quinta-feira, 1 de julho de 2010

Capítulo 18 – Comprometida sim! Morta? Nunca!

Lanza fala:

Terça-feira passou. Quarta-feira também. Quinta, sexta, sábado, domingo, segunda, terça, quarta, quinta e sexta. Todos os dias foram quase os mesmos.
As provas ocupavam todo o nosso tempo. E, em nosso tempo livre, os meninos eram basicamente ignorados pelas namoradas e eu e Victória mantínhamos nosso relacionamento entre quatro paredes.
As do meu quarto, para ser mais exato.
Lá dentro, nós podiamos fazer tudo que desse na telha.
Bem, exceto o que eu realmente queria, mas não vamos falar sobre isso.
Victória dormia no quarto de visitas – que foi devidamente limpo por nós quatro – e, no meio da noite, sempre dava uma escapulida para ir ao meu quarto. [N/A: Calma Katy, isso não foi inspirado em você. Cof cof.].
Tínhamos mais ou menos duas horas juntos por dia. Ou por madrugada. Porque fora do quarto, e pelo resto das horas, éramos amigos de oi e tchau.
Amigos não, no máximo colegas. Mas os olhares trocados por nós dois durante o dia compensavam tudo.
Bella? Não tinha terminado com ela, embora Victória achasse que sim.
Mas, porra, eu não conseguia! Ela simplesmente fazia todas as chantagens emocionais do mundo! E eu? Caía em todas.
É, Lanza Reis, acho que você nunca mais seria o mesmo...
Ryan? Não voltou a aparecer na escola. Não voltou a aparecer em lugar nenhum, para ser mais exato. Descobri – com ajuda das meninas e dos dudes – que ele e seu pai estavam hospedados no Hotel Ynn, no centro da cidade. Então, quando estávamos com Victória, evitávamos ir até lá.
- Mas eu quero comer uma casquinha de menta no centro! - ela choramingava.
- Não, hoje nós vamos... Ao Barney's! - algum de nós sempre tentava mudar o rumo do local. - Ah, foda-se... - ela sempre acabava concordando.
Josh? Victória terminara com ele, e, desse modo, demonstrava ser mais macho do que eu.
Merda...
Mas ele não se abalou. E eles continuaram amigos.
Amigos, sei... Ele que ficasse de gracinha com a minha garota!
Sra. Hackmann? Bom, concordou que Victória morasse com a gente.
Melhor do que morar em um motel qualquer. Pelo menos ela nos conhecia. E como Victória estava mesmo destinada a não falar com a mãe, nada melhor do que morar com os amigos para eles contarem tudo o que estava acontecendo, certo?
Pai da Victória? Nunca tentou contatar a filha.
Pelo menos não naquele momento.
John? Não voltou a enxer o saco.
Marcus? Mais veado do que nunca.
James? Continuava a nos servir no Barney's, e, como sempre, nos dando descontos.
Bob Willians? Sei lá, aquele lá era pirado.
Patrick Fedelso? Continuva a nos deixar cada vez mais ricos e famosos, com shows aos fins de semana. “Quando acabarem o ensino médio, faremos uma turnê mundial. Por agora, somente shows de fins de semana!”
Na verdade, Fedelso era um pai para nós quatro. Nos ensinava todos os truques e macetes do mundo da música. E, como todo pai tinha regras, ele não poderia ser diferente.
As suas eram: nada de largar os estudos, matar aula para fazer show, festas que éramos convidados só de fim de semana e não podíamos chegar depois das 3h e... Bem, nada de drogas. O sexo e rock n' roll era permitido.
Pelo menos isso, certo?
Agora, o que você deve estar querendo saber.
Gossip?
Bem, esse/essa era uma incógnita.
Depois do post das meninas dançando na varanda, ele/ela não voltou a postar.
“Quando voltar da Argentina, estará mais próximo de saber quem eu realmente sou!”
Mas que porra de dica era aquela?

Victória fala:

- Obrigado, meninas! - eu agradeci, pegando as minhas duas malas da mão de Júlia. - Ela disse alguma coisa?
- Boa viagem. - Maria Eduarda disse, dando de ombros.
- Bom, melhor do que nada... - eu suspirei, jogando as duas malas em cima da minha cama de solteiro.
“Que saudades da minha cama de casal...”, pensei.
Mas do que adiantava uma cama de casal sem o Lanza nela?
Pelo menos aquela cama de solteiro tinha história pra contar.
- E Rosa, como ela está? - perguntei, me lembrando subitamente.
- Ah, ela te mandou isso. - Isadora disse, pegando um pacote comprido do bolso do sobretudo e entregando a mim. Desembrulhei-o e sorri, ao ver que dentro do embrulho tinha um spray de pimenta. Um cartão escrito a mão – com uma caligrafia horrível, diga-se de passagem – dizia: “Ouvi dizer que os argentinos são bem tarados. Se cuida, criança. Com amor, Rosa.”
- HAHAHAHAHA, ela te deu um spray de pimenta? Adorei! - Júlia disse, rindo.
- Pois é, pelo jeito os argentinos são bem mais tarados do que pensávamos! - exclamei, rindo. Joguei o spray de pimenta em cima da mala e caminhei até a janela. - E aí, vocês sabem de alguma coisa?
- Nada. - Isadora respondeu, parando ao meu lado e olhando na direção do meu olhar. O sol estava se pondo, deixando o céu todo laranja e rosa. Seria lindo, se meu estado de humor não fosse tão ruim. - Vic, vamos fazer uma promessa?
Olhei para o lado e percebi que não só Isadora estava lá. Maria Eduarda e Júlia também estavam. Levantei a sobrancelha e achei esquisito, mas decidi obedecer minhas amigas. No meu estado frágil, elas deveriam saber o que era melhor para mim.
- Claro. Que tipo de promessa?
- Não vamos ficar na bad por nenhum motivo. - Maria Eduarda começou.
- Seja namorado, família, ciúmes ou qualquer outra coisa. - Júlia continuou, olhando de volta para o pôr-do-sol.
- E se, por algum motivo, nós não conseguirmos isso... - Isadora disse, fazendo um certo suspense. Elas se entreolharam e Maria Eduarda completou:
- As amigas estarão lá para isso!
Sorri e senti lágrimas se formarem embaixo dos meus olhos. Respirei fundo e elas automaticamente sumiram, como sempre acontecia.
Eu tinha as melhores amigas do mundo.
Ficamos um pouco em silêncio, observando o céu passar de laranja para ébano em poucos minutos, até que alguém resolveu se manifestar.
- Ok, agora nós vamos embora. Daqui a pouco os meninos chegam do show e nós não queremos que eles nos vejam aqui. - Isadora suspirou, pegando sua bolsa em cima da minha cama.
- Até amanhã, Vic. Nós vamos passar aqui pra te pegar umas 14h, ok? - Júlia perguntou. - Ok. Boa noite, meninas! - exclamei, me apoiando na porta e observando elas descerem as escadas.
Aquela viagem prometia.

Lanza fala:

- Todos vocês estão com os passaportes? - Thomas gritou do andar de baixo. - Porque eu acabei de dar descarga em um papel que era bem parecido com um.
- Sim! - gritei, ofegante por sair correndo do quarto de visitas para o meu.
- Eu tô com o meu! - Victória gritou do quarto de visitas. Ela colocou a cabeça para fora do quarto ao mesmo tempo que eu coloquei a minha. Ela mostrou a língua para mim e eu mostrei o dedo do meio. Victória sorriu e enfiou a cabeça de volta no quarto.
- O meu tá na cozinha, em cima da geladeira! - Koba gritou do seu quarto.
- O meu tá aqui comigo! - Pe Lu respondeu, saindo só de boxers do quarto.
- Ótimo, então era só um catálogo de comida chinesa. - Thomas disse e, logo em seguida, ouvimos o barulho do liquidificador.
Victória saiu do quarto também e trombou com Pe Lu, que pediu desculpas e desceu as escadas.
E isso era um dia rotineiro na nossa casa.
Quatro homens e uma garota. Coisas espalhadas pela casa e pérolas como: “alguém viu minha cueca da sorte?” ou “Victória, você podia fazer o favor de não deixar suas calcinhas espalhadas pela casa?” eram comuns.
Nós pensamos que depois que ela se mudasse para lá, as coisas ficariam mais organizadas.
Mas o que nós não sabíamos era que Victória era pior do que todos nós. Juntos.
Acontecia de tudo um pouco.
E eu rezava todos os dias para que nenhum dos guys entrasse no meu quarto de madrugada.
Mas era por isso que existiam as chaves e as fechaduras.
- Pe Lu! - ela exclamou, enquanto ele descia as escadas como um zumbi. - Você sabe que horas são? Nosso vôo é daqui duas horas! E você está de boxers ainda? - Ah Vic, não enche que eu sei que você acabou de colocar a roupa também. - Pe Lu respondeu, parando na escada e se virando para ela. Eu assistia tudo da porta do meu quarto. - Porque a sua camiseta está no avesso.
Victória olhou para baixo e eu comecei a rir. Então, como se fosse a coisa mais normal, ela tirou a camiseta, desvirou-a e a colocou novamente. Simplesmente. Na frente de mim e de Pe Lu.
Mas Pe Lu só deu de ombros e voltou a descer as escadas.
Queria eu ter o poder de não surtar toda vez que visse minha garota de sutiã.
- Hey, Lanza Reis. - ela sussurrou. Eu chacoalhei a cabeça e subi o meu olhar para seu rosto. - Fecha a boca senão entra mosca!
- Não enche, sua profana! - brinquei, apontando para seus peitos. - Você acha muito legal fazer isso comigo, né?
Conversávamos entre os sussurros, como sempre tínhamos que fazer quando estávamos em casa.
- Deixa de taradice e vai se trocar! - ela exclamou, sumindo pelo quarto. Ainda fiquei alguns segundos olhando para o chão, sorrindo sozinho como idiota. Mas Pe Lu, que subia as escadas com uma banana nas mãos [N/A: Huuum, Pe Lu com uma banana nas mãos. Conseguem imaginar? xD], fez o favor de me tirar do transe.
- Lanza, você vai de boxers e camisa de flanela? - perguntou, apontando para minha camisa com a cabeça. - Sabia que é a última moda em Paris?
- Ah, vai se foder. - murmurei, entrando no quarto. - Pe Lu! - exclamei, e ele apareceu na porta. - Dá pra você tirar a caixa da pizza que você comeu sozinho ontem do meu quarto?
- Nossa, o que ela tá fazendo aí? - ele perguntou, inocente, pegando a caixa. Passou o dedo no catupiry e o levou a boca. - A é, eu tava te ajudando a arrumar a mala.
- Sabe o que eu soube? - perguntei, me lembrando repentinamente do que Victória havia me contando de noite, quando nós dois estávamos observando as estrelas pela janela do meu quarto.
- O quê? - Pe Lu quis saber, pousando a caixa de pizza novamente no mesmo lugar.
- Maria Eduarda e as meninas vieram aqui ontem. - respondi, e sorri ao ver a expressão de indiferença e dor se instalar nos olhos de Pe Lu.
- Grande coisa. - respondeu, voltando a passar o dedo pelo catupiry da caixa.
- Meu Deus... - sussurrei, me segurando para não rir. - Como vocês são gays!
- A Victória está morando no mesmo teto que você e você não faz nada e nós que somos gays? - Pe Lu perguntou, pegando a caixa de cima da minha escrivaninha de vez.
Nada, nada, eu não diria.
Mas o que eu realmente queria fazer...
Ok, parece que eu sempre acabo voltando pra esse assunto.
- Cala boca, Pe Lu. Victória é passado. - respondi, virando os olhos. Fechei uma gaveta aberta com o quadril e continuei: - Agora vaza que eu preciso me trocar.
- Falou. Mas depois, quando ela estiver namorando um argentino rico, não diga que eu não avisei. - ele disse, saindo pela porta, arrastando os pés atrás de si.
Porque ela ficaria com um argentino rico se ela tinha um rock star famoso também rico?
Certo?
Certo?
Ouvi a buzina do carro de Maria Eduarda tocar duas vezes lá embaixo. Caminhei até a janela com uma lata de cerveja que estava perdida no meu quarto na mão e observei Victória correr até o carro, jogar as duas malas gigantes no porta-malas e entrar no mesmo. As meninas riam sem parar de alguma coisa, daquele jeito histérico e fofo que só elas sabiam fazer, e eu encostei a testa no vidro da janela.
E antes de partir, Victória encostou a própria testa na janela do carro e mostrou a língua para mim.
Aquela viagem prometia.

Victória fala:

Última chamada para o vôo 3450 para a Argentina.
- Ótimo, somos nós! - Isadora piou, animadinha. Estávamos sentadas em uma fileira de bancos azuis de plástico duros, e, do outro lado, os meninos estavam apoiados na parede, conversando entre si.
- Prontos para o massacre? - ouvi Koba perguntar, fazendo os outros três rirem.
- Imbecis. - Júlia murmurou, virando os olhos. Em voz alta, perguntou: - Hey, vocês aí, qual o número do assento?
- 122B. - Lanza disse. Olhei para o meu papel. 123B.
- Ótimo, agora eu vou ter que viajar com o Lanza Reis. Simplesmente ótimo. - murmurei, usando meus truques de atriz, sem olhar para ele. Virei o papelzinho na mão e me levantei.
- 15J. - Thomas exclamou. - Nossa, longe de vocês eim?
- Ah, só pode ser brincadeira! - Júlia virou os olhos. - Eu sou 16J.
- Há. Destino cruel. Obrigado, Deus, por me fazer sentar ao lado... Dela. - Thomas disse, com desgosto. Virou a aliança no dedo anular da mão direita – sim, eles ainda estavam de aliança, todos eles – e se desencostou da parede.
- Eu mereço... - Júlia assoviou, se levantando também.
- O meu é 89R. - Pe Lu disse, espiando o papelzinho de Maria Eduarda. Ela brisava no cartaz gigante de Suflair e não viu ele fazendo isso. Mas abaixou os olhos do cartaz na mesma hora que ele murmurou: - Droga...
Maria Eduarda olhou para o seu próprio papel e disse em voz alta, ainda não entendendo porque ele havia xingado:
- 87R. 87R... Ai, seu imbecil! Nem é do seu lado! - ela exclamou, dando com a bolsa de mão no braço de Pe Lu. Ele soltou uma gargalhada anasalada e a empurrou de leve, fazendo-a quase cair do banco. – Ai! Seu idiota!
- Ai! Sua chata! - ele exclamou, imitando a voz dela.
- Vai se foder, Pe Lu. - ela disse, se levantando. Eu e os outros assistíamos de camarote, enquanto os dois se matavam. - Nem sei como pude namorar com você...
- Mas... Nós ainda estamos namorando! - Pe Lu disse, amaciando a voz. Fez uma carinha de gatinho quando ninguém quer fazer carinho e abaixou a cabeça. Acho que Maria Eduarda se comoveu com a cena, porque também abaixou a voz e murmurou:
- É. – e antes que aquele silêncio constrangedor pudesse envolver todos ali presentes, ela se levantou em silêncio e saiu batendo os pés até o portão de embarque.
- Isso! Foge mesmo! – Pe Lu sussurrou para ele mesmo, mas mesmo assim foi atrás dela. Os dois sumiram pelo portão e nós nos entreolhamos.
- Uou. - Koba assoviou, franzindo a testa. – Essas férias vão ser interessantes.
- Só falta você me dizer que é 103A. - Isadora ignorou o comentário dele. Koba olhou para o papel e riu. - Que foi?
- Não, não sou não. - ele respondeu, e ela suspirou aliviada. - Sou 101A.
- Ah, brincadeira né? - ela perguntou, arregalando os olhos. Olhei o papel dela. 102A.
Mas que ironia.
Olhei para Lanza e ele entortava a boca, como sempre fazia quando tentava não rir.
- Você fez isso? - perguntei, só mexendo os lábios.
- Quem sabe... - ele respondeu, e eu franzi a testa.
- Vai, vamos logo. - Júlia pediu, mal humorada. Caminhamos em silêncio até o portão de embarque e, quando chegamos ao avião, cada um foi – resmungando – para os seus assentos.
Na frente, Thomas e Júlia iam discutindo. Em um reflexo, ele colocou a mão em seu ombro.
Péssimo reflexo.
- Não encosta em mim, D'avilla. – Júlia ordenou, tirando a mão de seu ombro. Ele a colocou no bolso, meio sem graça, e respondeu:
- Então sai da minha frente. – dito isso, passou por ela e sumiu entre os assentos. Júlia resmungou e foi atrás, batendo com sua pequena – pequena lê-se aquelas malas de rodinha de tamanho médio – mala “de mão” em todos nas fileiras.
- Ok, até o final da viagem. Se eu não matar o Judd antes. – ela disse, antes de se sentar ao lado dele, que ouvia iPod mal humorado.
- Até mais ver, gente! – disse, passando por eles quando o cara que estava na nossa frente finalmente parou de babar no decote de Júlia e resolveu andar.
Passamos por Maria Eduarda e Pe Lu, que ouviam iPod e liam livros diferentes.
Maria Eduarda lia A Menina Que Roubava Livros [N/A: Eu recomendo. ;D].
Pe Lu lia Coisas Que Toda Garota Deve Saber.
Sim, você não leu errado.
No meio deles, uma mulher de uns 30 anos teclava furiosamente no laptop.
Eles não nos viram, então passamos reto, porque o cara atrás de nós estava ficando impaciente. Isadora e Koba acharam seus assentos e copiaram Pe Lu e Maria Eduarda, colocando o fone de ouvido e se ignorando.
Eu e Lanza fomos os últimos a nos sentar. Nossos assentos ficavam do outro lado daquela cortininha legal, de modo que nenhum dos nossos amigos iriam até lá, pois o banheiro ficava antes.
- Lanza, você nos isolou de todos! – eu reclamei, sentando-me ao seu lado.
- Por que será? – ele perguntou, se curvando e estalando um beijo em meus lábios.
- Ah, então você acha que só porque nos isolou vai poder abusar de mim? – perguntei, roçando meu nariz no dele.
- Hm... – ele coçou a nuca, pensativo. – É.
- Tarado! – exclamei, me contorcendo por ele ter começando a fazer cócegas em mim.
Lanza beijava meu pescoço e me fazia cócegas ao mesmo tempo, e eu estava quase sem fôlego de tanto rir.
- Pede penico rosa! Pede penico rosa! – ele ordenava, apertando minha barriga.
- Penico rosa! Peloamordedeus, penico rosa! – eu suspirei de alívio quando ele tirou as mãos de mim.
Sim minha gente, aquele era o tipo de brincadeira que nós fazíamos sozinhos.
Patético.
- Ótimo! – ele sorriu, vitorioso, estralando os dedos. O piloto começou a dizer as coisas de sempre pelo alto-falante e eu fiquei mexendo nos cabelos de Lanza, que caíam em seus olhos. Ele fechou os olhos e encostou a cabeça em meu ombro. Fechei os meus também e deixei meu braço cair em cima do meu colo, onde Lanza pegou minha mãe e a segurou com carinho. De repente, ouvi o barulho da cortina se abrindo e abri os olhos, soltando a mão de Lanza e me sentando direito. Ele desencostou a cabeça do meu ombro no exato momento que um garoto passou pela cortina e foi até nossos assentos.
- E aí! – ele tinha mais ou menos a nossa idade e sorria verdadeiramente, como se estivesse feliz em nos conhecer. – Acho que meu lugar é aqui! – disse, olhando para o papel em suas mãos. – Importam-se?
“Importam-se”? Que tipo de pessoa da nossa idade falava daquele jeito?
- Claro que não. – respondi, sorrindo ao ser contagiada pelo seu bom humor.
Ele tinha a pele morena do sol e sardinhas minúsculos enfeitando seu rosto. Seu sorriso era branco e os dentes perfeitamente alinhados. Os caninos praticamente brilhavam. Seus olhos eram verde-água e sua sobrancelha espessa.
Resumindo. Gato.
Por um momento, esqueci que Lanza estava ao meu lado e me perdi em seus olhos verde-água. Ele era... Bonito demais!
- E aí, cara! – Lanza disse, estendendo a mão sobre meu colo, me tirando do transe. – Pedro Gabriel Lanza Reis.
- Ben Tiller. – ele se apresentou, apertando a mão de Lanza sem tirar os olhos de mim. – E você? – perguntou.
- Victória. – respondi, meio grogue.
- Lindo nome. – ele sorriu novamente. Seus caninos ficaram mais uma vez amostra e seu hálito de menta com cigarro soprou em meu rosto.
Eu estava hipnotizada por sua beleza.
E Lanza estava ficando com ciúmes, porque pegou minha mão discretamente, para que Ben não pudesse ver, e se remexeu no banco, desconfortável.
Então Ben olhou para Lanza e arqueeou a sobrancelha. E os dois começaram a falar ao mesmo tempo:
- Ela é minha...
- Você não é o Lanza do...
Dei uma cotovelada em Lanza, que parou de falar, e Ben terminou:
- Restart?
Olhei com o canto dos olhos para ele, que estava com a testa franzida em uma expressão de mau humor, mais lindo do que nunca. Desviei a atenção para Ben, que ainda sorria de um jeito despreocupado, e comecei a realmente achar que estava no céu e os dois anjos mais lindos estavam ao meu lado.
Acho que sorte era pouco naquele momento.
- Hm... – ele pigarreou. – Sim, sou eu.
- Ah, que bom! – ele exclamou, piscando para mim de um jeito amigável. – Por um instante pensei que vocês fossem namorados, mas minha irmãzinha me disse que você namora uma tal de Bella ou sei lá o quê... – senti meu estômago se embrulhar ao ouvir aquele nome desprezível. – Então agora eu sei que você – ele pousou os olhos em mim e eu senti meu rosto corar. Lanza apertou minha mão e ele continuou: -, não é namorada dele.
- Acontece que ela é minha... – Lanza começou a responder Ben, e dava para sentir sua raiva no ar.
Mas ele não podia dizer. Qualquer que fosse nosso tipo de relacionamento – namorados? Ficantes? Amigos coloridos? –, ele simplesmente não podia dizer. Se ele dissesse, nada impediria que aquele estranho – gostoso, mas estranho – desse com a língua nos dentes.
E que língua!
E que dentes!
- Irmã! – exclamei, antes que ele pudesse respirar e terminar a frase. – Sou a irmã dele!
- E que irmã! – Ben brincou, sorrindo para mim.
E que problema eu iria arranjar...

Lanza fala:

Filho... Da... Puta.
Essas três palavras descreviam perfeitamente Ben Tiller.
Minha mão formigava e suava, de tanto apertar a mão de Victória por trás do banco, e eu provavelmente não conseguiria me levantar do assento quando o avião pousasse, devido à posição desconfortável que eu estava.
“Calma, Lanza, eles só estão conversando!” o anjinho sussurrava de um lado.
“Calma o caralho, Pedro Gabriel Lanza Reis! Se você piscar o olho sua garota vai fugir para Las Vegas e casar com esse protótipo de lobo mau!” o diabinho não deixava a desejar.
Minha cabeça latejava, meu coração nem batia mais e eu sabia que a qualquer momento voaria no pescoço daquele folgado.
Uma gota de suor escorreu pelas minhas costas e eu fechei os olhos, encostando a cabeça no assento.
- Lanza? – ouvi Victória chamar baixinho e pensei que fosse minha mente brincando de deixar-o-Lanza-louco-e-depois-rir-da-cara-dele. Nem me dei ao trabalho de responder. – Lanza?
Apertei os olhos já fechados, lutando para ignorar a voz doce que eu jurava ser uma brincadeira da minha mente corrompida pelo ciúmes.
- Lanza, cacete!?
“Opa!” pensei, abrindo os olhos, “Isso é real!”
- Quê? – perguntei, tentando ser o mais arrogante possível.
- O que você tem? – ela perguntou, passando o polegar pela minha bochecha. Por um momento, toda a raiva que eu estava sentindo sumiu, e eu me perdi em seus olhos.
“Me perdi nos seus olhos...”
Que tipo de homem diz isso?
- Nada. – respondi, virando meu rosto. Seu dedo escorregou e bateu em seu colo. – Cadê seu novo amigo? – perguntei, a ironia quase saltando entre minhas palavras.
- No banheiro. – ela respondeu, olhando para baixo e, mais uma vez, senti a raiva se esvair pelo meu suor. – O que eu posso fazer? – ela sussurrou, brava. – Não posso simplesmente sair contando pra todo mundo que nós estamos juntos! Vocês estão ficando famosos! Qualquer informação é informação!
- Mas também não precisa ficar dando em cima do cara! – respondi, me arrependendo instantaneamente por ter falado aquilo.
Eu sabia que estava falando a coisa errada, e que aquilo provavelmente a deixaria triste e magoada, mas o ciúmes praticamente falava por mim.
Por isso, continuei, ignorando a sua expressão triste.
- Sabe como é, mesmo que ninguém saiba de nós dois, eu não saio por aí dando em cima das minhas fãs! – tudo bem que eu ainda estava com Bella, mas ela não precisava saber. Eu queria ganhar a briga de qualquer jeito. Homem é foda, quer sempre ter razão. – Principalmente quando estou do seu lado!
Soltei sua mão e pressionei os nós dos meus dedos.
- Sabe, Lanza, você é a pessoa mais insegura que eu já conheci na vida! – ela respondeu às minhas ofensas serenamente, mas sua voz deixava transparecer que estava indignada. – Como você pode achar que eu vou trair você com qualquer estranho? Em um avião, pelo amor de Deus!
Silêncio.
Eu conseguia ouvir aquele barulho de velho-oeste e quase pude ver a bolinha de feno rolando pelo chão.
Não disse mais nada, primeiro porque ainda achava que estava com a razão e que ela que deveria pedir desculpas por dar em cima do cara na minha frente – embora em sua conversa com Ben não passasse de cordialidades – e segundo porque Ben acabara de voltar e já estava falando novamente, com seu jeito irônico de ser.
- Ótimo, aquele banheiro cheirava a suor, merda e cigarro.
- Eca! – Victória respondeu, voltando a sua voz normal, como se não estivesse gritando comigo há alguns segundos.
Enquanto os dois falavam sobre qualquer coisa sem importância, peguei-me pensando na possibilidade de amar tanto Victória que já sabia de cor todos os seus sinais; como quando sempre que estava prestes a chorar, seus lábios se retraíam e ela ficava rígida, impedindo que isso acontecesse, ou como apertava as mãos sempre que tinha algo importante a falar.
Mas, apesar de conhecê-la tanto, naquele momento, quando o ciúmes tomou conta de mim, não peguei um dos sinais cruciais que talvez evitasse que aquela viagem fosse catastrófica. Mas, se tivesse pego sua inquietação no ar, nunca conheceria todos os lados do amor como conheci aquela semana.

Capítulo 19 – Perdidos.

Victória fala:

- Bom... – murmurei, sentindo-me envergonhada. Lanza estava ao meu lado, e eu travava uma luta interna para saber se estava com raiva das suas insinuações ou se sentia carinho por ele estar com ciúmes.
Ele suspirou, uma mistura de indiferença com desdém, e eu decidi que a raiva ganhara a batalha. E por seu tom de voz ao falar: “Falou, Ben. Estou te esperando com os outros, maninha...” percebi que ele também estava puto comigo.
Todo mundo puto, iupi!
- Bom... – Ben repetiu, quando Lanza se afastou. Mas, diferente do que pensei que sentiria, ao vê-lo se afastar, eu não fiquei mais animada e me despedi alegremente de Ben. Pelo contrário. Meu coração deu uma cambalhota dentro do peito e uma súbita timidez me invadiu por completo. Estivera conversando por várias horas com Ben no avião, enquanto Lanza fingia dormir, e agora, depois de pousarmos e estarmos no saguão do aeroporto, é que eu decidi levar em consideração suas acusações.
Muito bom, Victória, é assim que se faz!
Realmente, às vezes eu era uma completa vaca.
- E aí, quer me encontrar por aí? – ele perguntou, como se fosse normal dois entrangeiros, que não conheciam o país, combinarem de se encontrar “por aí”.
- Pode ser, claro. – respondi, mais por educação do que por vontade. Agora que Lanza se fora, todo o brilho de Ben havia, de certo modo, desaparecido. – Me passa seu celular.
Ben tirou um V8 do bolso e, antes de passar seu número, anotou o meu.
- Nos vemos por aí, então. – disse, inclinando-me para beijá-lo no rosto. Seus lábios pousaram ao lado dos meus – o famoso beijo no canto da boca – e eu pude sentir o perfume Armani irradiar de seu pescoço, enquando seu hálito de menta e Malboro Light roçava em meu rosto.
Ok, acho que ele não tinha perdido todo o brilho afinal.
Ah, dá uma trégua! Vai me dizer que você, mesmo namorando, não baba pelo Edward-cara-de-assustado?
- Até mais, Vic! – ele gritou, andando de costas e acenando para mim. Virou-se e atravessou o saguão com sua mala preta e discreta, até desaparecer completamente.
- Até. – murmurei para mim mesma, sabendo que ele não poderia mais ouvir. De repente, um arrependimento por te deixando Lanza tão enciumado me dominou por completo.
Engraçado como os sentimentos que eu sentia no momento sempre acabavam me dominando.
Mas acho que, no fundo, eu só fiquei a viagem inteira conversando com Ben não porque ele era bonito – claro, isso ajudou muito – mas sim porque Lanza não se sentia seguro comigo, e isso, mais do que tudo, me magoava. E eu precisava, de algum jeito, me vingar.
Resumindo: pirraça.
Mas pelo menos eu admitia aquilo. E admitia que teria que ser um amor com Lanza para ele me perdoar. Ou será que ele estava com o mesmo sentimento de culpa que eu e esperava que eu o perdoasse também?
Meu olhar vagou sem rumo pelo aeroporto, lotado de pessoas de todos os lugares do mundo, até que eu localizei meus amigos no meio da multidão.
Não era difícil.
Harry era visível em qualquer tipo de multidão com aquele tamanho todo. Maria Eduarda estava sempre pulando, o que não era difícil de se perceber também. Júlia e Isadora riam histericamente e todos podiam ouvir, mesmo estando a alguns quilômetros de distância. Koba e Pe Lu gritavam um com o outro para saber quem iria jogar Pokémon Gold no GameBoy [N/A: Dos tempos da brilhantina essa, eim?] de Harry e Lanza estava praticamente jogando todo o conteúdo de dentro da mala no chão, aparentemente procurando por algo.
É. Eles eram bem fáceis de se achar. - Xúxú da minha marmita! Halls da minha balada! Vodka da minha fossa! Descarga da minha privada! Desinfetante da minha pia! – Maria Eduarda ia gritando a plenos pulmões e andando em minha direção com os braços abertos, chamando a atenção de todos que passavam por ali.
- Nossa, Duda, sentiu minha falta, eim? – perguntei, ao ser envolvida por seus braços apertados. Ela fungou em meu pescoço e respondeu, baixinho, em meu ouvido:
- Qualquer coisa pra me tirar do lado daquele troglodita do Munhoz.
- Obrigado. Agora eu me sinto muito melhor. – respondi, virando os olhos. Ela me soltou e nós duas começamos a rir ao mesmo tempo.
- E aí, Vic, como foi a viagem com o dedos-mágicos de Lanza Reis? – Isadora perguntou, se juntando a nós duas com Júlia.
- Ah, vocês sabem... – olhei com o canto dos olhos para ele, que agora socava tudo que tinha tirado da mala de volta. – Irritante... – me perdi nos músculos dos seus braços, que trabalhavam por sua blusa de frio para colocar tudo o que havia jogado no chão na mala. Jesus me chicoteia... – Ah! – lembrei-me repentinamente de Ben, ao pensar em Jesus me chicoteando. – Conheci um menino MUITO gato. Ben Tiller.
- Ben Tiller, filho de Joseph Tiller, repetente do terceiro ano da nossa escola? – Júlia se interessou na conversa. – Esse Ben Tiller?
- Nossa! Esse é meu Umpalumpa! – disse, abraçando-a pelos ombros. – É esse Ben mesmo! – exclamei, sorrindo de orelha a orelha. Sabia que conhecia ele de algum lugar. – Como você armazena essas informações, Jú?
- Fazer o quê... – Júlia deu de ombros. – Eu sou foda.
- Espera aí, esse é aquele que só vai pra escola uma vez na vida e outra na morte? – Maria Eduarda perguntou, estranhando.
- E que comeu Lee Mendes no armário de limpeza! – Isadora nos lembrou.
- Que clichê... – nós quatro suspiramos ao mesmo tempo.
Tentei me lembrar de alguma vez ter cruzado com Ben pelos corredores. Não me ocorreu nada. As únicas coisas que eu sabia sobre ele eu descobri pelas fofocas. Para mim, ele era um playboyzinho que só ia para escola comer as menininhas.
Hum. Em parte...
- Acho que ele é a única pessoa que não lê o Conte Seu Babado. – comentei.
- Por quê? – Maria Eduarda perguntou.
- Ele não me reconheceu. E só sabia que Lanza era da Restart porque sua irmãzinha gosta. Não disse nada sobre a escola, em nenhum momento...
- Claro! Acho que esse ano ele foi à escola, o que, umas 10 vezes? – Isadora analisou. – E quando aparece, é para fazer nada.
- Fiquei sabendo que sua última vítima foi Katy Springs! – Maria Eduarda fofocou, não se controlando.
- ... A eterna peituda! – nós quatro exclamamos e caímos na risada.
Até aquele momento, havia esquecido da presença dos meninos ali. Eles se juntaram no clube do Bolinha e nós, meninas, seres superiores, nos juntamos no clube da Luluzinha.
Então eu meio que não achei engraçado quando todos riram do meu pulinho de assustada quando Pe Lu gritou “meninas!” e apertou minha barriga.
- Ha ha ha. Que engraçado! – ironizei, dando um tapa em Koba, que era o que mais ria.
- Hey! Eu sou só uma vítima! – ele se defendeu, ainda rindo.
- Certo, quem está com o mapa? – Lanza perguntou, saíndo do seu casulo de silêncio.
- Eu! Eu! – Thomas arfou, feliz por sentir-se prestativo. Ou simplesmente por ser o centro das atenções.
- Aparecido... – Júlia murmurou, olhando para Thomas com aquela cara de nojo que só ela conseguia fazer.
“Nota mental, pedir para Júlia me ensinar a fazer essa cara.”
- Não começa com chilique, Jú! – Maria Eduarda sussurrou, apertando sua barriga.
Essa era uma das nossas táticas infalíveis de nos acalmar. Apertar gordurinhas.
- Certo, vamos logo, pelo menos o dono do mapa vai prestar para alguma coisa. – ela murmurou novamente, com a voz ácida. Thomas ficou vermelho da raiz do cabelo até o pescoço e sussurrou para ele mesmo:
- Piranha.
- O que você disse, Thomas? – ela perguntou, levantando a sobrancelha de um jeito assassino. Thomas sorriu com desdém e respondeu:
- Picanha, Júlia. Picanha...
- Mais um dia e eu mato esse moleque. – ela piou, passando por mim e seguindo com passos firmes até a porta automática do aeroporto. Nós a seguimos e nos deparamos com o céu já escuro e várias estrelas brilhando no alto dele. Ao vê-las, senti uma vontade absurda de abraçar Lanza, que as olhava com admiração.
- Nossa... – Isadora suspirou, olhando para a Lua cheia, amarela e gigante, que brilhava mais que todas as estrelas juntas. – Que lindo.
- Lindo mesmo... – Koba concordou, parando ao seu lado. Os dois se olharam e sorriram, mas Maria Eduarda, a mais nazista na operação ignorar-namorados-tarados, pigarreou e Isadora se afastou, provavelmente para não cair em tentação.
- Concentre-se, Isa! – ela sussurrou, baixinho, e Isadora sorriu, olhando para mim e dando de ombros.
Ficamos um pouco em silêncio, observando o majestoso céu acima de nós. Fazia frio, mas nós já estávamos prevenidos, com grossos blusões e luvas. Coloquei meu gorro vermelho sangue e sorri ao ver que Lanza também havia colocado o seu, verde-limão.
Chamativo? Magina!
Aos poucos, fomos nos juntando, como sempre acontecia no final. Mesmo com todos os problemas, sabíamos que sempre poderíamos contar um com o outro. Maria Eduarda, ao meu lado, pegou minha mão e Júlia me abraçou pelo outro lado. Isadora sorriu para mim e os meninos continuaram a olhar para o céu ébano. Um vento forte soprou por nós, balançando todos os cabelos, e Lanza finalmente falou, interrompendo:
- Ok, acho que aquilo é um táxi. – apontou para dois carros parados, amarelos com faixas pretas e plaquinhas brancas com TÁXI escrito em preto, onde seus motoristas conversavam animadamente alguma coisa que eu tentei, mas não consegui entender.
- Que gênio! – Koba ironizou, virando os olhos.
- Ah, desculpa aí senhor eu-sei-a-cor-dos-táxis-fora-do-meu-país! – Lanza brincou, bagunçando o cabelo de Koba, que mostrou a língua para ele, como uma criança mimada.
- Acho que ele só sabe disso porque tem uma plaquinha em cima do carro escrito Táxi, Lanza. Se não fosse por isso... – Isadora disse, e todos nós rimos, menos Koba, que fechou a cara e voltou a jogar seu GameBoy.
Caminhamos com os braços em volta do corpo até os dois taxistas. Eles se viraram para nós e nos cumprimentaram em espanhol. Júlia, que tinha alguma noção da língua, começou a conversar com eles, que assentiam com a cabeça e de vez em quando falavam algo incompreendível. Olhei para Lanza com o canto dos olhos e ele ainda se recusava a me olhar. Na verdade, ele se recusava a ficar perto de mim, porque estava do outro lado, ainda olhando para as estrelas.
- Ok, gente, eles sabem onde nossa casa fica e vão nos levar até lá. – Júlia explicou, enquanto os motoristas colocavam nossas malas nos carros. Os meninos entraram no primeiro táxi e as meninas no segundo.
O carro corria por uma avenida larga e, mesmo com minha super mega hiper blusa, eu sentia um frio esquisito cutucar minha espinha e me arrepiar inteira.
Ficamos em silêncio, sem ter muito o que falar. Júlia foi na frente, para o caso de precisarmos de uma tradutora. Atrás, Isadora ouvia música, Maria Eduarda tirava o esmalte da unha e eu olhava pela janela.
Não sei quanto tempo ficamos dentro do carro. Para mim, foram mais do que duas horas. Meu corpo inteiro doía e eu estava morrendo de vontade de me jogar na cama e dormir. Olhava para os lados e via na expressão de cansaço das meninas que elas estavam pensando o mesmo.
- Júlia, falta muito? – perguntei, cutucando seu ombro. Ele repetiu a pergunta em espanhol e o motorista respondeu alguma coisa monossilábica.
- Não, estamos pertinho. – ela disse, sorrindo para mim.
Encostei-me de volta no banco e deixei minha cabeça cair no ombro de Isadora.
Adormeci.
Fui acordada por Júlia, que me chacoalhava carinhosamente. Abri os olhos e olhei para o lado de fora da janela do carro. Ele estava parado em frente a uma casa de madeira antiga e que dava a impressão de estar abandonada há, pelo menos, uns 100 anos. O mato cobria praticamente toda a entrada e as janelas estavam cobertas por jornais amarelados. A única luz que conseguia ver era de um poste caindo aos pedaços, do outro lado da rua. Pisquei algumas vezes e levantei minha cabeça. Não estava sonhando.
- Hm... É aqui? – perguntei, mordendo meu lábio inferior.
- Acho que não. O motorista disse que pelo endereço que demos, é. Mas deve haver algum engano... – Júlia refletiu, mais consigo mesma do que comigo. – Os meninos disseram que a foto da casa não tem nada a ver com essa!
- Eu estou com tanto sono que dormiria na rua! – Maria Eduarda reclamou, piscando os olhos sonolentos.
Abri minha porta e saí. Lá fora, os motoristas falavam vagarosamente, como se falassem com crianças, e os meninos lutavam para entender alguma coisa.
- É. Aqui! – um deles falou, apontando para a casa.
- Não! Não é! – Thomas imitava-o, fazendo gestos e caretas.
- Mim Tarzan, vocês taxistas! – Isadora disse ao meu lado e nós quatro caímos na risada.
De repente, um dos motoristas entrou no carro e o outro começou a falar alguma coisa rapidamente, do jeito que nem Júlia entendeu. E, em um piscar de olhos, os dois partiram pela rua deserta, espalhando a poeira do chão.
Ficamos todos paralisados, ouvindo o barulho de carro diminuír aos poucos. Em pouco menos de 15 segundos, só ouvíamos o barulho dos morcegos. E a única luz que iluminava a rua se apagou. Dei um grito e abracei a primeira pessoa que vi.

Lanza fala:

- Victória, relaxa, não vai acontecer nada! – eu reclamei, tentando ao máximo ser rude com ela. Não porque eu gostaria, mas porque nossos amigos estavam todos ali, vendo – ou quase isso – aquela cena. – É só falta de luz. Só isso.
Ela gemeu e enfiou a cabeça no meu peito.
“Ah, foda-se!”, pensei, afagando seus cabelos.
- Ok, acho melhor entrar. Pior do que isso não fica. – Koba sugeriu. Ao fundo, ouvimos um trovão.
- Muito obrigado, Koba. – Thomas ironizou, pegando duas malas no chão. Pe Lu imitou seu gesto e Koba também. Quando fui pegar as duas malas restantes, Maria Eduarda e Isadora me impediram, pegando-as antes de mim.
- Tudo bem, você é o mais forte, só a mala da Vic tá bom. – Maria Eduarda disse, apontando para ela, que estava grudada em mim como um gato assustado.
Achei engraçado pensar naquilo. “Como um gato assustado” era exatamente o que ela estava parecendo. Uma gatinha.
Ai meu Deus, eu tenho que parar de escrever essas veadices aqui...
Puxei Victória pelo caminho inteiro. Ela andava de olhos fechados, o que me deu mais trabalho ainda.
Não que eu ligasse por ela estar ali. Ao contrário, era muito gostoso sentir seu perfume perto de mim depois da briga de mais cedo. Se é que aquilo poderia ser chamado de briga. Se pode, era mais como uma guerra fria. Eu sabia o que ela estava pensando e ela, com certeza, sabia o que eu estava pensando. Mas nenhum dos dois estava dando o braço a torcer.
Quando dei por mim, todos os outros haviam entrado e eu ainda estava lutando para que ela subisse as escadas de olhos fechados.
- Ok, Victória, você podia abrir os olhos só pra subir as escadas? Eu sou forte mas não sou dois! – pedi, parando para respirar. Ela abriu um olho, depois o outro, receosa. – Não tem nenhum fantasma, pode ficar tranqüila.
- Hm... – ela gemeu ao olhar em volta e fechou os olhos novamente. Ri comigo mesmo, pois sabia que, em condições reais, ela me mandaria tomar no cu.
- Ok, ok... – disse, para mim mesmo. – Eu consigo isso.
De súbito, tive um idéia. Peguei Victória pelas duas pernas e a coloquei no ombro, como se fosse uma mochila. Ela deu um grito abafado e afundou a cabeça nas minhas costas. Segurei-a muito bem – pela, hm, bunda – e continuei a subir as escadas, agora com muito mais facilidade. Ela não reclamou, não gritou e muito menos pediu que eu a colocasse no chão.
Acho que aquele medo de escuro era realmente verdadeiro.
Cheguei na porta e a coloquei no chão. Mais uma vez ela se agarrou a mim e eu a envolvi pelos ombros. Andávamos em câmera lenta porque ela arrastava os pés e tropeçava de cinco em cinco segundos.
- Sério, Victória, se você abrisse os olhos as coisas ficariam muito melhores e você estaria no claro mais rápido! – argumentei, e ela parou de andar. Soltou-se da minha blusa, deu um passo a frente, abriu os olhos de uma vez e ficou reta, olhando em volta. – Victória? – chamei, me aproximando. Ela continuou estática. De repente, uma vontade de confortá-la se instalou em mim, e eu encostei meu corpo junto ao dela, sussurrando em seu ouvido: - Viu só. Você não tem nada com que se preocupar.
Ela respirou pesadamente e voltou a andar.
Pelo jeito ainda estava brava comigo.
Fui atrás dela, e, de vez em quando, tinha que empurrá-la, pois ela “empacava” nos lugares.
Ouvi vozes vindas lá de cima e um pequeno feixe de luz. Ao ver a luz, Victória suspirou, aliviada, e subiu as escadas correndo. Quando cheguei lá, alguns segundos depois, ela estava jogada na cama, de barriga para baixo, com a cara enfiada no travesseiro.
- Bom trabalho, Lanza. – Isadora ironizou, virando os olhos. – Você sabe como ela fica no escuro!
- Eu tentei... – dei de ombros e me sentei.
- Parem de falar de mim como se eu não estivesse aqui, seus merdas! – ela falou pelo travesseiro, com a voz abafada.
- Certo, a casa tem quatro quartos com duas camas de solteiro em cada um. – Thomas ia explicando. – Podemos nos dividir ou colocar todos os colchões aqui, vocês que sabem, e...
- Pera aí! – Isadora o interrompeu. – Nós vamos mesmo passar a noite... Aqui?
- Tem outra idéia? – Koba perguntou, visivelmente irritado com ela. – Nossos celulares estão sem sinal – peguei meu celular no bolso e tive que concordar –, está escuro e tarde, essa rua é deserta, está a maior chuva lá fora e, não sei se você percebeu, mas nós não temos a mínima idéia de onde estamos. Se você quer passar a noite na rua, à vontade.
E aquela foi a primeira vez em que vi Koba bravo.
Todos nós olhamos para ele, que respirava fundo e pausadamente. Depois olhamos para Isadora e vimos seus olhos se encherem de lágrimas. Ela se levantou e saiu do quarto, levando sua mala atrás.
- Isa, espera aí, eu... – Koba tentou dizer, mostrando para todos que havia se arrependido de agir daquele jeito pela expressão em seu rosto. Mas ela já havia passado pela porta e batido em sua cara. – Caralho... – ele sussurrou consigo mesmo e voltou para a cadeira onde estava sentando, emburrado.
- Hm, certo... – Pe Lu disse, tentando acabar com o silêncio que se instalara.
- Eu tô com fome. – Júlia disse, do nada, e sua barriga roncou.
- Eu também. – lembrei-me que não tinha comido a comida do avião porque, toda vez que ouvia aquele Ben dar em cima de Victória, meu estômago se revirava de raiva. – Não comi no avião.
- Ótimo. Simplesmente ÓTIMO! – Maria Eduarda reclamou, parando de andar pelo quarto. – Estamos perdidos, sem comida, sem comunicação e brigando como idiotas. Será que duramos até amanhã ou vamos nos matar aqui mesmo?
O silêncio invadiu o quarto novamente.
- Ótimo, se vocês não tem nada para falar, eu vou atrás de Isadora. – ela decidiu, saindo pela porta e a batendo, assim como Isadora fizera.
- Acho que temos muitas meninas na TPM por aqui... – Pe Lu tentou brincar, mas não havia clima para isso.
Olhei em volta, pela primeira vez.
O piso do quarto era feito de madeira, que rangiam ao sentir qualquer movimento, dando a impressão de que iriam quebrar a qualquer momento. As paredes, antigamente brancas, agora estavam descascando e fediam a mofo. As duas camas de solteiro eram cobertas por um lençol bege e todo rasgado. Um armário de madeira estava encostado no fundo do quarto, e, como conseguia ver pelas portas abertas, só tinha dois cobertores marrons dentro. Duas cadeiras de madeira estavam agora no meio do quarto e só. Mais nada. O quarto era isso.
- Dude, esse lugar fede. – disse, desligado.
- Nós precisamos sair daqui. Logo. – Júlia concordou.
- Ok, eu e Pe Lu vamos dormir no quarto ao lado. – Koba disse, pegando sua mala no chão. – Isadora e Maria Eduarda provavelmente vão dormir juntas. Então, dividam-se e... Até amanhã.
- Se nós sobrevivermos! – Thomas comentou, enquanto os dois saíram pela porta.
Nós três – menos Victória, que ainda estava com a cabeça afundada em seu travesseiro verde-limão – nos entreolhamos. Pelo menos o clima já estava melhor.
- Vic, já está melhor? – Júlia perguntou, carinhosamente, passando a mão pelos cabelos dela, que somente concordou com a cabeça. – Ótimo, então vamos para o outro quarto? Thomas e Lanza vão dormir aqui.
Thomas deu de ombros, com uma cara esquisita, e eu repeti seu gesto.
Victória se levantou e pegou a mala no chão. Passou por mim sem olhar para minha cara, e Júlia foi atrás, lançando um olhar vago para Thomas. As duas passaram pela porta e a fecharam. Olhei para Thomas.
- Dude... – comecei, mas ele, em apenas uma palavra, resumiu toda a nossa situação. - Fodeu!

Victória fala:

Não me lembro, em toda minha vida, de passar uma noite tão ruim, como passei aquela.
Primeiro – e ela vai me matar por estar contando isso –, Júlia ronca. MUITO!
Segundo, o quarto parecia uma lareira de tão abafado.
Terceiro, a cama era dura, nojenta e fedia mofo.
Quarto, fiquei a noite inteira ouvindo rangidos de madeira e o barulho assustador da chuva lá fora.
Quinto, acho que o sótão estava infestado de ratos, porque ouvi barulhinhos irritantes a noite inteira.
E sexto, e não menos importante – pode parecer idiota, mas era a mais pura verdade –, Lanza não estava lá.
Agora você pensa: “Certo, mas até vocês se conheceram, Lanza nunca esteve lá!”
Agora eu te respondo: É. Eu também não sei como aquilo havia acontecido, mas dormir sem Lanza por perto, ou ao menos dormir sabendo que nós não estávamos tão bem quanto eu gostaria, não era nada divertido. Ao contrário, era a pior coisa do mundo.
Minha cabeça não parou um minuto. Eu tentava imaginar o porquê de ele ser tão inseguro, o porquê de eu ficar de papo com um completo estranho, o porquê de ele ser tão cabeça dura... Resumindo: o porquê de tudo. Minha noite se resumiu a roncos e porquês.
Ele girava em meus pensamentos e eu não conseguia, de jeito nenhum, dormir, sabendo que no dia seguinte ele não estaria lá. Sabendo que ele não me daria um beijo de bom dia, ou mesmo um olhar de cumplicidade.
O Sol começou a subir rápido demais. Quando dei por mim, ele estava clareando todo o quarto e eu não tinha dormindo absolutamente nada, mesmo morrendo de sono.
- Júlia? – chacoalhei-a de leve. Ela abriu os olhos e se espreguiçou. – Dormiu bem?
- Não. E você tá horrível. – ela respondeu, com aquele jeito sutil de ser.
- É, eu não dormi nada... – confirmei, procurando alguma roupa grossa na minha mala. O Sol brilhava lá fora, mas fazia muito frio. – E com você roncando não ajudou muito...
- Você sabe que eu tenho desvio de septo! – ela exclamou, procurando algo em sua mala. – Quem mandou dormir comigo?
- E eu tive escolha? – perguntei, e fui atingida por uma calcinha na cabeça. – Ok, ok, desculpa.
Nos vestimos em silêncio.
Esse era um dos motivos por nós sermos tão amigas. Sabíamos nossos limites e éramos sempre sinceras. Pra falar a verdade, eu tive muitas colegas durante minha vida, a, às vezes, eu deixava as meninas de lado por uma amizade repentina, mas sempre acabava voltando para elas, como se minha vida não fosse completa sem nossas risadas e conselhos.
Coloquei minha calça jeans mais surrada e uma babylook vermelha. Por cima, um blusão da Gap e uma jaqueta esquenta-tudo. Calcei meus Adidas e esperei Júlia terminar de se vestir. Quando acabou, saímos do quarto. No corredor, Isadora e Maria Eduarda já estavam prontas, esperando por nós duas.
- Eu e Isadora vamos acordar Harry e Lanza. – Maria Eduarda nos comunicou, ainda de mau humor. – Vocês podem acordar os outros dois? – ela pediu, se obrigando a falar “outros dois”.
- Claro.
Trocamos de lado pelo corredor, e eu ouvi alguns roncos de estômago, e pude jurar que um deles era o meu próprio. Abri a porta lentamente e fiquei aliviada ao ver que os dois já estavam acordados, vestidos e operantes.
Porque eu sei que gostaria de vê-los sem roupa.
Ai meu Deus, como eu sou pervertida!
Que Maria Eduarda e Isadora não leiam isso.
- Ah, glória Deus! – Koba suspirou, aliviado. – Pensei que teríamos que acordar vocês!
- Na verdade, foi isso que nós viemos fazer... – disse, sentando-me ao seu lado. Ele me deu um beijo na bochecha de bom dia e Pe Lu deu um em Júlia, que sentou-se ao seu lado.
- Hm, a Isadora ainda... – Koba tentou dizer, mas foi cortado por Júlia.
- Sim. E é melhor você pedir desculpas a ela porque eu não quero ficar uma semana ao lado de um casal em guerra.
Eles ficaram conversando sobre Koba e Isadora e eu me perdi em pensamentos, já me acostumando àquilo.
Lanza estava a menos de dois quartos de mim. Eu bem que poderia ir até lá e pedir desculpas, não é? Pedir desculpas não iria me matar. Eu até poderia admitir que eu era a errada pra ele me perdoar.
Ouvimos duas batidas na porta e logo em seguida, Thomas, Maria Eduarda e Isadora entraram no quarto. Lanza não estava com eles.
- E aí, cambada! – Harry exclamou, animado.
- E aí, amor, dormiu bem? – Pe Lu perguntou, se levantando para dar um beijo nele de bom dia. Thomas o empurrou e Pe Lu caiu na cama, rindo. Isadora e Maria Eduarda sentaram-se ao meu lado, um pouco mais bem humoradas.
- Cadê o Lanza? – Koba perguntou, e eu fiquei com medo de ele estar lendo meus pensamentos. Mas ele não olhava para mim, então eu descartei essa opção.
- Desceu, foi procurar sinal com o celular. – Thomas respondeu.
Então Lanza estava sozinho. Aquela poderia ser uma das únicas oportunidades que eu teria.
- Acho que eu vou fazer o mesmo. – disse, antes de sair em disparada pelo quarto.

Lanza fala:

Saí daquela casa antes de enlouquecer. Sério, aquele cheiro de mofo, aquela tensão no ar e Victória no quarto ao lado não faziam nada bem à minha sanidade mental.
Meu celular ainda não estava pegando, então eu decidi ignorá-lo e me sentei no meio fio da calçada. Peguei uma pedrinha no chão e comecei a jogar para cima e para baixo, perdido em pensamentos. Pela primeira vez, o foco deles não era Victória, e sim o CD, que quando voltássemos da Argentina, teríamos que gravar.
Mas não foi surpresa quando senti duas mãos geladas e pequenas no meu rosto, cobrindo meus olhos. Eu poderia não estar pensando nela, mas, de algum modo que nem eu conseguia explicar, ela sempre estava lá, em meu subconsciente.
- Adivinha quem é? – ela perguntou, com sua voz doce, em meu ouvido. Um arrepio percorreu meu corpo.
- Eu sei que é você, Victória. – disse, retirando suas mãos do meu rosto com certo desprezo, mas, ao mesmo tempo, com carinho. – Eu reconheceria essas mãos em qualquer lugar.
Ela riu e se sentou ao meu lado. Pegou uma pedrinha no chão e começou a desenhar na rua. Olhei para o outro lado e fiquei observando as nuvens, que formavam desenhos irreconhecíveis no céu.
- Você ainda tá bravo? – ela perguntou, de súbito, como se estivesse tomando coragem para perguntar aquilo. – Tipo, com o negócio do menino do avião.
Parei para pensar.
É, eu estava, sim.
- Mais ou menos... – comecei com cautela, para não assustá-la. Sabe como é, ela não deveria estar acostumada com garotos idiotas pegando em seu pé por ciúmes.
Ela continuava a desenhar no chão e eu me desliguei, viajando em seus cabelos. Eles estavam desgrenhados e caíam de qualquer jeito em suas costas.
Lindos.
- Você sabe que eu não tive a intenção... – ela disse, baixinho, mais como se fizesse um comentário. – Por que não confia em mim?
Essa pergunta me atingiu em cheio.
Eu não sabia o porquê de toda a insegurança.
- E-eu... – gaguejei, procurando em minha mente alguma justificativa.
Não que eu realmente fosse achar uma.
- Sabe, eu não tenho ciúmes das fãs. Claro, tinha ciúmes de Bella – ela começou, e esse nome fez meu estômago de revirar. Se ela soubesse do meu não-término com Bella aí que ia ferrar de vez. –, mas, agora que você não está mais com ela, eu não me sinto intimidada. Eu confio em você, meu amor. Por que você não pode fazer o mesmo?
“Meu amor”. Aquilo era golpe baixo.
- Sei lá! – exclamei, desconfortável com aquela situação. – Por que você dá motivo? – perguntei, na defensiva.
- Eu não dei motivo nenhum! – ela exclamou, sustentando o olhar no meu. – E você sabe disso!
- E aquele papo furado com Ben? Se aquilo não pode ser chamado de motivo, eu não sei mais o que pode... – argumentei, corando por me sentir como uma criança mimada.
Victória se levantou subitamente, jogando a pedra que servia de lápis no chão, com força. Levantei a cabeça, atordoado, e a encarei. Seus lábios estavam comprimidos e ela estava vermelha.
- Não dá pra conversar com você! – sussurrou, reprimindo um grito. Seus olhos estavam apertados de raiva, e sua testa franzida.
- Que pena, não é? – perguntei, irônico.
- Idiota! – ela exclamou, se virando de costas para mim e andando até a entrada da casa abandonada. Antes de entrar, virou-se e disse:
- Eu vim aqui tentar consertar as coisas, mas parece que tudo tem que ser dramático para o sr. Lanza Reis!
E desapareceu pela estradinha em meio ao mato.
Eu ainda fungava de raiva quando olhei para o chão. O desenho que ela fizera era um coração, e, dentro dele, estava escrito Victória e Lanza, com uma fletcha atravesando-o.
Peguei a pedra no chão e, em um impulso infantil, fiz um “x” no coração.

Victória fala:

- Nenhum celular tem sinal! – Pe Lu anunciou o que todos nós já sabíamos. Veio descendo correndo as escadas e sentou-se em sua mala. Todas as nossas malas estavam na sala e nós tentávamos decidir o que iríamos fazer, sentandos no lugar com a menor concetração de baratas mortas, o que era bem difícil de se achar naquela sala.
- Essa viagem tá ficando cada vez mais animada! – Maria Eduarda ironizou, virando os olhos.
Ficamos em silêncio novamente. Aliás, ultimamente, aquela era a única coisa que ouvíamos. O silêncio.
Maria Eduarda analisava as unhas, de vez em quando lançando um olhar de desdém para Pe Lu. Júlia jogava Snake no celular, dando pulinhos animados quando passava de fase. Isadora ouvia iPod e balança a cabeça despreocupadamente. Pe Lu devorava a única barrinha de ceral restante – nós já havíamos acabado com todas – e olhava para Maria Eduarda como idiota, como se ninguém ali pudesse ver seus olhares apaixonados. Thomas batucava com as inseparáveis baquetas na perna, fazendo caretas engraçadas. Koba jogava Game Boy distraído e Lanza – que eu evitava olhar, depois de ele ter sido tão idiota comigo – tentava achar sinal em seu celular, sem muito sucesso.
Eu estava inquieta, magoada com Lanza, entediada, perdida em um país estranho e, acima de tudo, com fome.
E vocês não queiram me ver com fome.
- Ah, pelo amor de Deus! – eu meio que gritei, levantando em um pulo. Maria Eduarda levantou os olhos das unhas, me olhando com curiosidade. Pe Lu deu um pulo e desviou a atenção de Maria Eduarda. Thomas deixou as baquetas caírem, Isadora tirou o fone de ouvido e me olhou, Júlia soltou um palavrão porque morreu no Snake, Koba deu um gritinho gay e Lanza continuou procurando sinal no celular, me ignorando. – Vamos fazer alguma coisa! Estamos de férias! Na Argentina! Qualé rapalé, ânimo!
Minha barriga roncou.
- E como você espera que tenhamos ânimo se não conseguimos sair daqui! – Koba perguntou, ligando novamente o GameBoy.
- E qual o seu plano? Ficar aqui jogando GameBoy até morrer de fome ou, por milagre de Deus, um Táxi passar aqui!? – perguntei, levantando uma das sobrancelhas estilo Thomas D'avilla.
Koba deu de ombros, como se perdesse a guerra.
- Sério, gente. Vamos pegar nossas coisas e ir pelo menos até o final da rua! Eu não quero ficar presa aqui comendo... – olhei em volta, procurando algum exemplo. – Baratas!
Eles se entreolharam, como se pudessem ler mentes. Pe Lu e Koba concordaram com a cabeça, Thomas deu de ombros, e as meninas se levantaram, animadas.
- Certo, então vamos logos antes que escureça. – Isadora sugeriu, pegando sua mala no chão. – Eu não quero morrer de frio!
- Deixa que eu levo a sua. – Koba se ofereceu, pegando a mala de suas mãos. Isadora deixou escapar um sorriso, mas logo depois fechou a cara e respondeu um “obrigado” ríspido. Mas só por ela ter deixado, Koba ficara mais feliz. Thomas e Pe Lu seguiram o exemplo, pegando as malas das meninas. E a tensão do ar diminuíu, pelo menos um pouco.
Olhei para Lanza, que, finalmente, guardava o celular no bolso. Ele me olhou com o canto dos olhos e murmurou, contrariado:
- Eu levo a sua.
- Muito obrigado, mas não precisa. – disse, colocando minha mala estilo vamos-acampar nas costas. – Eu sei me virar sozinha.
- Ok. Foda-se. – disse, pegando sua mala no chão e saindo da casa com a cabeça baixa. As meninas me olharam e eu dei de ombros. Mas sabia que não escaparia tão fácil. Mais cedo ou mais tarde elas iriam arrancar a verdade de mim.
Amigas estão sempre querendo saber se as outras amigas estão bem. E minhas amigas não eram muito diferentes do padrão normal.
Saímos na rua e o sol estava quase se escondendo.
- Acho que eu não chego até o final da rua! – Maria Eduarda resmungou, caminhando com a cabeça baixa. Isso porque nem estava carregando a mala.
Andamos até o final da rua. Chegando lá, encontramos uma avenida deserta, mas pelo menos era asfaltada. Em uma placa, algo escrito em espanhol havia sido apagado, e, em cima, um desenho de um pênis cintilava.
- Hm, acho que seu plano não deu muito certo Vic... – Pe Lu me consolou, envolvendo-me pelos ombros. Sorri meio de lado, admitindo fracasso. Todos começaram a reclamar ao mesmo tempo, menos Lanza, que olhava para o além, destraído.
Sentei-me no acostamento e coloquei a mala de lado. Olhei para um dos lados da avenida e vi uma luz prateada se aproximar rapidamente. Levantei-me em um pulo, enquanto os outros ainda estavam se sentando. Quando a luz chegou perto, pude reconhecer um Vectra prata. Mostrei o dedão, com medo de que aquilo, na Argentina, fosse algum tipo de ofensa.
Mas parecia que não, porque o carro encostou e o vidro preto pelo insulfilme começou a se abaixar.
E minha surpresa foi quase apalpável ao ver que se tratava de Ben Tiller.

Capítulo 20 – “Sorry's not good enough...”

Lanza fala:

- A Maria Eduarda roubou pão, na casa do João! A Maria Eduarda roubou pão, na casa do João! – os sete, menos eu, estavam cantando a plenos pulmões, na Van prateada em que estávamos. Eu não agüentava mais ouvir aquela música, que se repetia várias e várias vezes, como se todos eles fossem crianças na primeira excursão da escola.
Ben ia na frente, conversando animadamente com o motorista.
Em espanhol.
O negócio é que ele nos vira sentandos no acostamento. Na verdade, vira Victória, que ficou em pé, balançando o dedão para ele. Não sei se ela tinha visto que se tratava de Ben Tiller, mas pela sua animação ao chacoalhar a mão, é provável que sim. Então ele parou, abriu o vidro, conversou algum tempo com ela e, em menos de 15 minutos, uma Van prateada estava parando ao nosso lado, para nos levar ao Hotel de seu pai.
Sim, Ben tinha uma rede de Hotéis pelo mundo inteiro.
Fiquei super feliz em saber que ele era rico. Com certeza alegrou meu dia.
Certo...
- Quem eu? – Maria Eduarda perguntou, finalmente entrando na brincadeira, depois de insistentes tentativas de todos. “Merda...” pensei, virando os olhos. “Perdi mais uma...”
- AEEEEEW! – Isadora, Júlia, Victória, Pe Lu, Koba e Thomas gritaram.
- Ok, acho que vocês acabaram de estragar a brincadeira. – ela disse, segurando-se para não rir. Koba, que conseguiu se sentar ao lado de Isadora, abraçou-a pelos ombros e ela, que até aquele momento ainda estava magoada com ele, sorriu, não retirando a mão. Ele piscou para Thomas que olhou para Júlia, analisando se fazia o mesmo ou não. Pe Lu, ao lado de Maria Eduarda, não cogitou a idéia. Sabia que, se fizesse isso, ia receber um soco bem dando no seu provedor de espermatozóides.
Mas não posso negar. Depois que Ben nos resgatara, as coisas estavam ficando melhores.
Merda de Ben...
- Bom, chegamos! – ele disse, virando-se para trás e sorrindo para Victória. Ela sorriu de volta, por educação, e eu me segurei no banco, para não voar na cabeça daquele desgraçado.
A Van parou e ele saiu do banco da frente. Abriu a porta de correr e ficou segurando, até que todos nós saíssemos. Fui o último, deixando meu queixo cair ao ver o tamanho do Hotel. Aliás, eu nunca tinha visto um Hotel mais bonito que aquele.
A fachada era toda rústica, com fontes e um jardim impecável. Para chegar até e porta automática da entrada, tínhamos que passar por um ponte de madeira onde, embaixo, carpas vermelhas reluziam com as moedas ali jogadas.
- Legal, né? – Ben perguntou, sorrindo para mim.
Olhei para ele e não respondi, saindo do carro para a calçada.
“Legal é meu p...” pensei em dizer, mas se a situação não era agradável com Victória depois da nossa briga, as coisas não melhorariam muito depois desse comentário.
Calei-me, como uma criança contrariada.
- Ok, coloquei as meninas em um quarto e os meninos no outro. Meninas quarto 1009 e meninos quarto 3010. Podem subir. – ele explicou, dando uma chave para Koba e uma para Maria Eduarda.
- Muito obrigado por estar fazendo isso, Ben! – Victória agradeceu. – Nem sei como agradecer!
- Se vocês estiverem bem acomodados eu estou feliz. – ele disse, como todo bom cavalheiro. Veado. Isso sim que ele era.
Pelo menos eu torcia para isso.
Mas eu não podia discordar. Quem não agradeceria um Hotel daqueles depois de sair daquela casa grotesca?
Caminhamos mais livres do que nunca, sem o peso das malas, que estavam a caminho em um carrinho motorizado. Fazia Sol, mas, mesmo assim, o frio era intenso.
Victória caminhava na frente, ouvindo com atenção o que Ben falava, rindo sem mostrar os dentes.
Fiquei observando seu jeito delicado de andar, seus gestos meticulosos ao falar, seu modo discreto de rir quando estava sem as amigas... Tudo.
Tudo nela me fazia bem.
- Hey, Lanza. – Pe Lu me chamou, com um sussurro, desviando minha atenção do quadril de Victória. – O que você acha de levarmos as meninas para fazer compras hoje à noite? – perguntou.
- Como assim? O que você pretende com isso? – perguntei, curioso. Pe Lu sorriu diabolicamente, como se tramasse um plano, e começou a me explicar:
- Bom, as meninas visivelmente ainda estão bravas...
- Eu sei disso, mas e daí? – perguntei, ainda não entendendo seu raciocício.
- Lanza, se liga, periquita! – ele exclamou, na sua melhor imitação gay-man, olhando em volta para ver se nenhuma delas nos observava. – São mulheres! Tem coisa melhor do que compras para deixá-las felizes? Repara só, está escrito na testa de cada uma delas: comprar, comprar, comprar!
Arqueei a sobrancelha e olhei para os lados. Isadora e Júlia comentavam sobre as roupas de uma garota que andava mais à frente com os pais. Maria Eduarda observava com brilho nos olhos o luxo do Hotel. E Victória passava os dedos pelo cabelo, pensativa.
- Pe Lu... – sussurrei, e ele se curvou para ouvir melhor. – Você é um gênio!

Victória fala:

O quarto não podia ser mais lindo. E tenho certeza que, pelos “Nossa!” e “Uau!” que ouvi das meninas ao entrarmos nele, elas acharam o mesmo.
Todo rústico e confortável, ele era dividido em sala e quarto. Na sala, uma lareira estava acesa, nos aquecendo quase que instantaneamente. De frente para a lareira, alguns pufes pretos e cinzas. No chão, um fofo tapete cor de gelo. Uma Tv LCD de, no mínimo, 40 polegadas, estava presa ao teto.
Do outro lado de dois pilares muito bem desenhados, o quarto, com duas camas de casal que eu nunca havia visto mais fofas. Seus travesseiros eram brancos e o edredom preto e cinza, combinando com os pufes. No chão, o mármore reluzia pela luz amarela escura das lâmpadas.
Em todos aqueles anos viajando com minha mãe, nunca havia ficado em um lugar tão lindo e gostoso como aquele.
- Agora sim isso aqui é uma viagem! – Maria Eduarda exclamou, se jogando na primeira cama de casal. Júlia e Isadora imitaram seu gesto e eu fui me deitar na outra, sem ânimo para fofocar ou falar merda.
Olhei para o teto e me senti aconchegada, descansada e feliz. Finalmente alguma coisa havia dado certo na viagem.
Fechei os olhos e fiquei ouvindo as meninas conversarem. Mas, depois de algum tempo ali, deitada, as vozes começaram a ficar cada vez mais distantes. E antes que eu percebesse, estava absorta em pensamentos.
“E aquele papo furado com Ben? Se aquilo não pode ser chamado de motivo, eu não sei mais o que pode...”. Aquelas palavras me cortavam, como se fossem facas. Eu estava cansada de tentar achar uma justificativa para tudo aquilo que estava acontecendo. Depois de todo o esforço que fizemos quando estávamos morando na mesma casa, fugindo e se escondendo de tudo e de todos, agora, que poderíamos muito bem escapar por ali, sem que ninguém percebesse, brigávamos!
Que tipo de lógica era aquela?
Mas acho que ninguém havia me explicado direito o que era amar. E eu sempre achei que tudo daria certo. Sabe como é, achava que aquelas histórias de vai e volta só aconteciam na Tv. Que, quando eu encontrasse meu amor verdadeiro, nós nunca iríamos brigar.
“Bela percepção da vida, eim Victória!?”, pensei, sorrindo de mim mesma.
Estava sendo bem difícil perceber a verdade, da pior maneira.
Peguei-me pensando em tudo novamente, como sempre fazia em uma crise. Desde o começo, que motivos havia dado para tanta desconfiança? Porque, ao mesmo tempo que houve John, houve o fato de eu o odiar. Ao mesmo tempo que houve Josh, houve Bella. Se ele tinha ciúmes, eu tinha todo o direito de também ter. Mas eu sabia que ele nunca faria nada para me magoar, então o meu ciúmes era mais controlado.
Então porque pra ele era tão diferente?
- Meninas? – a voz abafada de Thomas me tirou dos pensamentos. Levantei a cabeça e vi Isadora, Júlia e Maria Eduarda olhando fixas para a porta, com cara de passarinho assustado.
- Oi, Thomas! – respondi, vendo que nenhuma delas estava pensando em fazê-lo.
- Então, nós vamos pra Buenos Aires, é só 15 minutos daqui. Queríamos levá-las para fazer compras. Para, sabe como é, tentar nos desculpar.
“Aaaah!” elas murmuraram, caindo na risada.
- E aí, vocês topam?
Nos entreolhamos e gritamos, em uníssono:
- Sim!

Lanza fala:

Esperávamos no táxi. Dessa vez, Ben havia avisado ao taxista exatamente aonde queríamos ir, para nada dar errado. Aliás, por falar em Ben, Thomas, Pe Lu e Koba já estavam mais que amigos dele. Combinavam de jogar pôquer mais tarde quando as meninas fossem dormir, e isso envolvia dinheiro e modelos.
Traíras...
O frio estava dez mil vezes pior do que de manhã, e eu me apertava por debaixo da jaqueta. Ben parecia nem estar sentindo, só com uma leve blusa de moletom.
A cada minuto que passava ao seu lado, me sentia mais fraco. Sabia que ele era mais bonito que eu, melhor que eu, mais rico que eu. E isso estava me matando. Sabe como é, o fato de saber que um cara bem melhor que eu estava dando em cima da minha garota. E que eu não podia fazer nada para impedir aquilo.
Ou podia?
Minha cabeça estava tão bagunçada que, quando olhei pela janela do carro, abri a boca mais do que devia, ao ver as meninas chegando.
Mas aquilo era uma característica minha. Era só ver Victória que meu queixo caía. Ela parecia conseguir ficar mais linda a cada dia, e isso não me fazia muito bem; na verdade, já estava me sentindo paranóico por ela.
- Olá, meninos! – Júlia piou, apoiando-se na batente da janela. – Vamos então?
- Sim, claro. – Thomas sorriu para ela, que sorriu com desdém e caminhou até o outro táxi. Ben se despediu de nós, alegando “estar ocupado demais com Tom Cruise, que não parava de beber e Suri, que não parava quieta um segundo” para ir à Bueno Aires com a gente.
Ah, que dia mais feliz!
- Ok então, carta branca para elas? – Koba perguntou, mexendo na carteira, onde um cartão dourado brilhava.
- Acho que sim. E se, mesmo assim, elas ficarem de cu doce, eu não sei mais o que eu faço... – Pe Lu respondeu, parecendo desolado.
Ficamos o resto do caminho combinando que iríamos esquiar no dia seguinte. Já havíamos perdido um dia naquela casa asquerosa, e mais um dia no Hotel. Se vocês sabem contar, só nos sobravam cinco dias, que pretendíamos gastar do melhor jeito possível.
E quando digo do melhor jeito possível, isso envolvia bebida, festas, esquiar e reconsquistar nossas namoradas. Quer dizer, os meninos reconquistarem as namoradas. Eu só precisava... Parar de ser tão ciumento.
Mas é que... Aquele Ben não me passava nada de bom. Sei que isso pode parecer idiotice, mas algo nele me fazia pensar no pior, e isso não era nem um pouco legal.
O táxi parou em frente a um Shopping. Entramos pelo estacionamento e ele nos deixou na porta autómatica. Ele já havia sido pago por Ben – filho da mãe, filho da mãe – então nós só precisávamos nos preocupar em ligar de volta quande quiséssemos ir embora.
Olhei no relógio e eram exatamente 19:34h.
- Pronto para ir à falência? – Thomas perguntou, suspirando.
- Vocês. Eu não vou pagar nada pra ninguém. – respondi, sorrindo como uma criança.
- Ah, dude, como eu queria ser você numa hora dessas... – Koba murmurou, alisando o cartão de crédito dourado, que estava prestes a ser assassinado.
Pobre cartão...
- Ai meu Deus, ali estão elas! – Thomas exclamou, abrindo a porta para Júlia, que ia na frente com o motorista. Ela sorriu, verdadeiramente agradecida.
- Vamos então! – Maria Eduarda sorriu, animada. Envolveu o braço com o de Pe Lu e ele piscou para mim, no melhor jeito cafetão. Júlia e Isadora fizeram o mesmo e Victória andou na frente, ainda me evitando. Senti um aperto no coração e evitei pensar naquilo. Mas o frio era tão intenso que era meio difícil não pensar em querê-la junto a mim, para me aquecer.
Comecei a me sentir mal por ter sido tão idiota com ela, quando ela tentou se desculpar. Mas aquele era eu, sempre me arrependendo nas horas erradas.
Entramos no Shopping e o clima estava, de longe, bem melhor. E acho que era o fato das meninas estarem sendo carinhosas com os meninos e eles estarem sendo fofos com elas.
Ou era o fato de elas estarem no seu habitat natural, o shopping.
Vai saber...
Depois de algum tempo lá dentro, agradeci aos céus por Victória estar brigada comigo. Eu sei, isso pode parecer maldade, mas Maria Eduarda comprou 5 calças jeans na primeira loja que entrou, Júlia gastou 500 dólares em maquiagem e Isadora comprou cinco perfumes. Caros.
- Tudo bem, Vic, eu pago pra você. – sussurrei no seu ouvido, com a minha voz mais fofa possível, abraçando-a pela cintura quando percebi que todos estavam ocupados demais provando roupas ou rezando para que o cartão não estourasse. Tentei ser o menos falso possível, mas no fundo eu estava com medo de que ela aceitasse.
Respirei aliviado quando ela só negou com a cabeça e continuou a tomar seu sorvete, se desvencilhando dos meus braços.
Tudo bem, se ela não queria gastar meu dinheiro, eu é que não ia reclamar.
Mas, mesmo assim, fiquei triste em ver que todos estavam se divertindo tanto, e nós dois estávamos daquele jeito.
Saímos de lá às 22:32h, com mais sacos que todos os dedos das nossas mãos juntos. O táxi já nos esperava, e, dessa vez, Thomas, Júlia, Koba e Isadora foram em um, eu, Victória, Maria Eduarda e Pe Lu fomos no outro.
No nosso táxi, o clima mudara da água para o vinho.
Maria Eduarda e Pe Lu sussurravam coisas incompreensíveis e riam sem parar.
“Love is in the aaair!”
Victória, ao lado deles, ouvia iPod com a testa encostada no vidro da janela, com a expressão vazia, observando a chuva que havia começado e caía forte, fazendo um estrondo no carro. A música estava alta e eu pude ouvir o que ela escutava. “Candles – Hey Monday.”
É dude, eu estava ferrado.
O taxista nos levou até o Hotel. E como sempre, Ben nos esperava.
Ele ajudou Victória a sair do carro, ignorando completamente minha presença, estendendo sua mão para ela. Maria Eduarda, ao passar por eles, assoviou, e eu tive vontade de me matar.
Sério.
Isadora e Júlia, ao passarem por Victória, a cutucaram, pois ela conversava animadamente com Ben sobre algo completamente inútil. E eu não sei se os dudes perceberam minha cara de ódio, só sei que estavam fazendo de tudo para eu me sentir bem.
Entramos no Hotel e ficamos conversando em uma sala reservada. Agradeci por estar bem perto da lareira, primeiro porque se quisesse matar Ben era só jogá-lo lá dentro, segundo porque o frio dera lugar ao calor, e eu sentia menos falta de Victória.
Mas, claro, ainda sentia saudades de seus beijos, mesmo que fizessem menos de 48 horas que os sentira pela última vez.
Quando eram 24:56h, ainda estavávamos lá, conversando. E eu ainda estava olhando com uma expressão exterminador-do-futuro para Victória e Ben, que pareciam estar tão entretidos na conversa que nem perceberam a quantidade de pigarros que eu emiti.
- Ah, eu estou com sono! – Júlia reclamou, encostando a cabeça em Thomas. Ele sorriu e passou os dedos por seu cabelo, fazendo-a fechar os olhos. Maria Eduarda concordou com a cabeça, que já estava apoiada no ombro de Pe Lu, e Isadora fez o mesmo, balançando os cabelos enquanto balançava a cabeça. Desentrelaçou a mão da mão de Koba e se levantou, anunciando:
- Ok, chega, eu vou dormir, senão amanhã eu não paro em pé... Até amanhã, meninos! – disse, sorrindo para nós. Depois, abaixou a cabeça e deu um beijo estalado na bochecha de Koba. – Boa noite, Koba.
- Boa noite, Isa. – ele desejou, sorrindo como idiota.
- Boa noite, Munhoz! – Maria Eduarda disse, piscando para ele, que piscou de volta e mandou um beijo no ar.
- Até amanhã, Thomas. – Júlia murmurou, sem conseguir abrir os olhos direito de tanto sono.Thomas beijou o topo da sua cabeça e a ajudou a se levantar.
- Boa noite, meninos! – Victória desejou. Então disse algo para Ben e ele sorriu, dando um beijo na sua bochecha. E, antes de sair do saguão, ela me lançou um olhar magoado de partir o coração.
Era agora ou nunca. Vencer o cara mais detestável no mundo no melhor jogo para recuperar a dignidade masculina: pôquer!
Ok, me entusiasmei...

Victória fala:

- Ah, eu não consigo. Eu tentei, mas não consigo, com C maiúsculo! – Maria Eduarda exclamou, escovando o cabelo na frente do espelho. – Ele é lindo demais, perfeito demais, fofo demais, apaixonante demais e, o melhor de tudo, rico demais!
- HAHAHAHAHAHA. Como você é interesseira, Duda! – disse, encarando o teto. – Mas eu já acho que passou do tempo de vocês voltarem. Todos vocês.
- Você fala isso porque... – Júlia tentou dizer, mas a cortei.
- Não me coloquem na história, por favor. Eu só quero ver meus amigos felizes de novo. É pedir demais?
- Ok, certo, certo... – Isadora concordou, pulando em cima da cama. – Amanhã eu vou ficar com o Koba e chega de greve. Porque, meninas, descobri, do pior jeito, que greve mata!
- E você com Ben Tiller, dona Vic? – Maria Eduarda perguntou, olhando para mim com um sorriso malicioso.
- É meeesmo! Porque ele está doidinho por você... – Júlia concordou, como quem não quer nada.
- Ah, não enche! – exclamei, me enfiando embaixo do edredom. – Ele é gostoso mas... Não faz meu tipo.
- Aaaah, e quem faz seu tipo? – Isadora perguntou, tirando o edredom de cima do meu rosto. – Pedro Gabriel Lanza Reis, habilidoso com as mãos?
- Vai se foder, Ribeiro! – exclamei, me virando de lado, fingindo estar com sono demais para conversar.
Antes de cair no sono, fiquei observando o céu escuro pela janela.
Ben dera em cima de mim a noite inteira, mas algo me impedia de ficar com ele. Tudo bem, aqueles olhos verdes e sorriso de matar realmente eram difíceis de resistir, mas quando eu olhava para o outro lado da sala e via Lanza, com cara de ciumento, meu coração se desmanchava.
“É isso...”, pensei, finalmente entendendo o porquê de tudo aquilo. Era fato, estatística: eu era uma azarada. Tudo sempre dava errado para mim. “Vai dormir, Victória, você já tá variando...”, pensei, antes de cair no sono.

Mais tarde.

- ... não, eu acho ela horrível... – foi a primeira coisa que ouvi ao despertar de um sono pesado. Abri os olhos e soltei um suspiro leve. Apoiei-me nos cotovelos e olhei em volta. O quarto estava escuro, mas vi três sombras reunidas em uma cama só, aos sussurros.
- Posso saber o que está acontecendo aqui? – perguntei, alto e claro. Maria Eduarda soltou um gritinho, Isadora começou a rir da cara dela e Júlia respondeu:
- Estamos sem sono. Sabe como é, homens...
- Sei muito bem. – sorri, pulando de uma cama para outra. – O que foi, estão com tesão demais para dormir?
- Credo, Vic! – Maria Eduarda disse, me empurrando. – Só a Isadora é desse tipo de menina!
- Falou aí, santinha! – ela brincou, batendo com a almofada na cabeça de Maria Eduarda.
- Mas e aí meninas, tudo à pampa na rampa? – perguntei, mudando de assunto.
- Ah, sabe como é, tudo massa na desgraça... – Isadora respondeu, sorrindo.
Nos entreolhamos e caímos na risada mais uma vez.
- O que será que os meninos estão fazendo? – Júlia perguntou, suspirando.
- Não sei... – respondi, sincera. – E nem quero saber. Mas agora que vocês me acordaram, eu tenho um plano para ajudá-las... – disse, diabolicamente. As três me olharam com esperança e eu esclareci: - Vamos lá descobrir!

Lanza fala:

- Olá, meninas! – Ben disse, ao abrir a porta para cinco desconhecidas com cara de eu-não-como-há-uns-três-anos. Ou seja: modelos. – Prontas para nossa festinha particular?
As meninas sorriram de um jeito malicioso e eu pensei em sair correndo dali, para não cair em tentação.
Percebi que, longe das meninas, Ben tinha a maior pinta de cafetão.
A primeira que entrou era loira e muito alta, a mais alta das cinco. Tinha o cabelo todo ondulado e um sorriso de matar. Nos comprimentou, apresentou-se como Juliana, e sentou-se ao lado de Thomas, que travava uma luta interna para não olhar para as pernas enfiadas em um shorts minúsculos ao seu lado. A segunda foi menos receptiva, sentando-se ao lado de Pe Lu e murmurando seu nome, Daniela. Era menos loira que a primeira, tinha o cabelo meio mel. E o que mais se destacava nela eram os olhos verdes. A terceira, Maria, era a mais simpática. Era a mais baixa – mesmo assim era alta pra burro – e tinha os cabelos negros e lisos, parando em seus ombros estreitos. Os olhos negros eram perceptivos e suas duas covinhas eram de matar. A quarta menina parecia uma estrela do rock, com o cabelo todo despontado e com, pelo menos, umas três cores nele. Seu rosto era pontudo e bonito, e seu sorriso podia se compara com o de Juliana. Seu nome era Dulce e ela falava cinco línguas fluentemente. A quinta, e acompanhante de Ben, era ruiva natural e tinha os cabelos todos ondulados. Sua comissão de frente era a maior de todas e seus lábios eram completamente beijáveis.
Sério, eu fiquei com vontade de beijá-la.
- Esses são meus amigos,Thomas, Pe Lu, Koba e Lanza. – disse, nos apresentando. Koba não conseguia piscar, Pe Lu contava piadas feito idiota e Harry olhava com o canto dos olhos para Juliana, fingindo que embaralhava as cartas.
- Vamos jogar? – Ben perguntou, ligando o som. As meninas foram se sentar no sofá de couro branco e nós, homens, fomos nos sentar na mesa de vidro. Ben começou a dar as cartas e começamos a jogar.
Jogamos por mais ou menos meia hora. Koba havia perdido 100 dólares, Pe Lu 80 e Thomas 150. Eu havia ganho 300 e Ben 270. Estava ganhando e me sentindo feliz.
Pelo menos em alguma coisa eu era melhor que ele.
- Ok, chega, vamos fazer algo melhor. – Ben sussurrou, sorrindo e apontando com a cabeça as meninas que conversavam no sofá.
No instante em que levantamos da mesa, a porta se abriu e Isadora, Júlia, Maria Eduarda e Victória nos olharam, logo em seguida olhando para as meninas sentadas no sofá.
Opa.

Victória fala:

- Eu não vou. – Isadora anunciou, começando a tirar a roupa. Corri até ela e a impedi de tirar a blusa de frio. – Vic, eu já disse, eu não vou!
- Vai sim! – repliquei, fechando o zíper do seu blusão. – Todas vocês vão!
- Vic... – choramingou Maria Eduarda, que olhava para o teto, deitada na cama. – Por que eles são tão idiotas assim?
- Duda! Eles não estavam fazendo nada! – exclamei, começando a ficar nervosa com tudo aquilo.
O negócio é que, na noite passada, quando entramos no quarto dos meninos, vimos cinco bichos-pau sentandas no sofá, com cara de vou-pegar-seu-namorado. Os meninos tentaram se explicar, mas quando dei por mim já estávamos de volta no quentinho do nosso quarto, enquanto as meninas choravam de ódio, tristeza ou saudades.
Os meninos até tentaram se desculpar, batendo na porta, pedindo, implorando e... Nada.
- Eu vou ficar aqui, na Internet, que eu ganho mais. – Júlia disse, ligando o laptop no seu colo. Virei os olhos.
- Vocês vão deixar de se divertir por isso? – argumentei, tentando animá-las. – Por favor meninas, eu quero esquiar. E lembrem-se da nossa promessa! Até parece que vocês já esqueceram disso!
Elas se entreolharam, como se conversassem mentalmente. Depois suspiraram e deram de ombros, ao mesmo tempo.
- Certo, se você não está mal pelo seu... – Maria Eduarda parou de falar, mas eu só sorri e continuei por ela:
- Irmão. E pai.
- Isso, se você está tentando, nós também podemos! – disse, forçando um sorriso. – Afinal, são só garotos...
- Deixa só eu ver se tem alguma coisa nova no Conte Seu Babado. – Júlia pediu. – O que acho difícil. Nós estamos na Argentina!
Mas acho que não era tão difícil assim.
O post inical era uma foto dividida. De um lado, algumas meninas estavam sentadas na porta da casa dos meninos, com cartazes, fotos e EP's. Escrito na foto estava: “Fãs loucas acampam na casa dos meninos do McFLY!”. A outra foto era uma nossa no Shopping, na loja onde Maria Eduarda comprara 5 calças jeans. Escrito na foto estava: “Enquanto isso, McGuys torram todo o dinheiro das fãs em roupas para as Patricinhas de Bervely Hills.”

“Boa dia, boa tarde ou boa noite! Como vão vocês?
Eu estou preso(a) em casa nessas férias. Trabalho de inverno, muito obrigado, mamãe! Mas quem foi que disse que isso me impediria de dar novidades sobre nossos mais novos astros do rock? Tá aí, fotinhos novas em folha!
Pra falar a verdade, a foto das fãs na casa deles fui eu quem tirei. A outra foi um fã anônimo, mas que eu, gentilmente, furtei a foto. Espero que ele não ligue.
Bom, como vocês podem ver, os casais estão em plena sintonia, certo?
Haaam, acho que não... Minhas fontes disseram que as brigas rolam a solta e... Bem, as meninas estão deixando os meninos no chinelo! Aaaah, safadinhas!
Bom, eu queria muito pedir para que vocês voltassem logo. Estou com saudades das festinhas regadas a bebidas, babados e MUITA pegação! Sabe como é, essa cidade pára quando vocês estão longe! ;D
Pista 3 – Não se engane. Às vezes as pessoas não são nada do que você acha que são! Fique ligado, existem os vencedores e os subordinados!
Acho que por hoje é só... Mais uma vez: voltem logo e tragam o MAIOR babado que conseguiram da Argentina, chiquititos!
Beejomeliga!

Lanza fala:

- As pessoas não são nada do que eu penso? Existem vencedores e subordinados? Mas que porra isso quer dizer? – perguntei, quase arrancando meus cabelos. – Até hoje eu não tenho IDÉIA de quem seja essa merda de Gossip!
- Eu sei o que isso quer dizer! Isso quer dizer que... – Koba começou a dizer, e todos nós olhamos para ele, que filosofava com a mão no queixo. Esperamos uns 5 segundos até ele continuar, profético: - Eu não sei o que isso quer dizer... – suspirou, e nós bufamos, voltando a fazer o que estávamos fazendo. Ou seja, nada.
Agora é que nós estávamos ferrados mesmo. As meninas tinham visto as modelos no nosso quarto, então o ciúmes tinha triplicado. O(a) Gossip voltou a atacar, espalhando que não estávamos assim tão bem na nossa viagem, deixando os invejosos de plantão deliciando-se com a informação e nós não tínhamos a mínima idéia de quem ele(a) era.
Ah, e esqueci do melhor: agora iríamos esquiar todos juntinhos, como quatro casais felizes.
Mas pelo menos o filme de Ben havia sido queimado.
- Bom, vamos, antes que eu mude de idéia.
Vamos antes que todos mudemos de idéia.

Victória fala:

Certo. Esquiar juntos foi uma idéia um tanto quanto... Imbecil.
Imbecil? Foi a pior idéia que alguém já teve!
Primeiro porque, ao nos encontrar, as meninas foram as coisinhas mais grossas do mundo com os meninos. Segundo porque, bem, eles não deixaram barato. Eles se vingaram. Feio.
E se vingar envolve: gelo, derrubar e dor.
Sério. Eu contei quantas vezes os meninos derrubaram as meninas na neve, e isso ultrapassa todos os meus fios de cabelos.
É, dude, foi punk...
Saímos de lá uma 18h. As meninas mancavam e desgraçavam até a última geração dos meninos. Eu saí toda cerelepe, porque fiquei bem longe de Lanza. Sabe como é, se ele quisesse me derrubar, eu estava a salvo, muito obrigada.
Mas, pra falar a verdade, ele estava meio esquisito, longe do grupo, pensativo... De vez em quando derrapava e quase caía, mas sempre recobrava os sentidos. E, preciso admitir que fiquei com vontade de abraçá-lo e perguntar porquê estava tão pensativo.
Será que era pela dica nova do(a) Gossip?
Claro que eu não fiz. Sabe como é, abraçá-lo e perguntar porquê ele estava assim. Porque, bem, ele fora muito grosso comigo. E eu não era menina de engolir sapo. Certo?
- Idiotas. Imbecis. Inúteis. Trogloditas. – Maria Eduarda xingava, enquanto passava gelo pelo tornozelo. – Como eu vou à festa hoje à noite desse jeito?
Maria Eduarda se referia a uma festa, que fomos convidadas por Ben mais cedo, para ir naquela noite.
Ah, e por falar em Ben, ele estava bem sujo na rodinha também. Mas é claro, como ele não ficaria? Fora ele quem levara as meninas/bichos-pau para o quarto!
- Ah, relaxa, qualquer coisa eu te carrego nas costas! – brinquei, e ela fechou a cara. – Aaaaaaaaaah, Duda, não fica bravinha! Você vai encontrar um argentino rico, gostoso, lindo, simpático, cheiroso, alto, forte, sensual... – ia dizendo e viajando, olhando para cima.
- Vic, Vic, não dispersa, continua! – Júlia disse, estalando os dedos na minha frente.
- Ah, é, claro... – disse, voltando ao normal, chacoalhando a cabeça. – Então... Você vai encontrar um desses e o Pe Lu vai se arrepender de ter te derrubado nos... Nos... – não consegui continuar, porque eu, Isadora e Júlia caímos na risada.
Pe Lu empurrara Maria Eduarda em dois velhinhos, que ficaram duas horas xigando-a. E nós não podíamos tocar no assunto sem cair na risada.
- Velhinhos! – Isadora completou, e nós começamos a rolar no chão de dar risada.
- Ah, suas vacas menstruadas. Vou tomar banho que eu ganho mais... – ela disse, nervosa, entrando no banheiro e batendo a porta atrás de si.
- Ok, precisamos juntas a Duda e o Pe Lu, se não ela vai à loucura! – Isadora disse, virando os olhos.
- Olha só quem fala! – brinquei, cutucando-a.
Olha só quem estava falando “quem fala”, certo?

Lanza fala:

- EURECA! – Koba gritou, saindo do banheiro enrolado em uma toalha. Aparentemente ele sempre tinha idéias tomando banho. – JÁ SEI!
- Já sabe o quê, projeto de ser humano? – Thomas perguntou, zapeando pelos canais da Tv, mas eles eram todos em espanhol, o que não ajudava muito. – Já sabe qual a raiz quadrada de 9?
- Não, isso eu já sabia... – ele disse, como se Thomas estivesse falando sério. Fechei o livro que estava lendo e Pe Lu se espreguiçou, prestando atenção em Koba. – Já sei como vamos fazer as meninas nos perdoarem!
Por que ele foi dizer aquilo?
- AAAAAH, QUE LINDO! – Pe Lu gritou, se jogando em cima dele.
- QUE GAY, QUE GAY, QUE GAY! – Thomas imitou o gesto, se jogando em cima de Pe Lu. Joguei-me por último, gritando:
- KOBA TEM SENTIMENTOS! KOBA TEM SENTIMENTOS!
Ele riu por uns bons dois minutos, antes de usar toda sua força para tirar os três marmanjos de cima dele. Caí sentado no chão e Pe Lu caiu ao meu lado. Thomas ficou de pé, recobrando a postura, e Koba sorriu.
- Dudes, eu tenho o melhor plano do mundo!
- Ah, ele tem o melhor plano do mundo! – Thomas ironizou.
- Cérebro, o que vamos fazer hoje? – perguntei para Pe Lu, entrando na onda.
- Tentar conquistar o mundo! – Pe Lu exclamou, de um jeito teatral.
- Ok, zoa mesmo. Mas quando vocês ouvirem vão beijar o chão que eu piso! – Koba murmurou, ficando bravo.
- Conte seu plano maléfico, Kobayashi, eu me interessei. – disse, olhando para ele com curiosidade.
- Bom, já que o quarto das meninas é no térreo, eu pensei que...

Victória fala:

Olha, não é por nada não, mas os meninos estavam impecáveis. Mais bonitos do que o normal. Perfeitos. Cheirosos. Lindos. E... Ok, parei.
Koba estava de terno riscado, cinza claro. Usava sapatos sociais pretos e os cabelos estavam para trás com gel. O terno estava aberto, e sua camisa rosa estava para fora da calça, com só uma parte presa, estilo John-requebra-tudo-Travolta em Grease. Andava de um jeito despojado e sorria ao passar pelas meninas, que só faltavam desmaiar. Ao chegar perto de nós, seu perfume invadiu o local, deixando Isadora tonta. Eu sei disso porque ela apertou minha mão com tanta força que, se ela não estivesse passando mal, iria se ver só comigo.
Pe Lu estava menos social, mas, ainda assim, estava de matar. Usava uma camiseta polo branca com detalhes em rosa. Por cima, uma jaqueta de couro. Usava calça jeans escura, mas, mesmo assim, continuava sofisticado. Os cabelos estavam como sempre, mas ele tinha uma expressão tão sexy no rosto que parecia que tudo estava diferente.
Thomas usava uma camisa social preta, com três botões abertos, revelando seu peito. [N/A: E seu tapete do amor, diga-se de passagem.] Estava com uma calça jeans marrom e os cabelos estavam arrepiados pra cima [foto]. Andava olhando para as garotas e piscou para muitas delas, deixando Júlia surtando ao meu lado. Quando chegou perto de nós, não disse nada, e continuou a observar as garotas.
Então, por último, veio Lanza.
Lanza... Por que ele tinha que ser tão... Gostoso!?
Sério, eu não sou de ferro, tenho meus pontos fracos. E, eu tinha certeza que, se ele chegasse em mim daquele jeito, adeus orgulho, adeus magoa e vem cá Pedro Gabriel Lanza Reis!
Ele usava uma camisa de manga comprida social branca. Estava de gravata marrom e, por cima da camisa, um colete preto, abotoado. Usava uma calça jeans, bem... Skinny. Ok, não sei se era bem skinny. Mas era bem parecida. De qualquer jeito, era uma calça jeans azul escura e nos pés usava seu bom e velho All Star branco [foto]. O cabelo estava com sempre, mas o “como sempre” me fez suspirar.
Isso, Lanza, provoca, provoca mesmo.
Senti duas mãos envolvendo minha cintura. Olhei para trás, assustada, e vi que se tratava de Ben, que também estava muito bem vestido, de terno preto e camisa social preta. Clássico e lindo.
Olhei de volta para Lanza, e ele pareceu não se importar. Na verdade, estava conversando animadamente com uma loira que parecia ter se interessado por ele.
Ela tinha cara de fuinha e eu já sentia um ódio mortal por ela.
Quer saber? Foda-se. Por que não dar bola para Ben?
- E aí, Ben! – disse, sorrindo. – Tudo legal no bananal?
- Tudo... Bom. – ele disse, sorrindo de um jeito estranho. “Nunca falar essas gírias com pessoas desconhecidas!”, pensei, anotando mentalmente aquilo. – E aí, tudo bom?
- Tuuudo! – disse, animada. Mas na verdade eu estava mais preocupada em olhar para Lanza com o canto dos olhos, monitorando cada sorriso dado para a fulaninha com cara de fuinha.
Nunca gostei de fuinhas mesmo...
- Vic, eu queria falar com você, em... – Ben olhou em volta, e viu que Lanza nos olhava. Mas quando cruzaram olhares, ele voltou sua atenção para a dona fuinha. – Particular.
- Hm... – tentei pensar em algo para fugir, mas ele havia me encurralado. – Claro.
Ele me segurou pela cintura e eu não senti aquela sensação boa que sempre sentia quando Lanza fazia aquilo. Na verdade, me senti nervosa.
Ben me levou por uma escada circular até o andar de cima do sobrado onde estávamos. Sobrado não, mansão.
- De quem é essa casa? – perguntei, como quem não quer nada.
- Do meu pai. – ele respondeu, como se fosse uma coisa normal. – Ele me deixa dar festas aqui. Legal, não é?
Legal!? Só legal!?
Ok, admito, eu tinha dinheiro. Mas Ben tinha muito – muito mesmo – mais.
Chegamos a uma sacada. Não fazia tanto frio, e as estrelas brilhavam. Perfeito. Só não era mais perfeito porque eu não estava com quem queria.
- Vic... – Ben disse, depois de algum tempo observando as pessoas lá embaixo. – Eu queria... Queria te dizer algo. Algo que eu estou pra te dizer há um bom tempo.
Opa, opa, opa. Sinal vermelho. Sirenes soando.
- Pode falar, Ben. – encorajeio-o, evitando ao máximo olhar para ele.
- Vou dizer de uma vez, antes que eu perca a coragem. – ele disse, e eu me virei para ele. Seus olhos se perderam nos meus, e eu não senti nada, a não ser vergonha. – Eu gosto de você. Eu acho você a menina mais linda do mundo. E não é só de hoje! Eu sempre te observei na escola, mesmo não freqüentando muito as aulas, e quando vi você ao meu lado, naquele avião, comemorei mentalmente. Mas depois você se foi de novo, e preciso dizer que pensei que nunca mais fosse te ver. Mas então eu te vi naquela estrada, perdida e isso... Isso foi mais que um sinal para mim.
Ele ia dizendo e eu ia abrindo a boca.
Como assim gosta de mim? Pensei que, no máximo, ele ia pedir pra ficar comigo! Não que era perdidamente apaixonado por minha pessoa!
- Então, estou te dizendo isso porque há tempos eu quero fazer isso.
Então ele me beijou. E foi como se eu estivesse beijando meu cotovelo. Sério. Pode parecer insensível, depois daquela declaração e tudo o mais, mas eu realmente não senti nada. Não tive vontade de retribuir, muito menos de abraçá-lo. Por isso fiquei parada, com os braços ao longo do corpo, enquanto ele me beijava.
Acho que ele percebeu meu desgosto, porque separou nossos lábios e perguntou:
- O que foi? O que eu fiz?
- Ben, não é você... – suspirei, buscando na memória algum fora pronto. Às vezes eu me sentia uma pessoa muito má. – É que...
- Então vem cá! – ele exclamou, não me deixando terminar. Puxou-me para outro beijo, dessa vez me segurando entre seus braços. Tentei me soltar, mas ele não deixou. Então começou a passar a mão pelo meu corpo e foi aí que eu comecei a me assustar.
Sabe como é, ele era bem mais alto que eu. Sem contar o fato de que era um homem.
E eu, nem de longe, sou boa em artes marciais.
- Se solta, Vic! – ele pediu, sussurrando, enquanto passava a mão em mim.
- Para com isso! – pedi, tentando me separar dele.
Mas ele ignorou, dessa vez subindo meu vestido rosa bebê pela barra. Ele puxava para cima e eu para baixo, tentando de todos os jeitos me devencilhiar. Dei chutes, tapas, mas ele era muito mais forte que eu.
Pela primeira vez, senti em seu hálito o cheiro forte de álcool, e me desesperei mais ainda. “Meu Deus, o que ele vai tentar fazer comigo!?”, era a única coisa que eu conseguia pensar.
Ele não parava, e acabou rasgando meu vestido na barra. Em um dos poucos momentos que consegui me livrar de sua boca, gritei, logo sendo abafada por seus lábios:
- Alguém me ajuda!
Estava quase sem forças, despencando em seus braços, quando ouvi um barulho de porta correndo e logo em seguida Ben estava no chão, tonto e com a mão no nariz. Apoiei-me na parede, e lágrimas começaram a cair sem que eu pudesse evitar. Respirava fundo, enquanto pensava comigo mesma “acabou”.
Não me entrava na cabeça que Ben fizera aquilo comigo.
Quando finalmente olhei para o lado, vi Lanza ali parado, com a pior cara que eu já vira ele fazer. Seus olhos estavam em órbita, e sua testa enrugada. Seus pulsos estavam apertados e ele respirava fundo, como se fosse matar Ben ali mesmo.
- Lanza, Lanza, por favor, calma, respira fundo. – disse, indo até ele aos tropeços, ainda sem muita força. – Respira fundo. Calma, por favor meu amor, calma. – pedi, me esquecendo de tudo que acontecera entre nós dois nos últimos dias. Quando consegui alcançá-lo, senti seus braços me envolverem, e ele sussurrou em meu ouvido:
- Nunca. Mais. Suma. Assim.
Então eu senti suas lágrimas molharem a alça do meu vestido. Não sei se eram lágrimas de raiva, de ódio, de ira, de tristeza, de saudades... Só sei que não consegui ouvi-lo chorar, e comecei a chorar junto, de novo, enquanto dizia, como uma idiota:
- Desculpa, Lanza. Desculpa por tudo. Eu te amo, me perdoa!
- Claro que desculpo, minha linda, claro que sim! – ele fungava em meu ombro, e eu tremia, envolta por seus braços. – Me perdoe por ser tão idiota, eu não queria agir assim!
- Ah, eu sabia! – Ben disse, se pronunciando pela primeira vez. Levantou-se e nos encarou com raiva. – Aquela história de irmã nunca me enganou! Mas tudo bem, isso ainda vai se virar contra vocês. – dito isso, saiu da sacada, limpando o terno com raiva. Antes de descer as escadas, disse: - Quero vocês e seus amigos imundos fora do minha casa e fora do meu Hotel, agora mesmo!
Fiquei um tempo abraçada com Lanza, fungando baixinho. Ele já tinha parado de chorar, mas eu não conseguia me controlar. Tudo que senti enquanto Ben me agarrava não saía da minha cabeça.
- Vic, pode ficar tranqüila, ele não vai mais fazer mal a você! – Lanza tentou me tranqüilizar, beijando meu cabelo. Deixou a boca ali e continuou: - Eu não vou deixar ele chegar perto de você. Se ele chegar perto de você, eu mato ele!
- Desculpa, Lanza... – parecia ser a única coisa que eu conseguia dizer.
- A culpa não foi sua. Eu que fui idiota. Não devia ter deixando esse imbecil chegar perto de você e... – ele começou a dizer, mas eu o cortei.
- Não, Lanza, fui eu quem deixou. Acho que... – parei, para respirar fundo. Iria admitir pela primeira vez minha estupidez. Era um progresso e tanto. – Achei fofinho o seu ciúmes e dei bola pra ele. Não deveria ter feito isso...
- Victória, por favor, vamos esquecer isso. – ele pediu, acabando com o assunto de uma vez por todas. – E vamos sair logo daqui, antes que a polícia chegue para nos tirar!

Lanza fala:

- Tudo pronto? – perguntei em espanhol, para os velhinhos atrás de nós. Eles sorriram de um jeito simpático e Pe Lu gritou, embaixo da janela das meninas:
- Meninas!? Vocês estão acordadas?
Ficamos um tempo em silêncio, esperando. Depois de algum tempo, quatro cabeças desgrenhadas apareceram na janela, sonolentas.
- O que está acontecendo aqui? – Isadora perguntou, coçando os olhos.
- Aproveitem o show. – Koba pediu, piscando para ela.
O negócio era que nossa idéia de pedido de desculpas era uma serenata, bem ao estilo tradicional, com quatro senhores atrás de nós, tocando violão e esses outros instrumentos de corda estranhos.
Não disse nada a Victória, pois sabia que ela estava abalada demais. Ao deixá-la junto com as outras meninas no quarto, só disse que era para ela descansar e que, no dia seguinte, iríamos para outro Hotel. Inventei que Ben era enrolado com drogas e por isso iríamos embora, e as meninas pareceram acreditar.
Assim, nenhuma delas desconfiou de nada.
Os primeiros acordes de violão começaram.
- “I can't stop, I can't stop loving you! You're a dreamer, and dreaming's what you do! I won't stop believing that this is the end, there must be another way... 'Cause I couldn't handle the thought of you going away! Woah, yeah!” (Eu não posso parar, eu não posso para de te amar! Você é uma sonhadora, e sonhar é o que você faz! Eu não irei parar de acreditar que esse é o fim, deve ter outro jeito... Porque eu não poderia agüentar o pensamento de você ir embora! Woah, yeah!) – nós cantamos juntos. Thomas, ao meu lado, cantava como uma gralha menstruada, mas isso não era capaz de abafar três vozes boas. – “Sorry's not good enough! Why are we breaking up? 'Cause I didn't treat you rough, so please don't go changing! What was I thinking of? You said you're out of love! Baby, don't call this off because sorry's not good enough!” (Desculpa não é bom o bastante! Por que nós estamos terminando? Porque eu não te tratei mal, então por favor não vá mudando! No que eu estava pensando? Você disse que estava sem amor! Baby, não termine isso porque desculpa não é bom o bastante!)
As meninas olhavam estupefatas, com a boca aberta. Lágrimas escorriam pelo rosto de Júlia, Isadora sorria como idiota, Maria Eduarda ria sem parar e Victória olhava para mim, como se não acreditasse naquilo.
- “Don't stop, all those things you do! I'm a believer, and that's what gets you through! I can't fight this feeling that this is the end... We're in the thick of it, when will this ever end? Woah, woah!” (Não pare todas essas coisas que você faz! Eu sou um "acreditador" e isso é o que te faz continuar! Eu não consigo lutar com esse sentimento de que esse é o fim... Nós estamos no limite disto, quando isso vai acabar? Woah, woah!) – continuamos, com a mão no peito, no melhor estilo Backstreet Boys de ser.
Cantamos refrão mais uma vez e terminamos a música:
- “For you, said, you'd never leave me be there, to hold and please me! Sorry's... Just not good enough for you! But everybody makes mistakes! And that's just what we do!” (Para você, disse que nunca iria me deixar, esteja lá para me segurar e agradar! Desculpa... Apenas não é bom o bastante para você! Mas todos cometem erros, e isso é o que fazemos!)
Ao acabarmos, as meninas aplaudiram com vontade, rindo. Nós jogamos rosas vermelhas para elas e, em seus rostos, podíamos ver que a greve havia acabado.
Pelo menos naquele momento...



Capítulo 21 – Depois da calmaria, sempre vem tempestade.

Lanza fala:

- Alô? – chamei, depois de ver “Fedelso” piscando no visor do meu celular. Estava deitado na cama de Victória, no quarto do novo Hotel em que estávamos hospedados, passando os dedos por seus cabelos. Ela apoiava a cabeça no meu peito e passava a mão pelo meu braço, me arrepiando.
- Lanza? – ele perguntou. Fiz um “hm” e ele continuou: - Só ligando para avisar que vamos ter que adiantar as gravações do CD... Já comprei as passagens e vocês voltam amanhã à tarde.
Olhei para baixo e meus olhos encontraram os de Victória. Por alguns instantes, me perdi ali dentro.
- Por que as gravações foram adiantadas? – perguntei, contrariado.
- Bob pensou que as fãs se contentariam com os Ep’s até mês que vem, mas chegaram tantos e-mails e cartas aqui na gravadora que ele quer adiantar. Sabe como é, os cifrões estão piscando diante de seus olhos... Sinto muito por estragar suas férias escolares, mas são ordens da casa.
- Tudo bem, Fedelso, a culpa não é sua... – suspirei, arrependido de ter ficado nervoso com ele. – Quando nós entramos nisso já sabíamos que seria assim.
- Que bom que você me entende... Estejam no aeroporto amanhã às 18h. Eu estarei lá com seus passaportes e passagens.
- Às 18h será. – murmurei, desligando o celular. Coloquei-o de lado e fechei os olhos. Victória se remexeu embaixo de mim e beijou meu queixo. Sorri de olhos fechados e ela sussurrou:
- Quem era?
- Fedelso. Precisamos ir embora amanhã à tarde. – disse de uma vez só, antes que perdesse a coragem. Ela ficou em silêncio.
Depois de alguns instantes, estranhei sua falta de reação e perguntei:
- Vic? Não vai dizer nada? Não vai gritar, chiar, me bater, me chutar... Nada?
- Não... – ela suspirou. – Se vocês têm que voltar, nós vamos voltar.
- Não ficou brava?
- Não.
- Triste?
- Lanza! Não! – ela exclamou, e eu ri. – Sério, eu sei que agora vocês têm compromisso! E outra, já deu de Argentina...
- É por isso que eu te amo. – disse, beijando o topo da sua cabeça. – Onde será que os dudes se enfiaram? Preciso avisá-los...
- Fedelso já deve ter feito isso... Mas, bom, eu sei que a Isadora e a Júlia foram jantar com Koba e Harry. Pe Lu e Maria Eduarda eu não sei onde foram, acho que ficaram por aqui mesmo... – Victória comentou. Então ficou um pouco pensativa e arregalou os olhos. Olhei curioso, e ela se levantou em um pulo. – MEU DEUS! ELES FICARAM NO HOTEL!
- ...E? – perguntei, ainda não entendendo.
- Você não entendeu, Lanza? – ela perguntou, sorrindo de um jeito malicioso. – Pe Lu e Maria Eduarda. Sozinhos. No hotel.
Olhei para um lado. Depois para o outro. Então a ficha caiu.
Estava ficando maliciosa essa menina, eim?
- Será!? – perguntei. Nós parecíamos duas amigas fofocando. Tirando o fato de que meus olhos quase sempre caíam para a região “peitoral” dela. – Pô! Até a bicha do Pe Lu? – reclamei.
- Ai, idiota! – ela exclamou, quando finalmente entendeu o meu protesto. – Se você continuar assim, nem quando a gente casar!
Olhei para ela, depois para o Lanza Jr. Para ela, e para o Lanza Jr.
É, era melhor não arriscar...
- Tá bom, tá bom... Mesmo porque... – mordi o lábio inferior, apertando sua cintura com as duas mãos. – Eu não posso reclamar de nada...
Aproximei nossos rostos e ela sorriu maliciosa. Comecei a beijar sua bochecha e subi vagarosamente, chegando ao ouvindo. Então sussurrei:
- Eu sei que você não vai resistir até o casamento.
Ela murmurou um “hm”, e eu continuei:
- Vai me dizer que você não está pensando nisso agora? – perguntei, colocando as duas mãos dentro da sua blusa do pijama. – Nem adianta negar, eu sei que você gosta!
Ela gargalhou, enterrou as mãos entre meu cabelo e eu me curvei sobre ela. Assim que suas costas encostaram no colchão, entrelacei nossas pernas e beijei seus lábios com vontade.
Subi minha mão por dentro da blusa. Victória deixou uma mão em minha nuca e colocou a outra no cós da minha calça. Com a outra mão, tirei sua blusa. Então fui descendo por seu rosto até chegar na linha de sua clavícula.
Ela passava a unha por meu abdômem e eu beijava seu pescoço. E quando eu estava prestes a abrir o feixe do seu sutiã, Maria Eduarda bateu na porta e gritou do outro lado:
- Vic, eu PRECISO te contar uma coisa!
Virei os olhos e murmurei:
- Atrapalharem a gente? Novidade!

Victória fala:

Empurrei Lanza para debaixo da cama , me segurando para não rir – sabe como é, se começasse a rir sozinha, Maria Eduarda iria achar que eu era louca, no mínimo – e corri até a porta. Nem tive tempo de abri-la direito, e ela já invadia meu quarto, exclamando:
- Aconteceu! E foi lindo!
- Pera aí, Duda! – gritei por cima da sua voz. – O que aconteceu e quem é lindo? Eu?
Maria Eduarda virou os olhos e se jogou na cama. Fui atrás e sentei-me do seu lado, me divertindo demais com a situação.
- Eu e Pe Lu! A gente...
- Aaaaah! – fingi finalmente ter entendido. Mas na verdade eu não queria que ela dissesse a palavra inteira. Sabe como é, Lanza estava embaixo da cama e eu não me sentia inteiramente confortável em ter aqueles papos com ele ali. Mas eu sabia que não podia controlar a língua de Maria Eduarda quando ela decidia contar as coisas. – Saquei meu bem! E aí, foi bom pra você?
- Bom? Foi... – ela suspirou e deitou na cama, fechando os olhos. – Perfeito!

Flashback on.

Eu assistia Across The Universe enquanto Pe Lu tomava banho. Eu já havia tomado, em meu quarto, e meu cabelo pingava água em meu roupão branco. O filme já estava no final, quando Max e Jude cantavam Hey Jude, e eu já estava ficando deprimida.
Finais de filmes – mesmo aqueles que eu já assistira 15 mil vezes – me deixavam nostálgica.
- Hey Juuuuude! – Pe Lu saiu do banheiro cantando. Estava envolto por uma toalha, que cobria de sua cintura para baixo, e seu cabelo, assim como o meu, pingava água. Ao sair, o vapor quente invadiu o quarto e eu abri minha boca. Pe Lu estava mais gostoso que o normal, como se isso fosse possível. – Não me canso desse filme!
“Não me canso de você, coisa gostosa!”, pensei em dizer, mas pegaria mal para o meu lado. Então eu fiquei quieta, observando ele se movimentar pelo quarto, sem conseguir falar nada. Por um instante, esqueci o que era falar.
- Duda, o que aconteceu? – ele perguntou, depois de algum tempo em silêncio. Nem sei dizer quando tempo foi, pois me perdi em pensamentos enquanto observava ele colocar uma boxer e o roupão branco igual ao meu por cima. Pisquei os olhos algumas vezes e não respondi, não conseguindo fazê-lo. – Porque você está tão quietinha?
- Nada... – murmurei, com a boca seca.
O que estava acontecendo comigo?
- Bom, se você não quer me dizer... – ele disse, pegando um pacote vermelho da gaveta. – Eu vou tentar te alegar.
Ele se jogou ao meu lado e parte do seu abdômem ficou a mostra pelo roupão, me fazendo perder o ar. Seu cheiro de sabonete me inebriou e os fios molhados do seu cabelo me hipnotizaram.
- O que é isso? – perguntei, tentando parecer normal, mas tudo que eu mais queria era pular em cima dele.
- Abre! – ele respondeu, colocando o pacote em minha mão. E só o toque de seus dedos frios em minha mão me fez arrepirar. – Eu queria te dar no último dia de viagem, mas acho que vai te animar mais se eu der agora.
Eu queria dizer que não! Eu não estava triste! Que só estava daquele jeito porque a sua presença estava me deixando sem palavras!
Mas nada disso saiu. E minha única reação foi abrir o pacote, meio trêmula.
Dentro do pacote vermelho, estava uma caixinha de veludo preta. E dentro dessa caixinha, um colar.
Mas não era um colar normal.
Era um colar de ouro, com um pingente em forma de coração. E gravado nesse coração, brilhavam as palavras: Love, Friendship and Trust.
Senti as lágrimas se formarem embaixo dos meus olhos e sorri.
- É... – busquei na memória algo para dizer, mas a palavra que mais se encaixava era: - Perfeito!
- Perfeito como você! – ele murmurou em meu ouvido.
Levantei meu cabelo e pedi, com os olhos, para que ele colocasse o colar em mim. Ele se curvou sobre mim, respirando fundo. Fosse o que quer que fosse o que eu estava sentindo, ele também estava sentindo.
Quando dei por mim, estávamos deitados na cama, nos beijando com paixão.
Com paixão! Que coisa mais brega!
Mas, bem, continuando... O beijo era intenso e delicado ao mesmo tempo, e sua mão passeava por meu corpo enquanto eu explorava cada canto da sua boca.
Já estávamos ofegantes quando ele começou a abrir meu roupão. Mas, antes de continuar, ele desgrudou os lábios dos meus e subiu até meu ouvido, sussurrando:
- Eu quero isso mais que tudo!
Respirei fundo, e respondi, segura da minha resposta:
- Eu também.

Flashback off.

- Aí ele…
- Chega! – exclamei, me segurando MUITO para não rir. Sabe como é, Lanza estava embaixo de nós ouvindo tudo. – Não preciso saber dos detalhes sórdidos!
- Tudo bem, eu não ia contar mesmo... – ela mostrou a língua. Mas eu pude ver o brilho em seus olhos.
Bom, se ela estava feliz, eu também estava!

Lanza fala:

- O que você acha de brincos de diamante? – perguntei, esperançoso.
- Não.
- Tornozeleira de prata? – arrisquei.
- Humhum...
- Anel de...
- Lanza, desiste! – ela exclamou, rindo. – Jóias não vão funcionar comigo!
- Droga... – murmurei, vencido. – Deveria ter gostado da Duda...
Victória me olhou de um jeito assassino e eu beijei a ponta do seu nariz.
- Brincadeira, meu amor!
- Toda brincadeira tem um fundo de verdade, Lanza Reis! – ela fez birra, virando a cara. Virei seu rosto pelo queixo e fiz ela olhar em meus olhos.
- Mesmo que eu gostasse da Duda, ao colocar meus olhos em você, qualquer coisa que eu estivesse sentindo por ela iria pelo ralo. Eu te amo mais do que eu posso suportar.
Victória deixou escapar um sorriso e eu sorri, vitorioso.
E viva o poder das palavras!
- Mas depois não diz que eu não ofereci jóias... – continuei, virando os olhos.
- Pode deixar, não vou me esquecer disso. – ela ironizou.
Beijei sua testa e olhei para o relógio ao lado da cama. Já eram 23h, e nós viajaríamos no dia seguinte. Partia meu coração me separar dela, ainda por cima logo depois de nós estarmos tão bem, mas tínhamos que tentar dormir um pouco.
- Linda, preciso ir...
- Ah não! – ela choramingou. – Eu ainda não matei a saudade!
- Vic, eu estou aqui desde as 10h! Já estou de saco cheio de você! – brinquei, e ela arregalou os olhos, exclamando:
- Nooossa! Vai embora depois dessa!
Então ela começou a me puxar pelo braço para fora da cama. Fingi que ela estava ganhando até chegarmos na porta. Então recolhi meu braço e ela veio junto. Abracei-a pelos ombros, prensando sua cara em meu peito. Ela estava imobilizada e murmurava, com a voz abafada, tentando se soltar:
- Sai! Eu não sou tão chata que você não me aguenta mais? Então me larga!
- Ai, mas é um bebê mesmo! – suspirei, ainda segurando ela em meus braços. – Você tem que aprender a respeitar os mais velhos!
Envolvi sua cintura com meus braços e a tirei do chão, colando meus lábios nos dela. Começamos a nos beijar, mas não aguentamos muito tempo, começando a rir em seguida.
- Certo, é melhor irmos dormir mesmo... – ela disse, quando seus pés alcançaram o chão. – Mas ai de você se não pensar em mim a noite inteira!
- Eu já ia fazer isso sem suas ameaças... – virei os olhos. Ela beijou meu queixo e eu mordi seu nariz. – Boa noite, linda. Sonha comigo!
- Então não é sonho, é pesadelo! – ela virou os olhos.
- Ok, essa é minha deixa para ir embora. – fingi estar ofendido. Saí pela porta e caminhei tranquilamente pelo corredor. Quando estava quase virando a esquina, senti uma mão me puxar e me prensar na parede.
Victória me beijava com vontade e eu tive que dar o braço a torcer, enfiando as duas mãos em seus cabelos.
- Pronto. – ela disse, ofegante, depois que desgrudou os lábios dos meus. – Agora isso é desejar boa noite!
Então se virou a foi saltitando para seu quarto.
E eu fiquei ali, com cara de idiota e com a mão em cima da boca, sorrindo como uma garotinha apaixonada.
Mas se eu parasse para pensar, estava mesmo agindo como uma.
Fazer o quê se Victória era o macho da relação?

Victória fala:

Eu estava sonhando com bodes. E guarda-chuvas.
Não era um sonho bom, mas também não era um pesadelo. Então eu não me senti muito feliz em ouvir “Should’ve Tried Harder” do Hey Monday berrar no meu celular.
Abri os olhos, amaldiçoando a voz de cabrito da Cassadee – péssima para acordar alguém – e bati com a mão no criado-mudo [N/A: Hífen, eu nunca vou te abandonar!], à procura do aparelho infernal. Quando o senti entre meus dedos, puxei-o para frente do meu rosto e fechei um olho, porque a luz estava me cegando.
Quando consegui me acostumar com a claridade, deixei um sorriso escapar ao ler “Nova Mensagem de Lanza”.
“Imbecil!”, pensei, me divertindo. “Primeiro se auto-expulsa, depois vem querer ficar de gracinha!”.
Cliquei em visualizar e comecei a rir sozinha ao ler: “Uma pulseira de ouro?”
“Eu já disse que jóias não vão me convencer! Mas um New Beatle, quem sabe...”.
Coloquei o celular novamente no criado-mudo e me levantei. Tateei pelo escuro, procurando pelo frigobar. Ao achá-lo, peguei uma latinha de Coca.
Já estava acordada demais para tentar voltar a dormir.
Lanza era assim. Me deixava elétrica com apenas uma mensagem.
O celular voltou a tocar e eu corri pelo escuro até ele.
“Ahá! Eu sabia! Sua interesseira! Só não termino com você AGORA porque esse quarto tá tão frio e escuro sem você aqui...”
Dei um gritinho bem gay e respondi:
“Eu não posso fazer nada por você nesse momento. Você praticamente saiu correndo do meu quarto... Agora aguenta!”
Nada como o bom e velho doce.
Sentei-me na cama e esperei pela resposta, enquanto balançava minhas pernas para frente e para trás, como uma criancinha.
Os primeiros acordes da música tocaram e eu peguei o celular com uma rapidez assustadora.
“Ok, você quer que eu implore? Vem aqui, por favor, por favor, por favooooor!”
Mostrei a língua para o visor do celular, como se ele pudesse ver, e me levantei. Fui até a porta e a abri vagarosamente.
O corredor estava frio e, mesmo com o meu pijama quentinho de flanela rosa, eu me senti gelada.
Saí correndo por ele e virei a esquina. Ali, na minha frente, o quarto 506 me chamava, me puxava como um ímã. Andei até ele, quase que deslizando em sua direção. Ao chegar na porta, dei 3 batidas trêmulas.
Mas por que diabos eu estava tremendo se via aquele infeliz quase todos os dias?
Às vezes eu pensava que o que eu sentia por Lanza era mais que amor. Era um sentimento novo, criado só por mim. Era... Victóriazar.
Lindo!
- Pensei que você ia me deixar sofrendo! – ele sussurrou, ao abrir a porta, me puxando para um abraço apertado.
- Bem que você merecia... – murmurei, sentindo o seu cheiro de shampoo. – Mas como eu também estava me sentindo sozinha...
- Ah! Ótimo! Agora além de interesseira você me diz que eu sou seu brinquedinho! – ele exclamou, roçando seu nariz no meu. – Adoro que a cada minuto que passa você me conta coisas novas! Sempre me surpreendendo!
Ri e ele me pegou pelas pernas, me colocando no ombro e entrando no quarto. Ao chegar perto da cama, me colocou no chão com delicadeza e se jogou nela. E eu fiquei em pé, observando ele se encolher todo em meio aos cobertores.
De repente, comecei a me lembrar de quando estávamos na sexta – Lanza na sétima – série, e fomos acampar com a escola. Era um lugar muito frio e as meninas não conseguiam dormir devido a falta de cobertores. Então tiramos no palitinho e eu fui a escolhida para ir buscar cobertores no meio da noite, no galpão de mantimentos.
No começo pestanejei, mas o frio era tanto que, no final, acabei cedendo. Peguei meu blusão, enfiei meus óculos no rosto e fui com a cara e com a coragem.
Fazia mais frio ainda lá fora, e os uivos produzidos pelo vento nas folhas me deixou apavorada. Atravessei o campus, cercado por chalés, correndo, e quando cheguei ao destino, não sentia mais a ponta do meu nariz.
Entrei no galpão com cuidado e fui direto para os cobertores. Separei 4 dos mais grossos, mas quando fui puxá-los, o último parecia estar preso. Puxei novamente, só que dessa vez uma força maior puxou de volta.
Então eu gelei, ao ouvir alguém exclamar:
- Mas que porra é essa?
Posso jurar que tudo de pior se passou por minha cabeça. Começando com Chupa-Cabra e terminando com estuprador de menininhas.
Fiquei imóvel, gelada e sem reação.
Esperei muda por alguma reação da pessoa que estava do outro lado. Mas nunca imaginei que essa pessoa fosse Lanza, o amor da minha pré-adolescência. (E da adolescência se vocês pararem pra pensar.) Ele enfiou a cabeça de um dos lados do cobertor e disse:
- Ah, é você, Hackmann!
Eu ao ver que era uma pessoa conhecida, e não um estuprador, não senti alívio nenhum, como qualquer pessoa normal sentiria, mas sim um aperto no coração, ao perceber que estava sozinha ali.
Com Lanza.
Imediatamente eu senti meu rosto corar, enquanto ouvia disparar uma sirene interna, que berrava: “Você é feia, feia, feia!”.
- Você quer esse? – ele perguntou, estendendo o último cobertor. – Porque eu posso pegar outro. – eu permaneci em silêncio, sem saber o que dizer. – Alô! Planeta Terra chamando, Hackmann! Você continua conosco?
Hackmann! Ele sabia o meu sobrenome e já o falara duas vezes!
- E-eu... F-frio... – foi o que eu consegui pronunciar.
- Mim Tarzan, você Jane! Mim querer cobertor, você querer também! – ele brincou.
Olhei para o lado, envergonhada demais para olhar em seus olhos.
- Hey, foi mal... – ele murmurou, soltando o cobertor em minhas mãos. Olhei para ele, ainda vermelha, e ele continuou: - Não está mais aqui quem brincou!
Observei Lanza andar até outro cobertor, pegá-lo e colocá-los nas costas. Mas quando ele estava saindo do galpão, silencioso, alguma coisa me disse para conversar com ele.
Afinal, só falar alguma coisa não iria me matar, certo?
Tirei o óculos do rosto e respirei fundo.
- Hey, Lanza! – chamei, e ele se virou, quase que na mesma hora. – Desculpe, acho que o frio afetou minha cabeça.
- Tudo bem. – ele respondeu, soltando uma gargalhada gostosa.
“Lanza está rindo comigo e não de mim!”, pensei. “Ele fica tão legal longe dos amigos!”
- Então, você pode me ajudar a levar esses cobertores para o meu quarto? – me ouvi perguntar. “O quê!? Cala boca, Victória! Daqui a pouco você vai tirar a roupa e pedir ele em casamento?”. – Eles estão meio pesados...
- Claro. – ele disse, andando em minha direção e tirando dois dos cobertores de cima de mim.
Eu não entendi da onde estava saindo todo aquele flerte, mas só sei que estava gostando.
Caminhamos em silêncio pelo campus, só ouvindo a respiração pesada um do outro. Uma nuvenzinha branca saía de nossas bocas a cada suspiro, e o frio era cortante. Eu não enxergava nada por estar sem óculos, mas seguia os seus passos. Quando chegamos em meu quarto, dei graças a Deus por finalmente poder me enfiar debaixo dos cobertores. Mas me senti triste, porque pela primeira vez Lanza falara comigo sem qualquer tipo de piadinha infantil envolvida no meio.
- Victória... – ele disse, já na porta do chalé, e eu senti meu coração pular no peito. – Sei que eu posso parecer um idiota às vezes, então queria te pedir desculpas se algo que eu fiz já te magoou.
“Pera aí. Lanza está mesmo se desculpando comigo!?”
- Tudo bem, eu sei que você tem uma fama a manter. – senti as palavras saírem da minha boca pela segunda vez só naquela noite.
- Ouvindo de outras pessoas isso soa como se eu fosse um imbecil. – ele murmurou, olhando para os tênis, e eu sorri, não me contendo. Dentro do chalé, ouvi minhas amigas rirem.
- Você quer... Entrar? Sei lá, eu podia te apresentar para as meninas.
Lanza apenas levantou o rosto e sorriu, envergonhado. Esperou um pouco antes de responder, como se estivesse em dúvida.
- Bem que eu queria, Victória, mas os meninos estão dando uma festa no quarto e eu não posso faltar... – respondeu, por fim.
Eu não me senti triste, nem nada do tipo. Eu só... Fiquei feliz, em saber que Lanza, longe dos amigos, era completamente diferente. Sabe como é, que ele não era aquela pessoa intocável que eu pensei que era.
- Tudo bem... Então aproveita lá! Ah, e me chame de Vic. – disse, e mais uma vez ele sorriu para mim, com uma sinceridade que eu nunca havia visto em seus olhos.
- Tchau, Vic.
- Tchau, Lanza.
Então ele se virou e sumiu entre os chalés.
E naquele dia eu prometi a mim mesma que tudo iria mudar. Que eu não seria mais Victória, a nerd de quatro-olhos. Eu queria me sentir desejada. Queria que falassem de mim. E, acima de tudo, queria que Lanza sentisse o que eu sentia por ele. Queria que tudo fosse diferente.
E vê-lo ali, deitado entre as cobertas, me chamando, me fez relembrar de um dia que tudo era diferente. Onde eu não era nada e Lanza era tudo. Onde as minhas chances com ele eram mínimas. Onde ele só era sincero comigo longe dos amigos.
Como as coisas podiam mudar tanto?
Então aquilo me deu uma sensação tão esquisita que eu dobrei meus joelhos e cai sentanda na cama. Lanza, sem saber o que estava acontecendo, me puxou para mais perto e nós nos encaixamos de conchinha. Ele nos cobriu com o cobertor e ficou brincando com o meu cabelo, enquanto eu olhava fixamente para a frente, tentando entender o que estava acontecendo comigo.
E foi aí que eu percebi.
O que eu estava sentindo era felicidade.
Uma felicidade verdadeira, que eu só sentia quando estava com ele. Como quando nos encontramos aquele dia no galpão de cobertores e ele se dirigiu a mim com gentileza pela primeira vez. E eu descobri que longe dele, eu nunca poderia me sentir completamente feliz. Era como se alguma força superior tirasse toda a minha essência. Por fora eu poderia parecer feliz, mas por dentro, eu sabia que nunca mais seria a mesma se Lanza me deixasse algum dia.
- Eu te amo. – ele murmurou, com os olhos fechados, quase dormindo.
- Eu sempre te amei. – respondi, beijando sua testa.

Lanza fala:

- Putaqueopariu! – gritei, pulando para fora da cama. Já havia percebido que Victória não estava mais lá, só que o que eu mais queria era continuar dormindo. E quando abri os olhos, vi que eram 17:23, minha mala não estava arrumada e eu parecia um Zumbi. – PORRA! Merda, porra, caralho! – saí pegando as coisas pelo chão e jogando na mala. Só parei quando vi que o chão já estava limpo e nenhuma cueca minha estava espalhada pelo chão. Olhei no relógio novamente, e eram 17:34. Entrei correndo no banheiro e tomei o banho mais rápido na história dos banhos. Quando saí, ainda eram 17:37, e eu coloquei qualquer roupa que não estava amassada. Pulei em cima da mala para fechá-la, peguei sua alça e saí correndo do quarto. Desci pelo elevador – que parecia ter emperrado de tanta lerdeza – e ao chegar no saguão, corri até Koba e Pe Lu, ofegante, enquanto eles fechavam a conta. – Ahhh, consegui!
- Parabéns, agora paga a conta do frigobar e vamos logo. – Pe Lu disse, nem parecendo que tivera a melhor tarde da vida no dia anterior. – Fedelso só me ligou 15 vezes só nesse minuto e... Olha aí, ele está ligando de novo. Oi, papai! Nós já estamos de saída!
Fui rindo até o balcão, paguei minha conta do frigobar e a de Victória também. Assim que saí de lá, avistei-a saindo do elevador, com uma cara de sono melhor que a minha. Cheguei o mais perto possível dela e murmurei:
- Já paguei sua conta. Vamos antes que o Fedelso arranque meu órgão reprodutor fora.
- Obrigada. – ela murmurou, rouca de sono. Seus olhos estavam quase fechando e eu queria pegá-la no colo. Mas não o fiz. Sabe como é, não ia ficar muito legal ver duas pessoas que supostamente se odeiam se abraçarem no meio do saguão. Então eu só a cutuquei para acordá-la e andei ao seu lado para fora do Hotel.
Joguei minha mala na parte de trás de uma Van preta e entrei nela.
O caminho para o aeroporto foi tranquilo. Ao meu lado, Maria Eduarda dormia em Pe Lu, no banco da frente Isadora e Koba ouviam música, dividindo o iPod e no outro banco Thomas dormia no colo de Júlia. Victória ia na frente, com o motorista. Sua testa estava encostada na janela, e ela dormia.
- Finalmente! – Fedelso gritou para mim, assim que colocamos o pé no aeroporto. Eram 17:50 e ele estava vermelho e suando, apesar do frio. – Mais alguns minutos e vocês perdiam o voo! Já fiz o Check In, deixem as malas comigo e corram para a sala de embarque!
Jogamos todas as malas nos pés de Fedelso, com sono demais para deixá-las em pé, e nos arrastamos para a sala de embarque. Pela cara de sono de todos, a noite tinha sido boa.
- Finalmente nós vamos para casa! – Júlia exclamou, se espreguiçando ao sentar em sua poltrona. Dessa vez, Fedelso colocara todos nós próximos. Fiz uma nota mental de agradecê-lo por me colocar ao lado de Victória. – Argentina foi uma péssima ideia...
- Não foi uma péssima ideia. A péssima ideia foi viajarmos brigados... – Koba disse, sendo sensato pela primeira vez.
- Não, a péssima ideia foi esquiarmos brigados. Eu ainda não estou sentindo minha bunda! – Maria Eduarda exclamou.
- Ah, mas eu sei bem porquê sua bunda tá doendo! – Victória sorriu, maliciosa.
- Vai se ferrar, Vic. – Maria Eduarda mostrou a língua para ela, vermelha. Pe Lu, ao seu lado, riu baixinho e voltou a olhar pela janela.
O piloto começou a dar todos os avisos e antes que eu pudesse me segurar, estava dormindo, apoiado no encosto da poltrona, e só fui acordar com a mesma voz serena do piloto, avisando que já estávamos chegando.
Abri um olho, depois o outro, e senti alguma coisa pesada em meu ombro. Olhei para o lado com cuidado e vi que era Victória, dormindo. Olhei em volta e vi que todos também dormiam. Suspirei aliviado e afaguei seus cabelos. Ela abriu os olhos devagar e levantou o rosto, tocando seu nariz no meu.
- Bom dia, flor do dia! – ela murmurou, ainda rouca.
- Boa dia, linda! – eu sussurrei, beijando sua testa. – Pronta para voltar à realidade?
- Estou sempre pronta. – ela sorriu de um jeito garotinha-feliz-tentando-ser-sexy e desencostou a cabeça do meu ombro. Senti o local formigar e entortei o nariz.
- Você precisa emagrecer sua cabeça grande! – brinquei, dando um peteleco no seu nariz.
- Ah não, Lanza Reis, você tá tirando uma com a minha cara, certo? – ela perguntou, séria, olhando fixamente para algo além da minha orelha. Olhei rapidamente para trás e vi que Isadora estava acordada e olhava para nós, sonolenta. – Não posso nem acordar que você vem encher meu saco?
- Meu Deus, o que eu fiz para merecer isso? – perguntei, olhando para cima. – Diga que não é verdade e, se for, esclareça por favor!
- Retardado. – ela murmurou.
As rodas do avião bateram no chão e todos acordaram ao mesmo tempo, assustados.
- NÓS VAMOS MORRER! – Koba gritou, agarrando a blusa de Isadora. Todos que estavam por perto começaram a rir e Isadora virou os olhos no melhor estilo olha-com-quem-eu-fui-namorar.
- Calma, Koba, é só o avião pousando! – ela suspirou, e ele se acalmou.
Assim que as portas se abriram, nos levantamos, porque o estado das nossas bundas não era dos melhores. Saímos do avião e caminhamos lentamente pela passarela. Ao chegar na sala de desembarque, encontramos Fedelso nos esperando, mais calmo.
- Vamos logo, antes que as fãs comecem a chegar. – ele pediu, e eu estranhei.
Fãs esperando no aeroporto?
Isso era coisa pra banda famosa no mundo inteiro! Não uma banda no começo da carreira, com fãs pré-adolescentes somente no país de origem.
Caminhamos atrás de Fedelso, tropeçando em nosso próprios pés. O ar parecia mais leve, assim como nossos corpos. Andei sem preocupação nenhuma, só aproveitando a minha volta ao lar doce lar. E preciso dizer que meu queixo caiu ao ver a quantidade de fãs que esperavam no saguão do aeroporto.
Sério, meus ouvidos quase estouraram ao colocar meu lindo rosto na porta automática.
Os gritos eram tão altos que nem sei como Fedelso aguentou passar por elas sem as mãos nos ouvidos.
Corremos por um túnel de seguranças até chegar lá fora. As portas se fecharam e os gritos cessaram, pois ela era a prova de som. Na calçada, a famosa Van nos esperava.
- Máqueporra é essa? – Pe Lu perguntou, emendando as palavras, mais surpreso que eu. – Da onde veio tanta gente?
- Vocês estão mais conhecidos que nunca! Bob colocou Room On The Third Floor na trilha sonora de umas das séries mais vistas. – Fedelso deu de ombros. – Deu no que deu. Por isso que o CD tem que ser adiantado.
Olhei embasbacado para as meninas que se prensavam na porta, buscando uma fresta para gritar ou tirar foto.
Máqueporra era aquela?
- Adivinha quem é!? – ouvi alguém perguntar no meu ouvido, colocando a mão em meus olhos. A voz não se parecia com a de Victória, e antes de ter os olhos tapados, pude ver uma expressão de perplexidade em seus olhos.
- Hm... Não faço a mínima ideia. – disse, sendo sincero.
- Ai, que insensível, Lanza! – a voz piou, tirando as mãos dos meus olhos. E eu nem me virei direito e já senti uma boca se grudar à minha. E não eram os lábios de Victória.
Depois do choque, abri os olhos, ainda paralisado, e vi que Bella me beijava com vontade, como se tudo estivesse normal.
Esperei ela terminar, ainda sem reação, e ela abriu os olhos.
- Lanza!? Vai ser frio assim com sua namorada que veio aqui só para te ver? – ela choramingou, franzindo a testa.
“Fodeu”, pensei. Então me virei para trás e meus olhos se encontraram com os de Victória, que me olhava com a boca aberta. As meninas conversavam animadamente com as fãs pela porta – parece que o ciúmes havia realmente acabado – e os meninos se protegiam atrás de Fedelso, que ria com a situação.
Eu arregalei os olhos e murmurei:
- Não é nada disso que você está pensando!
Mas Victória já sabia da verdade.
Do mesmo modo que eu já sabia o que aconteceria depois daquilo.
Ela se virou e caminhou tranquilamente para fora do aeroporto, sem olhar para trás, com o celular no ouvido. E eu só pude ouvir: “Preciso de um táxi para...”, então não ouvi mais nada, porque as fãs conseguiram abrir a porta automática e corriam e gritavam em nossa direção.
Bella agarrou minha mão com força e foi o mais ríspida possível com as fãs que viam falar comigo. E eu só sorria, em piloto automático.
Mas a única coisa que eu conseguia realmente ver eram os passos de Victória, que a levavam para cada vez mais longe do aeroporto.

Capítulo 22 – Eu voltei, agora pra ficar!

Victória fala:

- Victória, cadê você? – Pe Lu perguntou, parecendo preocupado.
- Você não vem pra casa? – Koba gritou ao fundo.
- Dá essa merda aqui! – ouvi Thomas dizer, e um barulho alto ecoou pela linha. Então ele disse: – Você desapareceu do nada e não atendeu as nossas ligações! Onde você está?
Apertei os olhos para outra lágrima cair. Essa escorreu direito por minha bochecha, caindo na minha camiseta. Sorri ao perceber o quão patética eu deveria estar, sentada com pernas de índio em um banco de concreto, com um capuz na cabeça, o cabelo todo bagunçado, observando o céu escurecer. Era irônico saber que Tom não devia estar, nem de longe, mal como eu estava.
As poucas pessoas que ainda estavam na praça me olhavam com dó e curiosidade, mas eu não me importava.
Não eram elas que estavam com o coração partido, eram?
Não eram elas que acabavam de chegar de uma viagem e descobriam que eram as cornas mais mansas do mundo, eram?
NÃO ERAM ELAS QUE PAGAVAM MINHAS CONTA, ERAM?
Desculpe, me exaltei.
- Hm, Thomas? – perguntei, em dúvida com quem estaria o telefone. Funguei baixinho, para ele não perceber minha voz chorosa.
- Sim, é o Thomas. – ele respondeu, mais sério do que o normal.
Meu Deus, eu não podia nem dar uma desaparecidinha de... Três horas?
Eles mais pareciam meus pais do que meus amigos!
- Eu vou voltar para casa, só estou matando a saudades do meu país! – disse, porque foi a única coisa que eu consegui pensar.
E que merda de desculpa era aquela? Será que eu não tinha capacidade nem pra mentir melhor? Será que era por isso que Lanza estava me traíndo? Porque eu era burra e não sabia mentir?
- Promete que não demora? – ele perguntou, e eu senti outra lágrima escorrer. – Nós ficamos preocupados! Ah, e pedimos a sua pizza favorita... Deixamos 5 pedaços na geladeira.
- Peito de peru com catupiry? – eu perguntei, sentindo uma ponta de alegria se espalhar por meu peito.
Meu coração podia estar – mais uma vez – despedaçado, mas quando se tratava de comida, nenhuma tristeza era maior que a minha fome.
- Sim. – ele confirmou, rindo por perceber a alegria na minha voz. – Vic, sério, o que houve? Por que você fugiu do nada? – ele perguntou, imaginando que depois de ouvir a palavra “pizza” eu estaria melhor para contar o que realmente havia acontecido. Quero dizer, Thomas não era tão burro assim para acreditar na desculpa de-volta-pra-minha-terra. Eu funguei, segurando as lágrimas. – Você está... Chorando?
- Não. – respondi, fungando de novo. – Thomas, preciso desligar. Já estou chegando aí. Beijo! – disse tudo rápido, para que ele não pudesse dizer nada e eu caísse no choro ao telefone.
Isso seria, no mínimo, constrangedor.
Coloquei meu iPhone no bolso e voltei a observar o céu. As lágrimas não parariam de cair tão cedo, mesmo que eu me esforçasse para isso. Era engraçado ver que, em alguns meses com Lanza, eu havia chorado mais do que em minha vida inteira.
Bom, claro que havia todo aquele negócio papai-e-irmão, mas eu não estava mais contando isso. Sabe como é, quando se quer passar uma imagem de durona, várias coisas são “esquecidas”. É aquele papo, a pessoa pode falar para parecer durona: “Eu nunca chorei assistindo Titanic!”, mas com certeza chorou assistindo Bambi.
Sacou?
Levantei-me, para ver se na vertical eu parava de chorar. Eu já estava começando a soluçar, e não pegava nada bem ser vista soluçando na única praça da cidade. Mesmo porque as fofocas voavam por aquele lugar. “Vocês viram só!? A Victória estava chorando! Deve ter acontecido algo muito ruim pra isso acontecer...”
Sim, o amor da minha vida era um cachorro, imbecil e idiota.
Querem mais ou já tá bom?
Ah, sim, claro, meu pai e meu irmão haviam voltado depois de muitos anos desaparecidos.
E sim, antes que eu me esqueça, alguma pessoa idiota havia roubado o blog do meu ex-ficante/namorado/peguete/qualquercoisadotipo e agora estava chantagiando ele e seus amigos, o que me incluía, colocando fotos constrangedoras e textos que eu espumo de raiva por saber que são verdade.
Andei chutando as pedrinhas do chão. Porque é isso que pessoas que acabaram de descobrir que são choronas fazem. Chutam pedrinhas enquanto andam. E, de pedrinha em pedrinha, parei em frente à casa de Marcus.
Por que não?

Lanza fala:

- Dude, o que você tem? – Koba perguntou, pela décima vez. – Você nem tocou na pizza! Sério, alguma coisa TEM que ter acontecido!
- Não sei, acho que eu tô com diarreia. – murmurei, cortando de vez o assunto.
Nojeiras na mesa não eram muito legais, até mesmo para homens.
- Vocês viram se o Conte Seu Babado atualizou? – Pe Lu perguntou, mudando de assunto. – We’re back, baby! Tem que ter algo novo.
- Vou ver. – mumurei, sem ânimo para conversar ou ficar na mesa.
Aliás, ânimo era o que estava faltando pra mim.
Andei vagarosamente até o laptop na sala. Esperei ele ligar, enquanto terminava de beber minha Coca. Quando finalmente a foto do Blink piscou na tela, abri a Internet e digitei o endereço do blog. E eu estou contando tudo isso como se fosse a coisa mais divertida do mundo, mas é que eu realmente não estava com ânimo nem para pensar em como eu resolveria toda aquela merda que tinha feito.
O site piscou e eu falei, o mais alto que consegui:
- Atualizou essa putaria aqui. Venham ver. E leiam em voz alta.
É, dude, eu não tinha nem ânimo pra ler um post minúsculo de blog.
- Ok, vamos lá. – Thomas disse, ao se apoiar na cadeira onde eu estava sentando. Eu fiquei observando a foto, onde Bella tapava meus olhos, sem ânimo para ficar bravo, enquanto ele lia: – “Oi, meus queridos...”

“Oi, meus queridos! Como vão?
Hmmm, certo, quando eu disse que era pra voltar com o MELHOR babado de todos, eu não estava realmente falando sério, mas já que vocês insistem... Vamos lá!
Imaginem a cena. Eles voltam. As fãs estão histéricas. As meninas – Maria Eduarda, Isadora e Júlia – estão CONVERSANDO com as fãs de boa – sim, as coisas mudaram naquela viagem – e quando eu penso que MERDA nenhuma vai acontecer, eis que surge uma Bella, linda, sexy e provocante – sim linda, eu voto em você pra namorada oficial de Lanza, beijomeliga! – e tapa os olhos do nosso protagonista da vez. Ok, isso poderia ser bem idiota, se ele não se virasse com a maior cara de cu, alegando não saber quem era, e ela lascasse um beijão no melhor estilo filme água com açúcar quando a mocinha fica com o mocinho no final, com direito a abraço apertado a babinha escorrendo. Ainda nada demais? E o que me diz de, depois disso, Victória, que ficou olhando para toda a cena com cara de bunda, sair praticamente CORRENDO do lugar, com o rabinho entre as pernas?
Ah, meus amores, ISSO que eu chamo de um babado!
Sabe essas coisas que você não tem muita certeza se está acontecendo, mas pega no ar? E eu peguei MUITA coisa no ar... Pena que não posso falar aqui tudo que eu sei, porque também sei de um trato feito entre dois dos nossos personagens, e não quero estragar o meu grande final!
Que grande final?
Aguardem e verão!
Afinal, os bailes de fim de ano estão chegando...
Bom, continuem de olho. Quem sabe eu não volto essa semana ainda?
Pista 4 – Estou com saudades! Quem sabe a gente não se esbarra por aí, tanto na escola quanto nas festas...? Fique esperto com todos à sua volta, algum deles pode ser eu.
Beejomeseguenotwitter!”

- Trato? Que trato? – Koba perguntou, assim que Thomas acabou de ler.
- Olha, ele ou ela acabou de postar! – Pe Lu exclamou, apontando para o horário do post.
- A cada dia essas dicas me confundem mais... – disse, adivinhem só como?
Um troféu joinha pra quem disse “sem ânimo!”
- Espera aí, um de cada vez! – Thomas pediu, parecendo uma professora da pré escola quando os alunos resolvem perguntar de onde vêm os bebês.
- Que trato? Alguém aqui fez algum trato? – Koba perguntou novamente.
- Não. Que eu me lembre... – Pe Lu respondeu.
- Não. – Thomas murmurou.
Ok, eu já havia mentido tanto, uma mentira a mais outra a menos, quem se importaria...
Não é mesmo, papai do céu?
- Não. – disse, deixando meus ombros caírem.
Agora que Victória provavelmente não iria querer olhar na minha cara pro resto da vida, o trato vamos-esconder-nosso-amor ainda estaria valendo ou eu poderia sair por aí contando que eu tava pegando uma das garotas mais lindas da escola até minha namorada chegar e foder tudo?
Haha, brincadeira.
Olha só, eu ainda tinha ânimo pra fazer uma piadinha!
- Vê quem tá on no msn agora! – Koba deu a ideia. – A pessoa acabou de postar! Quem sabe não conseguimos algo?
- Ok, quem tem o msn com mais gente do colégio? – Thomas perguntou, desconctando o seu. – Porque eu não tenho quase ninguém.
- Dá aqui, eu tenho quase todo mundo! – Pe Lu disse, colocando o seu login e senha. Esperamos os bonequinhos trocarem de cor por algum tempo e, ao abrir, fomos direto para o grupo “Inferno”, que era o mesmo que “Colégio Norbert”.
Ah, o amor pelo serviço acadêmico!
Olhamos um por um da lista, mas não conseguimos quase nada, porque John, Josh e Marcus estavam on. Pe Lu só não tinha Ben, mas acho que não fazia diferença, ele provavelmente estaria on...
O telefone tocou e eu dei um pulo da cadeira.
Será que era Victória?
Meus batimentos cardíacos se aceleraram só em pensar naquilo. Porque, apesar das minhas tentativas – frustradas, diga-se de passagem – de esconder meu nervosismo, eu havia passado o dia inteiro preocupado com ela. E mesmo depois da ligação dos meninos eu continuei apreensivo.
Se alguma coisa acontecesse a ela por minha causa, não sei se conseguiria me perdoar.
É, eu sei que essa não era a melhor hora para me fazer de vítima. Eu admito que a culpa de tudo aquilo era toda minha, e que eu não tinha o direito de estar triste depois da merda que fizera.
Mas eu ainda era um ser humano. E um dos bem arrependidos.
Bom, só sei que quase infartei por nada, porque era Maria Eduarda querendo falar com Pe Lu.
Falar sei... No mínimo iam fazer um sexo “telefonal”.
Admito. Eu estava deprê e arrependido demais para continuar ouvindo os “Oi, nenê!” e “Tô morrendo de saudades!” de Pe Lu. E admito também que só não estava com saco para aquilo porque se eu não tivesse ferrado tudo, estaria fazendo o mesmo com Victória na privacidade do meu quarto.
Mas o mais estranho de tudo era que aquela tristeza que batera na primeira vez que ela terminou comigo ainda não havia batido. Então subi para o quarto pensando que aquilo era um sinal de que as coisas se arrumariam logo.
Se eu soubesse que ainda não estava tão triste porque a ficha ainda não caíra, não teria ido dormir tão confiante.

Victória fala:

- Oi, Marcus! – exclamei, entrando em seu quarto sem bater na porta, como sempre fiz. Mas acho que ele não estava preparado para aquilo, pois, logo que eu entrei, ele fechou com força e rapidez o laptop e se virou, vermelho e ofegante. – Nossa, o que você estava fazendo aí no laptop que eu não posso ver?
- E-eu...? – ele gaguejou. – Nada! Nada, eu só estava vendo algumas fotos, só isso...
- Sei... – virei os olhos, me jogando na sua cama, que era feita daqueles colchões de água que você fica vibrando feito uma gelatina.
- Mas e você? O quê está fazendo aqui? Lembrou que tem amigos? – ele perguntou, se jogando ao meu lado e passando o braço por detrás do meu pescoço, voltando a ser o bom, velha e gay Marcus. Aninhei-me em seus braços e não aguentei mais segurar, voltando a chorar. – Nossa, desculpe, Vic, não queria te fazer chorar!
- N-não é você! – exclamei, soluçando. Ótimo, eu estava começando a ficar patética. – E-eu... E-ele... N-nós..
- Decida-se, querida, eu, ele ou nós? – Marcus perguntou, arrancando uma risada rápida de mim.
- Ele é um canalha! – exclamei, fungando. – Um imbecil, um galinha, um cachorro, um... Um... Ah, eu ODEIO ele! – continuei chorando, parecendo uma criancinha.
- Querida, quem é tudo isso?
- Pedro Gabriel Lanza Reis! Quem mais poderia ser? – perguntei, não aguentando mais esconder aquilo. Afinal, Marcus era gay. Ele me entenderia.
- Ah, suspeitei desde o princípio... – ele suspirou, afagando meus cabelos. – Ou você acha que consegue esconder seus amores do seu amigo gay? Os gays tem um sexto sentido pra essas coisas, sabia? – ele perguntou, e eu afirmei com a cabeça, chorando mais ainda. Será que eu nunca iria parar de chorar? Será que Lanza estava mal como eu? – Ok, eu não quero saber o que aconteceu nem como aconteceu. Eu só quero que hoje você fique aqui e nós vamos fazer você esquecer esse idiota!
- Como!? – perguntei, esperançosa.
- Como se esquece alguém, querida? – ele perguntou, e eu neguei com a cabeça, não sabendo responder. – Vodka!

Lanza fala:

- Lanza, rápido, veste uma roupa porque nós temos um probleminha. – Koba exclamou, irrompendo em meu quarto. – Um dos grandes.
- O que aconteceu? – perguntei, assustado e sonolento. – Quem morreu? – murmurei, como se ainda sonhasse. Antes dele aparecer no meu quarto, eu estava no décimo quinto sono e não queria nem um pouco sair da minha cama. Estava mais cansado do que o normal.
- Ninguém morreu, seu imbecil. É só que... A Vic passou na casa de Marcus, ele a embebedou, agora ele está dando a maior festa GLS e ela está lá no meio. – Koba resumiu tudo, e eu arregalei os olhos, finalmente acordando. Tentei parecer calmo para Koba não perceber nada, mas era difícil esconder, pois ele demorou um pouco antes de continuar a falar, como se escolhesse as palavras. – Eu liguei para ela e ela atendeu completamente bêbada, dizendo coisas completamente sem sentindo.
Enquanto ele falava, eu pulava da cama e vestia a primeira calça jeans que encontrava no caminho. Coloquei uma camiseta velha que estava jogada no chão e enfiei uma touca verde musgo na cabeça. Tudo isso no meio tempo em que Koba respirava para continuar falando.
- Nós não íamos chamar você, mas se o pessoal resolver brigar temos mais um. – ele continuou.
- Tudo bem, faz tempo que eu quero quebrar a cara daquele imbecil do Marcus... – disse, pegando meu soco inglês na gaveta.
Melhor prevenir do que remediar, certo?
E se aquela veado – literalmente – tivesse encostado UM só dedo em Victória, ia ver o que era levar uma SURRA.
Marcus era um homem morto. [N/A: Jay Z, beejomeliga! ;*]
Desci as escadas de dois em dois degraus, para encontrar Pe Lu olhando fixamente para o chão e Harry andando de um lado para o outro, apreensivo. Victória havia se tornado nossa melhor amiga, irmã e muitas vezes mãe. Nenhum de nós quatro iria deixar algum veado brincar com ela.
Tudo bem que se eles soubessem que era por minha causa que ela resolvera sumir e beber, eu seria um homem morto também.
Mas eles não precisavam saber...
Fomos no carro de Koba, o New Beatle preto, e chegamos lá em menos de dois minutos. Já na frente da casa, alguns casais se pegavam e algumas garrafas vazias rolavam pelo gramado. Alguns narguiles estavam acesos e uma música muito alta – Madonna, o que era bem previsível se quer saber minha opinião – saía de dentro da casa. Koba parou o carro e nós descemos. Coloquei a mão no bolso, já encaixando o soco inglês nos dedos.
- A Victória tá aí? – Thomas pergunto para a primeira pessoa mais sóbria do lugar. Era uma garota baixinha e peituda, que reconhecemos como Katy Springs... A eterna peituda.
- Tá lá em cima. – ela respondeu, passando por nós como um furacão, como se estivesse com medo.
- Essas garotas, pensam que só porque tem peito nós vamos agarrá-las... – Pe Lu virou os olhos, entrando na casa. Nós fomos atrás e, lá dentro, entramos na sala de espera do inferno.
E eu não estou brincando.
Sendo sincero, já havia estado em muitas festas, mas aquela, de longe, era a pior de todas.
Claro, se eu não amasse Victória, todas aquelas garotas bêbadas e música alta seriam o prato perfeito para mim. Mas nada daquilo me agradava mais.
Eu só queria saber onde ela estava e se ela estava bem.
Subi as escadas de madeira correndo, encontrando mais casais se pegando lá em cima. Olhei para trás e vi que os dudes não estavam mais comigo, o que era melhor. Se encontrasse Victória, poderia resolver tudo aquilo de uma vez.
Entrei no primeiro quarto e fui recebido por toalhas na cara.
Hm, ok, ela não estava ali.
Entrei no banheiro e fui recebido por camisinhas na cara.
Ela também não estava ali.
Entrei no segundo quarto, o de casal, e finalmente encontrei o que estava procurando.
Victória estava sentada na cama, com os joelhos dobrados e a cabeça apoiada nos mesmos. Estava sozinha, no escuro. Andei em sua direção, devagar para não fazer barulho, e a cada passo eu podia ouvir mais nitidamente seus soluços. E aquilo estava me matando por dentro, de verdade, sem hipocrisia.
Eu odiava vê-la chorando, ainda por cima por minha causa.
Ao chegar na beirada da cama, sentei-me e ela levantou a cabeça lentamente, fazendo força para isso. Seus reflexos estavam lentos e seus olhos piscavam vagarosamente, mostrando que sim, ela estava muito bêbada, obrigado por perguntar.
- Oi, Vic. – murmurei, sendo repentinamente invadido por uma vergonha acima do normal. O que eu havia feito? Eu havia magoada, mais uma vez, a garota que eu amava.
- O que você está fazendo aqui? – ela perguntou, amargurada.
- Eu vim tirar você daqui. – expliquei, passando os dedos por sua perna. Ela retirou minha mão com um tapa mole e voltou a apoiar a cabeça nos joelhos. – Victória, por favor, eu sei que você está chateada, mas...
- Chateada? – ela riu de um jeito irônico, sem levantar a cabeça. – Sim, Lanza, eu estou chateada. Mas estou muito mais do que isso. Estou... – então ela levantou a cabeça e uma lágrima escorreu por seu rosto. Franzi a testa, sentindo um nó se formar em minha garganta. – Decepcionada. Eu... Eu pensei que você fosse diferente. Mas acho que me enganei.
- Victória, por favor, me escuta! Eu não sou assim, você me conhece e sabe que eu não sou assim! Eu só não terminei com ela porque eu... – tentei dizer, mas ela colocou a mão gelada em meu braço e eu não consegui continuar falando. O seu toque fez meu coração parar por completo e minha respiração falhar.
- Lanza, você faz um favor pra mim? – ela perguntou, de um jeito doce, e eu afimei com a cabeça. No meu estado, faria qualquer coisa que ela me pedisse. – Me esquece?
Ok, menos aquilo.
Dito isso, se levantou, meio cambaleante, e foi para o banheiro, onde se agachou na frente da privada e começou a vomitar. Eu me levantei e fui atrás dela. Ajoelhei-me atrás e segurei seus cabelos entre os dedos. Ela tentava me empurrar, mas eu era mais forte e não estava bêbado.
Quando ela acabou, se levantou e foi lavar o rosto e a boca. Pegou uma pasta de dente que estava em cima da pia e apertou na língua. Depois voltou para o quarto e para a mesma posição na cama, com a cabeça enfiada entre os joelhos. Mas agora ela não chorava mais.
- Por favor, não faz isso comigo. – supliquei. Eu podia estar patético naquela situação, mas usaria de todos os artifícios para convecê-la. Sentei-me na cama novamente. – Não agora. Não depois de tudo que passamos! Eu não aguento mais brigar com você! Por que tudo que acontecesse tem que virar briga? Será que nós não podemos tentar fazer isso dar certo?
- Vai embora, por favor. – ela pediu, levantando a cabeça com cuidado. – Por favor, eu só te peço essas duas coisas. Vai embora e me esquece. É pedir demais? Eu não quero mais te ouvir, eu não quero mais saber de você. Tudo que você fez entrando na minha vida foi bagunçar minha cabeça. Estava tudo bem antes de você chegar e eu não preciso de você!
- Pára com isso. Eu sei que não é isso que você quer. – murmurei, respirando fundo. – Você bebeu demais e precisa ir pra casa. Amanhã nós vamos conversar e vamos arrumar tudo isso!
- Eu não quero arrumar nada! – ela exclamou, levantando a voz. Seus olhos queimavam e ela tinha uma expressão assassina. – Eu só quero que você VÁ EMBORA! Vai embora AGORA!
Senti meu sangue borbulhar.
- Então vai ser assim? – perguntei, sem conseguir conter as palavras. Ela tinha conseguido me irritar com toda aquela cena infantil.
Se ela não queria me ouvir, eu não queria mais ser ouvido.
Na verdade, naquele momento, eu só queria... Sair de perto dela.
- É, vai ser assim... – ela respondeu, enrolando as palavras. – Você quis assim e vai ser assim.
- Ótimo. Simplesmente ÓTIMO! – gritei a última palavra, me levantando da cama e jogando o travesseiro que estava em cima do meu colo no chão. Agora o ódio havia tomado conta de mim, e eu só queria gritar. Não tinha mais o controle das minhas palavras. – E quer saber de uma coisa? Foda-se! Foda-se tudo! Agora quem não quer mais saber de você sou eu! Eu faço de tudo pra dar certo, mas você não liga! Você já me magoou várias vezes e eu não disse nada! Eu pisei na bola sim, fiz merda sim, só que eu acho que mereço uma segunda chance, porque EU te dei várias chances! Mas acho que pra você eu sou só um brinquedinho que você usa quando tá entediada. Quer saber mesmo o que eu acho? Eu acho que eu nunca deveria ter ficado com você. Eu sabia que garotas como você não tem sentimentos e estão acostumadas a brincar com os outros, mas eu pensei “não, vamos dar uma chance, parece que ela gosta mesmo de mim!”. Bom, vejo que me enganei. Você é exatamente igual a todas essas meninas. E sabe o que eu sinto por elas? Desprezo.
Caminhei, quase correndo, até a porta. Abri e saí do quarto.
Não sem antes ouvir:
- Vai pro inferno, Lanza Reis!

Victória fala:

Eu estava tonta demais. Não sentia mais minha boca e meu estômago se revirava, nervoso, por eu ter botado tudo que havia comido para fora. Mas, acima de tudo, eu queria quebrar qualquer coisa que visse pela frente.
Só que não tinha forças para isso. Então eu só voltei a chorar.
Eu podia estar bêbada, mas o que Lanza havia dito me magoara muito. Ele não podia simplesmente achar que eu iria perdoá-lo. Eu sabia muito bem que ele havia me perdoado por todas as mancadas, mas o que ele fez foi demais. Ficar com alguém enquanto está comigo? Nenhuma mulher merece passar por isso, e nenhuma deveria perdoar um cara por fazer isso. Só se ele se mostrasse realmente arrependido, e Lanza não estava mostrando nada. Pelo contrário, estava jogando nas MINHAS costas o SEU erro.
E o que mais me magoava era saber que ele estava errado e não queria aceitar as consequências de ser um canalha!
Para falar a verdade, acho que eu nunca havia sentido uma dor tão forte como eu estava sentindo naquele momento.
Então, vamos beber!
- Vic, finalmente te achamos e... – ouvi a voz de Koba exclamar, aliviada, ao entrar no quarto. Mas logo ela ficou apreensiva. “Mais um?” pensei, levantando a cabeça e não enxergando ninguém especificamente, só três vultos borrados. Dei mais um gole na garrafa de vodka que estava na minha mão. Eu devia estar muito bêbada, porque a bebida já descia por minha garganta como se fosse água. Passei as costas da mão no rosto, e lá se ia meu rímel. – Vic! O que você está fazendo? – ele perguntou, alterado, tirando a garrafa da minha mão. – Por que você está chorando!? Diz de uma vez por todas o que aconteceu? Foi seu irmão? Seu pai!? Foi esse imbecil desse Marcus? Me diz, que eu vou até lá e acabo com eles!
- Me deixa em paz, Koba! – balbuciei, tentando, em vão, recuperar minha garrafa. Mas ele se esquivou, jogando-a para o vulto ao seu lado, que eu reconheci, por ser o mais alto, como sendo Harry. – Aaaah, eu não posso nem beber mais!? Já não basta todos me dizendo o que fazer, como fazer e quando fazer? Vão todos pro inferno... – murmurei, afundando a cabeça nos joelhos, tonta demais para mantê-la em pé.
- Victória Hackmann, estou falando muito sério com você agora. – Pe Lu anunciou, sentando-se ao meu lado. Ele virou meu rosto pelo queixo e encarou meus olhos. Ali, com seus olhos nos meus, me fitando de um jeito paternal, eu sabia que não precisava do meu pai biológico. Já tinha três amigos que substituíam tudo o que ele nunca me dera. – Chega de criancice e me diz AGORA o que aconteceu. Eu não estou mais brincando.
Pisquei meus cílios, e mais uma lágrima escorreu.
- E-eu... – gaguejei. Eu não sabia de onde vinha tanta água. – Meninos, me desculpem! – exclamei, deixando meu corpo tombar para o lado, no peito de Pe Lu. Ele passou o braço por meu ombro e afagou meus cabelos, como se tivesse esquecido a pergunta que acabara de fazer e só quisesse me confortar.
E o bom e velho choro de bêbado se intensificou.
Como diz o velho ditado: a bebida entra, a verdade sai.
Os dois vultos que estavam de pé, sentaram-se na cama, e logo 3 pares de mãos afagavam meu cabelo, enquanto eu soluçava.
Porque aquilo tinha que estar acontecendo? Por que Lanza, depois de tudo, tinha que ferrar as coisas? Será que nada nunca daria certo pra mim?
- Tudo bem, Vic, não precisa chorar! Eu não sei o que aconteceu, e se você não quiser contar, não precisa. Mas tudo vai dar certo! Nós vamos voltar para casa e tudo vai melhorar! – Thomas murmurou, me fazendo chorar mais ainda.
Se ele soubesse que a minha tristeza estava exatamente na sua casa, não teria dito aquilo.

Lanza fala:

Não esperei pelos guys. Fui andando para casa, pensando em tudo que estava acontecendo. E cheguei a uma brilhante conclusão: a vida era bela. A gente que fodia ela.
Não vi Victória chegar, mas fiquei sabendo, pelos meninos, que ela vomitara e dormira, acordando no outro dia e não tocando mais no assunto, agindo como se nada tivesse acontecido.
E as 3 semanas restantes de féria se arrastaram exatamente daquele jeito. Eu bravo com ela – mais por defesa do que por razão de estar – e ela cagando e andando pra mim.
Não literalmente, claro.
Isso seria nojento.
Mas foi isso mesmo que aconteceu. Porque eu passei o resto das férias em casa ou no estúdio, compondo ou gravando. Se eu não estava em casa ou no estúdio, estava... Na casa de Bella.
Bella... Bom, essa era um caso à parte. Ela sumia e aparecia quando bem entendesse, e eu não me importava nem um pouco com isso. Só me ligava a ela quando Victória estava por perto. Porque eu estava puto por ela não ter me perdoado, e agora estava me vingando. Não estava dando muito certo, porque depois da festa do Marcus, ela simplesmente me ignorava, com ou sem Bella, como eu já mencionei.
Mas não custava nada tentar...
Domingo chegou para a nossa tristeza e alegria ao mesmo tempo. Alegria porque nosso CD iria para todas as lojas do país segunda de manhã. Tristeza porque nessa mesma segunda gloriosa, nós teríamos nosso primeiro dia de aula depois daquelas férias muito bem planejadas e mais do que catastróficas.
Pe Lu ameaçava se matar toda hora, e só não estava mais deprê por saber que sua conta corrente aumentaria consideravelmente no dia seguinte.
Ah, o amor pelo colégio!
- Não acredito que já acabou! – Thomas reclamou, tirando o braço de volta de Júlia e se espreguiçando. Eu jogava Snake 3D [N/A: A nova sensação do momento, oê!] no celular, evitando qualquer tipo de contato com Victória, que roía as unhas, distraída. – A única coisa que eu fiz nessas férias foi gravar e encher o saco da Jú!
- E fez isso direitinho, meu amor, parabéns! – ela brincou, fazendo cafuné em seus cabelos.
- Mas é verdade, essas foram as férias que eu mais acordei cedo na vida! – Koba também reclamou. Isadora, deitada em seu colo, riu baixinho, e ele fechou a cara.
- Credo, meninos! Vocês estão parecendo umas velhinhas resmungonas! Já não basta o Pe Lu ameaçando se matar? – Maria Eduarda perguntou, e Pe Lu começou a morder sua bochecha, em uma guerra mortal. Logo, nós começamos e reclamar ao mesmo tempo, rindo e jogando almofadas uns nos outros.
E assim se passava nossa última tarde de férias de invero. As coisas começaram ruins para todos e terminaram boas para alguns de nós.
Quem olhasse de fora veria 8 amigos.
Quem olhasse de dentro veria muito mais do que isso.

Victória fala:

- Bom dia, Salete! – desejei, ao pisar meu lindo All Star preto de verniz na escola. Minha saia do uniforme, como sempre, estava menor do que o permitido, então ela só me olhou com desprezo e continuou a observar o pátio, com medo de que a qualquer momento algum aluno tirasse uma metralhadora do bolso e matasse todo mundo.
E eu não duvidava muito disso...
- Bom dia, Vic! – Isadora exclamou, saindo de um grupo de meninas do primeiro ano e atravessando o pátio para me econtrar. Me deu dois beijinhos no rosto e sorriu, sempre linda. – Tudo azul na América do Sul?
- Opa, é nós queiroz voando no albatroz! – respondi, rindo.
- E os meninos, cadê? – ela perguntou, olhando por meu ombro, à procura de Koba. - Vim a pé hoje. Sabe como é, essa pancinha tem que sumir. – expliquei, apertando minha barriga. Mas esse não era o verdadeiro motivo. O negócio é que eu não estava a fim de ficar no mesmo recinto que o Lanza Reis. E o conversível de Harry era pequeno demais para nós dois. E fora lá a primeira vez nós nos aproximamos, quando batemos nossos narizes e ele me segurou para eu não cair.
Arrepiei-me por lembrar daquilo.
Victória, se concentra, ele é um canalha.
- Bom dia, minhas amebas de estimação! – Maria Eduarda gritou, entrando pelo portão, recebendo um olhar desconfiado de Salete e atraindo a atenção de toda a ala masculina do pátio para suas lindas pernas torneadas e bronzeadas.
Não que ela se importasse muito com isso...
- Prontas para mais um dia de escola?
Assim que ia responder, vimos um corpo sem alma se aproximar de nós.
E ele se chamava Júlia.
- Não é possível. Eu devo ter dançado créu na cruz. Me diz o porquê de acordamos cedo pra vir pra escola? Não podíamos simplesmente vir a hora em que nossos cérebros estivessem pelo menos ACORDADOS? – ela perguntou, quase fechando os olhos.
- Sempre amigável e positiva! – Maria Eduarda ironizou, fazendo um joinha para ela, que respondeu mostrando o dedo do meio.
- Você ficou sabendo que Bella e Victória brigaram? – ouvi duas calouras sussurrarem no canto. Elas nos olhavam com uma mistura de admiração e curiosidade.
- É, e as meninas deram razão para Bella, mas aí rolou uma choradeira e um pedido de desculpas e agora tá tudo bem! – uma terceira disse, se envolvendo na fofoca.
Nós quatro nos entreolhamos a caímos na risada.
Pelo jeito, nada havia mudado por ali.
E quando eu estava quase me convencendo disso, senti alguém cutucar meu ombro. Virei-me para trás, ainda sorrindo por estar novamente naquele lugar que tanto me fazia sorrir pelos amigos como chorar pelas provas, e fiquei séria, fitando os olhos que me encaravam, muda.
Acho que algo, finalmente, havia mudado no Colégio Norbert.
E essa algo era Ryan parado na minha frente, com um sorriso bobo no rosto e o uniforme da escola.

Capítulo 23 – Nasce uma suspeita.

Lanza fala:

Marcus. John. Josh. Esses eram meus suspeitos.
Marcus. John. Josh. James. Esses eram os suspeitos dos dudes.
- James!? Não! Claro que não! – eu dizia a eles, quando fui atingido por alguma coisa no rosto. E era por isso que eu estava deitado na maca da enfermaria, analisando o material da nova enfermeira.
Se ir à enfermaria havia se tornado um costume, por que não aproveitar?
- Primeiro dia de aula, eim, Lanza Reis? – ela disse vindo até a maca com um saquinho de gelo. Colocou-o em cima da minha testa, onde um galo latejava, e eu mordi meu lábio inferior, sentindo o corte queimar. – Haviam me avisado que você era um assíduo frequentador da enfermaria, mas não sabia que você gostava tanto assim!
- Com a nova enfermeira acho que vou passar a vir aqui todos os dias. – respondi, fazendo-a soltar uma gargalhada gostosa. Eu poderia estar parecendo um garotinho de 7 anos paquerando a professora de português 18 anos mais velha, mas tinha certeza que ela estava gostando dos elogios que eu destilava desde que pisara meus pés sujos de lama ali, com Thomas me segurando de um lado e Pe Lu do outro.
- Falando sério, qual é o segredo? Por que você gosta tanto daqui? É o cheiro de camomila? – ela perguntou, e foi minha vez de rir. Além de gata era engraçada. E tinha um anel dourado gigantesco na mão esquerda, mas eu poderia muito bem me fingir de cego para tais aspectos.
- Acho que eu sou um azarado mesmo... – ia dizendo, quando ouvimos batidas. Parei de falar e ela se levantou do banquinho, indo até a porta. Quando deixou a garota que estava parada do lado de fora entrar, deixei o saquinho de gelo cair no chão.
- Viu só como você não é azarado, Lanza Reis? – ela perguntou, agachando-se para pegar o saquinho e recolocando-o em minha testa. Ironicamente, ela sorria como se nada estivesse acontecendo. Posso entender, claro, ela não era obrigada a saber todos os casos de amor da escola. Acima de tudo, os casos de amor escondidos e enrolados. E também acho que ela era lerda demais para perceber que alguma coisa estava rolando entre eu e a menina que acabar de entrar. Mesmo eu suspeitando que meu rosto estava verde e inchado. – Vai passar um tempinho com essa linda garota!
Sorri sem mostrar os dentes e encarei o teto.
Se ela soubesse que um tempinho com aquela garota linda era o que eu menos precisava, não teria feito aquela piada infame.
“Mas que merda!” pensei “Não posso nem dar em cima de enfermeira gostosa em paz?”.
- Qual o seu nome e o que aconteceu? – a enfermeira perguntou, anotando em um bloquinho suas respostas.
- Victória Hackmann, dor de cabeça. – ela respondeu, sentando-se no banquinho de tecido azul, ao lado da cama onde eu estava deitado, ignorando minha presença completamente. Continuei encarando o teto, me sentindo mais idiota do que o normal.
- Ok, espere aqui que eu vou pegar uma aspirina na enfermaria do Ensino Fundamental. As minhas acabaram, parece que todos estão com dor de cabeça devido a atmosfera seca e pesada.
- Eu posso esperar lá fora sem problemas e... – ela disse, já se levantando, mas a enfermeira riu e não a deixou se levantar.
- O que é isso! Fique aqui conversando com o Lanza, ele é um ótimo garoto.
Victória virou os olhos e voltou a se sentar.
Então a enfermeira rebolou os quadris enfiados na calça jeans branca até a porta e sumiu pelo corredor, nos deixando a sós.
Seria gay demais dizer que eu estava com medo de morrer?

Victória fala:

Como se meu dia não pudesse piorar. Sério. Qual era a brincadeira? Por que TUDO acontecia comigo?
Não que eu fosse sair dali ou qualquer coisa do tipo. Eu estava mesmo com dor de cabeça depois de encontrar com Ryan no pátio.
- Oi, Victória. – ele disse, sorrindo com aquela faixa idiota na cabeça. Quem ele pensava que era? Axel Rose? – Ou devo dizer Vic?
- O quê você está fazendo aqui? – perguntei, parando de sorrir no mesmo instante. Percebi as meninas se aproximarem de nós dois, e me senti mais confiante.
- Eu estudo aqui agora. Não estava sabendo? – ele perguntou, sorrindo com desdém e apontando para o uniforme que estava usando. E devo dizer que entre todos os meninos do colégio, o uniforme caía maravilhosamente bem em dois deles: Lanza e Ryan.
- Ótimo, faça bom proveito da sua estadia. Quem sabe as pessoas param de fofocar um pouco sobre mim e começam a fofocar sobre você. Uma nova atração para o circo seria muito bem vinda. – respondi, cuspindo todas as palavras como se fossem vespas.
- Foi bom te ver também, maninha. – ele sorriu com ironia, se virando e caminhando até o prédio do Ensino Médio, sumindo entre as pessoas.
- Mas que imbecil! – murmurei sozinha, esquecendo que minhas amigas estavam perto de mim. Maria Eduarda me abraçou pelo ombro e as outras duas começaram a exclamar como Ryan era idiota. Sabe como é, todo aquele negócio de tentar me animar.
E esse fora nosso diálogo.
Construtivo, eim?
E eu pensei que aquilo seria a única coisa ruim no meu dia. Mas parece que Deus gostava mesmo de brincar comigo.
- Victória, que bom ver você! Madrugou e veio a pé para escola só para não me ver? – a voz irônica de Lanza me tirou dos pensamentos. Virei os olhos e não respondi nada, sem saco para suas brincadeirinhas idiotas, que se tornaram frequentes desde o negócio não-vou-te-perdoar-porque-você-não-terminou-com-sua-namorada. – O quê foi, o gato comeu a sua língua? – perguntou, sentando-se na maca e sorrindo para mim, com os cabelos bagunçados. Olhei para ele com o canto dos olhos e percebi um corte em sua testa. O sangue já estava coagulado, mas mesmo assim era nojento. E eu senti em mim a dor que ele deveria estar sentindo.
Se ele não fosse tão idiota, eu totalmente teria me levantando e o agarrado ali mesmo. Porque ele estava mais gato do que o normal, com o uniforme amassado e o cabelo caindo nos olhos. E eu queria cuidar dele e daquele corte grotesco. Não queria que uma enfermeira gostosona fizesse isso por mim.
Ai meu Deus, por que ele tinha que ser tão... Gostoso!?
- O quê você quer, Lanza Reis? A Bella não está aqui pra vocês darem uma rapidinha? Ah não, esqueci que ela tem 40 anos e não estuda mais! – sorri para ele, sem mostrar os dentes, e voltei a fechar o rosto. Nada melhor do que a ironia para tirar pensamentos indecentes de alguém.
- Nossa, Hackmann, isso tudo é TPM ou você está feliz demais ao me ver? – ele perguntou, e eu senti meu sangue ferver. Olhei para ele, o mais sério possível, mas seu maxilar estava tão destacado e seus bícepes tão grandes na camisa social branca do uniforme que eu não consegui encontrar alguma ofensa para dizer.
Acho que eu sabia porque todas as fãs queriam um pedaço dele. Assim como sabia porque Bella tinha a necessidade de esfregar na frente de todos que ele era dela. E, bem, na minha frente também, como havia feito no aeroporto.
Acho que eu as entendia completamente.
- Voltei! – a enfermeira gostosa-demais-para-ser-inteligente entrou pela porta, sorrindo de um jeito amigável para mim. Eu só a olhei com desprezo, e sabia que estava sendo injusta, mas não estava com saco para papear com a nova enfermeira da escola.
Ela se virou e começou a encher um copo de água.
- O quê foi, Hackmann, está com ciúmes da enfermeira? – Lanza sussurrou, sorrindo de um jeito debochado. – Não precisa se preocupar, eu não vou trair minha namorada.
Ok, aquela doeu.
- Por que você não se enrosca em alguma canto e morre? [N/A: E dá-lhe Lilly Moscovitz!] – perguntei com um sussurro, apertando o apoio do banquinho em que estava sentada.
- O quê vocês estão sussurrando aí que eu não posso saber? – e enfermeira, ainda virada para a pia, perguntou, tentando se enturmar. Isso me irritou um pouco. Por que todos os adultos têm a irritante mania de se intrometer na conversa dos adolescentes como se fossem velhos amigos, e quando nos intrometíamos em suas conversas e perguntávamos coisas como: “qual a melhor cerveja para tomar um porre?” eles ficavam bravos?
Sério, os mais jovens são muito injustiçados.
- Nada, eu só estava perguntando para a Hackmann se ela foi bem na prova de literatura. – Lanza respondeu, voltando a se deitar na maca e pressionando o saquinho de gelo contra o corte infeccionado, que estava começando a desinchar. Lembrei-me de quando Lanza brigara por minha causa com John no Barney’s, e isso meio que me deixou triste. Triste em saber que Lanza não era um garoto perfeito como demonstrou ser ao brigar por mim.
- Aqui está. – ela exclamou, me dando um copo de água borbulhante e meio branco. Entornei-o de uma vez, sentindo o gosto salgado percorrer minha garganta. Ao terminar, limpei a boca com as costas da mão e me levantei com um salto.
- Muito obrigada. – disse, tentando parecer um pouco mais simpática. Olhei com o canto dos olhos para Lanza mais uma vez, mas ele parecia estar se divertindo muito com o saquinho de gelo para prestar a atenção em mim.
- Espere um minuto, você me lembra alguém que passou por aqui hoje... – ela murmurou com ela mesma, me analisando de cima a baixo. – Você tem algum irmão mais velho que estuda aqui?
Opa. Pega no flagra.
Lanza se ajeitou na maca, desconfortável.
- Hm, sim, eu tenho. – murmurei, tentando ao máximo não ser ouvida por Lanza. Mas acho que não deu muito certo, porque no instante seguinte ele se levantou com um pulo da maca e exclamou:
- O quê!? Ryan está estudando aqui!?
- Hm... Sim. – respondi, em piloto automático. – Então, eu preciso ir, tenho prova na próxima aula. Tchau! – embolei todas as palavras e sai correndo dali.
Ia ficar muito estranho se eu dissesse que amei a indignação de Lanza? Lanza fala:

- Aqui diz que ele é da nossa sala. – Koba apontou para o nome do Ryan, na lista que estava ao lado da porta da nossa sala. – Mas na Educação Física ele não foi, História, que você ficou na enfermaria, ele não foi... Vamos torcer para que em Geografia ele resolva dar o ar da graça.
- Por falar em graça... – Pe Lu assoviou para algumas meninas do primeiro ano que passaram por nós quatro. Virei os olhos. Será que nem namorando ele sossegava?
Então percebi que era hipocrisia demais, porque eu estava com Bella, fiquei com Victória, estava com Victória e não terminei com Bella. Aí desisti de brigar com Pe Lu. Foda-se, todos os homens eram cafajestes mesmo...
Entrei na sala e fui para o meu lugar de sempre. Até a carteira onde escrevi as primeiras estrofes de 5 Colours In Her Hair era a mesma.
Nada como voltar para escola depois de um mês fora.
- E aí, Lanza, como foram as gravações? – algumas meninas da minha sala vieram perguntar, sentando-se ao meu lado. Comecei a contar tudo, com todos os detalhes, e pude ver que os olhos delas brilhavam. Eu sabia o que elas deviam estar pensando. “O loser do Pedro Gabriel Lanza Reis vai ficar famoso. E ele vai ser todo meu!”.
Há. Pra cima de mim não.
- Então, Lanza, eu vou dar um festa na minha chácara esse fim de semana... Queria saber se você e os meninos gostariam de ir e tocar lá! – Ágatha, uma das meninas mais lindas de todo o colégio, perguntou, com aquele ar de superioridade de sempre.
- Claro. – respondi, indiferente. Ela sorriu e foi se sentar do outro lado da sala, levando suas amigas junto. Quando finalmente estava livre das garras poderosas e vermelhas das garotas, os dudes vieram se sentar ao meu lado.
- Qual é, elas também fizeram um interrogatório? – Thomas perguntou, tirando o estojo de dentro da mala. – Porque, sabe como é, elas não pararam de me interrogar por um minuto desde que eu cheguei. Aliás, acho que algumas não sabem que eu tenho namorada, porque vamos combinar, a insinuação foi brava!
- Muito pelo contrário, meu caro Thomas, elas sabem muito bem que você tem namorada. – Koba respondeu por mim, pichando a carteira com a chave do carro. – E é por isso mesmo que estão dando em cima. Eu digo dude, esse mundo feminino é traiçoeiro...
- E qual é a da festa da Ágatha? Nós viramos playboys agora? – Pe Lu perguntou, enfiando uma touca de qualquer jeito na cabeça para esconder o cabelo que estava em pé.
- Dude, festa é festa, quem se importa de quem é? – Thomas disse, sorrindo para as meninas que sorriam para ele do outro lado.
Continuamos a conversar, e eu até tinha esquecido Ryan. Até que ele entrou pela porta e marchou até a última carteira, jogando a mochila com força no chão. Seu uniforme parecia novo, mas estava mais amassado que o meu. E olha que eu o tinha desde que entrei no Ensino Médio. Seus olhos estavam vermelho e um maço de cigarro quase caia de seu bolso. Ele se curvou para frente, cruzou os braços e começou a dormir.
- Esse é o Ryan? – Thomas perguntou, levantando a sobrancelha.
- É. – respondi, sem tirar os olhos daquele cara que eu queria tanto dar umas porradas, nem mesmo sabendo o porquê de querer aquilo. Victória não havia me perdoado, então consequentemente eu não deveria querer bater em Ryan, porque consequentemente eu não deveria mais sentir raiva por ele ter magoado-a tanto.
Mas as coisas eram mesmo estranhas, então sim, eu ainda queria bater em Ryan.
- Silêncio, silêncio! Hoje é a última aula antes da prova e... – o professor bigodudo de geografia entrou na sala com uma pasta debaixo dos braços. Imediatamente nos viramos para frente, pois sabíamos que uma exclusão no primeiro dia de aula não era uma coisa muito inteligente de se fazer.
Assisti a aula inteira de lado, sem tirar os olhos do corpo imóvel que estava atrás de mim. A única prova de que ele estava vivo era sua respiração constante. Ele se parecia muito com Victória, tanto na aparência como nos olhos expressivos. Eu não sabia porque estava tão fixado àquele garoto, mas não consegui prestar atenção em só uma palavra que o professor dizia.
Enquanto o observava, pichava a carteira com um canivete. Nem percebi o que estava escrevendo, era algo inconsciente. Mas quando olhei para baixo, vi que tinha escrito ‘It’s all about you’ bem pequeno, e, ao lado, um coração com ‘Hackmann’ no meio.
Quando foi que eu ficara tão gay ao ponto de escrever aquilo sem nem ao menos perceber o que estava escrevendo?
Eu sabia quando. Quando colocara meus olhos em Victória depois do verão da sétima para a oitava série. Ela havia mudado tanto, nem parecia mais a mesma garotinha que usava óculos e gaguejava ao falar comigo. Estava mais alta, mais encorpada. Pena que não fui só eu que percebi aquilo. Todos os meninos perceberam também.
De repente, do dia para a noite, Victória não se importava mais comigo, e nem gaguejava e ficava vermelha ao me ver. Na verdade, ela nem tentava mais falar comigo, me ignorando completamente. Confesso que tentei falar com ela novamente, mas as palavras não saíam e o que eu queria dizer sempre parecia patético. As coisas haviam mudado, e agora ela era que me intimidava.
De repente, do dia para a noite, Victória era muito pro meu caminhãozinho.
- E com isso nós temos uma redução da mortalidade significativa e... – o professor ia dizendo, quando o sinal bateu. Pensei que Ryan não iria se levantar, chegando a pensar que ele estava mesmo morto. Cheguei a pensar que ele nem havia ouvido o sinal. Mas logo que ele bateu, Ryan levantou a cabeça e olhou sonolento para a lousa. Levantou-se sem vontade, colocou a mochila nas costas e saiu pela porta, do mesmo jeito que entrou: Invisível.
- Isso que eu chamo de presença de palco. – Koba brincou, como se lesse meus pensamentos.

Victória fala:

- É uma festa da Ágatha, esse final de semana. Vamos? – Maria Eduarda ia nos deixando informadas da primeira festa que rolaria depois das férias. Ágatha fora falar com ela porque não se dava muito bem nem com Isadora nem com Júlia. Achei legal da sua parte convidá-las mesmo não gostando delas, mesmo sabendo no seu interesse exclusivo em nossos namorados. Quer dizer, nos namorados das meninas.
Eu não tinha um namorado. Não tinha o namorado que eu queria ter, porque ele estava namorando uma vendedora gostosa de perfumes.
Por que isso soava tão deprimente?
- Claro, não tem nada melhor pra fazer mesmo... – Isadora respondeu, passando a mão pelos cabelos e sorrindo para alguns meninos do terceiro ano que passaram por nós quatro. Ele sorriram de volta e nós continuamos a andar em direção ao pátio. Meu estômago estava entrando em decomposição, e se eu não comece naquele exato MOMENTO, morreria de fome.
- E aí, Vic, você tá de sueives na rave? – Júlia perguntou, e eu sabia que ela perguntava em relação à Ryan.
- Sim. Se ele está tentando reatar as coisas comigo vai ver só com quantos paus se faz uma... Ah, sei lá, esse ditado aí. – disse, virando os olhos.
- Oi Vic! – Josh exclamou, me pegando pela cintura e me puxando para um abraço. Virei-me para ele e dei um beijo estalado em sua bochecha.
- Josh! E aí, beleza na represa? – perguntei, e ele riu.
- Opa, tudo de buena na laguena! – respondeu, e nós dois rimos.
- E aí Josh, aonde passou as férias? – Maria Eduarda perguntou, entrando na conversa.
- No Canadá com meus velhos... Programa em família, mas até que foi legal. – ele respondeu, mostrando seus dentes brilhantes ao sorrir. – E vocês?
- Argentina. – Isadora respondeu, virando os olhos. – Nem queria saber como foi.
- Pelo jeito não foi tão bom assim. – ele concluiu sozinho, por mais incrível que pareça. Josh não era a pessoa mais esperta do mundo, mas mesmo assim era um amor de pessoa.
É isso aí Josh, palmas pela sua inteligência.
- E aí amor. – ouvi Koba dizer, entrando na rodinha e dando um beijo na testa de Isadora. – E aí cara. – disse para Josh, que acenou com a cabeça. Aos poucos os outros foram chegando, e Lanza veio por último, com uma faixa na cabeça e um sorriso debochado.
- Já apanhou hoje, Lanza? – Josh perguntou, para provocar. Não pude deixar de olhar feio para ele, que sorriu com desdém.
- Opa! – Lanza exclamou, pegando o celular do bolso e olhando para o visor. – Ah, é meu empresário... Que pena que toda vez que 5 Colours toca nas rádios eu fico mais rico!
Ele saiu de perto de nós e foi atender o celular. Josh fechou a cara e ficou vermelho, aparentemente sem saber o que responder.
- Perdeu playboy. – Thomas sussurrou no meu ouvido, e eu comecei a rir sem parar, fazendo todos em minha volta rirem da minha própria risada.
Nós ficamos ali conversando, até que Josh, cansado de ser ignorado e ficar de fora das piadas internas, resolveu ir embora. Quase ao mesmo tempo que ele foi, Lanza voltou, com aquele sorrisinho torto estampado no rosto.
Filho de uma quenga!
- Adivinhem só o que o Fedelso queria!?
Nos entreolhamos, sem nenhuma opinião formada.
- Primeiro ele disse que o CD começou a vender maravilhosamente bem! Segundo... – ele parou para fazer um suspense, nos deixando mais apreensivos ainda. – A turnê foi marcada pra daqui 1 mês!
Então eu não ouvi mais nada além dos gritos histéricos das minhas amigas.
Agora sim meu dia estava bom.
- Mas é tipo, por todo o país? Que foda, dude! Ai caralho, vai ser animal! – Pe Lu gritava pelo corredor, pois nós voltamos a andar por ele, enquanto o resto de nós ria. – Será que eu posso levar a Duda? – ele perguntou, puxando-o para mais perto. Maria Eduarda riu e ficou vermelha.
- Acho que sim. – Lanza deu de ombros, com aquele ar de superior que só ele sabia fazer. – Sei lá, temos que ver isso...
Olhei para baixo, seguindo os passos dos meus amigos. Agora já saíamos pela porta que dava para o pátio principal, e eu estava por último, os olhos fixos no chão. Tirei uma barrinha de cereal da minha bolsa, antes que morresse de fome, e comecei a comê-la distraidamente.
Já não bastava Ryan estudando no mesmo colégio que eu, agora teria que aguentar os preparativos de uma turnê que eu não iria participar. E que, ainda por cima, faria Lanza ficar longe de mim por, no mínimo, seis meses. Podia parecer insensibilidade da minha parte, principalmente porque todos estavam tão animados, mas eu queria sair correndo dali e só voltar quando tudo tivesse acabado.
- Vic, o que você tem hoje? – Isadora perguntou, no meu ouvido. – Você está tão quietinha! Quero dizer... É por causa do seu irmão, né?
Nos sentamos em um banco no meio do pátio. O mesmo banco que costumávamos nos sentar quando ainda não falávamos com os McLosers. Eles se sentavam do outro lado, na grama mesmo, enquanto brincavam de lutinha ou qualquer coisa inútil do tipo. Fiquei com saudades daquele tempo... Naquela época eu já havia esquecido o que sempre senti por Lanza na pré-adolescência – ou pelo menos fingia ter esquecido – e as coisas não estavam tão complicadas, com todo aquele negócio de blog, irmão e pai.
Fazia sol e estava fresco. E eu me senti melhor assim que joguei meu cabelo para trás e senti a brisa levantar minha camiseta do uniforme.
- Não é nada não, Isa... – respondi, observando os garotos jogarem o estojo de Koba de um lado para o outro, enquanto ele tentava recuperar. Maria Eduarda e Júlia brincavam de lutinha, sentadas no chão, e Isadora passava lápis no olhos enquanto conversava comigo. Bem como nos velhos tempos. – Acho que eu estava com saudades da escola, só isso... Estranho né?
Isadora sorriu e colocou o lápis em cima da mesa.
- Vic, qual é? Eu te conheço desde os 6 anos de idade, você acha mesmo que se eu não soubesse que algo estava errado eu viria conversar com você longe das outras meninas? – ela perguntou e, involuntariamente, meu olhos caíram sobre Lanza, que ria gostoso enquanto Koba pulava para tentar arrancar o estojo de sua mão. Ele parecia feliz... Como se não ligasse nem um pouco em ter acabado comigo. Será que ele não percebia que eu queria que ele me convencesse a perdoá-lo? – Ah... – Isadora, que pareceu entender, murmurou. Fechei os olhos sem força para negar o que ela estava pensando.
Ficamos um pouco em silêncio, ouvindo o murmúrio cheio de vida do pátio.
- Vic? – ela me chamou, e eu abri os olhos. Virei meu rosto e ela sorriu como uma irmã. – Quer uma opinião sincera?
Balancei a cabeça em afirmativa.
- Deixa as coisas acontecerem. O que é seu vai ser seu. E, cá entre nós? – ela se aproximou e eu me aproximei, como se ela fosse contar um segredo. – Você é bem mais bonita que a Bella.

Lanza fala:

- Alguma pergunta? – a professora de biologia perguntou. Mais do que depressa levantei minha mão. – Sim, Lanza Reis?
- Posso ir ao banheiro? Acho que meu sistema digestório não está funcionando muito bem... – pedi, fazendo toda a classe rir, inclusive a professora.
- Pode ir, Lanza. – ela deu o braço a torcer. Antes de sair, lancei um olhar para Ryan, que olhava fixamente para a janela.
Caminhei tranquilamente pelo corredor. Ao passar pelo 2ºB, mandei um beijo para Maria Eduarda, que olhava distraidamente pela porta. Ao me ver, ela mandou outro e assoprou. Peguei o beijo no ar e guardei no bolso, fazendo-a rir. Victória, que olhava concentrada para a lousa, virou o rosto para porta para ver com quem a amiga estava fazendo gestos.
A princípio pensei em virar meu rosto. Não sei se ela gostaria de me ver encarando-a. Mas ele não virou o dela, então eu resolvi continuar olhando. De repente, estávamos nos olhando com uma intensidade incrível. Eu não queria desviar meus olhos, e sabia que, por mais que ela tentasse esconder, ela também não queria desviar os dela. Uma energia percorreu meu corpo de cima a baixo. Ela era linda demais para ser magoada do jeito que eu o fiz.
Mas o que eu poderia fazer agora? Ela não queria nem conversar comigo!
Ali, parado em frente a sua sala, tudo pareceu escurecer. A única coisa que me mantinha em pé era o seu rosto fixo ao meu. Seus olhos me hipnotizavam.
Eles tinham que estar querendo me dizer algo, não tinham?
E, assim como tudo começou, acabou. No instante seguinte, não havia mais olhares trocados e mensagens subliminares. Era só eu, em frente a uma sala, olhando fixamente para a janela da porta. Victória voltou a prestar atenção a professora e as luzes em volta de mim voltaram. Agora eu podia me manter em pé sem a sua ajuda. Mas não era o que eu queria de verdade. Eu queria depender dela, como sempre dependi.
Sorri sozinho mas, antes de continuar meu caminho, pude jurar que vi Victória sorrir.
Aquilo tinha que significar algo bom.
Continuei a caminhar, virando a esquina.
- Aquela foto ficou genial! – ouvi vozes ecoarem pelo corredor, vindas da outra esquina. Em um movimento involuntário, me escondi entre o vão dos armários. Sentindo meu coração quase sair pela garganta, me encostei na parede, reconhecendo a voz de John. – Foi a melhor foto que já tiramos!
- Com certeza, ficou muito foda! – ouvi Josh responder, com uma gargalhada debochada. – Acho que dessa vez as pessoas vão conhecer a verdade.
Os dois continuaram a andar e rir, virando o corredor.
Não pude mais ouvir nada.
Mas daquela pequena conversa, pega no ar, surgia uma suspeita.

Victória fala:

A dor de cabeça estava acabando comigo. Eu não conseguia mais raciocinar direito de tanto que minha testa pulsava. Na última aula do dia, meus olhos lacrimejavam de tanta dor.
Eu não sabia dizer ao certo se a dor era devido ao súbito aparecimento de Ryan na escola, o jeito que Lanza me olhou no corredor – que eu, infelizmente caindo em tentação, correspondi – ou a junção das duas coisas.
Mas eu sabia que precisava sair da escola.
Rápido.
Tudo que acontecera havia mexido demais comigo. Pensei que estava mais chateada por Ryan, mas descobri que o que realmente estava me incomodando era Lanza. Mas se ele estava mesmo pensando que eu o perdoaria só porque ele me olhou daquele jeito, estava muito enganado.
Estava, não estava?
Sim, Victória, estava!
Eu acho...
- Vic! – Pe Lu gritou, e eu parei, virando os olhos. Eu já havia despistado as meninas, dizendo que queria ficar um pouco sozinho por causa de todo o negócio do Ryan, mas não sei que desculpa daria a Pe Lu. Porque se desse a mesma desculpa ele iria me chamar de bicha e me rebocar até o carro dele. – Vic... – disse, ofegante, parando ao meu lado e se curvando. Apoiou as duas mãos nos joelhos e respirou fundo. – Não vai com a gente hoje?
Respirei fundo.
Às vezes era melhor falar a verdade.
Mesmo que fosse uma meia verdade.
- Eu vou a pé, Pe Lu. Estou com dor de cabeça e queria respirar um pouco. – disse, e ele bagunçou meu cabelo de um jeito paterno.
- Tudo bem, Vic. – respondeu, do jeito mais fofo possível. – Se precisar, você sabe meu número. – dito isso, ele se afastou e sumiu entre o mar de carros estacionados. Virei-me e recomecei a andar.
Senti a dor de cabeça diminuir a cada passo que dava para fora da escola. Senti até que poderia dar meia volta e pegar uma carona com os meninos. Sabe como é, andar mais de 10 quarteirões até em casa depois da escola não era muito divertido, principalmente quando se tinha asma.
Mas quando me virei para correr atrás de Pe Lu – já estava quase pensando que ele estaria atrás de mim, me esperando com aquela cara de eu-sabia-que-você-não-ia-andar-10-quarterões-até-em-casa-porque-você-é-a-menina-mais-sedentária-que-eu-conheço –, trombei com alguém e cai com tudo no chão, batendo a cabeça na guia.
- Ai, caralho! – exclamei, me sentando depois de não sentir nenhum ossos se quebrar e colocando a mão atrás da cabeça, sentindo um pequeno corte. Trouxe minha mão para frente dos olhos e vi algumas gotas de sangue escorrerem. – Porra, você não olha por onde anda não, seu imbecil?
- Olha essa boca, garota! – um homem falou, e olhei para frente, encontrando um par de sapatos marrons de couro. Porra, quem usava sapatos de couro numa escola?
Levantei-me sozinha, ainda olhando para baixo, com a mão na cabeça. Xinguei mentalmente aquele cara por ele ter me derrubado e nem ter a capacidade de me ajudar a levantar. Já estava imaginando o tipo de escroto que teria que encontrar quando levantasse os olhos.
A começar pelos sapatos sociais de couro marrom.
Porra! Marrom!? Não podia nem ser preto!?
- Quem você pensa que é pra falar assim comigo? – perguntei, subindo a cabeça lentamente, como medo de desmaiar ali mesmo. Sabe como é, quando se bate a cabeça todo cuidado é pouco. – Eu poderia muito bem te processar, seu babaca.
O homem estava usando um terno riscado cinza que parecia ser bem caro.
PORRA! Sapatos de couro marrom e terno riscado cinza?
Aquele cara tinha a MÍNIMA noção de como se vestir?
- Eu sou eu... – ele ia dizendo, enquanto eu o analisava. Mas ao chegar no seu rosto, não precisei mais de explicações.
- Pai? – perguntei, horrorizada, ao mesmo tempo que ele falou:
- Pai.

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