volta.
Victória me lançou um olhar bravo e ao mesmo tempo convenceu-com-o-palavrão e entrou pela porta da frente. Já eu entrei pelo jardim, ouvindo alguns “mandou bem, Lanza Reis!” dos meninos que fumavam narguile lá na frente.
Ao entrar, passei pelo corredor da lavanderia, e ao olhar para o lado, vi Koba e Isadora se beijando encostados na parede.
- Hey, por que vocês não arranjam um quarto? – perguntei, dando um tapa na cabeça de Koba, que parou de beijar Isadora e olhou meio fora de foco para o corredor escuro.
- Até que não é uma má idéia! – respondeu, rindo e deixando Isadora envergonhada. Depois voltou a beijá-la, como se eu não estivesse ali.
Eca.
Saí de lá e entrei na cozinha, onde, por ironia do destino, – ou tempo contado no dedo – encontrei Victória expulsando as pessoas.
Ela olhou para mim com o canto dos olhos e eu entendi o que ela queria me dizer.
- Já que você está aí sem fazer nada, por que não me ajuda a tirar esses bêbados daqui, Lanza Reis, seu imprestável? – ela perguntou, empurrando um menino sorridente pela porta.
- Se eu sou tão imprestável, por que você não faz isso sozinha? – perguntei como resposta.
- Cala boca e me ajuda logo! – ela disse, segurando o riso.
E eu, como sempre, a obedeci.
Não que eu fosse seu cachorrinho nem nada do tipo. Eu simplesmente gostava de ajudá-la. Ela ficava tão linda ocupada com alguma coisa, e meus olhos simplesmente não saíam de cima dela.
- Pára de babar tanto nas minhas coxas que agora nós vamos ver o estrago lá em cima. – ela disse no meu ouvido, ao tirarmos o último bêbado/vândalo da sua casa.
- E quem disse que eu estou babando nas suas coxas? – perguntei, rindo maliciosamente, dessa vez olhando para suas coxas.
E que coxas!
- Lanza Reis, seu tarado! – ela respondeu, me dando um tapa no ombro.
Ao subirmos, o estrago já estava feito. Os 4 – Júlia, Harry, Pe Lu e Maria Eduarda – estavam bêbados e rindo histericamente.
- Ooooooi, Vic! – Maria Eduarda meio que gritou, tentando se equilibrar no colo de Pe Lu, que só ria. Júlia dormia em Thomas, que fazia cafuné nos seus cabelos e cantava músicas sem sentindo nenhum.
- Oi, Duda! – Victória respondeu, pegando a menina pela cintura. Pe Lu tentou pegá-la de volta, mas seus braços só caíram pesados pelo corpo. – Vamos tomar um banho?
- Vamos! – ela exclamou, feliz.
Victória piscou para mim e entrou com Maria Eduarda no banheiro, como se ela fosse uma criancinha.
Ordenei que Thomas e Pe Lu fossem até o quarto de hóspedes – sabe como é, eu não era tão paciente com meus amigos bêbados como Victória era com as suas – e em menos de cinco segundos depois eles já roncavam jogados ao chão – e a culpa não foi minha, eles que quiseram dormir no chão.
Fiquei lá, rindo quando Pe Lu acordava de tempos em tempos para contar alguma piada sem sentido e de Thomas que acordou e vomitou pela janela pelo menos umas três vezes. Mas já estava começando a ficar entediado. Então decidi procurar Victória.
Entrei em seu quarto e fiquei sem reação, ao ver que ela se trocava enquanto Júlia e Maria Eduarda - já de banho tomado – dormiam como anjos nos colchões no chão.
Ela não estava pelada nem nada do tipo, mas descia a camisola de seda lentamente pelas curvas. Quando acabou, soltou os cabelos e os prendeu novamente em um coque frouxo. Calçou pantufas do Bob Esponja e ficou de costas para mim, tirando os brincos.
Prendi a respiração e saí do quarto, encostando a porta. Mas pelo meio do corredor, senti duas mãos frágeis apertarem meu rosto.
- Adivinha quem é? – ela perguntou em meu ouvido, com uma voz muito sexy.
- Eu sei que é você. – respondi, indiferente.
- Eu quem? – ela perguntou, encostando os lábios quentes na minha orelha.
- Bella. – afirmei, querendo zoar com a sua cara.
- Como assim Bella!? Como você tem a cora... – ela começou a pseudo gritar comigo, mas eu fui mais rápido e em um movimento ninja me virei e a calei com um beijo.
Quando a soltei, comecei a rir.
- Qual é a graça? – ela perguntou, irritada.
- HAHAHAHAHA. Sua voz de bravinha é a coisa mais fofa... Você acha mesmo que eu iria te confundir com a Bella? – me expliquei, ainda rindo.
- Então por que fez isso? – ela parecia magoada.
- Porque eu amo te ver brava. Você fica tão linda. – falei, a abraçando. Ela fez uma careta horrível e perguntou:
- Essa é minha mais nova cara de brava. Fico linda assim?
- Fica linda de qualquer jeito. – respondi, apertando seu nariz.
- É. E meu nome é Jacinto Pinto! – ela brincou.
- Bom, srta. Jacinto Pinto, vamos pra sala assistir alguma coisa? – perguntei.
- Só se você me levar no colo. – ela respondeu, fazendo bico. Não tive coragem de dizer não. Não para aquele rosto perfeito.
Peguei-a no colo e desci as escadas. Coloquei-a no sofá e me sentei ao seu lado. Envolvi meu braço em volta dela, que apoiou sua cabeça em mim e nós assistimos – na verdade nos beijamos – a qualquer filme que passava na Tv.
Quando ela adormeceu, a levei de volta para o quarto e me joguei na cama de casal do quarto de hóspedes, ouvindo os roncos de Pe Lu e Thomas e me sentindo o cara mais sortudo do mundo.

Victória fala:

Acordei me sentindo meio tonta. Minhas pernas estavam moles e minha garganta doía. “Maldita chuva”.
Olhei para o lado e vi Maria Eduarda e Júlia dormindo como anjinhos nos colchões. Levantei-me com cuidado e saí do quarto, tentando fazer o mínimo de barulho possível.
Entrei no quarto de hóspedes mais silenciosa do que nunca fora. Realmente não sei como não acordei Pe Lu e Thomas do jeito que sou desastrada.
Mas bem, isso não vem ao caso.
Deite-me na cama de Lanza e fiquei olhando para ele. Seu peito subia e descia e sua boca estava entreaberta. Os cabelos estavam jogados no rosto e ele estava todo torto na cama.
Observeio-o por mais algum tempo e fui interrompida por sua voz sonolenta:
- Vai ficar me olhando mesmo?
Sorri e abaixei-me, beijando sua testa de leve.
- Sabia que você fica lindo dormindo? – sussurrei.
- Sabia. – ele respondeu, se levantando e grudando sua boca na minha. [N/A: É, eu sei, coisa mais nojenta beijar de manhã com todo o mal hálito e essas coisas... Mas finjam que ele não existe. Afinal, é seu McGuy. ;D].
- Acorda os meninos que eu vou levar as meninas pra tomar café, ok? – perguntei, depois do nosso longo beijo. Ele sorriu perto da minha boca e respondeu:
- Ok, patroa.
Saí do quarto e voltei ao meu. Ao chegar, Júlia e Maria Eduarda ainda dormiam.
- MENINAS, ACORDANDO QUE A VIDA NÃO É COR-DE-ROSA. VAAAI, ACORDAAA! – gritei, jogando travesseiros e tudo que estava ao meu alcance nelas.
- Vai se foder, Victória! – Júlia reclamou, enfiando o cobertor na cara.
- É, vai se foder, Victória. – Maria Eduarda concordou, fazendo o mesmo.
- Bom, ok, acho que eu vou ter que tomar café sozinha com Pe Lu, Thomas e o Lanza Reis. – disse, e isso não causou impacto nelas. Completei: - Todos sem camisa.
E em alguns segundos depois todos nós estávamos na mesa da cozinha. E eles, de fato, estavam sem camisa. E não pense que foi fácil comer com a visão do peito nu de Lanza subindo e descendo na minha frente. Porque não foi.
Vou dizer algo. Ele é gostoso. Sério.
- Gente, cadê a Isa e o Koba? – Maria Eduarda foi a primeira a perceber o sumiço do casal.
- Nossa, verdade. Onde eles estão? – Pe Lu perguntou com a boca cheia, então saiu algo do tipo “Bossa, berdadi. Bondi ebes ebstão?”
- A última vez que eu os vi, estavam no maior amasso na lavanderia. – Lanza respondeu, enfiando um pedaço de bolo na boca.
Ai meu Deus, porque ele tinha que ser tão gostoso?
Eu lutava com meus olhos para eles não caírem tanto assim no corpo de Lanza.
Mas era difícil.
Bem difícil.
- E você não falou com eles? – Thomas perguntou, confuso.
- Falei. Eu mandei Koba procurar um quarto. E acho que ele seguiu minha orientação... – Lanza respondeu novamente, dessa vez rindo com os outros meninos de um jeito malicioso.
Olhei para Maria Eduarda e Júlia, que me lançaram olhares preocupados de volta.
- Será que aconteceu alguma coisa com eles? – perguntei, meio nervosa.
- Calma, Vic, não precisa se desesperar! – Pe Lu disse. – Por que a gente não liga pro celular de algum deles?
- É, verdade... – admiti. – Eu ligo.
Saí da cozinha e peguei meu celular em cima da Tv. Liguei para Isadora que atendeu no terceiro toque.
- Alô? Isa? – perguntei. – Cadê você?
- Vic? Oi, é o Koba. – Koba respondeu do outro lado da linha.
- Ah... Oi, Koba. A Isa tá aí? Eu posso falar com ela? Aliás, onde diabos vocês estão? – perguntei, aflita e curiosa ao mesmo tempo.
- Calma aí, são muitas perguntas pro meu pequeno cérebro! – Koba brincou. – A Isa tá dormindo, e nós estamos aqui em casa. – eu ia dizer algo, mas ele me cortou, continuando: - Vic, preciso ir. Vou fazer o café para ela. Depois eu falo pra ela ligar pra você.
- Ok, Koba. – respondi, achando o que ele disse tão fofo e nem me incomodando em encher o saco dele para trazer minha amiga viva para casa. – Beijos. Tchau.
- Falou.
Desliguei o telefone e fui até a cozinha avisar os outros que havia conseguido falar com Koba.
- Como assim a Isa dormiu lá? – Maria Eduarda perguntou, achando graça.
- Dormiu dormindo, ué! – respondi, me sentando na mesa.
- Será que rolou alguma coisa entre os dois? – Júlia sugeriu, nos olhando com o famoso olhar eu-sei-o-que-nossa-amiga-fez-no-verão-passado. Ou melhor, na noite passada.
- Se rolou ou não, depois ficamos sabendo. – respondi, piscando para ela.
- O Koba é meu herói! – Pe Lu exclamou, tomando um gole de suco.
- Por que o Koba é seu herói? – Thomas perguntou, curioso.
- Porque ele namora há um dia e já pegou a Isa de jeito! – ele respondeu, arrancando gargalhadas de todos nós.
- É, realmente, o Koba é meu herói... – Lanza concordou, olhando para mim de relance.
- O Koba é nosso herói! – Thomas exclamou, piscando os olhos como uma mocinha em perigo.
- Cala boca, seus tarados pervetidos. Vocês nem sabem se rolou algo ou não! – exclamei.
Acabamos de tomar café e fomos ver o estrago na minha casa. A parte de baixo estava mais suja e quebrada, então decidimos que as meninas iriam limpá-la e os meninos limpariam a parte de cima.
Os meninos subiram e depois de uns 10 minutos de trabalho árduo – na verdade, nós só rimos e jogamos o lixo fora – o meu celular tocou.
- Fala aí, sua vaca. – eu disse, ao atender a ligação de Isadora.
- E aí, Vic, alegria na padaria? – Isadora perguntou.
- Opa, tranqüilo no asilo! – respondi, rindo. – Agora vai, conta tudo. Por que a senhorita não dormiu aqui? E... – parei de falar ao ouvir as gargalhadas dela ao telefone. – Por que você tá rindo?
- Eu não dormi aí porque Koba me chamou para dormir aqui. E eu estou rindo porque ele está nesse exato momento dançando YACM para mim em cima da cama só de boxers. Olha, eu realmente preciso ver isso. Quando eu chegar aí eu te conto tudo. Tchau, Vic!
E desligou.
Durante o resto da manhã e o começo da tarde, limpamos a casa. Eu me segurando para não olhar muito para os braços de Lanza ao tirar o lixo dos quartos e para seu peito que subia e descia arfante depois de um dia de trabalho.
Êêêê visão do paraíso.
- Eu tô com fome, o que tem pra comer? – Pe Lu perguntou, se jogando de qualquer jeito no sofá da sala, todo sujo e suado, depois de ter acabado os quartos.
- Tem o meu telefone pra gente ligar pra pizzaria. – respondi, me jogando ao seu lado. Maria Eduarda fez o mesmo.
- Eu quero de mussarela.
Ligamos e a pizza chegou junto com Koba e Isadora.
- Boa tarde, galerinha do mal! – Koba exclamou, entrando em casa com as pizzas nas mãos. – Nem me chamam mais para a festa?
- Boa tarde, Koba. – respondemos em uníssono.
- Acho que você estava se divertindo mais. – Thomas respondeu sua pergunta, piscando para ele e deixando Isadora vermelha.
Nem sei como, devoramos a pizza em alguns segundos, e logo depois expulsamos os meninos de casa. Porque, bem, existiam coisas mais importantes a se fazer. Como descobrir nos mínimos detalhes o que acontecera na noite passada com Isadora e Koba.
- Eu te ligo. – Lanza sussurrou no meu ouvido, quando todos estavam distraídos. Pisquei para ele, observando-o ir embora com um sorriso idiota no rosto.
- Eu quero jogar Mário! – foi a última coisa que ouvimos Pe Lu falar antes do carro arrancar pela rua.
- Conta. – exclamei, segurando o braço de Isadora.
- Tudo. – Maria Eduarda concordou.
- AGORA! – Júlia exclamou, empurrando-a para dentro de casa e logo depois no sofá.
- Ok, vou contar desde o começo. – ela se deixou levar. – Ontem à noite, quando Lanza nos mandou arrumar um quarto...

Flashback on.

Isadora fala:

- Olha, até que não é uma má idéia! – Koba disse, voltando a me beijar.
Eu estava nervosa – desculpe o palavreado – pra caralho! Mesmo com Koba, minha cabeça não conseguia relaxar. Nem minha cabeça e muito menos meu corpo.
- O que foi Isa? – ele perguntou, parando de me beijar e me olhando curioso. – O que você tem?
- Não sei, Koba... – suspirei, olhando para o outro lado. – Acho que eu estou nervosa.
- Hey, maluquinha, olha pra mim? – ele pediu, me virando delicadamente pelo queixo. Olhei para ele com cara de gatinho do Shrek. – Você sabe que se não quiser, nós não vamos fazer nada!
- Mas eu quero! – respondi. – Eu quero fazer com você... – olhei para seus olhos e senti suas mãos na parte de dentro da minha coxa. – E eu quero agora!
Maria Eduarda sentiria orgulho de mim se visse o jeito que eu o agarrei depois do meu comentário mais que pornográfico.
Koba me beijava sorrindo e a cada segundo que passava a sua empolgação me contagiava.
- Ok, acho que agora é um ótimo momento para seguir o conselho de Lanza. – Koba sugeriu, com a boca colada na minha.

Flashback off.

Lanza fala:

- Koba, você é meu herói! – Pe Lu exclamou pela décima quinta vez, se contorcendo todo no sofá para seguir os movimentos do controle do vídeo-game.
- Meu Deus, Pe Lu, se você fica assexuado quando bebe, sóbrio compensa tudo! – Thomas disse, imitando Pe Lu com o controle nas mãos.
- Dá pra vocês pararem de putaria e deixarem a porra do Koba terminar a história? – pedi, o único que conseguia ficar parado ao jogar vídeo-game.
- Ok. Depois que disse aquilo, dirigi como um louco para chegar em casa...

Flashback on.

Koba fala:

Quando finalmente abri a porta de casa, já segurava Isadora no colo e nos beijávamos um tanto quanto calorosamente.
- Espera, espera um pouco. – pedi, colocando-a no chão. Ela se apoiou na parede e eu cheguei perto dela como se fosse a beijar, mas quando ela fechou os olhos, amarrei uma venda neles e sussurrei no seu ouvido:
- Conta até 30 e segue as plaquinhas.
Enquanto ela contava, subi e me escondi.

Flashback off.

Victória fala:

- E aí? O que estava escrito nas plaquinhas? – perguntei, agora com total atenção ao que ela contava, colocando o vidro de esmalte vermelho em cima da minha escrivaninha.
- Conta, Isadora! Não deixa a gente curiosa! – Júlia pediu.
- Por que o Pe Lu não é fofo assim? – Maria Eduarda reclamou.
- Peguei a plaquinha e...

Flashback on.

Isadora fala:

Li o que estava escrito.

“Para provar que é pra sempre, vá até a cozinha e pegue seu presente. Eu Te Amo.”

Entrei na cozinha e um pacote vermelho e pequeno estava na mesa de centro. Peguei-o e, em cima dele, preso no teto, havia outro bilhete.

“Esse anel pertenceu a minha bisavó e tem a tradição de ser entregue a pessoa que mais amamos no mundo. Bom, pelo que você deve ter percebido, essa pessoa é você.
Agora vá até a sala e descubra porque você é minha amada.
Aishiteru.”

Fui até a sala depois de colocar o anel no dedo e, embaixo de outro bilhete, um livro. Peguei-o e o abri. Dentro, fotos minhas de bebê – muito obrigado por dar essas fotos para qualquer estranho que ver passar na rua, mãe – até a última foto que havia tirado, minha com ele.
Chorando – é, eu sei – peguei o cartão e li.

“Peguei essas fotos com a sua mãe. Espero que não se importe. É só para provar porque eu te amo. Mas, como não amaria, com esse sorriso lindo?
Agora, por favor, pare de chorar e vá até o quarto de Lanza subindo as escadas. Vai amor, não fica aí parada!
Ich Liebe Dich.”

Ri sozinha e subi as escadas, virando a direita e entrando no quarto de Lanza. Lá dentro, em cima da cama, havia um pacote. Dessa vez, peguei primeiro o cartão.

“Ok. Admito. Eu adoraria se você vestisse isso, mas se você não quiser, tudo bem, eu supero.
Ou não.
Bom, vestida ou não, vá para o quarto do boneco Mário. Lá dentro encontrará um presente no armário.
Je T'aime.”.

Ri sozinha novamente. O boneco Mário era um boneco horroroso que uma menina apaixonada por Thomas dera para ela no Natal passado – pelo menos foi o que Pe Lu me contara.
Olhei para baixo e abri o pacote que estava em cima da cama. Nem pude acreditar quando vi dentro dele uma fantasia de enfermeira.
Tão Koba!
Pensei bem. O que custaria? Aliás, seria engraçado.
Coloquei a fantasia e me olhei no espelho. Tinha ficado legal.
Para uma puta.
Saí pelo corredor e entrei no quarto de Thomas. Me aproximei do armário e fui envolvida por duas mãos nos meus olhos.

Flashback off.

Lanza fala:

- HAHAHAHAHA! – eu, Pe Lu e Thomas rimos.
Enfermeira? Boneco Mário?
Totalmente Koba!
- Pera aí. Vocês fizeram alguma coisa no meu quarto? – Thomas perguntou, incrédulo.
- Não, cacete. Eu não conseguiria com aqueles pôsters do Travis me olhando. – Koba respondeu, entortando a boca.
- Claro, e com os pôsters do Tom Delonge você consegue... – Pe Lu disse, virando os olhos.
- Posso continuar, porra? – ele perguntou.
- Pode. – respondi.
- Aí...

Flashback on.

- Koba!? – ela perguntou, colocando as mãos por cima das minhas.
- Hey, não diz nada, minha enfermeira. – respondi, empurrando-a delicadamente porta afora.
Isadora riu baixinho.
Levei-a ao meu próprio quarto, quase babando em cima dela, hot demais naquela roupa branca de enfermeira.
Chegando lá, sussurrei no seu ouvido:
- Pronta?
Isadora pensou um pouco.
- Pronta.
Tirei as mãos de seus olhos.
Ela ficou parada, olhando para o quarto, muda. Esperei um pouco e coloquei a cabeça no seu ombro, sentindo o perfume dos seus cabelos.
- Gostou?
- Se eu gostei!? – ela exclamou, com a voz embargada.

Flashback off.

Victória fala:

- E aí, você gostou? – Júlia perguntou.
- Posso terminar? – ela perguntou, irritada.
- Pode.
- Então eu respondi...

Flashback on.

- Koba! – exclamei, sentindo as lágrimas voltarem. – Está lindo! Você não precisava...
Olhei novamente para o chão, com uma trilha de pétalas de rosas vermelhas, que chegavam à cama, onde mais pétalas foram jogadas. Em cima dos móveis, velas rosas, vermelhas e laranjas, de todos os tamanhos, estavam acesas. Ao lado da cama, um balde com gelo, chapanhe e duas taças.
- Tudo bem, linda! – ele respondeu, me virando de frente para ele. – Por você eu sou capaz de tudo. Agora, você tem certeza que quer fazer isso?
Olhei em volta novamente. Estava tudo lindo. Mesmo.
Mas, ao observar bem, vi a peça chave de todo o mistério. O que me fez decidir por fazer realmente aquilo.
Ao lado da sua cama, no seu criado-mudo, havia uma foto minha, com uns 14 anos. Na época que meus cabelos eram ondulados e castanhos claros, um pouco a baixo dos ombros. Na foto, um coração em marca texto estava desenhado em volta do meu rosto e, embaixo, estava escrito: I love her.
Então eu me decidi.
Simples assim.
- Tenho. – respondi, beijando-o e o empurrando na cama.

Flashback off.

Lanza fala:

- Ok, pode parar por aí! – pedi, gritando ao matar Koba no jogo. Ele jogou o controle longe e se jogou para trás, apoiando-se nas mãos atrás da cabeça e se espreguiçando.
- Foi a melhor noite da minha vida. – afirmou, sorrindo como idiota.

Capítulo 15 – O Príncipe Encantado sempre estará lá pela Princesa em perigo.

Victória fala:

- Isso é tão emocionante! – Júlia piou, olhando em volta com um sorriso bobo no rosto.
- Emocionante? – Maria Eduarda perguntou, emburrada. – Você realmente acha emocionante umas 4 mil garotas histéricas gritando os nomes dos nossos namorados?
- Seus namorados. – a corrigi, como sempre.
- Ai Duda, credo, que insegurança é essa? – Isadora perguntou, e eu concordei com a cabeça.
- Relaxa, Duda, o Pe Lu é meio bobão, mas ele te ama! – afirmei, roubando um chocolate da mesa do camarim dos meninos, que estavam lá fora gritando como mocinhas ao ver todas as fãs, socadas no DellRay, que gritavam seus nomes enlouquecidamente. – Sabe como é, nenhuma dessas fãs chega aos seus pés.
- Quem ama quem? – Lanza perguntou, entrando com tudo pela porta, sem olhar para mim. Apertei meu celular no bolso com força, lembrando a mim mesma a mensagem que recebera dele na noite passada. “Queria você aqui comigo. É difícil de admitir, mas eu preciso de você cada dia mais. Te amo!”.
“Eu que te amo, porra!” fiquei com vontade de dizer.
- Não interessa, Lanza Reis. – respondi, ao invés disso.
- Tudo estava tão bem quando vocês fingiam que eram amigos... – Júlia disse, revirando os olhos para nós dois.
O negócio é que, depois do nosso pacto na chuva, voltamos a nos maltratar na frente dos nossos amigos.
- Vocês viram quanta gente!? – ele perguntou, ignorando Júlia. – Nunca imaginei que tantas meninas gritariam meu nome assim sem ser porque eu passei a mão nelas “acidentalmente”! Bem que Bob disse, mas eu meio que não acreditei que os ingressos estavam esgotados e...
- Será mesmo que esgotou? – Júlia perguntou.
- Patrick disse que sim, e é o que parece. As meninas estão esmagadas ali embaixo! Tem, tipo, umas 4 mil fãs gritando nossos nomes ali! – ele respondeu, com os olhos brilhando. Seu olhar se encontrou com o meu e eu sorri rapidamente.
- 4 mil meninas gatas, vadias e louquinhas para ficar com o MEU Pe Lu! – Maria Eduarda resmungou.
- Não exagera, Duda. Acho que é uma coisa mais equilibrada, tipo umas mil pra cada um... – Lanza brincou e Maria Eduarda ficou mais emburrada ainda, se afundando de vez no sofá.
- 5 minutos! Ai caralho! – Koba irrompeu pela porta com Pe Lu e Thomas atrás. – Agora eu sei o que vocês sentem quando ovulam!
- Meu Deus, que coisa mais nojenta! – Júlia exclamou, fazendo uma careta e jogando uma toalha branca e felpuda em Koba, que gargalhou.
Continuamos a zoá-lo, e em meio as risadas, Pe Lu percebeu Maria Eduarda emburrada no sofá e foi conversar com ela.
Ele a abraçou pelos ombros e falou algo baixinho em seu ouvido, enquanto ela só afirmava com a cabeça. Quando Patrick apareceu na porta do camarim para avisar que o show iria começar, ela parecia mais calma.
- Nós vamos esperar aqui fora. – Isadora disse, percebendo que os meninos queriam ficar sozinhos com o empresário.
Patrick fechou a porta e começou a falar alguma coisa para os meninos, que só murmuravam em resposta. Nós, lá fora, começávamos a ficar nervosas.
Eles só ficaram alguns segundos lá dentro, mas para mim pareceu uma eternidade. Eu estava muito nervosa por Lanza, porque era seu primeiro grande show. Eu não queria ver o cara que eu amava se dando mal em frente de todas as fãs.
Ou queria?
- Vamos? – Thomas, visivelmente o mais calmo, perguntou para nós, ao sair do camarim.
- Vamos aonde? – perguntei, saindo dos meus pensamentos.
- Ué, vocês não vão assistir ao show do lado do palco? – ele perguntou, estranhando minha pergunta.
Dã!
- Ah, é, claro. – respondi, me lembrando. Eu estava tão nervosa que até me esquecera do que estava fazendo ali.
- Vamos, meu baterista gostosão! – Júlia exclamou, sumindo com Thomas pelo corredor.
- Ok. Palheta: no bolso. Cabelo: penteado. Zíper: fechado. – Koba ia conferindo tudo e se apalpando ao andar pelo corredor ao lado de Isadora. – Agora, onde eu deixei m...
- Tá no palco, Koba, no palco... – Isadora suspirou, cortando-o porque era a terceira vez que ele perguntava onde estava seu instrumento. Os dois também sumiram pelo corredor.
- ... Prometo, ok? – Pe Lu continuava a falar baixinho com Maria Eduarda, enquanto viraram o corredor atrás de Koba e Isadora.
Olhei para a porta e quase fui derrubada por Patrick, que murmurou algo como “desculpe” e saiu correndo pelo corredor.
Enfim a sós.
Com Lanza.
Hum...
- Nervoso? – perguntei, me apoiando na parede branca e áspera. Lancei-lhe um olhar sou-uma-moça-inocente e sorri.
- Um pouco. – ele respondeu, com as mãos nos bolsos, me olhando com malícia no olhar.
- O que foi? – perguntei, ainda bancando a inocente. Pisquei os olhos algumas vezes e ele soltou uma risada meio anasalada. Balançou a cabeça e sorriu torto.
Ah, aquele sorriso torto...
- Nada. – respondeu, ainda com o sorriso no rosto. – Nada. – repetiu.
- Pode falar, Lanza Reis, porque estava me olhando desse jeito esquisito! – ordenei, e ele abaixou a cabeça, mas pude notar que suas bochechas ficaram vermelhas.
- É só que... – ele parecia envergonhado, mas isso não o impediu de se aproximar de mim, ainda com as mãos nos bolsos. – É difícil olhar para você e não querer sorrir.
Eu praticamente me desmanchei ali na frente dele, depois daquele comentário.
- Digo o mesmo. – respondi, andando até onde ele havia parado, no meio do caminho. Peguei suas mãos e as coloquei nos meus ombros. – Você vai apaixonar todas as meninas que estiverem no show hoje.
- Por isso que é bom ser o único da banda solteiro... – ele disse, dando uma de garanhão e virando os olhos. Dei um tapa ardido no seu braço e ele gargalhou. – Brincadeira, amor, brincadeira!
- Bom, então vai lá e arrasa M-E-N-I-N-A! – eu brinquei, apertando as bochechas dele, que sorriu e beijou a ponta do meu nariz.
- Claro que sim, eu tenho que fazer bonito na frente da minha garota! - ele sussurrou no meu ouvido, e logo em seguida deu um pulo para trás ao ouvir a voz de Koba ecoar do outro lado do corredor:
- Lanza!? Você quer mesmo que as meninas derrubem a grade de segurança!?
Ele riu de um jeito completamente fofo e apaixonante e foi em direção a Koba, não sem antes fazer um coração com as duas mãos no ar para mim.
Olhei abobalhada para ele.
Alguém conseguia ser mais perfeito?

Lanza fala:

- E AÍ, DELLRAY! – Pe Lu gritou ao microfone, fazendo todas as fãs gritarem alucinadamente. – COMO VOCÊS ESTÃO HOJE À NOITE? – mais gritaria. – AGORA EU QUERO OUVIR TODO MUNDO FAZENDO BARULHO COM FIVE COLOURS IN HER HAAAIR!
Mais gritos. E mais gritos. E MUITO mais gritos.
Olhei para Koba assustado. Como aquelas meninas conseguiam gritar tão alto daquele jeito? Desviei os olhos dele e olhei para o público enquanto cantava. Meninas – algumas bonitas, outras não – chorando, gritando, cantando, pulando... Mas todas com um só propósito: pegar um McLoser.
- E aí, Lanza, o que está achando das nossas fãs hoje? – Koba perguntou no microfone, depois que acabamos de tocar Five Colours.
Para quem nunca tinha feito um show grande, até que nós estávamos indo bem.
Mas é claro que Patrick teve uma boa contribuição nisso.
“Não vomitem. Pega mal. Sério.”.
- Eu acho que elas são as melhores fãs que já existiram! – gritei de volta.
E esse comentário terminou em – te dou um chocolate se você acertar: isso mesmo que você pensou... Gritos.
- Bom, eu concordo com você, Lanza. – Pe Lu entrou no meio da conversa. – E você Thomas?
- Eu amo minhas fãs. – Thomas gritou de um jeito engraçado no microfone preso a bateria. – E amo o Koba!
- Eu também te amo, Thomas. – Koba respondeu, rindo.
- E eu? Ninguém me ama? – perguntei, aparentemente magoado.
- Não. – Pe Lu respondeu, fazendo os outros – e todas as meninas – rirem. Algumas até gritaram: “EU TE AMO!” para mim. – Bom, essa música eu dedico à minha namorada, Maria Eduarda, que está ali do lado do palco. – Pe Lu continuou, apontando para onde Maria Eduarda estava escondida, que somente sorriu de um jeito engraçado e se escondeu atrás das outras meninas. – É um cover do Beatles, e se chama And I Love Her. Duda, minha bobinha ciumenta, eu amo você e é pra sempre!
Todas as meninas na platéia – claro, aquelas que não quase espumaram de raiva – fizeram: “aaaaaah!” e Maria Eduarda gargalhou do lado do palco, com os olhos brilhando de admiração.
- Ah Pe Lu! Que coisa mais romântica! – exclamei de um jeito bem gay, antes de começar a tocar, fazendo as fãs rirem.
Pe Lu olhou para Maria Eduarda com cara de bobo a música inteira, e eu o imitava, fazendo Koba morrer de rir.
O show foi tranqüilo, sem nenhum atentado terrorista de nenhuma das meninas. Ao final, recebemos algumas fãs no camarim, mas nada muito EU TE AMOOOO, AAAAAH! Elas foram como qualquer fã normal. Sabe como é, tiraram fotos, pediram autógrafo, passaram a mão e essas coisas.
- Sei lá, acho que ela não era realmente loira... – Júlia dizia, entrando no carro de Thomas, que estava estacionado atrás do DellRay, depois do show. Iríamos divididos para casa. Eu, Victória, – mais que ironia – Júlia e Thomas no carro de Thomas e Koba, Isadora, Maria Eduarda e Pe Lu no carro de Pe Lu. – Aposto 10 pratas que ela não era loira.
- Claro que era loira, cabeção! – Thomas disse, dando um tapa de leve na cabeça de Júlia. – Você não viu a cor da sobrancelha dela?
- Ai cabeção! – Júlia repetiu o gesto, fazendo Harry rir. – Você não sabe que dá pra pintar as sobrancelhas?
- Meu Deus, vocês são o casal mais chato do mundo! – Victória exclamou, rindo.
Júlia e Thomas discutiam sobre uma fã que ficara dando em cima de Koba, que, por sua vez, se agarrou em Isadora e não soltou mais, aparentemente com medo da menina.
- Ok, o que acham de pedirmos uma pizza? – Thomas sugeriu, dando partida no carro e seguindo Pe Lu pela rua.
- Pizza! – eu e Victória exclamamos ao mesmo tempo. Olhei para ela com a sobrancelha levantada, que deu de ombros. Por dentro, e isso eu pude sentir, ela se segurava para não rir.
- E pizza será! – Júlia disse, ligando o rádio.
Chegamos em casa e pedimos a pizza, que chegou alguns minutos depois. Eu e Victória éramos os mais esfomeados, e meio que comemos uma pizza inteira.
- Meu Deus! Não é à toa que vocês vivem brigando! Imagina se vocês namorassem. Tipo: “Sai, Lanza, esse pedaço de pizza é meu!”. – Isadora comentou, horrorizada, apontando para a caixa de pizza vazia que eu e Victória comemos.
Eu olhei para ela e sorri tímido, abaixando os olhos. Victória, ao meu lado, ficou em silêncio. Mas era meio o que acontecia toda vez que comentavam sobre nós dois.
Ah, se eles soubessem!
Mas sabe que esse negócio de ficar mentindo estava me transformando em um ótimo ator e todas essas merdas.
Hollywood, me aguarde!
- Hey, vocês, venham ver isso! – Pe Lu gritou do computador, algum tempo depois da sessão vamos-falar-sobre-Victória-e-Lanza, atrapalhando nossa sessão “piadas de pontinhos”.
Ótimo. Lá vamos nós de novo!
Nos levantamos, já ansiosos pelo o que iríamos encontrar lá. Ao chegar no computador, encontramos o Conte Seu Babado – supresa! – aberto e uma foto piscando no monitor.
Era uma foto da Restart com algumas fãs. Com quatro fãs para ser mais exato. A ordem da foto era Thomas abraçado – meio de lado, como se estivesse em uma conversa super interessante com a garota – a uma morena. Ao lado da morena uma ruiva – que sorria mais do que a sala podia suportar, me fazendo sorrir também, porque, dude, aquela era realmente minha fã – abraçada a mim. Ao seu lado, Pe Lu abraçava – e olhava interessado para o decote dela – uma morena com as pontas dos cabelos mais claros e, ao lado dela, Koba abraçado à loira que ficou dando em cima dele.
Embaixo da foto, outro post.

“Como vão, coisas fofas? Tudo bem? Comigo está tudo ótimo, caso vocês queiram saber. Os negócios estão indo de vento em polpa!
Mas ignoremos as formalidades e falemos sobre os novos rockstar do nosso colégio. Os gostosos do McFLY!
Na foto, como vocês podem ver, são eles e algumas fãs. Mas que relação ‘próxima’ com elas, eim? Foram as próprias meninas que me mandaram essa foto!
Não é uma graça?
Ali do lado esquerdo, Thomas e Melody. Parece que os dois estão muito bem entretidos, eim? Ao lado de Melody, Jennifer e Lanza. Agora, quem está mais feliz na foto? Eu não sei... Ao lado de Lanza, Pe Lu, Mandy e os olhos de Pe Lu no decote de Mandy. Hahahaha. Mas que feio, eim sr. Munhoz! E ao lado de Mandy, Elise e Koba. Elise? Elise... Não foi ela que ficou o show inteiro segurando um cartaz ‘Koba, casa comigo?’.
Hum, parece que sim...
Agora, vocês devem – ou não – estar se perguntando: qual é a grande fofoca dessa foto?
O problema, meus lindos, como vocês já devem saber em meio às fofocas que circulam em nosso respeitável instituto de educação, é que os meninos têm namorada!!!
É... Isadora, Maria Eduarda, Júlia e Bella? – se bem que Bella é mais ou menos um estepe, mas vamos considerar que sim. – Se eu fosse vocês, cuidaria mais dos seus homens!
Sabe que eu acho que foi exatamente por isso que Victória deu um pé bem dado na bunda do Lanza Reis?
Provavelmente alguém não agüenta o ciúmeees.
Ah, e por falar nos garotos da Restart, tenho um recado especial para você-sabe-quem.
Pista 1 – Você conversa comigo quase todos os dias. Nós somos até que próximos. De um jeito diferente, mas somos.
Beijos para as meninas e para os meninos também!
XXOO.”

Terminei de ler e olhei para Maria Eduarda, que estava com a boca ligeramente aberta. Virei meu rosto para Pe Lu e ele estava com as sobrancelhas unidas, com um rosto legal-agora-eu-me-ferrei.
- Hum. – murmurei, porque, bem, foi a única coisa que eu consegui fazer. – Olha. Minha primeira pista! – exclamei, tentando cortar o silêncio da sala.
- Pe Lu. Por que você estava olhando para o decote da menina? – Maria Eduarda perguntou, ignorando meu comentário e se virando para ele. Pe Lu se curvou como se tivesse tomado um soco no estômago e respondeu:
- Amor, veja bem, eu...
- Você e eu. Lá em cima. Agora. – ela disse, marchando em direção à escada.
Pe Lu nos lançou um olhar foi-bom-conhecer-vocês e foi atrás de Maria Eduarda, como um cachorrinho. Olhei para Júlia, que parecia não ter se importado com a foto e já estava conversando sobre Et's com Thomas. Et's?
Quem conversa sobre Et's com a namorada?
Principalmente depois de ter visto uma foto completamente alheia ao assunto?
Mas bom, deixa pra lá, meus amigos eram meio estranhos mesmo...
Isadora também não pareceu ligar. Na verdade, estava rindo dos dentes tortos da loira que estava com Koba, que também ria, aliviado.
Olhei por último para Victória, que levantou a sobrancelha e foi até a cozinha. Entendendo o recado, disfarcei um pouco e fui atrás.
- Hum... – disse, ao entrar. – Você ficou chateada? – perguntei, me apoiando na bancada ao seu lado. Ela sorriu e tomou um gole de Coca.
- Não, Lanza. Só quero saber quando você vai terminar com Bella. – ela respondeu, virando outro gole. – Só isso. Suas fãs não me preocupam.
- Segunda. E você, quando vai terminar com o Josh?
- Segunda.
Ficamos em silêncio, nos analisando.
- GENTE! VENHAM VER ISSO! – Koba exclamou, entrando na cozinha. Tomei um susto e Victória sorriu torto. – Vic e Lanza juntos sem se matar! – ele esclareceu, quando Isadora, Thomas e Júlia se juntaram a nós.
- Ah, vai se foder, Kobayashi... – ela disse, mordendo a bochecha de Koba, que sorriu e mordeu a dela.
Ficamos por ali até uma e pouco da manhã, falando besteira e – novamente – combinando nossas férias, que seriam dali duas semanas.
- Tchau para os que ficam! – Isadora exclamou, dando um selinho no namorado e um beijo no meu rosto, no de Thomas e no de Pe Lu – que havia descido com Maria Eduarda meio pálido, mas já estava bem com ela. Pelo menos foi o que pareceu. – Até amanhã!
- Amanhã nós temos show de novo. – eu informei.
- E quem disse que nós não vamos? – Júlia perguntou, fazendo uma careta e roubando a barra de chocolate que Thomas comia.
- É, se vocês forem ficar dando em cima de suas fãs, nós temos que estar por perto para zoar elas. – Isadora concordou e Maria Eduarda riu.
- Ok, não agüento mais olhar pra cara de vocês! – disse, empurrando as meninas pela porta. – Até amanhã!
- Até amanhã, seu mal comido! – Maria Eduarda disse, e elas entraram no carro de Thomas, que as levaria para casa. Aproveitando que elas se estapeavam para ver quem ia na frente – e quem iria escolher os Cd's – peguei meu celular e mandei uma mensagem para Victória, que chegou enquanto Harry ainda ligava o carro e se defendia as unhadas entre si das meninas.
“Boa noite, princesa!”
Ela respondeu, gargalhando ao escrever no celular.
“Princesa? Que coisa mais brega, Lanza Reis! Mas boa noite mesmo assim, meu príncipe!”
Sorri.
- É a Bella, dude? – Koba perguntou, apontando para o meu celular.
- Não. – respondi, guardando-o. – É alguém bem melhor.

Victória fala:

Entrei em casa na ponta dos pés para não acordar minha mãe, porque ela odiava ser acordada no meio da noite. Ela voltara mais cedo de sua viagem, e eu agradeci aos céus por ela não ter voltado antes e visto a festa que eu havia dado.
Rosa ainda não havia chegado, então éramos só nós duas na casa.
Passei pela cozinha e parei, ao ver uma neblina sair de lá dentro. E antes que eu pudesse correr escada acima, ouvi minha mãe me chamar de dentro dela:
- Victória, pode vir aqui?
Opa.
Mãe.
Na cozinha.
Fumando.
De madrugada.
Coisa boa não era.
- Desculpe, mãe, eu prometo que amanhã eu chego cedo! É que os meninos fizeram o primeiro grande show deles e... – tentei explicar, mas ela me cortou.
- Não é nada disso. Eu preciso... – ela parou de falar para tragar seu cigarro. – Falar com você. Sobre algo. E é importante.
- Tudo bem. Estou toda a ouvidos. – respondi, com receio do que seria. Minha mãe só fumava quando algo estava realmente errado.
Entrei na cozinha e olhei para ela, de costas para mim, que não se virou e continuou falando:
- Não sei se você algum dia vai me perdoar por te contar isso só agora, sendo que eu sei disso há meses. Mas agora não é hora de se arrepender... Bom, eu vou direto ao ponto. – então ela se virou, e eu me assustei ao ver seus olhos inchados e vermelhos. – Querida... – lágrimas caíram por sua bochecha. – Seu pai está voltando para o país. Daqui a pouco. Com... – agora as lágrimas caíam sem que ela pudesse controlar. – Com Ryan.
Respirei fundo, tentando processar o que tinha ouvido.
Meu pai.
Com Ryan.
Voltando.
- C-como assim? – gaguejei, não processando muito bem a informação.
Eu acabara de ouvir minha mãe pronunciar o nome do meu irmão?
- Querida, há alguns meses seu pai vem me ligando, dizendo que iria voltar. E eu não acreditei nele, por isso te privei desse sofrimento desnecessário. Mas... Mas hoje ele me ligou e disse que estava embarcando com Ryan para ver você. E que não iria mais embora. Que iria ficar aqui no país com Ryan.
Fiquei em silêncio, olhando para ela e pedindo para que aquilo fosse algum tipo de brincadeira.
Mas ela não estava exatamente no humor para brincar.
- Querida, por favor, fale alguma coisa! – ela pediu, se aproximando de mim e pegando meu pulso. Olhei para baixo e a verdade me atingiu em cheio.
Meu pai estava voltando.
Com Ryan.
Olhei para a mão da minha mãe que segurava meu pulso e a repeli, com nojo.
Até pouco tempo eu estava feliz, com o cara que eu amava, e logo depois eu recebo uma notícia daquelas da pessoa que eu mais confiava no mundo?
Senti uma bola se formar na minha garganta.
- Victória? – ela pediu mais uma vez, segurando meu braço novamente. O repeli também, agora com uma mistuta de nojo com ódio.
Ódio por ela ter mentido daquele jeito para mim.
- Por favor, eu fiz isso para seu bem! – ela tentou pela última vez que eu dissesse algo, soluçando e não impedindo as lágriamas que corriam por seu rosto.
- Para o meu bem? – juntei forças que jurei não ter para conseguir dizer. E então as palavras começaram a correr para fora da minha boca. – PARA O MEU BEM? – repeti, gritando. – MEU PAI E MEU IRMÃO VOLTAM DEPOIS DE 8 ANOS LONGE E VOCÊ SÓ ME AVISA NA HORA QUE ISSO VAI ACONTECER? – continuei gritando, agora sentindo lágrimas se formarem embaixo dos meus olhos. – MÃE! – me curvei, como se uma espada tivesse furado meu estômago. As lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto. De repente, não tinha mais forças para gritar. – Mãe... – repeti, soluçando. – Eu não quero vê-los! Eu não quero... Eu não posso... – sussurrei, com as mãos no estômago, sentindo uma dor incomparável.
- Me perdoe. Por favor, querida, me perdoe... – ela pediu, com a voz desesperada, envolvendo seus braços no meu cabelo e me encostando em seu peito. – Eu nunca quis que você sofresse. Eu nunca quis...
Fiquei ali, chorando abraçada a ela, que passava a mão por meus cabelos e também chorava, sentida.
Mas depois de algum tempo, o ódio me dominou por completo. Desvencilhei-me dos seus braços e fiquei em pé, limpando as lágrimas com as costas da mão.
- Você mentiu para mim, mãe. Você prometeu que eles não voltariam. Você prometeu que eu nunca mais iria sofrer assim. Você é uma mentirosa. – eu disse com uma voz séria, baixa e irada, despejando toda minha raiva em cima dela, que arregalou os olhos e ficou me olhando.
- Eu sei, eu sei que prometi, mas eu não pude fazer nada, eu... – ela gaguejou, olhando no fundo dos meus olhos e se assustando com a intensidade com que eles a fitavam.
Não posso culpá-la. Até eu estava assustada com que o que estava sentindo.
- Eu te odeio. – disse por fim, cuspindo as palavras que estavam entaladas na minha garganta.
Minha mãe soltou um gritinho acompanhado de um soluço, e voltou a chorar, com as mãos enterradas no rosto. Mas não esperei resposta e nem fiquei por lá para me arrepender. Fui até a sala, peguei meu blusão da GAP. E quando dei por mim, estava correndo pela rua, sem rumo.
Corria como se pudesse esquecer os problemas. Como se a única coisa que existisse no mundo fossem minhas pernas embaixo de mim. A sensação me deixava segura, mas logo me cansei. Cansei de tentar esquecer dos problemas quando eles estavam ali, batendo à minha porta. Cansei de me fazer de forte, quando o que eu mais queria era parar o mundo e descer.
Nem sei por quanto tempo corri, mas deve ter sido muito, porque quando parei, estava na frente da casa dos meninos. Olhei para a janela da frente e meu coração deu um pulo diferente dentro do peito, um pulo gostoso, como sempre dava ao me lembrar dele.
Ele. O cara da minha vida. A única pessoa com quem eu me sentia segura o suficiente para conversar, contar coisas da minha vida e rir.
Rir.
Eu estava precisando rir.
Agora eu soluçava baixinho e não conseguia me controlar. E suspeitei que não conseguiria sozinha. Por isso, agachei-me, peguei algumas pedrinhas no chão e me dirigi à janela da frente.
Eu sabia que ele me entederia e me ajudaria.
E, naquele momento, percebi porque eu precisava tanto dele que chegava a doer. Na verdade, Lanza, além de ser o cara que eu amava, era o meu porto seguro.

Lanza fala:

Parecia que eu tinha acabado de fechar os olhos quando comecei a ouvir barulhinhos irritantes na minha janela. Abri as pálpebras e esperei um pouco. Eles cessaram. Voltei a fechá-las. E como naqueles desenhos animados chatos, no momento que isso aconteceu, os barulhos começaram de novo.
- Porra... – sussurrei, me apoiando nos cotovelos. Olhei para a janela sonolento e a luz do poste a iluminava, deixando minha visão ofuscada. Levantei-me e calcei meus chinelos no chão. Arrastei-me até a janela e a abri. – Quem é o filho da p... – ia dizendo, mas parei, quando meus olhos desfocados se encontraram com os olhos chorosos que me encaravam lá embaixo. – Vic!?
- Lanza...? – ela soluçou baixinho e eu me apoiei na batente da janela.
- Espera aí. – sussurrei, entendendo que ela precisava de mim. – Estou descendo.
Ela concordou fraquinha com a cabeça e continuou a soluçar.
Entrei em meu quarto, coloquei a primeira camiseta que achei, um moletom velho e enfiei meias em meus pés, logo depois os calçando nos chinelos. Desci as escadas correndo e sem fazer barulho, e quando apareci na porta, Victória estava agachada perto dela, chorando sem parar.
Eu nunca tinha a visto daquele jeito. Suas mãos estavam enfiadas no couro cabeludo e seus soluços eram baixinhos mas mortais.
Meu coração parou de bater na mesma hora.
- Vic, o que aconteceu? – perguntei, correndo até ela, que se limitou a continuar chorando. Agachei-me ao seu lado e envolvi meus braços em sua cintura. Ela amoleceu e tombou a cabeça em mim. – Vic, você tá me assustando! O que aconteceu?
Seu rosto estava inchado e seus olhos vermelhos. Sua boca tremia e as lágrimas corriam rapidamente por seu rosto, se dissolvendo em seus lábios vermelhos.
- Meu pai... Voltando... Ryan... – ela murmurou, entre espasmos do corpo. Passei os dedos por entre seus cabelos e não disse nada, com medo de dizer algo que piorasse a situação.
O negócio é que eu era bem resolvido com a minha família. Nunca tivera problemas e sempre fora muito amado – fora algumas briguinhas particulares – por meus pais. Eles não tinham problemas entre eles, sempre comemoravam suas bodas em um restaurante japonês nojento – que eu não sei como até hoje nunca foram intoxicados – e assistiam a Tv juntos.
Sabe como é, o que todo casal depois dos 40 anos se limita a fazer.
Fechei meus olhos e enconstei minha cabeça em seus cabelos desgrenhados, respirando fundo seu perfume.
Não sei porquê, mas de repende me senti... Triste.
Triste por Victória, que estava ali, tão magoada e vulnerável.
- Sabe, quando eu era criança e meus pais brigavam comigo, a única coisa que me acalmava depois era fugir para a casa do meu amigo, Jimmy, e ficar horas e mais horas na piscina, boiando e pensando na vida. – confidenciei e ela, que fungou no meu peito. Não sei porquê disse aquilo, mas queria de algum jeito acalmá-la.
Ficamos um pouco em silêncio, ouvindo o som dos grilos misturado ao som de seu choro magoado. Então ela balançou os cabelos e levantou a cabeça para mim, piscando seus grandes olhos vermelhos e me encarando.
- Vamos fazer isso. – ela disse, fungando. – Vamos fazer isso! – repetiu, agora mais animada, se levantando em um salto.
- Isso o quê? – perguntei, me levantando também. Victória passou a mão por entre os cabelos, jogando-os para trás, e respondeu:
- Nadar. Na piscina de alguém!
- Vic, ninguém vai querer deixar nós entrarmos na piscina às 2 da madrugada e... – eu ia dizendo, quando algo me atingiu em cheio. – É! – exclamei, já a agarrando pela mão e a arrastando pela rua. – Vamos fazer isso!
Então ela sorriu pela primeira vez, fazendo meus lábios se curvarem juntos, involuntariamente. E acho que pela primeira vez na vida eu me senti feliz em ser acordado no meio da madrugada.

Victória fala:

Lanza me puxou pela rua deserta, banhada pela luz cintilante da lua, até uma casa grande, amarela e com aspecto de abandonada. Seu portão de madeira estava fechado e a grama crescia sem qualquer tipo de refreamento. Todas as janelas e portas da casa estavam fechadas e emboloradas, dando à casa um ar de mal-assombrada.
Tudo o que eu queria.
Atravessamos a espessa grama e fomos até o portão, que estava emperrado. Lanza o forçou e ele se abriu com facilidade. Passamos pelo corredor úmido e chegamos ao quintal da casa, que era composto por um jardim muito bonito e uma piscina redonda. O jardim estava muito bem cuidado e a piscina mais ainda, e eu achei estranho, porque todo o resto da casa parecia estar ali, fechada e abandonada, por, pelo menos, uns 10 anos.
- Eu sempre venho aqui quando quero ficar sozinho. – Lanza disse, jogando os cabelos para trás e sorrindo vagamente. – Quando nós terminamos eu vinha aqui praticamente todos os dias.
- Não sabia que você mexia com plantas. – deixei escapar. Lanza riu baixinho e se aproximou de minhas costas, me envolvendo pela cintura. Encostou o queixo no topo na minha cabeça e ficou admirando o jardim comigo.
- Eu também não. – ele admitiu, com um tom de voz calmo e doce que me fez esquecer porquê estávamos ali.
Mas ele logo me lembrou, quando começou a tirar o moletom de qualquer jeito pela cabeça.
- Acho que isso não foi uma boa idéia. – disse, mordendo o lábio inferior. Porque visto daquele ponto de vista, realmente não era uma boa idéia. Primeiro porque fazia frio, segundo porque eu estava usando sutiã de florzinhas e calcinha de ursinho e terceiro porque não sei se ver Lanza sem roupa seria um bom calmante.
Como se eu não soubesse que me acalmar era a última coisa que aquela visão me faria.
- Foi sim. Você vai ver. – ele disse, já tirando as calças, ficando só de boxers. Sem querer – ou será que não? – meus olhos fizeram todo o contorno do seu corpo. Então, sem pensar duas vezes, comecei a tirar minha roupa, ficando só de calcinha e sutiã. – Gostei da calcinha. – ele brincou e eu mostrei o dedo do meio para ele.
- No três? – perguntei, me posicionando ao seu lado na beirada da piscina.
- No já. – ele respondeu. – Um, dois, três e...
- JÁ! – gritamos ao mesmo tempo, pulando na piscina.
Ao cair na piscina, a água gelada invadiu meus sentidos como se fosse mil agulhas perfurando meu corpo. Meus olhos se fecharam e eu forcei meu punho, sentindo um frio quente por todos os meus membros. Pensei seriamente que estava morta. Bati os braços algumas vezes e emergi. Ao chegar à superfície, Lanza já estava lá, com uma cara engraçada de dor misturada com alegria. A mesma cara que eu suspeitei que estivesse.
- Putaqueopariu, que frio da porra! – eu exclamei, nadando até ele, que gargalhou e me abraçou pela cintura por debaixo d'água. – Já reparou que nós geralmente nos encontramos quando está frio e envolve água nisso?
- Acho que alguém lá em cima não quer que nós façamos besteira. – Lanza sugeriu.
- Provalmente... – eu concordei, encostando meu nariz gelado em sua bochecha mais gelada ainda. Nós ficamos um pouco em silêncio, de olhos fechados, com a água tão fria que parecia cortar. E aquilo realmente me acalmou, porque eu meio que esqueci de tudo e só fiquei ali, sentindo o corpo de Lanza junto ao meu e a água gelada paralisando meu cérebro.
Ele andou devagar até a borda da piscina, me levando junto. Apoiou-se lá e eu o abracei, encostando minha bochecha em seu ombro.
- Não precisa se procupar com nada, Vic. – ele sussurrou no meu ouvido, fazendo um arrepio gostoso percorrer todo o meu corpo. Apertei os olhos já fechados e me apertei mais a ele. – Eu sempre vou estar ao seu lado, não importa o que acontecer. Ninguém vai te magoar e sair impune disso.
- Obrigada, Lanza. – sussurrei em resposta.
- Pelo o quê? – ele perguntou, curioso.
- Por ser meu príncipe encantado. – respondi.

Capítulo 16 – O quinto elemento.

Lanza fala:

- Hum, Vic, não acha melhor voltar para casa? – perguntei, depois do longo silêncio que fizemos. Victória estava deitada ao meu lado olhando para o céu escuro e tenebroso. E eu já estava ficando congelado por ficar ali só de boxers, deitado na grama úmida e com o vento batendo na minha pele molhada. – Sua mãe deve estar preocupada.
Ela suspirou e virou o rosto para mim, ficando na altura do meu ombro. Virei também e ela me olhou com aqueles olhões grandes de bebê no fundo da minha alma.
É, dude, quando eu digo que aquela garota era influente, não estou mentindo.
- Eu não quero voltar para casa. – murmurou, como uma criancinha mimada. – Vai ser muito doloroso.
- Tudo bem, então vamos ficar mais um pouco aqui. – sugeri, passando as mãos por meus braços, tentando aquecê-los.
- Mas você está congelando! – ela exclamou, dando um beijo em meu ombro. – Vem, vamos para sua casa. – disse, se levantando e me estendendo a mão. – Eu ligo pra Maria Eduarda ou pra alguma das meninas e fico na casa delas...
- Não. – eu disse, me levantando também. – Você fica lá em casa.
- Ah, claro, e você acha que seus amigos não vão perceber nada entre a gente? – ela perguntou, colocando a camiseta por cima do sutiã molhado. – “Hey gente, a Vic veio chorar no meu ombro e agora ela vai dormir no sofá!”
Não seria bem no sofá...
- Nada a ver. De manhã eu explico o que aconteceu. Não precisa se preocupar, eles ainda vão achar que nós nos odiamos. – a acalmei.
- Mesmo...? – ela perguntou, piscando os cílios de um jeito surpreendentemente sexy. Fiz uma careta para ela daquele jeito que as mães fazem para os nenês quando eles peidam pela primeira vez e apertei sua bochecha.
- Claro que sim, coisa fofa!
- Obrigada. – ela disse, envolvendo os braços na minha cintura e afundando a cabeça no meu peito. Achei aquilo engraçado, mas não comentei nada. Sabe como é, a menina estava mal e eu ia ficar zoando ela, tipo: “HAHAHA, SUA CRIANCINHA!”. Então só fiquei ali, parado.
Eu não era a melhor pessoa para os outros se consolarem, mas por ela eu estava tentando.
- Então vamos? – perguntei, quando ela levantou a cabeça.
- Vamos.
Andamos abraçados pela rua deserta pulando as lindas no chão. De vez em quando, Victória pulava errado e eu dava um cascudo em sua cabeça. Quando eu errava ela me dava uma mordida na bochecha. Bem aquelas brincadeiras daqueles casais gays que eu sempre achei ridículas.
Agora eu sabia porque eles faziam aquilo. E eu estava fazendo igual.
Merda.
- Ah, esqueci de te contar! Enquanto vocês estavam fofocando na sua casa depois da festa, nós, homens, machos dominantes, os fodões, os...
- Pára de chatice! – ela exclamou, entortando o nariz.
- Então, nós, os fodas, - ela me olhou bravinha e eu ri – ligamos para uma casa na Argentina que os donos alugam na alta temporada e nós vamos esquiar!
- Mas Koba não queria ir pra Suíça? – ela perguntou.
- Em julho na Suíça é tipo, quente. – respondi, não tendo muita certeza daquilo.
- Quem disse? – ela perguntou, e eu senti que ela também não sabia a resposta.
- Ah, sei lá, só sei que na Argentina é frio e é pra lá que nós vamos! – respondi, e ela gargalhou.
- Sabia que era só procurar no Google, né?
- Ah, foda-se. – disse, entortando a boca.
- Ok, então, Argentina, aí vamos nós!
Continuamos conversando e andando, até meu celular – que eu nem sei como tinha ido parar na minha calça – começou a vibrar.
- Espera aí. – pedi, tirando o aparelho do bolso. Nem vi quem era e antendi. – Alô?
- E aí, Lanza, como vai o passeio noturno? – uma voz chiada a anasalada perguntou.
- Quem tá falando? – perguntei, apreensivo, parando de andar. Fiquei preocupado, não por mim, mas por Victória estar comigo. A voz do outro lado ficou em silêncio. – Quem tá falando, PORRA!? – gritei a última palavra, e isso fez ela ficar de frente para mim e gesticular perguntando o que estava acontecendo.
- Não precisa se preocupar, Lanza. Eu não vou fazer nada com você. Nem com sua namorada, se é isso que você tem medo. – a voz riu, ironicamente.
- O que você quer? – perguntei, me aproximando de Victória e segurando sua mão.
- Nada, quero saber como você está. Tudo bem com você?
- Caralho, dá pra parar com isso? – pedi, virando os olhos. – Por que você tá me perseguindo? Quem é você? O que eu fiz pra você?
- Dicas só no blog meu querido, só no blog...
- Então eu vou desligar.
- Se você desligar eu vou tirar uma foto de vocês agora e postar amanhã no blog.
Comecei a olhar em volta. Quem morava por ali?
A pessoa só podia estar me observando de 6 casas, que era o número de casas na rua. Na primeira moravam um casal e dois filhos pequenos. Descartada. Na segundava, morava uma senhora e seus 20 gatos. Descartada. Na terceira morava... Quem morava na terceira? Apertei os olhos, tentando me lembrar. E foi quando me atingiu em cheio. Marcus! Marcus morava naquela casa!
- Então, diz aí, você está me perseguindo porque é apaixonada ou apaixonado por mim, ou algo assim? – perguntei. Victória arqueou a sobrancelha.
- Pode ser que sim, pode ser que não... – a voz respondeu, rindo.
- Sabe que o Thomas é bem mais bonito do que eu. Sabe, com toda aquela pinta de lord inglês... – disse, e a voz riu.
- Todos vocês são bonitos.
Olhei mais uma vez em volta. Na quarta casa morava um cara separado e sozinho. Descartada. Na quinta casa morava um casal com três filhos pequenos também. Descartada. Na sexta casa morava um casal com dois filhos adolescêntes. E um deles eram John.
“Merda!” pensei.
Agora, qual dos dois seria?
- E então, Lanza, como é ser famoso?
- E porque isso te interessa? – perguntei, procurando algum vulto nas janelas das duas casas ou qualquer coisa parecida. Nada. Dava voltas em mim mesmo e Victória me olhava com curiosidade. – Você é algum tipo de maníaco obssessivo que tem inveja do sucesso dos outros?
Ela continuava a ouvir a conversa completamente pasma.
Tudo bem, estávamos molhados e eu falava como um louco – com um louco – ao celular no meio de uma rua vazia.
Era compreensivo...
- Não, nada disso, eu só quero saber... Mas você sabe que se não descobrir quem eu sou até o final do ano, vai ter que aproveitar muito sua fama agora, porque depois, bye bye amigos, bye bye namorada e bye bye fama!
- Vai se foder. – murmurei, me segurando para não gritar. – Seu viado, por que você não mostra a cara e me encara como homem!
- E quem disse que eu sou homem? – a voz perguntou, rindo novamente.
- O mesmo serve se você for mulher. – respondi, ficando cada vez mais bravo.
- Bom, Lanza, foi ótimo conversar com você. – ele/ela disse, todo animadinho/a – Tenha um bom resto de noite com a sua amante. Só espero que Bella não descubra! Beijos, meu lindão!
E delisgou.
Estendi o braço e fiquei olhando com cara de idiota para o celular, tentando descobrir quem seria. Mas fui interrompido por Victória.
- O que aconteceu?
- É uma longa história. – disse, tentando fugir do assunto.
- Eu tenho todo o tempo do mundo. – ela respondeu.

Victória fala:

- Então ele ou ela disse que vai tirar tudo que você tem se você não descobrir até o final do ano quem ele ou ela é? – perguntei, recapitulando na minha cabeça tudo que Lanza havia contando.
- É. Basicamente.
- E como ele ou ela pretende fazer isso?
- Não sei. – ele respondeu, parando quando chegamos à sua casa. Apoiou-se no muro da casa do vizinho e eu parei na sua frente. – Mas não sei se posso me dar o luxo de não acreditar. Eu não quero perder tudo que tenho. – então ele se virou e me olhou no fundo da alma, com aquele sorrisinho torto que eu já disse milhões de vezes que amava. Talvez ele lesse mentes e soubesse daquilo, porque era só ele sorrir daquele jeito que eu quase me desmanchava na sua frente.
- Você não vai perder tudo o que você tem. – eu disse, sorrindo para ele.
- Eu... – ele começou a dizer, mas parou.
- Fala, Lanza. – pedi, e ele balançou a cabeça.
- Quando eu era menor, meu pai costumava dizer que tudo que um homem conquistava em muitos anos, poderia perder em alguns segundos. E isso meio que entrou na minha cabeça. E eu realmente estou com medo de perder meus amigos, perder o que eu amo fazer, que é a música, e perder você, Vic. – ele parou e eu me aproximei dele, segurando sua mão. – Porque nós dois sempre nos gostamos, mas só agora eu tenho você, mesmo que esse ter seja um meio ter, mas eu sei que tenho você. Eu sei que você me ama o tanto que eu te amo, e que não é pouco. Então eu não sei se suportaria te perder. Te perder pra sempre.
- Lanza! – exclamei, bagunçando seus cabelos. – Isso não vai acontecer! Seus amigos te amam, a música é seu dom, e fama já está começando a te perseguir e eu...? – ele levantou a cabeça das nossas mãos entrelaçadas. – Eu sempre vou estar com você. Mesmo que for em pensamente. Porque você pode ter certeza que sempre que pensar em mim eu vou estar pensando em você.
Ele sorriu e eu sorri junto. Uma brisa gelada bateu e eu me arrepiei.
- Vem, vamos entrar. – ele sugeriu, se desencostando do muro e me puxando pela mão. – Você se incomoda de dormir na minha cama?
- Não. Mas e você, vai dormir aonde? – perguntei, estranhando. Ele soltou umar gargalhada anasalada e respondeu:
- Na minha cama.
- E sua cama é de...? – perguntei.
- Casal. – ele respondeu, e eu suspire aliviada. – Não precisa se preocupar, eu não vou abusar de você nem nada.
Não que eu não quisesse.
- Espero que esteja falando a verdade.
- Crianças não mentem. – ele respondeu, abrindo a porta com cuidado. Entramos e ele pediu silêncio, levando o dedo indicador aos lábios. Obedeci e nós subimos lentamente até seu quarto. Ele fechou a porta com cuidado e sussurrou:
- Pega uma camiseta aí, prometo que não olho.
Dei um tapinha na sua testa e olhei em volta. Reparei que era a primeira vez que entrava no quarto de Lanza.
Ele era incrivelmente e totalmente bagunçado. Havia meias por todo lado e pôsters apinhados nas paredes. Em cima da escrivaninha, um computador, milhões de revistas, o material da escola e alguns livros alheios. Pelo chão, figurinhas, garrafas de cerveja e muitas manchas no carpete. Manchas e furos de cigarro. As portas e gavetas do armário marrom escuro estavam abertas e roupas eram praticamente expulsas de lá. Na sua janela, vários adesivos, um mais idiota que o outro. E em uma das paredes, alguns rabiscos.
Mas sua cama era, de longe, o pior do quarto.
Seu edredom estava todo embolado e amassado. O travesseiro estava no chão. Debaixo do colchão saíam revistas – de mulher pelada. Eca. – e mais meias. E algumas cuecas. E ao lado da cama, seu violão e baixo estavam descansando em pedestais. Um amplificador estava ao lado e, debaixo da cama, uma monstruosidade de coisas estavam acumuladas, e eu fiquei com medo de saber o que exatamente.
- Meu Deus. – foi a única coisa que eu consegui dizer.
- Está meio bagunçado, eu sei... – ele disse, tirando o moletom úmido.
Meio?
- Você consegue mesmo dormir aqui? – perguntei, pulando algumas meias e garrafas de cerveja para chegar ao seu armário. Ele jogou o moletom junto com a camiseta no chão – e que barriga era aquela? – e respondeu, indiferente:
- Claro. É só fechar os olhos.
Agachei-me em frente ao armário e fucei em sua gaveta, procurando a maior camiseta possível. Achei uma vermelha gigante e mandei ele olhar para o outro lado. Ele me obedeceu e eu tirei minha blusa e camiseta rapidamente, colocando a dele por cima. Nem sei porquê para falar a verdade. Ele já havia me visto várias vezes – ok, duas – de calcinha e sutiã.
Mas sei lá, era diferente.
Ah, foda-se. Eu era estranha.
Tirei minha calça e a sua camiseta bateu um pouco acima do meu joelho. Virei-me para Lanza e ele já estava na cama, olhando para o teto. Pulei mais algumas nojeiras do chão e me joguei ao seu lado. Ele passou o braço por debaixo do meu pescoço e nós ficamos olhando para umas estrelas brilhates que estavam coladas no seu teto.
- Você é realmente louco por estrelas. – eu disse. Ele murmurou alguma coisa em resposta, com a voz sonolenta. Fechei meus olhos, tentando não me lembrar do assunto pai-voltando-com-irmão e relaxei em seu braço. Lanza se remexeu ao meu lado e puxou o edredom até nossos pescoços. Depois se virou de lado e passou o braço na minha barriga. Virei-me de lado e coloquei meu braço em cima do seu.
- Lanza? – chamei.
- Hmmm? – ele murmurou, quase dormindo.
- Nós precisamos limpar seu quarto.

Mais tarde. Ou mais cedo. Quem se importa?

Abri os olhos sem vontade. A claridade que entrava pela janela me fez fechá-los novamente. Virei-me de lado e senti um frio estranho nas pernas. Lembrei-me que usava só uma camiseta de Lanza, então abri os olhos novamente, preguiçosamente, e dei de cara com uma foto dele com uma senhora sorridente de um lado e um senhor divertido do outro. Olhei em volta para ver se estava sozinha no quarto. Positivo. Dobrei-me toda para pegar o porta-retratos e o trouxe para junto dos meus olhos. Segurava-o em cima da cabeça e analisava as três pessoas na foto. Eles pareciam felizes. Uma família feliz. E eu subitamente fiquei com a estranha sensação de... Inveja.
Eu também queria uma família feliz.
Abracei a foto e apertei as pálpebras.
- Mas ela vai, tipo, morar aqui? – ouvi a voz abafada de Pe Lu perguntar. Coloquei a foto de volta no criado-mudo e me virei de lado, fingindo estar dormindo. – Por mim tudo bem, eu não sou de recusar mulher bonita e essas coisas, mas... – a porta fez um clic e sua voz ficou mais nítida. – Onde ela vai dormir?
- Hoje ela dormiu na minha cama e eu dormi no sofá... – Lanza respondeu.
Ah, que mentirinha mais inocente!
- É, mas você não pode dormir no sofá pra sempre. E se ela resolver ficar um ano por aqui!? – foi a vez de Koba dar sua opinião sobre a garota semi-nua que dormia na cama ali, na frente deles.
No caso, eu.
- Ela pode dormir no quarto de visitas. – Thomas sugeriu.
- E quem vai tirar todo o lixo de lá? – Pe Lu perguntou.
- Qual é, dudes, isso não é um problema. Em meia hora a gente faz isso! – Lanza parecia aborrecido.
- Eu tenho medo do que vou encontrar lá... – Koba sussurrou mais para ele mesmo do que para os outros, mas como estava mais perto da cama, eu ouvi. E me segurei para não rir.
- Nossa, Lanza Reis, quem vê pensa que você tá doidinho para ter uma nova moradora em casa! – Thomas ironizou.
- Claro, meu sonho de consumo!
Segurei o riso mais uma vez.
- Ok, quem vai acordar ela? – Pe Lu perguntou.
- Eu que não. Ouvi dizer que as mulheres são assustadoras quando acordam... – Koba sussurrou, receoso, fazendo Thomas rir.
- Claro, elas acordam com vontade de comer tripas! – disse, e eu ouvi um barulho oco do soco que Koba deu em seu braço.
- Parem com isso, suas bixonas! – Lanza pediu, sentando-se na cama. – Victória. Ow, Victória. – ele me empurrava para frente e para trás, e eu comecei todo meu teatro. Deitei-me de barriga para cima, abri um olho só e me espreguicei. Depois abri o outro e olhei para Lanza, que tinha um sorriso adorável estampando dos lábios.
- O que foi, Lanza Reis? – perguntei, puxando o edredom para cima, cobrindo minhas pernas. Pe Lu entortou a boca e Koba pareceu desapontado. Thomas riu da reação dos meninos.
- É assim que você me trata depois que eu acordo no meio da madrugada pra te ajudar? – ele perguntou, trocando olhares subentendidos comigo. – Ok, Hackmann, deixa você...
- Não, desculpe... – pedi, e os outros abriram discretamente a boca. Lanza me olhou curioso e eu completei: - Se sou tão chata assim, Lanza Reis, mas quem mandou você ser um babaca que realmente acorda de madrugada quando alguém chama?
Os meninos suspiraram, aliviados.
Depois eram as garotas que adoravam uma fofoca.
Hum...
- Hum, Vic, o que exatamente aconteceu? – Thomas perguntou, sentando-se ao lado de Lanza e de frente para mim. – Pra você estar dormindo na cama do Lanza e tals...
- Ah. – deixei escapar, e abaixei os olhos. Não sei se estava preparada para falar.
- É porque ela não vive sem mim. Vocês já deveriam saber disso... – Lanza me ajudou. Os meninos riram e eu sorri, agradecida.
- Claro, e meu nome é Avagina! – disse, e eles riram mais ainda.
- Bom, Avagina, o que você quer de café-da-manhã? – Pe Lu perguntou.
- Sei lá. Eu tenho medo de comer alguma coisa por aqui. – respondi, me levantando e colocando uma boxer de Lanza que eu puxei de uma gaveta aberta. – Vai que eu morro...
Eles não responderam nada. Estavam muito mais ocupados em me observar. Thomas com a sobrancelha levantada, Koba com a testa franzida, Pe Lu com a boca torta e Lanza com um olhar de bravo.
Ahhh, ele estava com ciúmes!
Que coisa mais fofa!
E gay.
- O quê? – perguntei, tentando parecer inocente.
- Coloca uma roupa, menina. – Pe Lu exclamou, pegando minha calça no chão e jogando em cima de mim. – Não tem dó dos seus amigos comprometidos?
- Ah, vão se foder. As minhas amigas são tão gostosas como eu! – respondi, tirando a boxer e enfiando minha calça nas pernas.
- É, mas elas não estão aqui agora... – Thomas respondeu.
- Você é um ótimo namorado, Judd. – Lanza disse, irritado. Levantou-se e olhou para a janela, como sempre com as mãos nos bolsos, sua marca registrada ao ficar nervoso.
- Hey, eu até dei uma aliança para a Júlia! – ele exclamou, não percebendo que Lanza estava bravo e com ciúmes.
Como ele poderia saber?
- Hum, meninos, vocês não tem um show às 16h? Porque, sabe como é, já são 14:38h. – disse, tentando mudar de assunto.
- Táqueopariu! – Pe Lu exclamou. – O show!
- Ai meu Deus! – foi a vez de Thomas parecer uma garotinha ao acabar de ouvir que o RBD acabou [N/A: HAHAHAHA, não resisti!]. – O show!
- Run, Thomas, run! – Koba gritou, empurrando-o porta afora. Pe Lu foi correndo atrás e quase caiu no meio do caminho. Lanza assistia a cena se divertindo, mas quando nós dois ficamos sozinhos no quarto, ele não conseguiu dizer nada.
- Aaah, vai me dizer que ficou com ciúmes, Lanza Reis! – eu disse, ficando de frente para ele, que virou o rosto como uma criança mimada. – Pára com isso, são seus amigos, e eles namoram minhas amigas! – pedi, passando o dedo pela gola da sua camiseta. Ele me pegou pela cintura e disse, ainda como uma criança mimada:
- Estão namorando mas não estão mortos. E já assistiram filmes pornôs o suficiente para imaginar muita coisa ao ver uma garota de boxers.
- Pára com isso, seu bobo! – pedi, juntando meu corpo ao dele, para ver se com isso ele parava com aquele ciúmes sem noção. E meio que funcionou – ah, a sedução feminina e todas essas merdas – porque ele deixou escapar um sorriso e virou os olhos. Aproveitei para empurrá-lo para dentro do banheiro. – Agora anda logo, que você tem um show para fazer hoje!
Ele entrou e tirou a camiseta, deixando seu abdômem amostra.
Ai, que homem!
Ok, isso ficou meio minha-mãe-suspirando-pelo-Bono-Vox.
Mas, quer saber?
Foda-se.
- Hey, hey, hey! – ele exclamou, me puxando pelo braço quando eu tentei sair do banheiro. Virei-me e ele veio todo cheio de manha. – Não ganho um beijo de bom dia?
- Que bom dia o que, Lanza! Já são quase 15h! – respondi, fazendo doce. – E eu não posso ficar pelos cantos te beijando. E se algum dos meninos descobrir? Nós estamos ferr...
Mas meu discurso ético foi meio que boicotado por seus lábios, que se juntaram aos meus com uma certa urgência.
Lanza me beijou com tanta intensidade que eu tive que me apoiar na batente da porta para não cair.
Sabe como é, um beijo pode fazer isso com você.
Ele enfiou as duas mãos no meu cabelo e me forçou na batente, encaixando as duas pernas no meio das minhas, subindo o corpo pelo meu quando o beijo começou a esquentar. Sua respiração estava muito ofegante e ele me beijava com força.
- Lanza!? – Pe Lu gritou lá de baixo, nos atrapalhando. Separei-me na mesma hora e Lanza balançou a cabeça, saindo do banheiro às pressas, sem olhar para trás.
Achei estranho, mas não questionei. Meu coração ainda estava acelerado daquele beijo que demos.
E que beijo.
- Que é? – ele gritou de volta, na porta do quarto.
- Koba grampeou o dedo. – Pe Lu respondeu, e eu comecei a rir do banheiro. E ri mais ainda ao ouvir Pe Lu completar: - De novo.
Lanza virou os olhos, como se aquilo acontecesse todos os dias, e começou a sair pela porta. Mas eu o impedi, correndo até ele e o pegando pelo braço.
- Não, deixa. Eu vou. – disse, fazendo ele se virar para mim. – Vai se arrumar, eu tiro o grampo do dedo do Koba.
Lanza me olhou de um jeito esquisito.
Mas eu também estava com aquele olhar estampado no rosto. Eu não conseguia ler sua expressão, como consegui tantas outras vezes, e ele não conseguia ler a minha.
Era tudo muito esquisito. O cotidiano dos meninos, o jeito como eles se conheciam tão bem, a cumplicidade deles e tudo o mais.
Mas, acima de tudo, achei muito estranho aquele beijo.
Porque ele não era um beijo comum, onde rolaria no máximo um amasso com umas mãos bobas.
Não.
Aquele fora um beijo com muito mais do que isso.
E eu achei aquilo estranho. Muito estranho.
E parece que Lanza também tinha achado, porque continuou me olhando esquisito e respondeu:
- Ok.
Só isso.
Então eu saí do banheiro e ele entrou, fechando a porta atrás de si.
Fiquei encarando o chão.
Muito esquisito...

Lanza fala:

“Merda, Lanza! Ela dorme em casa um dia e você já está pensando nessas coisas?” eu pensava comigo mesmo embaixo do chuveiro, me esfregando com muita força. A água quente levava pelo ralo a ardência da minha pele, mas não os pensamentos. Não. Eles ainda giravam pela minha cabeça, junto com o beijo.
E que beijo!
Eu jurei a mim mesmo. Sabe como é. “Não vá tentar fazer nada, Lanza Reis, ela só está passando por alguns problemas e logo vai embora. Mesmo se quisesse, não teria cabeça para isso!”. Mas não, eu com meus pensamentos nefastos e Lanza Jr. com a sua... Hum... Vontade, tínhamos que estragar tudo!
Será que ela tinha percebido?
E se percebeu, será que sabia que fora só um impulso?
Ah, Lanza Reis, seu pervetido!
- “She's got a lip ring and five colours in her hair! Not into fashion but I love the clothes she wears! Her tattoo's always hidden by her underwear, but she don't care!” (Ela tem um piercing no lábio e cinco cores no cabelo! Não dentro da moda, mas eu amo as roupas que ela usa! A tatoo dela sempre escondida pela calcinha, ela não liga!). – ouvi algumas vozes distantes cantarem. Apurei os ouvidos e permaneci em silêncio. – “Everybody wants to know her name! I threw a house party and she came! Everyone asked me: Who the hell is she? That weirdo with five colours in her hair!” (Todos querem saber seu nome! Eu a convidei para uma festa e ela veio! Todos me perguntaram: Quem diabos é ela? Aquela estranha com cinco cores no cabelo!).
“Mas que merda é essa?”, pensei, desligando o chuveiro para ouvir melhor.
- “She's just a loner with a sexy atittude! I'd like to phone her cos she puts me in the mood! The rumours spreading that she cooks in the nude! She don't care, she don't care!” (Ela é apenas uma solitária com uma atitude sexy! Eu gostaria de telefonar para ela, porque ela me deixa de bom humor! Tem boatos que ela cozinha pelada! Ela não liga, ela não liga!). - fiquei ouvindo mais um pouco e finalmente tive a brilhante idéia de sair do box. Enrolei uma toalha no quadril e abri a porta do banheiro, deixando o vapor escapar e ouvindo as vozes femininas mais nitidamente. Andei devagar até a janela, como se aquilo fosse algum tipo de ataque extraterrestre, e ao chegar lá, abri minha boca.
Não era um ataque extraterrestre.
Era bem mais estranho.
Ali, paradas no meu jardim, umas 30 meninas berravam Five Colours In Her Hair, gritavam nossos nomes e arrancavam pedaço dos guys que estavam lá no meio, tentando dar autógrafos.
Não que eles não estivessem gostando.
Coloquei a roupa que tinha separado para o show, tentei secar meu cabelo com a toalha – em vão, pois ele continuou pingando – e desci as escadas correndo, parando para respirar ao chegar na porta de entrada. Victória estava lá, e, quando as meninas me perceberam parado ali, ela se curvou como se tirasse um fiapo da camiseta e sussurrou:
- Boa sorte.
E logo depois sua voz doce e calma foi substituída por gritos e choros na minha mente. Pisquei os olhos algumas vezes e, quando dei por mim, estava no meio das meninas, assinando papéis, E.P's, fotos, camisetas, tênis e, hum, sutiãs. Meninas me puxavam por todos os lados e os barulhos de fotos tiradas estouravam em volta de mim. Tentei sorrir, mas deconfio que minha cara tenha ficado mais ou menos: 'Putaqueopariu, o que tá acontecendo?'.
- Mas que porra é essa? - perguntei, quando a maré de meninas me arrastaram para perto de Harry. Ele sorriu meio torto, com duas fãs – hots, diga-se de passagem – nas braços e respondeu, baixinho:
- Acho que alguém espalhou por aí onde nós moramos!
- Sério!? Nem tinha percebido! - respondi, e ele me mostrou o dedo do meio, voltando a atenção a duas – não as que estavam agarradas a ele, mas outras duas – meninas que queriam tirar uma foto beijando a bochecha dele dos dois lados.
Dei mais alguns autógfrafos e tirei mais algumas fotos e Pe Lu veio até mim pela maré.
- Lanza...! - ele arfou, com uma menina meio... Avantajada, agarrada a ele. - Eu sou forte... Mas... Nem tanto... - ele ia parando para respirar, enquanto a menina se apoiava cada vez mais nele. - Me salva...!
Mas nem foi preciso pedir. Ao me ver, a menina deu um urro, largou Pe Lu e veio se atirar em mim. Ele suspirou aliviado e foi atender algumas fãs de uns 10 anos no máximo, que queriam porque queriam um beijo dele.
Aaah, esse Pe Lu Pedófilo Munhoz.
Ficamos ali por uns 15 minutos, atendendo todas as fãs e tentando não dar muuuuita atenção para uma ou outra que, bem, poderia ser resumida em uma palavra: Hot!
O que foi recompensado, pois quando Maria Eduarda, Júlia e Isadora encostaram com o carro de Maria Eduarda na porta de casa, nós estávamos conversando com algumas meninas que podiam ser resumidas em duas palavras: Nada hot.
- Bom, meninas, agora nós realmente temos que ir! - Thomas gritou mais alto que os gritos das meninas, olhando para o relógio e para a cara de Júlia, que não era a das melhores.
Elas murmuraram um “Aaaaaaah!” e começaram a desgrudar de nós, lentamente.
- É, nós temos um show e se não corrermos, ele vai começar sem a gente! - Koba completou, e elas riram. - Então, vocês vão estar lá?
“Siiiim!”.
Ótimo, quanto mais fãs, mais grana.
Não vou ser hipócrita. Desde que Five Colours começou a circular nas rádios e nós começamos a dar shows mais grandes, nossas contas estavam um pouco mais... Cheias.
Um pouco? Meu pai havia me ligado para perguntar se eu estava roubando bancos ou algo do tipo!
- Até lá então! - Pe Lu exclamou, seguindo Thomas até o conversível vermelho. Eu e Koba fomos atrás e subimos no carro. Esperamos Victória caminhar calmamente – como se algumas fãs lunáticas não estivessem nos observando e prontas para dar o bote – até o carro das meninas, esperamos elas bateram as portas com força – ciúmes? - e esperamos elas saírem disparadas pela rua, para, finalmente, sair da garagem.
As fãs nos seguiram com o olhar e Koba e Pe Lu gritaram um animado:
- Tchaaaaau!
E o imbecil do Koba completou:
- Voltem sempre!
- Cala boca, Kobayashi! - Thomas exclamou, dando um tapa na cabeça dele. - Seu jumento! Elas podem realmente achar que nós queremos serenatas em plena luz do dia!
- Certo, qual dos dois retardados mentais contou para alguma fã aonde nós moramos? - perguntei, me virando para trás para encarar Koba e Pe Lu.
- Hey! Por que o D'avilla não pode ter contado? - Pe Lu perguntou, fazendo bico igualzinho uma criancinha.
- É, por que o Thomas não pode ter contado!? - Koba repetiu, imitando o gesto do amigo.
- Porque o Thomas não tem problemas mentais como vocês dois! - respondi, e eles riram.
- Eu não disse nada a ninguém. Nem minha mãe sabe aonde eu moro... - Koba respondeu, virando os olhos e passando a mão pelos cabelos molhados, tentando colocá-los no lugar.
- Eu não disse nada. Eu nem sei o nome da nossa rua! - Pe Lu disse. - Qual é?
- Meu Deus, dude, morre! - eu respondi, me sentando direito. Olhei para Thomas, que dirigia sem olhar para a rua, e sim para o retrovisor, e perguntei:
- E você, mocinha, disse alguma coisa?
- Bem... - ele suspirou. - Eu posso ter dito alguma coisa...
- AHÁ! - Koba e Pe Lu comemoraram, batendo as mãos a gritando “Hi-Five!”.
- Como assim pode ter dito alguma coisa? - perguntei, arqueando a sobrancelha. Thomas suspirou e respondeu:
- Bem, eu posso ter dito alguma coisa para aquela mocinha que me vendeu a aliança... Qual era o nome dela? Sue? Sandra? Samantha?
- Suzannah, seu imbecil. - respondi, dando um tapa na minha própria testa. - Você achou mesmo que ela não iria espalhar a informação!?
- Qual é, Lanza Reis, nós nem éramos famosos! - ele respondeu, olhando para mim e deixando o carro balançar um pouco.
- Falou aí, sr. Eu Sou Famoso! - respondi, dando um soco de leve no seu ombro.
- Agora fodeu. Nós vamos ter que trocar de casa, de país e quem sabe mudar para a Lua! - Pe Lu disse do banco de trás. Eu e Koba olhamos para ele, que fez uma cara de: “O quê? Que que eu fiz?”, e nós dois demos um tapa na sua cabeça quase ao mesmo tempo.
- Bom, acho que nossa maior preocupação agora não são as fãs lunáticas, e sim as nossas... - Thomas começou a dizer.
- Namoradas! - Koba, Pe Lu e Thomas exclamaram juntos, se lembrando repentimante delas.
Eu olhei para o outro lado e desconfio que fiz a mesma cara de desesperado que eles estavam fazendo.

Victória fala:

- Filhos da puta. - Maria Eduarda exclamou, enfiando um Cd do Simple Plan de qualquer jeito no rádio do carro. - São uns cafajestes que não podem ver uma bunda!
- E peitos! - Júlia completou, passando gloss enfurecidamente na boca. - Vocês viram a cara de feliz que eles estavam fazendo!? Viram!?
- São uns... Uns... Aaaah, uns desgraçados, cuzões e escrotos! - Isadora disse, com muita raiva, apertando a bolsa contra o corpo. - Nem sei como nós podemos namorar uns losers como eles!
- Veados... - Maria Eduarda sussurrou, apertando o volante.
- Gente, calma! - eu pedi, tentando não rir da situação. - Não foram eles que chamaram as fãs ali! Elas simplesmente apareceram!
- Como você sabe? - Júlia perguntou.
- E o quê você estava fazendo lá, por falar nisso!? - Isadora perguntou também, cuspindo as palavras.
- Bom, isso não vem ao caso... - eu respondi, fechando os olhos.
Depois de todo aquele rolo, tinha até me esquecido de o porquê eu estava ali. Mas a imagem do meu pai voltando com meu irmão veio a tona, e eu me senti tonta. Mas antes que alguma delas pudesse perceber alguma coisa, eu abri os olhos e continuei: - Mas eu estava ali quando elas chegaram, e sei que nenhum deles as chamou ali!
Elas ficaram em silêncio.
- Qual é, meninas, agora eles estão ficando famosos, eles vão ter fãs grudadas aos pés 26 horas por dia. Vocês, como namoradas, têm que entender isso! E dar apoio! Não soltar vespas pela boca cada vez que alguma menina se aproximar deles!
- Falar é fácil, Vic. Mas você não namora algum deles para saber. - Júlia disse. - Nem ao menos gosta de algum deles, para saber como é ruim!
Bom, tecnicamente...
- Ah, parem com isso! Eles amam vocês! - murmurei, tentando fugir do assunto Victória-não-ama-ninguém.
- Amam, até alguma fã mais gostosa aparecer. - Maria Eduarda suspirou, um pouco mais calma.
- Relaxem, meus amores. Daqui há uma semana e seis dias nós vamos para a Argentina esquiar e tudo vai ficar bem! - eu tentei acalmá-las.
- Argetina!? - elas exclamaram juntas.
- Era pra ser uma surpresa, então quando eles falarem, finjam estarem surpresas. - respondi, e elas deram alguns gritinhos abafados.
- Argentina! Ai, que sonho! - Isadora suspirou.
- E o que aconteceu com a Suíça? - Maria Eduarda perguntou.
- Ah, não sei... - respondi, com medo de parecer uma idiota completa por não saber se em julho era frio na Suíça. - Eles acharam melhor Argentina. E eu também acho. Os argentinos são uns gatos!
- Isso é verdade... - Júlia pareceu desanimada. - Mas o que nós podemos fazer com um bando de argentinos gatos e nossos namorados!?
- E é por isso que eu estou solteira! - respondi.
Bom, tecnicamente...
- ARGENTINA! - nós quatro gritamos ao mesmo tempo, e caímos na risada, esquecendo um pouco a raiva que estávamos sentindo dos guys.
Porque sim, eu também estava com um pouco de ciúmes.
Mas só um pouco.
Fomos rindo até o local do show, e, quando entramos no backstage, eles já haviam entrado no palco. As meninas iam à loucura e nós assistíamos ao show com os olhos brilhantes ao ver nossos homens ali, todos fofinhos, famosos e desejados.
NOT!
Quando o show acabou, eles saíram pelas laterais e deram de cara com a gente. E parece que todo o discurso “Não liguem para as fãs, eles amam vocês!” que eu tinha dado mais cedo não adiantara nada, por que elas olharam para eles com raiva e caminharam em silêncio ao camarim. Os meninos se cutucavam e as meninas se entreolhavam. Mais atrás, eu e Lanza nos olhávamos e tentávamos não rir, o que estava sendo um desafio e tanto.
- RESTART! - umas fãs que já esperavam no camarim gritaram quando eles entraram. As meninas me olharam com raiva e eu sussurrei nas costas de Koba, antes de ele ir falar com as fãs:
- Nós vamos para a casa da Júlia, vou dormir lá hoje. Amanhã nos falamos na escola.
Koba se virou, me deu um beijo na bochecha e sussurrou de volta:
- Me salva. Não quero perder a namorada!
Sorri para ele e me virei, saindo pela porta. Mas antes de sair, joguei um beijo no ar para Lanza, quando ninguém olhava. Ele pegou o beijo no ar e guardou no bolso. Mandou outro e eu guardei no decote – porque eu havia me trocado no carro. Nunca que eu iria de calça jeans e camiseta em um show daqueles.
Eu andava com losers, mas continuava louca por maquiagem como sempre.
Bom, só sei que eu não iria dormir na casa deles porque não sei se conseguiria depois daquele beijo de mais cedo. Sabe como é, dormir ao lado de Lanza não seria a melhor idéia.
Mas eu teria que voltar para lá de qualquer jeito. Não poderia ficar na casa de Júlia para sempre. E nem voltaria para minha própria casa tão cedo.
Então eu era, definitivamente, o quinto elemento na casa dos meninos.
Só restava saber se isso era bom ou ruim.

Capítulo 17 – A volta dos que não foram.

Lanza fala:

- Por que elas foram pra casa da Júlia? E por que elas nem falaram com a gente? – Pe Lu perguntou, quando Koba passou o recado para nós.
- Porque acho que tinha umas 3 fãs agarrando você essa hora. – Koba respondeu.
- Putaqueopariu, brincou, né? Elas estão com ciúmes mesmo!? – Thomas perguntou, dando ênfase à última palavra e passando a mão nervosamente pela cabeça.
- Acho que sim. Pela cara que elas fizeram ao sair daqui... - Koba respondeu.
- E agora? O que a gente faz? - Pe Lu perguntou.
- Sei lá, vamos voltar para casa e pedir uma pizza. - eu sugeri. Koba deu um tapa na minha cabeça e disse:
- Vamos atrás delas!
- É, vamos atrás delas! - Pe Lu repetiu o que Koba disse.
- Porque você repetiu exatamente a mesma coisa que Koba disse? - perguntei, achando graça. Pe Lu mostrou o dedo do meio para mim e nós começamos a sair do camarim. Ao passar pela porta dos fundos rumo ao nosso conversível, algumas meninas atrás de grades de segurança gritavam nossos nomes.
- Oi, olá! E aí!? - nós íamos dizendo pelo caminho.
- Meu Deus, eu ainda vou ser assassinado por uma fã! - Thomas reclamou, disparando com o carro. Chegamos até a rua de Júlia e paramos em frente. O carro de Maria Eduarda já estava lá. A luz do seu quarto estava acesa e quatro vultos dançavam. Saímos do conversível e ficamos observando as silhuetas. Até que elas abriram a porta de correr da sacada e saíram. Nos agachamos atrás do carro e ficamos sentados ali, ouvindo a música Hot ‘N Cold da Katy Perry sair das caixas de som e as risadas abafadas das meninas.
Uma picape com uns oito caras socados dentro passou ali e eles começaram a mexer com as meninas:
- Vem dançar assim na minha cama! - um deles gritou, e a voz de Júlia respondeu:
- Vai se foder, seu animal!
O carro começou a diminuir a velocidade e um deles nos percebeu ali, gritando para as meninas:
- Acho que vocês têm mais interessados do que prevêm.
- Vão embora, parem de enxer o saco. - Maria Eduarda gritou.
O carro passou e nós nos entreolhamos.
- Eu preciso ver isso. - Koba foi a primeiro a se pronunciar, num sussurro desesperado, quando as risadas das meninas recomeçaram. - Elas estão de pijamas. Curtinhos. Dude, eu preciso ver isso. Sério.
- Cala boca, Koba, vocês já... - Thomas disse, entortando a cabeça. - Você sabe.
- E por isso eu não posso olhar minha namorada semi-nua? - ele perguntou, irônico.
- Ok, o Thomas olha pelo canto da direita, o Koba olha pelo canto da esquerda e o Pe Lu olha por cima. - sugeri.
- E você? - Pe Lu perguntou, sorrindo maliciosamente. - Eu sei que você tá louco pra dar uma espiada na Vic.
Sorri e entortei a boca.
- Ok, eu olho com você.
E foi por isso que quatro marmanjos estavam atrás de um conversível vermelho, se escondendo o máximo possível para observar quatro meninas dançarem semi-nuas na sacada da casa de uma delas ao som de Hot ‘N Cold.
- Puta merda... - Pe Lu sussurrou, ao ver Maria Eduarda levantar a perna na grade da sacada e subir a mão do calcanhar até a coxa. - Por que, Deus, por quê?
- Aaaaah muleque! - Koba comemorou, ao ver Isadora levantar a barra da blusa do pijama. - Se isso é um sonho não me diz que eu tô sonhando!
- Nossa... - Thomas sussurrou, quando Júlia desceu até o chão. - Nossa. - foi a única coisa que parecia conseguir pronunciar.
Eu estava me divertindo com os comentários dos guys. Na verdade, não prestava muita atenção nas meninas que dançavam na sacada, e sim nos olhares fixos e apaixonados dos meus amigos. Mas então comecei a me entediar e decidi olhar para elas.
Sabe como é. Cabeça vazia, oficina do diabo.
Virei meu rosto para a sacada e meio que percebi porque eles estavam tão fixados. Logo que meus olhos alcançaram as meninas, procurei Victória entre elas, e a vi na ponta esquerda.
Ela usava um pijama muito curto – tipo aqueles com um shorts que mais parece uma calcinha e uma blusinha de alcinha agarrada ao corpo, revelando todas as curvas – listrado de azul escuro e vermelho, e seus longos cabelos estavam presos em um rabo-de-cavalo alto. Segurava um controle remoto na mão direita e dançava e cantava junto com a música. Seus cabelos iam de um lado para o outro e ela sorria, como eu não a via sorrir desde que descobriu que seu pai estava voltando.
E a simples visão dela ali, sorrindo, ganhou meu dia. Como se ela fosse algum tipo de droga, e toda vez que eu a via, a sensação de bem estar me dominava.
Eu agarrei a borda do carro e me deixei levar por sua felicidade naquele momento. Seus olhos, ora fechados ora abertos, dançavam junto com a música, e seu corpo se movia com uma delicadeza incomparável, mas, ao mesmo tempo, com agressividade. As meninas ao seu lado também eram lindas, mas nada, absolutamente nada, poderia se comparar a Victória.
E ela era minha. Só minha e de mais ninguém.
Agradeci baixinho por aquilo.
- O quê? - Pe Lu perguntou ao meu lado, provavelmente ouvindo meus agradecimentos.
- Hã? - perguntei, finalmente conseguindo desviar o olhar de Victória.
E de suas pernas.
- O que você disse? - ele repetiu a pergunta.
- Eu? Nada. - respondi, voltando a olhar para ela, que agora dançava com Maria Eduarda.
- Hum. - Pe Lu murmurou, e fez o mesmo.
Perdi a conta de quanto tempo ficamos ali. Para mim, pareceu uma eternidade e ao mesmo tempo passou tão rápido. Quando Thomas nos tirou do transe, eu havia perdido completamente a noção de tempo e espaço.
- Ok, vamos até lá. Eu não posso ficar brigado com... - ele olhou para Júlia com uma expressão de dor no rosto e terminou: - Ela.
Dei uma olhadela rápido para Júlia e tive de concordar.
Nem eu poderia.
Mas ninguém precisava saber daquilo.
- É, vamos logo. - Koba concordou.
- Você vem, Lanza? - Pe Lu perguntou, se lembrando de mim repentinamente.
- E-eu. - eu nem sei porque gaguejei, mas depois de ficar tanto tempo observando Victória eu meio que esqueci como se falava. - Vou. - disse, por fim.
É, dude, eu sou uma bixona.
- Então vamos logo! - Thomas pediu, com certa urgência na voz.
Fomos nos esgueirando pelo jardim e nenhuma delas nos percebeu ali. Pelo menos eu acho que não. Bom, só sei que chegamos na porta de Júlia intactos.
Tocamos a campanhia.
Silêncio. O som parou de tocar e as risadas cessaram, dando lugar aos cochichos.
- Será que são eles? - ouvi Isadora perguntar com um sussurro.
- Claro que sim, sua inútil, olha lá o carro do Thomas! – Júlia, a fina flor da grossura, respondeu.
- Ah, merda, será que eles nos viram dançando!? - foi a vez de Maria Eduarda perguntar, apreensiva.
- Vamos parar com a sessão interrogatório e descer logo? - Victória respondeu com uma pergunta.
Mais silêncio.
Na porta, os meninos estavam nervosos, e eu sentia cada vez mais vontade de rir, apertando meus lábios para não fazê-lo.
Por mais que fosse trágica, a situação meio que era engraçada. Porque, porra, será que elas pensavam mesmo que nós não estávamos ouvindo?
De repente, os toc toc's de passos descendo as escadas pareciam cada vez mais nítidos, e os dudes estavam cada vez mais... Verdes?
Vultos pararam atrás da porta de vidro e começaram a sussurrar, como se nós fóssemos surdos.
- Vai você. - Maria Eduarda sussurrou, nervosa.
- Por que eu? - Júlia perguntou.
- Porque você é a dona da casa! - Isadora respondeu por Maria Eduarda.
- Ai meu Deus, deixa que eu vou! - clic, a porta se abriu. E eu senti meus olhos entraram em foco novamente. - Oi, meninos. Pois não?
- Hum, nós... Nós... - Koba gaguejou, e Isadora riu, deixando ele mudo de vez.
- Nós viemos falar com as nossas namoradas. - Thomas disse por ele, e Victória sorriu, envergonhada. - E com você Vic, é claro.
- Bem, as meninas... - ela tentou responder, mas foi cortada pela voz ácida de Maria Eduarda, ainda atrás da porta:
- Pergunta se eles cansaram das fãs.
- É, deve ser por isso que estão aqui. - Júlia concordou.
Victória nos olhou novamente, envergonhada, e deixou escapar um sorriso cúmplice ao me ver. Eu, como estava atrás de todos os guys, sorri de volta, e ela voltou a fitá-los.
- Bem, as meninas, hum, não querem ver vocês. – disse, como se fosse preciso.
- Pergunta para elas se todo esse ciúmes é realmente necessário. - Pe Lu pediu, parecendo entediado.
- É, qual é, são só algumas fãs. É o nosso trabalho a partir de agora, elas tem que superar isso! - Koba sussurrou para Victória, com medo de que Isadora ouvisse.
- Hum, meninas, eles, hum, querem saber se todo esse ciúmes é necessário. - Victória perguntou, enfiando a cara de volta para dentro. A cada segundo que passava, a situação ficava mais tensa e mais engraçada.
- Claro que é! Se eles ficassem de boa com as fãs seria uma coisa... - Maria Eduarda respondeu, com a voz suficientemente alta para que todos nós ouvíssemos.
- Agora ficar se esfregando nelas é outra! - Júlia completou o argumento de Maria Eduarda.
- Bom meninos, elas... - Victória tentou dizer, já ficando vermelha pela confusão.
- Diz para elas que ninguém ficou se esfregando com ninguém e que elas são umas inseguras! - Harry reclamou.
- É, menin... - Victória tentou dizer novamente, mas elas já gritavam de volta:
- Diz para eles que nós vimos os olhos deles brilharem quando as fãs chegaram com os seus grandes decotes e toooodo seu amor para dar! - Isadora disse, irônica.
- É, e diz para eles que nós... - Maria Eduarda ia dizendo quando Victória, visivelmente alterada, escancarou a porta e gritou:
- DIGAM VOCÊS MESMOS! PELO AMOR DE DEUS! EU NÃO SOU POMBO CORREIO!
E eu não consegui mais conter o riso. Comecei a gargalhar ali mesmo, ignorando a situação crítica em que nos encontrávamos. Victória, depois de respirar fundo algumas vezes, também não conseguiu mais segurar e começou a rir também.
- Vocês são idiotas ou o quê? - Júlia perguntou, irritada.
- Nós podemos entrar para tirar essa história a limpo de uma vez por todas? - Thomas pediu, segurando o braço de Júlia. Ela tirou a mão dele de seu braço e elas – menos Victória – gritaram em uníssono:
- NÃO!
E um barulhão de porta batendo demonstrou que, bem, elas não queriam nos ver nem pintados de ouro.

Victória fala:

- Na na na na na na na! – eu cantei, jogando a escova de cabelos para Maria Eduarda, que a pegou no ar e cantou nela, como se fosse um microfone:
- I wanna start a fight! (Eu quero começar uma briga.). – cantou, jogando a escova para Isadora.
- Na na na na na na na! – ela cantou, assim como eu, e jogou a escova para Júlia.
- I wanna start a fight! (Eu quero começar uma briga.). – berrou, jogando a escova no chão como aqueles jogadores de futebol americano bombadões e pulando em cima da cama.
- So so what? I'm still a rock star, I got my rock moves, and I don't need you! And guess what? I'm having more fun, and now that we're done, I'm gonna show you tonight! (Então, e daí? Eu ainda sou uma estrela do rock, eu tenho meus movimentos roqueiros e eu não preciso de você! E adivinhe só? Eu estou me divertindo mais e agora que acabamos, eu vou te mostrar essa noite!). – cantamos, gritando e pulando em cima da cama. - I'm alright! I'm just fine! And you're a tool! So so what? I am a rockstar, I got my rock moves, and I don't want you tonight! (Eu estou bem! Muito bem! E você é um idiota! Então, e daí? Eu sou uma estrela do rock, eu tenho meus movimentos roqueiros e eu não te quero essa noite!).
Então pulamos do colchão, caindo uma em cima da outra de qualquer jeito no carpete antiquado e cinza da casa de Júlia. Mas eu não ligava, a casa de Júlia era tão aconchegante que o carpete cinza quase não me incomodava.
Exceto em situações como aquelas, onde nós nos jogávamos nele.
- Na na na na na na na! – Maria Eduarda cantou de novo.
- Eles merecem morrer. – Júlia brincou, passando a mão no pescoço como se fosse uma faca.
- Na na na na na na na! – eu cantei novamente.
- Koba, vai se foder! – Isadora terminou, e nós recomeçamos a rir histericamente.
Sete horas da manhã e nós já estávamos hiperativas, por fazer um dia lindo e por faltar somente uma semana e cinco dias para as férias.
Ou talvez fosse todo o chocolate e Coca-Cola que tomamos no dia anterior.
Vai saber...
- Sai de cima de mim, Victória, você tá amassando meu uniforme! – Maria Eduarda pediu, me empurrando longe. Ficou de pé prontamente e arrumou a saia com as mãos, se analisando no espelho. – Como ele pode trocar tuuudo isso por umas fãs idiotas? – perguntou, seguindo o corpo com a mão.
- Eu também trocaria. – brinquei, e recebi um chute na perna. – Ai, sua vaca!
- Isso foi por me chamar de feia! – ela respondeu.
- Vamos logo? Daqui a pouco nem na segunda aula a gente entra! – Júlia nos apressou, como sempre a estraga prazeres.
- Vamos lá Dalai Lama, hoje é um ótimo dia para matar aula! – Isadora brincou, bagunçando os cabelos muito bem penteados de Júlia. Ela fechou a cara e caminhou ao espelho, alisando os fios que saíram do lugar. - Nããão, nada a ver! Hoje a gente tem prova de Álgebra! – eu as lembrei. – Aliás, hoje começa a semana de provas!
- PORRA! – Júlia exclamou, saindo de frente do espelho e correndo pelo quarto como uma barata tonta, pegando todo o material que estava jogado pelo chão. – Porra, porra, porra, eu me esqueci completamente!
- Ah, merda, vamos ter que ir à aula... – Isadora resmungou, pegando sua mochila que estava em cima da cama. – E ainda por cima temos prova. Que dia mais feliz!
- Vai, vamos logo, a prova é na quinta aula. – eu disse, jogando minha mala nos ombros. – Ainda dá tempo de pegar a segunda.
- Logo hoje que eu pensei que ficaria deitada no parque, olhando as nuvens... – Maria Eduarda reclamou, ligando o computador.
- O que você está fazendo? – perguntei, estranhando. – Nós estamos atrasadas!
- Nunca se está atrasada para o Conte Seu Babado, baby. – ela me esclareceu. – Nunca se sabe quando nós vamos estar lá.
Pois é. Nunca se sabe quando nós vamos estar lá.
De pijama.
Dançando.
Na varanda.
Porra!
Embaixo, o famoso post.

“Bom dia, Colégio Norbert! Como vão vocês? Eu estou com sono, a balada ontem acabou muito tarde! Mas fora isso...
Pois é, semana de provas, ralação. Sentar a bunda na cadeira e estudar. Ou no caso das nossas amiguinhas da foto, dançar semi-nuas na varanda.
Aliás, por falar em diversão, eu estou doido(a) pra me deitar na grama verde e molhada do parque e observar as nuvens com uma garrafa de Jack Daniels. Quem está comigo?
Mas, bom, enquanto isso não acontece, Álgebra, aí vamos nós!
Vou falar um pouco da foto.
Ou a foto falar por si só?
Victória, Maria Eduarda, Júlia e Isadora dançando Hot ‘N Cold. Sim, tarados de plantão, se vocês não viram, perderam. Eu vi. HÁ!
Vi e tirei essa foto maravilhosa.
Mas sabe quem também estava por lá?
Como sempre, seus fiéis escudeiros, Lanza Reis, D'avilla, Munhoz e Kobayashi!
Espiando sabe quem?
Dou um beijo pra quem acertar!
Bom, por hoje é isso. Meninos, não usem muito essa foto para brincar de cinco contra um, e, meninas, não falem tanto sobre os defeitos dessas pobres coitadas que estão morrendo de ciúmes dos namorados, cof cof.
Ah, agora um recadinho especial!
Pista 2 – Quando voltar da Argentina, estará mais próximo de saber quem eu realmente sou! Mas não pense que se livrará de mim por lá. Eu estarei na sua cola!
Um beijão pra todos vocês e até a prova!”

- Ótimo. Agora ele sabe que nós vamos para a Argentina! – Júlia exclamou, esfiando o dedo no botão e desligando o computador. – Simplesmente ótimo.
- Aaaaah, eu ainda mato essa ou esse filho da puta! – Maria Eduarda resmungou. – E eu ainda estou com o meu pijama de vaquinha!
- Por que, Deus, por que nós? – Isadora perguntou, pegando a mochila no chão. – Por que não todas as vacas do nosso colégio!?
- Inveja, baby, inveja... – respondi, repetindo o gesto. – Mas anda, vamos logo, temos muitos comentários maldosos para responder hoje.
- E ainda por cima tem prova! – Maria Eduarda nos lembrou, virando os olhos.
- Bem, vamos nessa então!? – Júlia disse, nos apressando pela décima quinta vez.
E algumas ruas depois, estávamos estacionando no colégio.
- Bom dia, meninas! A noite foi boa, eim? – um gorducho do primeiro ano disse, piscando para nós e entrando na escola.
- Eca. – foi a única coisa que eu consegui pronunciar.
- Esse com certeza fez vocês-sabem-o-quê com a nossa foto. – Maria Eduarda riu, virando os olhos.
- O quê? – Júlia perguntou, distraída. Depois de alguns risinhos nossos, quando ela finalmente processou a informação, exclamou, fazendo uma careta: - Eca... ECA! Às sete horas da manhã?
- Não se pode esperar mais nada desses meninos do primeiro ano... – Isadora respondeu com um jeito teatral, rindo e virando os olhos.
- História, aí vamos nós! – eu brinquei, abrindo a porta da nossa sala. A professora-cara-de-coruja anotou nossos nomes e fomos nos sentar. Ficamos a aula inteira babando no fichário e ficaríamos a terceira e a quarta também, se a prova não tivesse sido transferida para aquele horário.
- Merda pra vocês. – Júlia nos desejou, assim que pegou sua prova.
Mas nós não precisaríamos de boa sorte, e sim de uma bela cola dela.
Ela era boa em matemática, Maria Eduarda em biologia, Isadora em geografia e eu em história. De resto, éramos todas boas. E nas que não éramos, tínhamos umas às outras para passar cola.
Quem foi que disse que quem cola não sai da escola?
“Eu colo sim, e tô vivendo. Tem muita gente que não cola e tá morrendo!”
A prova passou rápido e nós acabamos quase ao mesmo tempo.
- Olha só se não são as dançarinas! – umas meninas do terceiro ano zoaram quando nós passamos por elas.
- Pelo menos eu não transo com o professor de Educação Física. – eu disse, mostrando o dedo para todas elas que, bem, corriam os boatos que eram as bonequinhas infláveis do professor do terceiro ano de educação física.
Eca!
- Vai se foder. – uma delas murmurou, envergonhada.
Saímos para o pátio e nos sentamos em uma mesa afastada. Conversávamos animadamente sobre o filme que estávamos esperando estreiar no cinema quando algo nos fez lembrar de o porquê estávamos tão bravas. Nós não, as meninas.
Ok, eu também estava com ciúmes. Mas ninguém precisava saber disso.
E esse algo eram os quatro meninos que tiveram total importância no ocorrido.
- Nossa. – Maria Eduarda exclamou, olhando para eles, que saíam pelas portas se empurrando. – Eu tinha me esquecido que nós brigamos ontem!
- É vero! – Isadora concordou, olhando para Koba. – E agora? Damos uma trégua?
- Nem pensar! – Júlia disse, virando para o outro lado. – Se eles quiserem nos ter de volta, vão ter que lamber o chão em que pisamos.
- Nós terminamos? Não sabia disso! – Isadora disse, surpresa.
- Não né, coisa burra. – Maria Eduarda disse, sacando a idéia de Júlia. – Nós só estamos em... Greve.
Greve.
Ótimo. Eu só poderia ficar com o Lanza enquanto nós estivéssemos a sós e agora as meninas estavam em greve.
Quando eu ficaria com ele agora?

Lanza fala:

- Não sei não, elas estão muito... Estranhas. – Koba disse, colocando a mão na frente dos olhos para se esconder do sol. – Tipo, elas estão ali, sentadas, rindo...
- E isso é estranho por...? – perguntei, rindo.
- Sei lá. Estou com um mau pressentimento. – Pe Lu respondeu por Koba, e Thomas concordou com a cabeça.

Victória fala:

- Eles estão se aproximando. E agora? – Isadora perguntou, se virando de costas para eles. – E agora, e agora? – perguntava, quicando na mesa.
- Agora fica quieta e quando eles chegarem veja e aprenda. – Júlia disse, e os olhos de Maria Eduarda brilharam. Eu olhei para Lanza e arqueei a sobrancelha, tentando avisá-lo, mas era tarde demais, eles já haviam chegado na mesa.

Lanza fala:

- Oi, meninas. – eu disse, olhando para Victória, que tentava me avisar algo com o olhar. – Como vão?
- Bem, Lanza! – Júlia disse, toda animadinha. Thomas se sentou ao seu lado e colocou a mão em seu ombro, sendo logo repelido por ela. Ele piscou os olhos algumas vezes e disse:
- Bom dia para você também, Júlia. – ele murmurou, áspero.
- Só se for bom pra você, Judd. – ela respondeu, se virando para ele, que arregalou os olhos, surpreso. – Porque pra mim não é.
- O que você quer dizer com isso? – ele perguntou, sem defesa.
- Nós queremos dizer, - Maria Eduarda enfatizou a palavra nós e tirou os braços de Pe Lu da sua cintura. – que... – então ela suspirou e começou com o teatro. – Munhoz, eu não sei porquê você finge que nada aconteceu! – ela disse entre os dentes, com raiva. – E não coloca mais a mão em mim, só quando eu achar que você merece meu perdão.
E depois disso ela saiu pelo pátio, com a cabeça baixa.
Maria Eduarda sabia mesmo como atuar.
- Viu só o que você fez? – Isadora perguntou para Pe Lu, com raiva. – Seu animal!
E foi atrás da amiga. Júlia lançou um olhar raivoso para Thomas e foi atrás.
Os meninos me olharam e eu dei de ombros, correndo atrás delas. Não sem antes pedir:
- Posso ficar na casa de vocês hoje?
- Pode. – Koba disse, ainda meio tonto.
Sorri e já estava quase alcançando as meninas quando Lanza gritou:
- Mas avisa a sua mãe!
Virei-me nos calcanhares e o encarei.
- Senão você não fica lá em casa. – ele terminou, calmo.
Abri a boca e ele continuou com a mesma expressão de vitória no rosto.
Veado!

Lanza fala:

- Ótimo, agora nós estamos sem namorada! – Pe Lu exclamou, ainda com a boca aberta.
- E sem fãs. – Thomas completou.
- Porra. – Koba suspirou, deitando na mesa. – Odeio as mulheres.
- Eu eim... – eu murmurei, me afastando de Koba, que riu e me mostrou o dedo do meio.
- Vai se foder, Lanza Reis. Você que tem sorte. Nenhuma namorada pra encher seu saco.
Bem que eu queria uma namorada pra encher meu saco.
Mais precisamente uma Victória para encher meu saco.
- Ok, e agora? O que nós vamos fazer? – Thomas perguntou.
- Sei lá. Mas eu não vou ficar correndo atrás dela. – Pe Lu respondeu, passando a mão pelo cabelo. – Se elas estão com esse ciúmes idiota a culpa não é nossa. E eu não vou dar o braço a torcer. Se alguém vai pedir desculpas vai ser ela.
- Sabe que não é uma má idéia? – Koba brincou, se levantando.
- É, a gente vira o jogo! – Thomas riu, os olhos brilhando de expectativa, e eu virei os olhos.
- Vocês estão parecendo três velhinhas resmungonas!
- E você é o nosso prostituto! – Pe Lu sugeriu, bagunçando meu cabelo.
- Sai de perto de mim, seu veado! – eu exclamei, pulando de cima da mesa. – Opa, acho que vocês se ferraram.
No mesmo instante que eu pulei de cima da mesa, a tiazinha-que-eu-ainda-não-sei-o-nome chegou e meio que gritou com nós quatro:
- De novo em cima de mesa, meninos? Acho que dessa vez terei de levá-los para o diretor.
Opa.
- Eu não estava não, tia. – eu disse, fazendo minha melhor cara de santinho.
Atrás dela, Koba e Pe Lu me mostraram o dedo do meio e Thomas dava tapas no ar, como se ele estivesse...
Bem, acho que você sabe, certo?
Os alunos que assistiam a cena riam sem parar, e a tiazinha se virou para ver o porquê. Koba e Pe Lu colocaram a mão no bolso e Thomas levou as mãos à cabeça.
- Então me sigam D'avilla, Munhoz e Kobayashi.
Eles se levantaram e foram atrás dela.
- Seu filho da puta. – Koba disse no meu ouvido ao passar por mim.
- A gente vai pro buraco mas te leva junto! – Thomas sussurrou, também ao passar por mim.
- Você tá fodido! – foi a vez de Pe Lu dizer.
Eles passaram zoando-a pelas costas e eu fiquei no meu lugar, rindo.

Victória fala:

- Filho da mãe! – eu exclamei, virando o celular nas mãos. Estávamos no banheiro do pátio e eu meio que gritei isso, não conseguindo conter as palavras na boca. As meninas, que xingavam seus respectivos namorados, pararam de falar e me encararam. – Por que ele quer que eu ligue para ela, eim!? – completei, abrindo o celular e voltando a fechá-lo.
- Por que você não pode ligar? É a sua mãe! – Maria Eduarda perguntou, curiosa. Arqueou a sobrancelha e eu joguei a cabeça para trás.
Eu a minha boca aberta.
O negócio é que eu ainda não havia contado para elas a novidade papai-voltando-com-maninho.
Suspirei e fechei os olhos, a dor de cabeça me invadindo por completo. Quando voltei a abri-los, elas me encaravam de um jeito estranho e eu não tive outra alternativa a não ser contar.
Contei tudo. Contei o que minha mãe disse, a corrida no meio da noite, Lanza ter me salvado e por isso eu estava dormindo na casa deles.
Só não contei, claro, toda a parte da pegação.
Porque eu não podia. E mesmo se pudesse, ignoraria aquele parte. Porque o filho da mãe do Lanza estava me fazendo ligar para minha mãe, quando o que eu mais precisava era ficar longe dela.
Sei que aquela era uma atitude que ele achava que me faria bem, mas, naquele momento, o que eu mais queria era esganá-lo por impor aquela regra.
Mas o que mais eu poderia fazer? Eu não tinha onde ficar. Ou pelo menos achei que os pais de minhas amigas ficariam incomodados em ter uma agregada à família. Com os meninos era perfeito. Eles não tinham pais para lhes dizer se aquilo era certo ou não. E, claro, eu ajudaria com as dispesas.
- Nossa... – Isadora assoviou quando eu acabei de contar a história.
- Você... Tá bem, Vic? – Maria Eduarda perguntou, envolvendo meus ombros com os braços. Balancei a cabeça e sorri.
- Não. Mas eu vou ficar.
O sinal bateu.
- Merda de intervalo curto! – Júlia exclamou, guardando o gloss no bolso da saia. – Vamos? Acho melhor não chegarmos outra vez atrasadas.
Saímos do banheiro e o sol ofuscou nossos olhos. Ouvi alguns cochichos, mas pensei que fosse pela nossa foto. Mas, quando finalmente meus olhos se acostumaram com a claridade, eu quase desmaiei ali mesmo.

Lanza fala:

Eu vi quando tudo aconteceu.
Eu estava sentando na mesa, conversando com uns amigos do primeiro ano, esperando o sinal bater. Tinha muito sol pra todo mundo, e eu não conseguia enxergar quase nada. Minha mão estava na frente do rosto, mas eu consegui perceber um menino que eu nunca tinha visto antes andar pelo pátio. Todos começaram a cochichar e eu pisquei os olhos algumas vezes.
O menino usava uma calça preta de sarja uns quatro números maior do que ele deveria usar. Umas correntes de prata saíam do passador de cinto e iam até o bolso, onde estavam presas a uma carteira de couro preta, toda pixada de branquinho. Por toda a extensão da calça, alguns rebites estavam presos, e até onde eu contei, ela tinha uns 5 bolsos. Nos pés, um coturno preto de couro todo arrebentado ia por cima da calça até metade da canela. Usava uma camiseta preta escrito Coca-Cola em vermelho, e as letras “escorriam” como se fossem sangue para a barra da camiseta. Seu cabelo loiro sujo era na altura das orelhas, todo pra frente e bagunçado, e uma bandana preta estilo Guns N' Roses cobria sua testa. Era bem alto e tinha um jeito de andar como se fosse superior a tudo e a todos.
Ele levava um cigarro em uma mão, e na outra trazia um pedaço de papel amassado.
Olhei bem para o garoto.
Ele parecia alguém... Mas quem?
O menino parou em frente ao banheiro feminino, leu o papel e voltou a apertá-lo na mão, como se ali estivesse escrito sua sentença de morte.
Se apoiou na parede branca e ficou esperando.
Meus amigos continuavam a conversar, mas eu já não prestava a mínima atenção neles. Eu só queria saber quem era aquele cara e o que ele estava fazendo ali.
Olhei bem. Ele tinha os mesmos olhos expressivos de... Victória!
Mas quem poderia ser?
Então um clic ecoou na minha cabeça e eu sai correndo, ignorando os chamados dos meninos da minha mesa. Cheguei perto dele, que me olhou com indiferença e voltou a tragar seu cigarro. Olhei para ele de cima a baixo e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Victória saiu do banheiro com as meninas.
Primeiro, ela colocou a mão na frente do rosto por causa do Sol. Mas depois de alguns segundos, quando a retirou da frente da testa, seus olhos pousaram no garoto apoiado na parede e ela abriu a boca.
Ele olhou para ela com uma mistura de arrependimento e dor.
E ela gaguejou:
- R... Ryan?

Victória fala:

“Victória, você está bem?”. “Vic, fala alguma coisa!”. “Acho que ela vai desmaiar!”.
E eu ia desmaiar.
Desmaiar com os olhos abertos, para poder gravar bem aquele rosto. O rosto que eu nunca tinha me esquecido. Os olhos expressivos, o ar de superioridade, o jeito despojado. Tudo. Ele tinha mudado tanto, e, ao mesmo tempo, não tinha mudado nada.
Pisquei os olhos. Ele continuava lá, me olhando como se estivesse sentindo dor.
Muita dor.
Apoiei-me na parede ao meu lado, ainda sem dizer nada. Minhas pernas amoleceram e meu corpo foi ficando frio. Muito Frio. Eu poderia cair a qualquer momento.
“Me deixa passar. Sai da minha frente!” ouvi uma voz ordenar, e no instante seguinte, dois braços me seguravam pela cintura e me arrastavam para dentro da escola. As vozes de minhas amigas ficaram cada vez mais abafadas, até que não podia mais ouvi-las. Lá dentro, a escuridão tomou conta da minha visão e eu não via mais nada, só ouvia os meus passos moles e os passos firmes ao meu lado. Os braços estavam firmes na minha cintura e eu ofegava por estarem tão apertados.
- Me larga. - pedi, baixinho. Ele não obedeceu. - Me larga AGORA! - gritei, e tirei os braços da minha cintura. Parei ofegante no corredor e fiquei respirando profundamente, tentando processar tudo aquilo. Quando olhei para cima, me arrependi por ter sido tão grossa. Lanza estava ali, parado, me olhando com uma mistura de dó e curiosidade. - Desculpa, Lanza. Não sabia que era você. - pedi, me apoiando nos armários.
Ficamos em silêncio, absortos nos próprios pensamentos. Eu enrolava uma mecha dos cabelos nos dedos e ele fitava os tênis.
- Então. Esse é o seu irmão? - perguntou, por fim.
- Aparentemente sim. - respondi, sentindo uma pontada no peito.
Mais silêncio.
- Você... Quer ir pra casa? - sua voz atravessou minha barreira de proteção. Sorri, ainda olhando para baixo.
- Acho que sim.
E foi por isso que alguns segundos depois me vi sentada no conversível de Thomas, com Thomas, Koba, Pe Lu e Lanza me consolando.
- É sério, meninos. Vocês não precisavam matar aula por mim. - eu disse, pelo que parecia ser a trigésima vez.
- Relaxa, Vic. Qualquer coisa pra matar aula! - Koba disse, piscando para mim. - E acho que quem nós queremos na escola não nos quer... - completou, com rancor.
- Esqueçam elas. Só estão com ciúmes, daqui a pouco passa... - eu suspirei, soltando meus cabelos para que pudessem voar com o vento. Lanza me olhava pelo retrovisor e sorria. Sorri para ele discretamente e voltei a olhar para a estrada.
- Será que daqui uma semana e cinco dias isso passa? - Pe Lu perguntou, colocando o óculos de sol. - Sabe como é, nós já pagamos a casa na Argentina.
- Sim. – respondi, em piloto automático. Mas minha cabeça estava bem longe das confusões amorosas de meus amigos.

Lanza fala:

- É sra. Hackmann, ela está aqui em casa... Não precisa se preocupar, nós vamos cuidar dela... Não, não precisa pagar nada, nós precisamos mesmo de uma menina para pôr ordem aqui!... Sim, pode deixar... Tchau. - eu falava com a mãe de Victória pelo telefone enquanto ela dormia na minha cama. Seu peito subia e descia. Subia e descia. Subia e descia.
Só Deus sabe como eu poderia ficar o resto da vida observando-a dormir.
“I girl like you it's impossible to find...”, pensei comigo mesmo. Sorri ao ver que ela sonhava. Sua boca se mexia e ela se virava na cama.
Os guys saíram para se encontrar com Fedelso e eu disse que ficaria em casa para o caso de Victória acordar. E eu queria acordá-la. Beijá-la e dizer o quanto eu a amava. Mas não conseguia. Ela estava tão linda dormindo...
Porra, até onde essa garota poderia me transformar?
- Hey, Lanza Reis, que tal abrir a porta de casa? - ouvi a voz de Maria Eduarda gritar. Fui até a janela e as três estavam paradas, esperando. Abri-a e gritei:
- Como vocês sabem que só eu estou aqui?
- Porque acabamos de ver os ingratos dos seus amigos passarem de carro por nós. - Isadora respondeu, mostrando a língua para mim.
- Ok, tô descendo.
Desci as escadas correndo e abri a porta.
- Finalmente! - Júlia exclamou, entrando sem ser convidada. - Cadê a Vic?
- Dormindo lá em cima.
- Ótimo, porque eu acabei de ver o pai dela entrar na casa da mãe dela. - Maria Eduarda respondeu.
- Como você sabe que é o pai dela? - perguntei baixinho.
- É a cara dela!
- Putaqueopariu... - eu suspirei, e elas me olharam com curiosidade. - Ok, eu posso não estar com a Vic, - pigarreei. - mas eu me preocupo com ela. Se ela quase desmaiou ao ver o irmão, o que vai acontecer quando ela ver o pai?
- Você está certo... - Júlia suspirou. - O que vamos fazer?
Olhei em volta, procurando algum tipo de inspiração. As meninas se sentaram nos sofás puídos da sala e eu continuei em pé, pensando.
O que poderíamos fazer? Não poderíamos ficar escondendo o pai dela, porque mais dia menos dia eles iam se encontrar.
Estava pensando quando meu celular começou a vibrar.
- Alô?
- Lanza? - a voz de Bella chamou do outro lado.
“Ai caramba, esqueci a Bella!”, pensei, virando os olhos. As meninas conversavam entre si, então aproveitei para ir até a cozinha.
- Oi, Bella. - disse, quase como um suspiro. - E aí? Zen no Big bem?
- Estou bem. E você? - ela respondeu, cortando minha brincadeira.
- Hm... Vou bem... - respondi.
- Escuta, porque você não me ligou o fim de semana inteiro? Fiquei sabendo que você anda fazendo shows por aí e não me chamou! - ela piou do outro lado.
- Ah, sabe como é Bella, shows, fãs gritando, essas coisas. Achei que você não iria gostar... - eu respondi, me sentando na bancada.
- Claro que iria. Adoraria mostrar para todas elas que EU sou a namorada de Pedro Gabriel Lanza Reis! - ela exclamou, e eu suspirei novamente.
- Enquanto a isso, Bella, nós precisamos conversar. Eu... - tentei dizer, mas ela me cortou.
- Claro que sim. Estou com saudades, meu pitoco! - 'Pitoco'? Alguém me mata, por favor. - Amanhã vou te buscar na escola, ok?
- Hum... Ok. - eu concordei. “Amanhã eu termino tudo com ela!”, pensei.
E é claro que nós poderíamos nos despedir antes, se é que você me entende.
“Não, Lanza! Você está com a Victória agora!”, eu pensei novamente.
- Beijos, gatinho!
E delisgou.
Coloquei o celular em cima da bancada e suspirei.
Porra, até onde essa garota poderia me transformar?

Victória fala:

Acordei ainda cansada. Meus olhos pesavam e eu só pensava em voltar a dormir.
- Nem pense nisso. - ouvi a voz de Lanza ordenar. Abri os olhos novamente e o vi parado ao lado da minha cama. - Você já dormiu, tipo, umas 12 horas. Já é terça-feira e você tem prova de Geografia.
- Ok, papai, pode deixar que eu vou acordar! - eu brinquei, com a voz sonolenta. Ele riu e foi até a porta, a trancando. Depois voltou para cama e se deitou ao meu lado. Aninhei-me em seu peito e ele passou os dedos pelo meu cabelo desgrenhado.
- Você não pode ficar assim. Não pode deixar eles te derrubarem. - ele sussurrou no meu ouvido. Me arrepiei inteira e fechei os olhos, sentindo seu cheiro de roupa limpa.
- O que eu posso fazer se eles já me derrubaram? - perguntei, com a boca colada na sua camiseta. Ele escorregou o corpo pela cama até nivelar nossos olhos. Então pegou meu rosto com as duas mãos e disse, sério:
- Nunca mais diga isso.
Concordei com a cabeça. Meus olhos estavam tão inxados de chorar que eu nem senti quando as lágrimas recomeçaram a escorrer.
Eu parecia uma criancinha chorando porque não tinha ganhado o brinquedo que queria de Natal.
- Nunca diga que está derrotada. Porque você não está. - ele continuou, aproximando seu rosto do meu. - Por favor, você tem que reagir. Eu não consigo te ver assim. Dói.
Então ele beijou minha testa e me abraçou.
Eu afundei minha cabeça no seu ombro e segurei o choro.
Naquele momento, abraçada com o garoto que eu amava, prometi a mim mesma que não iria mais chorar. Porque Lanza não merecia aquele meu estado de espírito. Ele não merecia ficar mal por algo que estava acontecendo comigo. Ninguém merecia ficar mal por minha causa.
E, como se fosse só apertar um botão para ficar bem, desencostei minha cabeça do seu ombro, enxuguei as lágrimas e sorri, mostrando todos os dentes.
Por dentro eu estava um lixo, mas por fora eu tinha mesmo que reagir. Tinha que mostrar a todos que nada poderia me abalar.
- Tudo bem. - eu disse, e ele sorriu torto, sem mostrar os dentes, do jeito que eu amava. - Você está certo. Eu... Eu não vou mais ficar mal por quem não merece. Eles foram embora e me deixaram para trás. E se agora me querem de volta, estão muito enganados se acham que vão ter.
Lanza abriu mais o sorriso, agora mostrando os dentes tortinhos de baixo, o que me fez querer beijá-lo.
E, bem, se você está na cama do seu namorado, geralmente é o que você faz.
Claro, tirando aquela “outra” coisa.
Mas isso não vem ao caso.
Me ajoelhei na cama e ele fez o mesmo. Então me inclinei e deixei meus lábios inxados encontrarem os dele, que me pegou pela cintura e me puxou para mais perto. Mas eu meio que me impolguei e soltei o peso do corpo em Lanza, que não estava preparado para aquilo.
Então nós dois caímos da cama, fazendo o maior barulho.
Olhei para ele assustada e, no instante seguinte, os dois estavam um com a mão na boca do outro, se segurando para não rir alto.
- Hey, o que está acontecendo aí dentro? - Koba perguntou, do lado de fora da porta, com a voz sonolenta. Lanza estava se segurando tanto que colocou a mão na barriga e apoiou a cabeça no chão, deixando a risada escapar. Depois disso, eu comecei a rir muito alto, junto com ele. - Que porra vocês estão fazendo aí? Querem acordar a casa inteira?
- HAHAHAHAHA. Não, Koba, HAHAHAHA, não é nada, HAHAHAHA. É que Lanza, HAHAHAHA, caiu da cama! HAHAHAHAHAHAHA! - eu disse, não me segurando de tanto rir. Caí por cima de Lanza, que não conseguia falar direito, arfando.
- Ah, que graça. Se foderam, porque o Thomas acordou e vocês sabem como ele é quando é acordado. Hm, oi Thomas.
- Dá pros dois pararem de rir QUE EU QUERO DORMIR!? - Thomas gritou, o que nos fez rir mais ainda.
- Porra, que horas são? - ouvi a voz de Pe Lu se juntar aos outros dois lá fora. Lanza olhou para mim com lágrimas escorrendo pelo canto dos olhos.
- Por que estamos rindo mesmo? - perguntei, ofegando.
- Não sei!
E voltamos a rir.
- Porra. - Thomas disse do lado de fora. - Já tá na hora de ir pra escola.
- Lanza, seu veado, você me paga! - Koba exclamou, e ouvimos os passos se afastarem pelo corredor.
- Vai... - Lanza ofegou, finalmente conseguindo parar de rir. - Vai se trocar, pelo amor de Deus, antes que eu tenha um infarto!
Levantei-me, peguei o uniforme e fui até o banheiro. Lá chegando, lavei o rosto e me olhei no espelho. Apertei meu estômago dolorido de tanto rir e fechei a expressão.
Até quando poderia mentir que estava bem?

Um comentário:

  1. Oi, tudo bom?

    Eu sou a Ray, autora de Gossip Boys. Vi que você colocou meu nome no começo, mas eu preferiria que você tivesse conversado comigo antes de postá-la.

    Você poderia, por favor, colocar o link da original no começo?

    Se quiser falar comigo, @Raycjay ou raissa_flame_girl@hotmail.com

    ;*

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