quinta-feira, 1 de julho de 2010

Capítulo 30 – Lá lá lá lá lá, você não me pega!

Lanza fala:

Não me pergunte como. Nem quando e muito menos onde. Só sei que eu sabia. Eu sabia que ela me amava, e, naquele momento, era importante que ela soubesse que eu a amava também. Eu meio que sabia que a qualquer minuto minha vida estaria acabada.
E se fosse mesmo para tudo acabar, que acabasse de um jeito que eu me lembrasse para sempre.
- E quem foi que disse que eu te amo, Lanza Reis? – ela perguntou, beijando meu queixo. Tinha a consciência de que todos em volta nos olhavam. Alguns até pararam de dançar para isso.
- Seu coração, batendo no mesmo compasso que o meu. – murmurei em seu ouvido, segurando sua mão em cima de seu peito, para que ela pudesse sentir o próprio coração. – Seu sorriso ao olhar pra mim. Suas mãos em minha nuca. Seu corpo encostado ao meu. Tudo isso me leva a pensar que você me ama, Hackmann. E isso é tudo que eu sempre quis. Eu estou falando sério, sem jogos, sem brincadeira. Eu fiz tudo por você. Eu fiz tudo para te ter em meus braços, e espero que dessa vez isso possa ser pra sempre. – olhei rapidamente para o lado, e vi que alguém nos observava com interesse. Mas logo desviou o olhar e saiu por entre a multidão. – Mas se não for – continuei, pois tinha certeza que quem nos observava era quem iria ferrar comigo. –, que seja eterno enquanto durar.
Ela sorriu, e enterrou sua cabeça no meu peito. Mas meio segundo depois, se levantou.
- Ah! – exclamou, com um sorriso de orelha a orelha. – Eu sei que as meninas já te contaram. Mas você sabia que eu e Ryan estamos de boa?
- Levando em consideração que essa madrugada você ficou choramingando coisas como "eu fiquei minha vida inteira puta com as pessoas erradas", nem que as meninas não tivessem me contado eu saberia. – sorri de um jeito debochado.
- Idiota. – ela brincou, me dando um soco no ombro.
- Fico feliz por você, Vic. – sorri, sincero. – E espero que você possa se resolver com a sua mãe também.
- Eu também... – ela murmurou, deixando um semblante triste invadir seu rosto. Apertei sua bochecha e disse:
- Ok, vamos mudar de assunto. Não quero te ver triste. – virei os olhos. – Mesmo porque, eu quem deveria estar triste aqui. Sou que vou perder tudo que tenho hoje se não descobrir quem é o filho da puta que roubou a senha do blog...
- Com isso você não precisa se preocupar, Lanza. – ela sussurrou. – Eu já disse, ele não pode tirar o que é seu por direito!
- Lanza! – Pe Lu gritou atrás de mim, entrando na pista de dança com uma expressão zangada. – Preciso falar com você!
Victória me olhou surpresa. Pe Lu nunca havia falado comigo daquele jeito.
- Acho que já começou. – disse, antes de soltá-la, contra minha vontade. – Eu já volto. – exclamei, por cima de Pokerface, que começava alta nos alto-falantes.
Ela só continuou ali parada, estática, enquanto eu andava de costas, olhando Pe Lu e me martirizando por estragar o momento perfeito com a garota perfeita.
Assim que chegamos no fundo do salão, onde o barulho era menor, escontrei Koba e Harry nos esperando. Ryan, o irmão de Victória, estava um pouco mais atrás deles, mas prestava atenção na conversa. Acenei para ele com a cabeça, que acenou de volta. Ele podia usar aquelas bandanas ridículas estilo Gun ‘n Roses, e podia ter me dado uma surra quando eu ainda pensava que ele havia traído Victória, mas ainda assim ele era gente boa.
Mas o quê exatamente estava acontecendo ali? Alguma seita onde eles iriam cortar meu pipi fora?
Run, Lanza, run!
- O que foi? – perguntei, tenso.
- Dude, relaxa! – Thomas assoviou, dando um tapa em meu ombro. – Nós não vamos te comer vivo nem nada do tipo.
- Então por que o Pe Lu tá com essa cara? – perguntei, apontando para ele, que olhava emburrado para os sapatos.
- Nós o tiramos do maior amasso com a Duda. – Koba deu de ombros. – Por uma causa nobre, certo, Munhoz?
- É, pode ser... – ele murmurou, emburrado.
- Então, entregaram esse outro bilhete para Ryan, e ele nos trouxe. – Harry continuou, me entregando um pedaço de papel onde se lia "para Lanza Lanza Reis". Abri-o imediatamente, sem hesitar.

“Estou vendo que está tendo uma noite de princesa. Mas lembre-se, já são 22:47. Já descobriu quem eu sou? E, por falar nisso, sua bunda fica linda nessa calça.”

Como intuição, ou alguma merda desse tipo, me virei para trás, vendo a silhueta da mesma pessoa que havia visto na pista de dança. Infelizmente não pude ver mais nada, pois um casal bêbado entrara na frente, e, quando saíram, a pessoa já havia sumido. Mas pude ver que estava de azul-escuro.
Era um começo, certo?
- Vocês viram aquilo? – perguntei, me virando de volta. Thomas negou com a cabeça, Koba olhou em volta, Ryan apertou os olhos e Pe Lu levantou os olhos. – Tinha uma pessoa observando a gente. A mesma que me observou na pista de dança mais cedo. – expliquei, e eles se juntaram mais, como uma gangue ouvindo as ordens do chefe. – Essa pessoa usava azul-escuro... – avaliei, pensativo. – Nós podemos vasculhar a área, ver quem está de azul-escuro!
- Boa ideia. – Pe Lu pareceu animado pela primeira vez. – Então vamos andar por aí e nos encontramos aqui daqui meia hora. – ele olhou no relógio. – Já será 23:30, ainda teremos meia hora para pensar.
- Ok, ótimo. – Koba disse, já saindo da nossa vista. Ryan, Thomas e Pe Lu fizeram o mesmo, me deixando sozinho. Mas antes que pudesse ir procurar, trombei com James, que derrubou cerveja na camisa azul-escura.
- Me desculpe, James! – exclamei, constrangido.
Espera aí...
Azul-escura?
Pera aí. Pera aí, só mais um minuto.
James estudava no Colégio Norbert para estar naquele baile?
- Não foi nada, Lanza. – ele disse, passando a mão pela mancha de cerveja em sua camisa. Como um flash, me lembrei das fotos no seu armário, da suspeita dos guys e agora via sua camisa azul-escura.
Eu gostava de James, mas não havia mais dúvidas de que ele era...
- Escuta, Lanza, eu preciso te pedir um favor. – ele disse, antes que eu pudesse terminar o raciocínio. – Estou pra te perguntar isso faz, sei lá, cara, meses! O negócio é que há algum tempo eu tenho acessado aquele blog, o Conte Sua Fofoca, ou algo do tipo... E eu imprimi algumas fotos. Sabe como é, pra poder lucrar um pouco. Tem gente idiota pra tudo, né? – ele perguntou, piscando pra mim. Fiquei confuso. Máqueporra ele estava querendo dizer? – Então eu meio que comecei a emoldurar as fotos e vender para os muleques idiotas do colégio. E eu meio que tô ganhando uma boa grana... Mas eu queria pedir tua autorização antes de continuar. Sabe como é, você pode querer entrar na justiça, aí que eu tô fodido. Já estou como bolsista na escola, e não quero me meter em encrenca. – dito isso, tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu um na minha frente.
Pera aí, de novo!
Primeiro: como James podia ser do Colégio? Eu nunca havia o visto por lá!
Segundo: James, o bonzinho James, fumava?
Terceiro: será que ele não sabia que não podia fumar lá dentro?
Quarto: o filho da puta estava lucrando às nossas costas?
Antes que pudesse pensar sobre tudo isso, vi uma risada nas minhas costas, e quando me virei, havia sumido.
- Escuta, eu preciso ir. – disse, vendo um rastro azul-escuro sumir entre as pessoas. Comecei a correr, mas antes gritei de volta: - E não se atreva a vender mais nenhuma foto nossa! Seu imbecil!
Ufa.
Me senti bem em fazer aquilo.
Será que a solução dos meus problemas era xingar as pessoas?
Era algo a se pensar, enquanto eu seguia um rastro azul pelo salão.

Victória fala:

Era estranho ficar sozinha entre todas aquelas pessoas – meninas, diga-se de passagem –, que me olhavam com ódio. Não sei porquê tanto ódio no coração, gente, era só um garoto como todos os outros! Famoso, mas ainda assim um garoto.
Na verdade era um garoto lindo, de arrasar corações.
E com uma conta corrente imensa.
Mas e daí? Do que adianta tudo isso sem amor?
Não que o dinheiro atrapalhasse algo...
Ok, por que eu estava mesmo pensando no dinheiro de Lanza mesmo?
- Vic! – Maria Eduarda gritou ao meu lado, me tirando dos pensamentos idiotas.
- Duda! – exclamei de volta. Estava tão feliz que sentia vontade de conversar aos berros. E a música alta no fundo me ajudava nisso. – Tudo maravilha na ilha?
- Tudo tranquilo no mamilo, my lady. – ela respondeu, um pouco vermelha demais.
- Por que você está vermelha? – perguntei, já imaginando a resposta.
- Dancei demais. – ela respondeu, ficando mais corada ainda.
- Hm... – murmurei. – Legal saber que você cansa dançando música lenta. – disse, sorrindo. Ela me deu um tapa de leve e nós começamos a dançar Pokerface. Quando menos percebi, Júlia e Isadora se juntaram a nós duas, como Comensais da Morte que apareciam do nada.
Só que sem o capuz preto e as tatuagens do mal.
É, você me entendeu.
Continuei a dançar, fechando os olhos e deixando o ritmo me levar. Deixa a vida me levar, vida leva eu! [N/A: Eu contei pra vocês que fui no Hilton pra ver a Restart e encontrei o Zeca Pagodinho breaco? Tem até foto no meu orkut, HAHAHA! Pra quê o Tom se eu posso ter o Zeca?] Eu sei que eu deveria estar por lá procurando o cara ou a garota que queria ferrar a vida do cara que eu amava. Mas Pokerface é tão boa!
Lady Gaga é diva. Quero dizer, tirando o fato de que ela é mais esquisita que o David Bowie.
- Mas e aí, alguma pista de quem seja o Gossip? – Isadora perguntou, se aproximando de mim.
- Lanza me disse, enquanto dançávamos, que Josh e John estavam fora da parada. Eu não estou vendo Bella por aqui, então ela também não pode ser... – suspirei, vendo que nossa lista de suspeitas diminuía a cada minuto. – Só nos resta James. E os meninos acham que Marcus também pode ser. – dei de ombros, quando vi Lanza passar correndo pelo salão, concentrado em algo. Olhei para onde ele olhava, mas não vi nada que pudesse mantê-lo tão sério. Quero dizer, Marcus dançava perto de mim com algumas amigas, e James estava no bar, passando um pano pela camisa.
Continuei a dançar, quando a música trocou de Pokerface para Just Dance.
Overdose de Lady Gaga é o que há!
Quando o refrão começou a tocar – "Just dance, it’s gonna be ok, just dance!" – senti duas mãos em meus ombros e uma respiração ofegante. Virei-me, assustada, e vi Lanza com uma mistura de expressões. Estava triste e bravo ao mesmo tempo.
- James... saiu... da... parada... – ele murmurou, entre respirações. Respirou mais um pouco e continuou. – Eu só sei que... A pessoa está de azul-escuro. Não sei se é... Vestido ou camisa, só sei que é azul-escuro.
- Então dos nossos suspeitos, só restou... – parei de falar, e ele balançou a cabeça em afirmativa. Fiz uma careta. Não podia ser!
- Marcus. – terminou por mim.
Olhei para trás, onde ele dançava animadamente com o namorado. Respirei aliviada ao ver que ele usava – dou uma bala para quem adivinhar – rosa, e não azul-escuro. Mas segurei o ar novamente, ao ver que Dylan, seu namorado, usava azul-escuro. E que ele acabara de se juntar a Marcus.
Lanza olhou para onde eu olhava e mordeu o lábio inferior.
- Eu vou até lá. – ele disse, decidido.
- Eu vou com você. – disse, segurando sua mão gelada.
- Não, fica aqui, é melhor que eu vá sozinho. – ele pediu. – Aproveita o baile, Vic. Deixa que eu me viro com isso.
- Mas eu não consigo aproveitar o baile quando sei que você está todo tenso. – exclamei, passando a mão por seus ombros. Ele cedeu um pouco, pronto para me puxar para um beijo, mas Marcus começou a se afastar com Dylan, e ele ficou tenso novamente.
- Eu preciso descobrir isso. – disse, como se colocasse um ponto final naquela conversa. – Por mim e por você. – dito isso, tirou delicadamente minhas mãos de seu ombro. – Aproveita com as suas amigas.
Deu um beijo rápido em minha testa e saiu atrás dos dois.
Voltei meu corpo para as meninas, que esperavam curiosas.
Dei de ombros.
Estava começando a pensar que aquela seria uma batalha perdida.

Lanza fala:

O namorado gay de Marcus estava de azul-escuro. E por onde eu olhava via pessoas de azul-escuro. Com o canto dos olhos, vi Ryan conversando com duas meninas de azul. Porra! Aquele era o dia mundial do azul?
Olhei no relógio. Quando recebi a carta do Gossip, eram 23:02, agora já eram 23:33. Teria que me juntar com os guys, mas tinha que ir até Marcus. E logo. Porque ele era minha última "esperança". Eu esperava, na verdade pedia aos céus, que fosse ele. Que fosse ele ou que fosse logo alguém, pelo amor de Deus! O desespero começou a me comer por dentro. Desde que tudo aquilo começara, não sentira medo nenhuma vez. Exceto aquele momento. Aquele momento crucial, onde eu sabia que eu dependia unicamente de Marcus. Eu dependia dele. Eu queria que ele fosse o Gossip.
Ele é gay, pelo amor de Deus! Tinha que ser ele!
Ia pensando enquanto andava, distraído, então eu meio que trombei nele, não percebendo o quão próximos nós estávamos.
- Me desculpe! – exclamei pela segunda vez aquela noite. Só esperava que pudesse retirar as desculpas, como não pudera fazer com James.
Marcus sorriu, e seus olhos brilharam. Senti um chute no estômago.
- Tudo bem, Lanza Reis. – disse, saboreando meu sobrenome em sua boca. – Não tem problema.
Sorri amarelo, olhando para seu namorado, que olhava para mim com uma mistura de raiva e divertimento.
- E aí. – cumprimentei, acenando com a cabeça. – Beleza?
- Beleza, e você? – perguntou, estendendo a mão. – Eu sou Dylan.
- Eu sei quem você é. – murmurei, e ele e Marcus me olharam, inexpressivos. Dylan abaixou a mão. Era agora ou nunca. – E eu sei o que vocês dois estão fazendo pelas costas de todos nós. Eu sei que você – olhei para Marcus, e ele continuava sem expressão. Aquilo estava me deixando mais nervoso ainda. Eu suava, e tinha vontade de correr para a barra da saia da minha mãe e chorar. – se faz de "amiguinho" – fiz aspas com a mão, para enfatizar. –, mas no fundo é um cuzão. Um cuzão com C maior.
Respirei fundo.
Nós três nos olhávamos, os dois sem expressão, e eu como se fosse chorar a qualquer momento.
Passados alguns segundos de tensão, Marcus me segurou pela manga do terno e me puxou para baixo. Desequilibrei-me, quase caindo, se não fosse por Dylan, que se abaixou junto e me segurou; os dois juntaram as cabeças, criando uma espécie de roda fechada.
- Eu vou dizer só uma vez e espero que você escute com atenção. – Marcus começou, com uma voz de homem incrível. Nunca pensei que aquela bicha afetada pudesse falar daquele jeito. Eu meio que fiquei com medo. – Você não sabe de nada, você não viu nada. E se essa história vazar, pela escola ou pela Internet, você é um homem morto.
- Nós estamos realmente ficando ricos com isso, Lanza Reis. – Dylan murmurou, por entre os dentes. – E não vamos perder tudo por sua causa. Você tem a sua bandinha, e eu imagino como seria para você perdê-la.
Hã? Ricos? O blog dava dinheiro?
- Mas eu já descobri vocês! – exclamei, ansioso. – Não estou livre do castigo ou qualquer coisa do tipo?
- Do que você está falando? – Marcus perguntou, parecendo desconcertado pela primeira vez.
- Do Conte Seu Babado e as ameaças que vocês estavam fazendo! – abri o jogo, sem paciência para joguinhos, me segurando para não gritar. Por que eles não acabavam com o meu sofrimento de uma vez só? – Porra, eu descobri, eu mereço isso!
Os dois arrumaram a postura e se olharam, confusos.
- O quê? – choraminguei.
Eu era, oficialmente, um filhinho de mamãe.
- Do que exatamente você está falando, Lanza Reis? – Marcus perguntou, voltando para sua voz normal de afetado. – Você acha que nós roubamos a senha daquele blog de merda?
Não!? Não roubaram!?
MERDA!
- Não roubaram? – perguntei, rezando para que aquilo fosse um tipo de pegadinha de mau gosto. Mas eu sabia que, no fundo, não era. Eles continurama em silêncio, e eu fui ficando cada vez mais nervoso. – NÃO ROUBARAM? – gritei, e abaixei a voz ao ver que algumas pessoas nos olhavam curiosas. – Não roubaram? – perguntei novamente, mais calmo.
Não tão mais calmo.
- Não! – eles disseram em uníssono.
- Claro que não, nós temos mais o que fazer... – Dylan deu de ombros.
MERDA!
- Ah não, ah não, ah não! – disse, ignorando a presença dos dois. Estava tão desesperado que nem quis saber do que eles estavam falando e como diabos eles estavam ficando ricos.
- Ok, fiquei aí com seus lamentos. – Marcus disse, se afastando. – E você não ouviu nem sabe de nada de nós dois. Combinado?
Não respondi. Estava desolado demais para responder.
Se não eram eles, quem diabos poderia ser!?
E, mais uma vez, voltava a estaca zero.
Caminhei lentamente até o fundo do salão, onde Ryan, Pe Lu, Thomas e Koba me esperavam. Eles pareciam ansiosos, mas eu continuei devagar. Não tinha mais esperanças. As ameaças do Gossip eram reais demais, e eu sabia que perderia mesmo tudo que era meu.
Então por que a pressa?
- Cara, vai logo! – Koba me despertou dos lamentos mentais.
- Não é Marcus. – dei de ombros. – Não é Marcus, não é James, não é John nem Josh. Não é Bella, NÃO É NINGUÉM! PORRA! – estourei, sentando-me de qualquer jeito na cadeira mais próxima. – Agora eu estou ferrado. Vou perder vocês, vou perder a banda e... – senti um nó se formar em minha gargante. – Vou perder Victória. Mais uma vez. Eu não vou aguentar perdê-la mais uma vez... – agora falava comigo mesmo, ignorando a presença dos meus amigos. Olhei no relógio. 23:55. Eu tinha 5 minutos.
- Cara, você acha mesmo que um estranho pode tirar você da gente? – Pe Lu perguntou, chacoalhando meus ombros pesados. – Acorda pra cuspir, seu imbecil, não é assim tão fácil se livrar de você! – levantei meus olhos também pesados pelo cansaço mental. – Nós te amamos, dude, não vamos sair do seu lado nunca! Estamos te ajudando com essa pessoa só porque não queremos ter ver mal, mas independente do que ele ou ela possa dizer, não vai mudar a nossa amizade!
- Pára de viajar, Lanza Reis. – Thomas concordou.
- O máximo que pode acontecer é você passar por algum tipo de humilhação social. Mas quem se importa com todos esses imbecis? – Koba perguntou, apontando com a cabeça para as pessoas que dançavam no salão. Olhei para eles, desolado, e pude ver Isadora, minha Isa, toda feliz e saltitante. Vi Maria Eduarda, indo até o chão de brincadeira, e ao seu lado vi Júlia, rindo da idiotice das amigas; e, no meio delas, estava Victória dançando, animada.
Victória cruzou seu olhar pelo meu e sorriu, mandando um beijo para mim. Sorri fraco. Não tinha mais forças para fingir que tudo estava bem.
- Você gosta mesmo dela, não é? – Ryan perguntou, baixo o suficiente para que só eu pudesse ouvir. Pe Lu, Thomas e Koba conversavam sobre novas suspeitas, mas nada mais me importava. Eu só queria que tudo acabasse logo, para poder me afundar de vez no meu infortúnio.
- Mais do que você pode imaginar. – respondi.
- Ela é mesmo especial pra prender um cara como você. – ele disse, sorrindo abobado, olhando para a irmã.
Especial.
É. A partir daquele momento, aquele seria meu adjetivo para me lembrar da melhor época da minha vida.
Especial.
- Boa tarde, formandos. – ouvi a voz distante do diretor. Afundei meu rosto em minhas mãos. Só me restava esperar. – Estão aproveitando o baile?
Os vários "sim" pareciam distantes pra mim. Tudo parecia distante pra mim naquele momento.
- Então vamos contar até 10 para a meia-noite, onde vocês estarão formalmente formados! – ele riu da própria piada, tentando ser um diretor "cool", embora todos soubessem que ele era um idiota de marca maior.
Os gritos ecoaram por todo o lugar, invadindo minha pequena cabana de cabelos e braços.
- 10! – ele gritou.
“9”
“8”
“7”
“6”
“5”
“4”
“3”
“2”
“1...”
Ouvi alguns chiados no sistema de som, e logo uma voz estridente soava por todo o salão, com os protestos do diretor ao fundo.
- Pedro Gabriel Lanza Reis, está me ouvindo? O vocalista da Restart consegue me ouvir? Ou melhor, consegue ver seus amigos daí? Consegue ver o amor da sua vida daí? Então aproveite o momento, porque depois do que eu vou falar, você não vai vê-los por um bom tempo. Ou eles que não vão querer te ver... – a voz disse, e eu levantei minha cabeça, olhando para o palco. Quando meus olhos se focalizaram, vi todo o salão me olhando. Vi Victória com uma expressão de dor, e vi minhas amigas olhando assustadas para mim. Depois olhei para o palco e vi. Vi quem estava disposto a destruir minha vida. Mais do que disposto. Vi quem estava sentindo um prazer imenso em estar acabando com tudo que eu mais amava.
A primeira coisa que veio em minha cabeça foi: "Não pode ser."
Simplesmente não podia ser!
O Gossip era...

Capítulo 31 – Amor não correspondido.

Lanza fala:

- Katy Springs? – murmurei comigo mesmo. – Katy Springs? – repeti, como um disco riscado. Mas eu não conseguia entender. Por que diabos Katy Springs estava querendo acabar com a minha vida? Eu nem a conhecia direito! Eu só sabia que no começo do ano ela estava com Harry, e que ela era a garota mais peituda do colégio.
Então, de repente, como se estivessem ali o tempo todo, flashes invadiram minha cabeça.

“Então, um belo dia, uma menina que Thomas estava ficando – Katy Springs, a eterna peituda – mandou uma foto para uma amiga de John beijando duas meninas. Mas ela errou o endereço – ou não – e mandou para Harry, que achou a foto tão engraçada que postou-a no blog.”

Ela que havia começado com tudo. Ela tinha um plano perfeito.

“Pista 1 – Você conversa comigo quase todos os dias. Nós somos até que próximos. De um jeito diferente, mas somos.”

Lembro-me de que sempre conversava com ela, pois tinha pena pelo jeito que Harry havia acabado tudo. Com uma mensagem pelo celular.

“Pista 2 – Quando voltar da Argentina, estará mais próximo de saber quem eu realmente sou! Mas não pense que se livrará de mim por lá. Eu estarei na sua cola!”

Katy havia pego Ben. Ben era o seu informante da Argentina!
Lembrei-me da conversa que as meninas tiveram sobre Ben logo que pousamos na Argentina. Eu parecia estar prestando atenção nos guys, mas estava com o ouvido nelas.
"Fiquei sabendo que sua última vítima foi Katy Springs!", Maria Eduarda disse.
"... A eterna peituda!", as quatro riram.

“Pista 3 – Não se engane. Às vezes as pessoas não são nada do que você acha que são! Fique ligado, existem os vencedores e os subordinados!”

Naquela época, cheguei a pensar que Ben fosse o Gossip. Mas ele era só um "empregado". Era ela quem comandava tudo.

“Pista 4 – Estou com saudades! Quem sabe a gente não se esbarra por aí, tanto na escola quanto nas festas... ? Fique esperto com todos à sua volta, algum deles pode ser eu.”

A festa de Marcus! Nós havíamos perguntado à ela onde Victória estava!
"A Victória tá aí?", Thomas perguntou.
"Tá lá em cima", Katy respondeu, visivelmente tensa, fugindo de nós logo em seguida.

“Pista 5 – Foi bom encontrar você! Bom, resolvi antecipar as coisas... O baile de primeiro de Setembro está chegando! Se até lá não descobrir quem eu sou... Já sabe o que vai acontecer, certo?”

Lembrei-me de trombar com Katy no último churrasco em que fomos.
Eu passei correndo pelas pessoas, mas esbarrei sem querer em alguém. A garota, que reconheci pelos peitos como sendo Katy Springs, sorriu de atravessado pra mim, e eu a ignorei!

“Então, quem eu sou!? Homem ou mulher? Alto(a) ou baixo(a)? Gordo(a) ou magro(a)? Peituda ou gostoso?”

E essa foi a cartada final.
Peituda ou gostoso?
Meu Deus, como eu não havia percebido antes!?
Estava ali na minha cara todo esse tempo e eu não havia me ligado. Nem eu nem ninguém. Porque, afinal, Katy era só mais uma no cenário escolar. Ela não era nada demais. Uma peituda gostosona no máximo.
Só uma coisa não se encaixava: o que ela tinha contra mim?
Ela deveria estar brava com Harry, não comigo!
O que diabos eu havia feito pra ela!? Eu sempre fora simpático com ela!
- Katy Springs? – os sussurros começavam a se espalhar pelo salão. Depois se transformaram em vozes altas, e o burburinho começou.
Eu não conseguia falar nada, enquanto olhava para aquela baixinha peituda, em pé no palco, segurando o microfone com firmeza. Ao meu lado, os guys pareciam estar na mesma. Nenhum deles se mexia, temendo que com isso pudessem desencadear a terceira guerra mundial.
Então ela recomeçou a falar, e o salão ficou quieto novamente, como se estivesse rolando um funeral, e não um baile de formatura.
- Boa noite, Colégio Norbert. – nenhuma resposta, e ela continuava a sorrir, um sorriso maligno e debochado. Isso me fez tremer por dentro. – Como vocês já devem estar suspeitando, eu sou a Gossip. Fui eu quem atualizou o blog todo esse tempo. Eu quem tirei as fotos, e quando não pude estar presente, Ben as tirou por mim. Ah, ele não pôde comparecer hoje pois está na Alemanha, mas mandou um beijo para todos vocês! – ela falava como se fosse a coisa mais normal do mundo. Até o diretor prestava atenção em Katy. – E como vocês já devem estar sabendo, a pessoa que deveria me revelar, não conseguiu. Essa pessoa é Pedro Gabriel Lanza Reis, que está parado ali atrás com a maior cara de idiota do mundo! – ela riu, e muitos rostos se viraram para me observar melhor. Por puro nervosismo, dei dois passos para frente. Não conseguia mais olhar para ninguém, a não ser Katy Springs, com seu vestido decotado, azul, seu cabelo caindo em cachos pelas costas, sua flor branca presa à mão, e seu sorriso diabólico. – Sabe, Pedro Gabriel Lanza Reis sempre foi uma lenda urbana. Ele sempre foi... – ela colocou a mão no queixo, pensativa. Seus olhos queimavam minha pele. – Perfeito. – seus lábios destilaram, sentindo prazer em me torturar.
Ela se virou e começou a mexer em um controle, ligando alguma coisa atrás de si. Eu permaneci imóvel e mudo. Ouvia a respiração dos meus amigos, atrás de mim, mas estava aterrorizado demais para ver o que eles estava fazendo.
Eu estava me perguntando mentalmente o que ela sabia sobre mim que poderia me ferrar tanto assim... Até aquele momento não havia pensando nisso! Quero dizer, eu tinha a ficha limpa! A não ser por... Mas ela não seria capaz de contar aquilo, seria? E como ela poderia saber sobre aquilo!? Impossível... Mais que impossível, impossível e improvável! Ninguém seria capaz de ser tão cruel ao ponto de usar aquilo para ferrar com a vida de alguém...
Será que Katy seria tão cruel assim!?
De repente, lembrei-me da ligação no meio da noite. Depois do show do DellRay, no dia em que Victória descobriu que o pai estava voltando com o irmão... Passei mentalmente todas as casas da rua: o casal com os dois filhos, a senhora com 20 gatos, Marcus, o cara separado que morava sozinho, o casal com três filhos pequenos e John. John e Marcus estavam descartados. O casal com três filhos pequenos também... O cara separado que morava sozinho também, porque eu sabia que ele não tinha filhos. Só sobrava a velha com os 20 gatos... Forcei minha cabeça, tentando me lembrar das muitas fofocas que ouvira de Katy Springs. Era muito burra, odiava a cor verde, pegara 13 caras em uma mesma noite, morava com a avó louca... A avó louca! Então era aquilo!
Mais uma vez me pegava pensando: "Como eu pude ser tão cego?"
O telão da quadra desceu, e imagens começaram a aparecer.
Será que ela teria o sangue frio de usar aquilo que eu pedia a Deus que não usasse?

Victória fala:

Katy Springs? A eterna peituda?
No way!
Agora sim o mundo estava de ponta cabeça! Por que, quero dizer, a Katy? A inofensiva e burrinha Katy Springs? Que comia com o grupo de teatro e ouvia Beyoncé o dia inteiro? Essa Katy Springs?
O que ela poderia querer com Lanza? Além da sua conta bancária? Porque, convenhamos, ele sempre fora gentil com ela, principalmente depois que Thomas dera um pé em sua bunda! Então por que diabos ela estava ali, com um sorriso parecido com o de Lúcifer no rosto?
Aquilo tudo era culpa do Thomas. Ele ia ver só quando chegasse em casa!
Um estalo alto invadiu meus ouvidos, e o salão escureceu. Olhei para cima, e uma tela piscava, como um grande cinema macabro.
Olhei para trás e Lanza continuava estático, em choque.
Homens...
Preciso admitir que ao mesmo tempo em que eu não queria que nada ferisse Lanza, estava curiosa para saber o que aquela criatura diabólica poderia dizer sobre ele que mancharia sua reputação. Como ela mesma dissera, ele era perfeito, não tinha defeitos, não tinha um passado ruim... Então o que poderia ser?
- Esse é o Lanza que vocês conhecem. – ela murmurou, e imagens dele começaram a rodar, ao som de Don’t Stop Me Now do Queen. Ele dançando no palco da escola, no pré 1. Ele pulando de felicidade ao ganhar o campeonato de basquete na sétima série. Ele pulando de cueca na piscina de Britanny, ao encher a cara no primeiro churrasco da oitava série. Ele tocando no show do DellRay, com uma calcinha na cabeça. Ele dançando no intervalo com Koba, Pe Lu e Thomas. Ele no Barney’s, jogando batatinha frita em todos nós. Então a música mudou, para Miserable At Best do Mayday Parade. E mais fotos começaram a aparecer. Fotos minhas e dele. Fotos íntimas, de nossa viagem à praia, de nossa viagem à Argentina, de todas as idas ao Barney’s, de nossas zoeiras na casa deles... Fotos antigas, fotos atuais.
- Esse é o queridinho do Colégio Norbert. O garota que conquistou a menina mais bonita de toda a escola! Esse é o perfeitinho, o fofinho, o sensível Pedro Gabriel Lanza Reis! – ela piou, enraivecida. Então, mudando o tom de voz para felicidade pura, continuou: - Mas vocês sabiam que o nosso Lanza tem uma irmãzinha? – perguntou no microfone, em sintonia com a nova imagem que aparecia. Na foto, Lanza, com uns 13 anos, abraçava uma garotinha, de uns 9, muito parecida com ele. Os dois sorriam para a câmera, e pareciam bem ligados. Olhei para trás, intrigada, e os guys pareciam compartilhar meus pensamentos. Procurei Lanza, e o encontrei, mas ele não percebeu meus olhos em cima dele. Sua boca tremia e seus olhos estavam muito vermelhos. Senti um nó na garganta, no mesmo instante em que Katy voltava a falar. – Provavelmente ele nunca falou sobre ela a ninguém, pois a pequena Michele está em coma há dois anos. – disse, como se fosse a coisa mais normal do mundo. – E por que ela está em coma? É uma boa pergunta... E acho que vocês tem todo o direito de saber! – exclamou, como uma criancinha feliz. E, dito isso, o telão deu mais um estalo, e um vídeo começou a rodar.
No começo as imagens estavam desfocadas, e só se ouviam vozes embaralhadas e sirenes. Depois, a imagem ficou nítida, e só se via fumaça. Uma ambulância passou na frente da câmera, dispersando a fumaça, deixando amostra os restos mortais de um carro preto, batido de lado em um poste, que caíra sobre ele.
"O que aconteceu aqui?" a pessoa que filmava, um homem, perguntou a uma senhora do seu lado, de cabelos grisalhos e uma expressão preocupada no rosto.
"Foi um garotinho. 15 anos... Ele saiu ileso, graças à Deus! Já a irmã, coitadinha... Só 11 anos! Quebrou três costelas e bateu a cabeça. Suspeita de traumatismo craniano, pelo o que falou o paramédico que a retirou do carro. Foi direto pra UTI, estava desmaiada..."
"Que história horrível!" uma mulher exclamou, ao fundo.
O homem que filmava deu zoom nos estilhaços e no ferro retorcido, que antes fora um carro. O lado do motorista estava levemente amassado, mas o lado da carona fora destruído pela pancada, e a parte de trás do carro fora amassada pelo poste, que caíra em cima. Era como um desenho, um quebra-cabeça. Se mais pessoas estivessem no carro, todas estariam feridas, ou mesmo mortas, menos ele. Ele fora salvo, sem nenhum arranhão. A imagem com zoom mudou de foco, para um garotinho enrolado em um cobertor cinza. Quando ele se virou para o lado, todos viram que era Lanza. Ele chorava silenciosamente, e seu pai o abraçava pelo ombro, enquanto falava com os policiais.
O telão escureceu e clareou de novo. Dessa vez, fotos felizes. Lanza e sua irmã, abraçados, na piscina, jogando travesseiros um no outro, tudo ao som do silêncio. Quando percebi, lágrimas escorriam por meu rosto.
Depois, as fotos felizes foram substituídas por fotos da garotinha na UTI. Seus cabelos loiros estavam desbotados, sua pele amarelada. Estava magra, com tubos enfiados por todo o seu corpo. Não era, nem de longe, e menina feliz das fotos anteriores.
A última foto foi uma de Lanza gargalhando. Embaixo, uma legenda: "Perfeito ou assassino?"
O salão ficou claro novamente, e eu cobri meus olhos, não acostumada com a claridade. Quando meus olhos finalmente pararam de lacrimejar, olhei para Katy, que sorria, serena, enquanto todos continuavam calados. As respirações viraram uma só. Os corações batiam como um só. E todas as mentes tinham a mesma pergunta: Por que Lanza nunca contara aquilo?
Eu estava desapontada. Não por ele ter causado o acidente, era claro que aquilo não havia sido sua culpa. Talvez fosse sua culpa ter pego o carro sem carta ou autorização, mas o destino era assim mesmo. O que tivese que ser, seria. Mas eu estava desapontada por ele não ter me contado. E mais ainda, por ele ter aguentado calado todos os meus lamentos, quando o que ele tinha guardado era mil vezes pior. Por ele não ter confiado em mim, por ele não ter dividido comigo sua angústia... Era por isso que eu estava desapontada.
- E aí, Lanza Reis, não tem nada pra falar? – Katy perguntou, rindo.
Continuei de costas; não conseguia encará-lo. Não por achar que ele era um assassino, mas por me sentir péssima por ele. Por ele estar passando por tudo aquilo sozinho.
O salão continuou em silêncio por alguns segundos. E no instante seguinte, ouvi uma batida de porta se fechando. Quando finalmente olhei para trás, Lanza não estava mais ali.
- Acho que alguém não encara muito bem a verdade... – ela deu de ombros, desligando o telão despreocupada. Então se ajeitou, arrumando a postura, e sorriu. – Bom, agora que eu já fiz o que disse que faria, e agora que o blog acabou, não preciso mais me esconder, e esconder o que eu sempre senti. – então ela desceu os degraus do palco e caminhou despreocupada entre as pessoas, ainda com o microfone nas mãos. O salão ainda estava em silêncio, absorvendo as últimas informações. Eu sabia que se não sentisse que mais algo estaria por vir, estaria correndo atrás de Lanza, mas eu precisava saber o motivo pelo qual Katy Springs havia feito tudo aquilo.
- Por que você fez isso? – me ouvi gritar no meio do salão. Não sei de onde veio a minha voz, só sei que ela saiu, sem mais nem menos, como se não pudesse esperar mais dois segundos. – Por que diabos você fez isso? Você sente prazer em humilhar e magoar alguém assim? Você é sádica ou algo do tipo?
Katy, que andava tranquila por entre as pessoas, que a olhavam sem expressão, se virou para mim, sem desfazer o sorriso.
- Que bom que você perguntou, Vic! - exclamou, como se fóssemos velhas amigas. Deu cinco passos em minha direção, e, quando percebi, ela segurava meu braço, próxima demais. – Eu espereva que fosse você a primeira a perguntar isso... No fundo, eu queria que fosse você. – disse, mostrando os caninos afiados.
- O que você quer dizer com isso? – perguntei, e senti a presença das minhas amigas logo atrás de mim.
- Quero dizer que eu estava me preparando para isso há muito, muito tempo... – ela murmurou, e o sorriso desapareceu. Seu rosto agora era calmo e... Expressivo. Intenso. E eu estava ficando com medo... Será que aquele era seu objetivo? Matar a patricinha no baile de formatura, tipo Carrie, a Estranha? Ou era simplesmente seu jeito de torturar as pessoas? Fazendo aquela cara de louca sob o efeito de calmantes. – Na verdade, eu me preparo para isso há 5 anos, quando descobri que estava apaixonada por você, Victória.
Comecei a rir no mesmo instante em que ela falou aquilo. Ela poderia ser uma louca, mas aquela piadinha fora mesmo engraçada.
Então olhei direito para ela, que permanecia séria.
Espera aí... Ela... Não... Hã!?
- É brincadeira, não é!? – perguntei, dando um passo para trás, me livrando de seus dedos gélidos. Um lampejo de dor atravessou seu rosto bem composto, quase que uma máscara caindo.
- Claro que não! – exclamou, nervosa, pela primeira vez mostrando sinais de que era um ser humano. – Por que você acha que eu fiz tudo isso? Por que eu sou sádica? Fiz por amor, Victória! Por amor!
Eu estava pasma.
Aquilo tinha que ser uma pegadinha! Eu tinha quase certeza que Ashton Kutcher iria pular do bar e gritar "You’ve been Punk'd!" pra mim, ou que o Serginho Malandro fosse descer do palco e gritar "Pegadinha do Malandro!" [N/A: HAHA, não aguentei, tinha que usar o Serginho Malandro, ele é divo!]. Então esperei um pouco em silêncio.
Mas quando percebi que não, aquilo não era uma brincadeira – depois que ficamos nos olhando quase que um minuto inteiro em silêncio – balancei a cabeça, abobalhada, sem saber o que dizer ou o que fazer. Então eu recomecei a rir.
A rir. Gargalhar!
Não que aquela situação fosse engraçada, longe disso... Era só que, o quão bizarro era ser hetero e ter uma mulher gostando de mim? Nada contra lésbicas, longe disso, mas eu, definitivamente, não gostava da fruta. Como ela poderia pensar, depois de todos os caras que eu já fiquei e namorei – não que fossem muitos, mas os poucos foram polêmicos – que eu fosse abrir os braços e murmurar "me beija"? Ainda por cima depois de tudo que ela havia feito com Lanza!?
- Você... Eu... – gaguejei, desnorteada.
- Nós! – ela falou, sorrindo mais do que o normal. – Agora nós podemos esquecer o “você” e “eu” e só falar “nós”, meu amor!
Olhei bem para ela. Olhos grandes e castanhos, cabelos castanhos, ondulados até os ombros, maçãs do rosto rosadas, bochechas grandes, cílios compridos, rosto gordinho de criança, vestido azul, mostrando as pernas e o decote volumoso, unhas feitas e salto alto. Era uma pena... Se ela não tivesse feito tudo aquilo com o meu Lanza, poderíamos ter sido amigas.
Mas já que ela o fizera, não me arrependi de ter feito o que eu fiz. Qur foi virar um tapa em seu rosto angelical com toda a minha força.
Sabe, depois de muito tempo, eu percebi que eu dera um tapa forte demais. Quero dizer, as gengivas delas sangraram. E isso pode ser chamado de um tapa forte.
- Eu não ficaria com você nem se você fosse homem! Nem se você fosse o último homem na face da Terra! – gritei, tremendo de nervosismo. – E nunca mais se meta comigo ou com as pessoas que eu amo!
Katy parecia irada, mas não se mexeu. Só ficou me olhando, com a mão no rosto e uma expressão indecifrável. Dei minhas costas à ela, batendo com meu cabelo em seu rosto. Passei pelas meninas e pelos guys, e eles fizeram menção de me seguir, mas eu os impedi, lançando um olhar que eles entenderam no mesmo instante.
Precisava ficar sozinha com Lanza. E sabia muito bem para onde ele tinha ido.
Mas antes de sair, pude ouvir a explosão de palmas e gritos. E depois o coro: “Victória! Victória! Victória! Victória!”.
Mais tarde, quando tudo havia passado, as meninas me contaram que Katy foi vaiada e saiu chorando, gritando que iria se vingar de todos nós.
E aquela noite ficou marcada para sempre como "O baile da Gossip".

Capítulo 32 – O melhor consolo.

Lanza fala:

Estava frio, mas era como se eu não sentisse. Estava molhado, mas era como se eu não me molhasse. Estava escuro, mas mesmo se estivesse claro, eu não enxergaria. Tudo isso me torturava, mas naquele momento, dor era tudo o que eu mais queria. Eu queria sofrer, sofrer, sofrer e depois morrer, lenta e dolorosamente. Era o que eu merecia. Era o que Deus deveria ter feito comigo, mas por algum motivo, não o havia feito.
Eu era uma péssima pessoa.
Por mais que eu tentasse, por mais que eu parecesse normal e feliz para as outras pessoas, não se passava um dia sem que eu pensasse nela. Michele. Minha irmãzinha, minha melhor amiga, que agora estava em coma havia 2 anos, e a culpa era toda minha.
Era por isso que meus pais se mudaram para o interior, me deixando sozinho com mais três adolescentes. Era por isso que eu nunca ia visitá-los. Porque, por mais que eles falassem que haviam me perdoado, eu não me perdoara.
Claro que todo mês eu ia visitar Michele. Às vezes ia duas vezes por mês, quando sentia muito sua falta. Mas sempre dava uma desculpa boa por meus sumiços de 3 ou 4 horas.
Passar esse tempo com minha irmãzinha era o melhor do meu mês. Ver que ela continuava ali, mesmo que só em corpo, me acalmava, me mostrava que nem tudo estava perdido. Me dava esperanças de que ela iria acordar e me perdoar. Pois eu sabia que só seria eu novamente quando ouvisse da boca da minha irmã que ela não guardava rancores e que ainda me amava.
Eu sempre contava sobre o mundo, sobre mim, sobre meus amigos, sobre minhas amigas, sobre a banda, sobre Victória... Na verdade, nos últimos tempos, era somente sobre ela que eu falava. Pedia conselhos, contava histórias, desabafava... E mesmo sabendo que não obteria resposta, saía de lá com a cabeça mais aberta para tomar decisões.
Agora que estava me sentindo péssimo, me perguntava o que Victória pensaria de mim, depois de ter descoberto o que havia acontecido com Michele. Será que algum dia ela me perdoaria?
Será que algum dia alguém me perdoaria?
Achava difícil. Principalmente pela reação deles. Quero dizer, ninguém olhou na minha cara, nem mesmo para mostrar o quão irados estavam comigo.
Joguei uma pedrinha no azul claro da piscina, e pequenas ondinhas espalharam-se até a borda. Coloquei os braços atrás do pescoço e me deitei na grama salpicada de gotas do sereno. Estava na casa abandonada, a mesma em que um dia consolara Victória. Jogara a pedrinha na mesma piscina em que entramos só com as roupas íntimas. Eu estava ali, onde passara um dos melhores momentos da minha vida, quando um dos piores estava acontecendo.
Nada. Era o que eu queria sentir. Nada.
Ouvi um barulho de "clic", mas não me importei. Pensei que fosse algum animal ou o vento espalhando as folhas.
Fechei os olhos, tremendo de frio.
Era diferente o frio que eu sentia. Me lembrava de que eu ainda estava vivo, mas isso doía tanto que eu gostaria que parasse até de tremer. Era como se minha alma estivesse fora do corpo. O frio era intenso, mas minha dor interna era maior.
Então eu senti calor. Um calor fraquinho, mas era o suficiente para me fazer parar de tremer. Depois de quase meia hora sofrendo, não sabia se agradecia ou xingava por estar sentindo novamente minha pele.
Abri os olhos lentamente e percebi o porquê do calor. Estava enrolado em um cobertor felpudo.
Da onde tinha vindo aquilo?
- Confortável? – uma voz angelical e conhecida perguntou. Sabia quem era, mas preferia acreditar que era um anjo.
- Por que eu? Por que não algum assassino, algum estuprador? Por que logo a minha roda tinha que estourar? Por que eu tinha que acabar com a vida da minha irmãzinha? – perguntei, imaginando que falava com um mensageiro, e que essas perguntas seriam diretamente entregues a Deus. – Por que não eu? Por que eu não entrei em coma no lugar dela? Por que eu saí ILESO? POR QUE EU NÃO MORRI, PORRA?
As lágrimas que eu segurava há tempos, rolaram quentes por minhas bochechas, acabando salgadas em minha boca. Algumas persistentes, escorriam até o queixo e se desmanchavam. Eu sempre tivera vergonha de chorar, na verdade, podia contar nos dedos os momentos em que chorei em minha vida. E aquele era um deles.
Levantei-me, deixando o cobertor no chão e encontrando os duros olhos de Victória, que me fitavam sem compaixão. Ao vê-la, sentada na mureta, descabelada da corrida, segurando a barra do vestido e os saltos na mão, senti vontade de sorrir. Mas não consegui, principalmente pelo jeito que ela me olhava. Fria. Mais fria que o vento que bagunçava nossos cabelos.
- Eu não sou Deus, Lanza Reis. – ela disse, daquele jeito desprezível, como se meu sobrenome tivesse 20 sílabas. – Eu não posso responder nenhuma dessas perguntas, e, mesmo se pudesse, não responderia. O que aconteceu, aconteceu sem motivo, era pra ser. Mas não era motivo suficiente pra você esconder dos seus amigos! – ela exclamou, saltando da mureta e ficando de frente para mim, segurando minha mão. Um choque percorreu minha espinha com seu toque. – Não era motivo pra esconder de mim, que sempre te contei tudo! Você sempre me apoiou, Lanza, por que achou que comigo seria diferente? Achou que eu iria te julgar errado? Todas as pessoas daquele salão sabem que esse acidento foi um horrível erro, a culpa não fo...
- Não. – cortei-a, soltando nossas mãos entrelaçadas. – Não diga isso, por favor. Não diga que a culpa não foi minha. A culpa foi toda e exclusiva minha!
- Não, Lanza, não foi! – ela piou, exaltada. – Você está se culpando por uma coisa que aconteceu sem querer! E, se continuar assim, vai se tornar uma pessoa amarga! Você tem que se perdoar, porque a culpa não foi sua!
- NÃO FOI MINHA CULPA? – gritei, explodindo. – NÃO FOI MINHA CULPA? NÃO FOI MINHA CULPA PEGAR O CARRO ESCONDIDO, COM 15 ANOS E SEM CARTEIRA? NÃO FOI MINHA CULPA USAR MINHA IRMÃ COMO PILOTO DE TESTE? NÃO FOI A PORRA DA MINHA CULPA PEDIR À MICHELE QUE TIRASSE O CINTO PARA PEGAR MEU PORTA CD NO BANCO DE TRÁS? NÃO FOI MINHA CULPA, VIC, ESTAR MEXENDO NO RÁDIO QUANDO BATI A RODA NA GUIA? – me senti mal por estar gritando com ela, que não tinha culpa nenhuma. Mas não conseguia me controlar. Ela estava com aquela expressão. Com os lábios contraídos e o corpo rígido, segurando o choro. Eu estava prestes a fazê-la chorar, mais uma vez. Mais uma vez estava magoando a única pessoa que sempre estivera ao meu lado.
Qual era o meu problema, afinal?
Continuei gritando, gesticulando, e tinha quase certeza que algumas lágrimas rolavam pelo meu rosto.
- VOCÊ NÃO ENTENDE! VOCÊ NÃO SENTE O QUE EU SINTO! VOCÊ NÃO SOFRE TODOS OS DIAS, MINUTOS E SEGUNDOS DA SUA VIDA! – parei para respirar um pouco, e tentar me acalmar, porque seu lábio quase não aparecia, de tão contraído que estava. Respirei fundo e contei mentalmente até 10. Quando estava no 7, ela colocou as duas mãos em meus braços, de um jeito carinhoso, e isso me amolou um pouco. – Você nunca entenderia, Vic... – suspirei, passando a mão direita pelo rosto, ainda com seus dedos em volta do meu braço esquerdo. Limpei as lágrimas com a manga da camisa. – E eu posso entender se não quiser mais falar comigo. Afinal de contas, eu sou mesmo um assassino.
Eu era um assassino, sem amigos, amigas, sem banda e sem namorada.
O mundo dá voltas...

Victória fala:

- Perdoar você? – perguntei, horrorizada. Ele abaixou a cabeça. – Como você pode chegar a pensar em uma coisa dessas, Lanza? Como eu posso te perdoar!? – ele fechou os olhos, e duas lágrimas apostaram corrida por seu rosto. Mas ele estava sério e concentrado, quase como se estivesse se acostumando com a ideia. – Como eu posso te perdoar se não tenho motivos para estar brava com você?
Ele levantou o rosto. E o que veio a seguir foi inesperado.
Ele me abraçou, chorando.
Mas não um choro de macho. Era um choro de soluços, sofrido e aliviado ao mesmo tempo. Seu corpo tremia, sua cabeça estava escondida em meu pescoço e ele segurava com força minha nuca.
Ficamos um bom tempo abraçados. Eu passava as mãos por suas costas, deslizando-as pelo tecido fino de sua camisa, e ele amassava meu cabelo em minha nuca, soluçando. Eu não achei constrangedor. Era claro que um dia ele iria estourar, chorar ou gritar, e fiquei feliz por ele estar fazendo aquilo comigo. Sabia que em mim ele confiava, e a melhor coisa do mundo era ter sua confiança.
Depois de algum tempo, ele parou de chorar, e o abraço ficou menos apertado. Sua cabeça começou a se desencostar do meu ombro, suas mãos se soltaram um pouco do meu cabelo, eu parei minhas mãos em sua cintura, e quando seu rosto entrou em meu campo de visão, sorri para ele, que retribuiu o sorriso.
- Obrigado. – murmurou, com a testa encostada na minha.
- Pelo quê?
- Por existir. – e, dito isso, ele me beijou. Me segurou forte pela cintura e me colou em seu corpo. No susto e no reflexo, enfiei minhas duas mãos com força entre seus cabelos, e o puxei para trás. Encostamos na mureta, ficando ofegantes com o beijo feroz e inesperado.
Lanza abaixou a mão para minha coxa, apertando-a, me fazendo soltar um suspiro alto. Com habilidade, puxou minha perna para cima, encaixando-a entre suas próprias pernas. Espalmei as mãos em seu peito definido, e ele fez o mesmo, apertando meus seios por cima do vestido. Gemi baixinho, mordendo seu lábio inferior.
Mão vai, mão vem, e ele parou o beijo subitamente.
- Victória, desculpe... – pediu, ofegante. – Sei que esse é o pior momento para dizer isso, mas não dá! Esses amassos acabam comigo... – murmurou, envergonhado, olhando para baixo. Segui seu olhar, e encontrei um volume suspeito em sua calça. – É claro que eu vou esperar, você sabe disso, só queria pedir pra você pegar leve, isso não é fácil pra mim também, e...
- Vamos para casa? – perguntei, interrompendo seu monólogo de bicha. Passei a mão em seu ombro e sorri, marota.
Era agora ou nunca!

Lanza fala:

Era agora ou nunca!
O momento pelo o qual eu esperei ansiosamente desde que conhecera Victória. O momento que pedia a Deus sempre que podia! O momento que sempre dizia à Michele que seria perfeito! O momento que eu passara todas as noites daquele ano em claro, imaginando como seria!
O melhor momento da minha vida!
- V-você e-está falando s-sério? – gaguejei.
- Estou.
- E você está 100% certa disso?
- Estou! 100% certa disso! – ela piou, sorrindo. Parecia que todo o drama de 15 minutos atrás nunca existira. – Você é o cara certo pra mim! Eu nunca estive tão certa disso como eu estou agora! Mesmo que não dure para sempre, quero me lembrar de você pelo resto da minha vida! Eu quero isso! Meu Deus, eu quero muito isso! – essa última frase ela meio que gritou, mais para ela mesma do que para mim.
Depois de dizer isso, ela se aproximou de novo, e lambeu meu pescoço lentamente, terminando com uma mordida na almofadinha da minha orelha.
Ok. Estava confirmado: aquela garota me deixava louco!
- Certo, vamos! – exclamei, pegando-a pelas pernas e colocando-a em meu ombro. Ela soltou uma gargalhada, mas não reclamou.
Provavelmente eu nunca corri tão rápido como corri aquela noite. Minha casa – nossa casa – era somente a alguns quarterões dali, mas eu cheguei lá em alguns segundos! Parecia um louco correndo pela rua. Mas, naquele momento, eu estava mesmo louco. Louco para ter só para mim a garota dos meus sonhos.
Chegamos em casa em tempo record. Eu estava ofegante e suando, mas continuava elétrico.
Mal chegamos – ela ainda estava em meu ombro –, e recomeçamos a nos beijar. Coloquei-a no chão e abaixei as alcinhas finas do seu vestido. Mas antes que eu pudesse perder o controle, parei de beijá-la.
- Me espera aqui! – ofeguei, disparando escada acima.
Se aquilo seria perfeito pra mim, teria que ser perfeito pra ela também.

Victória fala:

Sentei-me no sofá, tombando a cabeça para o lado, mexendo a perna freneticamente.
Eu queria aquilo! Eu queria aquilo demais!
Por que ele estava demorando tanto? Por que ele estava me torturando daquele jeito? Por que eu o havia torturado por quase um ano? Era por isso?
Pelo meu nervosismo, dava pra perceber o quão necessitada eu estava.
- Lanza Reis! – gritei, passados 15 minutos naquela angústia. – Eu não pretendo mudar de ideia, mas prefiro que aconteça nesse mês ainda!
Ouvi barulhos altos e um "ai caralho!" de lá de cima. Depois senti a escada tremer e logo ele estava do meu lado.
- Pronto! – ele meio que gritou, me pegando pelas pernas e ombros, me carregando no colo. Ri da situação, enquanto subíamos a escada correndo. Quero dizer, ele corria comigo no colo, enquanto eu ria.
Quando chegamos à porta do seu quarto, ele deu um chute para abrí-la, correu até a cama e me jogou de brincadeira, subindo por cima de mim. Começou a beijar meu pescoço e morder minha orelha, me arrepiando.
Até o momento, mantinha os olhos fechados. Mas os abri, curiosa para ver o que ele havia feito em todos aqueles 15 minutos.
Fiquei paralisada.
O seu quarto estava impecavelmente limpo. Sem meias e cuecas no chão, sem portas dos armários abertas, sem caixas de pizza em cima das coisas, sem manchas de cerveja no chão, sem absolutamente nada que envolva a palavra "sujo" ou "desorganizado".
Abri a boca.
Lanza, ao ver minha surpresa, descolou o corpo do meu, se apoiando nos braços para não me machucar.
- Você não gostou? – perguntou, com a expressão receosa. – Quero dizer, você sempre me pediu para arrumar o quarto, achei que gostaria de fazer isso em um quarto limpo.
Olhei em volta novamente, ainda com a boca aberta.
- Se você não gostou eu posso bagunçar, sem problemas... Eu só pensei que... – ele parou de falar, passando a mão pelos cabelos que caíam em sua testa, constrangindo. – Foi uma péssima ideia, não foi? – ele perguntou, ficando vermelho de vergonha.
- Lanza, eu... – parei, mordendo o lábio inferior. Ia dizer que estava sem palavras, mas eu tinha as palavras certas para dizer sobre o que tinha achado da surpresa. Quero dizer, ele havia arrumado toda aquela bagunça – que não era pouca e que ele amava de paixão – só para me fazer feliz. Existe algo mais fofo que isso? – Eu amei!
Ele sorriu de lado, aquele sorriso maravilhoso que eu amava.
Joguei meus braços em seu pescoço, puxando-o para mais perto. Ele voltou a me beijar, como se não tivéssemos parado.
Conforme o beijo ia se aprofundando, mais quente o quarto ficava. E nossa conexão também, pois quando pensei que não fosse mais aguentar de calor, Lanza começou a abrir o zíper do vestido nas minhas costas. Depois, abaixou as alcinhas, e eu comecei a sentir o tecido gelado deslizar pelos meus ombros, clavículas, barriga, coxas e joelhos, até despencar no chão, fazendo uma ponte em meus pés.
Lanza parou um pouco de me beijar e se ajoelhou para me olhar. Seus olhos brilhavam.
Sorri envergonhada.
Pelo menos minha calcinha era vermelha, combinando com o sutiã, e não do Bob Esponja.
- Eu sei que eu já vi antes, mas você é tão linda... – ele murmurou, com a voz rouca.
- Obrigada.
Inclinei-me pra cima, abrindo sua camisa de cima para baixo. Ela permaneceu estático, enquanto eu abria um por um. Eu sentia que ele continuava a me olhar, mas não me importei. Pra dizer a verdade, gostava de saber que ele se sentia atraído por mim.
Acabei de abrir e coloquei a mão por dentro, para tirá-la, passando as mãos por seu peito e ombros. Ela caiu no chão, junto ao meu vestido, e eu voltei a me deitar, enquanto ele permanecia ajoelhado em cima de mim.
Observei seu peito definido, subindo e descendo conforme sua respiração. E aquilo tudo seria meu.
Só meu.
Obrigada, papai do céu, muito obrigada!
- Depois eu que sou linda... – murmurei, e ele gargalhou, voltando a se deitar em cima de mim. Novamente voltamos a nos beijar, e minha mão foi hipnoticamente para seu cinto. Abri com um pouco de dificuldade, mas ele estava tão absorto em abrir o fecho do meu sutiã que nem percebeu.
Abri sua calça ao mesmo tempo que ele tirava delicadamente meu sutiã; sua boxer era azul-marinha com estrelas branquinhas. Sorri com aquela visão.
Ele nunca iria mudar.
Lanza distribuía beijos por todo meu colo, e eu sentia meus músculos se contraírem, intercalados.
Era uma sensação maravilhosa.
Ele desceu os beijos, passando por minha barriga e chegando na linha da minha calcinha. Ao chegar nessa última, eu pegava fogo.
- Posso? – perguntou, segurando o elástico entre os dedos, com uma cara de safado.
- Pode. – sussurrei, sem fôlego.
Ele a puxou para baixo, enquanto eu puxava sua boxer. Logo as duas peças de roupa restantes estavam fazendo companhia às outras no chão.
Lanza inclinou-se para frente, abrindo a gaveta e pescando uma camisinha.
Fechei os olhos, enquanto ele a colocava.
O mundo parou.
E, no intervalo de um suspiro, aconteceu.
Ele me beijava, sem muita cordenação, e eu apertava suas costas, deslizando as unhas por sua pele macia como se fossem lâminas. Seu corpo se impulsionou para frente, suavemente, e a dor da primeira vez sumiu tão rápido quanto chegou.
Meus olhos permaneciam fechados, proporcionando uma percepção maior.
No começo, era só novidade, curiosidade, mas passados alguns minutos, virou desejo, prazer.
Ele saiu e entrou novamente.
Gemi.
Saiu e entrou mais uma vez.
Gemi mais alto.
Ele gemeu.
A cada segundo que passava, o prazer se intensificava. Chegou um momento em que eu jurei que seria impossível melhorar.
E melhorou.
Lanza ia devagar, embora fosse visível que se esforçava para não aumentar o ritmo. O prazer só aumentava. Aumentava, aumentava e aumentava. Eu já estava cansada, mas não queria parar, nunca mais queria parar.
Então, num movimento involuntário, arqueei as costas, tirando as unhas de suas costas e segurando o colchão, pois tinha medo de machucá-lo, tamanha a força que fazia. Ele fechou os olhos e mordeu o lábio, reprimindo um gemido alto.
Finalmente, ele saiu e entrou pela última vez, e todos os músculos do meu corpo se comprimiram, me proporcionando a melhor sensação que eu já havia sentido. Gemi alto, e ele também.
Nossos corpos relaxaram ao mesmo tempo, e ele caiu ofegante para o lado.
Ficamos em silêncio, esperando a respiração voltar ao normal. Depois de algum tempo, já sem ofegar, Lanza passou o braço por meu ombro, e eu me encaixei nele, nos cobrindo.
Não dissemos nada.
Não precisávamos.

Capítulo 33 – “It’s not always easy, but I’m here forever!”

Lanza fala:

Não sei ao certo quando peguei no sono. Num instante estava observando Victória dormir em meus braços, nos outros sonhava com coisas completamente sem noção. Dormi, acordei, e a primeira coisa que pensei foi nela. Victória. E em como seríamos felizes a partir daquele momento.
De olhos fechados podia perceber que a luz invadia o cômodo.
- Boa di... – ia dizendo, quanto bati a mão no colchão vazio ao meu lado. – Victória? – chamei, abrindo os olhos e não encontrando ninguém ao meu lado. – Vic? – tentei mais uma vez, alto o suficiente para que se ela estivesse em algum lugar na casa pudesse me ouvir.
Nada.
Deixei meu corpo tombar novamente na cama, fechando os olhos.
Como em algum momento cheguei a pensar que as coisas finalmente seriam fáceis para nós dois?
O meu celular tocou, me assustando um pouco.
Meu coração acelerou.
Podia ser ela, ligando para dizer que havia saído pra comprar pão ou algo do tipo, e que já estava voltando. Quero dizer, eu podia ser otimista, não podia?
Atendi sem ver quem era no visor. Não queria parecer desanimado ao atender quem quer que fosse.
- Alô? – murmurei, cruzando os dedos.
- Lanza!? – a voz de Koba falhou do outro lado.
- Eu! – exclamei, frustrado por não ser Victória, com receio de que ele estivesse ligando para me expulsar da banda no primeiro dia de turnê e feliz por estar falando com meu amigo quando pensei que nunca mais o iria fazer.
- Cadê você, dude? Estamos te esperando no terminal com o busão da turnê! Você precisa ver, tem até geladeira e... – ao fundo, ouvi Pe Lu gritar “Fala o que você tem que dizer, dude!” e Koba voltou à realidade. – E o Fedelso já está puto, cara, e você sabe como o Fedelso fica quando está puto.
Sabia. Ele ficava... Puto.
- Vocês... – hesitei, ao ouvir Fedelso gritar ao fundo “Não deixem as fãs ultrapassarem a barreira!”. – Vocês não estão bravos comigo?
- Bravos? Pelo o quê? – ele perguntou, e Thomas gritou ao seu lado “Lanza, vem logo, cara, eu juro que essas meninas vão invadir esse ônibus e me comerem, no sentido literal da palavra, e a Júlia está ficando com medo!”.
- Por Michele... – sussurrei, e só a menção do seu nome me deixava com um nó na garganta. – E por ter escondido de vocês.
- Cara, esquece essa história. – ele disse. – Nós estaremos do seu lado independente do que acontecer. Pode ter certeza. E quanto à sua irmã, ela vai melhorar. Eu sei que vai. Todos nós acreditamos nisso. E, se não for pedir demais, você podia parar de drama e vir logo? Não dá pra fazer turnê sem vocalista!
Respirei fundo, pulando da cama animado. Por um instante havia me esquecido do abandono de Victória.
- Obrigado, galera. – exclamei, mesmo que só Koba estivesse ouvindo. – Eu amo muito vocês! E chego aí em 5 minutos!
Joguei o celular longe.
Estava triste e feliz ao mesmo tempo. De repente, uma luz me invadiu, e eu entendi. Entedi por que ela havia ido embora. E era por isso que estava triste e feliz. Triste porque sabia que ela não estava mais ali por arrependimento. Mas não podia mais ir contra suas vontades, e estava feliz por isso. Aquele era o primeiro dia do resto de nossas vidas juntos, e eu esperaria por ela.
E ela sabia disso.
Me troquei e peguei minhas coisas. Coloquei tudo na Eco Sport de Pe Lu e estava quase saindo de casa, quando me lembrei de pegar os óculos de sol.
Entrei e os encontrei do lado de uma folha em branco.
Destino?
Como um flash, tive uma ideia.
Procurei por uma caneta e, ao achá-la, escrevi o que sabia que a convenceria de que nós éramos pra ser. E se ela gostasse mesmo de mim – o que eu tinha certeza que sim – e voltasse para me procurar, rezava para que não fosse tarde demais quando ela lesse o meu bilhete.

Victória fala:

Mais uma vez estava confusa.
Mais uma vez não sabia o que fazer.
Mais uma vez magoava Lanza.
Por que eu não podia ser uma pessoa normal?
Estava sentada no banco do parque que ficava no final da rua. O Sol queimava minhas bochechas e esquentava meus ombros nus, cobertos por 2 alcinhas finas da minha regata branca.
Esfreguei meu All Star de couro também branco na terra, e a barra da minha calça skinny ficou marrom.
Olhei novamente para minha lista de prós e contras, que estava fazendo desde que saíra de casa, deixando um adorável e desfalecido Lanza pra trás.



Olhei no relógio. Em meia hora Lanza entraria naquele ônibus de turnê e só voltaria depois de 3 meses, levando consigo meus amigos e minhas amigas.
Fiquei mais um tempo olhando para o céu, sem pensar em nada.
Ou pelo menos tentando.
O negócio é que eu sabia que se fosse com Lanza naquela viagem, ficaríamos juntos, ligados, para sempre.
E eu queria brigar e me desgastar pra sempre?
Olhei no relógio de novo. 23 minutos.
Respirei fundo. E baixou a inspiração.
Que tipo de pergunta era aquela? Era claro que eu queria continuar brigando com Lanza, se isso me deixasse sempre perto dele!
Olhei de relance no relógio.
18 minutos!
Levantei já correndo. Só tinha fucking 18 minutos para corrigir a merda que tinha feito!
17 agora... !
Corri como nunca pela rua, onde algumas crianças corriam umas atrás das outras. Depois de quase derrubar 3 meninas e realmente derrubar um garotinho, cheguei em casa, esbaforida.
- Lanza! – gritei escada acima, embora soubesse que ele já deveria estar chegando no terminal onde o ônibus da turnê estava esperando por eles. – Lanza, você está aqui!?
Nada.
“Merda!” pensei, me apoiando no balcão da cozinha para respirar um pouco. Nesse movimento, acabei derrubando um pedaço de papel no chão. Agachei-me e o peguei. Estava dobrado no meio, escrito “p/ Vic”.
Meu coração acelerou mais do que estava acelerado da corrida.
Abri o papel e li as 4 pequenas linhas escritas.

“Vic,

Se mudar de ideia, estarei te esperando, seja onde for, seja como for. Vou te esperar pra sempre. Você é a mulher da minha vida.
It’s all about you, baby!

Lanza.”

Apertei o papel contra meu peito.
Tinha menos de 10 minutos para reconsquistar o amor da minha vida.
Merda!

Lanza fala:

- Cheguei! – gritei para Fedelso, depois de ultrapassar a multidão de fãs histéricas, que puxaram meu cabelo e roubaram minha blusa da Nike. – Vivo!
- Finalmente, Lanza Reis! – ele suspirou, aliviado. – Se esperássemos mais tempo, a barreira não aguentaria!
Coloquei as malas no chão, e Fedelso as pegou, levando para dentro do ônibus, que era o ônibus mais legal que eu já havia visto.
Vermelho e preto, gigante e com um McFLY escrito em letras garrafais verdes.
Da hora, dude!
- Então vamos? – Fedelso colocou a cabeça para fora do ônibus.
- Vamos! – exclamei, mas no fundo estava um pouco relutante. Olhei em volta, tentando ignorar os gritos de “Lanza, casa comigo!” atrás de mim.
Ela viria. Eu tinha certeza que viria.

Victória fala:

- Pro Terminal, por favor, o mais rápido possível! – meio que gritei, me jogando dentro do táxi que parara para mim. – Se você chegar lá em 10 minutos eu te dou 100 libras! – o taxista arregalou os olhos e meteu o pé no acelerador.
No começo estava tudo livre, e eu tinha certeza que chegaria a tempo.
Até o táxi parar no maior trânsito da história dos trânsitos.
Não que eu soubesse algo da história dos trânsitos, mas como eu estava atrasada, pra mim era o maior trânsito do mundo.
- Ai, meu Deus, será que isso demora? – perguntei, entrando em desespero, só vendo um mar de carros na minha frente.
- Não sei, depende. O terminal é no final dessa rua, mas a rua é muito longa. – ele respondeu, assoviando junto com a música que tocava na rádio indiana que ele ouvia.
Enconstei-me no assento de couro, começando a suar.
“Merda, merda, merda!”

Lanza fala:

- Não vai entrar, Lanza!? – Isadora perguntou, colocando a cabeça pra fora logo que Fedelso a retirou. – Eu tenho quase certeza que essas meninas não estão brincando que querem se casar com você, e se alguma delas ultrapassar a barreira e você assinar um papel de casamento você está mais do que ferrado. – ela disse, sorrindo. Koba apareceu atrás dela.
- E aí, dude! Vamos ou não!? – perguntou, como se a história de Michele nunca tivesse existido.
Eu era muito agradecido por ter amigos tão maravilhosos como os meus.
- Sim, estou indo. – respondi, e os dois entraram.
Olhei em volta novamente.
Não tinha mais tanta certeza de que ela viria.

Victória fala:

- Pelo amor de Deus, vai pelo acostamento! – pedi, pela décima quinta vez. – Eu te pago se você for multado!
- Não posso, senhora, me desculpe. – ele disse, com sotaque estrangeiro.
Olhei pela janela. Um ônibus vermelho e preto, bem longe do meu campo de visão, tremia, como se estivesse sendo ligado.
Não pensei duas vezes.
Saltei do táxi, jogando uma nota de 10 libras para o mororista.
- Obrigado por nada! – gritei, correndo pela rua como uma louca.
Não perderia Lanza.
Não de novo.

Lanza fala:

Subi os degraus do ônibus, sentindo como se estivesse sendo esfaqueado a cada degrau que subia. Ao chegar no interior, não consegui nem sorrir com os 3 video-games esperando por mim, ou pelo frigobar lotador de cervejas e vodkas.
Sem Victória comigo, aquela turnê seria uma merda.
- Todos prontos? – o motorista hippie de uns 60 anos perguntou por cima dos óculos redondos estilo John-Lennon-depois-da-Yoko.
- SIM! – todos, menos eu, gritaram.
Eu estava pronto?

Victória fala:

Corri pelo o que pareceu uma eternidade. Aquela era mesmo uma rua grande. Grande era pouco, era uma rua gigantesca!
Parecia que meu pulmão sairia pela boca. Meu cabelo voava e batia no meu rosto, enquanto minhas pernas me guiavam sem cordenação até o terminal. Olhei para frente, e pude calcular os 100 metros restantes.
Finalmente!
Sentia como se tivesse corrido uns 3 quilômetros, no mínimo.
As pessoas dos carros parados me observavam, curiosas. Alguns buzinavam, outras gritavam “É isso aí, garota!”. Era engraçado ver que mesmo sem saber do que se tratava, as pessoas me incentivavam.
Finalmente cheguei ao terminal, suada e ofegante.
Entrei ainda correndo, mas fui obrigada a parar diante da multidão de pré-adolescentes histérias no portão de embarque.
Ai, meu Deus!

Lanza fala:

- Here we go! – Thomas gritou, se jogando no sofá verde limão, com Júlia ao seu lado.
Olhei pela janela.
Nada dela.
Mas eu não podia perder as esperanças. Não podia simplesmente jogar tudo pro alto.
Não agora.
- HEY! – gritei, chamando a atenção de todos. Até o motorista olhou para trás. Fedelso virou os olhos, prevendo um desastre se aquelas meninas invadissem o ônibus. – Não deveríamos, sei lá, falar algumas coisas antes de sair. Quero dizer, pra dar boa sorte, como um ritual que faremos todas às vezes que futuramente iremos sair em turnê!?
- É uma boa ideia, Lanza! – Pe Lu concordou.
- Então, bem, vamos juntas as mãos. – disse, pegando a mão de Pe Lu de um lado e a de Thomas do outro. Koba fechou a roda do outro lado. – Hm... – tentava pensar rápido, para que eles não percebessem que aquilo era uma farsa só para ganhar tempo. – Bom, nós, hm, deveríamos, hm...
Não conseguia! Não conseguia pensar em nada!

Victória fala:

- Com licença, com licença, por favor, eu preciso passar! – me espremia por entre as meninas, mas por mais que me mexia, não conseguia sair do lugar.
De repente, fui empurrada para fora da multidão por duas garotas que mais pareciam dois rinocerontes.
E agora? O que faria!? O que faria!?
Olhei em volta, tentando pensar em algo.
Logo atrás de mim um segurança segurava um megafone.
Brilhante!
- Por favor, moço, é caso de vida ou morte. Ou vida e morte de um amor. Você PRECISA me emprestar esse megafone! – pedi para ele, segurando sua camisa bem passada.
- Desculpa, menina, não posso. – ele respondeu, rígido.
Peguei as 100 libras que daria ao motorista do táxi se ele não fosse um incompetente – lá se ia meu dinheiro – no bolso.
- Nem por 100 libras? – perguntei. Ele olhou para a nota e para mim. Para nota e para o meu decote. Para nota e para o megafone.
Estendeu a mão, pegando as 100 libras e me dando o megafone.
- Obrigada! – exclamei, feliz.
Liguei no volume máximo.
- CALEM A BOCA! – gritei o mais alto que podia, e todas as meninas ficaram mudas.

Capítulo 34 – Pra sempre.

Lanza fala:

- Uba uba uba ê! – Koba sugeriu, e Thomass virou os olhos.
- Realmente, Koba, isso é algo muito poético de se dizer em todo o começo de turnê pro resto das nossas vidas!
Respirei fundo.
- Desculpe, Lanza, sei que isso é importante para você, mas não temos mais tempo. Temos que estar na próxima cidade em 2 horas! – Fedelso colocou a mão em meu ombro.
Soltei as mãos dos guys.
Estava tudo perdido.
- Agora sim, lá vamos nós! – o motorista hippie, fumando um cigarro suspeito, exclamou, ligando o ônibus novamente. Deixei meu corpo mole, apoiando a testa no vidro.
As fãs continuavam lá fora. Nada havia mudado.
Como cheguei a pensar que ela havia mudado?
Que ela me amava acima de tudo e de todos?
- Calem a boca! – ouvi um grito distante. Apertei os olhos, e, no meio da multidão, vi uma garota de regata branca, calça skinny escura e All Star de couro branco, com os cabelos bagunçados caindo em cascata por suas costas. Seu rosto estava vermelho e ela parecia ofegante.
- ESPERA! – gritei para o hippie, que desligou o ônibus novamente, na maior paz e amor.
- O que foi dessa vez, Lanza Reis? – Fedelso parecia irritado.
- Me esperem, por favor, é importante! – exclamei, correndo pelo ônibus, saindo do mesmo e sendo recebido por silêncio. Porque, na verdade, as fãs não me olhavam. Elas olhavam, todas, para a garota que brilhava em cima de um banco, com um megafone nas mãos.
- Obrigada. – ela suspirou, no megafone. – Muito obrigada. Meninas, por favor, vocês precisam me ajudar.
Silêncio.
As fãs olhavam hipnotizadas por ela.
- Dentro daquele ônibus, está o amor da minha vida. Eu sei, eu sei que também é o amor da vida de vocês! – ela exclamou, quando os sussurros começaram. – Mas pra mim é diferente. Ele é diferente, meninas. Ele... Ele é o homem da minha vida. E se eu deixar ele partir hoje, nunca mais me perdoaria. Ele não pode sair com aquele ônibus sem saber que eu não vou sair daqui. Que eu não vou deixar de amá-lo nunca. Que eu nunca vou sair do seu lado, nos momentos bons e ruins. Ele precisa saber que se eu sou a mulher da vida dele, ele é o homem da minha. E que eu nunca, nunca, quis magoá-lo. – ela pigarreou, parecendo envergonhada. Mas mesmo assim, não parou. – Vocês precisam me ajudar, meninas. Se vocês já amaram alguém assim, vocês sabem do que eu estou falando. E se eu não puder passar por vocês, olhar nos olhos de Pedro Gabriel Lanza Reis e dizer tudo isso, eu nunca mais vou me perdoar, porque sei que ele nunca mais vai me perdoar.
Silêncio.
Ninguém disse nada, e ela continuou ali parada, olhando suplicante para cada rosto que a encarava.
E ninguém disse nada.
Por que diabos ninguém se mexia?
Por que diabos eu não me mexia?
- Eu te ouvi, Victória. – me ouvi gritar, e todas as cabeças se viraram para mim, inclusive a dela, que me olhou surpresa. – Mas como eu posso ter certeza que você não vai fazer isso de novo?
- Eu não posso te dar certeza disso, Lanza. – ela gritou, pois já havia entregado o megafone e descido do banco. Então começou a andar por entre as fãs, e elas abriram um túnel para que ela passasse e chegasse até mim. – E eu não tenho o direito de te deixar na dúvida, incerto. Mas eu posso te dar as minhas promessas, se para você elas forem mais do que meras ilusões, porque pra mim com certeza são. E tudo o que eu disse é verdade! Você precisa acreditar em mim.
Coloquei a mão no bolso, revirando a caixinha que guardava comigo, em todo os lugar que eu ia, desde um dia antes do baile.
Victória passou pelas fãs, finalmente ficando frente à frente comigo. A atmosfera era tensa. Eu estava tenso. Ela estava tensa. Tudo dependia daquele momento.
Daquele único momento.
A caixinha entre meus dedos tremia.
- Na verdade, tem um jeito de você demonstrar que nunca mais vai fugir como fugiu hoje. – disse, trêmulo. Ela segurou meu rosto com as mãos.
- Tudo. Eu faço tudo que você me pedir.
Tirei a caixinha do bolso e seus olhos se arregalaram.
Pigarreei, arrumando minha voz.
Respirei fundo.
Abri a caixinha.
Duas alianças de prata reluziam.
- Hackmann, quer namorar comigo?
Victória me abraçou e murmurou em meu ouvido:
- Sim, sim, um milhão de vezes sim!
Então a explosão aconteceu. Aplausos e gritos das fãs, lágrimas de Isadora, Júlia e Maria Eduarda, e "aleluias" de Koba, Pe Lu e Thomas.
Depois de um ano de vai e vem, um ano de enrolação, um ano de palavras não ditas e sentimentos escondidos, um ano de segredos e vitórias, um ano de perdas e conquistas, finalmente, eu poderia ser feliz.
Mas eu continuava abraçado com Victória.
Porque ali era o meu lugar.
Nos seus braços.
Pra sempre.

Epílogo

“Imbecil, hipócrita, canalha!” eu pensava, enquanto andava rapidamente pela rua deserta. A Primavera começaria no final da próxima semana, mas as flores já nasciam, fazendo com que toda a rua se enchesse de vida e cor. E se eu não estivesse tão irritada, com certeza aquela visão me faria bem. “Ele sempre consegue estragar minha felicidiade...” pensei, apertando com força meu celular nas mãos. Não estava prestando a mínima atenção no caminho, mas quando dei por mim, estava em frente ao meu antigo colégio, o Colégio Norbert.
“Por que não?” pensei, com um pouco de saudades e um pouco de vontade de me esconder em algum lugar em que não precisasse pensar em mais nada.
Passei pela portaria vazia, exceto por um guarda adormecido. Não era de se espantar que tudo estivesse tão silencioso, pois o ano letivo ainda não havia começado. E, pelo menos na minha época, os alunos costumavam passar bem longe do colégio nas férias.
Ao passar pela portaria, deparei-me com o antigo pátio. Atravesseio-o correndo, como era acostumada a fazer quando ainda estudava ali, pulando os quadrados brancos e só pisando nos quadrados pretos. Sete anos haviam se passado desde a última vez em que colocara meus pés ali, mas a sensação continuava a mesma. Ao relembrar do colegial, sorrir era uma reação involuntária. Passei os melhores anos da minha vida ali, naquele pátio, naquela escola. Sentir o vento soprar em meu cabelo enquanto corria era como se voltasse aos meus 16 anos.
Nada ali havia mudado drasticamente. No máximo as cores das paredes e dos bancos. Nada que pudesse apagar as lembranças de tudo que vivera ali.
Ao mesmo tempo, eu havia mudado tanto...
Aquele era um contraste interessante.
Eu não era mais a adolescente que encurtava o uniforme e se preocupava com o que um blog poderia dizer sobre mim. Agora eu era uma mulher, com objetivos e um futuro promissor pela frente. Aos 18 anos entrara para a faculdade de direito em sétimo lugar. Fizera o curso de cinco anos me destacando. Nos dois últimos anos da faculdade, trabalhei como advogada pública, trabalhando para pessoas sem o dinheiro necessário para contratar um advogado. Depois passei a advogar para uma grande empresa, ganhando o bastante para me sustentar com todo o conforto e luxo por mês. E, se tudo continuasse daquele jeito, naquele mesmo ano poderia prestar concurso para ser Promotora, realizando o meu grande sonho.
Enquanto pensava sobre como poderia tudo mudar, entrei no prédio do Ensino Médio.
Logo de cara, no armário de medalhas e troféus, encontrei uma foto do meu time de cheerleaders do terceiro ano, em cima de um troféu de primeiro lugar. Na foto, Maria Eduarda sorria, Júlia chorava e Isadora fazia uma careta. Eu estava no meio, fazendo uma pose sexy.
O terceiro ano fora ótimo, mas nada poderia superar o nosso segundo ano, terceiro para os guys. Porque, ao entrarmos no terceiro, os guys não estavam mais no colégio. Na verdade, durante o terceiro ano, nós só os vimos durante as férias do começo do ano, na turnê pelo país que fomos com eles – e que fora a melhor viagem de todas –, e depois nas férias do meio do ano, onde viajamos para o Canadá juntos. O resto do ano inteiro eles passaram em turnê.
Continuei com os olhos na foto, observando minhas amigas.
Maria Eduarda continuava a mesma, linda como sempre. Continuava fazendo sucesso por onde passava, principalmente por ter se tornado uma atriz reconhecida. Seu primeiro filme sem ser independente fora um sucesso e, depois disso, não conseguia mais andar nas ruas sem um óculos de sol e um boné. Ela se casara com Pe Lu no ano passado, aos 22 anos, e não se arrependia de ter casado tão jovem. Para ela, Pe Lu Munhoz era o homem da sua vida, e para Pe Lu, Maria Eduarda era a garota dos seus sonhos, e nada nem ninguém os separaria. Nós fomos as madrinhas e os meninos foram os padrinhos e, mesmo sendo um casamento discreto, muitas revistas de fofoca o consideraram como sendo “O casamento do ano”, juntando o “Rockstar” e a “Atriz Estrelar”. Tudo que as revistas de fofoca mais queriam. Ela morava com Pe Lu em um apartamento no centro, mas nós e as outras meninas almoçávamos juntas todos os domingos, como um ritual sagrado.
Com guys ou sem guys.
Júlia ainda acordava de mau humor, mas, pelo menos, acordava ao lado de Harry. Os dois moravam juntos em uma cobertura ao lado do prédio de Pe Lu e Maria Eduarda, que compraram juntos, dividindo os custos, pois ela odiava ser mantida pelo dinheiro de Harry. Sentia-se comprada se não pudesse ajudar nas despesas e nos gastos, e não queria que ninguém duvidasse que ela só estava com ele pela sua fama e dinheiro. Os dois estavam noivos, mas só queriam se casar quando ela acabasse a segunda faculdade, de Engenharia Ambiental, e quando ele tirasse um ano de folga, para aproveitar a vida de casados. Harry ainda era muito assediado pelas “marias-baquetas”, principalmente depois do sucesso crescente do McFLY pelo mundo inteiro, e Júlia ainda morria de ciúmes, mas nada que pudesse atrapalhar o amor dos dois. Ele era muito fiel e ela muito companheira, e os dois sempre davam as melhores festas que poderíamos frequentar. Principalmente a do Ano Novo, quando costumávamos tomar o primeiro porre do ano juntos, relembrando as maluquices da juventude ou inventando novas maluquices de “gente grande”.
Isadora e Koba ainda não haviam oficializado nada, mas já viviam uma vida de casados. Moravam juntos em uma casa que compraram em um bairro residencial, e não se largavam por nada nesse mundo. Ela decidira conhecer o mundo antes de começar uma faculdade, e namorou a distância por dois anos inteiros, somente se encontrando com ele quando estavam no mesmo país, e acho que Koba ficou tão traumatizado que agora não saía mais de perto dela, nem por um minuto. E, quando saía em turnê, ligava todas as noites, só para dizer que a amava. Agora Isadora estava cursando o segundo ano da faculdade de Moda, usando Koba como cobaia para suas criações um tanto quanto coloridas. Mas, mesmo assim, ele lhe trazia rosas vermelhas todos os dias e ela sempre comprava uma lingerie nova para agradar o namorado.
E sim, eu sabia desses detalhes sórdidos pois era arrastada ao shopping por ela para ajudá-la a escolher as lingeries.
Felizmente, de algum modo, todos continuavam apaixonados. Mas o amor era diferente! Era mais maduro, mais forte. Eles não eram mais crianças e já sabiam muito bem dosar os sentimentos.
Subi até o último andar pela rampa principal, rindo sozinha ao relembrar de quando Marcus me levava no colo até o último andar.
Marcus havia se casado com um ator recém saído do armário, e morava em Hollywood, numa mansão de 3 milhões de doláres e duas filhinhas adotadas. A última vez que falara com ele fora em uma festa de ex-alunos do colégio, onde ele tomou um porre e admitiu ser apaixonado por Lanza no Ensino Médio. Lanza ficara vermelho e saíra de perto, gaguejando alguma coisa que ninguém conseguiu ouvir, enquanto o resto de nós ficara o resto da noite rindo e zoando com a sua cara.
Cheguei à última sala do terceiro ano ofegante. Olhei para as paredes, onde "John e Josh, pornô pra toda hora" estava pixado em roxo brilhante na parede do fundo do corredor.
John e Josh começaram trabalhando na Playboy, com fotos caseiras de putinhas-mirins do colégio, e agora eram magnatas da indústria pornô, conhecidos no mundo inteiro pelos “PP, Pervertidos de Plantão”. E, depois do baile de formatura, eu nunca mais os havia visto.
Graças a Deus.
Olhei pela janela do corredor para o Barney’s, nossa lanchonete preferida.
James comprara o Barney’s e continuava a trabalhar por lá, fazendo alguns freelancers de fotografia. Continuava o mesmo, um amor. Mas sem as espinhas na cara. E uma namorada russa que não entendia nossa língua, mas que era uma fofa. Lanza não ia mais com a cara dele, mas nunca nos contou o porquê da sua raiva. E, como era de se esperar, sempre que podíamos, íamos ao Barney’s, na nossa mesa reservada. Só que nunca podíamos comer em paz, porque os fãs do McFLY ou de Maria Eduarda sempre iam interromper.
Na porta do Barney’s, um banner gigante de Bella tomando um café e sorrindo – como se isso fosse possível –, onde embaixo se lia "Barney’s, a sua lanchonete". Bella agora era modelo e melhor amiga de Gisele Bündchen. E viciada em cocaína, mas como fofocar é feio, paro por aqui.
Já que estamos falando de destinos não muito felizes, Ben estava preso por lavagem de dinheiro. E era a única coisa que eu sabia sobre seu futuro. A sua vida não me interessava. A única coisa que eu sentia por ele era nojo. E pena.
Somente uma coisa não havia mudado em cinco anos.
E você já deve imaginar qual.
Eu e Lanza.
Naquela manhã havíamos brigado feio. Eu atendi seu celular, que tocava incansavelmente, enquanto ele tomava banho. Ao atender, uma voz feminina exclamara: “Ótimo trabalho ontem à noite, Lanza Reis!”. Não pensei duas vezes antes de jogar o celular em cima dele, que saía do chuveiro naquele exato momento, e sair correndo do seu apartamento, – nós não morávamos juntos, ele morava sozinho e eu morava com meus pais, que haviam se acertado e voltado. Pra falar a verdade, demorei para perdoar minha mãe, mas no final acabou tudo bem. – deixando-o ali, com o celular nas mãos e uma cara de interrogação.
Idiota, pensava que podia me enganar com aquela cara de "ué"?
Finalmente entrei na antiga sala do terceiro ano dos guys e do meu irmão, passando os dedos pela lousa verde. Passei pelo corredor de cadeiras brancas tocando cada uma delas com saudades. A janela estava aberta, soprando um vento úmido e frio, e eu não sabia se estava arrepiada pelo frio ou por estar ali depois de tanto tempo.
Ryan estava começando com a sua banda, mas já abria todos os shows para o McFLY. Não por pedido meu, mas porque os estilos eram parecidos, e os fãs de McFLY adoravam a banda do meu irmão, a Inspiron. Ele voltara com a menina que deixara em Amsterdã, mais feliz que nunca.
E, a melhor notícia de todas. Michele, milagrosamente, havia saído do coma, passados dois anos do “incidente Katy Springs”, como nos referíamos àquela noite do baile. Ela ainda estava se reabilitando a andar sozinha, a comer sozinha, a praticamente a viver sozinha, mas depois que voltara do coma, Lanza era a pessoa mais feliz do mundo, principalmente depois que ela o perdoara.
Mas, e Katy Springs? O que acontecera com Katy Springs?
Nada.
Katy Springs sumira com o vento, e ninguém nunca mais soube nada sobre ela. Onde estaria, com quem estaria, o que estaria fazendo... Nada, absolutamente nada. O que realmente não me importava, mas seria divertido saber que algo muito ruim acontecera com ela, depois de tudo que havia feito para Lanza.
Ao chegar à última carteira, algo chamou minha atenção. Escrito com um canivete, as primeiras estrofes de 5 Colours In Her Hair quase desapareciam devido ao desgaste da mesa. Li a letra garranchuda de Lanza com um sorriso bobo nos lábios. Meu Deus! O ínicio da nossa juventude ali, marcado para sempre...
Curvei-me e vi que, ao lado da mesa, mais algumas coisas estavam escritas. Aproximei-me e imediatamente algumas lágrimas se formaram em meus olhos. Ali, ao lado da música, estava escrito, bem pequeno: ‘It’s all about you!’, ao lado de um pequeno coração com ‘Hackmann’ escrito no meio dele.
Senti minhas pernas amolecerem e cai na carteira ao lado. As lágrimas escorriam livremente pelo meu rosto, e eu fungava descontroladamente. Meu coração palpitava. Pude sentir como se meu amor por Lanza nunca fosse se estabilizar. Sempre seria uma gangorra, com altos e baixos.
Toc, toc, toc.
- Posso entrar? – ouvi aquela voz aveludada, tão conhecida, perguntar. Automaticamente parei de chorar, enxuguei as últimas lágrimas com as costas da mão direita e funguei mais um vez, puxando todo o ar que consegui antes de me virar. Eu podia ter me tornado uma ótima chorona, mas nunca daria o prazer a Lanza de me ver chorando por sua causa.
Lanza entrou na sala com as duas mãos nos bolsos da calça, como sempre fazia quando alguma coisa o incomodava. Seu cabelo caía nos olhos, mas ele não parecia se importar. Sua expressão era séria e ele andava vagarosamente em minha direção, dando tempo para eu me recompor. Mas não sei se seguraria as lágrimas por muito tempo.
Ele usava a roupa que eu tinha escolhido para ele antes de atender o celular. Calça jeans preta, pólo preta e branca um Puma preto de carmuça.
Em sete anos seu estilo mudara da água para o vinho. Se antes usava todas as cores do arco-íris nas roupas, agora era mais discreto. Se antes usava todas as roupas mais largas e um corte da cabelo bagunçado, agora comprava peças do seu tamanho e usava um corte certinho. Ele estava a cada dia mais bonito, perdendo o rosto infantil. Estava com cara de homem.
- Já entrou mesmo... – resmunguei, como toda boa menina mimada faria. Olhei para baixo, encarando meu cardigan azul-marinho. Segurava a manga comprida entre os dedos e minha saia xadrez teimava em ficar no meio da coxa, como sempre ficava quando eu sentava de pernas cruzadas. Mas, ao contrário de qualquer homem, Lanza olhava diretamente em meus olhos, e não para minhas pernas.
Ele sentou-se na carteira ao meu lado e começou a mexer na borda da mesa.
- É... – ele suspirou, cansado. – Parece que nós nunca vamos sair da adolescência mesmo...
Sorri, achando graça na desgraça.
- Juliet é a produtora de Do Ya – continuou, com certo pesar na voz. –, e só disse aquilo porque as gravações de ontem à noite foram ótimas. Mandou pedir desculpas se foi muito íntima e te mandou um beijo.
Hm... Opa?
- Eu já deveria saber que sempre que brigamos é por minha culpa... – murmurei, sentindo meu rosto corar.
Quem era o idiota mesmo?
- Quase sempre. – ele concordou, e nós dois sorrimos sem realmente querer sorrir. O clima era tenso, fazendo com que eu tivesse vontade de chorar cada vez que olhava para ele. Levantei o rosto e encarei seus olhos, que mantinham o mesmo brilho da juventude. Um nó se formou em minha garganta.
- Como você sabia que eu estava aqui? – perguntei, voltando a encarar a manga do meu cardigan. O nó estava cada vez mais apertado, e meus olhos ficavam úmidos.
- Eu não sabia. – ele respondeu, sincero, e a primeira lágrima escorreu. Queria levantar os olhos e encarar seu rosto, saber o que ele estava pensando, mas tinha medo de encontrar nada mais do que desprezo. – Eu saí para te procurar e passei em frente ao colégio. Algo me fez querer entrar.
Ficamos algum tempo em silêncio, ouvindo os passarinhos do lado de fora. Eu tentava segurar o choro, ou pelo menos tentava não fungar, abaixando cada vez mais o rosto. Não queria que ele me visse chorando, mas desconfiava que já era tarde demais.
Não sei por que, mas sentia como se ele fosse sair dali e nunca mais voltar, e isso me deixava muito angustiada. Mas eu não sabia o que falar! A burrada, mais uma vez, fora cometida por mim, e agora eu não achava um jeito de me desculpar...
- Lanza? – murmurei, depois de algum tempo. Tentava organizar em minha cabeça algo que o aliviasse. Se ele queria terminar, por que não ajudá-lo? – Às vezes você não sente que estaríamos melhor separados?
Foi a vez de Lanza sorrir de algo que não tinha graça.
Aquele sorriso torto que eu tanto amava.
Arrependi-me instantaneamente de ter dito aquilo. É claro que nós brigávamos, talvez até mais do que um casal normal, mas não era como se eu quisesse terminar como eu tinha dado a entender. Mesmo porque, depois de sete anos juntos, eu sabia que não conseguiria mais viver sem ele. Sempre tivera aquela certeza, desde o começo, e agora ela pulsava em minha mente, não me deixando esquecer.
Será que ele entenderia errado e nós acabaríamos por causa da minha língua grande?
Então ele abaixou os olhos ao mesmo tempo que eu levantei os meus. Mais uma lágrima escorreu, e a pele da minha bochecha ardeu. Lanza recomeçou a mexer na borda da carteira, como fazia quando ficava entediado na aula. Eu não conseguia saber o que ele estava pensando. Algo estava errado, e eu tinha medo de saber o quê.
E foi ali, na sua antiga sala de aula, que ele me disse as únicas palavras que eu tenho certeza que nunca vão sair da minha memória e do meu coração, mesmo que eu tente.
- Sim. Às vezes eu até chego a cogitar a hipótese de acabar tudo, como se estivesse reparando um erro que nunca deveria ter cometido. – ótimo, agora eu estava chorando como uma criancinha. Mas era como se a cada palavra que ele ia dizendo, um buraco se formasse em meu coração, como mil facadas. Lanza não parou ao me ouvir soluçar. Continuou a falar com os olhos baixos, mas agora sua voz tremia. – Você é exagerada, ciumenta, fútil, mimada, irônica, sarcástica e teimosa. Tira conclusões precipitadas de tudo e nunca ouve o outro lado. Nós estamos sempre brigando e você não sabe como isso é desgastante para mim, que só quero um pouco de sossego ao chegar em casa depois de um dia na correria... Pra falar a verdade, você tem o dom de me irritar. – funguei. Pronto, era agora que eu ia receber um chute bem dado na bunda. Nada melhor do que acabar tudo onde tudo havia começado.
Mas então, quando pensei que tudo estivesse perdido, Lanza entrelaçou nossas mãos e levantou o rosto. Uma lágrima escorreu dos seus olhos e ele sorriu, me fazendo sorrir junto automaticamente.
Ainda havia esperança?
- Mas, mais do que defeitos, você tem qualidades incríveis. – continuou, passando o dedão na minha bochecha e enxugando uma das muitas lágrimas que caíam. – Você é doce, companheira, linda, inteligente, sensível, carinhosa. Você transmite muita força, confiança, coragem. Nunca desiste dos seus objetivos... Sua confiança é palpável e sua personalidade é forte. Você é a menina mais engraçada do mundo e sempre consegue me fazer sorrir. Mas também sabe me fazer chorar, quando não está por perto, quando me magoa, ou simplesmente quando está distante. Eu fico perdido sem você, sem seus conselhos, sem sua presença... Fico apreensivo ao tomar qualquer atitude ao seu lado, pois como te conheço bem, sei que poderia ser irreversível. Quando você chega perto, mesmo depois de todos esses anos juntos, meu coração dispara, minhas pernas ficam moles e meu estômago se retrai. Eu sinto como se fosse explodir se não puder tocar você, abraçá-la, sentir seu cheiro. O efeito que você causa em mim é muito forte, é inexplicável. Tudo em você, Vic, absolutamente tudo, é apaixonante. É como se... – ele abaixou os olhos, corando. Eu estava sem reação. Não conseguia falar, não conseguia me mexer. Até as lágrimas haviam parado. – É como se você fosse a garota dos meus sonhos de adolescente. Mas sabe de uma coisa? – perguntou, levantando o rosto, com um brilho diferente nos olhos, como se estivesse acabado de tomar uma decisão. – O adolescente cresceu, assim como a garota dos seus sonhos. – meu coração se acelerou, e eu pensei que fosse sair pela boca. E posso jurar que senti ele chegar ao esôfago quando Lanza se ajoelhou em minha frente e pigarreou. Colocou uma das mãos no bolso e com a outra segurou minha mão esquerda entre os dedos. – Na verdade eu queria que isso fosse em algum lugar mais romântico, mas hoje, quando saí para te procurar, decidi que seria agora ou nunca. Eu não posso mais continuar sem saber se você realmente me ama do mesmo jeito que eu te amo. E, bom, nada melhor do que tudo acabar ou se concretizar onde tudo começou. – então ele tirou uma caixinha do bolso e a abriu na minha frente, revelando um anel de ouro branco com um diamante na ponta. – Victória Hackmann, quer se casar comigo?
- E-eu... – respirei fundo, e ele prendeu o ar. – Sim! – exclamei, ofegante. As lágrimas que recomeçaram a cair agora não eram mais de angústia e tristeza, e sim de alegria e êxtase. – Sim, sim, mil vezes sim! – gritei, levantando da carteira e me jogando em seus braços, para poder beijá-lo.
Nós não sabíamos se ríamos, se nos beijávamos ou se saíamos dali e íamos direto para um quarto. Nossos corações batiam freneticamente enquanto nos beijávamos com força, vontade, paixão, carinho.
Amor.
Meu corpo inteiro formigava. Uma alegria incrível me dominou por completo, e eu me entreguei àquele sentimento.
- Eu sei que posso ser um idiota às vezes, e sei que você é birrenta e teimosa. Mas eu quero continuar brigando com você pro resto da minha vida, porque eu sei que é isso que me faz feliz! – ele disse, me beijando por todo o rosto. – Eu te amo, Vic. – sussurrou em meu ouvido.
- Eu te amo, Lanza! – exclamei, beijando a ponta do seu nariz. – Meu Gossip Boy!

FIM.

Revista Fofoca
p. 5

Babado da Semana!

Pedro Gabriel Lanza Reis, vocalista da mundialmente famosa banda McFLY, 24 anos, e Victória Hackmann, advogada e sempre-sua-namorada, 23 anos, finalmente decidiram juntar os trapinhos e se casarem!
Num pedido – nada – romântico, na escola onde os dois passaram a juventude, Lanza se ajoelhou e pediu sua eterna patricinha em casamento, que, chorando, aceitou no mesmo instante, colocando o anel de ouro branco e um diamante na ponta em seu dedo trêmulo.
Por amor ou golpe do baú?
Nunca se sabe...
Nós aqui – menos a autora dessa reportagem –, da Revista Fofoca, desejamos tudo de bom para o casal! E que venham muitas fofocas e babados novos para nossa revista, afinal, nós vivemos disso!
E que eles, finalmente, possam ser felizes.
Até que a próxima groupie os separe!

Katy Springs, com o pseudônimo de Mary Anne.


N/A:
08/09/09 – “É só isso. Não tem mais jeito. Acabou! Boa sorte...”

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