Capítulo 24 – Dois golpes em um dia só.
Victória fala:
Aquilo era, no mínimo, constrangedor. Sério, o que meu pai estava fazendo ali?
De terno e sapatos de couro marrom?
- O quê você está fazendo aqui? – perguntei, segurando minha vontade de rir. Pensei que quando o visse de novo, começaria a chorar e gritar coisas como ‘por que você me abandonou e abandonou a mamãe?’. Mas, fala sério, eu não conseguia parar de pensar na roupa que ele estava usando. – Não basta Ryan me encher o saco, você tem que me encher também?
Acho que aquele, definitivamente, não era o meu dia de sorte.
- Victória, você pode me ouvir ao invés de ficar aí xingando e sendo irônica? – ele perguntou, e eu quis rir mais ainda. Toda vez que sua boca se mexia sua testa mexia junto, fazendo com que ele ficasse muito engraçado.
- Realmente, senhor – disse, enfatizando a palavra senhor. –, eu não sei o que você espera de mim vindo até aqui, mas um abraço apertado e um “papai voltou” é que não vai encontrar. – sorri de um jeito meigo, mas no fundo eu só queria zoá-lo. Ele estava exatamente igual, mesmo com as rugas de expressão, os olhos cansados e o cabelo grisalho. Mas, ao mesmo tempo, havia mudado tanto... Enquanto ele me olhava, como se pensasse no que ia responder, me perguntei: Será que, quando me encontrou ali, andando, pensou a mesma coisa? Será que ele havia percebido o quanto eu havia crescido? Será que... Será que estava arrependido?
De repente, uma nostalgia baixou sobre mim.
Ele era meu pai, mesmo com o terno cinza. E havia me abandonado.
Por que eu não conseguia mais me sentir triste por isso?
- Bom... – ele murmurou, me resgatando dos pensamentos com sua voz grave. Afrouxou a gravata, do mesmo jeito que fazia quando se aborrecia comigo ou com Ryan. – Pensei que você já estivesse madura para entender. Acho que me enganei. Me procure quando sentir que pode me ouvir.
Antes que eu pudesse me dar conta, Billy, mais conhecido como “papai”, deu as costas para mim e foi embora. Continuei a observá-lo, de boca aberta. Ele entrou em um Porshe prata, onde Ryan o esperava no banco de passageiro, e saiu pelo outro lado do estacionamento.
Que às vezes eu era muito criança eu sabia.
Mas imatura? Não, não podia ser... Se eu fosse imatura já estaria de volta na casa da minha mãe depois de meia hora na cara dos meninos, que mais parecia um zoológico.
Não é?
Imatura... Aquela palavra não sairia facilmente da minha cabeça.
Lanza fala:
“I can't believe I found the girl who turned my life around...” ouvia Pe Lu tocar no violão e cantar em seu quarto que era ao lado do meu. Eu estava deitado em minha cama, olhando para o teto. Pe Lu ainda estava compondo a música, mas já estava ficando muito boa. Já podia imaginar o ritmo que Harry colocaria. Um bem calmo, sem muitas viradas. Uma típica balada.
Ali, sem nada para fazer, somente uma coisa estava me incomodando. Uma coisa não, um pensamento que, há alguns dias, não saia da minha cabeça.
Quem era o ou a Gossip?
Eu tinha 3 suspeitos.
Marcus, porque ele era bicha e, bem, eu não confiava em nenhum bicha.
John, porque ele era o único que sabia que no começo o blog era nosso, não gostava de mim e por isso tinha todos os motivos parar querer me ferrar. Também porque ele era afim de Victória, e eu a “tirara” dele quando os dois estavam “juntos”. E, depois da conversa que ouvira no corredor, minhas suspeitas só aumentaram.
E, finalmente, Josh. Porque... Bem, porque eu não gostava de Josh. E, claro, ele estava envolvido na “conversa” com John.
Pe Lu, Koba e Thomas, além desses três, desconfiavam de James. Mas como poderia ser James? Ele não faria mal nem a uma mosca!
Ou faria?
De repente, o foco dos meus pensamentos mudaram de James para Victória.
Eu sabia que aquela coisa doentia que eu sentia por ela havia desaparecido. Sabia disso porque não estava como ficara da última vez que ela terminara comigo. Ela não era mais a perfeição em pessoa. Agora eu conhecia seus defeitos e imperfeições. Alguns defeitos eram perdoáveis, outros intoleráveis.
Mas, mesmo sendo mais “humana” para mim, mesmo não sofrendo tanto por não estarmos juntos, mesmo que eu não estivesse fazendo nada para tê-la de volta, eu ainda a amava. Muito. Ela ainda era uma parte insubstituível de mim. Eu ainda não queria perdê-la. E eu ainda queria viver muitos anos eu seu lado, aprendendo e errando, amando e conhecendo.
“Então por que você não vai atrás dela!?” você deve estar se perguntando.
Ah, mas eu ia! No mento certo. E ela voltaria para mim.
Mas primeiro eu precisava organizar minha cabeça. E, o mais importante antes de reconquistá-la: Descobrir quem era o/a Gossip!
My Life Would Suck Without You da Kelly Clarkson começou a tocar no quarto de Thomas.
Sorri sozinho.
Minha vida seria mesmo uma merda sem Victória.
Será que ela ainda sentia o mesmo?
- Lanza, vem ver isso. – Koba irrompeu em meu quarto, me assustando. Por reflexo, dei um pulo da cama e exclamei:
- Caralho, Koba, não sabe bater? Se eu estivesse batendo uma o quê você iria fazer?
- Rir. – ele respondeu, dando de ombros. – Agora vem ver isso.
Levantei-me e segui Koba até o quarto de Thomas. Pe Lu já estava lá, e a música estava bem mais alta.
- Abaixa essa merda! – gritei por cima do som. Thomas desligou a caixinha de som e eu me aproximei do laptop aberto em cima da escrivaninha.
Bom dia minhas flores do dia!
Acho que o babado de hoje já está manjado... Mas não custa nada avisar alguns desavisados, e como boa pessoa que sou, vamos lá!
Na foto, Victória e Cia com, tãtãtã, Ryan! Sim, o destemido e temido Ryan is back in town!
Agora, cá entre nós, quem mais achou-o um gato rebelde?
Nossa, depois dessa eu fico por aqui. Mas me despeço com uma novidade:
Pista 5 – Foi bom encontrar você! Bom, resolvi antecipar as coisas... O baile de primeiro de Setembro está chegando! Se até lá não descobrir quem eu sou... Já sabe o que vai acontecer, certo?
Beijão!
- 1º de Setembro? – Thomas exclamou, fechando a página. – Nós temos 1 mês para descobrir? É muito pouco!
- Valeu pela o apoio! – disse, irônico.
É, eu estava ferrado.
Pra não usar palavra pior.
- Relaxa Lanza, nós vamos te ajudar! – Koba colocou a mão em meus ombros. – Mesmo porque, fomos nós que te colocamos nessa história...
- Valeu, Koba. – disse, forçando um sorriso.
Agora eu estava desesperado.
Victória fala:
- 1º de Setembro? – exclamei, deixando o garfo cair no prato. Lanza continuou a comer, como se eu não estivesse ali. Não que eu ligasse, claro. Pe Lu confirmou com a cabeça, Koba entortou a boca e Harry recomeçou a falar:
- Sim. E nós só temos 4 suspeitos.
- Quem?
Eles se entreolharam.
- Bem... John, James... – Thomas suspirou e falou tudo de uma vez só: - Joshemarcus.
- Hã?
- Joshemarcus. – falou de novo, como se estivesse com uma batata na boca. Lanza, sem tirar os olhos da comida, riu baixinho, e eu virei os olhos.
- Fala que nem gente animal!
- Josh e Marcus! – ele berrou. Koba abaixou a cabeça e Pe Lu ficou vermelho. Lanza parecia estar fazendo um tremendo esforço para não rir. – Olha Vic, nós sabemos que eles são seus amigos, mas são suspeitos mesmo assim!
Cortei meu hambúrguer com um força desnecessária. Quem eles pensavam que eram para desconfiar daquele jeito dos meus amigos? a Restart?
Bem, sim...
- Posso dar o meu suspeito? – perguntei, doce e gentil. Thomas sorriu vitorioso, como se tivesse me convencido de que Josh e Marcus eram culpados. Koba e Pe Lu afirmaram com a cabeça. Olhei bem para Lanza e soltei antes que pudesse pensar em me arrepender: - Bella.
Lanza, na mesma hora, cortou o frango errado e ele saiu voando do seu prato para o chão. Ele levantou o rosto e me olhou vermelho de raiva.
Sustentei o olhar.
E aquilo era para ele aprender a não me olhar mais do jeito que olhara mais cedo, na escola. E para ele aprender a não rir de mim.
Claro que Bella era uma suspeita para mim. Mas eu só compartilhara minha opinião para me vingar.
- Hm, bem... Suspeita anotada. – Harry tentou amenizar a tensão. Em vão, pois eu e Lanza ainda nos olhávamos como se fossemos avançar um no outro ali mesmo, em cima da mesa.
Não sei quanto tempo ficamos ali, nos encarando. Só sei que quando ele abriu a boca para falar meus olhos já doíam de tanto segurar para não piscar.
- Boa noite. – ele desejou, sério e de súbito, se levantando e levando o prato com ele. Jogou de qualquer jeito na pia e saiu da cozinha, espumando. Ouvimos, em silêncio, ele subir a escada de madeira, fazendo um barulho desnecessário.
Acho que eu tinha cutucado a onça com vara curta.
Mas quer mesmo saber o que eu estava pensando naquele momento?
“Rosquinha...”
Lanza fala:
Bom, pelo menos eu já estava acostumado. Quero dizer... Enfermaria? Minha bff! Eu já conhecia todas as rachaduras da parede e do teto, e a nova enfermeira – Betty [N/A: ‘O meu também é Betty!’ haha, homenagem ao Gui.] – já era minha amiga íntima.
- Mais um briga, Lanza? Você está se saindo um tremendo machão! – ela exclamou, colocando um saquinho de gelo no meu lábio inferior, que não pingava mais sangue. Meu corte na testa ainda estava com casquinha, e agora eu teria mais um hematoma para minha coleção. – As pessoas te odeiam tanto assim ou você provoca mesmo?
- Não... – murmurei, sentindo o corte se movimentar conforme falava. – Bom, na verdade eu não sei te dizer... Mas dessa vez foi uma coisa mais pessoal. – olhei para Betty e ela sorria. Não daquele jeito que-saudades-dessas-crises-adolescentes, mas sim como se quisesse realmente ouvir a história. – Quer ouvir a história? – me ouvi perguntando.
- Claro! – ela exclamou, sem pensar. Depois, mais ou menos envergonhada por sua excitação, completou: - Se você quiser me contar, claro...
- Bom... Lembra a garota que entrou aqui essa semana?
Então ali, na enfermaria da escola, eu contei tudo. Desde que éramos crianças e Victória gostava de mim, passando pelo nosso ódio mútuo e chegando a situação atual. E, por último, contei a briga com Ryan.
Tudo começara com a máquina de refrigerante.
Flashback on.
- Merda! Essa porra roubou meu dinheiro! – murmurei pra mim mesmo, chutando a maquininha com toda força que consegui reunir. Não estava tendo um bom dia, pois Bella me alugara a noite inteira no telefone. Falei tantos “hum?” e “legal” que só conseguia ouvir isso das outras pessoas, mesmo que elas estivessem contando alguma coisa realmente interessante, como sexo selvagem com mulheres desconhecidas e festas animais que rolaram. – Caralho, nem sei porque insisto em colocar meu dinheiro aqui... – reclamei, parecendo um louco falando sozinho. Olhei em volta, procurando pelo tio que costumava resgatar meu dinheiro. Ele não estava ali. Aliás, o pátio estava deserto, pois todos estavam em aula. Resolvi matar a aula de filosofia porque, bem, quem precisa de filosofia? Mas parece que ninguém pensava como eu. Exceto por um garoto que atravessava o pátio em direção as máquinas.
De longe não pude ver quem era, mas conforme foi se aproximando, suas calças do uniforme tingida de preto e acessórios por todo o corpo delataram que se tratava de Ryan, irmãozinho querido de Victória.
Voltei a chutar a máquina, sentindo uma raiva esquisita.
- Porra de máquinaaaa! – exclamei, socando-a.
- Larga mão de ser viado, moleque. – ouvi a voz grave de Ryan ser pronunciada pela primeira vez. Então senti uma mão me afastar do caminho e logo em seguida a máquina engolia uma nota que ele colocara. Ele apertou o que queria e ela resolveu funcionar, cuspindo um pacote de salgadinho e o troco ao lado. Ryan pegou as moedas e se virou para mim novamente.
- Vai ficar aí parado que nem idiota? – perguntou, jogando as moedas no chão. – Seu troco. – disse, sorrindo com o canto dos lábios.
Observei-o se afastar e senti um ódio crescente se apossar de mim.
Quem ele pensava que era pra me chamar de idiota?
- Hey, seu filho da puta! – gritei, e ele se virou, com uma expressão assassina. – Não, filho da puta não, sua mãe é gente boa... Diferente do seu pai, aquele canalha.
- O que você disse? – ele me ameaçou, se aproximando e colocando o pacote de salgadinhos na mala. Depois jogou-a no chão e continuou: - Repete se for homem!
- Repetir o que? Que seu pai é um canalha que abandonou a mulher e a filha? Hm, bom, seu pai é um canalha que abandonou a mulher e a filha! – repeti, irônico.
Péssima escolha, Lanza Reis.
Bom, pra começo de conversa, Ryan não parecia ter toda aquela força. Quero dizer... Quando um moleque tão esquisito como ele teria um soco de direita daqueles? Porra, se eu soubesse que estava xingando o Maguila ficava na minha e saia com o rabinho entre as pernas! Sou homem mas não sou burro.
O negócio é que senti um punho duro acertar meu estômago. Logo em seguida, senti seu joelho acertar minha boca. Então estava no chão.
É, eu estava perdendo o jeito.
- Levanta otário, quero ver se é homem! – ele exclamou, com os olhos apertados numa expressão de fúria. Eu estava com mais medo que o homem da cobra, mas não ia amarelar na frente dele.
Se Victória fosse forte daquele jeito, eu não queria estar ao seu lado quando estivesse realmente irada.
Levantei-me ofegante e fechei o punho. Avancei em Ryan, quando percebi que ele estava distraído, e consegui acertar seu maxilar que estalou. Ele soltou um uivo de dor e se jogou em cima de mim. Então estávamos no chão, chutando e socando aonde conseguíamos acertar.
Preciso confessar que Ryan estava levando a melhor. Ele era mais alto, mais forte e mais dark do que eu. Merda, por que fui me envolver naquela briga?
- Hey, o quê está acontecendo aqui!? – ouvi Salete gritar, agarrando meus ombros. Do nada, surgiram dois inspetores do ensino fundamental e agarraram Ryan pela cintura, que continuava a se debater. Por mim, podiam separar aquela briga. Eu não estava mais sentindo minhas pernas e tinha medo de que aquilo afetasse meu Jr., coitadinho... – Posso saber o porquê da briga?
- Esse infeliz começou a chutar a máquina, eu fui tentar pará-lo e quando percebi estava sendo acertado por todos os lados! – exclamei, fazendo voz de choro. Ryan sorriu de um jeito maligno e parou de se debater.
- Sr. Hackmann, JÁ para a diretoria. E você sr. Lanza Reis, vá procurar a enfermeira, seu lábio está pingando sangue. – Salete disse, daquele jeito ameaçador que só ela sabia fazer.
- Você é bom, cara. – Ryan murmurou, antes de ser puxado pelos inspetores.
Flashback off.
- Espera aí, ele disse que você é bom? – Betty interrompeu a narrativa, achando graça. – Por que ele diria isso?
- Sei lá, irmão de louca, louquinho é. – respondi, dando de ombros. Ao fazer isso, senti minhas costelas se tocarem e arfei baixinho. – Pelo visto o estrago foi grande... – murmurei, me contorcendo de dor.
Betty se ajoelhou para analisar meu abdômen, que agora se contraía involuntariamente. Eu só conseguia sentir dor e ver estrelas. Então, como num passe de mágicas, ela estalou alguma coisa e a dor passou.
- Máqueporra foi essa? – perguntei, surpreso.
- Táticas de massagista. – ela respondeu mexendo os dedos.
- Uou! – assoviei, impressionado.
Ela voltou a mexer em algumas coisas na pia, ficando de costas para mim.
- Quer saber o que eu acho dessa história toda? – perguntou, jogando alguns papéis no lixo. Não esperou minha resposta para continuar. – Acho que vocês dois estão perdendo a melhor idade para se amar alguém com essas briguinhas bobas. Vocês podiam simplesmente sentar e conversar. Sabe, traçar objetivos, contar o que sentem, pequenas regrinhas para a convivência ficar melhor. – ela se virou, apoiando-se na bancada. – Sou casada há dois anos, e preciso confessar que se não fosse pelo diálogo meu casamento acabaria depois da lua-de-mel. – disse, com um ar de deboche.
- É, você tem razão. – respondi, sincero. – Mas o que eu posso fazer? Ela não olha na minha cara! – exclamei.
- Prende ela num canto, chama ela na chincha, deixa ela numa encruzilhada, ou sei lá como vocês dizem isso hoje em dia. – ela exclamou, mexendo os braços freneticamente enquanto falava animada com aquela conversa. – Não sei como, mas faça alguma coisa, moleque, reaja! Não só brigue com o irmão dela achando que isso vai resolver alguma coisa... Mulheres querem constantes aprovações de que seus namorados as amam! Nós somos sensíveis, não gostamos de meias verdades e precisamos de atenção! Será que em todos esses anos vocês ainda não entenderam isso? – perguntou, arqueando a sobrancelha. – Porque nós já sacamos os homens há um bom tempo viu?
- A há há, gracinha. – disse, jogando o saquinho úmido do gelo em cima dela, que revidou com algumas bolinhas de papel. Começamos uma guerrinha particular, mas no fundo eu estava intrigado.
Estaria Betty certa?
Victória fala:
- Anda logo, eu quero pegar a sessão das 14h! – Isadora nos apressava, pulando na nossa frente. Eu ia ao lado de Maria Eduarda e Júlia vinha atrás, atrapalhada com seus livros e cadernos. O dia não estava muito bonito, o que era ótimo para uma sessão só entre garotas no cinema. Os meninos iam ensaiar, então nós aproveitaríamos para colocar a fofoca em dia.
Não que a gente não fizesse isso a todo instante.
- Mike e Mandy, não acredito! – Maria Eduarda sussurrou, ao passar por um casal que se amassava no banco do pátio. – Qual é, ela não estava com o Timmy até semana passada?
- Estava meu bem, estava... – rimos juntas. Júlia finalmente se juntou a nós e respirou aliviada. Isadora diminuiu o passo e logos estávamos uma do lado da outra, atraindo a atenção de todos, como nos velhos tempos.
Sentia saudades das meninas. Depois que os McGuys chegaram, tinha que dividir a atenção das minhas amigas com eles. E quando tínhamos algum tempo para nós mesmas, elas só sabiam falar sobre os meninos! Não que eu não gostasse do namoro deles. Aliás, achava que era a melhor coisa que havia acontecido com minhas amigas! Mas, mesmo assim, não gostava de ter que dividir minhas irmãs!
Pulamos no carro de Maria Eduarda e ela ligou o som no máximo, estourando suas caixas de som com American’s Suitehearts do Fall Out Boy. [N/A: Quem ainda não ouviu essa música, tá esperando o quê? o_O’] Saímos dos estacionamento rindo histericamente, como sempre ríamos quando estávamos juntas.
- Tchau, lindas! – um grupo dos meninos do terceiro gritaram ao nos verem passar. Mandamos beijos e fizemos corações com a mão, e eles retribuíram.
- Porra, que saudades de fazer isso! – Júlia exclamou, abrindo a janela e colocando os óculos de sol. – Aliás, às vezes me dá uma saudade de ser solteira...
- Idem. – Isadora gritou por cima da música.
- Digo o mesmo. – Maria Eduarda riu, bagunçando o meu cabelo enquanto dirigia a toda velocidade. – A Vic que tem sorte. Sendo a única solteira, agora também é a mais desejada!
- Quem foi que disse que eu estou solteira? – perguntei, virando os olhos e também colocando meus óculos de sol.
- A é? Tá namorando quem? Seu amigo imaginário? – Isadora perguntou, e nós quatro rimos.
- Não, ele se chama Tom Cruise e é ator. – respondi, fazendo um ‘dã’ logo em seguida. – Como se vocês não soubessem disso...
- Aham, claro, e meu nome é Espermátocleide. – Maria Eduarda respondeu.
Fomos falando merda até o shopping. Ao chegar lá, estacionamos e entramos, com nossos cartões de crédito nas mãos. Por algum milagre de Deus minha mãe não bloqueara o meu, mesmo sem falar comigo há um bom tempo, então eu ainda podia me dar o luxo de torrar um dinheirão que não era meu.
Rodamos o shopping inteiro e já estávamos com várias sacolas nas mãos, esperando o filme começar, quando Isadora bateu com a mão na testa e exclamou um ‘porra!’.
- Eu esqueci que preciso comprar um presente de aniversário pra minha mãe! – Isadora disse, entortando a boca. – Não pode ser livro, roupa, relógio e acessórios.
- Por quê? – perguntei, achando graça.
- Meu irmão vai dar livro, meus avós roupa, meu pai relógio e todos os seus amigos vão dar brincos, anéis e pulseiras. Ai meu Deus, o que eu compro? – ela exclamou, com cara de desespero. – O aniversário dela é amanhã!
- Compra um perfume. – Júlia sugeriu, analisando as unhas pintadas de vermelho quinta avenida. – Acho que é a única coisa que dá pra comprar.
- Ótima ideia!
Subimos as escadas rolantes e um grupo de universitários começou a assoviar. Nós rimos e fomo até o último andar imitando um dos meninos, que mais parecia um poodle do que uma pessoa.
- Acho que ele abana o rabinho quando acha alguma menina interessante! – Maria Eduarda disse, e nós já estávamos sem fôlego de tanto rir.
- Sim, e quando se machuca ele faz fazer ‘au au’! – Júlia exclamou, e nós paramos de rir na hora.
Ok, aquela piada não teve graça.
- Quem deixou a Jú falar? – perguntei, entrando na única loja de perfumes do shopping.
Havia esquecido que Bella trabalhava ali, e tomei um susto ao vê-la de costas para mim, atrás do balcão. Apertei os olhos para enxergar melhor e pude ver que ela estava mexendo no Laptop...
... Acessando o Conte Seu Babado.
Capítulo 25 – De quem desconfiar?
Victória fala:
- Bom dia, como posso ajudar? – uma voz entediada perguntou atrás de mim. Tomei um susto e me virei automaticamente, trombando com a mulher e fazendo-a derrubar alguns frascos vazios que segurava. – Ai meu Deus! – ela exclamou, se agachando num pulo.
- Merda! – exclamei ao mesmo tempo, me agachando junto. As meninas foram junto para o chão, ajudando a recolher os cacos de vidro. – Eu sinto muito!
A mulher nem levantou os olhos, murmurando algo como “sem problemas”. Tentei ao máximo levantar para ver o que Bella estava fazendo, mas a expressão de é-hoje-que-eu-perco-meu-emprego da mocinha me impediu. Quando acabamos de ajudá-la e eu finalmente pude me levantar, Bella não estava mais lá e o Laptop estava fechado.
Murmurei alguns palavrões para mim mesma e apoiei-me na bancada de vidro, enquanto uma confusão de vozes enchia o ar. Maria Eduarda se desculpava por ter uma amiga tão desastrada como eu incansavelmente, Júlia ria sozinha e sem parar da situação constrangedora, Isadora perguntava para outra vendedora qual era o perfume mais cheiroso e barato da loja e a vendedora que derrubara as coisas ignorava Maria Eduarda e gritava para outra vendedora desocupada ir buscar o lixo.
Enquanto toda aquela zona acontecia, eu via tudo em câmera lenta e ouvia tudo abafado. Na verdade, eu só ouvia ruídos indecifráveis, pois gritando em minha cabeça uma voz dizia: "Bella é a Gossip, Bella é a Gossip!".
Se antes era uma alternativa, naquele momento passou a ser quase a escolha final. Eu apostaria todas as minhas fichas nela. E olha que nem era de raiva por ela ter roubado Lanza de mim.
- Posso ajudar? – ouvi a mesma voz enojada que ouvira de longe no aeroporto perguntar atrás de mim. Uma corrente elétrica percorreu meu corpo e eu apertei meu pulso com a mão direita. Quem ela pensava que era pra agir como se nada tivesse acontecido? Eu tinha certeza absoluta que ela me vira, e agora estava ali, agindo como se nós fossemos somente cliente e vendedor.
- Pode, claro que pode. – respondi, me virando de frente para ela, que usava uma roupa toda preta de vendedora e os longos cabelos negros presos em um coque desfiado. Seus olhos verdes faiscavam, assim como eu tinha certeza que os meus também brilhavam de ódio. Mas eu tinha que admitir que Lanza tinha bom gosto. Ela era realmente bonita. Mas, mesmo sendo bonita, tinha um olhar maldoso e a língua afiada. – Você podia começar parando de correr atrás de Lanza, porque não sei se percebeu, mas ele definitivamente não gosta de você.
Bella sorriu, maliciosa, e respondeu:
- E de quem ele gosta então? De você? Porque, pelo o que eu sei, quando as pessoas se gostam elas ficam juntas. E, bem, ele está comigo e não com você, certo?
Uma à zero para a zoiuda.
- O problema, Bella, é que eu não fico correndo atrás dele, porque eu sei que se ele me quer ele vai vir atrás. Isso se chama ter amor próprio, coisa que você tem de menos.
Um à um.
Bella olhou para um lado e depois para o outro. Todos estavam entretidos em pedir desculpas/escolher perfume/rir, que não perceberam que estava rolando um pequena discussão no canto da loja. Depois de verificar se alguém estava mesmo olhando, Bella se inclinou para frente, quase colando seu rosto ao meu, me invadindo com um perfume doce e enjoativo, e rosnou:
- Ok pirralha, vê se aprende de uma vez por todas. Eu sou esperta, bonita e tenho dinheiro. Só trabalho aqui pra não ficar entediada. Sou mais velha, tenho meus truques. Você é só um rostinho bonito, que se acha melhor que tudo e todos. Você realmente acha que, no final, Lanza vai te escolher, uma criancinha mimada, se ele pode me ter?
- Quer mesmo saber o que eu acho? – perguntei, sentindo o sangue ferver. Ela não respondeu, mas seus olhos estavam apertados de ódio. - Acho que no final você vai se dar mal e engolir essa língua afiada. Mas enquanto isso, pode se divertir a vontade com o Lanza, porque acho que você sabe que ele só está com você porque você é fácil e liberou pra ele sem ele se quer pedir. Mesmo porque, no final de tudo, vai ser muito bom ouvir da boca dele que eu sou bem melhor que você.
Virei as costas e comecei a sair da loja, antes que chutasse alguma prateleira cheia de perfumes. No caminho, peguei Isadora, que acabara de comprar o perfume, pelo colarinho, Júlia, que ainda ria, pela blusa e Maria Eduarda, que ajudava a mocinha a jogar os cacos no lixo, pela mochila.
- Nossa Vic, o que aconteceu? Daqui a pouco você vai espumar na roupa! – Isadora exclamou, se soltando dos meus braços e ajeitando a roupa.
- Aquela víbora, vagabunda, vaca, piranha, otária, prepotente, imbecil, mesquinha e puta da Bella vai me pagar! – exclamei, soltando todos os palavrões que formigavam minha língua. – Aquela imbecil vai ver o que é bom pra tosse!
- O quê? Porque eu estou com um tosse incrível e... – Júlia perguntou, com a maior naturalidade do mundo. Olhamos ao mesmo tempo para ela, que perguntou, inocente: – O quê?
- Ai meu Deus, vamos ver logo esse filme que ganhamos mais do que ficar aqui. – Maria Eduarda pediu, me empurrando para longe dali, com medo que eu voltasse na loja e quebrasse tudo. Não que eu não fosse capaz, mas isso ia ficar um pouco caro demais depois. - E você estressadinha, engole essa inveja e assiste o filme, vai ver só como no final vai estar bem melhor!
- Inveja? Eu não tenho inveja dessa biscate! – exclamei, jogando meu cabelo que insistia em cair nos olhos para trás, fazendo com que dois velhos que tomavam café ali perto me olhassem com cara de tarado. – Eu quero mais é que ela e o Lanza se explodam juntos!
- Se você quer mesmo isso por que foi brigar com ela? – Isadora perguntou, e Júlia fez aquele barulho irritante que sempre que alguém não é bem sucedido em segurar a risada faz. Mostrei o dedo para Júlia e comecei a caminhar com passos largos em direção ao cinema, exclamando:
- Ótimas amigas eu tenho!
As três começaram a rir, e quando percebi estavam ao meu lado, me cutucando e abraçando, enquanto eu me segurava para não rir.
- Suas otárias.
- A gente somos otárias mas a gente te amamos! - Maria Eduarda disse, e eu não consegui mais segurar o riso.
- Ok, vamos logo assistir isso antes que eu arranque a cabeça daquela nojentinha fora. – disse, virando os olhos. Entramos no cinema já um pouco atrasadas e nos sentamos na última fileira. Sentei-me na ponta direita e Maria Eduarda sentou-se ao meu lado. O filme começou, mas eu não conseguia prestar a mínima atenção. A única coisa que eu conseguia fazer era balançar a perna para ver se o ódio passava.
- Hey, gatinha. – de repente Maria Eduarda sussurrou, chamando minha atenção. Virei minha cabeça para o seu lado e ela sussurrou: – Não precisa ficar assim. O Lanza gosta mesmo é de você.
- Vai se foder, vai, Maria Eduarda? – pedi, dando um soco de leve em seu ombro.
Fingi que tudo estava bem até o filme acabar.
Mas uma coisa não saia da minha cabeça: Bella era a Gossip?
Lanza fala:
- Eu comeria um boi fácil agora! – Koba reclamou, colocando a mão na barriga. Sua aliança fez reflexo em meus olhos por alguns instantes e ele voltou a destruir o controle do video-game. – Onde as meninas foram mesmo?
- Cinema. Cala boca e joga, Kobayashi. – Thomas reclamou, balançando as pernas freneticamente, esperando sua vez de jogar. Eu estava ao seu lado, dedilhando o violão despreocupadamente. Não tínhamos nada pra fazer aquele dia. Na verdade, tínhamos ensaio, mas ele fora transferido para segunda-feira. As meninas não sabiam disso, então tinham ido ao cinema, nos deixando ali, às moscas. Quero dizer, Victória nem olhava mais para minha cara de qualquer jeito. Mas seria bom ter a companhia feminina ao invés de ficar entre um bando de machos jogando video-game e tomando cerveja quente.
Uma melodia estava se formando na minha cabeça, junto com a letra. "Tell me that you want me baby, tell me that it's true! Say the magic words and I'd destroy the world for you..."
- Hey dudes, prestem atenção nessa melodia! – pedi. Koba e Pe Lu deram pause no video-game e Thomas parou de mexer a perna. Toquei para eles, que me observavam com curiosidade e profissionalismo, diferente de quando estávamos no começo, quando um zoava a melodia ou letra do outro.
Depois que terminei, Pe Lu saiu correndo da sala, nos deixando mudos e com cara de imbecil. Thomas abriu outra latinha de cerveja, pois isso o ajudava a pensar, e Koba desligou o video-game.
Era hora de começar a levar as coisas um pouco a sério.
Pe Lu voltou com o seu próprio violão e jogou-se no chão.
- Olha, eu acho que ia ficar melhor se você mudasse de G para F, não de F para G. Desse jeito. – ele começou a tocar novamente, deixando a música um pouco mais rápida. Koba decidiu entrar na brincadeira, pegando o meu violão e fazendo um solo estranho no fundo, mas que na verdade ficou legal. Thomas pegou duas baquetas que misteriosamente estavam no sofá e começou a batucar nos travesseiros.
A música estava se formando de um jeito estranho e divertido. Assim que eles acabaram, peguei o violão de Koba e comecei a fazer a letra da música, o que para mim, na verdade, era bem fácil.
Precisava expressar o que eu sentia de algum jeito, e fazer música era, bem, o jeito.
- Tell me that you want me baby, tell me that it's true! Say the magic words and I'd destroy the world for you! - cantei a primeira estrofe, que já estava formada na minha cabeça. Era a mais pura verdade. Se Victória algum dia chegasse a dizer que me queria, sem mentiras, sem vergonha e sem hipocrisia, eu destruiria o mundo por ela. - An army for the broken hearted, going through the streets! And every city's burning to the ground under my feet!
- Pera aí, acho que ao invés de 'going' você deveria colocar 'marching'. - Harry sugeriu.
- E ao invés de 'under my feet', coloca 'under your feet'. - Koba disse, dando de ombros.
Cantamos a música novamente, mudando as palavras, o que a deixou com uma sonoridade bem melhor.
- Certo, agora o refrão. - Koba disse, pegando meu violão novamente. - I wanna love you, my eyes are turning black! Feels like a heart attack...
- And I'd do anything you ask, I wanna love you bad! - Harry completou, se sentindo útil. Sabe como é, bateristas adoram saber que alguma coisinha na letra da música foi feita por eles.
- Pera aí, 'I wanna love you' ficou muito... Sei lá, pornográfica. Tipos aquelas músicas do Akon. [N/A: Akon, beejofollowanotwitter! ;*] - Pe Lu comentou, mordendo o lábio inferior. - Acho que ficaria melhor 'I wanna hold you'.
- Uou, perfeito! - exclamei, furtando novamente o violão das mãos de Koba. - E ao invés de 'my eyes are turning black', ficaria melhor 'my skies are turning black'! - disse, e tocamos novamente.
Ficamos ali até a tarde cair. A música caminhou de uma estrofe para solos e ritmo na bateria. A letra estava pronta e até pensávamos em backing vocals e todas essas coisas. Quando terminamos, o Sol já tinha ido embora, e a Lua subia preguiçosamente pelo horizonte.
- Que merda, essa música podia ter ido pro CD. - Pe Lu reclamou. - Ficou muito boa!
- Tudo bem, nós guardamos essa pro segundo. - Thomas sorriu de um jeito debochado. - Do jeito que estão as vendas do Room, daqui a pouco teremos que começar a pensar no segundo CD!
- Eu acho que nós deveríamos comemorar nossa primeira música do segundo CD no Barney's. O que vocês acham? - Koba sugeriu. E em menos de cinco minutos, entrávamos pela porta com aquele sininho irritante da lanchonete, fazendo barulho. O lugar estava lotado, e todas as cabeças se viraram para nós quatro. Os murmúrios começaram mais forte do que o normal. Se antes éramos alvo de fofoca, agora que estávamos pseudo-famosos as coisas estavam começando a sair do controle. Ouvíamos rumores de coisas incríveis, estranhas e bizarras.
Era engraçado e assustador ao mesmo tempo.
- Lanza! - James exclamou, surgindo ao meu lado. Pe Lu segurou uma risada sugestiva e eu sorri para ele.
- Olá, James! Será que nossa mesa estaria livre?
- Claro, eu nunca deixo ninguém sentar na mesa de vocês. Mesmo porque, vocês não ficam um dia sem vir aqui, então não tem perigo. - ele respondeu, sorrindo como idiota para mim. Eu estava começando a pensar que Marcus não era o única por ali a jogar para o outro time.
- Ótimo. Então trás 4 cervejas e... - olhei para os dudes.
- Quatro X-burguers completos. - Koba respondeu. - Só para começar.
James olhou com desprezo para ele e desapareceu pelo balcão. Nós fomos rindo até a mesa, que estava mais limpa que o normal.
- Parece que James caprichou pra você hoje, eim Lanza? – Thomas perguntou, me provocando.
Nós ficamos ali, bebendo e rindo, até as 21h. Quando percebemos, já estávamos bêbados de cair e rindo muito alto. As coisas foram se multiplicando na nossa mesa, e de quatro X-burguers a conta subiu para 20 X-burguers. Alguns estavam no chão, outros no nosso estômago. O Barney’s estava mais cheio do que o normal, e todos olhavam para nós, alguns rindo com as palhaçadas que fazíamos e outros com cara de desaprovação.
Thomas teve a incrível ideia de ligar para as meninas, que disseram que estavam chegando no Barney’s e que era para nós ficarmos ali e não sair com o carro de jeito nenhum.
Automaticamente meu estômago se contraiu e eu senti uma incrível vontade de mijar.
- Vou mijar. Não deixem ninguém... – arrotei, fazendo os dudes rirem. – Ninguém roubar meu lugar.
Levantei-me cambaleante e fui trançando as pernas até o fundo da lanchonete. Fiquei em uma encruzilhada de 3 portas. Uma dizia ‘banheiro feminino’, e as outras duas não diziam nada. Se eu estivesse sóbrio saberia que o banheiro masculino era ao lado do feminino. Mas já que não estava nas melhores condições, entrei na terceira porta com tudo.
Era um quarto vazio, com alguns armários. Um deles estava aberto, e eu fui até ele, enxergando distorcidamente uma privada. Apoiei-me na parede e olhei para dentro do armário aberto, percebendo que se tratava de um armário e não uma privada. ‘Merda!’ pensei, realmente com vontade de mijar ‘Armário idiota!’ pensei novamente, chutando a porta. Olhei para dentro por distração, mas algo chamou minha atenção. Uma pasta azul com uma etiqueta escrita ‘Fotos de James’. Agachei-me, quase caindo, e apoiei-me no chão. Peguei a pasta e me sentei, sentindo a cerveja subir rapidamente para a cabeça. Despejei o conteúdo da pasta no chão e peguei a primeira foto que alcancei. Três cachorrinhos correndo por um campo. Lixo. Peguei a próxima. Duas crianças se abraçando. Lixo.
Continuei pegando fotos ruins e jogando-as para o alto. Lixo, lixo e lixo.
Não sabia o que esperava encontrar ali, mas algo me dizia que iria encontrar algo.
E como minha intuição de bêbado era melhor que intuição feminina, achei o que estava procurando. No fundo da pasta, achei uma das fotos que havia entrado no Conte Seu Babado, aquela das meninas dançando na sacada. Ela fora imprimida com papel especial de foto e brilhava. Virei a foto e tentei por uns dois minutos ler o que estava escrito. ‘Conte Seu Babado’.
Eureca! Então James era o Gossip!
Mas... E Josh e John? E o que eu ouvira no corredor?
Então aquilo me confundira muito. E eu estava confuso e bêbado.
- Lanza, porra, aí não é o banheiro! – ouvi a voz embriagada de Pe Lu exclamar, entrando no quarto de empregados. Levantei-me com um pulo, caminhando vagarosamente em sua direção. – Você não consegue nem diferenciar um banheiro de um quarto de empregados, seu bêbado de merda! – ele se divertia com minha embriaguez.
- Ah, cala a boca sua bicha, e me leva no banheiro. – pedi, empurrando-o para fora do quarto. Fechei a porta atrás de mim. Minha boca formigava e meus dedos coçavam. Contar ou não contar? Decidi esperar ter mais pistas e ficar menos bêbado.
É, seria o melhor a fazer.
E agora? Quem seria o Gossip? John, Josh ou James?
Victória fala:
Maria Eduarda estacionou seu carro de qualquer jeito na vaga. Harry estava totalmente e incrivelmente bêbado ao telefone quando nos ligou, e ela estava com medo de que Pe Lu estivesse igual ou pior. O que, com certeza, estava. Mas essa não era sua preocupação, mesmo porque ela também bebia. Na verdade ela estava com medo de que eles fossem dirigir. Mas quando viu que o carro de Thomas ainda estava no estacionamento, suspirou aliviada.
Entramos e fomos direto para a mesa dos meninos, que estava uma catástrofe de latinhas de cerveja, copos, hambúrguers e sujeira. Thomas e Koba brincavam de papel, pedra e tesoura em meio toda a sujeira, e Pe Lu e Lanza voltavam do banheiro.
- Oi meu amor! – Koba exclamou, pulando do banco e quase derrubando Isadora com um abraço. Júlia se sentou ao lado de Harry, se divertindo com as caretas que ele fazia e Maria Eduarda sentou-se no colo de Pe Lu e beijou sua testa, agradecendo que ele não quis ir embora dirigindo e a esperou.
Virei o rosto e vi Lanza parado ao meu lado, me observando de um jeito estranho. A minha intenção era ignorá-lo, e quando estava virando meu rosto, senti cinco dedos frios envolverem meu pulso. Ignorei minha vontade de virar um tapa bem dado na sua cara e respirei fundo.
- Eu preciso falar com você. – ele sussurrou, tentando não ser visto pelos meninos. Mas isso seria difícil, pois eles estavam bêbados e entretidos demais com as namoradas para reparar no que rolava ao lado da mesa com o vocalista da banda e sua ex-futura-quase namorada, que, na verdade, não queria mais olhar para a cara dele.
É olhando as coisas por esse ponto de vista que eu percebo como aquela história eu-e-Lanza-e-bella-e-gossip estava complicada.
- Problema seu. – respondi, virando os olhos e tirando seus dedos de mim.
- Victória, é sério. – ele murmurou, com os dentes cerrados. – Não tem nada a ver com a gente. É sobre o blog.
- Isso é, repito, problema seu.
- Por favor. – ele pediu, e por um minuto eu esqueci que não podia olhar em seus olhos. Sabe como é, olhando em seus olhos eu sempre acabava cedendo.
Mordi meu lábio inferior e suspirei. Já havia sido derrotada, pra quê fazer aquele suspense?
- Te espero lá fora. – disse, caminhando em direção a entrada. Sai pela porta e senti o frio bater contra meu rosto. Já estava arrependida, mas não poderia fazer nada para mudar aquilo.
Alguns segundos se passaram, mas era como se fosse uma eternidade. A noite fria me trazia uma sensação de vazio, de tristeza. Lembrei-me de quando descobri que meu pai estava voltando. Aquilo me atingiu em cheio, mas agora era como se não significasse nada pra mim. E Lanza fora uma parte importante naquele processo. Era de alguém como ele que eu precisava para não me sentir sozinha. Por quem mais eu deveria viver se não por alguém que me fazia melhor? Ele fazia eu me sentir feliz, protegida, amada. Ele preencheu o ausência do meu pai. Ele foi muito mais do que eu merecia ter.
Mas, ao mesmo tempo, ele foi um cafajeste.
Sentindo o frio me ferir, eu percebia como a vida era feita de escolhas, erros e antíteses. Eu poderia escolher perdoá-lo, mas ele errou muito comigo. E a antítese era que eu estava errando em não perdoá-lo e ele escolhera errar.
Lanza fala:
Acho que ninguém me percebeu saindo. Se percebeu não comentou. Mas mesmo que tivesse percebido, eu não me importava. Eu precisava compartilhar aquela informação com alguém. E Victória era a melhor escolha. Sei que sóbrio eu não teria coragem. Ou melhor, sóbrio eu não ignoraria meu orgulho ferido. Mas comigo as coisas eram assim: a bebida entrava, o orgulho ia embora.
Sai pela porta segurando o sino para não fazer barulho. O frio tirou um pouco do efeito bêbado-idiota, e fazia tempo que eu não observava Victória sem me sentir mal. Fazia tempo que eu não observava seu cabelo longo que caía em cascata pelas costas. Sua pequena mão, que tremia de frio naquele momento. Seu corpo escultural, seus movimentos graciosos, sua capacidade incrível de ser linda em todos os momentos. Mesmo de costas, ela era a perfeição em pessoa. Seu jeito de tremer, seu hálito quente que saía como fumaça branca da sua boca. Aquilo era demais pra mim... Eu não ia esperar porra de momento melhor nenhum. Não iria esperar saber quem era o/a Gossip nenhum(a). Eu precisava tê-la de volta, e iria lutar por isso. Finalmente a ficha havia caído. Eu não era nada sem ela.
- Vic. – murmurei para mim mesmo, mas ela, de algum jeito, ouviu. Virou-se bruscamente, me encarando expressivamente. Perdi as palavras na minha boca e minha língua se enrolou. Ela me encantava com um simples olhar.
- Ok, Lanza, fala logo o que você quer dizer antes que eu me arrependa de ter aceitado conversar com você. – ela disse, prolongando todas as palavras, na defensiva.
- Primeiro, preciso te contar uma coisa. – disse, me aproximando dela. Segurei suas mãos entre as minhas e ela não se mexeu, ofegante. – Eu acabei de entrar no quarto dos empregados do Barney’s e encontrei algumas fotos do Conte Seu Babado em uma pasta de James. Não sei o que isso quer dizer, mas acho que pode ser uma pista. Mas eu também ouvi uma conversa entre Josh e John no corredor da escola que deu a entender que são eles os donos do blog. – quando terminei de falar, Victória olhou para o lado, pensativa.
- Eu... – ela suspirou. – Eu também preciso te contar algo.
- Pode falar.
Victória pensou mais um pouco e franziu a testa.
- Acho que prefiro te contar isso outro dia. Quando você estiver sóbrio.
- Eu estou sóbrio! – gritei, e isso foi mais do que uma certeza de que eu não estava sóbrio. Victória olhou para minha cara segurando o riso. – Ok, nem tanto assim... Mas pode me contar, eu quero saber!
- Não, é melhor não.
- Promete que me conta outro dia então? – pedi, apertando suas mãos.
- Prometo. – ela sorriu como não sorria para mim desde que descemos do avião na viagem de volta da Argentina. – Então você acha que Josh, John e James tem culpa no cartório?
- Acho. Só não sei qual deles. – murmurei, demonstrando estar confuso.
- Lanza, não se preocupa. – ela disse, dando um passo em minha direção. – Nós vamos descobrir quem é, você não precisa entrar em pânico.
- É só que... – eu sussurrei, sentindo meu coração disparar a dar mais um passo em sua direção. Estávamos sozinhos no estacionamento, e nossos rostos estavam muito próximos. – Depois que esse ou essa infeliz roubou o blog, as coisas só se complicaram. Eu quero logo que tudo isso acabe, pra eu poder... – parei de falar, percebendo que falara demais.
- Para poder? – ela perguntou, levantando o rosto e olhando em meus olhos pela primeira vez.
- Para poder ficar com você. – respondi, sentindo as palavras escorregarem da minha boca.
Victória soltou uma risada curta e deu um passo para trás, soltando minhas mãos. Não entendi sua atitude, então dei um passo em sua direção e segurei seu queixo com a mão.
- Por que você riu?
- Porque se você quisesse realmente ficar comigo não daria essa desculpa. – disse, e seu tom de voz gentil foi embora. – Se você quisesse ficar comigo, já teria terminado com Bella.
- Eu vou! Eu vou terminar com ela! – exclamei. Tudo o que eu queria falar estava entalado na garganta, querendo sair. Mas, de algum jeito, eu não conseguia dizer. Então só consegui repetir. – Eu vou terminar com ela.
- E por que não terminou ainda? Por que você foi forte o suficiente para me perder e não é forte o suficiente para terminar com alguém que você nem gosta? – ela perguntou, elevando a voz. – Por que você me faz sentir especial em um dia e no outro me faz sentir como se eu não fosse nada? Por que... – ela parou de falar, respirando.
- Por quê? – perguntei. Eu queria saber. Queria que ela falasse tudo o que tinha pra falar, doesse o que fosse doer.
- Por que você tem que fazer eu me sentir assim? Por que eu tenho que te amar tanto a ponto de querer te perdoar mesmo você não me pedindo desculpas? A ponto de querer ficar com você mesmo sabendo que você não terminou com uma menina que nem gosta só porque ela é gostosa. E eu SEI que você ainda não terminou com ela porque ela te dá o que eu ainda não posso te dar. E sabe que... Sabe que eu já pensei várias vezes em ceder? – perguntou, e seus olhos se apertaram. Pela primeira vez ela estava sendo completamente sincera comigo, como se não aguentasse mais guardar aquilo. – Pensei em te dar o que você quer de mim, só pra você terminar com ela e ficar comigo! Lanza, eu te amo demais para você continuar me magoando desse jeito.
Victória pareceu se arrepender do que tinha dito, pois virou o rosto, vermelha. Colocou as mãos no bolso e eu soltei seu rosto.
- Victória, eu... Eu não... É só que... – eu não conseguia. Não conseguia falar, com todas as letras ‘vou terminar com a Bella agora!’ ou ‘eu vou esperar você’! Porque agora eu sabia. Sabia que não iria conseguir. Bella me dava o que eu queria. Victória não. E, mesmo amando ela mais que tudo, eu era homem. E homens eram assim.
De repente, me dei conta de como eu estava sendo um animal.
Então era por isso que eu não tinha coragem de terminar com Bella? Victória tinha percebido antes de mim o porquê de eu não conseguir me separar de alguém que eu não gostava? Eu era assim tão grotesco a ponto de estar fazendo aquilo com as duas só por... Sexo!?
Naquele momento, percebi que precisava mudar as coisas. Precisava parar de ser tão imbecil com as duas. E estava prestes a falar para Victória que ia terminar com Bella naquele momento, pois eu havia tomado uma decisão. Mas ela não me esperou completar.
- Tá vendo só? Você nem consegue se defender, pois SABE que está errado e que está sendo um IMBECIL. Então Lanza, vou te falar isso só uma vez, e não vou falar mais. – ela abaixou a voz, se aproximando de mim novamente. – Ou você se decide por amor ou por sexo, ou eu vou seguir em frente. E tenho certeza que com o tempo eu vou conseguir isso. Você sabe muito bem que quando eu coloco uma coisa na cabeça eu vou até o fim. E se você não se decidir, não vai ter mais volta. Eu te amo, sim, mas não sou palhaça e muito menos a cachorrinha de ninguém.
E quando percebi, ela já havia entrado, me deixando sozinho ali fora.
‘Meu Deus! Eu sou mesmo tão pervertido?’ pensei, me sentando na calçada e apoiando a cabeça nas mãos. Aquilo havia me atingido em cheio. Descobrira que era mais cafajeste do que pensava. Sempre pensei que fosse um cara legal, mas parece que não era assim tão bonzinho.
E, o que mais estava me incomodando era: Eu teria coragem de despachar sexo de graça e esperar dias, meses ou, quem sabe, anos por Victória?
Meu amor era assim tão grande?
Capítulo 26 – Vivo. Morto. Vivo. Morto.
Victória fala:
Depois da noite desastrosa com os meninos, tivemos que levá-los socados no carro até em casa, voltar para o Barney’s, pagar a conta e levar o conversível de Harry – que quase foi batido em um poste por nós, mas ele não precisa saber disso – de volta, finalmente fomos dormir, pois teríamos o churrasco de Ághata no dia seguinte. As meninas dormiram comigo, pois eu estava com medo de algum dos guys tentar se jogar da janela ou algo do tipo. Então Maria Eduarda dormiu com Pe Lu, Júlia com Harry, Isadora com Koba e infelizmente – ou felizmente – eu dormi com Lanza. Mas ele não me deu muito trabalho, o que foi uma pena. Eu queria, mesmo que indiretamente, ter algum motivo para mandar nele. Mas ele só roncou a noite inteira como um bebezinho. Nem falar à noite ele falou, como costumava fazer quando dormíamos juntos. Então, entediada e frustrada, peguei meu colchão no quarto de visitantes e dormi ao seu lado.
Acordei no outro dia com o despertador dele berrando If U Seek Amy da Britney Spears. Quando percebi que sim, ele acordava ouvindo Britney Spears, fui atingida por um acesso de riso que só parou quando vi um tufo de cabelos se mexer na cama. Fiquei sentada, estática e muda, enquanto ele se levantava e tentava lembrar o que tinha acontecido na noite anterior. Pude ver que fazia isso porque colocou a mão na testa e olhou para baixo, percebendo que estava só de boxers.
Culpada por essa acusação.
Até aquele momento, mesmo com um colchão enorme ocupando a maior parte do seu quarto, ele ainda não tinha me visto. Ao virar-se na cama e colocar um pé na minha cabeça, soltou um grito muito engraçado.
- Ai, porra! – exclamou, puxando a perna para junto do corpo, aparentemente com medo de ser atacado por uma sucuri. Depois se inclinou para frente e me viu ali, toda sorridente e descabelada. – O que você está fazendo aqui, Vic? Quer me matar do coração?
- Missão impossível, impedir que Lanza pule da janela pensando que é o Batman. – me ouvi dizer. – Às vezes a bebida causa esse efeito nas pessoas... – por que estava sendo tão espirituosa quando tivemos uma pseudo-briga na noite passada?
Será que ele se lembrava da nossa discussão?
- A ha ha, engraçadinha. – ele ironizou, me pulando para chegar ao banheiro. Preciso confessar que vê-lo andando pelo quarto só de boxers com o cabelo todo bagunçado e aquela cara de sono foi, no mínimo, tentador.
Eu meio que agradeci aos céus por ele voltar do banheiro com uma calça de moletom e uma camiseta preta da hurley, com a escova de dentes na boca e o cabelo menos bagunçado.
- O que exatamente aconteceu ontem à noite? – ele perguntou, mas já que estava escovando os dentes, saiu uma coisa mais ‘o xê echatamente ascontecheu onstem a nosite?’.
E isso confirmava minhas dúvidas.
Ele não se lembrava da nossa conversa.
- Vocês beberam demais. – respondi, desanimada.
- Ah.
Levantei-me e fui pentear o cabelo no grande espelho dentro seu armário. Atravessei algumas camisetas e meias pelo chão e parei de frente para meu reflexo. Lanza não podia me ver, pois o banheiro ficava do outro lado. Então eu comecei a fazer caretas em frente ao espelho, uma mais feia que a outra.
- Sabe que você fica uma graça descabelada fazendo careta? – ouvi ele perguntar do banheiro. Parei na hora, sentindo meu rosto corar. – E sabia que eu consigo ver as coisas por entre as frestas?
Olhei pela fresta da porta do armário e pude ver que ele me observava, parado em frente ao banheiro com os braços cruzados e um sorrisinho idiota no rosto.
- Vai se ferrar, Lanza Reis. – pedi, arrumando o cabelo com as mãos para disfarçar o mico. Saí de trás do armário e pulei algumas calças no chão, chegando à porta. Mas antes de sair, ouvi Lanza gritar do banheiro:
- Não precisa ficar bravinha, não vou contar pra ninguém que você é louca. Sou tão bonzinho que não vou deixar os moços de branco com injeções nas mãos te levarem. – sorri sozinha, parando na batente da porta. Nem sei porquê parei, só sei que minhas pernas não me obedeceram mais. Então eu fiquei ali, parada como uma idiota. Não sei porquê, mas eu queria ouvir mais um pouco a sua doce voz, mesmo que eles estivesse usando-a para me zoar. – Quero dizer, eu tenho dó dos loucos que serão obrigados a conviver com você.
Virei os olhos. Tinha que ser bom demais pra ser verdade.
De repente, ouvi passos se aproximarem e minhas mãos começaram a suar. Senti uma respiração quente no meu pescoço e inclinei-o para trás, perdendo o controle sobre minhas ações. Duas mãos envolveram minha cintura por trás, fazendo o local formigar, e eu fechei os olhos. Quem passasse pelo corredor poderia ver aquela cena tranquilamente, mas eu não me importei.
Há quanto tempo eu não sentia minha pele formigar daquele jeito com um simples toque?
- Não precisa se preocupar, Hackmann. – Lanza murmurou em meu ouvido, e eu me arrepiei. – Eu vou fazer a escolha certa.
E antes que eu pudesse responder algo, fui gentilmente empurrada para fora do quarto e a porta se fechava vagarosamente atrás de mim.
Então ele se lembrava.
Lanza fala:
- Alô? – disse, ofegante. Estava tomando uma ducha fria – nem preciso contar o porquê – quando meu celular tocou dentro do quarto. Saí correndo pelo quarto, com uma toalha em volta do Jr. e peguei-o em cima da cama. Nem vi quem era, com medo de que a pessoa desligasse.
- Oi, amor. – Bella murmurou com a voz rouca do outro lado.
- Oi, Bella. – respondi, virando os olhos. A respiração ofegante de Vic, seus olhos fechados ao sentir meu toque, seu coração batendo descompassado ao ouvir minha voz... Tudo sumiu ao ouvir a voz de Bella. Pois sua voz me lembrava que eu não precisava tomar duchas geladas perto dela. A voz enjoada de Bella me lembrava que tudo o que eu queria com ela, eu conseguia. – Tudo bom, linda? – me ouvi dizer, como todo namorado preocupado faz.
- Tudo. Escuta, eu queria saber se você tem alguma coisa pra fazer hoje. – ela perguntou, de um jeito esnobe. – Porque é sábado, e namorados costumam sair aos sábados. Se é que você ainda se lembra que tem uma namorada. E que ela é carente.
- Não, acho que não tenho nada pra fazer hoje... – respondi, me sentando na cama. Então me lembrei do churrasco de Ághata e emendei: – Ah! Não, na verdade tenho sim.
- Tem ou só quer se livrar de mim? – ela gemeu, fazendo manha.
- Não, tenho mesmo. Preciso ensaiar. – menti, não sendo louco de contar a verdade. "Não, amor, na verdade eu vou à um churrasco cheio de bebida e mulheres com a minha ex-namorada hiper gostosa, que eu ainda amo. Ah, e que aparentemente também me ama. Mas nós só não estamos juntos por sua causa, mas sabe como sãos os orgulhosos, é só a bebida entrar que a verdade e o libído desaparecem..." – Desculpe, Bella.
- Não, tudo bem. – ela respondeu, fraquinho, e por um momento eu me senti o maior canalha de todos os tempos. – Nos vemos amanhã então?
- Sim, e amanhã será. – respondi. – Beijo, linda.
- Beijo, meu amor.
Fechei o celular.
Ou eu estava ficando louco ou eu estava mesmo em dúvida entre a menina que eu amava e a menina que me pressionava psicologicamente.
E que era um animal na cama.
Victória fala:
- Psiu. Vic. – a voz inconfundível de morta de Júlia-quando-acabou-de-acordar me chamou. Olhei para a direita e a vi parada na batente da porta do quarto de Thomas, usando uma das camisetas prederidas dele. – Vem aqui só um minutinho?
Eu pensei no pior. Pensei que Thomas havia se cortado com a gilete ou algo do tipo. Porque, bem, nenhum deles era muito mentalmente capacitado... Então corri até a porta e entrei no quarto, que cheirava a chocolate e vinho.
Um belo cheiro levando em consideração que estávamos no quarto de um homem.
Aquela era uma das poucas vezes em que eu entrei em seu quarto, pois Thomas não gostava de ninguém ali, mexendo em suas coisas.
- O que aconteceu? – perguntei, logo que entrei. Júlia fechou a porta atrás de mim e saiu correndo, se jogando na cama de casal antes que eu chegasse nela. Caminhei até lá e me sentei na beirada. Júlia sorria como uma criança pega no flagra, e eu comecei a achar que algo muito bom ou muito ruim havia acontecido. – Que bicho te mordeu?
- Não foi exatamente um bicho... – ela respondeu, rolando pela cama com a maior cara de felicidade que eu já havia visto. – E não foi exatamente uma mordida. Digamos que foi mais como uma... Picadura. [N/A: HAHAHAHAHA. Juro que eu fiquei duas horas rindo da minha inteligência pervertida depois dessa piadinha infame!]
Parei para processar o que tinha ouvido.
Não foi preciso pensar muito.
- Sua. Pilantra. – foi o que consegui pronunciar, depois que a vontade de vomitar havia passado.
- Eu sei, eu sei... – ela respondeu, fazendo a cara de pervertida que só ela sabia fazer. – Ah, quer saber de uma coisa? Já estava demorando mesmo... – virou os olhos e recebeu um tapa estalado nas costas. – Ai, Vic! O que eu fiz?
- Sua pervertida! Não foi essa a educação que sua mãe te deu! – exclamei, fazendo-a rir.
- Peloamor, né Viczitchá? Depois que a Isa e a Duda fizeram, eu estava me sentindo excluída! Se até o Koba se deu bem, acho que estava na hora do Thomas ter algumas regalias. Eu me sentiria muito mal se fosse homem e soubesse que o Kobayashi fez antes de mim...
- Eu não fiz ainda e estou me sentindo muito bem, obrigado. – respondi, sorrindo vitoriosa.
- Mas você é a Madre Teresa de Caucutá, é diferente. – Júlia respondeu, tomando outro tapa bem dado nas costas.
- Vou ignorar o fato de que eu só vou perder a virgindade depois do casamento ou com Tom Cruise e vou ouvir sua história.
- Foi assim...
Lanza fala:
- Ah não, dude, até você!? – exclamei, sentindo meu corpo entrar em órbita.
- Por que até você? Quem vê pensa que você não faz a todo minuto com a Bella. – ele respondeu, jogando um nacho em mim.
Bom, sim, ele estava certo.
Mas com quem eu realmente queria fazer eu não tinha avançado nem meio milímetro. Muito pelo contrário, com Victória eu tinha regredido.
- Você é um puta de um mal-agradecido. A Bella é tipo, todos os grãos de areia do mundo pro seu fusca 1900 e guaraná de rolha. – ele continuou, fazendo eu me sentir um cachorro. Não, pior que um cachorro, uma pulga de cachorro. Não, pior que uma pulga de cachorro, uma ameba de pulga de cachorro... Não! Pior que isso! Thomas estava fazendo eu me sentir um cocô de ameba de pulga de cachorro!
Isso.
- Muito obrigado pela parte que me toca, sr. D'avilla. – respondi, jogando a primeira coisa que consegui pegar com as mãos. O que era meu CD do Yellowcard, que se espatifou no chão. – E agora você me deve um Lights and Sounds novo.
- Si si, craro craro. Não quer ouvir a história? – ele perguntou, louco para me contar tudo.
- É, não tenho nada melhor pra fazer mesmo...
Flashback on.
Thomas fala:
Acordei sentindo minha cabeça rodar. Não sabia onde estava nem porquê estava. Só sabia que bebera a noite passada. Porque, bem, sempre que acordava daquele jeito, tinha bebido muito ou ensaiado muito. E eu não me lembrava de ter ensaido nada aquela sexta-feira.
- Acordou, amor? – ouvi a voz doce de Júlia perguntar, ao meu lado. Virei meu corpo e a abracei, sufocando-a de leve.
- Siiiiiim. – respondi, feito uma borboleta feliz. – Você poderia me explicar o que exatamente aconteceu ontem à noite pra eu acordar com dor de cabeça e com você ao meu lado?
- Resumidamente? – perguntou, e eu chacoalhei a cabeça em afirmativa. – Vocês beberam, nós os trouxemos para cá, e agora são 2:46 da manhã e você acordou sóbrio na sua cama ao meu lado. Fim.
- Linda história. Me deixou emocionado. – respondi, passando o dedão por debaixo dos olhos, e ela gargalhou. Senti frio nas minhas pernas e percebi que não usava nada além de boxers. – Então quer dizer que minha namorada é tarada e esqueceu de me avisar? – perguntei, olhando para baixo.
- Bom, garotas tem que manter seus dirty little secrets de vez em quando. – ela respondeu, puxando o edredom para cima. – Mesmo porque, eu não poderia negar uma visão dessas do meu baterista gostosão, poderia?
- Júlia Silva Sauro! – exclamei, apertando suas bochechas em um biquinho. – Você está se saindo uma tremenda devassa!
- Júlia Profana a seu dispor. – ela brincou, tirando minha mão da sua bochecha e colocando em sua cintura. Sorri maliciosamente para ela, que se aproximou e envolveu suas pernas entre as minhas.
- Não provoca se depois não for aguentar. – a alertei, sentindo a cama ficar menor e o quarto esquentar. Coloquei uma das minhas mãos em sua cintura e a outro em seu pescoço, não dando-lhe tempo de responder. Grudei nossos lábios com vontade, e percebi que ela estava gostando daquele beijo, vamos dizer, selvagem.
Depois de alguns minutos nos beijando, as coisas começaram a realmente esquentar. Quando percebi, havia tirado a camiseta e a calça de Júlia, deixando-a de calcinha e sutiã. Não contive a risada ao ver que eram de zebra.
- Nossa, Jú, que coisa mais brocha homem! – brinquei, apontando para seu sutiã. Ela colocou os dedos entre a alça, me provocando, e eu mordi o lábio inferior.
- Quero ver se você vai brochar mesmo. – ela disse, abaixando uma das alcinhas.
Bom. Eu não brochei.
Flashback off.
- Ah dude, que nojo, que nojo, que nojo! – exclamei, com vontade de vomitar todos os nachos que ingerira durante aquela história. – Você precisava mesmo contar TUDO isso? Pelo amor de Deus, é a Jú, eu não precisava saber desses detalhes. Pra mim ela é homem, e homens não usam sutiã de zebra.
- Lanza, me faz um favor? – Thomas pediu. – Pára de ser imbecil?
Victória fala:
- NOJO! NOJO, NOJO, NOOOOOOJO! – saí gritando pelo quarto, com vontade de vomitar. – Sua profana, promíscua, pervertida! – exclamei, jogando uma almofada em cima dela. – E todas as outras palavras que começam com “p”!
- Victória, me faz um favor? – Júlia pediu, em meio as risadas. Assenti com a cabeça, ainda com a expressão de nojo. – Pára de ser imbecil?
Lanza fala:
Mais tarde.
- Elas não vão descer nunca? – Pe Lu perguntou, pela vigésima terceira vez, balançando as pernas de ansiosidade. – Já são 20:13 e o churrasco começava às 19:30! Nem sei porquê insisto em ficar pronto na hora se elas sempre demoram eternidades pra ficarem prontas! Quero dizer, porra, elas passaram a tarde inteira trancadas no quarto! O que elas estão fazendo lá? Uma macumba?
- Não estávamos fazendo macumba nenhuma. Mas no final vale a pena esperar, Munhoz. – a voz de Isadora ecoou do andar de cima. Levantei os olhos do celular, onde jogava Snake, e senti a saliva se formar embaixo da minha língua.
Sim, Deus, obrigado por fazer toda aquela demora valer a pena.
Maria Eduarda usava um vestido de malha verde tomara que caia, que ia até mais ou menos a altura dos joelhos. Nos pés usava uma rasteirinha branca e uma tornozeleira prata. No pescoço alguns colares de coquinho. Seu cabelo estava solto e ondulado, e dois brincos de argola brilhavam em suas orelhas. Bem o estilo beach girl que Pe Lu gostava. Estava realmente muito bonita, e se não fosse um homem pra mim eu não iria conseguir desviar meu olhar para Júlia, que descia atrás dela.
Júlia estava um pouco mais dark e menos beach girl, como Harry preferia. Usava uma saia jeans e meia arrastão preta, que acabava num par de botas também pretas, de bico fino. Usava uma camiseta branca e por cima um colete de couro preto, com algumas tachinhas. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo alto e ela usava braceletes pretos nos dois braços. Porra! Como elas esperavam que eu as considerassem como irmãs se se vestiam daquele jeito?
Isadora, que vinha logo em seguida, estava de calça jeans skinny, camiseta estampada com alguns desenhos japoneses e All Star de couro branco. Seu cabelo estava preso em um coque desfiado com algumas mechas soltas. Usava pulseiras de prata e um par de brincos longos, com pingentes de coração na ponta.
Só conseguia enxergar as três de onde eu estava. Quando estava prestes a ver Victória, ela deu um grito e saiu correndo pelo corredor, alegando ter esquecido "uma coisa".
As meninas desceram e foram de encontro com os namorados. Eu fique ali, chupando o dedo e olhando para a escada, esperando Victória dar o ar da graça para eu poder ver o quão linda ela estava e poder me culpar por ser tão idiota.
E foi bem isso que aconteceu quando eu vi duas pernas longas pisarem no primeiro degrau da escada, depois de um bom tempo esperando ela voltar.
Tudo meio que aconteceu em câmera lenta. Eu subi minha cabeça por todo seu corpo em câmera lenta. Olhei em seus olhos em câmera lenta. Ela sorriu disfarçadamente para mim em câmera lenta, assim como desceu as escadas em câmera lenta. Quando chegou à sala, eu estava mais lento que uma lesma paralítica. [N/A: Péssima piada, eu sei... Minhas piadas não são mais como eram antigamente...]
Ela usava um vestido de manga três quartos preto, com um cinto largo apertando sua cintura. Estava de meia calça fio 40 – obrigado, mamãe, por ser uma perua e me dar noções de moda – e sapatilhas roxas. Seu cabelo estava para trás, e só uma parte estava presa em um coque por uma piranha de borboleta. O resto estava solto e liso por seus ombros. Ela usava brincos de argola pratas e um colar comprido prata.
Resumindo: fucking fit!
- É, realmente valeu a pena. – Pe Lu murmurou para Maria Eduarda, alto demais para todos ouvirem.
Obrigado, Pe Lu, por tirar as palavras da minha boca.
Victória fala:
Tivemos que ir em dois carros. Fomos com o conversível de Harry e o New Beatle de Koba. O churrasco seria na mansão de Ágatha, que ficava um pouco afastada de onde morávamos, subindo a montanha. Levava cerca de 15 minutos do nosso bairro ao condomínio fechado dela, mas do jeito que os meninos corriam, chegamos lá em mais ou menos 7 minutos, nem percebendo o tempo passar em meio as risadas e merdas que falávamos.
Ao chegar, tive que desfazer meu cabelo e arrumá-lo novamente, e isso me deixou irritada.
Porra, demorei meia hora pra fazer aquilo e um carro idiota estraga todo meu penteado?
- Vai logo Calopsyta, eu quero beber! – Koba reclamou, enquanto eu usava o retrovisor do seu carro para me arrumar.
- Não enche, Kobayashi, reclama com o seu amigo que não quis abaixar o teto do carro. – respondi, grossa. Koba saiu de perto, com medo de levar um coice. Eles sabiam que eu ficava muito irritada por duas coisas: quando comiam meus chocolates e quando meu cabelo não estava do jeito que eu queria.
Depois de mais ou menos quinze minutos lutando com o retrovisor, finalmente deixei o penteado do jeito que estava antes de saímos de casa. Os únicos que ainda me esperavam eram Koba – que não podia deixar o carro ali sem trancá-lo – e Isadora. Mas isso não foi realmente um problema, pois os dois estavam se comendo no capô do carro e não ficaram bravos com a demora.
- Sua chave, lover boy. – sussurrei no ouvido de Koba, e ele se separou rindo de Isadora. – Se quiserem ficar por aqui mesmo, façam bom proveito! – gritei, entrando pelo portão gigantesco da entrada da casa.
Quanto mais me aproximava, mais percebia a música aumentar.
Os churrascos de Ághata eram conhecidos por três coisas: gente bonita, ótimos Dj’s e muita bebida.
Logo que entrei, fui abordada por Marcus e seu mais novo namorado. Os dois estavam de mãos dadas e fumavam. Marcus parecia feliz, e o namorado parecia, bem... Gay.
- Olha só quem resolveu dar o ar da graça! – ele exclamou, saltitando em minha direção, arrastando o namorado com ele. – Dylan, Vic, Vic, Dylan.
- Prazer em conhecer, Dylan! – exclamei, beijando sua bochecha. – Então é você que está fazendo Marcus ficar mais sorridente esses dias?
- Mais do que ele já é? – Dylan perguntou com uma voz afetada. – Impossível!
Os dois deram uma risadinha gay e um selinho.
O que era, realmente, uma pena.
Marcus era alto, loiro e tinha os olhos mais azuis que eu conhecia, como se fossem dois Oceanos. Seu cabelo era liso e comprido, caindo nos olhos de um jeito sexy de cinco em cinco segundos. Já Dylan era mais alto ainda, moreno, atlético e tinha os olhos verdes e profundos, com olheiras profundas, dando-lhe um olhar sedutor.
Um desperdício...
Olhei para o lado e percebi que John me olhava com interesse do grupo que o rodeava, enquanto algumas meninas gargalhavam tentando chamar sua atenção. Senti meu estômago se revirar.
- Onde eu posso arrumar alguma coisa bem forte pra beber? – perguntei, pois era disso que eu estava precisando para esquecer um pouco dos problemas. – Tipo, vodka ou algo do tipo?
- Entrando na casa você vai encontrar um bar todo luminoso com dois bartenders gostosos demais. – Dylan piou, apontando para a porta aberta da casa, depois da piscina monumental. – Lá você vai encontrar o que quiser.
- Vai com tudo e arrasa, querida! – Marcus exclamou, pegando Dylan pela mão e sumindo pelos arbustos. Gargalhei sozinha e comecei a atravessar o gramado e a piscina, me enfiando no meio das pessoas. Passei pelo grupo de John sem olhar para o lado e finalmente cheguei ao bar.
Os bartenders eram realmente gostosos.
- E aí, gata, o que vai querer? – o mais gostoso dos dois, um loirinho, perguntou logo que eu me sentei na cadeira giratória.
- Alguma coisa bem forte. – respondi, pegando um pirulito da cestinha e fazendo charme. Ele sorriu para mim, mostrando os dentes perfeitos, e se apoiou no bar para chegar mais perto.
- Algo forte tipo vodka ou algo bem forte tipo absinto? – perguntou, mordendo o lábio inferior enquanto observava meus lábios.
Eu sabia que as festas de Ághata eram boas. Mas não sabia que eram tão boas ao ponto de ter absinto.
E se tinha... Por que não aproveitar?
- Algo forte tipo absinto. – respondi, tirando o pirulito da boca. – Mas capricha, eim?
- Podexar comigo, linda. – ele respondeu, começando a preparar o drink. Fez alguns malabarismos de praxe, e ao acabar, me passou um copo com o líquido verde. Levei-o até a boca, com receio de beber e estar muito forte. Ele me obserava enquanto atendia outras pessoas – garotas para ser mais exata –, então eu dei o gole do jeito mais sexy possível. E quase cai da cadeira ao ver que o drink nem gosto de alcóol tinha.
Aquela noite prometia...
Lanza fala:
Eu estava no banheiro já há um bom tempo, o que não era muito legal devido a mistura de cheiro do vômito que cobria o chão com o cheiro de xixi e milho que saía da privada. Quero dizer, eu estava na melhor festa do ano, cheio de garotas loucas por mim – o que a fama não fazia? – e bebida à vontade! O que um garoto como eu estaria fazendo no banheiro numa ocasião como essa?
Mas era exatamente por isso que eu estava escondido no banheiro.
Não pela bebida, e não pela música boa.
Estava escondido pelas garotas.
Vou confessar uma coisa que não pode sair daqui NUNCA. O negócio é que eu estava com medo das meninas. Medo do assédio, do flerte, das risadas insinuativas e das cantadas, que já havia levado de monte. Eu estava com medo de cair em tentação. Porque, se você parar pra pensar, eu já estava enrolado só com duas meninas, imagina com um monte querendo liberar geral pra mim?
Não iria dar certo.
Então o banheiro era a melhor escolha.
- Hey, quem está aí? Eu preciso mijaaaaar! – alguém gritou do lado de fora, enquanto forçava a maçaneta. Abri a porta com um cara apoiado nela, mais bêbado que tudo, e por pouco ele não caiu na poça de vômito no chão. – Valeu, amigo, agora vaza.
Antes de sair, olhei bem para a cara do moleque e me lembrei dele. Era Ben, mais bêbado do que aquele dia em que tentou agarrar Victória. Se ele não estivesse quase inconsciente, eu dava outra surra nele ali mesmo.
Saí do banheiro, deixando aquele imbecil ali, não sem antes olhar para os dois lados. As meninas que antes estavam rindo em volta de mim, lambendo os canudinhos das bebidas provocativamente, agora estavam em volta de John, que parecia adorar aquele assédio gratuito.
Eu também adoraria. Se já não estivesse bem enrolado.
Passei correndo pelo grupinho nem-sei-porquê-estamos-rindo-mas-ficamos-sexy-assim e logo estava fora da casa, de frente para piscina, onde algumas pessoas bêbadas demais para ficarem paradas se jogavam de qualquer jeito na água, que soltava vapor de tão quente que deveria estar.
Eu ainda não havia bebido nada, e começava a ficar com inveja daqueles corpos sem consciência, que haviam esquecido todos os problemas e só queriam, bem, se jogar de roupa – ou sem roupa – na piscina.
Sem pensar duas vezes, peguei uma garrafa na metade de Orloff no chão e virei o maior gole que consegui sem ficar com vontade de vomitar. Depois limpei a boca com as costas da mão e comecei a andar pelo jardim da casa, vazio exceto por alguns casais em meio aos arbustos.
Andava sem rumo, e a cada passo que eu dava, fugia da música alta e das pessoas desconhecidas. O lugar ficava cada vez mais escuro e sombrio, e cada vez menos casais estavam no meio das folhas.
De repente, me deparei em frente uma encruzadinha. Para a direita voltaria para a piscina, para a esquerda iria para algumas estufas. Decidi virar a esquerda, pois não estava nem um pouco a fim de voltar para a festa. Meu humor agora estava bem melhor, com uma garrafa de vodka e silêncio. Eu poderia pensar um pouco na loucura em que estava vivendo, enquanto o álcool me daria algumas soluções.
Parei em frente à uma estufa grande. Escorreguei pela parede e cai sentado no chão. Tomei mais um gole da vodka e a coloquei ao meu lado. Estava decidido a bolar o que dizer para dispensar Bella... Quando ouvi risadas histéricas do outro lado da estufa.
Levantei-me com um pulo, tomando um susto.
"Porra, essas risadas me perseguem!", pensei, começando a dar a volta pela estufa, curioso para ver quem era. Conhecia aquela risada de algum lugar. Tinha quase certeza que iria encontrar um casal conhecido se comendo ou algo do tipo, mas mesmo assim continuei. Nada como um pouco de mistério e adrenalina para deixar a vida mais emocionante. Mas ao chegar do outro lado, não encontrei Harry e Júlia se comendo, como pensei que encontraria. Na verdade, encontrei ninguém mais ninguém menos que Victória, deitada no chão, com alguns copos de drink à sua volta, rindo sozinha.
Aquilo era estranho. Mas, ao mesmo tempo, era sexy. Porque ela estava com algumas folhas em cima dos olhos e seu vestido subira considerávelmente, parando no meio das coxas, revelando sua calcinha de renda vermelha. O cinto que antes marcava sua cintura agora estava no chão ao seu lado, e ela estava com os braços para cima, como se desenhasse algo no ar.
- Hm... Vic? – chamei, aproximando-me. Ela me ignorou, mas pelo menos parou de rir. – Você está bem? – perguntei, sentando-me ao seu lado e puxando a barra do seu vestido para baixo, com medo que alguém passasse e visse sua calcinha. Victória virou-se de lado, deixando as folhas que cobriam seu rosto caírem. Pude ver suas bochechas e testa, vermelhas e brilhantes, mas ela manteve os olhos fechados. Balançou a cabeça afirmativamente. – Tem certeza? – continuei, pois ela não parecia tão bem assim. Sua expressão estava contorcida de um jeito engraçado, como se ela estivesse com dor, mas estivesse feliz.
Ao ouvir minha segunda pergunta, insistente, ela se apoiou no chão, cambaleante, e se sentou, abrindo os olhos e me olhando sem expressão. Fiquei olhando para ela, sem saber ao certo o que fazer. Estava com medo de ser recebido por um tapa se chegasse mais perto. Então ela se ajoelhou e engatinhou até mim, vagarosamente, e a cada centímetro que se aproximava, minha respiração falhava mais. Sem ter tempo para me preparar, Victória envolveu as pernas dos dois lados do meu quadril, cruzou as mãos atrás da minha cabeça e sentou-se em meu colo.
Seu perfume, misturado com o cheio do alcóol, estava me deixando tonto, e eu não conseguia mais me mexer, sem tirar os olhos dos seus olhos, que olhavam para minha boca provocativamente. Victória abaixou sua cabeça e seu cabelo caiu em meu rosto. Minha pele começou a formigar, minhas mãos ficaram geladas e meu coração batia descompassadamente. Ela encostou os lábios quentes em meu ouvido e susssurrou:
- Vou ficar bem melhor se você fizer uma coisa por mim.
- Sim. – respondi, sem nem acabar de ouvir o que ela tinha falado. Eu já ofegava, sem conseguir respirar direito com Victória encaixada em mim. Fechei os olhos para tentar me controlar de algum jeito. – Sim. – repeti, completamente anestesiado por sua presença e pela vontade que eu estava sentindo de arrancar seu vestido. Apertei os punhos, que mantive ao lado do corpo, e tentei me lembrar de alguma técnica de relaxamento japonesa ou qualquer outra merda desse tipo.
O que não estava dando muito certo.
Meu cérebro não funcionava muito bem sob pressão.
- Qualquer coisa?
- Qualquer coisa.
- Então – ela murmurou, jogando a cabeça, junto com o cabelo, para trás. Depois se curvou novamente, encostou seu nariz no meu e continuou: –, não seja bonzinho comigo.
E aí, sem mais nem menos, me beijou.
Quero dizer, não foi um beijo no rosto como amigos. Muito menos um selinho como amigos-coloridos. Foi um beijo de namorados apaixonados. Era quente, gostoso, sexy, perigoso... Tudo que um beijo tem que ser.
Ela enfiou suas pequenas mãos por entre meu cabelo, e encostou todo o seu corpo no meu. Sem que eu pudesse me controlar, segurei sua cintura com força, apertando-a cada vez que nossos rostos iam para frente e se encontravam, e soltando-a toda vez que voltavam.
Era como se eu não fosse soltá-la nunca. Mas do jeito que ela ofegava, também não iria sair dali tão cedo.
Minhas mãos começaram a subir e descer por suas costas, apertando sua nuca para que o beijo fosse mais rápido e descendo a mão para a base da sua bunda, prensando-a sobre mim. Ela não deixava barato, apertando minha nuca e arranhando minhas costas.
Percebi que a coisa estava ficando séria quando ela tirou minha camiseta sem eu nem ao menos me dar o trabalho de negar e começou a tirar o vestido. Assim que o retirou por cima da cabeça, voltou a me beijar, enquanto abria meu cinto, e logo em seguida minha calça.
Eu não conseguia mais aguentar. Os gemidos, os movimentos de ir e vir do beijo, seu corpo encaixado ao meu, suas atitudes de quem queria algo a mais, sua língua na minha, seu cheiro me deixando tonto, sua respiração no meu ouvido, seu peito nu contra o meu peito nu, suas mãos me apertando, controlado, guiando... Tudo aquilo me chamava cada vez mais. Eu queria e precisava ter Victória só para mim. O que eu estava sentindo era algo indecifrável, inexplicável. Era mais do que tesão, era algo que eu nunca tinha sentido por ninguém, em nenhum amasso.
Era como se eu fosse perder o controle a qualquer instante.
Senti minhas mãos agirem por mim ao empurrá-la sem qualquer tipo de gentileza para o lado. Minhas pernas trabalharam sozinhas ao me levantarem. Meu corpo pegava fogo, mas mesmo assim me abaixei, peguei a camiseta e colocando-a de qualquer jeito. Victória me observava com perplexidade, com a pequena mão em cima do coração, que eu podia ouvir bater enraivecidamente dentro do peito.
E a cada passo que dava, me afastando dela, sentia meu corpo esfriar e minha mente entrar em erupção.
“Desculpe, Victória, mas isso é demais pra mim...”
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