Capítulo 30 – Lá lá lá lá lá, você não me pega!
Lanza fala:
Não me pergunte como. Nem quando e muito menos onde. Só sei que eu sabia. Eu sabia que ela me amava, e, naquele momento, era importante que ela soubesse que eu a amava também. Eu meio que sabia que a qualquer minuto minha vida estaria acabada.
E se fosse mesmo para tudo acabar, que acabasse de um jeito que eu me lembrasse para sempre.
- E quem foi que disse que eu te amo, Lanza Reis? – ela perguntou, beijando meu queixo. Tinha a consciência de que todos em volta nos olhavam. Alguns até pararam de dançar para isso.
- Seu coração, batendo no mesmo compasso que o meu. – murmurei em seu ouvido, segurando sua mão em cima de seu peito, para que ela pudesse sentir o próprio coração. – Seu sorriso ao olhar pra mim. Suas mãos em minha nuca. Seu corpo encostado ao meu. Tudo isso me leva a pensar que você me ama, Hackmann. E isso é tudo que eu sempre quis. Eu estou falando sério, sem jogos, sem brincadeira. Eu fiz tudo por você. Eu fiz tudo para te ter em meus braços, e espero que dessa vez isso possa ser pra sempre. – olhei rapidamente para o lado, e vi que alguém nos observava com interesse. Mas logo desviou o olhar e saiu por entre a multidão. – Mas se não for – continuei, pois tinha certeza que quem nos observava era quem iria ferrar comigo. –, que seja eterno enquanto durar.
Ela sorriu, e enterrou sua cabeça no meu peito. Mas meio segundo depois, se levantou.
- Ah! – exclamou, com um sorriso de orelha a orelha. – Eu sei que as meninas já te contaram. Mas você sabia que eu e Ryan estamos de boa?
- Levando em consideração que essa madrugada você ficou choramingando coisas como "eu fiquei minha vida inteira puta com as pessoas erradas", nem que as meninas não tivessem me contado eu saberia. – sorri de um jeito debochado.
- Idiota. – ela brincou, me dando um soco no ombro.
- Fico feliz por você, Vic. – sorri, sincero. – E espero que você possa se resolver com a sua mãe também.
- Eu também... – ela murmurou, deixando um semblante triste invadir seu rosto. Apertei sua bochecha e disse:
- Ok, vamos mudar de assunto. Não quero te ver triste. – virei os olhos. – Mesmo porque, eu quem deveria estar triste aqui. Sou que vou perder tudo que tenho hoje se não descobrir quem é o filho da puta que roubou a senha do blog...
- Com isso você não precisa se preocupar, Lanza. – ela sussurrou. – Eu já disse, ele não pode tirar o que é seu por direito!
- Lanza! – Pe Lu gritou atrás de mim, entrando na pista de dança com uma expressão zangada. – Preciso falar com você!
Victória me olhou surpresa. Pe Lu nunca havia falado comigo daquele jeito.
- Acho que já começou. – disse, antes de soltá-la, contra minha vontade. – Eu já volto. – exclamei, por cima de Pokerface, que começava alta nos alto-falantes.
Ela só continuou ali parada, estática, enquanto eu andava de costas, olhando Pe Lu e me martirizando por estragar o momento perfeito com a garota perfeita.
Assim que chegamos no fundo do salão, onde o barulho era menor, escontrei Koba e Harry nos esperando. Ryan, o irmão de Victória, estava um pouco mais atrás deles, mas prestava atenção na conversa. Acenei para ele com a cabeça, que acenou de volta. Ele podia usar aquelas bandanas ridículas estilo Gun ‘n Roses, e podia ter me dado uma surra quando eu ainda pensava que ele havia traído Victória, mas ainda assim ele era gente boa.
Mas o quê exatamente estava acontecendo ali? Alguma seita onde eles iriam cortar meu pipi fora?
Run, Lanza, run!
- O que foi? – perguntei, tenso.
- Dude, relaxa! – Thomas assoviou, dando um tapa em meu ombro. – Nós não vamos te comer vivo nem nada do tipo.
- Então por que o Pe Lu tá com essa cara? – perguntei, apontando para ele, que olhava emburrado para os sapatos.
- Nós o tiramos do maior amasso com a Duda. – Koba deu de ombros. – Por uma causa nobre, certo, Munhoz?
- É, pode ser... – ele murmurou, emburrado.
- Então, entregaram esse outro bilhete para Ryan, e ele nos trouxe. – Harry continuou, me entregando um pedaço de papel onde se lia "para Lanza Lanza Reis". Abri-o imediatamente, sem hesitar.
“Estou vendo que está tendo uma noite de princesa. Mas lembre-se, já são 22:47. Já descobriu quem eu sou? E, por falar nisso, sua bunda fica linda nessa calça.”
Como intuição, ou alguma merda desse tipo, me virei para trás, vendo a silhueta da mesma pessoa que havia visto na pista de dança. Infelizmente não pude ver mais nada, pois um casal bêbado entrara na frente, e, quando saíram, a pessoa já havia sumido. Mas pude ver que estava de azul-escuro.
Era um começo, certo?
- Vocês viram aquilo? – perguntei, me virando de volta. Thomas negou com a cabeça, Koba olhou em volta, Ryan apertou os olhos e Pe Lu levantou os olhos. – Tinha uma pessoa observando a gente. A mesma que me observou na pista de dança mais cedo. – expliquei, e eles se juntaram mais, como uma gangue ouvindo as ordens do chefe. – Essa pessoa usava azul-escuro... – avaliei, pensativo. – Nós podemos vasculhar a área, ver quem está de azul-escuro!
- Boa ideia. – Pe Lu pareceu animado pela primeira vez. – Então vamos andar por aí e nos encontramos aqui daqui meia hora. – ele olhou no relógio. – Já será 23:30, ainda teremos meia hora para pensar.
- Ok, ótimo. – Koba disse, já saindo da nossa vista. Ryan, Thomas e Pe Lu fizeram o mesmo, me deixando sozinho. Mas antes que pudesse ir procurar, trombei com James, que derrubou cerveja na camisa azul-escura.
- Me desculpe, James! – exclamei, constrangido.
Espera aí...
Azul-escura?
Pera aí. Pera aí, só mais um minuto.
James estudava no Colégio Norbert para estar naquele baile?
- Não foi nada, Lanza. – ele disse, passando a mão pela mancha de cerveja em sua camisa. Como um flash, me lembrei das fotos no seu armário, da suspeita dos guys e agora via sua camisa azul-escura.
Eu gostava de James, mas não havia mais dúvidas de que ele era...
- Escuta, Lanza, eu preciso te pedir um favor. – ele disse, antes que eu pudesse terminar o raciocínio. – Estou pra te perguntar isso faz, sei lá, cara, meses! O negócio é que há algum tempo eu tenho acessado aquele blog, o Conte Sua Fofoca, ou algo do tipo... E eu imprimi algumas fotos. Sabe como é, pra poder lucrar um pouco. Tem gente idiota pra tudo, né? – ele perguntou, piscando pra mim. Fiquei confuso. Máqueporra ele estava querendo dizer? – Então eu meio que comecei a emoldurar as fotos e vender para os muleques idiotas do colégio. E eu meio que tô ganhando uma boa grana... Mas eu queria pedir tua autorização antes de continuar. Sabe como é, você pode querer entrar na justiça, aí que eu tô fodido. Já estou como bolsista na escola, e não quero me meter em encrenca. – dito isso, tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu um na minha frente.
Pera aí, de novo!
Primeiro: como James podia ser do Colégio? Eu nunca havia o visto por lá!
Segundo: James, o bonzinho James, fumava?
Terceiro: será que ele não sabia que não podia fumar lá dentro?
Quarto: o filho da puta estava lucrando às nossas costas?
Antes que pudesse pensar sobre tudo isso, vi uma risada nas minhas costas, e quando me virei, havia sumido.
- Escuta, eu preciso ir. – disse, vendo um rastro azul-escuro sumir entre as pessoas. Comecei a correr, mas antes gritei de volta: - E não se atreva a vender mais nenhuma foto nossa! Seu imbecil!
Ufa.
Me senti bem em fazer aquilo.
Será que a solução dos meus problemas era xingar as pessoas?
Era algo a se pensar, enquanto eu seguia um rastro azul pelo salão.
Victória fala:
Era estranho ficar sozinha entre todas aquelas pessoas – meninas, diga-se de passagem –, que me olhavam com ódio. Não sei porquê tanto ódio no coração, gente, era só um garoto como todos os outros! Famoso, mas ainda assim um garoto.
Na verdade era um garoto lindo, de arrasar corações.
E com uma conta corrente imensa.
Mas e daí? Do que adianta tudo isso sem amor?
Não que o dinheiro atrapalhasse algo...
Ok, por que eu estava mesmo pensando no dinheiro de Lanza mesmo?
- Vic! – Maria Eduarda gritou ao meu lado, me tirando dos pensamentos idiotas.
- Duda! – exclamei de volta. Estava tão feliz que sentia vontade de conversar aos berros. E a música alta no fundo me ajudava nisso. – Tudo maravilha na ilha?
- Tudo tranquilo no mamilo, my lady. – ela respondeu, um pouco vermelha demais.
- Por que você está vermelha? – perguntei, já imaginando a resposta.
- Dancei demais. – ela respondeu, ficando mais corada ainda.
- Hm... – murmurei. – Legal saber que você cansa dançando música lenta. – disse, sorrindo. Ela me deu um tapa de leve e nós começamos a dançar Pokerface. Quando menos percebi, Júlia e Isadora se juntaram a nós duas, como Comensais da Morte que apareciam do nada.
Só que sem o capuz preto e as tatuagens do mal.
É, você me entendeu.
Continuei a dançar, fechando os olhos e deixando o ritmo me levar. Deixa a vida me levar, vida leva eu! [N/A: Eu contei pra vocês que fui no Hilton pra ver a Restart e encontrei o Zeca Pagodinho breaco? Tem até foto no meu orkut, HAHAHA! Pra quê o Tom se eu posso ter o Zeca?] Eu sei que eu deveria estar por lá procurando o cara ou a garota que queria ferrar a vida do cara que eu amava. Mas Pokerface é tão boa!
Lady Gaga é diva. Quero dizer, tirando o fato de que ela é mais esquisita que o David Bowie.
- Mas e aí, alguma pista de quem seja o Gossip? – Isadora perguntou, se aproximando de mim.
- Lanza me disse, enquanto dançávamos, que Josh e John estavam fora da parada. Eu não estou vendo Bella por aqui, então ela também não pode ser... – suspirei, vendo que nossa lista de suspeitas diminuía a cada minuto. – Só nos resta James. E os meninos acham que Marcus também pode ser. – dei de ombros, quando vi Lanza passar correndo pelo salão, concentrado em algo. Olhei para onde ele olhava, mas não vi nada que pudesse mantê-lo tão sério. Quero dizer, Marcus dançava perto de mim com algumas amigas, e James estava no bar, passando um pano pela camisa.
Continuei a dançar, quando a música trocou de Pokerface para Just Dance.
Overdose de Lady Gaga é o que há!
Quando o refrão começou a tocar – "Just dance, it’s gonna be ok, just dance!" – senti duas mãos em meus ombros e uma respiração ofegante. Virei-me, assustada, e vi Lanza com uma mistura de expressões. Estava triste e bravo ao mesmo tempo.
- James... saiu... da... parada... – ele murmurou, entre respirações. Respirou mais um pouco e continuou. – Eu só sei que... A pessoa está de azul-escuro. Não sei se é... Vestido ou camisa, só sei que é azul-escuro.
- Então dos nossos suspeitos, só restou... – parei de falar, e ele balançou a cabeça em afirmativa. Fiz uma careta. Não podia ser!
- Marcus. – terminou por mim.
Olhei para trás, onde ele dançava animadamente com o namorado. Respirei aliviada ao ver que ele usava – dou uma bala para quem adivinhar – rosa, e não azul-escuro. Mas segurei o ar novamente, ao ver que Dylan, seu namorado, usava azul-escuro. E que ele acabara de se juntar a Marcus.
Lanza olhou para onde eu olhava e mordeu o lábio inferior.
- Eu vou até lá. – ele disse, decidido.
- Eu vou com você. – disse, segurando sua mão gelada.
- Não, fica aqui, é melhor que eu vá sozinho. – ele pediu. – Aproveita o baile, Vic. Deixa que eu me viro com isso.
- Mas eu não consigo aproveitar o baile quando sei que você está todo tenso. – exclamei, passando a mão por seus ombros. Ele cedeu um pouco, pronto para me puxar para um beijo, mas Marcus começou a se afastar com Dylan, e ele ficou tenso novamente.
- Eu preciso descobrir isso. – disse, como se colocasse um ponto final naquela conversa. – Por mim e por você. – dito isso, tirou delicadamente minhas mãos de seu ombro. – Aproveita com as suas amigas.
Deu um beijo rápido em minha testa e saiu atrás dos dois.
Voltei meu corpo para as meninas, que esperavam curiosas.
Dei de ombros.
Estava começando a pensar que aquela seria uma batalha perdida.
Lanza fala:
O namorado gay de Marcus estava de azul-escuro. E por onde eu olhava via pessoas de azul-escuro. Com o canto dos olhos, vi Ryan conversando com duas meninas de azul. Porra! Aquele era o dia mundial do azul?
Olhei no relógio. Quando recebi a carta do Gossip, eram 23:02, agora já eram 23:33. Teria que me juntar com os guys, mas tinha que ir até Marcus. E logo. Porque ele era minha última "esperança". Eu esperava, na verdade pedia aos céus, que fosse ele. Que fosse ele ou que fosse logo alguém, pelo amor de Deus! O desespero começou a me comer por dentro. Desde que tudo aquilo começara, não sentira medo nenhuma vez. Exceto aquele momento. Aquele momento crucial, onde eu sabia que eu dependia unicamente de Marcus. Eu dependia dele. Eu queria que ele fosse o Gossip.
Ele é gay, pelo amor de Deus! Tinha que ser ele!
Ia pensando enquanto andava, distraído, então eu meio que trombei nele, não percebendo o quão próximos nós estávamos.
- Me desculpe! – exclamei pela segunda vez aquela noite. Só esperava que pudesse retirar as desculpas, como não pudera fazer com James.
Marcus sorriu, e seus olhos brilharam. Senti um chute no estômago.
- Tudo bem, Lanza Reis. – disse, saboreando meu sobrenome em sua boca. – Não tem problema.
Sorri amarelo, olhando para seu namorado, que olhava para mim com uma mistura de raiva e divertimento.
- E aí. – cumprimentei, acenando com a cabeça. – Beleza?
- Beleza, e você? – perguntou, estendendo a mão. – Eu sou Dylan.
- Eu sei quem você é. – murmurei, e ele e Marcus me olharam, inexpressivos. Dylan abaixou a mão. Era agora ou nunca. – E eu sei o que vocês dois estão fazendo pelas costas de todos nós. Eu sei que você – olhei para Marcus, e ele continuava sem expressão. Aquilo estava me deixando mais nervoso ainda. Eu suava, e tinha vontade de correr para a barra da saia da minha mãe e chorar. – se faz de "amiguinho" – fiz aspas com a mão, para enfatizar. –, mas no fundo é um cuzão. Um cuzão com C maior.
Respirei fundo.
Nós três nos olhávamos, os dois sem expressão, e eu como se fosse chorar a qualquer momento.
Passados alguns segundos de tensão, Marcus me segurou pela manga do terno e me puxou para baixo. Desequilibrei-me, quase caindo, se não fosse por Dylan, que se abaixou junto e me segurou; os dois juntaram as cabeças, criando uma espécie de roda fechada.
- Eu vou dizer só uma vez e espero que você escute com atenção. – Marcus começou, com uma voz de homem incrível. Nunca pensei que aquela bicha afetada pudesse falar daquele jeito. Eu meio que fiquei com medo. – Você não sabe de nada, você não viu nada. E se essa história vazar, pela escola ou pela Internet, você é um homem morto.
- Nós estamos realmente ficando ricos com isso, Lanza Reis. – Dylan murmurou, por entre os dentes. – E não vamos perder tudo por sua causa. Você tem a sua bandinha, e eu imagino como seria para você perdê-la.
Hã? Ricos? O blog dava dinheiro?
- Mas eu já descobri vocês! – exclamei, ansioso. – Não estou livre do castigo ou qualquer coisa do tipo?
- Do que você está falando? – Marcus perguntou, parecendo desconcertado pela primeira vez.
- Do Conte Seu Babado e as ameaças que vocês estavam fazendo! – abri o jogo, sem paciência para joguinhos, me segurando para não gritar. Por que eles não acabavam com o meu sofrimento de uma vez só? – Porra, eu descobri, eu mereço isso!
Os dois arrumaram a postura e se olharam, confusos.
- O quê? – choraminguei.
Eu era, oficialmente, um filhinho de mamãe.
- Do que exatamente você está falando, Lanza Reis? – Marcus perguntou, voltando para sua voz normal de afetado. – Você acha que nós roubamos a senha daquele blog de merda?
Não!? Não roubaram!?
MERDA!
- Não roubaram? – perguntei, rezando para que aquilo fosse um tipo de pegadinha de mau gosto. Mas eu sabia que, no fundo, não era. Eles continurama em silêncio, e eu fui ficando cada vez mais nervoso. – NÃO ROUBARAM? – gritei, e abaixei a voz ao ver que algumas pessoas nos olhavam curiosas. – Não roubaram? – perguntei novamente, mais calmo.
Não tão mais calmo.
- Não! – eles disseram em uníssono.
- Claro que não, nós temos mais o que fazer... – Dylan deu de ombros.
MERDA!
- Ah não, ah não, ah não! – disse, ignorando a presença dos dois. Estava tão desesperado que nem quis saber do que eles estavam falando e como diabos eles estavam ficando ricos.
- Ok, fiquei aí com seus lamentos. – Marcus disse, se afastando. – E você não ouviu nem sabe de nada de nós dois. Combinado?
Não respondi. Estava desolado demais para responder.
Se não eram eles, quem diabos poderia ser!?
E, mais uma vez, voltava a estaca zero.
Caminhei lentamente até o fundo do salão, onde Ryan, Pe Lu, Thomas e Koba me esperavam. Eles pareciam ansiosos, mas eu continuei devagar. Não tinha mais esperanças. As ameaças do Gossip eram reais demais, e eu sabia que perderia mesmo tudo que era meu.
Então por que a pressa?
- Cara, vai logo! – Koba me despertou dos lamentos mentais.
- Não é Marcus. – dei de ombros. – Não é Marcus, não é James, não é John nem Josh. Não é Bella, NÃO É NINGUÉM! PORRA! – estourei, sentando-me de qualquer jeito na cadeira mais próxima. – Agora eu estou ferrado. Vou perder vocês, vou perder a banda e... – senti um nó se formar em minha gargante. – Vou perder Victória. Mais uma vez. Eu não vou aguentar perdê-la mais uma vez... – agora falava comigo mesmo, ignorando a presença dos meus amigos. Olhei no relógio. 23:55. Eu tinha 5 minutos.
- Cara, você acha mesmo que um estranho pode tirar você da gente? – Pe Lu perguntou, chacoalhando meus ombros pesados. – Acorda pra cuspir, seu imbecil, não é assim tão fácil se livrar de você! – levantei meus olhos também pesados pelo cansaço mental. – Nós te amamos, dude, não vamos sair do seu lado nunca! Estamos te ajudando com essa pessoa só porque não queremos ter ver mal, mas independente do que ele ou ela possa dizer, não vai mudar a nossa amizade!
- Pára de viajar, Lanza Reis. – Thomas concordou.
- O máximo que pode acontecer é você passar por algum tipo de humilhação social. Mas quem se importa com todos esses imbecis? – Koba perguntou, apontando com a cabeça para as pessoas que dançavam no salão. Olhei para eles, desolado, e pude ver Isadora, minha Isa, toda feliz e saltitante. Vi Maria Eduarda, indo até o chão de brincadeira, e ao seu lado vi Júlia, rindo da idiotice das amigas; e, no meio delas, estava Victória dançando, animada.
Victória cruzou seu olhar pelo meu e sorriu, mandando um beijo para mim. Sorri fraco. Não tinha mais forças para fingir que tudo estava bem.
- Você gosta mesmo dela, não é? – Ryan perguntou, baixo o suficiente para que só eu pudesse ouvir. Pe Lu, Thomas e Koba conversavam sobre novas suspeitas, mas nada mais me importava. Eu só queria que tudo acabasse logo, para poder me afundar de vez no meu infortúnio.
- Mais do que você pode imaginar. – respondi.
- Ela é mesmo especial pra prender um cara como você. – ele disse, sorrindo abobado, olhando para a irmã.
Especial.
É. A partir daquele momento, aquele seria meu adjetivo para me lembrar da melhor época da minha vida.
Especial.
- Boa tarde, formandos. – ouvi a voz distante do diretor. Afundei meu rosto em minhas mãos. Só me restava esperar. – Estão aproveitando o baile?
Os vários "sim" pareciam distantes pra mim. Tudo parecia distante pra mim naquele momento.
- Então vamos contar até 10 para a meia-noite, onde vocês estarão formalmente formados! – ele riu da própria piada, tentando ser um diretor "cool", embora todos soubessem que ele era um idiota de marca maior.
Os gritos ecoaram por todo o lugar, invadindo minha pequena cabana de cabelos e braços.
- 10! – ele gritou.
“9”
“8”
“7”
“6”
“5”
“4”
“3”
“2”
“1...”
Ouvi alguns chiados no sistema de som, e logo uma voz estridente soava por todo o salão, com os protestos do diretor ao fundo.
- Pedro Gabriel Lanza Reis, está me ouvindo? O vocalista da Restart consegue me ouvir? Ou melhor, consegue ver seus amigos daí? Consegue ver o amor da sua vida daí? Então aproveite o momento, porque depois do que eu vou falar, você não vai vê-los por um bom tempo. Ou eles que não vão querer te ver... – a voz disse, e eu levantei minha cabeça, olhando para o palco. Quando meus olhos se focalizaram, vi todo o salão me olhando. Vi Victória com uma expressão de dor, e vi minhas amigas olhando assustadas para mim. Depois olhei para o palco e vi. Vi quem estava disposto a destruir minha vida. Mais do que disposto. Vi quem estava sentindo um prazer imenso em estar acabando com tudo que eu mais amava.
A primeira coisa que veio em minha cabeça foi: "Não pode ser."
Simplesmente não podia ser!
O Gossip era...
Capítulo 31 – Amor não correspondido.
Lanza fala:
- Katy Springs? – murmurei comigo mesmo. – Katy Springs? – repeti, como um disco riscado. Mas eu não conseguia entender. Por que diabos Katy Springs estava querendo acabar com a minha vida? Eu nem a conhecia direito! Eu só sabia que no começo do ano ela estava com Harry, e que ela era a garota mais peituda do colégio.
Então, de repente, como se estivessem ali o tempo todo, flashes invadiram minha cabeça.
“Então, um belo dia, uma menina que Thomas estava ficando – Katy Springs, a eterna peituda – mandou uma foto para uma amiga de John beijando duas meninas. Mas ela errou o endereço – ou não – e mandou para Harry, que achou a foto tão engraçada que postou-a no blog.”
Ela que havia começado com tudo. Ela tinha um plano perfeito.
“Pista 1 – Você conversa comigo quase todos os dias. Nós somos até que próximos. De um jeito diferente, mas somos.”
Lembro-me de que sempre conversava com ela, pois tinha pena pelo jeito que Harry havia acabado tudo. Com uma mensagem pelo celular.
“Pista 2 – Quando voltar da Argentina, estará mais próximo de saber quem eu realmente sou! Mas não pense que se livrará de mim por lá. Eu estarei na sua cola!”
Katy havia pego Ben. Ben era o seu informante da Argentina!
Lembrei-me da conversa que as meninas tiveram sobre Ben logo que pousamos na Argentina. Eu parecia estar prestando atenção nos guys, mas estava com o ouvido nelas.
"Fiquei sabendo que sua última vítima foi Katy Springs!", Maria Eduarda disse.
"... A eterna peituda!", as quatro riram.
“Pista 3 – Não se engane. Às vezes as pessoas não são nada do que você acha que são! Fique ligado, existem os vencedores e os subordinados!”
Naquela época, cheguei a pensar que Ben fosse o Gossip. Mas ele era só um "empregado". Era ela quem comandava tudo.
“Pista 4 – Estou com saudades! Quem sabe a gente não se esbarra por aí, tanto na escola quanto nas festas... ? Fique esperto com todos à sua volta, algum deles pode ser eu.”
A festa de Marcus! Nós havíamos perguntado à ela onde Victória estava!
"A Victória tá aí?", Thomas perguntou.
"Tá lá em cima", Katy respondeu, visivelmente tensa, fugindo de nós logo em seguida.
“Pista 5 – Foi bom encontrar você! Bom, resolvi antecipar as coisas... O baile de primeiro de Setembro está chegando! Se até lá não descobrir quem eu sou... Já sabe o que vai acontecer, certo?”
Lembrei-me de trombar com Katy no último churrasco em que fomos.
Eu passei correndo pelas pessoas, mas esbarrei sem querer em alguém. A garota, que reconheci pelos peitos como sendo Katy Springs, sorriu de atravessado pra mim, e eu a ignorei!
“Então, quem eu sou!? Homem ou mulher? Alto(a) ou baixo(a)? Gordo(a) ou magro(a)? Peituda ou gostoso?”
E essa foi a cartada final.
Peituda ou gostoso?
Meu Deus, como eu não havia percebido antes!?
Estava ali na minha cara todo esse tempo e eu não havia me ligado. Nem eu nem ninguém. Porque, afinal, Katy era só mais uma no cenário escolar. Ela não era nada demais. Uma peituda gostosona no máximo.
Só uma coisa não se encaixava: o que ela tinha contra mim?
Ela deveria estar brava com Harry, não comigo!
O que diabos eu havia feito pra ela!? Eu sempre fora simpático com ela!
- Katy Springs? – os sussurros começavam a se espalhar pelo salão. Depois se transformaram em vozes altas, e o burburinho começou.
Eu não conseguia falar nada, enquanto olhava para aquela baixinha peituda, em pé no palco, segurando o microfone com firmeza. Ao meu lado, os guys pareciam estar na mesma. Nenhum deles se mexia, temendo que com isso pudessem desencadear a terceira guerra mundial.
Então ela recomeçou a falar, e o salão ficou quieto novamente, como se estivesse rolando um funeral, e não um baile de formatura.
- Boa noite, Colégio Norbert. – nenhuma resposta, e ela continuava a sorrir, um sorriso maligno e debochado. Isso me fez tremer por dentro. – Como vocês já devem estar suspeitando, eu sou a Gossip. Fui eu quem atualizou o blog todo esse tempo. Eu quem tirei as fotos, e quando não pude estar presente, Ben as tirou por mim. Ah, ele não pôde comparecer hoje pois está na Alemanha, mas mandou um beijo para todos vocês! – ela falava como se fosse a coisa mais normal do mundo. Até o diretor prestava atenção em Katy. – E como vocês já devem estar sabendo, a pessoa que deveria me revelar, não conseguiu. Essa pessoa é Pedro Gabriel Lanza Reis, que está parado ali atrás com a maior cara de idiota do mundo! – ela riu, e muitos rostos se viraram para me observar melhor. Por puro nervosismo, dei dois passos para frente. Não conseguia mais olhar para ninguém, a não ser Katy Springs, com seu vestido decotado, azul, seu cabelo caindo em cachos pelas costas, sua flor branca presa à mão, e seu sorriso diabólico. – Sabe, Pedro Gabriel Lanza Reis sempre foi uma lenda urbana. Ele sempre foi... – ela colocou a mão no queixo, pensativa. Seus olhos queimavam minha pele. – Perfeito. – seus lábios destilaram, sentindo prazer em me torturar.
Ela se virou e começou a mexer em um controle, ligando alguma coisa atrás de si. Eu permaneci imóvel e mudo. Ouvia a respiração dos meus amigos, atrás de mim, mas estava aterrorizado demais para ver o que eles estava fazendo.
Eu estava me perguntando mentalmente o que ela sabia sobre mim que poderia me ferrar tanto assim... Até aquele momento não havia pensando nisso! Quero dizer, eu tinha a ficha limpa! A não ser por... Mas ela não seria capaz de contar aquilo, seria? E como ela poderia saber sobre aquilo!? Impossível... Mais que impossível, impossível e improvável! Ninguém seria capaz de ser tão cruel ao ponto de usar aquilo para ferrar com a vida de alguém...
Será que Katy seria tão cruel assim!?
De repente, lembrei-me da ligação no meio da noite. Depois do show do DellRay, no dia em que Victória descobriu que o pai estava voltando com o irmão... Passei mentalmente todas as casas da rua: o casal com os dois filhos, a senhora com 20 gatos, Marcus, o cara separado que morava sozinho, o casal com três filhos pequenos e John. John e Marcus estavam descartados. O casal com três filhos pequenos também... O cara separado que morava sozinho também, porque eu sabia que ele não tinha filhos. Só sobrava a velha com os 20 gatos... Forcei minha cabeça, tentando me lembrar das muitas fofocas que ouvira de Katy Springs. Era muito burra, odiava a cor verde, pegara 13 caras em uma mesma noite, morava com a avó louca... A avó louca! Então era aquilo!
Mais uma vez me pegava pensando: "Como eu pude ser tão cego?"
O telão da quadra desceu, e imagens começaram a aparecer.
Será que ela teria o sangue frio de usar aquilo que eu pedia a Deus que não usasse?
Victória fala:
Katy Springs? A eterna peituda?
No way!
Agora sim o mundo estava de ponta cabeça! Por que, quero dizer, a Katy? A inofensiva e burrinha Katy Springs? Que comia com o grupo de teatro e ouvia Beyoncé o dia inteiro? Essa Katy Springs?
O que ela poderia querer com Lanza? Além da sua conta bancária? Porque, convenhamos, ele sempre fora gentil com ela, principalmente depois que Thomas dera um pé em sua bunda! Então por que diabos ela estava ali, com um sorriso parecido com o de Lúcifer no rosto?
Aquilo tudo era culpa do Thomas. Ele ia ver só quando chegasse em casa!
Um estalo alto invadiu meus ouvidos, e o salão escureceu. Olhei para cima, e uma tela piscava, como um grande cinema macabro.
Olhei para trás e Lanza continuava estático, em choque.
Homens...
Preciso admitir que ao mesmo tempo em que eu não queria que nada ferisse Lanza, estava curiosa para saber o que aquela criatura diabólica poderia dizer sobre ele que mancharia sua reputação. Como ela mesma dissera, ele era perfeito, não tinha defeitos, não tinha um passado ruim... Então o que poderia ser?
- Esse é o Lanza que vocês conhecem. – ela murmurou, e imagens dele começaram a rodar, ao som de Don’t Stop Me Now do Queen. Ele dançando no palco da escola, no pré 1. Ele pulando de felicidade ao ganhar o campeonato de basquete na sétima série. Ele pulando de cueca na piscina de Britanny, ao encher a cara no primeiro churrasco da oitava série. Ele tocando no show do DellRay, com uma calcinha na cabeça. Ele dançando no intervalo com Koba, Pe Lu e Thomas. Ele no Barney’s, jogando batatinha frita em todos nós. Então a música mudou, para Miserable At Best do Mayday Parade. E mais fotos começaram a aparecer. Fotos minhas e dele. Fotos íntimas, de nossa viagem à praia, de nossa viagem à Argentina, de todas as idas ao Barney’s, de nossas zoeiras na casa deles... Fotos antigas, fotos atuais.
- Esse é o queridinho do Colégio Norbert. O garota que conquistou a menina mais bonita de toda a escola! Esse é o perfeitinho, o fofinho, o sensível Pedro Gabriel Lanza Reis! – ela piou, enraivecida. Então, mudando o tom de voz para felicidade pura, continuou: - Mas vocês sabiam que o nosso Lanza tem uma irmãzinha? – perguntou no microfone, em sintonia com a nova imagem que aparecia. Na foto, Lanza, com uns 13 anos, abraçava uma garotinha, de uns 9, muito parecida com ele. Os dois sorriam para a câmera, e pareciam bem ligados. Olhei para trás, intrigada, e os guys pareciam compartilhar meus pensamentos. Procurei Lanza, e o encontrei, mas ele não percebeu meus olhos em cima dele. Sua boca tremia e seus olhos estavam muito vermelhos. Senti um nó na garganta, no mesmo instante em que Katy voltava a falar. – Provavelmente ele nunca falou sobre ela a ninguém, pois a pequena Michele está em coma há dois anos. – disse, como se fosse a coisa mais normal do mundo. – E por que ela está em coma? É uma boa pergunta... E acho que vocês tem todo o direito de saber! – exclamou, como uma criancinha feliz. E, dito isso, o telão deu mais um estalo, e um vídeo começou a rodar.
No começo as imagens estavam desfocadas, e só se ouviam vozes embaralhadas e sirenes. Depois, a imagem ficou nítida, e só se via fumaça. Uma ambulância passou na frente da câmera, dispersando a fumaça, deixando amostra os restos mortais de um carro preto, batido de lado em um poste, que caíra sobre ele.
"O que aconteceu aqui?" a pessoa que filmava, um homem, perguntou a uma senhora do seu lado, de cabelos grisalhos e uma expressão preocupada no rosto.
"Foi um garotinho. 15 anos... Ele saiu ileso, graças à Deus! Já a irmã, coitadinha... Só 11 anos! Quebrou três costelas e bateu a cabeça. Suspeita de traumatismo craniano, pelo o que falou o paramédico que a retirou do carro. Foi direto pra UTI, estava desmaiada..."
"Que história horrível!" uma mulher exclamou, ao fundo.
O homem que filmava deu zoom nos estilhaços e no ferro retorcido, que antes fora um carro. O lado do motorista estava levemente amassado, mas o lado da carona fora destruído pela pancada, e a parte de trás do carro fora amassada pelo poste, que caíra em cima. Era como um desenho, um quebra-cabeça. Se mais pessoas estivessem no carro, todas estariam feridas, ou mesmo mortas, menos ele. Ele fora salvo, sem nenhum arranhão. A imagem com zoom mudou de foco, para um garotinho enrolado em um cobertor cinza. Quando ele se virou para o lado, todos viram que era Lanza. Ele chorava silenciosamente, e seu pai o abraçava pelo ombro, enquanto falava com os policiais.
O telão escureceu e clareou de novo. Dessa vez, fotos felizes. Lanza e sua irmã, abraçados, na piscina, jogando travesseiros um no outro, tudo ao som do silêncio. Quando percebi, lágrimas escorriam por meu rosto.
Depois, as fotos felizes foram substituídas por fotos da garotinha na UTI. Seus cabelos loiros estavam desbotados, sua pele amarelada. Estava magra, com tubos enfiados por todo o seu corpo. Não era, nem de longe, e menina feliz das fotos anteriores.
A última foto foi uma de Lanza gargalhando. Embaixo, uma legenda: "Perfeito ou assassino?"
O salão ficou claro novamente, e eu cobri meus olhos, não acostumada com a claridade. Quando meus olhos finalmente pararam de lacrimejar, olhei para Katy, que sorria, serena, enquanto todos continuavam calados. As respirações viraram uma só. Os corações batiam como um só. E todas as mentes tinham a mesma pergunta: Por que Lanza nunca contara aquilo?
Eu estava desapontada. Não por ele ter causado o acidente, era claro que aquilo não havia sido sua culpa. Talvez fosse sua culpa ter pego o carro sem carta ou autorização, mas o destino era assim mesmo. O que tivese que ser, seria. Mas eu estava desapontada por ele não ter me contado. E mais ainda, por ele ter aguentado calado todos os meus lamentos, quando o que ele tinha guardado era mil vezes pior. Por ele não ter confiado em mim, por ele não ter dividido comigo sua angústia... Era por isso que eu estava desapontada.
- E aí, Lanza Reis, não tem nada pra falar? – Katy perguntou, rindo.
Continuei de costas; não conseguia encará-lo. Não por achar que ele era um assassino, mas por me sentir péssima por ele. Por ele estar passando por tudo aquilo sozinho.
O salão continuou em silêncio por alguns segundos. E no instante seguinte, ouvi uma batida de porta se fechando. Quando finalmente olhei para trás, Lanza não estava mais ali.
- Acho que alguém não encara muito bem a verdade... – ela deu de ombros, desligando o telão despreocupada. Então se ajeitou, arrumando a postura, e sorriu. – Bom, agora que eu já fiz o que disse que faria, e agora que o blog acabou, não preciso mais me esconder, e esconder o que eu sempre senti. – então ela desceu os degraus do palco e caminhou despreocupada entre as pessoas, ainda com o microfone nas mãos. O salão ainda estava em silêncio, absorvendo as últimas informações. Eu sabia que se não sentisse que mais algo estaria por vir, estaria correndo atrás de Lanza, mas eu precisava saber o motivo pelo qual Katy Springs havia feito tudo aquilo.
- Por que você fez isso? – me ouvi gritar no meio do salão. Não sei de onde veio a minha voz, só sei que ela saiu, sem mais nem menos, como se não pudesse esperar mais dois segundos. – Por que diabos você fez isso? Você sente prazer em humilhar e magoar alguém assim? Você é sádica ou algo do tipo?
Katy, que andava tranquila por entre as pessoas, que a olhavam sem expressão, se virou para mim, sem desfazer o sorriso.
- Que bom que você perguntou, Vic! - exclamou, como se fóssemos velhas amigas. Deu cinco passos em minha direção, e, quando percebi, ela segurava meu braço, próxima demais. – Eu espereva que fosse você a primeira a perguntar isso... No fundo, eu queria que fosse você. – disse, mostrando os caninos afiados.
- O que você quer dizer com isso? – perguntei, e senti a presença das minhas amigas logo atrás de mim.
- Quero dizer que eu estava me preparando para isso há muito, muito tempo... – ela murmurou, e o sorriso desapareceu. Seu rosto agora era calmo e... Expressivo. Intenso. E eu estava ficando com medo... Será que aquele era seu objetivo? Matar a patricinha no baile de formatura, tipo Carrie, a Estranha? Ou era simplesmente seu jeito de torturar as pessoas? Fazendo aquela cara de louca sob o efeito de calmantes. – Na verdade, eu me preparo para isso há 5 anos, quando descobri que estava apaixonada por você, Victória.
Comecei a rir no mesmo instante em que ela falou aquilo. Ela poderia ser uma louca, mas aquela piadinha fora mesmo engraçada.
Então olhei direito para ela, que permanecia séria.
Espera aí... Ela... Não... Hã!?
- É brincadeira, não é!? – perguntei, dando um passo para trás, me livrando de seus dedos gélidos. Um lampejo de dor atravessou seu rosto bem composto, quase que uma máscara caindo.
- Claro que não! – exclamou, nervosa, pela primeira vez mostrando sinais de que era um ser humano. – Por que você acha que eu fiz tudo isso? Por que eu sou sádica? Fiz por amor, Victória! Por amor!
Eu estava pasma.
Aquilo tinha que ser uma pegadinha! Eu tinha quase certeza que Ashton Kutcher iria pular do bar e gritar "You’ve been Punk'd!" pra mim, ou que o Serginho Malandro fosse descer do palco e gritar "Pegadinha do Malandro!" [N/A: HAHA, não aguentei, tinha que usar o Serginho Malandro, ele é divo!]. Então esperei um pouco em silêncio.
Mas quando percebi que não, aquilo não era uma brincadeira – depois que ficamos nos olhando quase que um minuto inteiro em silêncio – balancei a cabeça, abobalhada, sem saber o que dizer ou o que fazer. Então eu recomecei a rir.
A rir. Gargalhar!
Não que aquela situação fosse engraçada, longe disso... Era só que, o quão bizarro era ser hetero e ter uma mulher gostando de mim? Nada contra lésbicas, longe disso, mas eu, definitivamente, não gostava da fruta. Como ela poderia pensar, depois de todos os caras que eu já fiquei e namorei – não que fossem muitos, mas os poucos foram polêmicos – que eu fosse abrir os braços e murmurar "me beija"? Ainda por cima depois de tudo que ela havia feito com Lanza!?
- Você... Eu... – gaguejei, desnorteada.
- Nós! – ela falou, sorrindo mais do que o normal. – Agora nós podemos esquecer o “você” e “eu” e só falar “nós”, meu amor!
Olhei bem para ela. Olhos grandes e castanhos, cabelos castanhos, ondulados até os ombros, maçãs do rosto rosadas, bochechas grandes, cílios compridos, rosto gordinho de criança, vestido azul, mostrando as pernas e o decote volumoso, unhas feitas e salto alto. Era uma pena... Se ela não tivesse feito tudo aquilo com o meu Lanza, poderíamos ter sido amigas.
Mas já que ela o fizera, não me arrependi de ter feito o que eu fiz. Qur foi virar um tapa em seu rosto angelical com toda a minha força.
Sabe, depois de muito tempo, eu percebi que eu dera um tapa forte demais. Quero dizer, as gengivas delas sangraram. E isso pode ser chamado de um tapa forte.
- Eu não ficaria com você nem se você fosse homem! Nem se você fosse o último homem na face da Terra! – gritei, tremendo de nervosismo. – E nunca mais se meta comigo ou com as pessoas que eu amo!
Katy parecia irada, mas não se mexeu. Só ficou me olhando, com a mão no rosto e uma expressão indecifrável. Dei minhas costas à ela, batendo com meu cabelo em seu rosto. Passei pelas meninas e pelos guys, e eles fizeram menção de me seguir, mas eu os impedi, lançando um olhar que eles entenderam no mesmo instante.
Precisava ficar sozinha com Lanza. E sabia muito bem para onde ele tinha ido.
Mas antes de sair, pude ouvir a explosão de palmas e gritos. E depois o coro: “Victória! Victória! Victória! Victória!”.
Mais tarde, quando tudo havia passado, as meninas me contaram que Katy foi vaiada e saiu chorando, gritando que iria se vingar de todos nós.
E aquela noite ficou marcada para sempre como "O baile da Gossip".
Capítulo 32 – O melhor consolo.
Lanza fala:
Estava frio, mas era como se eu não sentisse. Estava molhado, mas era como se eu não me molhasse. Estava escuro, mas mesmo se estivesse claro, eu não enxergaria. Tudo isso me torturava, mas naquele momento, dor era tudo o que eu mais queria. Eu queria sofrer, sofrer, sofrer e depois morrer, lenta e dolorosamente. Era o que eu merecia. Era o que Deus deveria ter feito comigo, mas por algum motivo, não o havia feito.
Eu era uma péssima pessoa.
Por mais que eu tentasse, por mais que eu parecesse normal e feliz para as outras pessoas, não se passava um dia sem que eu pensasse nela. Michele. Minha irmãzinha, minha melhor amiga, que agora estava em coma havia 2 anos, e a culpa era toda minha.
Era por isso que meus pais se mudaram para o interior, me deixando sozinho com mais três adolescentes. Era por isso que eu nunca ia visitá-los. Porque, por mais que eles falassem que haviam me perdoado, eu não me perdoara.
Claro que todo mês eu ia visitar Michele. Às vezes ia duas vezes por mês, quando sentia muito sua falta. Mas sempre dava uma desculpa boa por meus sumiços de 3 ou 4 horas.
Passar esse tempo com minha irmãzinha era o melhor do meu mês. Ver que ela continuava ali, mesmo que só em corpo, me acalmava, me mostrava que nem tudo estava perdido. Me dava esperanças de que ela iria acordar e me perdoar. Pois eu sabia que só seria eu novamente quando ouvisse da boca da minha irmã que ela não guardava rancores e que ainda me amava.
Eu sempre contava sobre o mundo, sobre mim, sobre meus amigos, sobre minhas amigas, sobre a banda, sobre Victória... Na verdade, nos últimos tempos, era somente sobre ela que eu falava. Pedia conselhos, contava histórias, desabafava... E mesmo sabendo que não obteria resposta, saía de lá com a cabeça mais aberta para tomar decisões.
Agora que estava me sentindo péssimo, me perguntava o que Victória pensaria de mim, depois de ter descoberto o que havia acontecido com Michele. Será que algum dia ela me perdoaria?
Será que algum dia alguém me perdoaria?
Achava difícil. Principalmente pela reação deles. Quero dizer, ninguém olhou na minha cara, nem mesmo para mostrar o quão irados estavam comigo.
Joguei uma pedrinha no azul claro da piscina, e pequenas ondinhas espalharam-se até a borda. Coloquei os braços atrás do pescoço e me deitei na grama salpicada de gotas do sereno. Estava na casa abandonada, a mesma em que um dia consolara Victória. Jogara a pedrinha na mesma piscina em que entramos só com as roupas íntimas. Eu estava ali, onde passara um dos melhores momentos da minha vida, quando um dos piores estava acontecendo.
Nada. Era o que eu queria sentir. Nada.
Ouvi um barulho de "clic", mas não me importei. Pensei que fosse algum animal ou o vento espalhando as folhas.
Fechei os olhos, tremendo de frio.
Era diferente o frio que eu sentia. Me lembrava de que eu ainda estava vivo, mas isso doía tanto que eu gostaria que parasse até de tremer. Era como se minha alma estivesse fora do corpo. O frio era intenso, mas minha dor interna era maior.
Então eu senti calor. Um calor fraquinho, mas era o suficiente para me fazer parar de tremer. Depois de quase meia hora sofrendo, não sabia se agradecia ou xingava por estar sentindo novamente minha pele.
Abri os olhos lentamente e percebi o porquê do calor. Estava enrolado em um cobertor felpudo.
Da onde tinha vindo aquilo?
- Confortável? – uma voz angelical e conhecida perguntou. Sabia quem era, mas preferia acreditar que era um anjo.
- Por que eu? Por que não algum assassino, algum estuprador? Por que logo a minha roda tinha que estourar? Por que eu tinha que acabar com a vida da minha irmãzinha? – perguntei, imaginando que falava com um mensageiro, e que essas perguntas seriam diretamente entregues a Deus. – Por que não eu? Por que eu não entrei em coma no lugar dela? Por que eu saí ILESO? POR QUE EU NÃO MORRI, PORRA?
As lágrimas que eu segurava há tempos, rolaram quentes por minhas bochechas, acabando salgadas em minha boca. Algumas persistentes, escorriam até o queixo e se desmanchavam. Eu sempre tivera vergonha de chorar, na verdade, podia contar nos dedos os momentos em que chorei em minha vida. E aquele era um deles.
Levantei-me, deixando o cobertor no chão e encontrando os duros olhos de Victória, que me fitavam sem compaixão. Ao vê-la, sentada na mureta, descabelada da corrida, segurando a barra do vestido e os saltos na mão, senti vontade de sorrir. Mas não consegui, principalmente pelo jeito que ela me olhava. Fria. Mais fria que o vento que bagunçava nossos cabelos.
- Eu não sou Deus, Lanza Reis. – ela disse, daquele jeito desprezível, como se meu sobrenome tivesse 20 sílabas. – Eu não posso responder nenhuma dessas perguntas, e, mesmo se pudesse, não responderia. O que aconteceu, aconteceu sem motivo, era pra ser. Mas não era motivo suficiente pra você esconder dos seus amigos! – ela exclamou, saltando da mureta e ficando de frente para mim, segurando minha mão. Um choque percorreu minha espinha com seu toque. – Não era motivo pra esconder de mim, que sempre te contei tudo! Você sempre me apoiou, Lanza, por que achou que comigo seria diferente? Achou que eu iria te julgar errado? Todas as pessoas daquele salão sabem que esse acidento foi um horrível erro, a culpa não fo...
- Não. – cortei-a, soltando nossas mãos entrelaçadas. – Não diga isso, por favor. Não diga que a culpa não foi minha. A culpa foi toda e exclusiva minha!
- Não, Lanza, não foi! – ela piou, exaltada. – Você está se culpando por uma coisa que aconteceu sem querer! E, se continuar assim, vai se tornar uma pessoa amarga! Você tem que se perdoar, porque a culpa não foi sua!
- NÃO FOI MINHA CULPA? – gritei, explodindo. – NÃO FOI MINHA CULPA? NÃO FOI MINHA CULPA PEGAR O CARRO ESCONDIDO, COM 15 ANOS E SEM CARTEIRA? NÃO FOI MINHA CULPA USAR MINHA IRMÃ COMO PILOTO DE TESTE? NÃO FOI A PORRA DA MINHA CULPA PEDIR À MICHELE QUE TIRASSE O CINTO PARA PEGAR MEU PORTA CD NO BANCO DE TRÁS? NÃO FOI MINHA CULPA, VIC, ESTAR MEXENDO NO RÁDIO QUANDO BATI A RODA NA GUIA? – me senti mal por estar gritando com ela, que não tinha culpa nenhuma. Mas não conseguia me controlar. Ela estava com aquela expressão. Com os lábios contraídos e o corpo rígido, segurando o choro. Eu estava prestes a fazê-la chorar, mais uma vez. Mais uma vez estava magoando a única pessoa que sempre estivera ao meu lado.
Qual era o meu problema, afinal?
Continuei gritando, gesticulando, e tinha quase certeza que algumas lágrimas rolavam pelo meu rosto.
- VOCÊ NÃO ENTENDE! VOCÊ NÃO SENTE O QUE EU SINTO! VOCÊ NÃO SOFRE TODOS OS DIAS, MINUTOS E SEGUNDOS DA SUA VIDA! – parei para respirar um pouco, e tentar me acalmar, porque seu lábio quase não aparecia, de tão contraído que estava. Respirei fundo e contei mentalmente até 10. Quando estava no 7, ela colocou as duas mãos em meus braços, de um jeito carinhoso, e isso me amolou um pouco. – Você nunca entenderia, Vic... – suspirei, passando a mão direita pelo rosto, ainda com seus dedos em volta do meu braço esquerdo. Limpei as lágrimas com a manga da camisa. – E eu posso entender se não quiser mais falar comigo. Afinal de contas, eu sou mesmo um assassino.
Eu era um assassino, sem amigos, amigas, sem banda e sem namorada.
O mundo dá voltas...
Victória fala:
- Perdoar você? – perguntei, horrorizada. Ele abaixou a cabeça. – Como você pode chegar a pensar em uma coisa dessas, Lanza? Como eu posso te perdoar!? – ele fechou os olhos, e duas lágrimas apostaram corrida por seu rosto. Mas ele estava sério e concentrado, quase como se estivesse se acostumando com a ideia. – Como eu posso te perdoar se não tenho motivos para estar brava com você?
Ele levantou o rosto. E o que veio a seguir foi inesperado.
Ele me abraçou, chorando.
Mas não um choro de macho. Era um choro de soluços, sofrido e aliviado ao mesmo tempo. Seu corpo tremia, sua cabeça estava escondida em meu pescoço e ele segurava com força minha nuca.
Ficamos um bom tempo abraçados. Eu passava as mãos por suas costas, deslizando-as pelo tecido fino de sua camisa, e ele amassava meu cabelo em minha nuca, soluçando. Eu não achei constrangedor. Era claro que um dia ele iria estourar, chorar ou gritar, e fiquei feliz por ele estar fazendo aquilo comigo. Sabia que em mim ele confiava, e a melhor coisa do mundo era ter sua confiança.
Depois de algum tempo, ele parou de chorar, e o abraço ficou menos apertado. Sua cabeça começou a se desencostar do meu ombro, suas mãos se soltaram um pouco do meu cabelo, eu parei minhas mãos em sua cintura, e quando seu rosto entrou em meu campo de visão, sorri para ele, que retribuiu o sorriso.
- Obrigado. – murmurou, com a testa encostada na minha.
- Pelo quê?
- Por existir. – e, dito isso, ele me beijou. Me segurou forte pela cintura e me colou em seu corpo. No susto e no reflexo, enfiei minhas duas mãos com força entre seus cabelos, e o puxei para trás. Encostamos na mureta, ficando ofegantes com o beijo feroz e inesperado.
Lanza abaixou a mão para minha coxa, apertando-a, me fazendo soltar um suspiro alto. Com habilidade, puxou minha perna para cima, encaixando-a entre suas próprias pernas. Espalmei as mãos em seu peito definido, e ele fez o mesmo, apertando meus seios por cima do vestido. Gemi baixinho, mordendo seu lábio inferior.
Mão vai, mão vem, e ele parou o beijo subitamente.
- Victória, desculpe... – pediu, ofegante. – Sei que esse é o pior momento para dizer isso, mas não dá! Esses amassos acabam comigo... – murmurou, envergonhado, olhando para baixo. Segui seu olhar, e encontrei um volume suspeito em sua calça. – É claro que eu vou esperar, você sabe disso, só queria pedir pra você pegar leve, isso não é fácil pra mim também, e...
- Vamos para casa? – perguntei, interrompendo seu monólogo de bicha. Passei a mão em seu ombro e sorri, marota.
Era agora ou nunca!
Lanza fala:
Era agora ou nunca!
O momento pelo o qual eu esperei ansiosamente desde que conhecera Victória. O momento que pedia a Deus sempre que podia! O momento que sempre dizia à Michele que seria perfeito! O momento que eu passara todas as noites daquele ano em claro, imaginando como seria!
O melhor momento da minha vida!
- V-você e-está falando s-sério? – gaguejei.
- Estou.
- E você está 100% certa disso?
- Estou! 100% certa disso! – ela piou, sorrindo. Parecia que todo o drama de 15 minutos atrás nunca existira. – Você é o cara certo pra mim! Eu nunca estive tão certa disso como eu estou agora! Mesmo que não dure para sempre, quero me lembrar de você pelo resto da minha vida! Eu quero isso! Meu Deus, eu quero muito isso! – essa última frase ela meio que gritou, mais para ela mesma do que para mim.
Depois de dizer isso, ela se aproximou de novo, e lambeu meu pescoço lentamente, terminando com uma mordida na almofadinha da minha orelha.
Ok. Estava confirmado: aquela garota me deixava louco!
- Certo, vamos! – exclamei, pegando-a pelas pernas e colocando-a em meu ombro. Ela soltou uma gargalhada, mas não reclamou.
Provavelmente eu nunca corri tão rápido como corri aquela noite. Minha casa – nossa casa – era somente a alguns quarterões dali, mas eu cheguei lá em alguns segundos! Parecia um louco correndo pela rua. Mas, naquele momento, eu estava mesmo louco. Louco para ter só para mim a garota dos meus sonhos.
Chegamos em casa em tempo record. Eu estava ofegante e suando, mas continuava elétrico.
Mal chegamos – ela ainda estava em meu ombro –, e recomeçamos a nos beijar. Coloquei-a no chão e abaixei as alcinhas finas do seu vestido. Mas antes que eu pudesse perder o controle, parei de beijá-la.
- Me espera aqui! – ofeguei, disparando escada acima.
Se aquilo seria perfeito pra mim, teria que ser perfeito pra ela também.
Victória fala:
Sentei-me no sofá, tombando a cabeça para o lado, mexendo a perna freneticamente.
Eu queria aquilo! Eu queria aquilo demais!
Por que ele estava demorando tanto? Por que ele estava me torturando daquele jeito? Por que eu o havia torturado por quase um ano? Era por isso?
Pelo meu nervosismo, dava pra perceber o quão necessitada eu estava.
- Lanza Reis! – gritei, passados 15 minutos naquela angústia. – Eu não pretendo mudar de ideia, mas prefiro que aconteça nesse mês ainda!
Ouvi barulhos altos e um "ai caralho!" de lá de cima. Depois senti a escada tremer e logo ele estava do meu lado.
- Pronto! – ele meio que gritou, me pegando pelas pernas e ombros, me carregando no colo. Ri da situação, enquanto subíamos a escada correndo. Quero dizer, ele corria comigo no colo, enquanto eu ria.
Quando chegamos à porta do seu quarto, ele deu um chute para abrí-la, correu até a cama e me jogou de brincadeira, subindo por cima de mim. Começou a beijar meu pescoço e morder minha orelha, me arrepiando.
Até o momento, mantinha os olhos fechados. Mas os abri, curiosa para ver o que ele havia feito em todos aqueles 15 minutos.
Fiquei paralisada.
O seu quarto estava impecavelmente limpo. Sem meias e cuecas no chão, sem portas dos armários abertas, sem caixas de pizza em cima das coisas, sem manchas de cerveja no chão, sem absolutamente nada que envolva a palavra "sujo" ou "desorganizado".
Abri a boca.
Lanza, ao ver minha surpresa, descolou o corpo do meu, se apoiando nos braços para não me machucar.
- Você não gostou? – perguntou, com a expressão receosa. – Quero dizer, você sempre me pediu para arrumar o quarto, achei que gostaria de fazer isso em um quarto limpo.
Olhei em volta novamente, ainda com a boca aberta.
- Se você não gostou eu posso bagunçar, sem problemas... Eu só pensei que... – ele parou de falar, passando a mão pelos cabelos que caíam em sua testa, constrangindo. – Foi uma péssima ideia, não foi? – ele perguntou, ficando vermelho de vergonha.
- Lanza, eu... – parei, mordendo o lábio inferior. Ia dizer que estava sem palavras, mas eu tinha as palavras certas para dizer sobre o que tinha achado da surpresa. Quero dizer, ele havia arrumado toda aquela bagunça – que não era pouca e que ele amava de paixão – só para me fazer feliz. Existe algo mais fofo que isso? – Eu amei!
Ele sorriu de lado, aquele sorriso maravilhoso que eu amava.
Joguei meus braços em seu pescoço, puxando-o para mais perto. Ele voltou a me beijar, como se não tivéssemos parado.
Conforme o beijo ia se aprofundando, mais quente o quarto ficava. E nossa conexão também, pois quando pensei que não fosse mais aguentar de calor, Lanza começou a abrir o zíper do vestido nas minhas costas. Depois, abaixou as alcinhas, e eu comecei a sentir o tecido gelado deslizar pelos meus ombros, clavículas, barriga, coxas e joelhos, até despencar no chão, fazendo uma ponte em meus pés.
Lanza parou um pouco de me beijar e se ajoelhou para me olhar. Seus olhos brilhavam.
Sorri envergonhada.
Pelo menos minha calcinha era vermelha, combinando com o sutiã, e não do Bob Esponja.
- Eu sei que eu já vi antes, mas você é tão linda... – ele murmurou, com a voz rouca.
- Obrigada.
Inclinei-me pra cima, abrindo sua camisa de cima para baixo. Ela permaneceu estático, enquanto eu abria um por um. Eu sentia que ele continuava a me olhar, mas não me importei. Pra dizer a verdade, gostava de saber que ele se sentia atraído por mim.
Acabei de abrir e coloquei a mão por dentro, para tirá-la, passando as mãos por seu peito e ombros. Ela caiu no chão, junto ao meu vestido, e eu voltei a me deitar, enquanto ele permanecia ajoelhado em cima de mim.
Observei seu peito definido, subindo e descendo conforme sua respiração. E aquilo tudo seria meu.
Só meu.
Obrigada, papai do céu, muito obrigada!
- Depois eu que sou linda... – murmurei, e ele gargalhou, voltando a se deitar em cima de mim. Novamente voltamos a nos beijar, e minha mão foi hipnoticamente para seu cinto. Abri com um pouco de dificuldade, mas ele estava tão absorto em abrir o fecho do meu sutiã que nem percebeu.
Abri sua calça ao mesmo tempo que ele tirava delicadamente meu sutiã; sua boxer era azul-marinha com estrelas branquinhas. Sorri com aquela visão.
Ele nunca iria mudar.
Lanza distribuía beijos por todo meu colo, e eu sentia meus músculos se contraírem, intercalados.
Era uma sensação maravilhosa.
Ele desceu os beijos, passando por minha barriga e chegando na linha da minha calcinha. Ao chegar nessa última, eu pegava fogo.
- Posso? – perguntou, segurando o elástico entre os dedos, com uma cara de safado.
- Pode. – sussurrei, sem fôlego.
Ele a puxou para baixo, enquanto eu puxava sua boxer. Logo as duas peças de roupa restantes estavam fazendo companhia às outras no chão.
Lanza inclinou-se para frente, abrindo a gaveta e pescando uma camisinha.
Fechei os olhos, enquanto ele a colocava.
O mundo parou.
E, no intervalo de um suspiro, aconteceu.
Ele me beijava, sem muita cordenação, e eu apertava suas costas, deslizando as unhas por sua pele macia como se fossem lâminas. Seu corpo se impulsionou para frente, suavemente, e a dor da primeira vez sumiu tão rápido quanto chegou.
Meus olhos permaneciam fechados, proporcionando uma percepção maior.
No começo, era só novidade, curiosidade, mas passados alguns minutos, virou desejo, prazer.
Ele saiu e entrou novamente.
Gemi.
Saiu e entrou mais uma vez.
Gemi mais alto.
Ele gemeu.
A cada segundo que passava, o prazer se intensificava. Chegou um momento em que eu jurei que seria impossível melhorar.
E melhorou.
Lanza ia devagar, embora fosse visível que se esforçava para não aumentar o ritmo. O prazer só aumentava. Aumentava, aumentava e aumentava. Eu já estava cansada, mas não queria parar, nunca mais queria parar.
Então, num movimento involuntário, arqueei as costas, tirando as unhas de suas costas e segurando o colchão, pois tinha medo de machucá-lo, tamanha a força que fazia. Ele fechou os olhos e mordeu o lábio, reprimindo um gemido alto.
Finalmente, ele saiu e entrou pela última vez, e todos os músculos do meu corpo se comprimiram, me proporcionando a melhor sensação que eu já havia sentido. Gemi alto, e ele também.
Nossos corpos relaxaram ao mesmo tempo, e ele caiu ofegante para o lado.
Ficamos em silêncio, esperando a respiração voltar ao normal. Depois de algum tempo, já sem ofegar, Lanza passou o braço por meu ombro, e eu me encaixei nele, nos cobrindo.
Não dissemos nada.
Não precisávamos.
Capítulo 33 – “It’s not always easy, but I’m here forever!”
Lanza fala:
Não sei ao certo quando peguei no sono. Num instante estava observando Victória dormir em meus braços, nos outros sonhava com coisas completamente sem noção. Dormi, acordei, e a primeira coisa que pensei foi nela. Victória. E em como seríamos felizes a partir daquele momento.
De olhos fechados podia perceber que a luz invadia o cômodo.
- Boa di... – ia dizendo, quanto bati a mão no colchão vazio ao meu lado. – Victória? – chamei, abrindo os olhos e não encontrando ninguém ao meu lado. – Vic? – tentei mais uma vez, alto o suficiente para que se ela estivesse em algum lugar na casa pudesse me ouvir.
Nada.
Deixei meu corpo tombar novamente na cama, fechando os olhos.
Como em algum momento cheguei a pensar que as coisas finalmente seriam fáceis para nós dois?
O meu celular tocou, me assustando um pouco.
Meu coração acelerou.
Podia ser ela, ligando para dizer que havia saído pra comprar pão ou algo do tipo, e que já estava voltando. Quero dizer, eu podia ser otimista, não podia?
Atendi sem ver quem era no visor. Não queria parecer desanimado ao atender quem quer que fosse.
- Alô? – murmurei, cruzando os dedos.
- Lanza!? – a voz de Koba falhou do outro lado.
- Eu! – exclamei, frustrado por não ser Victória, com receio de que ele estivesse ligando para me expulsar da banda no primeiro dia de turnê e feliz por estar falando com meu amigo quando pensei que nunca mais o iria fazer.
- Cadê você, dude? Estamos te esperando no terminal com o busão da turnê! Você precisa ver, tem até geladeira e... – ao fundo, ouvi Pe Lu gritar “Fala o que você tem que dizer, dude!” e Koba voltou à realidade. – E o Fedelso já está puto, cara, e você sabe como o Fedelso fica quando está puto.
Sabia. Ele ficava... Puto.
- Vocês... – hesitei, ao ouvir Fedelso gritar ao fundo “Não deixem as fãs ultrapassarem a barreira!”. – Vocês não estão bravos comigo?
- Bravos? Pelo o quê? – ele perguntou, e Thomas gritou ao seu lado “Lanza, vem logo, cara, eu juro que essas meninas vão invadir esse ônibus e me comerem, no sentido literal da palavra, e a Júlia está ficando com medo!”.
- Por Michele... – sussurrei, e só a menção do seu nome me deixava com um nó na garganta. – E por ter escondido de vocês.
- Cara, esquece essa história. – ele disse. – Nós estaremos do seu lado independente do que acontecer. Pode ter certeza. E quanto à sua irmã, ela vai melhorar. Eu sei que vai. Todos nós acreditamos nisso. E, se não for pedir demais, você podia parar de drama e vir logo? Não dá pra fazer turnê sem vocalista!
Respirei fundo, pulando da cama animado. Por um instante havia me esquecido do abandono de Victória.
- Obrigado, galera. – exclamei, mesmo que só Koba estivesse ouvindo. – Eu amo muito vocês! E chego aí em 5 minutos!
Joguei o celular longe.
Estava triste e feliz ao mesmo tempo. De repente, uma luz me invadiu, e eu entendi. Entedi por que ela havia ido embora. E era por isso que estava triste e feliz. Triste porque sabia que ela não estava mais ali por arrependimento. Mas não podia mais ir contra suas vontades, e estava feliz por isso. Aquele era o primeiro dia do resto de nossas vidas juntos, e eu esperaria por ela.
E ela sabia disso.
Me troquei e peguei minhas coisas. Coloquei tudo na Eco Sport de Pe Lu e estava quase saindo de casa, quando me lembrei de pegar os óculos de sol.
Entrei e os encontrei do lado de uma folha em branco.
Destino?
Como um flash, tive uma ideia.
Procurei por uma caneta e, ao achá-la, escrevi o que sabia que a convenceria de que nós éramos pra ser. E se ela gostasse mesmo de mim – o que eu tinha certeza que sim – e voltasse para me procurar, rezava para que não fosse tarde demais quando ela lesse o meu bilhete.
Victória fala:
Mais uma vez estava confusa.
Mais uma vez não sabia o que fazer.
Mais uma vez magoava Lanza.
Por que eu não podia ser uma pessoa normal?
Estava sentada no banco do parque que ficava no final da rua. O Sol queimava minhas bochechas e esquentava meus ombros nus, cobertos por 2 alcinhas finas da minha regata branca.
Esfreguei meu All Star de couro também branco na terra, e a barra da minha calça skinny ficou marrom.
Olhei novamente para minha lista de prós e contras, que estava fazendo desde que saíra de casa, deixando um adorável e desfalecido Lanza pra trás.
Olhei no relógio. Em meia hora Lanza entraria naquele ônibus de turnê e só voltaria depois de 3 meses, levando consigo meus amigos e minhas amigas.
Fiquei mais um tempo olhando para o céu, sem pensar em nada.
Ou pelo menos tentando.
O negócio é que eu sabia que se fosse com Lanza naquela viagem, ficaríamos juntos, ligados, para sempre.
E eu queria brigar e me desgastar pra sempre?
Olhei no relógio de novo. 23 minutos.
Respirei fundo. E baixou a inspiração.
Que tipo de pergunta era aquela? Era claro que eu queria continuar brigando com Lanza, se isso me deixasse sempre perto dele!
Olhei de relance no relógio.
18 minutos!
Levantei já correndo. Só tinha fucking 18 minutos para corrigir a merda que tinha feito!
17 agora... !
Corri como nunca pela rua, onde algumas crianças corriam umas atrás das outras. Depois de quase derrubar 3 meninas e realmente derrubar um garotinho, cheguei em casa, esbaforida.
- Lanza! – gritei escada acima, embora soubesse que ele já deveria estar chegando no terminal onde o ônibus da turnê estava esperando por eles. – Lanza, você está aqui!?
Nada.
“Merda!” pensei, me apoiando no balcão da cozinha para respirar um pouco. Nesse movimento, acabei derrubando um pedaço de papel no chão. Agachei-me e o peguei. Estava dobrado no meio, escrito “p/ Vic”.
Meu coração acelerou mais do que estava acelerado da corrida.
Abri o papel e li as 4 pequenas linhas escritas.
“Vic,
Se mudar de ideia, estarei te esperando, seja onde for, seja como for. Vou te esperar pra sempre. Você é a mulher da minha vida.
It’s all about you, baby!
Lanza.”
Apertei o papel contra meu peito.
Tinha menos de 10 minutos para reconsquistar o amor da minha vida.
Merda!
Lanza fala:
- Cheguei! – gritei para Fedelso, depois de ultrapassar a multidão de fãs histéricas, que puxaram meu cabelo e roubaram minha blusa da Nike. – Vivo!
- Finalmente, Lanza Reis! – ele suspirou, aliviado. – Se esperássemos mais tempo, a barreira não aguentaria!
Coloquei as malas no chão, e Fedelso as pegou, levando para dentro do ônibus, que era o ônibus mais legal que eu já havia visto.
Vermelho e preto, gigante e com um McFLY escrito em letras garrafais verdes.
Da hora, dude!
- Então vamos? – Fedelso colocou a cabeça para fora do ônibus.
- Vamos! – exclamei, mas no fundo estava um pouco relutante. Olhei em volta, tentando ignorar os gritos de “Lanza, casa comigo!” atrás de mim.
Ela viria. Eu tinha certeza que viria.
Victória fala:
- Pro Terminal, por favor, o mais rápido possível! – meio que gritei, me jogando dentro do táxi que parara para mim. – Se você chegar lá em 10 minutos eu te dou 100 libras! – o taxista arregalou os olhos e meteu o pé no acelerador.
No começo estava tudo livre, e eu tinha certeza que chegaria a tempo.
Até o táxi parar no maior trânsito da história dos trânsitos.
Não que eu soubesse algo da história dos trânsitos, mas como eu estava atrasada, pra mim era o maior trânsito do mundo.
- Ai, meu Deus, será que isso demora? – perguntei, entrando em desespero, só vendo um mar de carros na minha frente.
- Não sei, depende. O terminal é no final dessa rua, mas a rua é muito longa. – ele respondeu, assoviando junto com a música que tocava na rádio indiana que ele ouvia.
Enconstei-me no assento de couro, começando a suar.
“Merda, merda, merda!”
Lanza fala:
- Não vai entrar, Lanza!? – Isadora perguntou, colocando a cabeça pra fora logo que Fedelso a retirou. – Eu tenho quase certeza que essas meninas não estão brincando que querem se casar com você, e se alguma delas ultrapassar a barreira e você assinar um papel de casamento você está mais do que ferrado. – ela disse, sorrindo. Koba apareceu atrás dela.
- E aí, dude! Vamos ou não!? – perguntou, como se a história de Michele nunca tivesse existido.
Eu era muito agradecido por ter amigos tão maravilhosos como os meus.
- Sim, estou indo. – respondi, e os dois entraram.
Olhei em volta novamente.
Não tinha mais tanta certeza de que ela viria.
Victória fala:
- Pelo amor de Deus, vai pelo acostamento! – pedi, pela décima quinta vez. – Eu te pago se você for multado!
- Não posso, senhora, me desculpe. – ele disse, com sotaque estrangeiro.
Olhei pela janela. Um ônibus vermelho e preto, bem longe do meu campo de visão, tremia, como se estivesse sendo ligado.
Não pensei duas vezes.
Saltei do táxi, jogando uma nota de 10 libras para o mororista.
- Obrigado por nada! – gritei, correndo pela rua como uma louca.
Não perderia Lanza.
Não de novo.
Lanza fala:
Subi os degraus do ônibus, sentindo como se estivesse sendo esfaqueado a cada degrau que subia. Ao chegar no interior, não consegui nem sorrir com os 3 video-games esperando por mim, ou pelo frigobar lotador de cervejas e vodkas.
Sem Victória comigo, aquela turnê seria uma merda.
- Todos prontos? – o motorista hippie de uns 60 anos perguntou por cima dos óculos redondos estilo John-Lennon-depois-da-Yoko.
- SIM! – todos, menos eu, gritaram.
Eu estava pronto?
Victória fala:
Corri pelo o que pareceu uma eternidade. Aquela era mesmo uma rua grande. Grande era pouco, era uma rua gigantesca!
Parecia que meu pulmão sairia pela boca. Meu cabelo voava e batia no meu rosto, enquanto minhas pernas me guiavam sem cordenação até o terminal. Olhei para frente, e pude calcular os 100 metros restantes.
Finalmente!
Sentia como se tivesse corrido uns 3 quilômetros, no mínimo.
As pessoas dos carros parados me observavam, curiosas. Alguns buzinavam, outras gritavam “É isso aí, garota!”. Era engraçado ver que mesmo sem saber do que se tratava, as pessoas me incentivavam.
Finalmente cheguei ao terminal, suada e ofegante.
Entrei ainda correndo, mas fui obrigada a parar diante da multidão de pré-adolescentes histérias no portão de embarque.
Ai, meu Deus!
Lanza fala:
- Here we go! – Thomas gritou, se jogando no sofá verde limão, com Júlia ao seu lado.
Olhei pela janela.
Nada dela.
Mas eu não podia perder as esperanças. Não podia simplesmente jogar tudo pro alto.
Não agora.
- HEY! – gritei, chamando a atenção de todos. Até o motorista olhou para trás. Fedelso virou os olhos, prevendo um desastre se aquelas meninas invadissem o ônibus. – Não deveríamos, sei lá, falar algumas coisas antes de sair. Quero dizer, pra dar boa sorte, como um ritual que faremos todas às vezes que futuramente iremos sair em turnê!?
- É uma boa ideia, Lanza! – Pe Lu concordou.
- Então, bem, vamos juntas as mãos. – disse, pegando a mão de Pe Lu de um lado e a de Thomas do outro. Koba fechou a roda do outro lado. – Hm... – tentava pensar rápido, para que eles não percebessem que aquilo era uma farsa só para ganhar tempo. – Bom, nós, hm, deveríamos, hm...
Não conseguia! Não conseguia pensar em nada!
Victória fala:
- Com licença, com licença, por favor, eu preciso passar! – me espremia por entre as meninas, mas por mais que me mexia, não conseguia sair do lugar.
De repente, fui empurrada para fora da multidão por duas garotas que mais pareciam dois rinocerontes.
E agora? O que faria!? O que faria!?
Olhei em volta, tentando pensar em algo.
Logo atrás de mim um segurança segurava um megafone.
Brilhante!
- Por favor, moço, é caso de vida ou morte. Ou vida e morte de um amor. Você PRECISA me emprestar esse megafone! – pedi para ele, segurando sua camisa bem passada.
- Desculpa, menina, não posso. – ele respondeu, rígido.
Peguei as 100 libras que daria ao motorista do táxi se ele não fosse um incompetente – lá se ia meu dinheiro – no bolso.
- Nem por 100 libras? – perguntei. Ele olhou para a nota e para mim. Para nota e para o meu decote. Para nota e para o megafone.
Estendeu a mão, pegando as 100 libras e me dando o megafone.
- Obrigada! – exclamei, feliz.
Liguei no volume máximo.
- CALEM A BOCA! – gritei o mais alto que podia, e todas as meninas ficaram mudas.
Capítulo 34 – Pra sempre.
Lanza fala:
- Uba uba uba ê! – Koba sugeriu, e Thomass virou os olhos.
- Realmente, Koba, isso é algo muito poético de se dizer em todo o começo de turnê pro resto das nossas vidas!
Respirei fundo.
- Desculpe, Lanza, sei que isso é importante para você, mas não temos mais tempo. Temos que estar na próxima cidade em 2 horas! – Fedelso colocou a mão em meu ombro.
Soltei as mãos dos guys.
Estava tudo perdido.
- Agora sim, lá vamos nós! – o motorista hippie, fumando um cigarro suspeito, exclamou, ligando o ônibus novamente. Deixei meu corpo mole, apoiando a testa no vidro.
As fãs continuavam lá fora. Nada havia mudado.
Como cheguei a pensar que ela havia mudado?
Que ela me amava acima de tudo e de todos?
- Calem a boca! – ouvi um grito distante. Apertei os olhos, e, no meio da multidão, vi uma garota de regata branca, calça skinny escura e All Star de couro branco, com os cabelos bagunçados caindo em cascata por suas costas. Seu rosto estava vermelho e ela parecia ofegante.
- ESPERA! – gritei para o hippie, que desligou o ônibus novamente, na maior paz e amor.
- O que foi dessa vez, Lanza Reis? – Fedelso parecia irritado.
- Me esperem, por favor, é importante! – exclamei, correndo pelo ônibus, saindo do mesmo e sendo recebido por silêncio. Porque, na verdade, as fãs não me olhavam. Elas olhavam, todas, para a garota que brilhava em cima de um banco, com um megafone nas mãos.
- Obrigada. – ela suspirou, no megafone. – Muito obrigada. Meninas, por favor, vocês precisam me ajudar.
Silêncio.
As fãs olhavam hipnotizadas por ela.
- Dentro daquele ônibus, está o amor da minha vida. Eu sei, eu sei que também é o amor da vida de vocês! – ela exclamou, quando os sussurros começaram. – Mas pra mim é diferente. Ele é diferente, meninas. Ele... Ele é o homem da minha vida. E se eu deixar ele partir hoje, nunca mais me perdoaria. Ele não pode sair com aquele ônibus sem saber que eu não vou sair daqui. Que eu não vou deixar de amá-lo nunca. Que eu nunca vou sair do seu lado, nos momentos bons e ruins. Ele precisa saber que se eu sou a mulher da vida dele, ele é o homem da minha. E que eu nunca, nunca, quis magoá-lo. – ela pigarreou, parecendo envergonhada. Mas mesmo assim, não parou. – Vocês precisam me ajudar, meninas. Se vocês já amaram alguém assim, vocês sabem do que eu estou falando. E se eu não puder passar por vocês, olhar nos olhos de Pedro Gabriel Lanza Reis e dizer tudo isso, eu nunca mais vou me perdoar, porque sei que ele nunca mais vai me perdoar.
Silêncio.
Ninguém disse nada, e ela continuou ali parada, olhando suplicante para cada rosto que a encarava.
E ninguém disse nada.
Por que diabos ninguém se mexia?
Por que diabos eu não me mexia?
- Eu te ouvi, Victória. – me ouvi gritar, e todas as cabeças se viraram para mim, inclusive a dela, que me olhou surpresa. – Mas como eu posso ter certeza que você não vai fazer isso de novo?
- Eu não posso te dar certeza disso, Lanza. – ela gritou, pois já havia entregado o megafone e descido do banco. Então começou a andar por entre as fãs, e elas abriram um túnel para que ela passasse e chegasse até mim. – E eu não tenho o direito de te deixar na dúvida, incerto. Mas eu posso te dar as minhas promessas, se para você elas forem mais do que meras ilusões, porque pra mim com certeza são. E tudo o que eu disse é verdade! Você precisa acreditar em mim.
Coloquei a mão no bolso, revirando a caixinha que guardava comigo, em todo os lugar que eu ia, desde um dia antes do baile.
Victória passou pelas fãs, finalmente ficando frente à frente comigo. A atmosfera era tensa. Eu estava tenso. Ela estava tensa. Tudo dependia daquele momento.
Daquele único momento.
A caixinha entre meus dedos tremia.
- Na verdade, tem um jeito de você demonstrar que nunca mais vai fugir como fugiu hoje. – disse, trêmulo. Ela segurou meu rosto com as mãos.
- Tudo. Eu faço tudo que você me pedir.
Tirei a caixinha do bolso e seus olhos se arregalaram.
Pigarreei, arrumando minha voz.
Respirei fundo.
Abri a caixinha.
Duas alianças de prata reluziam.
- Hackmann, quer namorar comigo?
Victória me abraçou e murmurou em meu ouvido:
- Sim, sim, um milhão de vezes sim!
Então a explosão aconteceu. Aplausos e gritos das fãs, lágrimas de Isadora, Júlia e Maria Eduarda, e "aleluias" de Koba, Pe Lu e Thomas.
Depois de um ano de vai e vem, um ano de enrolação, um ano de palavras não ditas e sentimentos escondidos, um ano de segredos e vitórias, um ano de perdas e conquistas, finalmente, eu poderia ser feliz.
Mas eu continuava abraçado com Victória.
Porque ali era o meu lugar.
Nos seus braços.
Pra sempre.
Epílogo
“Imbecil, hipócrita, canalha!” eu pensava, enquanto andava rapidamente pela rua deserta. A Primavera começaria no final da próxima semana, mas as flores já nasciam, fazendo com que toda a rua se enchesse de vida e cor. E se eu não estivesse tão irritada, com certeza aquela visão me faria bem. “Ele sempre consegue estragar minha felicidiade...” pensei, apertando com força meu celular nas mãos. Não estava prestando a mínima atenção no caminho, mas quando dei por mim, estava em frente ao meu antigo colégio, o Colégio Norbert.
“Por que não?” pensei, com um pouco de saudades e um pouco de vontade de me esconder em algum lugar em que não precisasse pensar em mais nada.
Passei pela portaria vazia, exceto por um guarda adormecido. Não era de se espantar que tudo estivesse tão silencioso, pois o ano letivo ainda não havia começado. E, pelo menos na minha época, os alunos costumavam passar bem longe do colégio nas férias.
Ao passar pela portaria, deparei-me com o antigo pátio. Atravesseio-o correndo, como era acostumada a fazer quando ainda estudava ali, pulando os quadrados brancos e só pisando nos quadrados pretos. Sete anos haviam se passado desde a última vez em que colocara meus pés ali, mas a sensação continuava a mesma. Ao relembrar do colegial, sorrir era uma reação involuntária. Passei os melhores anos da minha vida ali, naquele pátio, naquela escola. Sentir o vento soprar em meu cabelo enquanto corria era como se voltasse aos meus 16 anos.
Nada ali havia mudado drasticamente. No máximo as cores das paredes e dos bancos. Nada que pudesse apagar as lembranças de tudo que vivera ali.
Ao mesmo tempo, eu havia mudado tanto...
Aquele era um contraste interessante.
Eu não era mais a adolescente que encurtava o uniforme e se preocupava com o que um blog poderia dizer sobre mim. Agora eu era uma mulher, com objetivos e um futuro promissor pela frente. Aos 18 anos entrara para a faculdade de direito em sétimo lugar. Fizera o curso de cinco anos me destacando. Nos dois últimos anos da faculdade, trabalhei como advogada pública, trabalhando para pessoas sem o dinheiro necessário para contratar um advogado. Depois passei a advogar para uma grande empresa, ganhando o bastante para me sustentar com todo o conforto e luxo por mês. E, se tudo continuasse daquele jeito, naquele mesmo ano poderia prestar concurso para ser Promotora, realizando o meu grande sonho.
Enquanto pensava sobre como poderia tudo mudar, entrei no prédio do Ensino Médio.
Logo de cara, no armário de medalhas e troféus, encontrei uma foto do meu time de cheerleaders do terceiro ano, em cima de um troféu de primeiro lugar. Na foto, Maria Eduarda sorria, Júlia chorava e Isadora fazia uma careta. Eu estava no meio, fazendo uma pose sexy.
O terceiro ano fora ótimo, mas nada poderia superar o nosso segundo ano, terceiro para os guys. Porque, ao entrarmos no terceiro, os guys não estavam mais no colégio. Na verdade, durante o terceiro ano, nós só os vimos durante as férias do começo do ano, na turnê pelo país que fomos com eles – e que fora a melhor viagem de todas –, e depois nas férias do meio do ano, onde viajamos para o Canadá juntos. O resto do ano inteiro eles passaram em turnê.
Continuei com os olhos na foto, observando minhas amigas.
Maria Eduarda continuava a mesma, linda como sempre. Continuava fazendo sucesso por onde passava, principalmente por ter se tornado uma atriz reconhecida. Seu primeiro filme sem ser independente fora um sucesso e, depois disso, não conseguia mais andar nas ruas sem um óculos de sol e um boné. Ela se casara com Pe Lu no ano passado, aos 22 anos, e não se arrependia de ter casado tão jovem. Para ela, Pe Lu Munhoz era o homem da sua vida, e para Pe Lu, Maria Eduarda era a garota dos seus sonhos, e nada nem ninguém os separaria. Nós fomos as madrinhas e os meninos foram os padrinhos e, mesmo sendo um casamento discreto, muitas revistas de fofoca o consideraram como sendo “O casamento do ano”, juntando o “Rockstar” e a “Atriz Estrelar”. Tudo que as revistas de fofoca mais queriam. Ela morava com Pe Lu em um apartamento no centro, mas nós e as outras meninas almoçávamos juntas todos os domingos, como um ritual sagrado.
Com guys ou sem guys.
Júlia ainda acordava de mau humor, mas, pelo menos, acordava ao lado de Harry. Os dois moravam juntos em uma cobertura ao lado do prédio de Pe Lu e Maria Eduarda, que compraram juntos, dividindo os custos, pois ela odiava ser mantida pelo dinheiro de Harry. Sentia-se comprada se não pudesse ajudar nas despesas e nos gastos, e não queria que ninguém duvidasse que ela só estava com ele pela sua fama e dinheiro. Os dois estavam noivos, mas só queriam se casar quando ela acabasse a segunda faculdade, de Engenharia Ambiental, e quando ele tirasse um ano de folga, para aproveitar a vida de casados. Harry ainda era muito assediado pelas “marias-baquetas”, principalmente depois do sucesso crescente do McFLY pelo mundo inteiro, e Júlia ainda morria de ciúmes, mas nada que pudesse atrapalhar o amor dos dois. Ele era muito fiel e ela muito companheira, e os dois sempre davam as melhores festas que poderíamos frequentar. Principalmente a do Ano Novo, quando costumávamos tomar o primeiro porre do ano juntos, relembrando as maluquices da juventude ou inventando novas maluquices de “gente grande”.
Isadora e Koba ainda não haviam oficializado nada, mas já viviam uma vida de casados. Moravam juntos em uma casa que compraram em um bairro residencial, e não se largavam por nada nesse mundo. Ela decidira conhecer o mundo antes de começar uma faculdade, e namorou a distância por dois anos inteiros, somente se encontrando com ele quando estavam no mesmo país, e acho que Koba ficou tão traumatizado que agora não saía mais de perto dela, nem por um minuto. E, quando saía em turnê, ligava todas as noites, só para dizer que a amava. Agora Isadora estava cursando o segundo ano da faculdade de Moda, usando Koba como cobaia para suas criações um tanto quanto coloridas. Mas, mesmo assim, ele lhe trazia rosas vermelhas todos os dias e ela sempre comprava uma lingerie nova para agradar o namorado.
E sim, eu sabia desses detalhes sórdidos pois era arrastada ao shopping por ela para ajudá-la a escolher as lingeries.
Felizmente, de algum modo, todos continuavam apaixonados. Mas o amor era diferente! Era mais maduro, mais forte. Eles não eram mais crianças e já sabiam muito bem dosar os sentimentos.
Subi até o último andar pela rampa principal, rindo sozinha ao relembrar de quando Marcus me levava no colo até o último andar.
Marcus havia se casado com um ator recém saído do armário, e morava em Hollywood, numa mansão de 3 milhões de doláres e duas filhinhas adotadas. A última vez que falara com ele fora em uma festa de ex-alunos do colégio, onde ele tomou um porre e admitiu ser apaixonado por Lanza no Ensino Médio. Lanza ficara vermelho e saíra de perto, gaguejando alguma coisa que ninguém conseguiu ouvir, enquanto o resto de nós ficara o resto da noite rindo e zoando com a sua cara.
Cheguei à última sala do terceiro ano ofegante. Olhei para as paredes, onde "John e Josh, pornô pra toda hora" estava pixado em roxo brilhante na parede do fundo do corredor.
John e Josh começaram trabalhando na Playboy, com fotos caseiras de putinhas-mirins do colégio, e agora eram magnatas da indústria pornô, conhecidos no mundo inteiro pelos “PP, Pervertidos de Plantão”. E, depois do baile de formatura, eu nunca mais os havia visto.
Graças a Deus.
Olhei pela janela do corredor para o Barney’s, nossa lanchonete preferida.
James comprara o Barney’s e continuava a trabalhar por lá, fazendo alguns freelancers de fotografia. Continuava o mesmo, um amor. Mas sem as espinhas na cara. E uma namorada russa que não entendia nossa língua, mas que era uma fofa. Lanza não ia mais com a cara dele, mas nunca nos contou o porquê da sua raiva. E, como era de se esperar, sempre que podíamos, íamos ao Barney’s, na nossa mesa reservada. Só que nunca podíamos comer em paz, porque os fãs do McFLY ou de Maria Eduarda sempre iam interromper.
Na porta do Barney’s, um banner gigante de Bella tomando um café e sorrindo – como se isso fosse possível –, onde embaixo se lia "Barney’s, a sua lanchonete". Bella agora era modelo e melhor amiga de Gisele Bündchen. E viciada em cocaína, mas como fofocar é feio, paro por aqui.
Já que estamos falando de destinos não muito felizes, Ben estava preso por lavagem de dinheiro. E era a única coisa que eu sabia sobre seu futuro. A sua vida não me interessava. A única coisa que eu sentia por ele era nojo. E pena.
Somente uma coisa não havia mudado em cinco anos.
E você já deve imaginar qual.
Eu e Lanza.
Naquela manhã havíamos brigado feio. Eu atendi seu celular, que tocava incansavelmente, enquanto ele tomava banho. Ao atender, uma voz feminina exclamara: “Ótimo trabalho ontem à noite, Lanza Reis!”. Não pensei duas vezes antes de jogar o celular em cima dele, que saía do chuveiro naquele exato momento, e sair correndo do seu apartamento, – nós não morávamos juntos, ele morava sozinho e eu morava com meus pais, que haviam se acertado e voltado. Pra falar a verdade, demorei para perdoar minha mãe, mas no final acabou tudo bem. – deixando-o ali, com o celular nas mãos e uma cara de interrogação.
Idiota, pensava que podia me enganar com aquela cara de "ué"?
Finalmente entrei na antiga sala do terceiro ano dos guys e do meu irmão, passando os dedos pela lousa verde. Passei pelo corredor de cadeiras brancas tocando cada uma delas com saudades. A janela estava aberta, soprando um vento úmido e frio, e eu não sabia se estava arrepiada pelo frio ou por estar ali depois de tanto tempo.
Ryan estava começando com a sua banda, mas já abria todos os shows para o McFLY. Não por pedido meu, mas porque os estilos eram parecidos, e os fãs de McFLY adoravam a banda do meu irmão, a Inspiron. Ele voltara com a menina que deixara em Amsterdã, mais feliz que nunca.
E, a melhor notícia de todas. Michele, milagrosamente, havia saído do coma, passados dois anos do “incidente Katy Springs”, como nos referíamos àquela noite do baile. Ela ainda estava se reabilitando a andar sozinha, a comer sozinha, a praticamente a viver sozinha, mas depois que voltara do coma, Lanza era a pessoa mais feliz do mundo, principalmente depois que ela o perdoara.
Mas, e Katy Springs? O que acontecera com Katy Springs?
Nada.
Katy Springs sumira com o vento, e ninguém nunca mais soube nada sobre ela. Onde estaria, com quem estaria, o que estaria fazendo... Nada, absolutamente nada. O que realmente não me importava, mas seria divertido saber que algo muito ruim acontecera com ela, depois de tudo que havia feito para Lanza.
Ao chegar à última carteira, algo chamou minha atenção. Escrito com um canivete, as primeiras estrofes de 5 Colours In Her Hair quase desapareciam devido ao desgaste da mesa. Li a letra garranchuda de Lanza com um sorriso bobo nos lábios. Meu Deus! O ínicio da nossa juventude ali, marcado para sempre...
Curvei-me e vi que, ao lado da mesa, mais algumas coisas estavam escritas. Aproximei-me e imediatamente algumas lágrimas se formaram em meus olhos. Ali, ao lado da música, estava escrito, bem pequeno: ‘It’s all about you!’, ao lado de um pequeno coração com ‘Hackmann’ escrito no meio dele.
Senti minhas pernas amolecerem e cai na carteira ao lado. As lágrimas escorriam livremente pelo meu rosto, e eu fungava descontroladamente. Meu coração palpitava. Pude sentir como se meu amor por Lanza nunca fosse se estabilizar. Sempre seria uma gangorra, com altos e baixos.
Toc, toc, toc.
- Posso entrar? – ouvi aquela voz aveludada, tão conhecida, perguntar. Automaticamente parei de chorar, enxuguei as últimas lágrimas com as costas da mão direita e funguei mais um vez, puxando todo o ar que consegui antes de me virar. Eu podia ter me tornado uma ótima chorona, mas nunca daria o prazer a Lanza de me ver chorando por sua causa.
Lanza entrou na sala com as duas mãos nos bolsos da calça, como sempre fazia quando alguma coisa o incomodava. Seu cabelo caía nos olhos, mas ele não parecia se importar. Sua expressão era séria e ele andava vagarosamente em minha direção, dando tempo para eu me recompor. Mas não sei se seguraria as lágrimas por muito tempo.
Ele usava a roupa que eu tinha escolhido para ele antes de atender o celular. Calça jeans preta, pólo preta e branca um Puma preto de carmuça.
Em sete anos seu estilo mudara da água para o vinho. Se antes usava todas as cores do arco-íris nas roupas, agora era mais discreto. Se antes usava todas as roupas mais largas e um corte da cabelo bagunçado, agora comprava peças do seu tamanho e usava um corte certinho. Ele estava a cada dia mais bonito, perdendo o rosto infantil. Estava com cara de homem.
- Já entrou mesmo... – resmunguei, como toda boa menina mimada faria. Olhei para baixo, encarando meu cardigan azul-marinho. Segurava a manga comprida entre os dedos e minha saia xadrez teimava em ficar no meio da coxa, como sempre ficava quando eu sentava de pernas cruzadas. Mas, ao contrário de qualquer homem, Lanza olhava diretamente em meus olhos, e não para minhas pernas.
Ele sentou-se na carteira ao meu lado e começou a mexer na borda da mesa.
- É... – ele suspirou, cansado. – Parece que nós nunca vamos sair da adolescência mesmo...
Sorri, achando graça na desgraça.
- Juliet é a produtora de Do Ya – continuou, com certo pesar na voz. –, e só disse aquilo porque as gravações de ontem à noite foram ótimas. Mandou pedir desculpas se foi muito íntima e te mandou um beijo.
Hm... Opa?
- Eu já deveria saber que sempre que brigamos é por minha culpa... – murmurei, sentindo meu rosto corar.
Quem era o idiota mesmo?
- Quase sempre. – ele concordou, e nós dois sorrimos sem realmente querer sorrir. O clima era tenso, fazendo com que eu tivesse vontade de chorar cada vez que olhava para ele. Levantei o rosto e encarei seus olhos, que mantinham o mesmo brilho da juventude. Um nó se formou em minha garganta.
- Como você sabia que eu estava aqui? – perguntei, voltando a encarar a manga do meu cardigan. O nó estava cada vez mais apertado, e meus olhos ficavam úmidos.
- Eu não sabia. – ele respondeu, sincero, e a primeira lágrima escorreu. Queria levantar os olhos e encarar seu rosto, saber o que ele estava pensando, mas tinha medo de encontrar nada mais do que desprezo. – Eu saí para te procurar e passei em frente ao colégio. Algo me fez querer entrar.
Ficamos algum tempo em silêncio, ouvindo os passarinhos do lado de fora. Eu tentava segurar o choro, ou pelo menos tentava não fungar, abaixando cada vez mais o rosto. Não queria que ele me visse chorando, mas desconfiava que já era tarde demais.
Não sei por que, mas sentia como se ele fosse sair dali e nunca mais voltar, e isso me deixava muito angustiada. Mas eu não sabia o que falar! A burrada, mais uma vez, fora cometida por mim, e agora eu não achava um jeito de me desculpar...
- Lanza? – murmurei, depois de algum tempo. Tentava organizar em minha cabeça algo que o aliviasse. Se ele queria terminar, por que não ajudá-lo? – Às vezes você não sente que estaríamos melhor separados?
Foi a vez de Lanza sorrir de algo que não tinha graça.
Aquele sorriso torto que eu tanto amava.
Arrependi-me instantaneamente de ter dito aquilo. É claro que nós brigávamos, talvez até mais do que um casal normal, mas não era como se eu quisesse terminar como eu tinha dado a entender. Mesmo porque, depois de sete anos juntos, eu sabia que não conseguiria mais viver sem ele. Sempre tivera aquela certeza, desde o começo, e agora ela pulsava em minha mente, não me deixando esquecer.
Será que ele entenderia errado e nós acabaríamos por causa da minha língua grande?
Então ele abaixou os olhos ao mesmo tempo que eu levantei os meus. Mais uma lágrima escorreu, e a pele da minha bochecha ardeu. Lanza recomeçou a mexer na borda da carteira, como fazia quando ficava entediado na aula. Eu não conseguia saber o que ele estava pensando. Algo estava errado, e eu tinha medo de saber o quê.
E foi ali, na sua antiga sala de aula, que ele me disse as únicas palavras que eu tenho certeza que nunca vão sair da minha memória e do meu coração, mesmo que eu tente.
- Sim. Às vezes eu até chego a cogitar a hipótese de acabar tudo, como se estivesse reparando um erro que nunca deveria ter cometido. – ótimo, agora eu estava chorando como uma criancinha. Mas era como se a cada palavra que ele ia dizendo, um buraco se formasse em meu coração, como mil facadas. Lanza não parou ao me ouvir soluçar. Continuou a falar com os olhos baixos, mas agora sua voz tremia. – Você é exagerada, ciumenta, fútil, mimada, irônica, sarcástica e teimosa. Tira conclusões precipitadas de tudo e nunca ouve o outro lado. Nós estamos sempre brigando e você não sabe como isso é desgastante para mim, que só quero um pouco de sossego ao chegar em casa depois de um dia na correria... Pra falar a verdade, você tem o dom de me irritar. – funguei. Pronto, era agora que eu ia receber um chute bem dado na bunda. Nada melhor do que acabar tudo onde tudo havia começado.
Mas então, quando pensei que tudo estivesse perdido, Lanza entrelaçou nossas mãos e levantou o rosto. Uma lágrima escorreu dos seus olhos e ele sorriu, me fazendo sorrir junto automaticamente.
Ainda havia esperança?
- Mas, mais do que defeitos, você tem qualidades incríveis. – continuou, passando o dedão na minha bochecha e enxugando uma das muitas lágrimas que caíam. – Você é doce, companheira, linda, inteligente, sensível, carinhosa. Você transmite muita força, confiança, coragem. Nunca desiste dos seus objetivos... Sua confiança é palpável e sua personalidade é forte. Você é a menina mais engraçada do mundo e sempre consegue me fazer sorrir. Mas também sabe me fazer chorar, quando não está por perto, quando me magoa, ou simplesmente quando está distante. Eu fico perdido sem você, sem seus conselhos, sem sua presença... Fico apreensivo ao tomar qualquer atitude ao seu lado, pois como te conheço bem, sei que poderia ser irreversível. Quando você chega perto, mesmo depois de todos esses anos juntos, meu coração dispara, minhas pernas ficam moles e meu estômago se retrai. Eu sinto como se fosse explodir se não puder tocar você, abraçá-la, sentir seu cheiro. O efeito que você causa em mim é muito forte, é inexplicável. Tudo em você, Vic, absolutamente tudo, é apaixonante. É como se... – ele abaixou os olhos, corando. Eu estava sem reação. Não conseguia falar, não conseguia me mexer. Até as lágrimas haviam parado. – É como se você fosse a garota dos meus sonhos de adolescente. Mas sabe de uma coisa? – perguntou, levantando o rosto, com um brilho diferente nos olhos, como se estivesse acabado de tomar uma decisão. – O adolescente cresceu, assim como a garota dos seus sonhos. – meu coração se acelerou, e eu pensei que fosse sair pela boca. E posso jurar que senti ele chegar ao esôfago quando Lanza se ajoelhou em minha frente e pigarreou. Colocou uma das mãos no bolso e com a outra segurou minha mão esquerda entre os dedos. – Na verdade eu queria que isso fosse em algum lugar mais romântico, mas hoje, quando saí para te procurar, decidi que seria agora ou nunca. Eu não posso mais continuar sem saber se você realmente me ama do mesmo jeito que eu te amo. E, bom, nada melhor do que tudo acabar ou se concretizar onde tudo começou. – então ele tirou uma caixinha do bolso e a abriu na minha frente, revelando um anel de ouro branco com um diamante na ponta. – Victória Hackmann, quer se casar comigo?
- E-eu... – respirei fundo, e ele prendeu o ar. – Sim! – exclamei, ofegante. As lágrimas que recomeçaram a cair agora não eram mais de angústia e tristeza, e sim de alegria e êxtase. – Sim, sim, mil vezes sim! – gritei, levantando da carteira e me jogando em seus braços, para poder beijá-lo.
Nós não sabíamos se ríamos, se nos beijávamos ou se saíamos dali e íamos direto para um quarto. Nossos corações batiam freneticamente enquanto nos beijávamos com força, vontade, paixão, carinho.
Amor.
Meu corpo inteiro formigava. Uma alegria incrível me dominou por completo, e eu me entreguei àquele sentimento.
- Eu sei que posso ser um idiota às vezes, e sei que você é birrenta e teimosa. Mas eu quero continuar brigando com você pro resto da minha vida, porque eu sei que é isso que me faz feliz! – ele disse, me beijando por todo o rosto. – Eu te amo, Vic. – sussurrou em meu ouvido.
- Eu te amo, Lanza! – exclamei, beijando a ponta do seu nariz. – Meu Gossip Boy!
FIM.
Revista Fofoca
p. 5
Babado da Semana!
Pedro Gabriel Lanza Reis, vocalista da mundialmente famosa banda McFLY, 24 anos, e Victória Hackmann, advogada e sempre-sua-namorada, 23 anos, finalmente decidiram juntar os trapinhos e se casarem!
Num pedido – nada – romântico, na escola onde os dois passaram a juventude, Lanza se ajoelhou e pediu sua eterna patricinha em casamento, que, chorando, aceitou no mesmo instante, colocando o anel de ouro branco e um diamante na ponta em seu dedo trêmulo.
Por amor ou golpe do baú?
Nunca se sabe...
Nós aqui – menos a autora dessa reportagem –, da Revista Fofoca, desejamos tudo de bom para o casal! E que venham muitas fofocas e babados novos para nossa revista, afinal, nós vivemos disso!
E que eles, finalmente, possam ser felizes.
Até que a próxima groupie os separe!
Katy Springs, com o pseudônimo de Mary Anne.
N/A:
08/09/09 – “É só isso. Não tem mais jeito. Acabou! Boa sorte...”
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Capítulo 27 – O começo do fim.
Victória fala:
Eu não sei o que deu em mim. Porque, sério, que tipo de pessoa manda um cara escolher entre amor e sexo e se encaixa daquele jeito entre as pernas dele? Era de deixar qualquer um louco mesmo... Mas não posso mentir. Não sei se foi o efeito dos 3 drinks de absinto que tomei ou o episódio de mais cedo no quarto. Só sei que eu queria aquilo. E queria muito. Não sabia o que estava acontecendo comigo! Meu corpo formigava, meus músculos se contraíam, e eu só queria beijar Lanza e nada mais.
Ou quem sabe alguma coisa a mais...
Depois que ele me deixou ali sozinha e eu recobrei um pouco da minha coordenação motora que eu percebi o que tinha feito. Não tinha somente me insinuado para ele, mas tinha mexido com a sua cabeça. Se ele tinha tomado alguma decisão, naquele momento, enquanto eu colocava meu vestido, poderia ter mudado-a. Então eu percebi que tinha estragado as coisas. Ou melhorado-as. Não tinha como saber.
O jeito foi me levantar, ainda meio zonza, e procurar a saída daquele labirinto.
Às vezes a vida era mesmo engraçada...
Lanza fala:
- Lanza, onde você estava? Nós estamos te procurando há algumas décadas. – Koba perguntou, me encontrando sentando no sofá da sala, no meio de um monte de pessoas que eu não conhecia. Eu não estava conversando com ninguém, embora todos me olhassem com curiosidade. Na verdade, estava afudando na almofada, com uma garrafa de vodka na mão, olhando para o nada.
Era difícil se concentrar nos meus pensamentos quando todos estavam gritando na minha orelha sobre como aquela festa estava animal ou sobre como Ben havia se trancado no banheiro com três garotas. Mas eu meio que me desliguei de todo aquele barulho, só sentindo a batida da música. Olhando de fora eu deveria estar patético, mas olhando de dentro, a sensação era boa. Era bom nem sequer ouvir os problemas.
Olhei para cima e vi Koba parado, olhando para mim de um jeito engraçado.
- O que você tá fazendo aqui com essa cara de idiota? – ele gritou por cima das vozes e música, se abaixando para ouvir melhor minha resposta. Um pouco da sua cerveja caiu na minha calça jeans, mas ele não pareceu perceber. Contra minha vontade, abri a boca para responder.
- Estou... Refletindo.
- Então vamos refletir lá fora, a Vic tá passando mal. – ele pediu, virando as costas para mim. Quase que na mesma hora, me levantei e corri atrás dele, que se dirigia para a cozinha. Passei correndo pelas pessoas, mas esbarrei sem querer em alguém. A garota, que reconheci pelos peitos como sendo Katy Springs, sorriu de atravessado pra mim, e eu a ignorei. Continuamos a atravessar o corredor de pessoas e saímos para os jardins do fundo, quase deserto, exceto por Koba, Isadora, Pe Lu, Maria Eduarda, Thomas, Júlia e Victória, que parecia completamente sóbria e controlada, diferente da última vez que a vira.
- Ela não...? – sussurrei para Koba, apontando minha cabeça para Victória.
- Não. – ele respondeu, dando de ombros. – Me pediram pra te trazer aqui fora e eu sei que se falasse que ela estava passando mal você viria na hora.
- Seu desgraçado! – exclamei, agora próximo demais para voltar.
- Olha só quem resolveu aparecer. – Thomas exclamou, me dando um abraço apertado. – Lanza-medito-na-sala-Lanza Reis!
- Thomas? – chamei baixinho, sem ar. – Thomas? – de novo, e ele não me ouviu, um pouco bêbado demais. – THOMAS? – gritei, e ele finalmente me soltou.
- Desculpa, Lanza, esqueci que você é sensível. – ele deu de ombros, tomando um gole da sua cerveja.
As meninas conversavam entre sussurros, um pouco mais afastadas, mas eu tinha quase certeza que fofocavam sobre alguém. Já os dudes conversavam sobre o vídeo do Lemuri. [N/A: O vídeo mais engraçado do MUNDO! O bixinho fica na bad dude! http://www.youtube.com/watch?v=uF7EgcetIaI] Eu não conseguia olhar para Victória sem sentir meu rosto esquentar. E toda vez que passava meus olhos por ela, a via vermelha.
Podia entender. Eu ainda não havia terminado com Bella justamente porque ela liberava pra mim. E quando Victória decidiu fazer o mesmo, eu dei pra trás. Ela tinha todos os motivos para se sentir envergonhada na minha presença. Eu me sentiria. Porra, eu havia dado um fora legal nela. Como se eu não quisesse aquilo mais do que tudo no mundo!
E, na verdade, além de ela estar bêbada, eu não sabia exatamente porque tinha feito aquilo.
Ou sabia? Porque, bem, confesso que bem no fundo, eu estava com medo. Mas não conseguia admitir isso para mim mesmo. Medo? De ficar com a menina que eu gostava? Aquilo era muito estranho...
Então era oficial: eu precisava encher a cara.
Olhei em volta, à procura de uma garrafa de vodka abandonada. Não dei a mesma sorte.
- Vou voltar para pegar minha... Carteira. – anunciei para os guys, que agora imitavam o lemuri e riam sem parar.
- Não sabia que vodka tinha mudado de nome. – Pe Lu gritou para me provocar, mas eu só mostrei o dedo do meio enquanto caminhava para dentro da casa.
Como estava no jardim dos fundos, entrei pela porta que dava para a majestosa cozinha rústica. Logo que entrei, dei de cara com uma garrafa de Absolut pela metade.
- Isso! – comemorei sozinho, indo até a garrafa como se ela estivesse me puxando. – Vem pro papai! – murmurei, pegando a preciosa em minhas mãos.
- Falando sozinho, Lanza Reis? – uma voz de homem mafioso perguntou atrás de mim, mais próximo do que o permitido entre homens.
- Ai, porra! – soltei a garrafa no chão e me virei. Descobri que quem estava falando comigo era Marcus, e agora estávamos de frente um para o outro. E ele estava mais próximo do que imaginei.
Quando pensei que tudo estava perdido, ele se agachou e pegou a garrafa com refelxos ninjas, antes dela tocar o chão.
- Cacete, cara, você me deu um puta susto!
- Perdão. – ele sorriu, levantando-se e estendendo a garrafa para mim. Peguei-a com certa rapidez, desconfortável com sua proximidade. – Não quis te assustar.
- Tudo bem... – respondi, dando um passo para trás, encontrando a bancada de mármore da cozinha. Marcus deu um passo para frente, e agora eu não tinha mais para onde fugir. – Hm... – pigarreei, olhando para os dois lados. Uma gota de suor nervoso escorreu em minhas costas. Marcus não tirava os olhos da minha boca e eu queria sair dali.
Rápido.
Quero dizer, era bem estranho ter um cara olhando pra sua boca. Principalmente porque ele estava quase encostando em você. E vocês estavam sozinhos na cozinha. Ah, e ele era gay. Assumido.
- Vai beber essa garrafa sozinho? – perguntou, com um sorrisinho desprezível no rosto. Senti meu estômago se revirar, e pelo o que pude absorver das aulas de biologia, ele fazia movimentos peristálticos ao contrário.
Dude, aquilo estava mesmo acontecendo? Marcus estava mesmo dando em cima de mim na cara dura?
Eca!
- Era o plano. – respondi, me locomovendo lentamente para o lado. – Ou com os caras, mas eles são machos! – me ouvi dizer, não conseguindo mais parar de falar besteira. – Ou com uma garota. Ou quem sabe com várias garotas! Porque eu sou homem. E é isso que nós, homens, gostamos. Garotas. – um silêncio constrangedor se instalou. Pigarreei novamente, não sendo capaz de calar minha maldita boca. – Não é, amigão? – dei um soco com mais força que o necessário em seu ombro.
Ele riu.
- É uma pena... – suspirou teatralmente. – Se você não tivesse companhia, poderíamos beber juntos.
A essa altura, eu já estava na ponta da bancada, o mais longe possível dele.
- É... – concordei, sentindo náuseas só de pensar naquela possibilidade. – Bom, foi legal conversar com você. – estendi a mão e ele permaneceu estático, olhando para os meus dedos pálidos estendidos. Puxei o braço para ao longo do corpo, sem graça, segurando meu punho com a outra mão e indo para frente e para trás, procurando algo para dizer. Só consegui pronunciar um: - Falou.
Saí dali como um fantasma, branco de nojo, sentindo os olhos de Marcus me seguirem.
Aquilo, com certeza, fora a coisa mais estranha que já acontecera em toda minha vida.
Victória fala:
- Que horas são? – perguntei, deitando na grama molhada ao lado de Harry. Só eu e Maria Eduarda estávamos em pé, enquanto todos os outros estavam deitados. Lanza ainda não havia voltado de dentro da casa, então eu podia relaxar. Quero dizer, era bem chato ficar vermelha toda vez que olhava de relance para ele. Eu já estava me sentindo péssima depois do que tinha feito, e não precisva ficar me torturando, esperando Lanza voltar para me culpar mais um pouco. Então decidi me deitar.
- Quase 5:30. – Thomas respondeu, guardando o celular no bolso.
Respirei fundo, sentindo o aroma de pinho.
- Eu adoro essa hora. – murmurei. Todos permaneceram em silêncio, como um incentivo para continuar. Fechei os olhos e senti alguém se deitar do meu outro lado na grama molhada. Provavelmente era Maria Eduarda, então nem me dei ao trabalho de abrir os olhos. – A atmosfera fica úmida, o céu é escuro e claro ao mesmo tempo, as estrelas começam a desaparecer, mas mesmo assim ainda brilham... É como se estivéssemos no paraíso.
Thomas se remexeu ao meu lado, e Maria Eduarda estava imóvel do outro.
- Também gosto disso tudo. – Isadora disse na outra ponta. Todos os outros murmuraram um “é” em concordância, e eu pude jurar que ouvi a voz de Maria Eduarda ao lado de Thomas. Mas devia ser o efeito da bebida, que ainda não havia passado completamente.
- O melhor de tudo é que estamos com quem gostamos. Porque, de que adianta poder presenciar tudo isso e não poder compartilhar com os amigos? – Júlia disse.
- E com o namorado! – Koba reclamou, e ouvi ele e Isadora darem um selinho.
- Eu amo vocês! – exclamei, não me contendo. Fui recebida por uma série de “owns!” e tapinhas na cabeça. Mantive os olhos fechados, e Maria Eduarda segurou minha mão. Achei estranho; nunca havia reparado que sua mão era grande.
- Eu também te amo, Vic! – Pe Lu gritou do outro lado. – E você também, Duda!
- Eu te amo, Munhoz! – Maria Eduarda respondeu, mas não de onde pensei que responderia. Ela gritou isso do outro lado de Thomas.
Abri meus olhos num estalo.
Virei-me para o lado, e meus olhos não acreditavam no que viam. Ali, deitado de lado, de olhos fechados, Lanza segurava minha mão. Senti a mesma começar a suar. Abri minha boca para dizer algo, mas não consegui. Não queria estragar aquele momento. Poderia ser a última vez que daria as mãos para Lanza. Depois daquele churrasco, tudo iria mudar.
Deitei-me novamente, ainda espantada com aquilo.
Lanza não soltou minha mão.
- Eu também amo vocês. – ele murmurou, com a voz rouca.
Nos meus sonhos, ele continuaria, dizendo “e amo a Vic!”, assim como Pe Lu fizera. Então eu sorriria sozinha, com borboletas no estômago, e responderia, em um sussurro “Eu também te amo, Lanza Reis!”
Isso não aconteceu.
Mas eu sentia que algum dia aconteceria. E enquanto deixava minha mão mole em sua mão quente e grande, pensamentos de um futuro não muito longe passaram como um filme em minha cabeça.
Entrelacei meus dedos nos deles, que continuou imóvel.
Talvez a felicidade fosse mesmo formada de pequenos momentos...
Lanza fala:
Acordei com as costas molhadas. Não era pra menos. Dormir na grama molhada costumava, bem, molhar sua roupa. Meu pescoço doía e meus braços latejavam. Somente minha mão direita parecia estar [N/A: “Numa nova era...”] normal. Mais do que normal... Estava quente, devido os dedos de Victória entrelaçados aos meus.
Como algo tão banal, como dormir na grama de mãos dadas com alguém, podia ser tão gostoso?
A nuvem branca e espessa que cobria o Sol saiu preguiçosamente da frente dele, e os raios atingiram meu rosto. Franzi a testa e deixei meus olhos semi-abertos. De repente, meu celular começou a vibrar dentro do bolso. Demorei a assimilar que aquele barulho era do meu celular, e quando finalmente o peguei, uma chamada não atendida de Bella brilhava na tela. Primeiro, fechei-o para ver que horas eram, e tomei um susto ao ver que já se passavam das 14h. Olhei para o lado e todos pareciam dormir tranquilamente na grama, uns em cima dos outros. Só Victória parecia estar [N/A: “Numa nova era...” HAHAHA, parei, prometo!] afastada deles, com o ombro encostado no meu. Tinha um leve sorriso nos lábios, como se estivesse tramando um plano diabólico. Fiquei um bom tempo admirando-a, e só fui interrompido por meu celular, que voltava a tocar, agora na minha mão esquerda. Olhei no visor. “Bella cel”.
Merda!
Esperei um pouco, rezando para ele parar. Ele parou. Mas mal pude suspirar de alívio que ele recomeçou a vibrar.
Merda!
Não tinha saída...
Contra minha vontade, soltei nossas mãos e me levantei. No lugar do calor entre os dedos, senti frio.
Caminhei entre os corpos adormecidos no chão e fui para o outro lado. Desviei das muitas plantas que impediam minha visão, mas logo cheguei na frente da casa, onde algumas pessoas tiveram a mesma ideia e dormiram ali mesmo. Desisti de ir para a frente da casa e voltei, ficando entre as plantas, num canto escondido. Finalmente pude atender o telefone.
- Oi, amor! – exclamei, tentando parecer normal. – Tudo bom?
- Finalmente, eim Pedro Gabriel!? – ela esbravejou. – Você acha que eu não tenho mais o que fazer, né!?
- Desculpe, eu estava dormindo. – repliquei, mas não deixava de ser verdade.
- Enfim... Fiz reserva no Ritz para nós dois hoje à noite. Me pega às 20h?
- Ok.
- Ótimo! Estarei te esperando. – ela exclamou, sua voz ficando mais animada. – Até à noite! – então ela fez uma pausa, e eu sabia o que viria a seguir. Eu sabia, mas mesmo assim não fiz nada para impedi-la. – Eu te amo, viu!?
- E-eu... – gaguejei, ficando nervoso. Então a coisa saiu, antes que eu pudesse me dar conta da merda que estava fazendo. – Também te amo, Bella!
Desliguei, me sentindo mais uma vez péssimo. Mas eu simplesmente não conseguia magoá-la assim! Não podia simplesmente jogar na sua cara que eu estava com ela sem realmente gostar dela. Era algo indecente para mim. Eu preferia mentir a magoar alguém daquele jeito.
Ouvi um barulho atrás de mim, e me virei pelo reflexo. Victória estava parada ali, respirando fundo.
- Vic! – exclamei, feliz em vê-la. Mas ela não sorriu.
Há quanto tempo ela estaria ali, ouvindo a conversa?
- Você... – começou, apertando os punhos. – Não vale nada. Absolutamente NADA! Eu tenho nojo de você.
Quando ela se virou, eu estava tremendo da cabeça aos pés. Não conseguia mais me conter. Corri atrás dela e peguei seu braço, forçando-a a se virar. Ignorei seu “ai” e a segurei pela cintura.
- Escuta aqui, garota mimada, eu não tenho obrigação de fazer o que você manda! Se eu vou terminar ou não com a minha namorada é uma decisão minha! – nossos olhos queimavam de ódio, fixos uns nos outros. – Eu estou cansando dos seus joguinhos, cansado dessas brigas! Eu vou decidir o que EU quiser na hora em que EU quiser! Se depois disso você ainda estiver disposta a voltar pra mim e tentar de novo, ótimo! Se isso não acontecer, beleza, eu supero! Só não quero que você me manipule do jeito que vem fazendo! – soltei sua cintura, com medo de machucá-la, tamanho era meu ódio naquele momento. – Eu não quero mais tomar decisões porque acho que você vai gostar. Eu só quero... – respirei fundo, vendo seus olhos marejarem. – Só quero tomar decisões que eu acho boas pra mim. Só isso.
- Tudo bem, Lanza. – ela respondeu, respirando fundo. – Eu não vou mais te pressionar. Mas também... – ela parou, talvez pensando no que estava prestes a dizer. Mas então ela simplesmente disse. – Se eu não estiver mais te esperando no final de tudo, não me culpe. Não se culpe... Somente pense que o que nós tivemos foi a coisa mais especial do mundo, mas que as coisas não eram para ser... Sabe, acho que você vai ser pra sempre o meu primeiro e único amor... Mas pra tudo dar certo, nós temos que ter mais do que somente o amor. Nós temos que tentar, tentar e tentar de novo. E isso não é algo que nós estamos acostumados a fazer.
Ao acabar, seu rosto estava vermelho e contorcido numa careta esquisita.
Então ela se virou e caminhou com passos firmes para longe dali.
E eu caminhei com as pernas bambas até me apoiar na parede e escorrer até o chão. No começo pensei que fosse só loucura minha, mas quando percebi, estava chorando. Não chorando baixinho, mas chorando de soluçar. Meus ombros estavam pesados, minha língua enrolada. E eu só queria ficar ali para sempre, chorando. Não queria que ninguém me visse daquele jeito, mas era mais forte que eu. As lágrimas escorriam sem o meu consentimento. Eu estava mais triste do que nunca havia ficado antes. Era uma mistura de tristeza, raiva, amor, saudades... Por que eu tinha que ser tão imbecil!? Por que eu não podia simplesmente acabar com toda minha angústia!?
Uma lágrima salgada escorreu, terminando em meus lábios.
O que eu tinha feito?
Victória fala:
Um mês depois.
Depois daquele conversa, eu acordei Koba e fiz ele me levar de volta para casa. Não queria mais ficar ali, não conseguia mais ficar na presença de Lanza. Mas não podia prever que nada mais seria o mesmo, podia? Bem, não foi. Quero dizer, tudo meio que virou uma loucura nas nossas vidas. Naquela semana, nós entramos em provas, e as preparações para o baile começaram. O McFLY estava cada vez mais famoso, e cada vez mais presos no estúdio ou na gravadora. Então estávamos todos malucos, de um lado para o outro. Agora Agosto estava acabando, e primeiro de Setembro se aproximava. Nas poucas vezes que via Lanza, ele estava inquieto e agitado, provavelmente nervoso, querendo saber quem poderia ser o ou a Gossip que estava querendo destruir sua vida e carreira. Bom, se eu fosse ele estaria preocupada também. Quero dizer, não era todo dia que alguém ameaçava acabar com sua carreira, que você tanto lutou para construir.
E, por falar em Gossip, esse ou essa não tinha mais dado o ar da graça. Desde a última foto e a dica do baile, havia desaparecido. A escola inteira estava oriçada, querendo saber quem era, pra quem ele dava aquelas pistas e o que iria acontecer no baile de primeiro de setembro. Até os nerds, que nunca iam a esses bailes, pretendiam ir, para ver o babado do ano.
Se ele ou ela queria causar polêmica, bem, estava conseguindo.
Meu pai não tentara mais se aproximar, e toda vez que via Ryan nos corredores, mudava de direção.
E assim caminhava a humanidade.
OK, a quem eu estou tentando enganar? Eu estava morrendo de medo das coisas terminarem daquele jeito! Você sabe como. Mornas, esquecidas, com os assuntos mal resolvidos. Porque eu queria muito fazer as pazes com a minha família. Queria muito ser amiga dos meninos para sempre, e que eles nunca se esquecessem de mim, pois já eram parte da minha família! Queria poder ir ao baile com alguém que gostasse, e não Josh, que havia me convidado uma semana antes. Queria saber logo quem era o ou a Gossip para poder gritar em sua orelha todos os palavrões que eu estava guardando na garganta. E queria, mais do que tudo, que Lanza terminasse com Bella e ficasse comigo de uma vez por todas.
Prontofalei.
- Victória, você está ao menos me ouvindo? – Maria Eduarda perguntou, estalando o dedo no meu rosto. Pisquei os olhos, atordoada. Ela estava falando sobre algum vestido que havia visto em alguma loja e que estava louca para ir com ele no baile. Quando começou a falar sobre as alças dele eu comecei a viajar. Agora voltava a vida. – Porra, você está muito esquisita essas dias! O que aconteceu!?
Sorri vagamente.
- Não... – murmurei, e ela me olhou, confusa. – Eu não estava te ouvindo.
Lanza fala:
- Lanza! Ensaio em meia hora. Fedelso está esperando no estúdio, vou agora pra ver algumas coisas antes. Não demora. – Harry gritou do andar debaixo. Ignorei, ainda olhando fixamente para a tela do computador. Pela primeira vez em toda a história do blog, uma foto minha com Victória. Só nossa. Sem mais ninguém para estragar.
Era a foto mais legal que eu já tinha visto.
Na verdade, quem tirou a foto, focalizou nossos ombros encostados e nossas mãos cruzadas enquanto dormíamos. Era como se a pessoa estivesse torcendo pela nossa felicidade, como se ela pudesse sentir que sim, o que nós sentíamos um pelo outro era amor. Aquela foto era simples, bonita e, o melhor de tudo, nossa.
Bom dia minhas jurupingas!
Hoje venho com uma notícia ruim e uma notícia boa. A notícia ruim é que esse pode ser meu último post. Mas vejam bem, PODE ser. Porque se meu querido não descobrir quem eu sou, esse blog terá longa vida! Haha. Bom, a notícia boa é que eu vou estar no baile! Sim, meus queridos, vocês vão poder me ver de fraque preto e gravata na testa ou vestido curto mostrando as coxas torneadas. Então, quem eu sou!? Homem ou mulher? Alto(a) ou baixo(a)? Gordo(a) ou magro(a)? Peituda ou gostoso? Vocês vão saber isso esse fim de semana! Não é emocionante? Então rezem para que ‘o escolhido’ descubra quem eu sou. Se não, bye bye revelação bombástica!
Bom, se tudo acabar aqui, preciso me despedir, certo? Então... Foi um ótimo ano, cheio de emoções, intrigas e fofocas no Colégio Norbert. Sempre adorei uma fofoca, e posso dizer que esse ano vai entrar pra história! 2005 foi O ano. Restart surgiu, as Megeras vieram para o lado negro da força, muitos namoros, rolos, fotos e festas. Ah, as festas... Nunca vou me esquecer, de nenhuma delas! Resumindo tudo: foi o melhor ano de nossas vidas. Agradeço especialmente Maria Eduarda, Pe Lu, Júlia, Thomas, Isadora, Koba e, claro, Victória e Lanza. Vocês me proporcionaram o ano mais louco da minha vida, e agora eu sei o que quero fazer da minha vida. Ser jornalista investigativo(a)!
Acho que é só isso. Sei que o post ficou pequeno, mas na vedade estou contando com a não descoberta. Quero dizer, acho que ninguém nunca desconfiou da minha pessoa.
Fico por aqui, e deixo um beijo para todos!
E se eu não vê-los novamente...
...Beijomeliga!
E vocês já sabem: “You can always google it!”
P.s.: Lanza e Vic na foto. Se não fosse uma foto tão carregada de segredos, poderia ser bonita, não acham?
P.s.2: Hey, você. Você mesmo. Ansioso pra me conhecer?
- Lanza, estou indo. – Koba bateu na porta aberta. – Vem comigo?
- Sim. – murmurei, fechando o laptop.
Aquela foi a despedida silenciosa do Conte Seu Babado.
Victória fala:
Pra cima, pra baixo. Pra cima, pra baixo. Pra cima, pra baixo. Pra cima, pra ba...
Toc toc toc.
Ignorei.
Pra cima, pra baixo. Pra cima, pra baixo. Pra cima, pra baixo. Pra ci...
Toc toc toc, TOC!
“Merda!”
Deixei a caixinha de fósforo que estava jogando para cima de lado, e fiz um esforço imenso para me levantar do sofá. Estava sozinha em casa, pois os meninos haviam saído mais cedo para ensaiar. Caminhando lentamente para a porta, me lembrei que vi Lanza pela primeira vez na semana inteira saindo de casa com Koba. Nós não nos falávamos desde o churrasco, e eu pensei que assim continuaria. Mas antes de sair, ele me olhou, deitada no sofá, e murmurou: ‘Tchau, Vic!’. Eu não respondi, mas estaria mentido se dissesse que não passei a tarde inteira revivendo aquela cena. E agora alguém estava ali, atrapalhando minhas ilusões.
Girei a maçaneta.
Sabe quando você espera TUDO, menos o que acontece a seguir, e seu queixo cai involuntariamente? Então, foi o que aconteceu quando eu vi Ryan parado na minha porta, segurando-a, para que eu não a fechasse. Não que eu fosse fazer isso. Eu meio que fiquei sem reação.
- Oi. – ele ofegou, como se tivesse vindo correndo. – Oi, Victória.
- Hm. – murmurei, colocando a mão na cintura. – O que... O que você está fazendo aqui!?
- Posso entrar? – perguntou, ignorando minha pergunta. Sem que eu pudesse responder, ele entrou em casa. Mas estava sem sua arrogância de sempre. – Podemos conversar?
Acho que eu estava atordoada demais para negar, e a próxima coisa que eu vi foi Ryan sentando-se no sofá e pegando um maço de cartas da mochila.
Fiquei ali, olhando para ele abobalhada.
- Eu... O que... Você... – gaguejava, enquanto ele fingia não me ouvir, abrindo uma das cartas. Respirei fundo. – O que exatamente você quer comigo, Ryan?
Ele somente respirou fundo e começou a ler a carta.
- “Amsterdã, 18 de Agosto de 1997 – 15:57, meu novo quarto.
Oi, maninha, tudo bom!?
Papai me disse para eu te escrever. Ele disse que ele e a mamãe brigaram, porque ele queria mudar pra cá e a mamãe não quis! Então ele me trouxe com ele, porque ‘homens tem que ficar juntos’. Mas tudo bem, aqui é bem legal! A única coisa ruim é que eu vou ficar sem você... Mas o papai me prometeu que nós vamos nos ver todos os meses! Não é legal!?
Chegamos aqui ontem. Você precisa ver nossa casa nova! Ela é gigante, e tem um campo de futebol! Mal posso esperar para você vir aqui jogar artilheiro comigo! Tenho certeza que ainda te dou uma surra!
Eu não entendo a língua que falam aqui, mas papai disse que eu vou fazer amigos na escola nova e vou aprender. Mas eu não quero amigos novos. Eu quero jogar bola com Mike e Timmy! Mas tudo bem, eu já mandei uma carta para eles também.
Opa, preciso ir! Acho que papai botou fogo no terno novo!
Um beijo!
P.s.: Papai está te mandando um beijo!
P.s.2: Mal posso esperar a hora de te mostrar nossa cozinha! Do jeito que você é gorda, vai adorar!”
Minhas pernas tremiam. Ryan pegou outra carta e começou a ler, com a voz trêmula.
- “Amsterdã, 27 de Outubro de 1998 – 20:03, quarto do papai.
Você ainda não me respondeu, mas tudo bem, você deve estar ocupada, mas, bom faz mais de um ano. Gostaria de ouvir como você está. Estou com saudades, maninha!
Papai me disse que você e mamãe saíram de féria. Isso é verdade? Espero que vocês estejam se divertindo! Aqui está tudo bem. Meus amigos iam fazer uma festa surpresa pra mim, mas eu descobri, então agora nós só vamos jogar paintball e comer pizza na casa da Sharon – já falei dela em outras cartas. Acho que ela gosta de mim. Semana que vem eu vou ver ela na casa do Brian. O que eu posso usar? Me ajuda, maninha, preciso de suas dicas femininas para isso!
Queria que você me respondesse logo, maninha. Estou morrendo sem você aqui! Com quem mais eu posso atacar a geladeira às 3 a.m.?
Um beijo!
P.s.: Papai está mandando um presente pra você. Não vou dizer o que é, mas acho que você vai adorar!”
- Ryan... – minha voz falhou, e enquanto ele abriu o penúltimo envelope do bolo. – Ryan, eu... – lágrimas se formaram embaixo dos seus olhos, e um nó se formou em minha garganta.
- “Amsterdã, 11 de Abril de 2004 – 00:23, garagem.
Qual o sentido disso tudo? Sério, Victória, por que você não respondeu NENHUMA das minhas cartas? Quero dizer, vocês mudaram o telefone, não atendem o celular, não respondem e-mails e muito menos cartas. Porra, nós vivemos, em média, 80 anos. Por que desperdiçar 7 anos sem falar com quem mais se ama? Eu sinto sua falta e da mamãe, Victória. Eu só queria saber se vocês estão vivas... Porra, eu escrevo pra vocês todas as merdas dos meses há 7 anos. 7 ANOS, ! Tem ideia de como isso é desgastante? Eu só consigo pensar em você, me perguntar se você está bem, se está se alimentando bem, se mamãe está feliz, se vocês estão precisando de dinheiro, se algum canalha está te magoando... Por que diabos vocês não respondem, eim!? Eu sei que o endereço é o mesmo. Mike me disse que vocês ainda moram aí. Ele se ofereceu para ir até aí, mas eu não quero que vocês se lembrem da família por um estranho.
Isso tudo não foi uma escolha minha, sabe? Agora que estou mais velho eu entendo. Nossos pais não se amavam mais. Eles não estavam mais felizes juntos. Tudo isso foi melhor para eles. Então por que nós simplesmente esquecemos que nossos velhos existem e você volta a ser minha irmã e melhor amiga? Porque, sinceramente, eu estou definhando sem você. Meus amigos estão começando a achar que eu estou em depressão, e Sharon, minha namorada caso você não saiba, está ‘preocupada com minha saúde mental’. Então vê se me responde, se não quer ver seu irmão caminhar para o fundo do poço.
Um beijo,
Ryan.”
- Pára com isso. – pedi, baixinho. Mas ele já abria a última carta do maço, sem se importar comigo. Agora ele chorava, soluçando entre as palavras, e as lágrimas dos meus olhos caíam pelo meu rosto.
- “Amsterdã, 15 de Maio – 8:45, sala de embarque.
É isso. Estamos voltando. E é melhor você ter uma ótima explicação para toda essa palhaçada. Eu passei 8 anos sem você, mas não vou admitir que você não me explique toda essa raiva idiota.
Você sabe como eu sou péssimo sem palavras, mas eu não saio daí sem algumas respostas.
Até mais,
Ryan.”
Ele jogou essa última carta no chão, enterrando o rosto nas mãos, soluçando e balançando os ombros. Eu também chorava, silenciosamente.
Andei até o sofá onde ele estava, com uma força maior que eu me impulsionando. Sentei ao seu lado. Por um instante, fiquei ali, chorando. Depois, não aguentei. Envolvi seu ombro com meus braços e afundei a cabeça com força em seu pescoço. Então ele se virou e me abraçou, enterrando minha cabeça em seu peito. Agarrou minha camiseta com força e me pressionou contra seu corpo, tremendo freneticamente. Era um sentimento incrível. Há quanto tempo nós dois queríamos fazer aquilo? Oito anos! Oito solitários anos sem meu irmão acabavam ali.
Como eu consegui ficar longe dele tanto tempo?
- Eu escrevi, Victória! Eu escrevi todo esse tempo! Me perdoa, por favor, me perdoa! – ele chorava, me apertando contra seu corpo.
- Eu não sabia! – exclamei, soluçando. – Eu nunca soube! Se eu soubesse, teria te escrevido, Ryan! Você sabe disso, não sabe!? – perguntei, e ele afirmou com a cabeça encaixada em meu ombro. – Eu te perdoo, claro que eu te perdoo! Eu senti tanto a sua falta, Ryan!
- Eu te amo, maninha! – ele sussurrou.
- Eu também te amo, maninho! – exclamei, sem me soltar dele. Ficamos abraçados um bom tempo, chorando. Era daquilo que precisávamos para nos perdoar.
Finalmente tudo estava bem entre nós dois.
Capítulo 28 – Chegou a hora de recomeçar.
Victória fala:
- Nunca pensei que ela poderia ser capaz disso. – murmurei, ainda aninhada nos braços do meu irmão, que acariciava meu cabelo. – Quero dizer, eu confiei nela a minha vida inteira, e ela escondeu de mim a única coisa que me manteria ligada ao meu próprio irmão!
- Eu também pensava assim, Vic. – ele disse, sereno como sempre fora. – Cheguei a pensar que ela não me queria mais, que ela não queria que eu fosse seu filho. Mas nós também temos que entender o seu lado! Eles não se amavam mais, e viviam brigando. Você não deve se lembrar, nunca estava em casa quando eles brigavam. Mas eu me lembro. Eu ouvia e via tudo, Victória, e, se para aquele inferno acabar foram necessárias medidas drásticas, era melhor para eles e para nós também! – ele suspirou. – O seu único erro foi tentar nos separar também, como se nossa família fosse feita de lados.
- E papai? – perguntei, me sentindo mal por tê-lo tratado tão mal. – Onde ele está?
- Teve que voltar para Amsterdã. Eu estou hospedado em um hotel no centro. Ele me pediu para dizer a você, se eu conseguisse, claro, que ainda a ama muito, como nunca deixou de amar. E disse que semana que vem ele volta pra esclarecer toda essa história com você e com a mamãe.
Ficamos algum tempo em silêncio, como nos velhos tempos, quando, depois de brigar, pedíamos desculpas um ao outro e ficávamos quietos, como se quiséssemos ter certeza que a briga havia acabado.
- É bom ter você de volta, maninho. – disse, sorrindo sem perceber.
- É ótimo ter você de novo, maninha. – ele concordou, dando um peteleco no meu nariz. – Mas e aí, quer ver se ainda pode me derrotar no vídeogame?
- Como se algum dia você fosse me vencer! – exclamei, pulando do sofá e ligando o vídeogame de Koba.
Era bom ter o meu irmão de volta.
Lanza fala:
Abri a porta sem fazer barulho. Pensei que àquela hora, Victória não estaria mais na sala. Mas me enganei, ao esbarrar nela, que estava deitada no sofá assistindo desenho animado. As imagens coloridas da Tv faziam seu cabelo mudar de cor, e isso era meio que engraçado.
- Desculpe. – murmurei, e não obtive resposta, o que era estranho. Ela geralmente teria me xingado. – Victória? – olhei para baixo, curioso. Ela dormia tranquilamente.
Depois do ensaio, eu fora para o apartamento de Bella. Passei o dia e a noite lá, fazendo você sabe o quê. Agora estava voltando, e me sentia igual ou até mesmo pior do que antes de sair. Eu estava vazio.
Nos últimos dias estava me sentindo assim. Era como se toda minha felicidade estivesse guardada em algum lugar, ou... Em alguém.
Olhei para Victória, desfalecida no sofá, e uma onda de calor invadiu meu corpo. Sentei-me ao seu lado, tomando cuidado para não acordá-la. Ela dormia profundamente, respirando pela boca semi-aberta, com algumas mechas de cabelo no rosto. Afastei os fios com os dedos, sentindo sua pele quente em meus dedos. Ela se revirou, encostando o braço em meu joelho.
Só com a simples visão dela dormindo, o sangue voltava a circular pelo meu corpo.
Já estava na hora de dar um basta naquela história. E depois de tanto tempo perdido, depois de tanto pensar e sofrer, depois de bater na mesma tecla por meses, foi ali, sem mais nem menos, que tomei minha decisão.
No dia seguinte.
Acordei de bom humor. Era quinta-feira, e sábado era o grande baile. Não tinha a mínima ideia de quem era o/a Gossip, mas eu não me importava. A única coisa que eu queria era acabar com o que eu nunca deveria ter começado. Se as ameaças do(a) Gossip iam se tornar verdade ou não, eu não me importava mais.
Abri a janela e o Sol nascia.
Sabe, a única coisa boa de acordar cedo era ver o céu se transformar de azul escuro para laranja claro, como se alguém pegasse um pincel e mudasse as cores de um quadro de acordo com o seu humor.
Alguém bateu na porta.
- Lanza, 5 minutos. – Pe Lu grunhiu, sonolento.
- Tudo bem, Pe Lu, eu não vou para o colégio hoje. – respondi, tirando meu pijama pela cabeça. – Pede desculpas para os meninos do time, mas não vou poder jogar bola hoje.
- Tá. – murmurou, com sono demais para saber o motivo da minha ausência.
Envolvi uma toalha na cintura e estava prestes a entrar no banheiro quando Victória entrou correndo no meu quarto.
- Lanza! – ofegou. – Você viu meu uniforme? Já procurei pela casa inteira e não acho, e tenho prova na primeira aula!
Ela estava com o cabelo molhando e uma toalha enrolada em volta do corpo, assim como eu. Mas no seu caso, já havia tomado banho.
Minha boca se abriu em um sorriso maroto e ela ficou vermelha.
- A última vez que eu vi estava no quarto do Koba, em cima da caixa de pizza. – respondi, sem tirar os olhos das suas pernas.
- Valeu. – ela murmurou, envergonhada, e se virou para sair do quarto.
- Vic!? – a chamei, e ela parou de costas para mim. Respirei fundo. – Você ainda está disposta a me aceitar de volta?
Ela hesitou por um momento.
- Talvez. – respondeu, saindo apressada.
Bom, aquele era um risco que eu precisava correr.
Depois de tomar banho e café, me vi dirigindo para o centro com a Eco de Pe Lu. Parei em frente a um luxuoso apartamento, rodeado de peruas passeando com seus totós. Estacionei o carro e fui até a portaria, enquanto algumas pré-adolescentes se cutucavam e apontavam pra mim. Aquilo estava ficando constante, mas eu não me importava. Era até divertido ver que as pessoas me reconheciam na rua. Quero dizer, era tudo o que eu mais queria, certo? Era com o que eu sonhei a vida inteira. Fama, reconhecimento, dinheiro e rock ‘n roll.
- Bom dia, sr. Lanza Reis! – Andrey, o simpático porteiro de, no máximo, 20 anos, me cumprimentou.
- Pelo amor de Deus, Andy! – exclamei, cumprimentando-o com um "toca aí". – Por que quando saímos fim de semana passado você só me chamou de "viadinho" e aqui me chama com o nome do meu pai?
Andrey se curvou, sussurrando:
- Se eu te chamar de "viadinho" aqui, perco meu emprego. Mesmo porque, estou pegando uma garota da sua sala, e preciso ter grana pra sair com ela. Acho que você sabe quem é, uma peituda...
- Lanza! – Bella piou, da porta automática, interrompendo nossa conversa. Andrey me olhou com malícia e voltou à pose de porteiro simpático, cumprimentando um casal de velhinhos que entrava de mãos dadas. – O que está fazendo aqui!?
- Eu preciso falar com você. – disse, com naturalidade. Ela sorriu e pegou minha mão, me puxando para dentro do prédio. Sua mão na minha minha mão era como se eu estivesse segurando mármore, e não me causava sensação nenhuma.
Logo que entramos no hall, ela me empurrou para as escadas escuras e vazias, e prensou seu corpo contra o meu.
- Já está com saudades, amor? – perguntou, aproximando seus lábios dos meus.
- Na verdade, Bella... – disse, afastando seu corpo. – É exatamente sobre isso que precisamos conversar.
Sua expressão mudou de luxúria para confusão. Ela colocou a mão na cintura, jogando os cabelos negros para trás, me fitando com os olhos verdes.
- Bom... – murmurei, procurando um jeito de fazer aquilo parecer o certo para nós dois, mesmo sabendo que isso era impossível. Ela não acharia aquilo certo nem em mil anos. – Eu não sei se isso está dando certo... Quero dizer, eu não acho que a melhor coisa seria continuar com isso. Nosso... Nosso namoro, quero dizer. Eu não sinto mais o que costumava sentir. – terminei, olhando fixamente em seus olhos, que ficaram frios.
- Resumindo tudo: você está terminando comigo? – perguntou, sem expressão.
- Hm... – murmurei, pensativo. – Sim. É isso aí.
- M-mas... – ela gaguejou, dando um passo para trás. – E todo aquele papo de que me amava? Era tudo mentira?
- Pra falar a verdade, Bella, eu pensei que te amava. – disse, agora sentindo raiva por ter perdido tanto tempo com alguém que nem sequer gostava. – Mas estava enganado. Amar não é dar uma rapidinha no banheiro do seu apartamento. Amar é... Sentir saudades da pessoa, pensar nela quando tudo parece estar desmoronando à sua volta, é sentir-se... Feliz quando pensa na pessoa e, simplesmente, amá-la. E eu, sinceramente, nunca me senti assim com você. – seus olhos se encheram de lágrimas, mas isso não poderia me vencer. Não mais. – Me desculpe se estou sendo rude, mas só queria esclarecer as coisas. Você é linda, sei que vai achar alguém que a ame de verdade. Mas esse alguém não sou eu.
- Victória tem alguma coisa a ver com isso, não é? – perguntou, como se não conseguisse mais segurar a pergunta dentro da boca.
Fiquei um pouco em silêncio, refletindo se contava a verdade ou não.
Mas pra quê continuar escondendo o que ela já sabia que era verdade?
- Sim.
- Você é um canalha, Lanza Reis. – ela cuspiu essa frase.
- Eu sei. – dei de ombros. – Mas não vou ser mais.
Passei por ela, que ficou com uma expressão de "não acredito que ele está me dispensando" no rosto. Mas eu não me importava mais. Quero dizer, eu nunca gostara dela mesmo.
Saí para a portaria, onde alguns jovens se reuniam e riam, como amigos que não se viam há muito tempo.
Pensei que aquela história já estava resolvida. Que, finalmente, eu estava livre.
Mas parece que algumas pessoas não conseguiam perder.
- Lanza! – Bella gritou, da porta automática. Virei-me lentamente, já sentindo vergonha alheia por ela, pois todos os jovens olhavam para nós dois. – Pára com isso! Você não gosta daquele protótipo de gente! Ela é uma mesquinha, metidinha e patricinha. Eu sou uma mulher, ela é uma criança! Como você pode trocar tudo o que tem por uma zé ninguém?
- Não fala assim dela se não quiser se arrepender depois. – a avisei, mas ela não me ouviu.
- Ela é uma imbecil que nem sabe tomar banho sozinha ainda. Pelo amor de Deus! – exclamou, passando as mãos pelo cabelo sedoso, como uma lunática. – Olha quem você está trocando por uma nojentinha...
- ISABELLA! – girtei, e ela parou. Agora os jovens se cutucavam e algumas senhoras pararam do lado de fora do prédio para ouvir. Andrey, que ouvia tudo com a boca aberta, agora sorria. – Dá pra parar com isso? Não adianta! Você pode ofender a menina que eu amo o quanto você quiser, mas você NUNCA vai se comparar a ela! Você é uma fácil, uma mentirosa, e ela é maravilhosa, doce, sincera, carinhosa. Eu não posso nem colocar as duas na mesma frase que me sinto um idiota por fazê-lo. Agora eu vejo que nunca deveria ter posto meus olhos em você. Você só ferrou com tudo, com seus joguinhos e ciuminhos! Felizmente eu estou arrumando as coisas, antes que seja tarde demais. E se, e escuta muito bem o que eu vou dizer agora, se Victória não me quiser mais depois de tudo isso, pode apostar que você vai se arrepender de ter nascido. E quer saber de uma coisa? – perguntei, e ela balançou a cabeça, prepotente. O que eu falei foi cruel, mas eu não conseguia me conter. Não depois de ter ouvido tudo que ela falara sobre Victória. – Você é péssima na cama. E sim, suas pernas são feias e você está engordando.
"Huuuuuu!" ouvi alguns caras exclamarem, e as meninas começaram a rir. Andrey, para não perder o emprego de tanto rir, se enfiou de volta na cabine, e as velhinhas se olhavam, surpresas com aquilo.
Bella ficou sem reação. Abriu a boca e a fechou várias vezes. Depois saiu correndo para dentro do prédio, humilhada demais para continuar ali.
Aquele fora meu último ato de canalhice.
Ou o último que eu me lembro agora...
Victória fala:
Sexta-feira. Um dia para o baile. Um dia para todos descobrirmos quem era a pessoa que atazanou nossas vidas o ano inteiro. Um dia depois de descobrir que a vida inteira eu pensava que os traidores eram meu pai e meu irmão, mas, na verdade, era minha mãe. Um dia depois de contar toda a adolescência ao irmão mais velho, sentados em um sofá velho.
O que fazer nessa sexta-feira, depois do ensaio de Cheerleader?
Compras!
As meninas queriam ir comigo, mas eu queria escolher meu vestido sozinha. Sabe como é, se eu iria sozinha – não aceitara ir com Josh –, tinha que surpreender a todos!
- Posso ajudá-la? – a voz rouca da vendedora da Bloomingdale’s me tirou dos pensamentos.
- Acho que sim... – mordi o lábio, pensativa. – Preciso de um vestido que faça todas as pessoas da minha escola babarem.
- Hm... – ela me analisou de cima a baixo. – Acho que eu tenho a coisa certa pra você! A coleção de vestidos para noite da Vera Wang acabou de chegar, e está de arrasar! Ah, e sim, claro, temos os Dior da coleção passada, que continuam deslumbrantes e com desconto de 50%!
Vera Wang? Dior? Aquilo estava ficando interessante...
Mais tarde.
- Foi uma ótima escolha, Vic! – Joanne, a vendedora super simpática, entregou minha sacola forrada de papel seda e sorriu. – Você vai arrasar! Essa cor combina muito com seu tom de pele!
- Obrigada, Joanne! – respondi, pegando meu vestido e saindo da loja.
Já estava escurecendo, e meu estômago começava a roncar mais alto do que deveria. Quando entrei na loja, o sol ainda brilhava no alto. Era incrível como eu podia perder tanto tempo só para escolher um pedaço de pano que iria cobrir meu corpo por algumas horas. Mas, bem, essa era eu, certo!?
Subi as escadas rolante, praticamente me arrastando para a praça de alimentação. Logo que subi, o letreiro brilhoso do Burguer King me chamou a atenção. Fui até a fila, salivando. Chegando lá, percebi que uma das mulheres da fila me encarava. Levantei meus olhos famintos, e vi Bella parada na minha frente.
- Olha só! – ela exclamou, mais alto que o necessário, fazendo algumas pessoas da fila se virarem para nós duas. – Veio esfregar na minha cara que ganhou, Victória?
- Ganhei o quê? – perguntei, nem conseguindo ser rude devido aos roncos estrondosos do meu estômago. Coloquei uma mão por cima dele, como se pudesse acalmá-lo.
- Sabe, foi golpe baixo. – ela falou, pousando as duas mãos na cintura. Agora os atendentes do Burguer King nos olhavam também, enquanto ela falava com a voz estridente e aguda. – Quando eu fiquei com Lanza, ele não estava com você nem com ninguém. Ele simplesmente veio atrás de mim. Agora você vem e tira o meu namorado embaixo do meu nariz!? – seus olhos ficaram grandes de raiva. – Eu deveria saber o que ninfetas como você fazem com caras como Lanza. Mas acho que eu estava cega demais para ver...
- Eu juro que não sei do que porra você está falando. – sussurrei, e meu estômago fez um 360. Estava vermelha de vergonha porque todos nos olhavam curiosos e morta de fome, de modo que aquela conversa não daria numa coisa boa se não saíssemos dali e se eu não estivesse devidamente alimentada.
- Ainda não ficou sabendo então!? – perguntou, arrogante. – Pensei que agora vocês dois estivessem em casa, rindo da minha cara.
- Do que!? Do que eu não fiquei sabendo!? – gritei, perdendo a paciência. Já que o circo estava armado, não tinha porquê tentar acalmá-lo.
- Olha, quer saber de uma coisa? – ela perguntou, arrumando sua bolsa no ombro e falando baixo. – Não me importa mais. Faça bom proveito. Ele é todo seu. Sua barraqueira. – ela passou do meu lado, trombando seus ombros nos meus. Mas antes de ir embora, se virou com um olhar malicioso, e disse, alto o suficiente para todos ouvirem: - E, caso queira mesmo saber, ele faz de meias.
Então ela sumiu, me deixando ali, com um ponto de interrogação na testa e todas as pessoas em volta me olhando como se eu fosse uma depravada ladra de namorados.
Lanza fala:
Entrei em casa com dificuldade, pois minhas mãos suavam. Viera o caminho inteiro ensaiando o que iria dizer para Victória quando chegasse, e agora esquecera tudo. Só sabia que tinha algo a ver com "é você que eu quero". Tudo estava bagunçado na minha cabeça, e eu só queria encontrá-la, para ter certeza que fizera a escolha certa.
Eu tinha certeza que sim, mas mesmo assim precisava vê-la.
Estranhei que tudo estava silencioso, mas me lembrei que os meninos foram jogar futebol, então podia fazer algo que iria facilitar meu trabalho de procurar Victória pela casa, já que nenhum deles estava por ali para ouvir.
- Vic!? – gritei pela sala.
Não ouvi resposta.
- Victória!? Tá aí!? – gritei escada acima.
Silêncio.
Frustrado, fui até a cozinha, peguei uma latinha de cerveja na geladeira e voltei para a sala, me esborrachando no sofá e ligando a Tv.
Nada como esperar o amor da vida chegar em casa para você avisar a ela que está disposto a largar tudo pra ficarem juntos assistindo Everybody Hates Chris.
Not.
Victória fala:
Eu caminhava tranquilamente pela rua. As coisas pareciam melhores agora que eu e Ryan éramos amigos de novo. Na escola, mais cedo, ficamos juntos no intervalo, e eu expliquei toda a história para as meninas. Agora Ryan era nosso mais novo bff. Era engraçado como um cara com a aparência tão machona podia ser tão engraçado e divertido. Ele nos contou as histórias mais engraçadas e malucas sobre Amsterdã e preciso dizer que depois de ouvir todos os relatos, acho que tenho medo de ir para lá.
Nem via por onde estava indo. Apesar de estar escuro, eu conhecia tanto aquelas ruas que meus pés me guiavam enquanto meu cérebro pensava em outra coisa. Era incrível ver que, em 15 anos, aquele lugar não havia mudado nada. A rua onde havia caído e quebrado o dente da frente aos 11 anos continuava a mesma. A rua onde um cara assoviou pra mim pela primeira vez continuava a mesma. O lago onde jogara meus óculos de grau continuava o mesmo. As árvores onde costumava espiar a casa do meu vizinho gato de 22 anos continuava a mesma... E as memórias continuavam intáctas.
Virei a esquina da minha rua. Não da rua da casa dos meninos. Minha rua. Da minha casa. Um frio percorreu minha espinha. Não havia pensado naquilo. Quero dizer, não na minha rua. Não havia pensado na minha mãe. No que ela havia feito para mim. A vida inteira mentindo pra mim. A vida inteira me enganando. A vida inteira fingindo ser a melhor mãe do mundo, quando, na realidade, foi a pior de todas.
Parei em frente à minha antiga casa.
O que deveria fazer? Eu tinha vontade de entrar lá e usar todos os palavrões novos que havia aprendido com os guys durante esse tempo de convivência. Mas não iria fazer aquilo, claro. Eu ainda tinha um pouco da minha consciência.
Enquanto pensava no que iria fazer em relação a minha mãe, a porta se abriu. E ela saiu, com um cigarro na mão e uma revista na outra. Sentou-se nas escadas e acendeu o cigarro, não me notando ali parada, estática.
Ela abriu a revista no colo e ficou lendo. Seu cabelo estava bagunçado, o que era esquisito. Minha mãe sempre fora meticulosa, detalhista. Nunca saía com o cabelo bagunçado e a roupa amassada. Vê-la ali, com os olhos vermelhos e a aparência péssima, foi como receber um tiro no coração. Era péssimo ver o que eu tinha feito com ela. O que toda aquela história tinha feito com ela.
Mas ela também tinha ferrado com tudo. Ela que causou aquilo para ela mesma.
No meu coração, sentimentos de saudades, pena, ódio, amor e traição se misturavam.
Uma música começou a tocar no vizinho. Reconheci somo sendo Famous Last Words, do My Chemical Romance. [N/A: Recomendo que ouçam enquanto leem essa parte. Link do YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=j6vUzmNbzRQ]
Now I know, that I can't make you stay.
(Agora eu sei, que não posso fazer você ficar.)
But where's your heart?
(Mas aonde está seu coração?)
But where's your heart?
(Mas aonde está seu coração?)
But where's your...
(Mas aonde está seu…)
Dei dois passos em direção à minha mãe. Algo naquela letra me impulsionava. Algo nos acordes de guitarra me deixava elétrica. Algo naqueles sentimentos não me deixavam parar.
- Mãe? – chamei, e ela levantou os olhos, surpresa.
- Victória? – perguntou, como se não acreditasse que eu estivesse ali.
And I know, there's nothing I can say!
(E eu sei, não há nada que eu possa dizer!)
To change that part,
(Para mudar esta parte,)
to change that part.
(para mudar esta parte.)
To change...
(Para mudar…)
Ela se levantou, jogando o cigarro e a revista no chão. Se aproximou e colocou o polegar em meu rosto. Afastei sua mão com repulsa e abaixei meus olhos. Juntei minhas mãos e dei um passo para trás.
- Não vim aqui pedir desculpas. – disse, com a voz trêmula. – Não vim aqui porque estou arrependida. – então levantei meus olhos, fixando-os nos seus. Ela me olhava com a boca entreaberta e um medo contido na expressão indiferente. – Na verdade, nem sei porque vim aqui. – dei outro passo para trás, perdendo a coragem de dizer tudo que queria dizer.
Virei-me de costas.
- Filha!? – ela chamou, como uma súplica.
Filha?
Ela não tinha o direito de me chamar assim.
So many bright lights, that cast a shadow...
(Tantas luzes brilhando, moldando uma sombra...)
But can I speak?
(Mas eu posso falar?)
Well, is it hard understanding?
(Bem, isto é difícil de entender?)
I'm incomplete!
(Eu estou incompleto!)
- Nunca mais – comecei novamente, girando com os calcanhares. – me chame assim.
Ela colocou a mão direita sob a boca, como um gesto de defesa.
- Victória, filha, por que você está sendo tão dura comigo? Tudo que eu fiz foi te proteger e... – ela suplicava, mas eu não sentia mais compaixão. Não sentia mais orgulho de ser sua filha. Só sentia ódio. E tristeza.
Todos os meus sentidos estavam aguçados, e minha língua se remexia na boca.
- Eu falei com Ryan. – disse, cortando-a. Ela paralizou. – Ele me contou sobre as cartas. Mamãe. – disse a última palavra com ironia.
A life that's so demanding…
(Uma vida que é tão exigente...)
I get so weak.
(Eu estou tão fraco.)
A love that's so demanding…
(Um amor que é tão exigente...)
I can't speak!
(Não consigo falar!)
- Então você... – ela parou no meio, como se já soubesse a resposta.
- Sim. – disse, por fim. – Sim, eu sei a verdade.
I am not afraid to keep on living!
(Eu não tenho medo de continuar vivendo!)
I am not afraid to walk this world alone!
(Eu não tenho medo de caminhar sozinho neste mundo!)
Honey, if you stay, I'll be forgiven…
(Querida, se você ficar, eu serei perdoado...)
Nothing you can say could stop me going home!
(Nada que você disser pode me deter de ir para casa!)
Ela fechou os olhos.
- Tudo que eu fiz foi por você, Victória! – disse, com a voz embargada. Mas eu não sentia vontade chorar. Não sentia vontade de abraçá-la e dizer que a perdoava. E sabia que para fazer aquilo algum dia, teria que pensar muito, perdoar muito, e eu não tinha certeza se conseguiria. Ela me magoara muito. Minha própria mãe mentiu para mim daquele jeito a vida inteira!
- Eu sei que foi. – disse, e ela abriu os olhos, esperançosa. – Mas isso não justifica nada. Eu não tenho forças nem vontade de te perdoar. E não sei se algum dia vou ter essa coragem.
Can you see? My eyes are shining bright!
(Você pode ver? Meus olhos estão brilhando!)
'Cause I'm out here, on the other side,
(Porque estou fora daqui, no outro lado,)
Of a jet black hotel mirror!
(Do negro espelho quebrado do hotel!)
And I'm so weak!
(E estou tão fraco!)
- Então você não vai me perdoar? – perguntou, trêmula. – Nunca?
- Eu... – parei, com medo de dizer algo irreversível. – Não sei.
Is it hard understanding?
(É difícil entender?)
I'm incomplete!
(Eu estou incompleto!)
A love that's so demanding…
(Um amor que é tão exigente...)
I get weak!
(Eu fico fraco!)
Então ela sorriu.
Lágrimas surgiram em meus olhos e eu me odiei. Prometi que seria forte. Prometi que não iria fraquejar na sua frente. Mas não consegui.
I am not afraid to keep on living!
(Eu não tenho medo de continuar vivendo!)
I am not afraid to walk this world alone!
(Eu não tenho medo de caminhar sozinho neste mundo!)
Honey, if you stay, I'll be forgiven…
(Querida, se você ficar, eu serei perdoado...)
Nothing you can say could stop me going home!
(Nada que você disser pode me deter de ir para casa!)
- Acho que tudo bem. – disse, me surpreendendo. – Quero dizer, acho que eu nunca vou me perdoar. Não esperava que você o fizesse. Mas, querida, me prometa uma coisa?
Balancei a cabeça afirmativamente. Apesar de tudo, ela era minha mãe.
- Promete que nunca mais vai deixar que confundam, magoem e traiam você?
These bright lights are always blinded, to me.
(Estas luzes brilhantes estão sempre me cegando.)
These bright lights are always blinded, to me!
Estas luzes brilhantes estão sempre me cegando!)
- Não precisa se preocupar comigo. – respondi, me virando para recomeçar a descer as escadas. – Nunca mais.
I said…
(Eu digo...)
I see you lying next to me,
(Eu vejo você mentindo ao meu lado,)
with words I thought I'd never speak!
(com palavras que jamais pensei dizer!)
Awake and unafraid,
(Acordado e sem medo,)
asleep or dead!
(adormecido ou morto!)
- Prometa. – ela pediu, com certa urgência. – Somente prometa, Victória.
I am not afraid to keep on living!
(Eu não tenho medo de continuar vivendo!)
I am not afraid to walk this world alone!
(Eu não tenho medo de caminhar sozinho neste mundo!)
Honey, if you stay, I'll be forgiven…
(Querida, se você ficar, eu serei perdoado...)
Nothing you can say could stop me going home!
(Nada que você disser pode me deter de ir para casa!)
Já no final da escada, virei-me de frente para ela. Seus olhos vermelhos me fitavam, e sua boca tremia. Sua expressão era de angústia e tristeza. Sempre me orgulhei de ser filha dela. Mas, naquele momento, ela era algo que eu nunca gostaria de ser. Ela era a imagem do arrependimento. A imagem da amargura. E, se tinha algo que eu nunca seria, era aquilo.
- Prometo. – disse, enfiando as duas mãos no bolso. – Mesmo porque, a maior traição que alguém poderia me causar, já aconteceu. E veio da minha mãe.
E antes que pudesse me arrepender, já caminhava para longe dali, com o vento gelado chicoteando meus cabelos para o alto e cortando minha pele.
Lanza fala:
Eu estava quase dormindo. As luzes claras da Tv faziam meus olhos fecharem e abrirem sem minha permissão. Estava em um estado de transe televisístico. E essa palavra nem sequer existe!
De repente, ouvi um barulho de chave na fechadura, mas não liguei muito. Já havia me esquecido porque estava ali, deitado assistindo As Meninas Super-Poderosas versão alguma coisa Z.
A porta se abriu, o que não foi de se estranhar. Quero dizer, depois que alguém gira a chave na fechadura, a porta costuma se abrir. Certo?
- Oi? – a voz de Victória ecoou pela sala. – Alguém aqui!?
Dei um pulo no sofá, me lembrando de tudo.
- Vic!? – chamei, escondendo as cinco latas de cerveja que havia bebido embaixo do sofá. – Tem eu! – gritei, desligando a Tv e subindo os dois degraus da sala. – Eu estou aqui. – fui até a cozinha, onde ela olhava interessada para o conteúdo de dentro da geladeira, e a porta bloqueava minha visão do seu rosto. – E eu precisava justamente falar com você e... – fui falando, quando ela fechou a geladeira e me olhou, com lágrimas escorrendo pelo rosto e a maquiagem preta desmanchando por sua bochecha. Colocou uma sacola da Bloomgdale’s em cima da mesa da cozinha e eu fiquei sem reação. E antes mesmo que eu pudesse dizer algo, ela correu em minha direção e enterrou o rosto no meu peito, envolvendo minha cintura com os braços. Seu choro silencioso se transformou em uma série de soluços profundos, e eu não pude evitar entrelaçar meus dedos no seu cabelo.
Ela chacoalhava o rosto e seu peito tremia. As lágrimas quentes molhavam minha camiseta, e seu rosto frio fazia minha pele, embaixo do pano, formigar.
- O que aconteceu? – perguntei, vendo que ela não iria se acalmar tão cedo. – O que foi, Vic!?
Ela não disse nada e continuou a chorar.
- Ok, quer saber de uma coisa? – perguntei, mesmo sabendo que não obteria resposta. – Vamos sair da cozinha. – dito isso, agachei e peguei suas pernas, pegando-a no colo. Seus braços subiram da minha cintura para meu pescoço, mas seu rosto continuou enterrado em meu peito.
Saí da cozinha e fui até o hall. Subi as escadas sem dificuldade, e chegando lá em cima, decidi por entrar em meu quarto. Entrei e fechei a porta com os pés. Fui até minha cama e coloquei-a lá, que colocou as duas mãos no rosto e continuou a chorar. Sentei-me ao seu lado, envolvendo seus ombros com meu braço, e ela tombou para o lado em silêncio. Puxei meu edredon para cima, nos cobrindo.
Ficamos daquele jeito por um tempo indeterminado. Poderiam ter se passado segundos, horas ou até mesmo dias, que eu não me importaria. Ela estava ali novamente. Em meus braços, de onde nunca deveria ter saído. Ela estava comigo e com mais ninguém. Ela estava se consolando comigo, e não com outra pessoa. Ela era, em parte, minha de novo. Ou pelo menos eu queria que fosse.
Aos poucos, o choro foi diminuindo, e suas mãos foram descolando do rosto vermelho e inchado. Quando não chorava mais, suas mãos estavam entrelaçadas, e ela olhava para a frente, muda. Só foi falar de novo, quando seu rosto não estava mais inchado do choro, e só os olhos continuavam vermelhos.
- Eu pensei que, durante todo esse tempo, meu pai e meu irmão estivessem me enganando. – murmurou, olhando fixamente para o nada. Eu a ouvia, mas só conseguia pensar em como era bom tê-la ao meu lado, me esquentando como só ela sabia fazer. – Só ontem eu fui descobrir que não. Que, mais uma vez, eu estava errada. Descobri que, embaixo do meu nariz, minha mãe mentia e me enganava. Descobri que todo ódio e saudades que senti do meu pai e do meu irmão foram em vão. – as palavras saíam da sua boca com velocidade, como se estivessem presas lá há muito tempo. – Tudo o que pensei e senti foi em vão, Lanza! Todo o rancor... Tudo! Tudo foi direcionado às pessoas erradas! E eu tentei ser forte ao descobrir isso. Para mim, tudo estava bem. "Descobri a verdade, finalmente!", eu pensei, e ficou por isso mesmo. Mas hoje... – uma lágrima remanescente escorreu por sua bochecha. – Hoje eu vi minha mãe; vi quem causou tudo isso. Eu a vi... E o mais frustrante de tudo, foi que eu não consegui ignorá-la! Não consegui fazer com que ela se sentisse péssima. Eu fui fraca e medrosa. Eu... Eu simplesmente fiz tudo errado! – então ela levantou o rosto para mim pela primeira vez. Encarei seus olhos intensos, tentando não dizer nada que fosse estragar seu desabafo. – Eu sempre faço tudo errado, não é, Lanza? Diga a verdade. Eu fiz errado com minha mãe, fiz errado com meu irmão e fiz errado com o meu pai. Faço tudo errado, no colégio, em casa, no treino, com minhas amigas, com meus amigos. E, principalmente, faço tudo errado com você. – abri minha boca para negar, mas ela não deixou. – E nem tente negar. Você sabe que sim, eu sei que sim, todos sabem que sim. Eu simplesmente estraguei tudo com o único cara que eu fui capaz de gostar em toda minha vida. E por quê? Porque sou orgulhosa e estúpida. Orgulhosa, estúpida e infantil. Orgulhosa, estúpida, infan...
Então tudo se calou com um beijo.
Simples assim.
Eu simplesmente me inclinei e calei sua boca com a minha própria boca. Não aguentava mais ouvir reclamações. Não aguentava mais perder tempo. Eu estava com saudades daquilo, e não poderia mais perder tempo com blá blá blá. Tudo se acabou como começou. Boca com boca, sem movimento. Um beijo forçado, os olhos fechados, o susto do momento.
Só um beijo.
- Eu posso saber o que foi isso? – ela perguntou, assim que descolei nossos lábios.
- Você não calava a boca. – respondi, dando de ombros. – Tive que tomar medidas drásticas.
Ela me olhava com a boca aberta e as bochechas vermelhas. Parecia uma boneca.
Então se levantou, brava e elétrica.
- Tá vendo só? – perguntou, andando em circulos pelo meu quarto, gesticulando sem parar. Victória era esquisita. Uma hora estava deprimida, na outra estava rodando pelo meu quarto, soltando fogo pelas orelhas. – É por isso que eu só ferro as coisas. Porque as pessoas não me dão outra saída! Eu estou aqui, me abrindo com você, e você me beija? Essa era a última reação que eu poderia querer!
Levantei-me, de saco cheio.
Ela continuou.
- Por que, quero dizer, por que diabos você me beijou? Nós não podíamos simplesmente conversar? Tudo tem que envolver beijo, desejo?
Caminhei até ela e peguei seu braço. Ela parou de falar no mesmo instante e encarou meus olhos calmos. Eu andei para frente com seu corpo colado ao meu, até encostá-la no armário. Ela continuou muda, sem saber o que dizer.
- Você pode, por favor, por um maldito momento, ficar quieta? – perguntei, e ela continuou com os olhos arregalados.
Sem pedir permissão, sem pensar nas consequências, fui aproximando meu rosto do dela. Seu rosto foi ficando mais próximo do meu. Sua respiração foi atingindo meu rosto. Seus olhos começaram a se fechar. Sua boca começou a se entreabrir. Meus braços começaram a envolver sua cintura. Seus dedos começaram a se perder no meu cabelo. Nossos narizes se tocaram. Meus olhos se fecharam. Meu pescoço caminhou mais um centímetro. Nossos lábios se tocaram novamente. Um instante de normalidade. Um instante de loucura. Um instante de sobriedade. Um instante de desejo.
Um instante de amor.
Era tudo o que nós precisávamos naquele momento. Precisávamos demonstrar que, de algum jeito, nem tudo estava perdido. Que ainda existia algo entre nós dois que nos mantinha juntos, conectados, mesmo separados.
Suas mãos puxaram meu cabelo. Meus dedos apertaram sua cintura. Suas pernas se entrelaçaram no meu quadril. Meu corpo a forçou contra o armário. Seus lábios abriram, permitindo a passagem da minha língua, que se fundiu com a dela, para frente e para trás, de um lado para o outro. Nossos rostos se viravam quando sentiam a necessidade. Nossos narizes se batiam com violência. Meu corpo começou a esquentar, junto com o dela. Ela estava presa entre meu corpo e o armário. Sua língua explorava minha boca, como se nunca estivesse entrado ali. Seu hálito de morango e pasta de dente se misturou ao meu hálito de cerveja.
Nunca me senti tão vivo.
E o beijo continuou. Só um beijo. Sem nada mais envolvido. Nenhum toque fora do permitido. Nenhum movimento brusco, repetido. Ela não era mais a cheerleader. Eu não era mais o vocalista. Ela não era mais a menina mais linda do colégio. Eu não era mais o rebelde sem causa. Ela não era mais a filha de uma mentirosa. Eu não era mais um cafajeste. Era uma coisa nova, mas do jeito antigo de ser. Era saudades e novidade. Era desejo e reparação. Era querer e amar.
Era o amor. Simples e puro. Complexo e sujo. Na sua forma primitiva, lapidada. O amor entre duas pessoas, sem nada mais envolvido.
Um beijo significava o mundo para nós dois naquele momento.
E ele não acabou. Passaram-se segundos, minutos, horas. Nossas bocas não se descolavam, nossas bochechas não cançavam de roçar uma na outra. Nossos narizes não cansavam de respirar. Nossas línguas não se cançavam de dançar. Os suspiros não paravam de sair. Os dedos não paravam de apertar.
Ficamos ali a noite inteira. Nos beijando sob a luz do luar que invadia meu quarto pela janela aberta.
E, dude, aquilo foi bom.
Foi mais do que bom.
Foi...
Perfeito.
Capítulo 29 – O Baile.
Victória fala:
Era de se esperar que eu fosse mais forte que um beijo. Mas eu descobri, da pior – ou melhor – maneira, que não, eu não sou. Não sou mais forte que um beijo, não sou mais forte que duas mãos, não sou mais forte que respirações ofegantes, e, com toda a certeza do mundo, não sou mais forte que Pedro Gabriel Lanza Reis.
Ou provavelmente não sou mais forte que o meu desejo.
E não sou, nem de longe, mais forte que meu amor.
O negócio é que aquele foi um beijo longo. E gostoso. E lindo. E ingênuo. E sincero. E todos os sentimentos doces que você pode imaginar.
Nuvens pesadas de chuva cobriram a lua, escurecendo o quarto aos poucos. Mas nem isso nos impediu de continuar. Quanto mais os minutos passavam, mais o beijo melhorava. Era como se fôssemos pegando o jeito um do outro, os truques, os gostos, o cheiro. Tudo de novo estava sendo armazenado, e todos os conhecimentos antigos foram usados.
Nossos lábios não se desgrudaram nenhuma vez.
Pode parecer bizarro, se não fosse tão sensível.
Eu nem sei o que me deu. Em um momento eu estava me debulhando em lágrimas e querendo morrer, e no outro eu estava sendo suspensa na porta do armário pelo cara que eu mais odiava amar e amava odiar. Era como se a vida fosse realmente uma caixinha de surpresas e que adorasse me pregar peças. Tipo: "Ah, você está querendo morrer? Então vamos ver se vai querer mesmo depois desse beijo!"
Mas não posso reclamar, certo? Afinal, aquele era Lanza. E ele estava me beijando como se quisesse aquilo há muito tempo.
Então eu simplesmente deixei as coisas acontecerem. E quando finalmente paramos, não foi uma coisa forçada; foi como se nossos cérebros, ao mesmo tempo, dissessem: "Ok, agora já deu, vocês estão suficientemente calmos e relaxados para discutir a relação". Nossas bocas foram parando aos poucos, até que só restasse rosto com rosto.
Olhei discretamente para o relógio no criado-mudo. Eram 3:27, exatamente.
Porra! Tinha a vaga lembrança de chegar em casa por volta das 21h. Então aquilo era, com certeza, um record mundial!
Ou pelo menos um record pessoal.
Quero dizer, claro que eu nunca havia passado 6 horas e lá vai fumaça beijando alguém. Então o record era incontestável.
- Hm... – foi o que saiu da minha garganta, assim que ele encostou a testa na minha, respirando fundo. Eu havia me esquecido de como se usava a boca para formular palavras. – Isso... Nossa... Uau.
Só faltou dizer "mim Victória, você bem beijar."
- Acho que não vamos querer nos beijar por um bom tempo. – ele riu, e fui contagiada por sua risada, gargalhando junto.
- Acho que eu não vou mexer meu maxilar por duas semanas. – murmurei, sentindo-o estalar com o simples movimento de argumentar. – Quero dizer, acho que ele nunca foi tão usado em toda minha vida.
- Somos dois, irmã. – ele concordou, apertando seu queixo com a mão.
Aos poucos, fui abaixando as pernas e ele foi separando seu corpo do meu. Meus dedos se desenrolavam do seu cabelo e suas mãos largavam minha cintura. Ele ficou reto e eu me apoiei no chão, finalmente sentindo meus pés.
- Hoje, tecnicamente, é o dia do baile. – ele disse, sorrindo daquele jeito que derretia meu coração.
- Sim. – balancei a cabeça em afirmativa. – Hoje é o grande dia.
- Grande merda, isso sim. – ele disse, querendo parecer indiferente, mas eu pude ver o nervosismo em seus olhos.
- Não se preocupe com isso, Lanza. – tentei confortá-lo, colocando minha mão em seu ombro. – Nada do que essa pessoa disse vai acontecer. Seus amigos nunca dariam ouvidos e sua carreira já se concretizou.
Ele ficou um pouco em silêncio, olhando para o chão. Depois levantou os olhos e me encarou.
- Mas e você? Daria ouvidos?
Sorri.
- Claro que não. Você sabe que não. – soltei seu ombro. – Eu sou a última pessoa com quem você tem que se preocupar. Mesmo você sendo um idiota, eu não consigo ficar longe de você por muito tempo. – senti meu rosto queimar de vergonha, por finalmente admitir aquilo.
Não que ele era um idiota, claro. Porque isso eu já sabia há muito tempo. Mas fiquei com vergonha em admitir que mesmo com todos os problemas do mundo, Lanza vinha sempre em primeiro lugar. Afinal de contas, era por ele que eu passara a usar lentes de contato e alisar o cabelo todas as manhãs da minha vida, certo?
Lanza não respondeu nada, e se distanciou de mim, indo se sentar em sua cama. Eu fiquei ali, apoiada na porta do armário, olhando de longe para ele. Era quase impossível não olhar para ele. Seus olhos doces, sua boca vermelha, seu cabelo caindo na testa, seu jeito tímido e despojado de ser, seu sorriso, seu olhar, sua risada, o jeito de andar, falar, comer, beijar... Tudo nele era perfeito. Ele era o que eu sempre quis e sempre iria querer. Não tinha como não gostar. Não tinha como não amar. Eu estava predestinada a ficar com ele. Ele não era minha alma gêmea, pois nós éramos diferentes em tudo. Ele não era meu melhor amigo, porque sempre que precisava dele, ele só queria me beijar. Ele não era meu super-herói, porque sempre estava preocupado demais em fazer piada das coisas. Ele era o contrário de príncipe encantado, mas mesmo com todos os defeitos do mundo, era o meu grande amor. Era por ele que meu coração batia rápido e devagar ao mesmo tempo, era por ele que eu tinha vontade de me arrumar de manhã, era nele que eu pensava quando ouvia uma música romântica, era nele que eu apostava todas as minhas fichas. Ele era o homem da minha vida e eu não poderia mudar isso nunca. Eu não poderia, nem em mil encarnações, esquecê-lo. Porque ele havia sido feito pra mim e eu havia sido feita para ele. Seus defeitos encaixavam em minhas qualidades, e meus problemas eram as suas virtudes. Seu jeito me completava, e ele me ensinara tantas coisas com um simples olhar... Ali, olhando para Lanza, que cutucava as unhas sentado na cama, eu percebi que aquilo era pra ser. Que eu não poderia desistir de tudo o que mais sonhei. Ele era meu sonho e meu amor. E eu simplesmente não ia desistir dele.
- Pedro Gabriel Lanza Reis. – me ouvi murmurar, e ele levantou os olhos, surpreso. – Esse é um dos nomes mais bonitos que eu já ouvi.
- Obrigado? – ele perguntou, tentando entender o que eu queria dizer.
- Sabe, quando eu era criança, eu tinha várias Barbies e só dois Kens. Um deles era o bonzinho, o outro o malvado. – ele ouvia, sem piscar os olhos, curioso. – O bonzinho sempre tinha um nome diferente. Às vezes era Mike, outras vezes Bart, e outras Joey. Mas o malvado só tinha um nome, sempre. Eu nunca mudava. Minha mãe sempre queria saber porquê, mas eu não sabia explicar.
- E qual era o nome dele? – ele perguntou, como se falasse com uma criança.
- Pedro Gabriel.
Vi seus olhos se iluminarem e ele gargalhar, com vontade.
- Jura!? Você dava meu lindo nome para o Ken malvado?
- Sim! – exclamei, rindo também. – Eu não conhecia você, claro. Mas então eu entrei na escola, e eu tinha dois coleguinhas Pedro Gabriel na minha sala. Um deles comia cola e brincava sozinho no canto da sala. E o outro... – olhei bem para ele, e seu sorriso começou a desaparecer por interesse na história. – O outro era o garotinho mais querido entre todos. Todas as minhas amigas queriam namorar com ele e a professora sempre dava uma estrela vermelha para ele por bom comportamente no final do dia. Por todo lugar que eu ia, só ouvia falar de Pedro Gabriel Lanza Reis. "Pedro Gabriel isso, Lanza Reis aquilo". – fiz uma vozinha irritante.
- Eu não tinha mais espaço para escrever de tantas estrelas no caderno. – ele balançou a cabeça, como se estivesse se recordando.
- Eu não me interessava muito por ele. Na verdade, acho que tinha inveja de toda a atenção que recebia. Então meu Ken do mal passou a se chamar Pedro Gabriel Lanza Reis. E, nas minhas histórias, ele sempre era o queridinho entre as Barbies do mal, e a Barbie sofrida o odiava. Então o Ken bonzinho a salvava das garras de Pedro Gabriel Lanza Reis.
- Então eu era a estrela principal da sua novela? – ele perguntou, se divertindo.
- Praticamente. – sorri para ele. Não sabia porquê estava contando tudo aquilo, mas eu sabia onde queria chegar. – Então nós crescemos. Viramos pré-adolescentes. E ele continuou a ser o queridinho de todos. Se Pedro Gabriel Lanza Reis estava por perto, ninguém prestava atenção em mim. Se Pedro Gabriel Lanza Reis tirava 9, meu 10 não importava. Se Pedro Gabriel Lanza Reis almoçava todos os dias no Barney’s, aquele era o lugar mais legal do mundo. Se Pedro Gabriel Lanza Reis dava o primeiro beijo em Karen Miller, o sonho de consumo de todos os meninos era Karen Miller.
- Obrigado por me lembrar em quem dei meu primeiro beijo. – ele agradeceu. – Havia me esquecido.
- O que Pedro Gabriel Lanza Reis tinha que eu não tinha!? – exclamei, e ele percebeu que comentários sarcásticos não eram bem-vindos na minha história. – Quero dizer, eu também sempre almocei no Barney’s! Eu também tirava 9! Eu também podia beijar alguém! Por que diabos, afinal, Pedro Gabriel Lanza Reis era tão querido? Então, um dia, aconteceu. – parei um pouco de falar, tentando me lembrar exatamente daquela tarde ensolarada. – Eu estava andando pela quadra de basquete, e Pedro Gabriel Lanza Reis conversava com alguns amigos, que riam à sua volta. – agora eu já havia me desencostado do armário e andava pelo quarto, gesticulando sem parar. – Eu não me importei, claro. Eu só estava ali para pedir dispensa da aula devido ao meu problema relacionado a bombinhas de ar e miopia. Nem me importei por estar com o tênis desamarrado. Quero dizer, era só Pedro Gabriel Lanza Reis, certo? – perguntei, e ele balançou a cabeça, concordando. – Errado. Eu não tinha ideia do poder que Pedro Gabriel Lanza Reis tinha sob as pessoas. Eu não tinha ideia de como poderia ficar fixada em algo que sempre odiei. Eu não tinha ideia, Lanza, do poder do seu sorriso.
Ele sorriu, mas logo parou, como se sentisse culpa por sorrir daquele jeito.
- Aquele dia, quando você se virou e seus cabelos molhados de suor caíram em sua testa, e você sorriu pra mim, eu não caí somente porque estava com o tênis desamarrado. Eu não caí somente porque meus óculos estavam embaçados. Eu caí, Lanza, porque soube que depois daquele sorriso, não havia mais volta. Depois daquele sorriso, simples, quase indiferente, eu estava completamente e irreparavelmente apaixonada por você.
Não havia tensão no ar naquele momento. Ele me olhava, eu retribuía, como simples amigos fariam ao brincar de "sério". Mas eu sabia que ele queria saber, que ele precisava saber se...
- E isso é... Bom?
Lanza fala:
Eu me olhava no espelho. Tinha alguma coisa errada com a minha roupa. Ou seria com o meu cabelo? Foda-se, tinha algo errado. E estava me incomodando.
- Escuta, Pe Lu, qual é o problema da minha roupa? – perguntei bruscamente, me virando para ele, que fazia o mesmo que eu, mas parecia satisfeito com sua imagem no espelho.
- Com sua roupa nada, o problema é quem está usando ela. – respondeu, dando e ombros. Não respondi, impaciente demais para brincadeirinhas de mau gosto. Ele percebeu que eu não estava de bom humor e resolveu opinar. – Acho que é sua gravata. Sei lá, ela é meio... Azul.
Olhei para ela, azul escura, fria e... Azul.
Realmente, a culpa era da gravata.
- Tem alguma pra me emprestar? – perguntei, pois eu só tinha aquela e uma preta furada.
Qual era o meu problema? Que tipo de homem só tinha uma gravata?
- Eu só tenho essa que estou usando... – ele apontou para a gravata listrada preta e branca que usava.
Homens como Pe Lu Munhoz. Era por isso que éramos amigos. Porque meus amigos conseguiam ser tão babacas quanto eu.
Olhei de volta para o espelho, enquanto ouvia Pe Lu falar sobre a "merda de banda" que iria tocar no baile aquela noite. Aos poucos, suas voz foi ficando mais baixa e meus pensamentos mais altos.
A quem eu estava tentando enganar? A fada dos dentes? O problema não era com minha aparência, e muito menos minha gravata. O embrulho no estômago e o nervosismo que eu estava sentindo não tinha nada a ver com isso. Tudo aquilo tinha um nome: Gossip.
- Qual das duas fica melhor? – Thomas invadiu meu quarto, segurando duas gravatas. Uma preta e a outra prata.
- Acho melhor você usar a prata, fica mais legal com sua camisa preta. – Koba veio atrás, respondendo antes que eu pudesse raciocinar.
- Ainda bem que você não quer usar a rosa. – Pe Lu disse. – Quero dizer, depois que você se vestiu de Barney, está em dívida com sua masculinidade... Mas você podia aproveitar e dar a preta pro Lanza. – sugeriu, e no segundo seguinte uma gravata voava em minha direção e pousava em minha cabeça.
- Você é um canalha, Munhoz. – Thomas arqueou a sobrancelha diante do próprio reflexo.
- Sou canalha mas sou limpinho. – ele deu de ombros.
Distraí-me novamente, lembrando do final da noite anterior.
Flashback on.
- E isso é... Bom?
- Sinceramente? – ela perguntou, perdendo a intensidade da voz, receosa. Balancei a cabeça em afirmativa, mas no fundo estava com medo de saber a verdade. Ela fechou os olhos e mordeu o lábio inferior, pensando se falava ou não. – E-eu... – gaguejou. Abriu os olhos e me encarou. Perdi-me naqueles olhos doces, que me fitavam com certa dúvida. E antes que ela pudesse responder, ouvimos um barulho de fechadura e logo em seguida vozes lá debaixo.
- QUERIDA, CHEGUEI! – Koba gritou lá debaixo, fazendo thomas e Pe Lu rirem.
- Porra! – Victória sussurrou, se virando para ir embora. Num impulso, peguei-a pelo braço, e ela caiu em cima do meu colo.
- Só me diz se é bom ou não? – pedi, com certa urgência. – Eu preciso saber!
- Amanhã. – ela murmurou, enquanto os passos na escada se tornavam mais nítidos. – Amanhã, meu amor. – disse, e beijou meus lábios de leve.
Ela se levantou e ficou de frente para mim. Mas antes que pudesse se mexer, perguntei de uma vez só:
- Quer ir ao baile comigo!?
Ela sorriu, enquanto os passos vinham pelo corredor.
- É o que eu mais quero nesse mundo.
Então ela saiu do quarto.
Num instante ela estava em meu colo, me beijando, e no outro eu estava sentado sozinho na minha cama, patético, com a luz do luar como única iluminação.
Malditos amigos empata-foda!
Flashback off.
- Lanza, porra, o gato comeu sua língua e cagou na sua orelha? – Thomas perguntou, e eu virei o rosto em direção à sua voz.
- Hã? – sibilei, perdido.
- Eu perguntei se você quer ir agora ou mais tarde? – perguntou novamente, rodando as chaves do conversível no dedo.
- Agora! – exclamei, sobressaltado. Os guys se entreolharam. – Pra poder vasculhar a área. Gossip, sabe como é. – dei de ombros.
- Ok, vamos então. – Pe Lu se virou nos calcanhares. Seu cabelo estava para trás e duro pelo gel, ele usava uma gravata listrada preta e branca. Sua camisa era rosa clara, o terno listrado, marrom-escuro, e ele usava um sapato social de camurça marrom.
Thomas apoiou-se na batente da porta, sem deixar de rodar as chaves no dedo. Usava um terno preto liso, com a camisa preta lisa e a gravata prata se sobressaltando. Seu cabelo estava arrepiado e nos pés usava um All Star preto. Estava parecendo o James Bond, mas era melhor do que ser o Barney, disso eu tinha certeza.
Koba percebeu o espelho pela primeira vez, e começou a se encarar. Usava um terno preto, como eu e Thomas, e uma camisa branca. Sua gravata era listrada de vários tons de cinza e marrom, e ele calçava um All Star quadriculado bege e branco.
Segui seu olhar e encontrei novamente meu reflexo no espelho. Analisei-me, de cima a baixo. Cabelo na testa, terno preto, camisa verde, gravata preta e All Star cinza. [N/A: Quem achar que a roupa do principal, no meu caso o Tom, não combina com o guy, é só olhar essa foto e imaginar seu guy com a roupa dele. Entenderam? Guys de Terno]. Estava bem; apresentável, bonito e original.
E humilde.
Sorri maliciosamente para Thomas pelo reflexo do espelho.
- É, vamos.
Victória fala:
- Fala sério, gente, vocês não viram mesmo o meu perfume? – Maria Eduarda perguntou, subindo as escadas da sua casa. – Eu deixei ele em cima da minha escri... – ela olhou para o único lugar que não tinha procurado. A escrivaninha. E ele estava lá, rosa, doce e estático. – Certo. Acho que eu preciso usar óculos...
Logo que ela disse isso, eu saí do banheiro pois acabara de colocar as lentes de contato. Meus olhos estavam vermelhos pois eu havia enfiado sem querer o dedo, e uma lágrima escorria por meu rosto.
- ... Ou eu não precise. – ela brincou, entortando a boca.
- Isso, ria da desgraça alheia. – briguei de brincadeira, sentando em sua cama fofa. Coloquei meu salto prata com pedrinhas verde turquesa e me levantei, analisando meu corpo em frente ao espelho gigantesco do seu armário. Eu estava de sutiã, meia calça cor de pele e salto alto. Meu cabelo estava preso para trás por uma tiara pois eu estava colocando as lentes. Maria Eduarda veio ao meu lado, de salto, calcinha e sutiã, com o cabelo molhado e o rosto sem maquiagem. Isadora veio em seguida, sem salto, com um shorts e sutiã, e Júlia veio por último, usando uma camisola. Estávamos começando a nos arrumar.
- Se isso fosse uma foto, com certeza estaria no Conte Seu Babado. – Júlia comentou.
- "As bruxas e suas imperfeições". – Isadora brincou.
- É... – Maria Eduarda suspirou. – Parece que vamos sentir mais falta do Conte Seu Babado do que imaginamos.
- Sim... – concordei. – Mesmo sendo uma inutilidade completa, ele meio que fortaleceu a nossa amizade, sempre juntas fosse o que fosse. – fechei os olhos. – E ele que nos levou aos McLosers. Se não fosse por ele, a Duda não estaria com o Munhoz, a Isa não estaria com o Koba e a Júlia não estaria com o Thomas. E eu... – parei de falar, abrindo os olhos.
- Você não teria certeza que Lanza é o amor da sua vida. – Júlia murmurou.
- E ele não se apaixonaria por você. – Maria Eduarda sorriu.
Sorri junto com ela.
- E eu não descobriria que músicos são tão bons com os dedos. – Isadora suspirou, e nós não aguentamos, caindo na risada.
- Sua pornográfica! Nós somos ladies, não precisamos ouvir história da ralé! – Maria Eduarda brincou, pegando uma almofada na sua cama e atirando em Isadora. Ela pegou seu ursinho de pelúcia e jogou nela, errando e acertando em Júlia, que, por sua vez, jogou umas camisetas em mim.
Quando menos esperávamos, uma guerra começou. Calcinhas, toalhas molhadas, roupas e almofadas voavam pelo quarto, enquanto nossos gritos ultrapassavam a barreira do som. - MENINAS! – a mãe de Maria Eduarda apareceu na porta, de camisola e cara de sono. Nós paramos na mesma hora e olhamos para ela. Estávamos vermelhas e ofegantes. – Meninas... – ela sorriu, daquele jeito saudades-da-minha-adolescência-de-guerras-de-travesseiro-e-passinhos-do-John-Travolta. – Já são quase 21h e vocês não estão prontas?
Olhamos no relógio em cima do criado-mudo de Maria Eduarda, e vimos que já estávamos mais do que atrasadas.
- MERDA! – Júlia gritou, antes de sair procurando seu vestido pela bagunça.
E aquelas eram as minhas melhores amigas para todo o sempre. Loucas, engraçadas, chatas, estressadas, promíscuas, bocas-suja e imbecis. Mas eu as amava muito.
Lanza fala:
“Ouvi dizer que o Gossip é o próprio Lanza...” July Armstrong sussurrou para um grupo de veteranas, que nos olharam com uma mistura de ódio e admiração.
“Eles são viados, é tudo fachada, eu tenho certeza...” Kamila Eyes disse, um pouco alto demais, para todos os amigos, que estavam parados no bar, bebendo. Era um flashback da última festa em que fomos, e por esses e outros motivos eu estava dando graças a Deus que aquela era a última em que iria.
- Acho que na verdade são todos robôs e nós estamos vivendo no incrível mundo de Beakman. – Koba sussurrou em meu ouvido, e eu cuspi a cerveja que estava bebendo, rindo.
Fomos até o fundo do salão, decorado com lycras brancas e luzes vermelhas, e pegamos a mesa mais distante de todas. A toalha era branca, as cadeiras com forro vermelho e um arranjo de flores brancas estava posto no meio dela. Sentamo-nos. Não estávamos com saco de ficar em pé e ouvir todas as merdas que falavam de nós 4 e das 4 meninas. Eu não estava com saco pra nada, pra falar a verdade. Eu só queria olhar em volta e procurar alguém com cara de suspeito. No fundo eu estava rezando para que alguém com uma plaquinha escrito "Eu sou o/a Gossip" aparecesse na minha frente, pra acabar com tudo aquilo.
- Lanza? – alguém chamou atrás de mim, e eu dei um pulo na cadeira. Virei-me para trás e uma mulher de uns 30 anos, com uniforme de garçonete, sorria pra mim. – Te mandaram esse bilhete. – ela disse, colocando um papel dobrado em minhas mãos e piscando para mim.
Abri com cuidado.
“Se a Cinderela não me encontrar até 12h, vou pegar o microfone e destruir sua vida. Eu estou circulando por aí. Por falar nisso, linda camisa verde.”
Olhei à minha volta, mas não vi ninguém suspeito. Depois olhei para frente e a mulher já havia sumido. Tentei encontrá-la com o olhar, mas ninguém com avental de garçonete chamou minha atenção.
“Merda...” pensei, socando a mesa.
- O que foi, Lanza Reis? TPM fora de hora? – alguém perguntou atrás de mim. Virei-me, confuso como o resto dos guys, mas minha confusão desapareceu ao encontrar John me olhando com cara de imbecil, e Josh ao seu lado, rindo. Atrás deles algumas meninas cochichavam.
- Tava demorando... – Pe Lu virou os olhos, voltando sua atenção para Koba e Thomas, que voltaram a conversar, ignorando a interrupção.
- O que você quer aqui? – perguntei, me lembrando que ele e Josh eram um dos meus suspeitos. – Estão querendo alguma foto inédita?
Eles se entreolharam, com cara de fomos-pegos-no-flagra.
- O que você quer dizer com isso, Lanza Reis? – Josh perguntou, perdendo um pouco a cara de idiota.
- Eu quero dizer... – murmurei, me levantando para poder ficar do seu tamanho. – Que eu sei que vocês dois andam tirando fotos que não devem.
Josh olhou para John, engolindo em seco.
“Isso!” pensei. Então eles eram mesmo os filhos da puta que...
- Tudo bem, Lanza Reis, é verdade. – John deu de ombros. – Quero dizer, nós achávamos que essa história não ia vazar, mas parece que nessa escola as coisas voam! – sorriu, debochado. – Quanto você quer para esquecer essa história?
Hm, pera aí... Eles não queriam ser descobertos por mim?
- Do que... Do que exatamente estamos falando? – perguntei, confuso.
- As fotos das meninas peladas. – Josh sussurrou, com a sobrancelha erguida. – Que mandamos para a Playboy. É disso que estamos falando.
Olhei para John, que concordou com a cabeça, meio envergonhado, meio sacana.
Por aquilo eu não esperava.
- Hm... Sim. É, disso mesmo. – respondi, um pouco surpreso em saber daquilo, um pouco desapontado. John e Josh definitivamente não eram os donos do Conte Seu Babado. Então, quem mais poderia ser?
Marcus, James e Ben eram minhas alternativas.
- E então? – Josh perguntou. – Quanto você quer?
Olhei para ele e logo depois para John.
Sim, eu poderia muito bem ferrar com eles. Poderia espalhar aquilo para todos e nunca mais me preocupar. Mas... Por que estragar o meu último baile com uma fofoca idiota? Por que não deixá-los seguir com a vida deles e seguir com a minha? Quero dizer, eles tinham me infernizado o Ensino Médio inteiro, mas não era como se eu guardasse mágoas nem nada do tipo... Só das porradas que levei. Mas isso não vem ao caso.
- Tudo bem, não vou contar. – respondi, dando de ombros. Eles se entreolharam, espantados. – É sério.
- Ok, então. – John deu de ombros.
- É... – Josh assoviou.
Ficamos ali, em pé, nos olhando sem saber o que dizer.
- Então é isso... – disse, sem graça.
- É, é isso... – eles disseram juntos.
Se viraram para ir embora, e eu já estava quase me sentando, quando John recomeçou a falar, quase como um sussurro.
- Lanza Reis, eu só queria, sabe como é, pedir desculpas. Por tudo.
- Como assim? – perguntei, espantado.
- Esse é o nosso último baile, e eu posso parecer imbecil, mas não queria acabar o colégio com inimigos. – ele disse, parecendo sincero. – O negócio é que eu sempre gostei da Vic, e eu simplesmente não conseguia vê-la com você... Mas isso já passou. – se explicou, enquanto Josh se afastava com as meninas. – Quero dizer, acho que eu sempre vou tê-la como meu primeiro amor, mas não é algo permanente. Existem muitos peixes nesse mar... – ele piscou pra mim, antes de dar as costas e se juntar ao seu eterno grupo de babacas.
Eu entendia completamente o que ele sentia. Era difícil não se apaixonar por Victória, e naquele momento, depois de muitos anos odiando-o, senti um pouco de compaixão por John.
Mas só um pouco.
- O que esses babacas queriam? – Pe Lu perguntou, logo que me sentei na mesa.
- Nada. – respondi, dando de ombros. – Mas pelo menos agora eu sei que nenhum dos dois roubaram a senha do blog.
- Ótimo, agora só resta a escola inteira. – Thomas ironizou, abrindo o celular que vibrava. – As meninas estão entrando.
- Finalmente! – Koba exclamou, virando o pescoço para a porta, assim como o resto de nós.
- Espero que toda essa espera valha a pe... – Pe Lu ia dizendo, quando a sandália vermelha de salto alto de Maria Eduarda apontou na porta.
O salão parou.
Até as fofocas cessaram.
A primeira a entrar foi Maria Eduarda; ela usava um vestido vermelho tomara-que-caia, combinando com as sandálias de saltos altíssimos. Ele parava na altura dos joelhos, um pouco acima. Seu decote era em "V" e a saia era solta e leve, com um cinto preto de cetim marcando sua cintura. Seu cabelo estava todo enrolado, com cachos largos, sua boca cor de cereja, e seus olhos sensuais pelo delineador grosso, estilo gatinho. Ela estava parecendo aquelas pimp-up, mulheres bonecas dos anos 80. Estava incrivelmente sexy, preciso admitir. Espero que Pe Lu não leia isso.
Ao seu lado vinha Júlia. Usava uma sandália prata um pouco menor que a de Maria Eduarda e um vestido preto, colado ao corpo, parando um pouco abaixo das coxas. Seu decote era um tanto quanto grande, mas isso não a tornava vulgar. Muito pelo contrário, estava especialmente doce, com os olhos naturais e a boca marcada pelo gloss rosa claro. Seus cabelos estavam soltos e lisos pelos ombros. Ela sorria e sua bochecha estava corada, e isso fez com que Thomas se arrumasse na cadeira.
Um pouco atrasada, entrou Isadora. Usava um vestido azul claro, estilo grego, com a saia toda cortada em pontas. Estava de sapatilhas de centim, do mesmo tom de azul, e seu cabelo estava preso no estilo medieval, um pouco preso por uma presilha prata com pedras azuis, um pouco solto pelos ombros. Ela sorria e corria em direção as amigas, um pouco envergonhada por entrar sozinha. Mas logo as alcançou. Seus olhos estavam marcados por lápis e rímel azul, e seu batom era cor da pele. Logo que entrou, sorriu para nossa mesa, e eu sorri automaticamente ao vê-la, como se fosse impossível não sorrir em sua presença.
Prendi a respiração logo que as 3 entraram. Sabia que o que viria a seguir não faria bem para o meu estômago, e amaldiçoei mentalmente os cachorros-quentes que havia comido no almoço. Se fosse vomitar, aquele seria o melhor momento.
Então ela chegou. E não estava tão bonita quanto eu imaginei.
Estava melhor.
Koba me olhou, espantado, e eu entendi o que ele queria dizer. Era algo do tipo “olha só a merda que você fez, seu imbecil”. Agradeci pelo olhar.
Eu era mesmo um imbecil.
Ela entrou sem aviso prévio. Colocou os pés pra dentro do salão casualmente, e sorriu para algumas de suas amigas do primeiro ano. Era para ser uma coisa normal, só uma garota entrando e sorrindo para os conhecidos. Mas o simples movimento do seu peito subindo e descendo, possibilitando sua respiração, era sensacional naquele momento. Seus olhos brilhavam, sua boca provocava e seus movimentos eram graciosos e sensuais. Estava usando um vestido verde turquesa e uma sandália prata com pedras azuis turquesa para combinar. O vestido tinha um decote em "U", e descia esplendormente até seus quadris, onde se abria um pouco, dando volume à saia balonê, que acabava um pouco abaixo das coxas. Era de alcinhas, que se cruzavam nas costas. Usava brincos de prata compridos e um colar, também de prata, que ia até suas clavículas, com um pingente de fada. Seus olhos estavam marcados com o delineador e o rímel pretos, e sua boca sorria sob o gloss rosa bem escuro, quase vermelho. Suas maçãs do rosto estavam vermelhas, e seus olhos iluminavam o local.
Era como se um anjo estivesse parado na porta da quadra de basquete.
- Já pode respirar, Lanza Reis. – a voz distante de Júlia invadiu meus ouvidos, mas eu não desviei o olhar dela, que cumprimentava alguns amigos. Aos poucos os burburinhos voltavam a invadir o salão, e eu tenho certeza de que eram mentiras escandalosas, mas não conseguia ouvir. Não conseguia respirar. Só o que me importava era ela.
- Esquece, ele só vai voltar a piscar quando ela chegar aqui. – Pe Lu respondeu por mim.
Aos poucos ela foi se aproximando. Quando chegou à nossa mesa, me olhou e sorriu. Sem mais nem menos. Sem se importar com todos ao redor.
- Lanza. – disse, simplesmente, sentando-se ao meu lado.
- Vic. – murmurei, com a garganta seca. – Você está linda.
- Você também não está mal. – ela riu, e eu sorri, perdidamente hipnotizado.
Ficamos um bom tempo nos olhando, como se nada existisse em nossa volta. As conversas e brincadeiras foram deixadas de lado, e nossos olhos pareciam conversar por nós.
Sem que pudesse controlar meus movimentos, minha mão já estava tirando a flor branca que trazia dentro do terno. Ela levantou o braço e eu, sem pedir permissão, a prendi em seu pulso, delicadamente, sem tirar os olhos dos seus olhos.
- Hm, o casal aí poderia dar atenção para os amigos carentes? – Isadora pediu, e Victória desviou o olhar. Fiz o mesmo, mas ainda sentia sua presença com o canto dos olhos.
Isadora estava sentada ao lado de Koba, e ele a abraçava pelos ombros. Ao seu lado, Thomas segurava as duas mãos de Júlia em cima da mesa, e Maria Eduarda havia apoiado a cabeça no ombro de Pe Lu.
Todos os meus amigos felizes.
Aquilo era simplesmente ótimo. Éramos em oito, corações unidos, pro que der e vier.
Meus melhores amigos.
- Então, Lanza, já descobriu alguma coisa? – Maria Eduarda perguntou. Então abaixou a voz. – Do Gossip.
- John e Josh estão fora da jogada. – dei de ombros.
- Então sobraram James, Marcus e Ben? – Júlia perguntou.
- Aparentemente sim...
- Quem diria, eim? – Victória perguntou, ao meu lado. – No começo do ano estávamos ameaçando esses palhaços no Barney’s e agora estamos aqui, no baile de formatura deles, na mesma mesa, de mãos dadas e compartilhando segredos.
- Realmente, nunca imaginei que vocês pudessem ser tão legais. – Thomas concordou.
- É, e vocês tinham que ver os nossos apelidos para vocês. – Koba brincou.
- Sim, "As Megeras"! – eu disse, e todos nós rimos.
- Melhor que McLosers, certo? – Isadora provocou.
- Para vocês verem como as aparenças enganam... – Júlia disse.
- Mas isso não importa mais, certo? – Maria Eduarda perguntou. – Quero dizer, agora nós somos melhores amigos, não precisamos ficar revivendo o nosso passado sombrio...
- O seu passado sombrio, Duda, não fui eu quem chamou a professora da segunda série de "vaca menstruada". – Isadora riu, e Pe Lu cuspiu o que estava bebendo.
- Foi você! – exclamou. – Você é meu ídolo!
Por um bom tempo ficamos conversando na boa, como costumávamos conversar nas tardes depois da escola, no Barney’s. Alguns insultos, algumas histórias do passado, zoações... Como nos velhos tempos.
A música continuava no fundo, e eu podia sentir o olhar de todos na nossa mesa. Mas não era como se eu me importasse com aquilo. Era tudo besteira comparado à nossa amizade.
- Casais apaixonados, agora vamos tocar algo que talvez possa interessar. – o Dj interrompeu a música, anunciando no microfone. Quando percebi, todos haviam se levantado, e eu fiquei na mesa, sozinho com Victória.
A música começou. Let Me Take You There, do Plain White T’s.
- Adoro essa música. – ela disse ao meu lado, mais para ela mesma do que pra mim.
Virei meu pescoço, junto com o corpo inteiro, e peguei suas mãos. Ela levantou o olhar.
- Você me concede essa dança? – perguntei, cortês.
- Acho que não vai me matar. – ela sorriu.
Levantamo-nos e fomos para o meio da pista, de mãos dadas. Todos olharam, todos comentaram. Isso não nos impediu de continuar. Ela colocou as duas mãos no meu pescoço e eu a envolvi pela cintura. Apoiou sua cabeça no meu ombro, e eu pude sentir o cheiro do seu cabelo, doce.
Conforme dançávamos, eu tinha certeza de uma coisa.
Aquela seria, pra sempre, a nossa canção.
Victória fala:
I know, a place where we can go to,
(Eu conheço, um lugar que podemos ir,)
A place where no one knows you,
(Um lugar onde ninguém conhece você,)
They won’t know who we are!
(Eles não irão saber quem nós somos!)
Seus dedos seguravam firmes em minha cintura. Sua respiração batia costantemente em meu cabelo. Meus dedos escorregavam lentamente pelo seu cabelo. Nossos pés nos balançavam de um lado para o outro, sem ritmo e ritmados ao mesmo tempo. A batida da bateria nos levava de um lado para o outro. Nossos corpos, juntos, dançavam sem necessidade de ordens do cérebro.
I know, a place that we can run to,
(Eu conheço, um lugar do qual podemos correr para lá,)
And do those things we want to,
(E fazer aquelas coisas que queremos,)
They won’t know who we are!
(Eles não irão saber quem nós somos!)
- É a primeira vez que nós dançamos com música de verdade. – surrurrei, e ele soltou uma gargalhada gostosa.
- Está dizendo que eu não sei cantar, Hackmann? É isso que está dizendo? – ele perguntou, e apertou minha cintura. Ele afundei mais ainda minha cabeça em seu ombro, feliz demais para mantê-la firme.
Let me take you there!
(Deixe-me levá-la lá!)
I wanna take you there!
(Eu quero levá-la lá!)
- Não é nada disso... É só que dessa vez nós temos acompanhamento e pessoas em volta, dançando ao mesmo ritmo. – respondi, tentando me explicar.
- Para alguém que tem asma, Hackmann, você fala demais. – ele disse, e eu fechei os olhos.
I know, a place that we’ve forgotten,
(Eu conheço, um lugar do qual esqueçemos,)
A place where we won’t get caught in,
(Um lugar onde ninguém vai nos pegar,)
They won’t know who we are!
(Eles não irão saber quem nós somos!)
They won’t know who we are!
(Eles não irão saber quem nós somos!)
Continuamos a nos balançar lentamente. Eu sentia minha barriga quente e meus dedos estavam gelados em sua nuca. Ele continuava a respirar, me arrepiando.
Será que ele sabia o poder que tinha sobre mim?
Será que ele sabia o quanto eu o amava?
I know, a place where we can hide out,
(Eu conheço, um lugar onde podemos nos esconder,)
And turn our hearts inside out,
(E desligar nossos corações,)
They won’t know who we are!
(Eles não irão saber quem nós somos!)
- Você falar demais não significa que eu não gosto de ouvir você falar. – ele disse, depois de algum tempo em silêncio.
- Não é isso... – murmurei, emocionada de verdade pelo o que estava acontecendo. – Eu só quero guardar esse momento na minha memória para sempre. Não sei quando irá acontecer de novo...
Ele colocou a cabeça para trás, encostando sua testa na minha. Olhamo-nos fixamente, sorrindo como dois idiotas.
Let me take you there!
(Deixe-me levá-la lá!)
I wanna take you there!
(Eu quero levá-la lá!)
Let me take you there,
(Deixe-me levá-la lá,)
Take you there!
(Levá-la lá!)
Take… You there!
(Levá-la… Lá!)
- Não fale isso. – ele pediu, quase que implorando. – Eu não quero ter que pensar que podemos nos separar novamente. Eu quero ficar aqui para sempre, segurando você nos meus braços.
- Eu queria ficar aqui para sempre, sendo guiada por você, sentindo seu cheiro, sentindo seus braços, seu calor... – sibilei, num sussurro baixo. Ninguém em volta precisava saber de nós dois.
- Victória? – ele chamou. – O que você me disse ontem, ou hoje de manhã, tanto faz... Aquilo sobre estar apaixonada por mim... Isso é... Bom?
I know, a place we’ll be together,
(Eu conheço, um lugar onde vamos ficar juntos)
And stay this young forever,
(E permanecer jovens para sempre,)
They won’t know who we are!
(Eles não irão saber quem nós somos!)
- Lanza... – disse, saboreando seu nome entre meus lábios. – Isso é simplesmente maravilhoso. Eu não posso imaginar minha vida sem o que eu sinto por você, sem o que você exerce em mim... Seria algo impossível!
Ele deu aquele sorriso com o canto dos lábios que eu tanto amava.
Let me take you there!
(Deixe-me levá-la lá!)
I wanna take you there!
(Eu quero levá-la lá!)
Let me take you there,
(Deixe-me levá-la lá,)
Take you there!
(Levá-la lá!)
Take… You there!
(Levá-la… Lá!)
Então, sem mais nem menos, ele colocou as mãos em meu rosto e aproximou sua boca da minha. Beijou-me. Apertou seu corpo contra o meu, e eu deixei minhas mãos em sua nuca, puxando-o para mim.
“Ele está me beijando!” pensei, sentindo borboletas no estômago. “Na frente de todos!”
Era como se eu tivesse 12 anos de novo.
We can get away,
(Nós podemos fugir,)
To a better place!
(Para um lugar melhor!)
If you let me take you there!
(Se você me deixar levá-la lá!)
We can go there now,
(Nós podemos ir lá agora,)
‘Cause every second count,
(Porque cada segundo conta,)
Girl, just let me take you there,
(Garota, somente me deixe levá-la lá,)
Take you there!
(Levá-la lá!)
A música acabou. Nossos rostos se separaram, encontrando o salão inteiro nos olhando.
“Eu te amo tanto...” pensei comigo mesma, olhando em seus olhos.
- Eu também. – ele disse, contendo o sorriso.
Victória fala:
Eu não sei o que deu em mim. Porque, sério, que tipo de pessoa manda um cara escolher entre amor e sexo e se encaixa daquele jeito entre as pernas dele? Era de deixar qualquer um louco mesmo... Mas não posso mentir. Não sei se foi o efeito dos 3 drinks de absinto que tomei ou o episódio de mais cedo no quarto. Só sei que eu queria aquilo. E queria muito. Não sabia o que estava acontecendo comigo! Meu corpo formigava, meus músculos se contraíam, e eu só queria beijar Lanza e nada mais.
Ou quem sabe alguma coisa a mais...
Depois que ele me deixou ali sozinha e eu recobrei um pouco da minha coordenação motora que eu percebi o que tinha feito. Não tinha somente me insinuado para ele, mas tinha mexido com a sua cabeça. Se ele tinha tomado alguma decisão, naquele momento, enquanto eu colocava meu vestido, poderia ter mudado-a. Então eu percebi que tinha estragado as coisas. Ou melhorado-as. Não tinha como saber.
O jeito foi me levantar, ainda meio zonza, e procurar a saída daquele labirinto.
Às vezes a vida era mesmo engraçada...
Lanza fala:
- Lanza, onde você estava? Nós estamos te procurando há algumas décadas. – Koba perguntou, me encontrando sentando no sofá da sala, no meio de um monte de pessoas que eu não conhecia. Eu não estava conversando com ninguém, embora todos me olhassem com curiosidade. Na verdade, estava afudando na almofada, com uma garrafa de vodka na mão, olhando para o nada.
Era difícil se concentrar nos meus pensamentos quando todos estavam gritando na minha orelha sobre como aquela festa estava animal ou sobre como Ben havia se trancado no banheiro com três garotas. Mas eu meio que me desliguei de todo aquele barulho, só sentindo a batida da música. Olhando de fora eu deveria estar patético, mas olhando de dentro, a sensação era boa. Era bom nem sequer ouvir os problemas.
Olhei para cima e vi Koba parado, olhando para mim de um jeito engraçado.
- O que você tá fazendo aqui com essa cara de idiota? – ele gritou por cima das vozes e música, se abaixando para ouvir melhor minha resposta. Um pouco da sua cerveja caiu na minha calça jeans, mas ele não pareceu perceber. Contra minha vontade, abri a boca para responder.
- Estou... Refletindo.
- Então vamos refletir lá fora, a Vic tá passando mal. – ele pediu, virando as costas para mim. Quase que na mesma hora, me levantei e corri atrás dele, que se dirigia para a cozinha. Passei correndo pelas pessoas, mas esbarrei sem querer em alguém. A garota, que reconheci pelos peitos como sendo Katy Springs, sorriu de atravessado pra mim, e eu a ignorei. Continuamos a atravessar o corredor de pessoas e saímos para os jardins do fundo, quase deserto, exceto por Koba, Isadora, Pe Lu, Maria Eduarda, Thomas, Júlia e Victória, que parecia completamente sóbria e controlada, diferente da última vez que a vira.
- Ela não...? – sussurrei para Koba, apontando minha cabeça para Victória.
- Não. – ele respondeu, dando de ombros. – Me pediram pra te trazer aqui fora e eu sei que se falasse que ela estava passando mal você viria na hora.
- Seu desgraçado! – exclamei, agora próximo demais para voltar.
- Olha só quem resolveu aparecer. – Thomas exclamou, me dando um abraço apertado. – Lanza-medito-na-sala-Lanza Reis!
- Thomas? – chamei baixinho, sem ar. – Thomas? – de novo, e ele não me ouviu, um pouco bêbado demais. – THOMAS? – gritei, e ele finalmente me soltou.
- Desculpa, Lanza, esqueci que você é sensível. – ele deu de ombros, tomando um gole da sua cerveja.
As meninas conversavam entre sussurros, um pouco mais afastadas, mas eu tinha quase certeza que fofocavam sobre alguém. Já os dudes conversavam sobre o vídeo do Lemuri. [N/A: O vídeo mais engraçado do MUNDO! O bixinho fica na bad dude! http://www.youtube.com/watch?v=uF7EgcetIaI] Eu não conseguia olhar para Victória sem sentir meu rosto esquentar. E toda vez que passava meus olhos por ela, a via vermelha.
Podia entender. Eu ainda não havia terminado com Bella justamente porque ela liberava pra mim. E quando Victória decidiu fazer o mesmo, eu dei pra trás. Ela tinha todos os motivos para se sentir envergonhada na minha presença. Eu me sentiria. Porra, eu havia dado um fora legal nela. Como se eu não quisesse aquilo mais do que tudo no mundo!
E, na verdade, além de ela estar bêbada, eu não sabia exatamente porque tinha feito aquilo.
Ou sabia? Porque, bem, confesso que bem no fundo, eu estava com medo. Mas não conseguia admitir isso para mim mesmo. Medo? De ficar com a menina que eu gostava? Aquilo era muito estranho...
Então era oficial: eu precisava encher a cara.
Olhei em volta, à procura de uma garrafa de vodka abandonada. Não dei a mesma sorte.
- Vou voltar para pegar minha... Carteira. – anunciei para os guys, que agora imitavam o lemuri e riam sem parar.
- Não sabia que vodka tinha mudado de nome. – Pe Lu gritou para me provocar, mas eu só mostrei o dedo do meio enquanto caminhava para dentro da casa.
Como estava no jardim dos fundos, entrei pela porta que dava para a majestosa cozinha rústica. Logo que entrei, dei de cara com uma garrafa de Absolut pela metade.
- Isso! – comemorei sozinho, indo até a garrafa como se ela estivesse me puxando. – Vem pro papai! – murmurei, pegando a preciosa em minhas mãos.
- Falando sozinho, Lanza Reis? – uma voz de homem mafioso perguntou atrás de mim, mais próximo do que o permitido entre homens.
- Ai, porra! – soltei a garrafa no chão e me virei. Descobri que quem estava falando comigo era Marcus, e agora estávamos de frente um para o outro. E ele estava mais próximo do que imaginei.
Quando pensei que tudo estava perdido, ele se agachou e pegou a garrafa com refelxos ninjas, antes dela tocar o chão.
- Cacete, cara, você me deu um puta susto!
- Perdão. – ele sorriu, levantando-se e estendendo a garrafa para mim. Peguei-a com certa rapidez, desconfortável com sua proximidade. – Não quis te assustar.
- Tudo bem... – respondi, dando um passo para trás, encontrando a bancada de mármore da cozinha. Marcus deu um passo para frente, e agora eu não tinha mais para onde fugir. – Hm... – pigarreei, olhando para os dois lados. Uma gota de suor nervoso escorreu em minhas costas. Marcus não tirava os olhos da minha boca e eu queria sair dali.
Rápido.
Quero dizer, era bem estranho ter um cara olhando pra sua boca. Principalmente porque ele estava quase encostando em você. E vocês estavam sozinhos na cozinha. Ah, e ele era gay. Assumido.
- Vai beber essa garrafa sozinho? – perguntou, com um sorrisinho desprezível no rosto. Senti meu estômago se revirar, e pelo o que pude absorver das aulas de biologia, ele fazia movimentos peristálticos ao contrário.
Dude, aquilo estava mesmo acontecendo? Marcus estava mesmo dando em cima de mim na cara dura?
Eca!
- Era o plano. – respondi, me locomovendo lentamente para o lado. – Ou com os caras, mas eles são machos! – me ouvi dizer, não conseguindo mais parar de falar besteira. – Ou com uma garota. Ou quem sabe com várias garotas! Porque eu sou homem. E é isso que nós, homens, gostamos. Garotas. – um silêncio constrangedor se instalou. Pigarreei novamente, não sendo capaz de calar minha maldita boca. – Não é, amigão? – dei um soco com mais força que o necessário em seu ombro.
Ele riu.
- É uma pena... – suspirou teatralmente. – Se você não tivesse companhia, poderíamos beber juntos.
A essa altura, eu já estava na ponta da bancada, o mais longe possível dele.
- É... – concordei, sentindo náuseas só de pensar naquela possibilidade. – Bom, foi legal conversar com você. – estendi a mão e ele permaneceu estático, olhando para os meus dedos pálidos estendidos. Puxei o braço para ao longo do corpo, sem graça, segurando meu punho com a outra mão e indo para frente e para trás, procurando algo para dizer. Só consegui pronunciar um: - Falou.
Saí dali como um fantasma, branco de nojo, sentindo os olhos de Marcus me seguirem.
Aquilo, com certeza, fora a coisa mais estranha que já acontecera em toda minha vida.
Victória fala:
- Que horas são? – perguntei, deitando na grama molhada ao lado de Harry. Só eu e Maria Eduarda estávamos em pé, enquanto todos os outros estavam deitados. Lanza ainda não havia voltado de dentro da casa, então eu podia relaxar. Quero dizer, era bem chato ficar vermelha toda vez que olhava de relance para ele. Eu já estava me sentindo péssima depois do que tinha feito, e não precisva ficar me torturando, esperando Lanza voltar para me culpar mais um pouco. Então decidi me deitar.
- Quase 5:30. – Thomas respondeu, guardando o celular no bolso.
Respirei fundo, sentindo o aroma de pinho.
- Eu adoro essa hora. – murmurei. Todos permaneceram em silêncio, como um incentivo para continuar. Fechei os olhos e senti alguém se deitar do meu outro lado na grama molhada. Provavelmente era Maria Eduarda, então nem me dei ao trabalho de abrir os olhos. – A atmosfera fica úmida, o céu é escuro e claro ao mesmo tempo, as estrelas começam a desaparecer, mas mesmo assim ainda brilham... É como se estivéssemos no paraíso.
Thomas se remexeu ao meu lado, e Maria Eduarda estava imóvel do outro.
- Também gosto disso tudo. – Isadora disse na outra ponta. Todos os outros murmuraram um “é” em concordância, e eu pude jurar que ouvi a voz de Maria Eduarda ao lado de Thomas. Mas devia ser o efeito da bebida, que ainda não havia passado completamente.
- O melhor de tudo é que estamos com quem gostamos. Porque, de que adianta poder presenciar tudo isso e não poder compartilhar com os amigos? – Júlia disse.
- E com o namorado! – Koba reclamou, e ouvi ele e Isadora darem um selinho.
- Eu amo vocês! – exclamei, não me contendo. Fui recebida por uma série de “owns!” e tapinhas na cabeça. Mantive os olhos fechados, e Maria Eduarda segurou minha mão. Achei estranho; nunca havia reparado que sua mão era grande.
- Eu também te amo, Vic! – Pe Lu gritou do outro lado. – E você também, Duda!
- Eu te amo, Munhoz! – Maria Eduarda respondeu, mas não de onde pensei que responderia. Ela gritou isso do outro lado de Thomas.
Abri meus olhos num estalo.
Virei-me para o lado, e meus olhos não acreditavam no que viam. Ali, deitado de lado, de olhos fechados, Lanza segurava minha mão. Senti a mesma começar a suar. Abri minha boca para dizer algo, mas não consegui. Não queria estragar aquele momento. Poderia ser a última vez que daria as mãos para Lanza. Depois daquele churrasco, tudo iria mudar.
Deitei-me novamente, ainda espantada com aquilo.
Lanza não soltou minha mão.
- Eu também amo vocês. – ele murmurou, com a voz rouca.
Nos meus sonhos, ele continuaria, dizendo “e amo a Vic!”, assim como Pe Lu fizera. Então eu sorriria sozinha, com borboletas no estômago, e responderia, em um sussurro “Eu também te amo, Lanza Reis!”
Isso não aconteceu.
Mas eu sentia que algum dia aconteceria. E enquanto deixava minha mão mole em sua mão quente e grande, pensamentos de um futuro não muito longe passaram como um filme em minha cabeça.
Entrelacei meus dedos nos deles, que continuou imóvel.
Talvez a felicidade fosse mesmo formada de pequenos momentos...
Lanza fala:
Acordei com as costas molhadas. Não era pra menos. Dormir na grama molhada costumava, bem, molhar sua roupa. Meu pescoço doía e meus braços latejavam. Somente minha mão direita parecia estar [N/A: “Numa nova era...”] normal. Mais do que normal... Estava quente, devido os dedos de Victória entrelaçados aos meus.
Como algo tão banal, como dormir na grama de mãos dadas com alguém, podia ser tão gostoso?
A nuvem branca e espessa que cobria o Sol saiu preguiçosamente da frente dele, e os raios atingiram meu rosto. Franzi a testa e deixei meus olhos semi-abertos. De repente, meu celular começou a vibrar dentro do bolso. Demorei a assimilar que aquele barulho era do meu celular, e quando finalmente o peguei, uma chamada não atendida de Bella brilhava na tela. Primeiro, fechei-o para ver que horas eram, e tomei um susto ao ver que já se passavam das 14h. Olhei para o lado e todos pareciam dormir tranquilamente na grama, uns em cima dos outros. Só Victória parecia estar [N/A: “Numa nova era...” HAHAHA, parei, prometo!] afastada deles, com o ombro encostado no meu. Tinha um leve sorriso nos lábios, como se estivesse tramando um plano diabólico. Fiquei um bom tempo admirando-a, e só fui interrompido por meu celular, que voltava a tocar, agora na minha mão esquerda. Olhei no visor. “Bella cel”.
Merda!
Esperei um pouco, rezando para ele parar. Ele parou. Mas mal pude suspirar de alívio que ele recomeçou a vibrar.
Merda!
Não tinha saída...
Contra minha vontade, soltei nossas mãos e me levantei. No lugar do calor entre os dedos, senti frio.
Caminhei entre os corpos adormecidos no chão e fui para o outro lado. Desviei das muitas plantas que impediam minha visão, mas logo cheguei na frente da casa, onde algumas pessoas tiveram a mesma ideia e dormiram ali mesmo. Desisti de ir para a frente da casa e voltei, ficando entre as plantas, num canto escondido. Finalmente pude atender o telefone.
- Oi, amor! – exclamei, tentando parecer normal. – Tudo bom?
- Finalmente, eim Pedro Gabriel!? – ela esbravejou. – Você acha que eu não tenho mais o que fazer, né!?
- Desculpe, eu estava dormindo. – repliquei, mas não deixava de ser verdade.
- Enfim... Fiz reserva no Ritz para nós dois hoje à noite. Me pega às 20h?
- Ok.
- Ótimo! Estarei te esperando. – ela exclamou, sua voz ficando mais animada. – Até à noite! – então ela fez uma pausa, e eu sabia o que viria a seguir. Eu sabia, mas mesmo assim não fiz nada para impedi-la. – Eu te amo, viu!?
- E-eu... – gaguejei, ficando nervoso. Então a coisa saiu, antes que eu pudesse me dar conta da merda que estava fazendo. – Também te amo, Bella!
Desliguei, me sentindo mais uma vez péssimo. Mas eu simplesmente não conseguia magoá-la assim! Não podia simplesmente jogar na sua cara que eu estava com ela sem realmente gostar dela. Era algo indecente para mim. Eu preferia mentir a magoar alguém daquele jeito.
Ouvi um barulho atrás de mim, e me virei pelo reflexo. Victória estava parada ali, respirando fundo.
- Vic! – exclamei, feliz em vê-la. Mas ela não sorriu.
Há quanto tempo ela estaria ali, ouvindo a conversa?
- Você... – começou, apertando os punhos. – Não vale nada. Absolutamente NADA! Eu tenho nojo de você.
Quando ela se virou, eu estava tremendo da cabeça aos pés. Não conseguia mais me conter. Corri atrás dela e peguei seu braço, forçando-a a se virar. Ignorei seu “ai” e a segurei pela cintura.
- Escuta aqui, garota mimada, eu não tenho obrigação de fazer o que você manda! Se eu vou terminar ou não com a minha namorada é uma decisão minha! – nossos olhos queimavam de ódio, fixos uns nos outros. – Eu estou cansando dos seus joguinhos, cansado dessas brigas! Eu vou decidir o que EU quiser na hora em que EU quiser! Se depois disso você ainda estiver disposta a voltar pra mim e tentar de novo, ótimo! Se isso não acontecer, beleza, eu supero! Só não quero que você me manipule do jeito que vem fazendo! – soltei sua cintura, com medo de machucá-la, tamanho era meu ódio naquele momento. – Eu não quero mais tomar decisões porque acho que você vai gostar. Eu só quero... – respirei fundo, vendo seus olhos marejarem. – Só quero tomar decisões que eu acho boas pra mim. Só isso.
- Tudo bem, Lanza. – ela respondeu, respirando fundo. – Eu não vou mais te pressionar. Mas também... – ela parou, talvez pensando no que estava prestes a dizer. Mas então ela simplesmente disse. – Se eu não estiver mais te esperando no final de tudo, não me culpe. Não se culpe... Somente pense que o que nós tivemos foi a coisa mais especial do mundo, mas que as coisas não eram para ser... Sabe, acho que você vai ser pra sempre o meu primeiro e único amor... Mas pra tudo dar certo, nós temos que ter mais do que somente o amor. Nós temos que tentar, tentar e tentar de novo. E isso não é algo que nós estamos acostumados a fazer.
Ao acabar, seu rosto estava vermelho e contorcido numa careta esquisita.
Então ela se virou e caminhou com passos firmes para longe dali.
E eu caminhei com as pernas bambas até me apoiar na parede e escorrer até o chão. No começo pensei que fosse só loucura minha, mas quando percebi, estava chorando. Não chorando baixinho, mas chorando de soluçar. Meus ombros estavam pesados, minha língua enrolada. E eu só queria ficar ali para sempre, chorando. Não queria que ninguém me visse daquele jeito, mas era mais forte que eu. As lágrimas escorriam sem o meu consentimento. Eu estava mais triste do que nunca havia ficado antes. Era uma mistura de tristeza, raiva, amor, saudades... Por que eu tinha que ser tão imbecil!? Por que eu não podia simplesmente acabar com toda minha angústia!?
Uma lágrima salgada escorreu, terminando em meus lábios.
O que eu tinha feito?
Victória fala:
Um mês depois.
Depois daquele conversa, eu acordei Koba e fiz ele me levar de volta para casa. Não queria mais ficar ali, não conseguia mais ficar na presença de Lanza. Mas não podia prever que nada mais seria o mesmo, podia? Bem, não foi. Quero dizer, tudo meio que virou uma loucura nas nossas vidas. Naquela semana, nós entramos em provas, e as preparações para o baile começaram. O McFLY estava cada vez mais famoso, e cada vez mais presos no estúdio ou na gravadora. Então estávamos todos malucos, de um lado para o outro. Agora Agosto estava acabando, e primeiro de Setembro se aproximava. Nas poucas vezes que via Lanza, ele estava inquieto e agitado, provavelmente nervoso, querendo saber quem poderia ser o ou a Gossip que estava querendo destruir sua vida e carreira. Bom, se eu fosse ele estaria preocupada também. Quero dizer, não era todo dia que alguém ameaçava acabar com sua carreira, que você tanto lutou para construir.
E, por falar em Gossip, esse ou essa não tinha mais dado o ar da graça. Desde a última foto e a dica do baile, havia desaparecido. A escola inteira estava oriçada, querendo saber quem era, pra quem ele dava aquelas pistas e o que iria acontecer no baile de primeiro de setembro. Até os nerds, que nunca iam a esses bailes, pretendiam ir, para ver o babado do ano.
Se ele ou ela queria causar polêmica, bem, estava conseguindo.
Meu pai não tentara mais se aproximar, e toda vez que via Ryan nos corredores, mudava de direção.
E assim caminhava a humanidade.
OK, a quem eu estou tentando enganar? Eu estava morrendo de medo das coisas terminarem daquele jeito! Você sabe como. Mornas, esquecidas, com os assuntos mal resolvidos. Porque eu queria muito fazer as pazes com a minha família. Queria muito ser amiga dos meninos para sempre, e que eles nunca se esquecessem de mim, pois já eram parte da minha família! Queria poder ir ao baile com alguém que gostasse, e não Josh, que havia me convidado uma semana antes. Queria saber logo quem era o ou a Gossip para poder gritar em sua orelha todos os palavrões que eu estava guardando na garganta. E queria, mais do que tudo, que Lanza terminasse com Bella e ficasse comigo de uma vez por todas.
Prontofalei.
- Victória, você está ao menos me ouvindo? – Maria Eduarda perguntou, estalando o dedo no meu rosto. Pisquei os olhos, atordoada. Ela estava falando sobre algum vestido que havia visto em alguma loja e que estava louca para ir com ele no baile. Quando começou a falar sobre as alças dele eu comecei a viajar. Agora voltava a vida. – Porra, você está muito esquisita essas dias! O que aconteceu!?
Sorri vagamente.
- Não... – murmurei, e ela me olhou, confusa. – Eu não estava te ouvindo.
Lanza fala:
- Lanza! Ensaio em meia hora. Fedelso está esperando no estúdio, vou agora pra ver algumas coisas antes. Não demora. – Harry gritou do andar debaixo. Ignorei, ainda olhando fixamente para a tela do computador. Pela primeira vez em toda a história do blog, uma foto minha com Victória. Só nossa. Sem mais ninguém para estragar.
Era a foto mais legal que eu já tinha visto.
Na verdade, quem tirou a foto, focalizou nossos ombros encostados e nossas mãos cruzadas enquanto dormíamos. Era como se a pessoa estivesse torcendo pela nossa felicidade, como se ela pudesse sentir que sim, o que nós sentíamos um pelo outro era amor. Aquela foto era simples, bonita e, o melhor de tudo, nossa.
Bom dia minhas jurupingas!
Hoje venho com uma notícia ruim e uma notícia boa. A notícia ruim é que esse pode ser meu último post. Mas vejam bem, PODE ser. Porque se meu querido não descobrir quem eu sou, esse blog terá longa vida! Haha. Bom, a notícia boa é que eu vou estar no baile! Sim, meus queridos, vocês vão poder me ver de fraque preto e gravata na testa ou vestido curto mostrando as coxas torneadas. Então, quem eu sou!? Homem ou mulher? Alto(a) ou baixo(a)? Gordo(a) ou magro(a)? Peituda ou gostoso? Vocês vão saber isso esse fim de semana! Não é emocionante? Então rezem para que ‘o escolhido’ descubra quem eu sou. Se não, bye bye revelação bombástica!
Bom, se tudo acabar aqui, preciso me despedir, certo? Então... Foi um ótimo ano, cheio de emoções, intrigas e fofocas no Colégio Norbert. Sempre adorei uma fofoca, e posso dizer que esse ano vai entrar pra história! 2005 foi O ano. Restart surgiu, as Megeras vieram para o lado negro da força, muitos namoros, rolos, fotos e festas. Ah, as festas... Nunca vou me esquecer, de nenhuma delas! Resumindo tudo: foi o melhor ano de nossas vidas. Agradeço especialmente Maria Eduarda, Pe Lu, Júlia, Thomas, Isadora, Koba e, claro, Victória e Lanza. Vocês me proporcionaram o ano mais louco da minha vida, e agora eu sei o que quero fazer da minha vida. Ser jornalista investigativo(a)!
Acho que é só isso. Sei que o post ficou pequeno, mas na vedade estou contando com a não descoberta. Quero dizer, acho que ninguém nunca desconfiou da minha pessoa.
Fico por aqui, e deixo um beijo para todos!
E se eu não vê-los novamente...
...Beijomeliga!
E vocês já sabem: “You can always google it!”
P.s.: Lanza e Vic na foto. Se não fosse uma foto tão carregada de segredos, poderia ser bonita, não acham?
P.s.2: Hey, você. Você mesmo. Ansioso pra me conhecer?
- Lanza, estou indo. – Koba bateu na porta aberta. – Vem comigo?
- Sim. – murmurei, fechando o laptop.
Aquela foi a despedida silenciosa do Conte Seu Babado.
Victória fala:
Pra cima, pra baixo. Pra cima, pra baixo. Pra cima, pra baixo. Pra cima, pra ba...
Toc toc toc.
Ignorei.
Pra cima, pra baixo. Pra cima, pra baixo. Pra cima, pra baixo. Pra ci...
Toc toc toc, TOC!
“Merda!”
Deixei a caixinha de fósforo que estava jogando para cima de lado, e fiz um esforço imenso para me levantar do sofá. Estava sozinha em casa, pois os meninos haviam saído mais cedo para ensaiar. Caminhando lentamente para a porta, me lembrei que vi Lanza pela primeira vez na semana inteira saindo de casa com Koba. Nós não nos falávamos desde o churrasco, e eu pensei que assim continuaria. Mas antes de sair, ele me olhou, deitada no sofá, e murmurou: ‘Tchau, Vic!’. Eu não respondi, mas estaria mentido se dissesse que não passei a tarde inteira revivendo aquela cena. E agora alguém estava ali, atrapalhando minhas ilusões.
Girei a maçaneta.
Sabe quando você espera TUDO, menos o que acontece a seguir, e seu queixo cai involuntariamente? Então, foi o que aconteceu quando eu vi Ryan parado na minha porta, segurando-a, para que eu não a fechasse. Não que eu fosse fazer isso. Eu meio que fiquei sem reação.
- Oi. – ele ofegou, como se tivesse vindo correndo. – Oi, Victória.
- Hm. – murmurei, colocando a mão na cintura. – O que... O que você está fazendo aqui!?
- Posso entrar? – perguntou, ignorando minha pergunta. Sem que eu pudesse responder, ele entrou em casa. Mas estava sem sua arrogância de sempre. – Podemos conversar?
Acho que eu estava atordoada demais para negar, e a próxima coisa que eu vi foi Ryan sentando-se no sofá e pegando um maço de cartas da mochila.
Fiquei ali, olhando para ele abobalhada.
- Eu... O que... Você... – gaguejava, enquanto ele fingia não me ouvir, abrindo uma das cartas. Respirei fundo. – O que exatamente você quer comigo, Ryan?
Ele somente respirou fundo e começou a ler a carta.
- “Amsterdã, 18 de Agosto de 1997 – 15:57, meu novo quarto.
Oi, maninha, tudo bom!?
Papai me disse para eu te escrever. Ele disse que ele e a mamãe brigaram, porque ele queria mudar pra cá e a mamãe não quis! Então ele me trouxe com ele, porque ‘homens tem que ficar juntos’. Mas tudo bem, aqui é bem legal! A única coisa ruim é que eu vou ficar sem você... Mas o papai me prometeu que nós vamos nos ver todos os meses! Não é legal!?
Chegamos aqui ontem. Você precisa ver nossa casa nova! Ela é gigante, e tem um campo de futebol! Mal posso esperar para você vir aqui jogar artilheiro comigo! Tenho certeza que ainda te dou uma surra!
Eu não entendo a língua que falam aqui, mas papai disse que eu vou fazer amigos na escola nova e vou aprender. Mas eu não quero amigos novos. Eu quero jogar bola com Mike e Timmy! Mas tudo bem, eu já mandei uma carta para eles também.
Opa, preciso ir! Acho que papai botou fogo no terno novo!
Um beijo!
P.s.: Papai está te mandando um beijo!
P.s.2: Mal posso esperar a hora de te mostrar nossa cozinha! Do jeito que você é gorda, vai adorar!”
Minhas pernas tremiam. Ryan pegou outra carta e começou a ler, com a voz trêmula.
- “Amsterdã, 27 de Outubro de 1998 – 20:03, quarto do papai.
Você ainda não me respondeu, mas tudo bem, você deve estar ocupada, mas, bom faz mais de um ano. Gostaria de ouvir como você está. Estou com saudades, maninha!
Papai me disse que você e mamãe saíram de féria. Isso é verdade? Espero que vocês estejam se divertindo! Aqui está tudo bem. Meus amigos iam fazer uma festa surpresa pra mim, mas eu descobri, então agora nós só vamos jogar paintball e comer pizza na casa da Sharon – já falei dela em outras cartas. Acho que ela gosta de mim. Semana que vem eu vou ver ela na casa do Brian. O que eu posso usar? Me ajuda, maninha, preciso de suas dicas femininas para isso!
Queria que você me respondesse logo, maninha. Estou morrendo sem você aqui! Com quem mais eu posso atacar a geladeira às 3 a.m.?
Um beijo!
P.s.: Papai está mandando um presente pra você. Não vou dizer o que é, mas acho que você vai adorar!”
- Ryan... – minha voz falhou, e enquanto ele abriu o penúltimo envelope do bolo. – Ryan, eu... – lágrimas se formaram embaixo dos seus olhos, e um nó se formou em minha garganta.
- “Amsterdã, 11 de Abril de 2004 – 00:23, garagem.
Qual o sentido disso tudo? Sério, Victória, por que você não respondeu NENHUMA das minhas cartas? Quero dizer, vocês mudaram o telefone, não atendem o celular, não respondem e-mails e muito menos cartas. Porra, nós vivemos, em média, 80 anos. Por que desperdiçar 7 anos sem falar com quem mais se ama? Eu sinto sua falta e da mamãe, Victória. Eu só queria saber se vocês estão vivas... Porra, eu escrevo pra vocês todas as merdas dos meses há 7 anos. 7 ANOS, ! Tem ideia de como isso é desgastante? Eu só consigo pensar em você, me perguntar se você está bem, se está se alimentando bem, se mamãe está feliz, se vocês estão precisando de dinheiro, se algum canalha está te magoando... Por que diabos vocês não respondem, eim!? Eu sei que o endereço é o mesmo. Mike me disse que vocês ainda moram aí. Ele se ofereceu para ir até aí, mas eu não quero que vocês se lembrem da família por um estranho.
Isso tudo não foi uma escolha minha, sabe? Agora que estou mais velho eu entendo. Nossos pais não se amavam mais. Eles não estavam mais felizes juntos. Tudo isso foi melhor para eles. Então por que nós simplesmente esquecemos que nossos velhos existem e você volta a ser minha irmã e melhor amiga? Porque, sinceramente, eu estou definhando sem você. Meus amigos estão começando a achar que eu estou em depressão, e Sharon, minha namorada caso você não saiba, está ‘preocupada com minha saúde mental’. Então vê se me responde, se não quer ver seu irmão caminhar para o fundo do poço.
Um beijo,
Ryan.”
- Pára com isso. – pedi, baixinho. Mas ele já abria a última carta do maço, sem se importar comigo. Agora ele chorava, soluçando entre as palavras, e as lágrimas dos meus olhos caíam pelo meu rosto.
- “Amsterdã, 15 de Maio – 8:45, sala de embarque.
É isso. Estamos voltando. E é melhor você ter uma ótima explicação para toda essa palhaçada. Eu passei 8 anos sem você, mas não vou admitir que você não me explique toda essa raiva idiota.
Você sabe como eu sou péssimo sem palavras, mas eu não saio daí sem algumas respostas.
Até mais,
Ryan.”
Ele jogou essa última carta no chão, enterrando o rosto nas mãos, soluçando e balançando os ombros. Eu também chorava, silenciosamente.
Andei até o sofá onde ele estava, com uma força maior que eu me impulsionando. Sentei ao seu lado. Por um instante, fiquei ali, chorando. Depois, não aguentei. Envolvi seu ombro com meus braços e afundei a cabeça com força em seu pescoço. Então ele se virou e me abraçou, enterrando minha cabeça em seu peito. Agarrou minha camiseta com força e me pressionou contra seu corpo, tremendo freneticamente. Era um sentimento incrível. Há quanto tempo nós dois queríamos fazer aquilo? Oito anos! Oito solitários anos sem meu irmão acabavam ali.
Como eu consegui ficar longe dele tanto tempo?
- Eu escrevi, Victória! Eu escrevi todo esse tempo! Me perdoa, por favor, me perdoa! – ele chorava, me apertando contra seu corpo.
- Eu não sabia! – exclamei, soluçando. – Eu nunca soube! Se eu soubesse, teria te escrevido, Ryan! Você sabe disso, não sabe!? – perguntei, e ele afirmou com a cabeça encaixada em meu ombro. – Eu te perdoo, claro que eu te perdoo! Eu senti tanto a sua falta, Ryan!
- Eu te amo, maninha! – ele sussurrou.
- Eu também te amo, maninho! – exclamei, sem me soltar dele. Ficamos abraçados um bom tempo, chorando. Era daquilo que precisávamos para nos perdoar.
Finalmente tudo estava bem entre nós dois.
Capítulo 28 – Chegou a hora de recomeçar.
Victória fala:
- Nunca pensei que ela poderia ser capaz disso. – murmurei, ainda aninhada nos braços do meu irmão, que acariciava meu cabelo. – Quero dizer, eu confiei nela a minha vida inteira, e ela escondeu de mim a única coisa que me manteria ligada ao meu próprio irmão!
- Eu também pensava assim, Vic. – ele disse, sereno como sempre fora. – Cheguei a pensar que ela não me queria mais, que ela não queria que eu fosse seu filho. Mas nós também temos que entender o seu lado! Eles não se amavam mais, e viviam brigando. Você não deve se lembrar, nunca estava em casa quando eles brigavam. Mas eu me lembro. Eu ouvia e via tudo, Victória, e, se para aquele inferno acabar foram necessárias medidas drásticas, era melhor para eles e para nós também! – ele suspirou. – O seu único erro foi tentar nos separar também, como se nossa família fosse feita de lados.
- E papai? – perguntei, me sentindo mal por tê-lo tratado tão mal. – Onde ele está?
- Teve que voltar para Amsterdã. Eu estou hospedado em um hotel no centro. Ele me pediu para dizer a você, se eu conseguisse, claro, que ainda a ama muito, como nunca deixou de amar. E disse que semana que vem ele volta pra esclarecer toda essa história com você e com a mamãe.
Ficamos algum tempo em silêncio, como nos velhos tempos, quando, depois de brigar, pedíamos desculpas um ao outro e ficávamos quietos, como se quiséssemos ter certeza que a briga havia acabado.
- É bom ter você de volta, maninho. – disse, sorrindo sem perceber.
- É ótimo ter você de novo, maninha. – ele concordou, dando um peteleco no meu nariz. – Mas e aí, quer ver se ainda pode me derrotar no vídeogame?
- Como se algum dia você fosse me vencer! – exclamei, pulando do sofá e ligando o vídeogame de Koba.
Era bom ter o meu irmão de volta.
Lanza fala:
Abri a porta sem fazer barulho. Pensei que àquela hora, Victória não estaria mais na sala. Mas me enganei, ao esbarrar nela, que estava deitada no sofá assistindo desenho animado. As imagens coloridas da Tv faziam seu cabelo mudar de cor, e isso era meio que engraçado.
- Desculpe. – murmurei, e não obtive resposta, o que era estranho. Ela geralmente teria me xingado. – Victória? – olhei para baixo, curioso. Ela dormia tranquilamente.
Depois do ensaio, eu fora para o apartamento de Bella. Passei o dia e a noite lá, fazendo você sabe o quê. Agora estava voltando, e me sentia igual ou até mesmo pior do que antes de sair. Eu estava vazio.
Nos últimos dias estava me sentindo assim. Era como se toda minha felicidade estivesse guardada em algum lugar, ou... Em alguém.
Olhei para Victória, desfalecida no sofá, e uma onda de calor invadiu meu corpo. Sentei-me ao seu lado, tomando cuidado para não acordá-la. Ela dormia profundamente, respirando pela boca semi-aberta, com algumas mechas de cabelo no rosto. Afastei os fios com os dedos, sentindo sua pele quente em meus dedos. Ela se revirou, encostando o braço em meu joelho.
Só com a simples visão dela dormindo, o sangue voltava a circular pelo meu corpo.
Já estava na hora de dar um basta naquela história. E depois de tanto tempo perdido, depois de tanto pensar e sofrer, depois de bater na mesma tecla por meses, foi ali, sem mais nem menos, que tomei minha decisão.
No dia seguinte.
Acordei de bom humor. Era quinta-feira, e sábado era o grande baile. Não tinha a mínima ideia de quem era o/a Gossip, mas eu não me importava. A única coisa que eu queria era acabar com o que eu nunca deveria ter começado. Se as ameaças do(a) Gossip iam se tornar verdade ou não, eu não me importava mais.
Abri a janela e o Sol nascia.
Sabe, a única coisa boa de acordar cedo era ver o céu se transformar de azul escuro para laranja claro, como se alguém pegasse um pincel e mudasse as cores de um quadro de acordo com o seu humor.
Alguém bateu na porta.
- Lanza, 5 minutos. – Pe Lu grunhiu, sonolento.
- Tudo bem, Pe Lu, eu não vou para o colégio hoje. – respondi, tirando meu pijama pela cabeça. – Pede desculpas para os meninos do time, mas não vou poder jogar bola hoje.
- Tá. – murmurou, com sono demais para saber o motivo da minha ausência.
Envolvi uma toalha na cintura e estava prestes a entrar no banheiro quando Victória entrou correndo no meu quarto.
- Lanza! – ofegou. – Você viu meu uniforme? Já procurei pela casa inteira e não acho, e tenho prova na primeira aula!
Ela estava com o cabelo molhando e uma toalha enrolada em volta do corpo, assim como eu. Mas no seu caso, já havia tomado banho.
Minha boca se abriu em um sorriso maroto e ela ficou vermelha.
- A última vez que eu vi estava no quarto do Koba, em cima da caixa de pizza. – respondi, sem tirar os olhos das suas pernas.
- Valeu. – ela murmurou, envergonhada, e se virou para sair do quarto.
- Vic!? – a chamei, e ela parou de costas para mim. Respirei fundo. – Você ainda está disposta a me aceitar de volta?
Ela hesitou por um momento.
- Talvez. – respondeu, saindo apressada.
Bom, aquele era um risco que eu precisava correr.
Depois de tomar banho e café, me vi dirigindo para o centro com a Eco de Pe Lu. Parei em frente a um luxuoso apartamento, rodeado de peruas passeando com seus totós. Estacionei o carro e fui até a portaria, enquanto algumas pré-adolescentes se cutucavam e apontavam pra mim. Aquilo estava ficando constante, mas eu não me importava. Era até divertido ver que as pessoas me reconheciam na rua. Quero dizer, era tudo o que eu mais queria, certo? Era com o que eu sonhei a vida inteira. Fama, reconhecimento, dinheiro e rock ‘n roll.
- Bom dia, sr. Lanza Reis! – Andrey, o simpático porteiro de, no máximo, 20 anos, me cumprimentou.
- Pelo amor de Deus, Andy! – exclamei, cumprimentando-o com um "toca aí". – Por que quando saímos fim de semana passado você só me chamou de "viadinho" e aqui me chama com o nome do meu pai?
Andrey se curvou, sussurrando:
- Se eu te chamar de "viadinho" aqui, perco meu emprego. Mesmo porque, estou pegando uma garota da sua sala, e preciso ter grana pra sair com ela. Acho que você sabe quem é, uma peituda...
- Lanza! – Bella piou, da porta automática, interrompendo nossa conversa. Andrey me olhou com malícia e voltou à pose de porteiro simpático, cumprimentando um casal de velhinhos que entrava de mãos dadas. – O que está fazendo aqui!?
- Eu preciso falar com você. – disse, com naturalidade. Ela sorriu e pegou minha mão, me puxando para dentro do prédio. Sua mão na minha minha mão era como se eu estivesse segurando mármore, e não me causava sensação nenhuma.
Logo que entramos no hall, ela me empurrou para as escadas escuras e vazias, e prensou seu corpo contra o meu.
- Já está com saudades, amor? – perguntou, aproximando seus lábios dos meus.
- Na verdade, Bella... – disse, afastando seu corpo. – É exatamente sobre isso que precisamos conversar.
Sua expressão mudou de luxúria para confusão. Ela colocou a mão na cintura, jogando os cabelos negros para trás, me fitando com os olhos verdes.
- Bom... – murmurei, procurando um jeito de fazer aquilo parecer o certo para nós dois, mesmo sabendo que isso era impossível. Ela não acharia aquilo certo nem em mil anos. – Eu não sei se isso está dando certo... Quero dizer, eu não acho que a melhor coisa seria continuar com isso. Nosso... Nosso namoro, quero dizer. Eu não sinto mais o que costumava sentir. – terminei, olhando fixamente em seus olhos, que ficaram frios.
- Resumindo tudo: você está terminando comigo? – perguntou, sem expressão.
- Hm... – murmurei, pensativo. – Sim. É isso aí.
- M-mas... – ela gaguejou, dando um passo para trás. – E todo aquele papo de que me amava? Era tudo mentira?
- Pra falar a verdade, Bella, eu pensei que te amava. – disse, agora sentindo raiva por ter perdido tanto tempo com alguém que nem sequer gostava. – Mas estava enganado. Amar não é dar uma rapidinha no banheiro do seu apartamento. Amar é... Sentir saudades da pessoa, pensar nela quando tudo parece estar desmoronando à sua volta, é sentir-se... Feliz quando pensa na pessoa e, simplesmente, amá-la. E eu, sinceramente, nunca me senti assim com você. – seus olhos se encheram de lágrimas, mas isso não poderia me vencer. Não mais. – Me desculpe se estou sendo rude, mas só queria esclarecer as coisas. Você é linda, sei que vai achar alguém que a ame de verdade. Mas esse alguém não sou eu.
- Victória tem alguma coisa a ver com isso, não é? – perguntou, como se não conseguisse mais segurar a pergunta dentro da boca.
Fiquei um pouco em silêncio, refletindo se contava a verdade ou não.
Mas pra quê continuar escondendo o que ela já sabia que era verdade?
- Sim.
- Você é um canalha, Lanza Reis. – ela cuspiu essa frase.
- Eu sei. – dei de ombros. – Mas não vou ser mais.
Passei por ela, que ficou com uma expressão de "não acredito que ele está me dispensando" no rosto. Mas eu não me importava mais. Quero dizer, eu nunca gostara dela mesmo.
Saí para a portaria, onde alguns jovens se reuniam e riam, como amigos que não se viam há muito tempo.
Pensei que aquela história já estava resolvida. Que, finalmente, eu estava livre.
Mas parece que algumas pessoas não conseguiam perder.
- Lanza! – Bella gritou, da porta automática. Virei-me lentamente, já sentindo vergonha alheia por ela, pois todos os jovens olhavam para nós dois. – Pára com isso! Você não gosta daquele protótipo de gente! Ela é uma mesquinha, metidinha e patricinha. Eu sou uma mulher, ela é uma criança! Como você pode trocar tudo o que tem por uma zé ninguém?
- Não fala assim dela se não quiser se arrepender depois. – a avisei, mas ela não me ouviu.
- Ela é uma imbecil que nem sabe tomar banho sozinha ainda. Pelo amor de Deus! – exclamou, passando as mãos pelo cabelo sedoso, como uma lunática. – Olha quem você está trocando por uma nojentinha...
- ISABELLA! – girtei, e ela parou. Agora os jovens se cutucavam e algumas senhoras pararam do lado de fora do prédio para ouvir. Andrey, que ouvia tudo com a boca aberta, agora sorria. – Dá pra parar com isso? Não adianta! Você pode ofender a menina que eu amo o quanto você quiser, mas você NUNCA vai se comparar a ela! Você é uma fácil, uma mentirosa, e ela é maravilhosa, doce, sincera, carinhosa. Eu não posso nem colocar as duas na mesma frase que me sinto um idiota por fazê-lo. Agora eu vejo que nunca deveria ter posto meus olhos em você. Você só ferrou com tudo, com seus joguinhos e ciuminhos! Felizmente eu estou arrumando as coisas, antes que seja tarde demais. E se, e escuta muito bem o que eu vou dizer agora, se Victória não me quiser mais depois de tudo isso, pode apostar que você vai se arrepender de ter nascido. E quer saber de uma coisa? – perguntei, e ela balançou a cabeça, prepotente. O que eu falei foi cruel, mas eu não conseguia me conter. Não depois de ter ouvido tudo que ela falara sobre Victória. – Você é péssima na cama. E sim, suas pernas são feias e você está engordando.
"Huuuuuu!" ouvi alguns caras exclamarem, e as meninas começaram a rir. Andrey, para não perder o emprego de tanto rir, se enfiou de volta na cabine, e as velhinhas se olhavam, surpresas com aquilo.
Bella ficou sem reação. Abriu a boca e a fechou várias vezes. Depois saiu correndo para dentro do prédio, humilhada demais para continuar ali.
Aquele fora meu último ato de canalhice.
Ou o último que eu me lembro agora...
Victória fala:
Sexta-feira. Um dia para o baile. Um dia para todos descobrirmos quem era a pessoa que atazanou nossas vidas o ano inteiro. Um dia depois de descobrir que a vida inteira eu pensava que os traidores eram meu pai e meu irmão, mas, na verdade, era minha mãe. Um dia depois de contar toda a adolescência ao irmão mais velho, sentados em um sofá velho.
O que fazer nessa sexta-feira, depois do ensaio de Cheerleader?
Compras!
As meninas queriam ir comigo, mas eu queria escolher meu vestido sozinha. Sabe como é, se eu iria sozinha – não aceitara ir com Josh –, tinha que surpreender a todos!
- Posso ajudá-la? – a voz rouca da vendedora da Bloomingdale’s me tirou dos pensamentos.
- Acho que sim... – mordi o lábio, pensativa. – Preciso de um vestido que faça todas as pessoas da minha escola babarem.
- Hm... – ela me analisou de cima a baixo. – Acho que eu tenho a coisa certa pra você! A coleção de vestidos para noite da Vera Wang acabou de chegar, e está de arrasar! Ah, e sim, claro, temos os Dior da coleção passada, que continuam deslumbrantes e com desconto de 50%!
Vera Wang? Dior? Aquilo estava ficando interessante...
Mais tarde.
- Foi uma ótima escolha, Vic! – Joanne, a vendedora super simpática, entregou minha sacola forrada de papel seda e sorriu. – Você vai arrasar! Essa cor combina muito com seu tom de pele!
- Obrigada, Joanne! – respondi, pegando meu vestido e saindo da loja.
Já estava escurecendo, e meu estômago começava a roncar mais alto do que deveria. Quando entrei na loja, o sol ainda brilhava no alto. Era incrível como eu podia perder tanto tempo só para escolher um pedaço de pano que iria cobrir meu corpo por algumas horas. Mas, bem, essa era eu, certo!?
Subi as escadas rolante, praticamente me arrastando para a praça de alimentação. Logo que subi, o letreiro brilhoso do Burguer King me chamou a atenção. Fui até a fila, salivando. Chegando lá, percebi que uma das mulheres da fila me encarava. Levantei meus olhos famintos, e vi Bella parada na minha frente.
- Olha só! – ela exclamou, mais alto que o necessário, fazendo algumas pessoas da fila se virarem para nós duas. – Veio esfregar na minha cara que ganhou, Victória?
- Ganhei o quê? – perguntei, nem conseguindo ser rude devido aos roncos estrondosos do meu estômago. Coloquei uma mão por cima dele, como se pudesse acalmá-lo.
- Sabe, foi golpe baixo. – ela falou, pousando as duas mãos na cintura. Agora os atendentes do Burguer King nos olhavam também, enquanto ela falava com a voz estridente e aguda. – Quando eu fiquei com Lanza, ele não estava com você nem com ninguém. Ele simplesmente veio atrás de mim. Agora você vem e tira o meu namorado embaixo do meu nariz!? – seus olhos ficaram grandes de raiva. – Eu deveria saber o que ninfetas como você fazem com caras como Lanza. Mas acho que eu estava cega demais para ver...
- Eu juro que não sei do que porra você está falando. – sussurrei, e meu estômago fez um 360. Estava vermelha de vergonha porque todos nos olhavam curiosos e morta de fome, de modo que aquela conversa não daria numa coisa boa se não saíssemos dali e se eu não estivesse devidamente alimentada.
- Ainda não ficou sabendo então!? – perguntou, arrogante. – Pensei que agora vocês dois estivessem em casa, rindo da minha cara.
- Do que!? Do que eu não fiquei sabendo!? – gritei, perdendo a paciência. Já que o circo estava armado, não tinha porquê tentar acalmá-lo.
- Olha, quer saber de uma coisa? – ela perguntou, arrumando sua bolsa no ombro e falando baixo. – Não me importa mais. Faça bom proveito. Ele é todo seu. Sua barraqueira. – ela passou do meu lado, trombando seus ombros nos meus. Mas antes de ir embora, se virou com um olhar malicioso, e disse, alto o suficiente para todos ouvirem: - E, caso queira mesmo saber, ele faz de meias.
Então ela sumiu, me deixando ali, com um ponto de interrogação na testa e todas as pessoas em volta me olhando como se eu fosse uma depravada ladra de namorados.
Lanza fala:
Entrei em casa com dificuldade, pois minhas mãos suavam. Viera o caminho inteiro ensaiando o que iria dizer para Victória quando chegasse, e agora esquecera tudo. Só sabia que tinha algo a ver com "é você que eu quero". Tudo estava bagunçado na minha cabeça, e eu só queria encontrá-la, para ter certeza que fizera a escolha certa.
Eu tinha certeza que sim, mas mesmo assim precisava vê-la.
Estranhei que tudo estava silencioso, mas me lembrei que os meninos foram jogar futebol, então podia fazer algo que iria facilitar meu trabalho de procurar Victória pela casa, já que nenhum deles estava por ali para ouvir.
- Vic!? – gritei pela sala.
Não ouvi resposta.
- Victória!? Tá aí!? – gritei escada acima.
Silêncio.
Frustrado, fui até a cozinha, peguei uma latinha de cerveja na geladeira e voltei para a sala, me esborrachando no sofá e ligando a Tv.
Nada como esperar o amor da vida chegar em casa para você avisar a ela que está disposto a largar tudo pra ficarem juntos assistindo Everybody Hates Chris.
Not.
Victória fala:
Eu caminhava tranquilamente pela rua. As coisas pareciam melhores agora que eu e Ryan éramos amigos de novo. Na escola, mais cedo, ficamos juntos no intervalo, e eu expliquei toda a história para as meninas. Agora Ryan era nosso mais novo bff. Era engraçado como um cara com a aparência tão machona podia ser tão engraçado e divertido. Ele nos contou as histórias mais engraçadas e malucas sobre Amsterdã e preciso dizer que depois de ouvir todos os relatos, acho que tenho medo de ir para lá.
Nem via por onde estava indo. Apesar de estar escuro, eu conhecia tanto aquelas ruas que meus pés me guiavam enquanto meu cérebro pensava em outra coisa. Era incrível ver que, em 15 anos, aquele lugar não havia mudado nada. A rua onde havia caído e quebrado o dente da frente aos 11 anos continuava a mesma. A rua onde um cara assoviou pra mim pela primeira vez continuava a mesma. O lago onde jogara meus óculos de grau continuava o mesmo. As árvores onde costumava espiar a casa do meu vizinho gato de 22 anos continuava a mesma... E as memórias continuavam intáctas.
Virei a esquina da minha rua. Não da rua da casa dos meninos. Minha rua. Da minha casa. Um frio percorreu minha espinha. Não havia pensado naquilo. Quero dizer, não na minha rua. Não havia pensado na minha mãe. No que ela havia feito para mim. A vida inteira mentindo pra mim. A vida inteira me enganando. A vida inteira fingindo ser a melhor mãe do mundo, quando, na realidade, foi a pior de todas.
Parei em frente à minha antiga casa.
O que deveria fazer? Eu tinha vontade de entrar lá e usar todos os palavrões novos que havia aprendido com os guys durante esse tempo de convivência. Mas não iria fazer aquilo, claro. Eu ainda tinha um pouco da minha consciência.
Enquanto pensava no que iria fazer em relação a minha mãe, a porta se abriu. E ela saiu, com um cigarro na mão e uma revista na outra. Sentou-se nas escadas e acendeu o cigarro, não me notando ali parada, estática.
Ela abriu a revista no colo e ficou lendo. Seu cabelo estava bagunçado, o que era esquisito. Minha mãe sempre fora meticulosa, detalhista. Nunca saía com o cabelo bagunçado e a roupa amassada. Vê-la ali, com os olhos vermelhos e a aparência péssima, foi como receber um tiro no coração. Era péssimo ver o que eu tinha feito com ela. O que toda aquela história tinha feito com ela.
Mas ela também tinha ferrado com tudo. Ela que causou aquilo para ela mesma.
No meu coração, sentimentos de saudades, pena, ódio, amor e traição se misturavam.
Uma música começou a tocar no vizinho. Reconheci somo sendo Famous Last Words, do My Chemical Romance. [N/A: Recomendo que ouçam enquanto leem essa parte. Link do YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=j6vUzmNbzRQ]
Now I know, that I can't make you stay.
(Agora eu sei, que não posso fazer você ficar.)
But where's your heart?
(Mas aonde está seu coração?)
But where's your heart?
(Mas aonde está seu coração?)
But where's your...
(Mas aonde está seu…)
Dei dois passos em direção à minha mãe. Algo naquela letra me impulsionava. Algo nos acordes de guitarra me deixava elétrica. Algo naqueles sentimentos não me deixavam parar.
- Mãe? – chamei, e ela levantou os olhos, surpresa.
- Victória? – perguntou, como se não acreditasse que eu estivesse ali.
And I know, there's nothing I can say!
(E eu sei, não há nada que eu possa dizer!)
To change that part,
(Para mudar esta parte,)
to change that part.
(para mudar esta parte.)
To change...
(Para mudar…)
Ela se levantou, jogando o cigarro e a revista no chão. Se aproximou e colocou o polegar em meu rosto. Afastei sua mão com repulsa e abaixei meus olhos. Juntei minhas mãos e dei um passo para trás.
- Não vim aqui pedir desculpas. – disse, com a voz trêmula. – Não vim aqui porque estou arrependida. – então levantei meus olhos, fixando-os nos seus. Ela me olhava com a boca entreaberta e um medo contido na expressão indiferente. – Na verdade, nem sei porque vim aqui. – dei outro passo para trás, perdendo a coragem de dizer tudo que queria dizer.
Virei-me de costas.
- Filha!? – ela chamou, como uma súplica.
Filha?
Ela não tinha o direito de me chamar assim.
So many bright lights, that cast a shadow...
(Tantas luzes brilhando, moldando uma sombra...)
But can I speak?
(Mas eu posso falar?)
Well, is it hard understanding?
(Bem, isto é difícil de entender?)
I'm incomplete!
(Eu estou incompleto!)
- Nunca mais – comecei novamente, girando com os calcanhares. – me chame assim.
Ela colocou a mão direita sob a boca, como um gesto de defesa.
- Victória, filha, por que você está sendo tão dura comigo? Tudo que eu fiz foi te proteger e... – ela suplicava, mas eu não sentia mais compaixão. Não sentia mais orgulho de ser sua filha. Só sentia ódio. E tristeza.
Todos os meus sentidos estavam aguçados, e minha língua se remexia na boca.
- Eu falei com Ryan. – disse, cortando-a. Ela paralizou. – Ele me contou sobre as cartas. Mamãe. – disse a última palavra com ironia.
A life that's so demanding…
(Uma vida que é tão exigente...)
I get so weak.
(Eu estou tão fraco.)
A love that's so demanding…
(Um amor que é tão exigente...)
I can't speak!
(Não consigo falar!)
- Então você... – ela parou no meio, como se já soubesse a resposta.
- Sim. – disse, por fim. – Sim, eu sei a verdade.
I am not afraid to keep on living!
(Eu não tenho medo de continuar vivendo!)
I am not afraid to walk this world alone!
(Eu não tenho medo de caminhar sozinho neste mundo!)
Honey, if you stay, I'll be forgiven…
(Querida, se você ficar, eu serei perdoado...)
Nothing you can say could stop me going home!
(Nada que você disser pode me deter de ir para casa!)
Ela fechou os olhos.
- Tudo que eu fiz foi por você, Victória! – disse, com a voz embargada. Mas eu não sentia vontade chorar. Não sentia vontade de abraçá-la e dizer que a perdoava. E sabia que para fazer aquilo algum dia, teria que pensar muito, perdoar muito, e eu não tinha certeza se conseguiria. Ela me magoara muito. Minha própria mãe mentiu para mim daquele jeito a vida inteira!
- Eu sei que foi. – disse, e ela abriu os olhos, esperançosa. – Mas isso não justifica nada. Eu não tenho forças nem vontade de te perdoar. E não sei se algum dia vou ter essa coragem.
Can you see? My eyes are shining bright!
(Você pode ver? Meus olhos estão brilhando!)
'Cause I'm out here, on the other side,
(Porque estou fora daqui, no outro lado,)
Of a jet black hotel mirror!
(Do negro espelho quebrado do hotel!)
And I'm so weak!
(E estou tão fraco!)
- Então você não vai me perdoar? – perguntou, trêmula. – Nunca?
- Eu... – parei, com medo de dizer algo irreversível. – Não sei.
Is it hard understanding?
(É difícil entender?)
I'm incomplete!
(Eu estou incompleto!)
A love that's so demanding…
(Um amor que é tão exigente...)
I get weak!
(Eu fico fraco!)
Então ela sorriu.
Lágrimas surgiram em meus olhos e eu me odiei. Prometi que seria forte. Prometi que não iria fraquejar na sua frente. Mas não consegui.
I am not afraid to keep on living!
(Eu não tenho medo de continuar vivendo!)
I am not afraid to walk this world alone!
(Eu não tenho medo de caminhar sozinho neste mundo!)
Honey, if you stay, I'll be forgiven…
(Querida, se você ficar, eu serei perdoado...)
Nothing you can say could stop me going home!
(Nada que você disser pode me deter de ir para casa!)
- Acho que tudo bem. – disse, me surpreendendo. – Quero dizer, acho que eu nunca vou me perdoar. Não esperava que você o fizesse. Mas, querida, me prometa uma coisa?
Balancei a cabeça afirmativamente. Apesar de tudo, ela era minha mãe.
- Promete que nunca mais vai deixar que confundam, magoem e traiam você?
These bright lights are always blinded, to me.
(Estas luzes brilhantes estão sempre me cegando.)
These bright lights are always blinded, to me!
Estas luzes brilhantes estão sempre me cegando!)
- Não precisa se preocupar comigo. – respondi, me virando para recomeçar a descer as escadas. – Nunca mais.
I said…
(Eu digo...)
I see you lying next to me,
(Eu vejo você mentindo ao meu lado,)
with words I thought I'd never speak!
(com palavras que jamais pensei dizer!)
Awake and unafraid,
(Acordado e sem medo,)
asleep or dead!
(adormecido ou morto!)
- Prometa. – ela pediu, com certa urgência. – Somente prometa, Victória.
I am not afraid to keep on living!
(Eu não tenho medo de continuar vivendo!)
I am not afraid to walk this world alone!
(Eu não tenho medo de caminhar sozinho neste mundo!)
Honey, if you stay, I'll be forgiven…
(Querida, se você ficar, eu serei perdoado...)
Nothing you can say could stop me going home!
(Nada que você disser pode me deter de ir para casa!)
Já no final da escada, virei-me de frente para ela. Seus olhos vermelhos me fitavam, e sua boca tremia. Sua expressão era de angústia e tristeza. Sempre me orgulhei de ser filha dela. Mas, naquele momento, ela era algo que eu nunca gostaria de ser. Ela era a imagem do arrependimento. A imagem da amargura. E, se tinha algo que eu nunca seria, era aquilo.
- Prometo. – disse, enfiando as duas mãos no bolso. – Mesmo porque, a maior traição que alguém poderia me causar, já aconteceu. E veio da minha mãe.
E antes que pudesse me arrepender, já caminhava para longe dali, com o vento gelado chicoteando meus cabelos para o alto e cortando minha pele.
Lanza fala:
Eu estava quase dormindo. As luzes claras da Tv faziam meus olhos fecharem e abrirem sem minha permissão. Estava em um estado de transe televisístico. E essa palavra nem sequer existe!
De repente, ouvi um barulho de chave na fechadura, mas não liguei muito. Já havia me esquecido porque estava ali, deitado assistindo As Meninas Super-Poderosas versão alguma coisa Z.
A porta se abriu, o que não foi de se estranhar. Quero dizer, depois que alguém gira a chave na fechadura, a porta costuma se abrir. Certo?
- Oi? – a voz de Victória ecoou pela sala. – Alguém aqui!?
Dei um pulo no sofá, me lembrando de tudo.
- Vic!? – chamei, escondendo as cinco latas de cerveja que havia bebido embaixo do sofá. – Tem eu! – gritei, desligando a Tv e subindo os dois degraus da sala. – Eu estou aqui. – fui até a cozinha, onde ela olhava interessada para o conteúdo de dentro da geladeira, e a porta bloqueava minha visão do seu rosto. – E eu precisava justamente falar com você e... – fui falando, quando ela fechou a geladeira e me olhou, com lágrimas escorrendo pelo rosto e a maquiagem preta desmanchando por sua bochecha. Colocou uma sacola da Bloomgdale’s em cima da mesa da cozinha e eu fiquei sem reação. E antes mesmo que eu pudesse dizer algo, ela correu em minha direção e enterrou o rosto no meu peito, envolvendo minha cintura com os braços. Seu choro silencioso se transformou em uma série de soluços profundos, e eu não pude evitar entrelaçar meus dedos no seu cabelo.
Ela chacoalhava o rosto e seu peito tremia. As lágrimas quentes molhavam minha camiseta, e seu rosto frio fazia minha pele, embaixo do pano, formigar.
- O que aconteceu? – perguntei, vendo que ela não iria se acalmar tão cedo. – O que foi, Vic!?
Ela não disse nada e continuou a chorar.
- Ok, quer saber de uma coisa? – perguntei, mesmo sabendo que não obteria resposta. – Vamos sair da cozinha. – dito isso, agachei e peguei suas pernas, pegando-a no colo. Seus braços subiram da minha cintura para meu pescoço, mas seu rosto continuou enterrado em meu peito.
Saí da cozinha e fui até o hall. Subi as escadas sem dificuldade, e chegando lá em cima, decidi por entrar em meu quarto. Entrei e fechei a porta com os pés. Fui até minha cama e coloquei-a lá, que colocou as duas mãos no rosto e continuou a chorar. Sentei-me ao seu lado, envolvendo seus ombros com meu braço, e ela tombou para o lado em silêncio. Puxei meu edredon para cima, nos cobrindo.
Ficamos daquele jeito por um tempo indeterminado. Poderiam ter se passado segundos, horas ou até mesmo dias, que eu não me importaria. Ela estava ali novamente. Em meus braços, de onde nunca deveria ter saído. Ela estava comigo e com mais ninguém. Ela estava se consolando comigo, e não com outra pessoa. Ela era, em parte, minha de novo. Ou pelo menos eu queria que fosse.
Aos poucos, o choro foi diminuindo, e suas mãos foram descolando do rosto vermelho e inchado. Quando não chorava mais, suas mãos estavam entrelaçadas, e ela olhava para a frente, muda. Só foi falar de novo, quando seu rosto não estava mais inchado do choro, e só os olhos continuavam vermelhos.
- Eu pensei que, durante todo esse tempo, meu pai e meu irmão estivessem me enganando. – murmurou, olhando fixamente para o nada. Eu a ouvia, mas só conseguia pensar em como era bom tê-la ao meu lado, me esquentando como só ela sabia fazer. – Só ontem eu fui descobrir que não. Que, mais uma vez, eu estava errada. Descobri que, embaixo do meu nariz, minha mãe mentia e me enganava. Descobri que todo ódio e saudades que senti do meu pai e do meu irmão foram em vão. – as palavras saíam da sua boca com velocidade, como se estivessem presas lá há muito tempo. – Tudo o que pensei e senti foi em vão, Lanza! Todo o rancor... Tudo! Tudo foi direcionado às pessoas erradas! E eu tentei ser forte ao descobrir isso. Para mim, tudo estava bem. "Descobri a verdade, finalmente!", eu pensei, e ficou por isso mesmo. Mas hoje... – uma lágrima remanescente escorreu por sua bochecha. – Hoje eu vi minha mãe; vi quem causou tudo isso. Eu a vi... E o mais frustrante de tudo, foi que eu não consegui ignorá-la! Não consegui fazer com que ela se sentisse péssima. Eu fui fraca e medrosa. Eu... Eu simplesmente fiz tudo errado! – então ela levantou o rosto para mim pela primeira vez. Encarei seus olhos intensos, tentando não dizer nada que fosse estragar seu desabafo. – Eu sempre faço tudo errado, não é, Lanza? Diga a verdade. Eu fiz errado com minha mãe, fiz errado com meu irmão e fiz errado com o meu pai. Faço tudo errado, no colégio, em casa, no treino, com minhas amigas, com meus amigos. E, principalmente, faço tudo errado com você. – abri minha boca para negar, mas ela não deixou. – E nem tente negar. Você sabe que sim, eu sei que sim, todos sabem que sim. Eu simplesmente estraguei tudo com o único cara que eu fui capaz de gostar em toda minha vida. E por quê? Porque sou orgulhosa e estúpida. Orgulhosa, estúpida e infantil. Orgulhosa, estúpida, infan...
Então tudo se calou com um beijo.
Simples assim.
Eu simplesmente me inclinei e calei sua boca com a minha própria boca. Não aguentava mais ouvir reclamações. Não aguentava mais perder tempo. Eu estava com saudades daquilo, e não poderia mais perder tempo com blá blá blá. Tudo se acabou como começou. Boca com boca, sem movimento. Um beijo forçado, os olhos fechados, o susto do momento.
Só um beijo.
- Eu posso saber o que foi isso? – ela perguntou, assim que descolei nossos lábios.
- Você não calava a boca. – respondi, dando de ombros. – Tive que tomar medidas drásticas.
Ela me olhava com a boca aberta e as bochechas vermelhas. Parecia uma boneca.
Então se levantou, brava e elétrica.
- Tá vendo só? – perguntou, andando em circulos pelo meu quarto, gesticulando sem parar. Victória era esquisita. Uma hora estava deprimida, na outra estava rodando pelo meu quarto, soltando fogo pelas orelhas. – É por isso que eu só ferro as coisas. Porque as pessoas não me dão outra saída! Eu estou aqui, me abrindo com você, e você me beija? Essa era a última reação que eu poderia querer!
Levantei-me, de saco cheio.
Ela continuou.
- Por que, quero dizer, por que diabos você me beijou? Nós não podíamos simplesmente conversar? Tudo tem que envolver beijo, desejo?
Caminhei até ela e peguei seu braço. Ela parou de falar no mesmo instante e encarou meus olhos calmos. Eu andei para frente com seu corpo colado ao meu, até encostá-la no armário. Ela continuou muda, sem saber o que dizer.
- Você pode, por favor, por um maldito momento, ficar quieta? – perguntei, e ela continuou com os olhos arregalados.
Sem pedir permissão, sem pensar nas consequências, fui aproximando meu rosto do dela. Seu rosto foi ficando mais próximo do meu. Sua respiração foi atingindo meu rosto. Seus olhos começaram a se fechar. Sua boca começou a se entreabrir. Meus braços começaram a envolver sua cintura. Seus dedos começaram a se perder no meu cabelo. Nossos narizes se tocaram. Meus olhos se fecharam. Meu pescoço caminhou mais um centímetro. Nossos lábios se tocaram novamente. Um instante de normalidade. Um instante de loucura. Um instante de sobriedade. Um instante de desejo.
Um instante de amor.
Era tudo o que nós precisávamos naquele momento. Precisávamos demonstrar que, de algum jeito, nem tudo estava perdido. Que ainda existia algo entre nós dois que nos mantinha juntos, conectados, mesmo separados.
Suas mãos puxaram meu cabelo. Meus dedos apertaram sua cintura. Suas pernas se entrelaçaram no meu quadril. Meu corpo a forçou contra o armário. Seus lábios abriram, permitindo a passagem da minha língua, que se fundiu com a dela, para frente e para trás, de um lado para o outro. Nossos rostos se viravam quando sentiam a necessidade. Nossos narizes se batiam com violência. Meu corpo começou a esquentar, junto com o dela. Ela estava presa entre meu corpo e o armário. Sua língua explorava minha boca, como se nunca estivesse entrado ali. Seu hálito de morango e pasta de dente se misturou ao meu hálito de cerveja.
Nunca me senti tão vivo.
E o beijo continuou. Só um beijo. Sem nada mais envolvido. Nenhum toque fora do permitido. Nenhum movimento brusco, repetido. Ela não era mais a cheerleader. Eu não era mais o vocalista. Ela não era mais a menina mais linda do colégio. Eu não era mais o rebelde sem causa. Ela não era mais a filha de uma mentirosa. Eu não era mais um cafajeste. Era uma coisa nova, mas do jeito antigo de ser. Era saudades e novidade. Era desejo e reparação. Era querer e amar.
Era o amor. Simples e puro. Complexo e sujo. Na sua forma primitiva, lapidada. O amor entre duas pessoas, sem nada mais envolvido.
Um beijo significava o mundo para nós dois naquele momento.
E ele não acabou. Passaram-se segundos, minutos, horas. Nossas bocas não se descolavam, nossas bochechas não cançavam de roçar uma na outra. Nossos narizes não cansavam de respirar. Nossas línguas não se cançavam de dançar. Os suspiros não paravam de sair. Os dedos não paravam de apertar.
Ficamos ali a noite inteira. Nos beijando sob a luz do luar que invadia meu quarto pela janela aberta.
E, dude, aquilo foi bom.
Foi mais do que bom.
Foi...
Perfeito.
Capítulo 29 – O Baile.
Victória fala:
Era de se esperar que eu fosse mais forte que um beijo. Mas eu descobri, da pior – ou melhor – maneira, que não, eu não sou. Não sou mais forte que um beijo, não sou mais forte que duas mãos, não sou mais forte que respirações ofegantes, e, com toda a certeza do mundo, não sou mais forte que Pedro Gabriel Lanza Reis.
Ou provavelmente não sou mais forte que o meu desejo.
E não sou, nem de longe, mais forte que meu amor.
O negócio é que aquele foi um beijo longo. E gostoso. E lindo. E ingênuo. E sincero. E todos os sentimentos doces que você pode imaginar.
Nuvens pesadas de chuva cobriram a lua, escurecendo o quarto aos poucos. Mas nem isso nos impediu de continuar. Quanto mais os minutos passavam, mais o beijo melhorava. Era como se fôssemos pegando o jeito um do outro, os truques, os gostos, o cheiro. Tudo de novo estava sendo armazenado, e todos os conhecimentos antigos foram usados.
Nossos lábios não se desgrudaram nenhuma vez.
Pode parecer bizarro, se não fosse tão sensível.
Eu nem sei o que me deu. Em um momento eu estava me debulhando em lágrimas e querendo morrer, e no outro eu estava sendo suspensa na porta do armário pelo cara que eu mais odiava amar e amava odiar. Era como se a vida fosse realmente uma caixinha de surpresas e que adorasse me pregar peças. Tipo: "Ah, você está querendo morrer? Então vamos ver se vai querer mesmo depois desse beijo!"
Mas não posso reclamar, certo? Afinal, aquele era Lanza. E ele estava me beijando como se quisesse aquilo há muito tempo.
Então eu simplesmente deixei as coisas acontecerem. E quando finalmente paramos, não foi uma coisa forçada; foi como se nossos cérebros, ao mesmo tempo, dissessem: "Ok, agora já deu, vocês estão suficientemente calmos e relaxados para discutir a relação". Nossas bocas foram parando aos poucos, até que só restasse rosto com rosto.
Olhei discretamente para o relógio no criado-mudo. Eram 3:27, exatamente.
Porra! Tinha a vaga lembrança de chegar em casa por volta das 21h. Então aquilo era, com certeza, um record mundial!
Ou pelo menos um record pessoal.
Quero dizer, claro que eu nunca havia passado 6 horas e lá vai fumaça beijando alguém. Então o record era incontestável.
- Hm... – foi o que saiu da minha garganta, assim que ele encostou a testa na minha, respirando fundo. Eu havia me esquecido de como se usava a boca para formular palavras. – Isso... Nossa... Uau.
Só faltou dizer "mim Victória, você bem beijar."
- Acho que não vamos querer nos beijar por um bom tempo. – ele riu, e fui contagiada por sua risada, gargalhando junto.
- Acho que eu não vou mexer meu maxilar por duas semanas. – murmurei, sentindo-o estalar com o simples movimento de argumentar. – Quero dizer, acho que ele nunca foi tão usado em toda minha vida.
- Somos dois, irmã. – ele concordou, apertando seu queixo com a mão.
Aos poucos, fui abaixando as pernas e ele foi separando seu corpo do meu. Meus dedos se desenrolavam do seu cabelo e suas mãos largavam minha cintura. Ele ficou reto e eu me apoiei no chão, finalmente sentindo meus pés.
- Hoje, tecnicamente, é o dia do baile. – ele disse, sorrindo daquele jeito que derretia meu coração.
- Sim. – balancei a cabeça em afirmativa. – Hoje é o grande dia.
- Grande merda, isso sim. – ele disse, querendo parecer indiferente, mas eu pude ver o nervosismo em seus olhos.
- Não se preocupe com isso, Lanza. – tentei confortá-lo, colocando minha mão em seu ombro. – Nada do que essa pessoa disse vai acontecer. Seus amigos nunca dariam ouvidos e sua carreira já se concretizou.
Ele ficou um pouco em silêncio, olhando para o chão. Depois levantou os olhos e me encarou.
- Mas e você? Daria ouvidos?
Sorri.
- Claro que não. Você sabe que não. – soltei seu ombro. – Eu sou a última pessoa com quem você tem que se preocupar. Mesmo você sendo um idiota, eu não consigo ficar longe de você por muito tempo. – senti meu rosto queimar de vergonha, por finalmente admitir aquilo.
Não que ele era um idiota, claro. Porque isso eu já sabia há muito tempo. Mas fiquei com vergonha em admitir que mesmo com todos os problemas do mundo, Lanza vinha sempre em primeiro lugar. Afinal de contas, era por ele que eu passara a usar lentes de contato e alisar o cabelo todas as manhãs da minha vida, certo?
Lanza não respondeu nada, e se distanciou de mim, indo se sentar em sua cama. Eu fiquei ali, apoiada na porta do armário, olhando de longe para ele. Era quase impossível não olhar para ele. Seus olhos doces, sua boca vermelha, seu cabelo caindo na testa, seu jeito tímido e despojado de ser, seu sorriso, seu olhar, sua risada, o jeito de andar, falar, comer, beijar... Tudo nele era perfeito. Ele era o que eu sempre quis e sempre iria querer. Não tinha como não gostar. Não tinha como não amar. Eu estava predestinada a ficar com ele. Ele não era minha alma gêmea, pois nós éramos diferentes em tudo. Ele não era meu melhor amigo, porque sempre que precisava dele, ele só queria me beijar. Ele não era meu super-herói, porque sempre estava preocupado demais em fazer piada das coisas. Ele era o contrário de príncipe encantado, mas mesmo com todos os defeitos do mundo, era o meu grande amor. Era por ele que meu coração batia rápido e devagar ao mesmo tempo, era por ele que eu tinha vontade de me arrumar de manhã, era nele que eu pensava quando ouvia uma música romântica, era nele que eu apostava todas as minhas fichas. Ele era o homem da minha vida e eu não poderia mudar isso nunca. Eu não poderia, nem em mil encarnações, esquecê-lo. Porque ele havia sido feito pra mim e eu havia sido feita para ele. Seus defeitos encaixavam em minhas qualidades, e meus problemas eram as suas virtudes. Seu jeito me completava, e ele me ensinara tantas coisas com um simples olhar... Ali, olhando para Lanza, que cutucava as unhas sentado na cama, eu percebi que aquilo era pra ser. Que eu não poderia desistir de tudo o que mais sonhei. Ele era meu sonho e meu amor. E eu simplesmente não ia desistir dele.
- Pedro Gabriel Lanza Reis. – me ouvi murmurar, e ele levantou os olhos, surpreso. – Esse é um dos nomes mais bonitos que eu já ouvi.
- Obrigado? – ele perguntou, tentando entender o que eu queria dizer.
- Sabe, quando eu era criança, eu tinha várias Barbies e só dois Kens. Um deles era o bonzinho, o outro o malvado. – ele ouvia, sem piscar os olhos, curioso. – O bonzinho sempre tinha um nome diferente. Às vezes era Mike, outras vezes Bart, e outras Joey. Mas o malvado só tinha um nome, sempre. Eu nunca mudava. Minha mãe sempre queria saber porquê, mas eu não sabia explicar.
- E qual era o nome dele? – ele perguntou, como se falasse com uma criança.
- Pedro Gabriel.
Vi seus olhos se iluminarem e ele gargalhar, com vontade.
- Jura!? Você dava meu lindo nome para o Ken malvado?
- Sim! – exclamei, rindo também. – Eu não conhecia você, claro. Mas então eu entrei na escola, e eu tinha dois coleguinhas Pedro Gabriel na minha sala. Um deles comia cola e brincava sozinho no canto da sala. E o outro... – olhei bem para ele, e seu sorriso começou a desaparecer por interesse na história. – O outro era o garotinho mais querido entre todos. Todas as minhas amigas queriam namorar com ele e a professora sempre dava uma estrela vermelha para ele por bom comportamente no final do dia. Por todo lugar que eu ia, só ouvia falar de Pedro Gabriel Lanza Reis. "Pedro Gabriel isso, Lanza Reis aquilo". – fiz uma vozinha irritante.
- Eu não tinha mais espaço para escrever de tantas estrelas no caderno. – ele balançou a cabeça, como se estivesse se recordando.
- Eu não me interessava muito por ele. Na verdade, acho que tinha inveja de toda a atenção que recebia. Então meu Ken do mal passou a se chamar Pedro Gabriel Lanza Reis. E, nas minhas histórias, ele sempre era o queridinho entre as Barbies do mal, e a Barbie sofrida o odiava. Então o Ken bonzinho a salvava das garras de Pedro Gabriel Lanza Reis.
- Então eu era a estrela principal da sua novela? – ele perguntou, se divertindo.
- Praticamente. – sorri para ele. Não sabia porquê estava contando tudo aquilo, mas eu sabia onde queria chegar. – Então nós crescemos. Viramos pré-adolescentes. E ele continuou a ser o queridinho de todos. Se Pedro Gabriel Lanza Reis estava por perto, ninguém prestava atenção em mim. Se Pedro Gabriel Lanza Reis tirava 9, meu 10 não importava. Se Pedro Gabriel Lanza Reis almoçava todos os dias no Barney’s, aquele era o lugar mais legal do mundo. Se Pedro Gabriel Lanza Reis dava o primeiro beijo em Karen Miller, o sonho de consumo de todos os meninos era Karen Miller.
- Obrigado por me lembrar em quem dei meu primeiro beijo. – ele agradeceu. – Havia me esquecido.
- O que Pedro Gabriel Lanza Reis tinha que eu não tinha!? – exclamei, e ele percebeu que comentários sarcásticos não eram bem-vindos na minha história. – Quero dizer, eu também sempre almocei no Barney’s! Eu também tirava 9! Eu também podia beijar alguém! Por que diabos, afinal, Pedro Gabriel Lanza Reis era tão querido? Então, um dia, aconteceu. – parei um pouco de falar, tentando me lembrar exatamente daquela tarde ensolarada. – Eu estava andando pela quadra de basquete, e Pedro Gabriel Lanza Reis conversava com alguns amigos, que riam à sua volta. – agora eu já havia me desencostado do armário e andava pelo quarto, gesticulando sem parar. – Eu não me importei, claro. Eu só estava ali para pedir dispensa da aula devido ao meu problema relacionado a bombinhas de ar e miopia. Nem me importei por estar com o tênis desamarrado. Quero dizer, era só Pedro Gabriel Lanza Reis, certo? – perguntei, e ele balançou a cabeça, concordando. – Errado. Eu não tinha ideia do poder que Pedro Gabriel Lanza Reis tinha sob as pessoas. Eu não tinha ideia de como poderia ficar fixada em algo que sempre odiei. Eu não tinha ideia, Lanza, do poder do seu sorriso.
Ele sorriu, mas logo parou, como se sentisse culpa por sorrir daquele jeito.
- Aquele dia, quando você se virou e seus cabelos molhados de suor caíram em sua testa, e você sorriu pra mim, eu não caí somente porque estava com o tênis desamarrado. Eu não caí somente porque meus óculos estavam embaçados. Eu caí, Lanza, porque soube que depois daquele sorriso, não havia mais volta. Depois daquele sorriso, simples, quase indiferente, eu estava completamente e irreparavelmente apaixonada por você.
Não havia tensão no ar naquele momento. Ele me olhava, eu retribuía, como simples amigos fariam ao brincar de "sério". Mas eu sabia que ele queria saber, que ele precisava saber se...
- E isso é... Bom?
Lanza fala:
Eu me olhava no espelho. Tinha alguma coisa errada com a minha roupa. Ou seria com o meu cabelo? Foda-se, tinha algo errado. E estava me incomodando.
- Escuta, Pe Lu, qual é o problema da minha roupa? – perguntei bruscamente, me virando para ele, que fazia o mesmo que eu, mas parecia satisfeito com sua imagem no espelho.
- Com sua roupa nada, o problema é quem está usando ela. – respondeu, dando e ombros. Não respondi, impaciente demais para brincadeirinhas de mau gosto. Ele percebeu que eu não estava de bom humor e resolveu opinar. – Acho que é sua gravata. Sei lá, ela é meio... Azul.
Olhei para ela, azul escura, fria e... Azul.
Realmente, a culpa era da gravata.
- Tem alguma pra me emprestar? – perguntei, pois eu só tinha aquela e uma preta furada.
Qual era o meu problema? Que tipo de homem só tinha uma gravata?
- Eu só tenho essa que estou usando... – ele apontou para a gravata listrada preta e branca que usava.
Homens como Pe Lu Munhoz. Era por isso que éramos amigos. Porque meus amigos conseguiam ser tão babacas quanto eu.
Olhei de volta para o espelho, enquanto ouvia Pe Lu falar sobre a "merda de banda" que iria tocar no baile aquela noite. Aos poucos, suas voz foi ficando mais baixa e meus pensamentos mais altos.
A quem eu estava tentando enganar? A fada dos dentes? O problema não era com minha aparência, e muito menos minha gravata. O embrulho no estômago e o nervosismo que eu estava sentindo não tinha nada a ver com isso. Tudo aquilo tinha um nome: Gossip.
- Qual das duas fica melhor? – Thomas invadiu meu quarto, segurando duas gravatas. Uma preta e a outra prata.
- Acho melhor você usar a prata, fica mais legal com sua camisa preta. – Koba veio atrás, respondendo antes que eu pudesse raciocinar.
- Ainda bem que você não quer usar a rosa. – Pe Lu disse. – Quero dizer, depois que você se vestiu de Barney, está em dívida com sua masculinidade... Mas você podia aproveitar e dar a preta pro Lanza. – sugeriu, e no segundo seguinte uma gravata voava em minha direção e pousava em minha cabeça.
- Você é um canalha, Munhoz. – Thomas arqueou a sobrancelha diante do próprio reflexo.
- Sou canalha mas sou limpinho. – ele deu de ombros.
Distraí-me novamente, lembrando do final da noite anterior.
Flashback on.
- E isso é... Bom?
- Sinceramente? – ela perguntou, perdendo a intensidade da voz, receosa. Balancei a cabeça em afirmativa, mas no fundo estava com medo de saber a verdade. Ela fechou os olhos e mordeu o lábio inferior, pensando se falava ou não. – E-eu... – gaguejou. Abriu os olhos e me encarou. Perdi-me naqueles olhos doces, que me fitavam com certa dúvida. E antes que ela pudesse responder, ouvimos um barulho de fechadura e logo em seguida vozes lá debaixo.
- QUERIDA, CHEGUEI! – Koba gritou lá debaixo, fazendo thomas e Pe Lu rirem.
- Porra! – Victória sussurrou, se virando para ir embora. Num impulso, peguei-a pelo braço, e ela caiu em cima do meu colo.
- Só me diz se é bom ou não? – pedi, com certa urgência. – Eu preciso saber!
- Amanhã. – ela murmurou, enquanto os passos na escada se tornavam mais nítidos. – Amanhã, meu amor. – disse, e beijou meus lábios de leve.
Ela se levantou e ficou de frente para mim. Mas antes que pudesse se mexer, perguntei de uma vez só:
- Quer ir ao baile comigo!?
Ela sorriu, enquanto os passos vinham pelo corredor.
- É o que eu mais quero nesse mundo.
Então ela saiu do quarto.
Num instante ela estava em meu colo, me beijando, e no outro eu estava sentado sozinho na minha cama, patético, com a luz do luar como única iluminação.
Malditos amigos empata-foda!
Flashback off.
- Lanza, porra, o gato comeu sua língua e cagou na sua orelha? – Thomas perguntou, e eu virei o rosto em direção à sua voz.
- Hã? – sibilei, perdido.
- Eu perguntei se você quer ir agora ou mais tarde? – perguntou novamente, rodando as chaves do conversível no dedo.
- Agora! – exclamei, sobressaltado. Os guys se entreolharam. – Pra poder vasculhar a área. Gossip, sabe como é. – dei de ombros.
- Ok, vamos então. – Pe Lu se virou nos calcanhares. Seu cabelo estava para trás e duro pelo gel, ele usava uma gravata listrada preta e branca. Sua camisa era rosa clara, o terno listrado, marrom-escuro, e ele usava um sapato social de camurça marrom.
Thomas apoiou-se na batente da porta, sem deixar de rodar as chaves no dedo. Usava um terno preto liso, com a camisa preta lisa e a gravata prata se sobressaltando. Seu cabelo estava arrepiado e nos pés usava um All Star preto. Estava parecendo o James Bond, mas era melhor do que ser o Barney, disso eu tinha certeza.
Koba percebeu o espelho pela primeira vez, e começou a se encarar. Usava um terno preto, como eu e Thomas, e uma camisa branca. Sua gravata era listrada de vários tons de cinza e marrom, e ele calçava um All Star quadriculado bege e branco.
Segui seu olhar e encontrei novamente meu reflexo no espelho. Analisei-me, de cima a baixo. Cabelo na testa, terno preto, camisa verde, gravata preta e All Star cinza. [N/A: Quem achar que a roupa do principal, no meu caso o Tom, não combina com o guy, é só olhar essa foto e imaginar seu guy com a roupa dele. Entenderam? Guys de Terno]. Estava bem; apresentável, bonito e original.
E humilde.
Sorri maliciosamente para Thomas pelo reflexo do espelho.
- É, vamos.
Victória fala:
- Fala sério, gente, vocês não viram mesmo o meu perfume? – Maria Eduarda perguntou, subindo as escadas da sua casa. – Eu deixei ele em cima da minha escri... – ela olhou para o único lugar que não tinha procurado. A escrivaninha. E ele estava lá, rosa, doce e estático. – Certo. Acho que eu preciso usar óculos...
Logo que ela disse isso, eu saí do banheiro pois acabara de colocar as lentes de contato. Meus olhos estavam vermelhos pois eu havia enfiado sem querer o dedo, e uma lágrima escorria por meu rosto.
- ... Ou eu não precise. – ela brincou, entortando a boca.
- Isso, ria da desgraça alheia. – briguei de brincadeira, sentando em sua cama fofa. Coloquei meu salto prata com pedrinhas verde turquesa e me levantei, analisando meu corpo em frente ao espelho gigantesco do seu armário. Eu estava de sutiã, meia calça cor de pele e salto alto. Meu cabelo estava preso para trás por uma tiara pois eu estava colocando as lentes. Maria Eduarda veio ao meu lado, de salto, calcinha e sutiã, com o cabelo molhado e o rosto sem maquiagem. Isadora veio em seguida, sem salto, com um shorts e sutiã, e Júlia veio por último, usando uma camisola. Estávamos começando a nos arrumar.
- Se isso fosse uma foto, com certeza estaria no Conte Seu Babado. – Júlia comentou.
- "As bruxas e suas imperfeições". – Isadora brincou.
- É... – Maria Eduarda suspirou. – Parece que vamos sentir mais falta do Conte Seu Babado do que imaginamos.
- Sim... – concordei. – Mesmo sendo uma inutilidade completa, ele meio que fortaleceu a nossa amizade, sempre juntas fosse o que fosse. – fechei os olhos. – E ele que nos levou aos McLosers. Se não fosse por ele, a Duda não estaria com o Munhoz, a Isa não estaria com o Koba e a Júlia não estaria com o Thomas. E eu... – parei de falar, abrindo os olhos.
- Você não teria certeza que Lanza é o amor da sua vida. – Júlia murmurou.
- E ele não se apaixonaria por você. – Maria Eduarda sorriu.
Sorri junto com ela.
- E eu não descobriria que músicos são tão bons com os dedos. – Isadora suspirou, e nós não aguentamos, caindo na risada.
- Sua pornográfica! Nós somos ladies, não precisamos ouvir história da ralé! – Maria Eduarda brincou, pegando uma almofada na sua cama e atirando em Isadora. Ela pegou seu ursinho de pelúcia e jogou nela, errando e acertando em Júlia, que, por sua vez, jogou umas camisetas em mim.
Quando menos esperávamos, uma guerra começou. Calcinhas, toalhas molhadas, roupas e almofadas voavam pelo quarto, enquanto nossos gritos ultrapassavam a barreira do som. - MENINAS! – a mãe de Maria Eduarda apareceu na porta, de camisola e cara de sono. Nós paramos na mesma hora e olhamos para ela. Estávamos vermelhas e ofegantes. – Meninas... – ela sorriu, daquele jeito saudades-da-minha-adolescência-de-guerras-de-travesseiro-e-passinhos-do-John-Travolta. – Já são quase 21h e vocês não estão prontas?
Olhamos no relógio em cima do criado-mudo de Maria Eduarda, e vimos que já estávamos mais do que atrasadas.
- MERDA! – Júlia gritou, antes de sair procurando seu vestido pela bagunça.
E aquelas eram as minhas melhores amigas para todo o sempre. Loucas, engraçadas, chatas, estressadas, promíscuas, bocas-suja e imbecis. Mas eu as amava muito.
Lanza fala:
“Ouvi dizer que o Gossip é o próprio Lanza...” July Armstrong sussurrou para um grupo de veteranas, que nos olharam com uma mistura de ódio e admiração.
“Eles são viados, é tudo fachada, eu tenho certeza...” Kamila Eyes disse, um pouco alto demais, para todos os amigos, que estavam parados no bar, bebendo. Era um flashback da última festa em que fomos, e por esses e outros motivos eu estava dando graças a Deus que aquela era a última em que iria.
- Acho que na verdade são todos robôs e nós estamos vivendo no incrível mundo de Beakman. – Koba sussurrou em meu ouvido, e eu cuspi a cerveja que estava bebendo, rindo.
Fomos até o fundo do salão, decorado com lycras brancas e luzes vermelhas, e pegamos a mesa mais distante de todas. A toalha era branca, as cadeiras com forro vermelho e um arranjo de flores brancas estava posto no meio dela. Sentamo-nos. Não estávamos com saco de ficar em pé e ouvir todas as merdas que falavam de nós 4 e das 4 meninas. Eu não estava com saco pra nada, pra falar a verdade. Eu só queria olhar em volta e procurar alguém com cara de suspeito. No fundo eu estava rezando para que alguém com uma plaquinha escrito "Eu sou o/a Gossip" aparecesse na minha frente, pra acabar com tudo aquilo.
- Lanza? – alguém chamou atrás de mim, e eu dei um pulo na cadeira. Virei-me para trás e uma mulher de uns 30 anos, com uniforme de garçonete, sorria pra mim. – Te mandaram esse bilhete. – ela disse, colocando um papel dobrado em minhas mãos e piscando para mim.
Abri com cuidado.
“Se a Cinderela não me encontrar até 12h, vou pegar o microfone e destruir sua vida. Eu estou circulando por aí. Por falar nisso, linda camisa verde.”
Olhei à minha volta, mas não vi ninguém suspeito. Depois olhei para frente e a mulher já havia sumido. Tentei encontrá-la com o olhar, mas ninguém com avental de garçonete chamou minha atenção.
“Merda...” pensei, socando a mesa.
- O que foi, Lanza Reis? TPM fora de hora? – alguém perguntou atrás de mim. Virei-me, confuso como o resto dos guys, mas minha confusão desapareceu ao encontrar John me olhando com cara de imbecil, e Josh ao seu lado, rindo. Atrás deles algumas meninas cochichavam.
- Tava demorando... – Pe Lu virou os olhos, voltando sua atenção para Koba e Thomas, que voltaram a conversar, ignorando a interrupção.
- O que você quer aqui? – perguntei, me lembrando que ele e Josh eram um dos meus suspeitos. – Estão querendo alguma foto inédita?
Eles se entreolharam, com cara de fomos-pegos-no-flagra.
- O que você quer dizer com isso, Lanza Reis? – Josh perguntou, perdendo um pouco a cara de idiota.
- Eu quero dizer... – murmurei, me levantando para poder ficar do seu tamanho. – Que eu sei que vocês dois andam tirando fotos que não devem.
Josh olhou para John, engolindo em seco.
“Isso!” pensei. Então eles eram mesmo os filhos da puta que...
- Tudo bem, Lanza Reis, é verdade. – John deu de ombros. – Quero dizer, nós achávamos que essa história não ia vazar, mas parece que nessa escola as coisas voam! – sorriu, debochado. – Quanto você quer para esquecer essa história?
Hm, pera aí... Eles não queriam ser descobertos por mim?
- Do que... Do que exatamente estamos falando? – perguntei, confuso.
- As fotos das meninas peladas. – Josh sussurrou, com a sobrancelha erguida. – Que mandamos para a Playboy. É disso que estamos falando.
Olhei para John, que concordou com a cabeça, meio envergonhado, meio sacana.
Por aquilo eu não esperava.
- Hm... Sim. É, disso mesmo. – respondi, um pouco surpreso em saber daquilo, um pouco desapontado. John e Josh definitivamente não eram os donos do Conte Seu Babado. Então, quem mais poderia ser?
Marcus, James e Ben eram minhas alternativas.
- E então? – Josh perguntou. – Quanto você quer?
Olhei para ele e logo depois para John.
Sim, eu poderia muito bem ferrar com eles. Poderia espalhar aquilo para todos e nunca mais me preocupar. Mas... Por que estragar o meu último baile com uma fofoca idiota? Por que não deixá-los seguir com a vida deles e seguir com a minha? Quero dizer, eles tinham me infernizado o Ensino Médio inteiro, mas não era como se eu guardasse mágoas nem nada do tipo... Só das porradas que levei. Mas isso não vem ao caso.
- Tudo bem, não vou contar. – respondi, dando de ombros. Eles se entreolharam, espantados. – É sério.
- Ok, então. – John deu de ombros.
- É... – Josh assoviou.
Ficamos ali, em pé, nos olhando sem saber o que dizer.
- Então é isso... – disse, sem graça.
- É, é isso... – eles disseram juntos.
Se viraram para ir embora, e eu já estava quase me sentando, quando John recomeçou a falar, quase como um sussurro.
- Lanza Reis, eu só queria, sabe como é, pedir desculpas. Por tudo.
- Como assim? – perguntei, espantado.
- Esse é o nosso último baile, e eu posso parecer imbecil, mas não queria acabar o colégio com inimigos. – ele disse, parecendo sincero. – O negócio é que eu sempre gostei da Vic, e eu simplesmente não conseguia vê-la com você... Mas isso já passou. – se explicou, enquanto Josh se afastava com as meninas. – Quero dizer, acho que eu sempre vou tê-la como meu primeiro amor, mas não é algo permanente. Existem muitos peixes nesse mar... – ele piscou pra mim, antes de dar as costas e se juntar ao seu eterno grupo de babacas.
Eu entendia completamente o que ele sentia. Era difícil não se apaixonar por Victória, e naquele momento, depois de muitos anos odiando-o, senti um pouco de compaixão por John.
Mas só um pouco.
- O que esses babacas queriam? – Pe Lu perguntou, logo que me sentei na mesa.
- Nada. – respondi, dando de ombros. – Mas pelo menos agora eu sei que nenhum dos dois roubaram a senha do blog.
- Ótimo, agora só resta a escola inteira. – Thomas ironizou, abrindo o celular que vibrava. – As meninas estão entrando.
- Finalmente! – Koba exclamou, virando o pescoço para a porta, assim como o resto de nós.
- Espero que toda essa espera valha a pe... – Pe Lu ia dizendo, quando a sandália vermelha de salto alto de Maria Eduarda apontou na porta.
O salão parou.
Até as fofocas cessaram.
A primeira a entrar foi Maria Eduarda; ela usava um vestido vermelho tomara-que-caia, combinando com as sandálias de saltos altíssimos. Ele parava na altura dos joelhos, um pouco acima. Seu decote era em "V" e a saia era solta e leve, com um cinto preto de cetim marcando sua cintura. Seu cabelo estava todo enrolado, com cachos largos, sua boca cor de cereja, e seus olhos sensuais pelo delineador grosso, estilo gatinho. Ela estava parecendo aquelas pimp-up, mulheres bonecas dos anos 80. Estava incrivelmente sexy, preciso admitir. Espero que Pe Lu não leia isso.
Ao seu lado vinha Júlia. Usava uma sandália prata um pouco menor que a de Maria Eduarda e um vestido preto, colado ao corpo, parando um pouco abaixo das coxas. Seu decote era um tanto quanto grande, mas isso não a tornava vulgar. Muito pelo contrário, estava especialmente doce, com os olhos naturais e a boca marcada pelo gloss rosa claro. Seus cabelos estavam soltos e lisos pelos ombros. Ela sorria e sua bochecha estava corada, e isso fez com que Thomas se arrumasse na cadeira.
Um pouco atrasada, entrou Isadora. Usava um vestido azul claro, estilo grego, com a saia toda cortada em pontas. Estava de sapatilhas de centim, do mesmo tom de azul, e seu cabelo estava preso no estilo medieval, um pouco preso por uma presilha prata com pedras azuis, um pouco solto pelos ombros. Ela sorria e corria em direção as amigas, um pouco envergonhada por entrar sozinha. Mas logo as alcançou. Seus olhos estavam marcados por lápis e rímel azul, e seu batom era cor da pele. Logo que entrou, sorriu para nossa mesa, e eu sorri automaticamente ao vê-la, como se fosse impossível não sorrir em sua presença.
Prendi a respiração logo que as 3 entraram. Sabia que o que viria a seguir não faria bem para o meu estômago, e amaldiçoei mentalmente os cachorros-quentes que havia comido no almoço. Se fosse vomitar, aquele seria o melhor momento.
Então ela chegou. E não estava tão bonita quanto eu imaginei.
Estava melhor.
Koba me olhou, espantado, e eu entendi o que ele queria dizer. Era algo do tipo “olha só a merda que você fez, seu imbecil”. Agradeci pelo olhar.
Eu era mesmo um imbecil.
Ela entrou sem aviso prévio. Colocou os pés pra dentro do salão casualmente, e sorriu para algumas de suas amigas do primeiro ano. Era para ser uma coisa normal, só uma garota entrando e sorrindo para os conhecidos. Mas o simples movimento do seu peito subindo e descendo, possibilitando sua respiração, era sensacional naquele momento. Seus olhos brilhavam, sua boca provocava e seus movimentos eram graciosos e sensuais. Estava usando um vestido verde turquesa e uma sandália prata com pedras azuis turquesa para combinar. O vestido tinha um decote em "U", e descia esplendormente até seus quadris, onde se abria um pouco, dando volume à saia balonê, que acabava um pouco abaixo das coxas. Era de alcinhas, que se cruzavam nas costas. Usava brincos de prata compridos e um colar, também de prata, que ia até suas clavículas, com um pingente de fada. Seus olhos estavam marcados com o delineador e o rímel pretos, e sua boca sorria sob o gloss rosa bem escuro, quase vermelho. Suas maçãs do rosto estavam vermelhas, e seus olhos iluminavam o local.
Era como se um anjo estivesse parado na porta da quadra de basquete.
- Já pode respirar, Lanza Reis. – a voz distante de Júlia invadiu meus ouvidos, mas eu não desviei o olhar dela, que cumprimentava alguns amigos. Aos poucos os burburinhos voltavam a invadir o salão, e eu tenho certeza de que eram mentiras escandalosas, mas não conseguia ouvir. Não conseguia respirar. Só o que me importava era ela.
- Esquece, ele só vai voltar a piscar quando ela chegar aqui. – Pe Lu respondeu por mim.
Aos poucos ela foi se aproximando. Quando chegou à nossa mesa, me olhou e sorriu. Sem mais nem menos. Sem se importar com todos ao redor.
- Lanza. – disse, simplesmente, sentando-se ao meu lado.
- Vic. – murmurei, com a garganta seca. – Você está linda.
- Você também não está mal. – ela riu, e eu sorri, perdidamente hipnotizado.
Ficamos um bom tempo nos olhando, como se nada existisse em nossa volta. As conversas e brincadeiras foram deixadas de lado, e nossos olhos pareciam conversar por nós.
Sem que pudesse controlar meus movimentos, minha mão já estava tirando a flor branca que trazia dentro do terno. Ela levantou o braço e eu, sem pedir permissão, a prendi em seu pulso, delicadamente, sem tirar os olhos dos seus olhos.
- Hm, o casal aí poderia dar atenção para os amigos carentes? – Isadora pediu, e Victória desviou o olhar. Fiz o mesmo, mas ainda sentia sua presença com o canto dos olhos.
Isadora estava sentada ao lado de Koba, e ele a abraçava pelos ombros. Ao seu lado, Thomas segurava as duas mãos de Júlia em cima da mesa, e Maria Eduarda havia apoiado a cabeça no ombro de Pe Lu.
Todos os meus amigos felizes.
Aquilo era simplesmente ótimo. Éramos em oito, corações unidos, pro que der e vier.
Meus melhores amigos.
- Então, Lanza, já descobriu alguma coisa? – Maria Eduarda perguntou. Então abaixou a voz. – Do Gossip.
- John e Josh estão fora da jogada. – dei de ombros.
- Então sobraram James, Marcus e Ben? – Júlia perguntou.
- Aparentemente sim...
- Quem diria, eim? – Victória perguntou, ao meu lado. – No começo do ano estávamos ameaçando esses palhaços no Barney’s e agora estamos aqui, no baile de formatura deles, na mesma mesa, de mãos dadas e compartilhando segredos.
- Realmente, nunca imaginei que vocês pudessem ser tão legais. – Thomas concordou.
- É, e vocês tinham que ver os nossos apelidos para vocês. – Koba brincou.
- Sim, "As Megeras"! – eu disse, e todos nós rimos.
- Melhor que McLosers, certo? – Isadora provocou.
- Para vocês verem como as aparenças enganam... – Júlia disse.
- Mas isso não importa mais, certo? – Maria Eduarda perguntou. – Quero dizer, agora nós somos melhores amigos, não precisamos ficar revivendo o nosso passado sombrio...
- O seu passado sombrio, Duda, não fui eu quem chamou a professora da segunda série de "vaca menstruada". – Isadora riu, e Pe Lu cuspiu o que estava bebendo.
- Foi você! – exclamou. – Você é meu ídolo!
Por um bom tempo ficamos conversando na boa, como costumávamos conversar nas tardes depois da escola, no Barney’s. Alguns insultos, algumas histórias do passado, zoações... Como nos velhos tempos.
A música continuava no fundo, e eu podia sentir o olhar de todos na nossa mesa. Mas não era como se eu me importasse com aquilo. Era tudo besteira comparado à nossa amizade.
- Casais apaixonados, agora vamos tocar algo que talvez possa interessar. – o Dj interrompeu a música, anunciando no microfone. Quando percebi, todos haviam se levantado, e eu fiquei na mesa, sozinho com Victória.
A música começou. Let Me Take You There, do Plain White T’s.
- Adoro essa música. – ela disse ao meu lado, mais para ela mesma do que pra mim.
Virei meu pescoço, junto com o corpo inteiro, e peguei suas mãos. Ela levantou o olhar.
- Você me concede essa dança? – perguntei, cortês.
- Acho que não vai me matar. – ela sorriu.
Levantamo-nos e fomos para o meio da pista, de mãos dadas. Todos olharam, todos comentaram. Isso não nos impediu de continuar. Ela colocou as duas mãos no meu pescoço e eu a envolvi pela cintura. Apoiou sua cabeça no meu ombro, e eu pude sentir o cheiro do seu cabelo, doce.
Conforme dançávamos, eu tinha certeza de uma coisa.
Aquela seria, pra sempre, a nossa canção.
Victória fala:
I know, a place where we can go to,
(Eu conheço, um lugar que podemos ir,)
A place where no one knows you,
(Um lugar onde ninguém conhece você,)
They won’t know who we are!
(Eles não irão saber quem nós somos!)
Seus dedos seguravam firmes em minha cintura. Sua respiração batia costantemente em meu cabelo. Meus dedos escorregavam lentamente pelo seu cabelo. Nossos pés nos balançavam de um lado para o outro, sem ritmo e ritmados ao mesmo tempo. A batida da bateria nos levava de um lado para o outro. Nossos corpos, juntos, dançavam sem necessidade de ordens do cérebro.
I know, a place that we can run to,
(Eu conheço, um lugar do qual podemos correr para lá,)
And do those things we want to,
(E fazer aquelas coisas que queremos,)
They won’t know who we are!
(Eles não irão saber quem nós somos!)
- É a primeira vez que nós dançamos com música de verdade. – surrurrei, e ele soltou uma gargalhada gostosa.
- Está dizendo que eu não sei cantar, Hackmann? É isso que está dizendo? – ele perguntou, e apertou minha cintura. Ele afundei mais ainda minha cabeça em seu ombro, feliz demais para mantê-la firme.
Let me take you there!
(Deixe-me levá-la lá!)
I wanna take you there!
(Eu quero levá-la lá!)
- Não é nada disso... É só que dessa vez nós temos acompanhamento e pessoas em volta, dançando ao mesmo ritmo. – respondi, tentando me explicar.
- Para alguém que tem asma, Hackmann, você fala demais. – ele disse, e eu fechei os olhos.
I know, a place that we’ve forgotten,
(Eu conheço, um lugar do qual esqueçemos,)
A place where we won’t get caught in,
(Um lugar onde ninguém vai nos pegar,)
They won’t know who we are!
(Eles não irão saber quem nós somos!)
They won’t know who we are!
(Eles não irão saber quem nós somos!)
Continuamos a nos balançar lentamente. Eu sentia minha barriga quente e meus dedos estavam gelados em sua nuca. Ele continuava a respirar, me arrepiando.
Será que ele sabia o poder que tinha sobre mim?
Será que ele sabia o quanto eu o amava?
I know, a place where we can hide out,
(Eu conheço, um lugar onde podemos nos esconder,)
And turn our hearts inside out,
(E desligar nossos corações,)
They won’t know who we are!
(Eles não irão saber quem nós somos!)
- Você falar demais não significa que eu não gosto de ouvir você falar. – ele disse, depois de algum tempo em silêncio.
- Não é isso... – murmurei, emocionada de verdade pelo o que estava acontecendo. – Eu só quero guardar esse momento na minha memória para sempre. Não sei quando irá acontecer de novo...
Ele colocou a cabeça para trás, encostando sua testa na minha. Olhamo-nos fixamente, sorrindo como dois idiotas.
Let me take you there!
(Deixe-me levá-la lá!)
I wanna take you there!
(Eu quero levá-la lá!)
Let me take you there,
(Deixe-me levá-la lá,)
Take you there!
(Levá-la lá!)
Take… You there!
(Levá-la… Lá!)
- Não fale isso. – ele pediu, quase que implorando. – Eu não quero ter que pensar que podemos nos separar novamente. Eu quero ficar aqui para sempre, segurando você nos meus braços.
- Eu queria ficar aqui para sempre, sendo guiada por você, sentindo seu cheiro, sentindo seus braços, seu calor... – sibilei, num sussurro baixo. Ninguém em volta precisava saber de nós dois.
- Victória? – ele chamou. – O que você me disse ontem, ou hoje de manhã, tanto faz... Aquilo sobre estar apaixonada por mim... Isso é... Bom?
I know, a place we’ll be together,
(Eu conheço, um lugar onde vamos ficar juntos)
And stay this young forever,
(E permanecer jovens para sempre,)
They won’t know who we are!
(Eles não irão saber quem nós somos!)
- Lanza... – disse, saboreando seu nome entre meus lábios. – Isso é simplesmente maravilhoso. Eu não posso imaginar minha vida sem o que eu sinto por você, sem o que você exerce em mim... Seria algo impossível!
Ele deu aquele sorriso com o canto dos lábios que eu tanto amava.
Let me take you there!
(Deixe-me levá-la lá!)
I wanna take you there!
(Eu quero levá-la lá!)
Let me take you there,
(Deixe-me levá-la lá,)
Take you there!
(Levá-la lá!)
Take… You there!
(Levá-la… Lá!)
Então, sem mais nem menos, ele colocou as mãos em meu rosto e aproximou sua boca da minha. Beijou-me. Apertou seu corpo contra o meu, e eu deixei minhas mãos em sua nuca, puxando-o para mim.
“Ele está me beijando!” pensei, sentindo borboletas no estômago. “Na frente de todos!”
Era como se eu tivesse 12 anos de novo.
We can get away,
(Nós podemos fugir,)
To a better place!
(Para um lugar melhor!)
If you let me take you there!
(Se você me deixar levá-la lá!)
We can go there now,
(Nós podemos ir lá agora,)
‘Cause every second count,
(Porque cada segundo conta,)
Girl, just let me take you there,
(Garota, somente me deixe levá-la lá,)
Take you there!
(Levá-la lá!)
A música acabou. Nossos rostos se separaram, encontrando o salão inteiro nos olhando.
“Eu te amo tanto...” pensei comigo mesma, olhando em seus olhos.
- Eu também. – ele disse, contendo o sorriso.
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